Mestre Eckhart – Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado



  1. Deus criou o mundo para que Deus nasça na alma, e a alma nasça em Deus
  2. A Palavra eterna é expressa interiormente no coração da alma
  3. Para que Deus nasça na alma, todo o tempo deve ter desaparecido
  4. Deus faz agora o mundo todo como no primeiro dia em que criou o mundo
  5. O intelecto é vasto sem vastidão
  6. Só Deus pode operar o nascimento do Filho na alma
  7. Cada anjo tem uma natureza que lhe é própria
  8. Tudo o que Deus é enquanto potência, verdade, sabedoria, Ele reprodu-lo absolutamente na alma
  9. Se a alma não se torna semelhante a Deus, é a ela própria que a responsabilidade incumbe
  10. Aquele que está sem criatura está sem sofrimento e sem inferno
  11. A menor obra de graça é mais elevada do que todos os anjos
  12. Uma presença interior, uma ligação, uma união com Deus, tal é a graça
  13. Não deve parecer impossível a ninguém que o Filho nasça nele



Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado

Mestre Eckhart – Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 2


  1. «Nesse tempo.» Quando a palavra é em primeiro lugar recebida no meu intelecto, ela é tão nítida e tão sublime que ela é uma verdadeira palavra, antes de ser representada no meu pensamento.
  2. Em terceiro lugar, ela é expressa exteriormente pela minha boca, e é portanto apenas uma manifestação da palavra interior.
  3. Assim, a Palavra eterna é expressa interiormente no coração da alma, no mais íntimo, no mais puro, na cabeça da alma, sobre a qual eu falei recentemente, no intelecto, é aí que interiormente se realiza o nascimento.
  4. Aquele que sobre isso não tivesse uma plena intuição, e uma esperança, gostaria bem de saber como se realiza esse nascimento, e o que o favorece. 1

Notas
  1. «Nesse tempo.» O pregador adivinha a curiosidade daquele que o escuta «e gostaria bem de saber como se realiza esse nascimento» do Filho. [  ]


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 2

Mestre Eckhart – Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 1


Sermão 38 - Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado
  1. São Lucas escreve estas palavras: «Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado por Deus.» (Lc 1, 26 e 28) 1
  2. Em que tempo? No sexto mês desde que João Batista estava dentro do seio da sua mãe.
  3. Àquele que me perguntasse: porque rezamos nós, porque jejuamos nós, porque realizamos nós todas as nossas obras, porque somos nós batizados, porque Deus se fez homem - o que foi o mais sublime! -, eu direi: para que Deus nasça na alma e que a alma nasça em Deus.
  4. Foi por isso que toda a escritura foi escrita, foi por isso que Deus criou o mundo, e toda a natureza angélica: afim de que Deus nasça na alma, e de que a alma nasça em Deus. 2
  5. A natureza de todos os grãos tem o milho por fim, a natureza te todos os metais tem o ouro por fim, e todos os nascimentos têm o ser humano por fim.
  6. Foi por isso que um mestre disse: não se encontra nenhum animal que não tenha alguma semelhança com o ser humano. 3

Notas
  1. No antigo missal dominicano, esta passagem do evangelho de São Lucas era lida na missa da quarta-feira depois do terceiro domingo do Advento e, evidentemente, no dia da Anunciação (25 Março). [  ]
  2. As diversas partes da Ave Maria serão sucessivamente comentadas.

    Mas, antes de mais, Mestre Eckhart expõe os próprios fundamentos da sua teologia mística.

    Ele procede por uma série de interrogações e de asserções sobre a vida espiritual do ser humano, e sobre a incarnação do Filho, celebrada nesse dia.

    Só há uma resposta a todas as questões: Porque Deus se incarnou? «afim de que Deus nasça na alma, e de que a alma nasça em Deus». [  ]
  3. A comparação com as coisas terrestres, o grão, o metal, o nascimento natural, mesmo uma certa semelhança entre o animal e o ser humano, quer mostrar que todos os seres visam a um enobrecimento da sua natureza: assim a alma humana tenderia para Deus.

    A semelhança deste texto e do texto latim similar (Comentário II sobre a Génese) com o texto de Alberto o Grande indica a fonte provável. [  ]


[ ◊ ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 1

Mestre Eckhart – Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 3


  1. São Paulo diz: «Na plenitude do tempo, Deus enviou o seu filho.»
  2. Santo Agostinho explica o que é «a plenitude do tempo».
  3. «Quando não há mais tempo, é a "plenitude do tempo".»
  4. Assim, o dia é realizado quando já não há mais nada do dia.
  5. É absolutamente verdadeiro: todo o tempo deve ter desaparecido quando começa esse nascimento, porque nada entrava tanto esse nascimento como o tempo e a criatura.
  6. É uma verdade certa que o tempo não pode ter contato com Deus, e com a alma, devido à natureza deles.
  7. Se a alma pudesse ser tocada pelo tempo, ela não seria a alma, e se Deus pudesse ser tocado pelo tempo, Ele não seria Deus.
  8. Mas se o tempo pudesse tocar na alma, Deus nunca poderia nascer nela, e ela nunca poderia nascer em Deus.
  9. Para que Deus nasça na alma, todo o tempo deve ter desaparecido, ela deve ter escapado ao tempo pela vontade ou pelo desejo. 1

Notas
  1. Eckhart cita então a epístola de São Paulo aos Gálatas (4, 4), sobre «a plenitude do tempo», para tentar fazer-se compreender.

    Nada entrava esse nascimento como o tempo.

    Nem Deus, nem a alma, podem estar submetidos à duração e à sucessão, quer dizer, à criatura.

    Para que o Filho de Deus nasça na alma, é preciso portanto que esta escape ao tempo «pela vontade ou pelo desejo.» [  ]


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 3

Mestre Eckhart – Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 4


  1. Eis um outro sentido da «plenitude do tempo»: aquele que tivesse o saber fazer e o poder de concentrar em um «agora» presente o tempo e tudo o que sempre se passou no tempo de seis mil anos e deve passar-se ainda até ao fim, seria «a plenitude do tempo».
  2. É o «agora» da eternidade onde a alma conhece todas as coisas em Deus, novas, e frescas, e presentes na mesma alegria que eu tenho agora presente.
  3. Eu li recentemente num livro - quem o poderia penetrar a fundo! - que Deus faz agora o mundo todo como no primeiro dia em que Ele criou o mundo.
  4. Nisso, Deus é rico e tal é o reino de Deus.
  5. Da alma, na qual Deus deve nascer, o tempo deve escapar, e ela deve escapar ao tempo, e ela deve levantar voo, e deve permanecer na contemplação dessa riqueza de Deus: lá está a amplitude sem amplitude, e a largura sem largura; a alma conhece lá todas as coisas, e ela conhece-as perfeitamente. 1

Notas
  1. «A plenitude do tempo» é o «agora» da eternidade onde Deus cria todas as coisas hoje, como ontem, e onde a alma vê todas as coisas em Deus.

    Numa pequena incisão, Eckhart fala, sem o nomear, de um livro tão profundo que ninguém o pode sondar; Josef Quint cita um texto das Confissões de Santo Agostinho que trata da criação fora do tempo.

    É possível que seja esse livro, porque nós conhecemos a atração que o pensamento de Santo Agostinho exerceu sobre Mestre Eckhart. [  ]


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 4

Mestre Eckhart – Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 5


  1. Os mestres descrevem a que ponto o céu é vasto - seria inacreditável dizer - a menor potência que está na minha alma é mais vasta que o vasto céu; eu não falo do intelecto: ele é vasto sem vastidão.
  2. Na cabeça da alma, no intelecto, nele eu estou tão próximo do local a mais de mil léguas para lá do mar do que do local onde eu me encontro agora.
  3. Nessa vastidão, e nessa riqueza de Deus, a alma é conhecedora, lá nada lhe escapa, e lá ela não tem mais nada a procurar.


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 5

Mestre Eckhart – Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 6


  1. «O anjo foi enviado.» Os mestres dizem que a multidão dos anjos é um número acima do número.
  2. A sua multidão é tão grande que nenhum número os pode conter; o seu número não pode mesmo ser concebido.
  3. Para aquele que pudesse alcançar a distinção sem número e sem multidão, «cem» seria tanto quanto «um».
  4. Mesmo se existissem cem pessoas na Divindade, aquele que pudesse alcançar a distinção sem número e sem multidão, reconheceria aí no entanto só um Deus.
  5. As gentes que não são crentes e certos cristão ignorantes espantam-se, e mesmos certos clérigos sabem sobre esse assunto tão pouco quanto uma pedra; eles consideram «três» como três vacas ou três pedras.
  6. Mas aquele que pode considerar a distinção sem número e sem multidão reconhece que três pessoas são «um» Deus. 1

Notas
  1. «O anjo foi enviado.» Num dos sermões que precedem imediatamente este, que parecem ter uma ligação com este e entre eles pelo lugar e o tempo onde foram pregados, Eckhart falou muito dos anjos.

    A sua atitude para com eles é primeiro de veneração admiradora porque eles estão muito próximo de Deus, e também porque eles são em tal sobreabundância que nenhum número os pode abraçar.

    Eckhart disse-nos precedentemente que os anjos intervêm na organização do mundo e preparam a alma para receber a luz divina, mas eles não participam diretamente no grande mistério que é o nascimento do Filho na alma.

    Eles rejubilam com isso, e eles prestam a sua colaboração nisso, mas unicamente a título de serviço.

    Só Deus, nenhuma criatura, o pode operar. [  ]


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 6

Mestre Eckhart – Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 7


  1. O anjo também é tão elevado que os melhores mestres dizem que cada anjo tem uma natureza que lhe é própria.
  2. Tal como se existisse um ser humano que possuísse tudo o que os seres humanos alguma vez possuíram, possuem agora e possuirão sempre em matéria de potência, de sabedoria e de todas as coisas - seria uma maravilha, no entanto não passaria de um ser humano.
  3. Porque, mesmo se ele possuísse aquilo que possuem todos os seres humanos, ele estaria no entanto longe dos anjos.
  4. Assim, portanto, cada anjo tem uma natureza que lhe é própria, e ele é diferente de outro tal como um animal é doutro que é de uma espécie diferente.
  5. Deus é rico desta multidão de anjos, e quem reconhece isso, reconhece o reino de Deus.
  6. Ela manifesta o reino de Deus, da mesma forma que um senhor é manifestado pela multidão dos seus cavaleiros.
  7. É por isso que ele é chamado «Senhor, Deus dos exércitos».
  8. Toda essa multidão de anjos, tão elevados quando sejam, devem cooperar e prestar o seu auxílio ao nascimento de Deus na alma: eles têm prazer e alegria e delícias nesse nascimento, mas eles não o operam.
  9. Não é essa a obra das criaturas, porque só Deus opera esse nascimento, mas a obra dos anjos é aqui um serviço.
  10. Tudo o que coopera nisso é um serviço.


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 7

Mestre Eckhart – Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 8


  1. O anjo chamava-se «Gabriel». Ele agia segundo o seu nome.
  2. Ele não se chamava mais Gabriel que Conrado. Ninguém pode conhecer o nome do anjo.
  3. Como se chama o anjo - nunca ainda nem mestre nem entendimento chegou a sabê-lo, talvez ele não tenha nome.
  4. A alma também não tem nome, não mais que o poder-se encontrar um nome apropriado para Deus, assim não se pode encontrar um nome apropriado para a alma, apesar de se terem escritos grossos livros sobre o assunto.
  5. Mas segundo as obras, para as quais ela volta o seu olhar, dá-se-lhe um nome.
  6. Carpinteiro, este não é o nome de um qualquer, ele tem o seu nome da obra na qual ele é mestre. 1
  7. «Gabriel» obteve o seu nome da obra da qual ele foi o mensageiro, porque «Gabriel» significa «potência».
  8. Nesse nascimento, Deus opera poderosamente ou produz a potência.
  9. Para onde tende toda a potência da natureza? ela quer reproduzir-se a si própria.
  10. Para onde tende toda a natureza que opera o nascimento? ela quer reproduzir-se a si própria.
  11. A natureza do meu pai queria, segundo a sua natureza, produzir um outro pai.
  12. Como não era possível, ela quis produzir aquilo que lhe seria semelhante em todas as coisas.
  13. A potência faltava, ela produzia o que ela podia de mais semelhante, foi um filho.
  14. Se a potência falta outra vez ainda, ou se outra importunidade surge, ela produz um ser humano anda mais dissemelhante.
  15. Mas em Deus (a natureza) está em plena potência, é por isso que ao gerar Ele produz um seu semelhante.
  16. Tudo o que Deus é enquanto potência, verdade, sabedoria, Ele reprodu-lo absolutamente na alma. 2

Notas
  1. Podemos adivinhar a surpresa dos auditores quando, depois de tão altas especulações, Eckhart os informa, e num tom igualmente familiar, que o anjo da anunciação não se chamava mais Gabriel que Conrado.

    Este nome é-lhe portanto atribuído por causa da sua função, da mesma forma que se eu digo que um homem é um carpinteiro, eu não o designei segundo a sua natureza.

    Nem para o anjo, nem para a alma, nem para Deus, se consegue encontrar um nome apropriado.

    Todas estas designações são puramente funcionais. [  ]
  2. Em todo o nascimento, a natureza procura reproduzir-se.

    O pai não pode no entanto dar ao seu filho mais que uma semelhança parcial consigo próprio, e se uma outra importunidade se produz, ele gera um ser humano ainda mais dissemelhante - entendamos uma filha.

    Pelo contrário, devido à sua potência, Deus pode gerar um ser que lhe seja completamente semelhante. [  ]


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 8

Mestre Eckhart – Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 9


  1. Santo Agostinho diz: «Àquilo que a alma ama, ela torna-se semelhante. Se ela ama coisas terrestres, ela torna-se terrestre. Se ela ama Deus, poderia-se perguntar: "torna-se ela então Deus?"»
  2. Se eu falasse assim, pareceria incrível àqueles que têm um espírito demasiado fraco e não o compreendem.
  3. Mas Santo Agostinho diz: «Eu não o digo, eu reenvio-vos para a Escritura que diz: Eu disse que vocês são deuses.»
  4. Aquele que possuísse um pouco da riqueza de que eu falei precedentemente, um resumo, ou apenas uma esperança, ou uma segurança, compreenderia-o bem!
  5. Nunca, pelo nascimento, nada esteve tão próximo de Deus, nem tão assimilado a Ele, como a alma se torna neste nascimento.
  6. Se ela for travada em alguma coisa, por forma que ela não se torna em tudo semelhante a Ele, não é a culpa de Deus; na medida em que as suas deficiências se soltam dela, nessa medida, Ele assimila-a a Ele-próprio.
  7. Se o carpinteiro não pode construir uma bela casa com madeira carunchosa, não é a sua culpa, é a culpa da madeira.
  8. É assim a operação divina na alma.
  9. Se o anjo mais baixo pudesse reproduzir a sua imagem ou nascer dentro da alma, este mundo todo inteiro não seria nada em comparação com isso, porque por uma única pequena centelha do anjo, tudo o que está no mundo, verdeja, floresce e brilha.
  10. Mas é Deus Ele próprio que opera este nascimento, o anjo não pode fazer aí mais do que obra de servidor. 1

Notas
  1. Assim como ele fez no sermão 5a, Eis como o amor de Deus por nós se manifestou, Eckhart põe-se ao abrigo de Santo Agostinho citando ele próprio o salmo 81, para falar dessa divinização do ser humano: Ego dixi, dii estis

    E eis de novo o exemplo do carpinteiro: se ele não pode construir uma bela casa com madeira carunchosa, a culpa é da madeira, não dele.

    Da mesma forma, se a alma não se torna portanto semelhante a Deus, é a ela própria que a responsabilidade incumbe.

    Em toda esta argumentação, o acento é colocado na assimilação a Deus, entendida como a educação do desejo. [  ]


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 9

Mestre Eckhart – Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 10


  1. Ave, quer dizer «âne wê», sem sofrimento.
  2. Aquele que está sem criatura está «âne wê» e sem inferno, e aquele que está e que tem o menos de criatura tem o menos de sofrimento.
  3. Eu disse algumas vezes: aquele que possui a mais mínima parte deste mundo é aquele que possui mais.
  4. Ninguém possui tanto o mundo em próprio como aquele que deixou completamente o mundo.
  5. Sabem vocês o que faz que Deus seja Deus? Deus é Deus porque é sem criatura.
  6. Ele não se nomeou no tempo. No tempo estão a criatura, e o pecado, e a morte.
  7. Num sentido, eles têm entre eles um parentesco, e quando a alma escapou ao tempo, não há mais nela nem pena nem sofrimento, e mesmo a contrariedade torna-se para ela uma alegria.
  8. Tudo aquilo que poderia alguma vez ser imaginado em termos de prazer e de alegria, de felicidade e de delícias de amor, não é uma alegria, comparada com a felicidade que produz este nascimento. 1

Notas
  1. «Ave». Eckhart faz aqui um jogo com as palavras. A Idade Média gostava muito destas etimologias e destas aproximações que não acreditava serem fantasistas e das quais retirava um sentido profundo. Com o seu «Ave», o anjo transformou o nome de Eva: «mutans Evae nomen», canta um hino, aniquilando a antiga maldição.

    Da mesma forma, no Speculum beatae Mariae, muito tempo atribuído a São Boaventura, o autor interpreta assim Ave: A privativo e o vae latim designando o sofrimento. Não estamos longe do âne wê de Mestre Eckhart, sobretudo se existe um parentesco etimológico entre vae e .

    É à renunciação da criatura que ele atribui o fim de todo o sofrimento: «No tempo estão a criatura, e o pecado, e a morte.» Assim, «Ave» acaba por significar: «Afasta-te das criaturas». [  ]


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 10

Mestre Eckhart – Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 11


  1. «Cheia de graça». A menor obra de graça é mais elevada do que todos os anjos na sua natureza.
  2. Santo Agostinho diz que uma obra de graça realizada por Deus, quando Ele converte um pecador e faz dele uma pessoa boa, é maior do que se Deus criasse um mundo novo.
  3. É tão fácil a Deus girar o céu e a terra, quanto é a mim girar uma maçã na minha mão.
  4. Quando a graça está dentro da alma, é tão pura, e tão semelhante a Deus, e tão do seu parentesco, e a graça está aí tão desprovida de obra quanto o nascimento de que eu precedentemente falei.
  5. A graça não opera obras. São João «nunca produziu sinal».
  6. A obra que o anjo realiza em Deus é tão elevada que nunca nenhum mestre, nem nenhum entendimento, poderia chegar a compreender essa obra.
  7. Mas dessa obra uma lasca cai - como cai uma lasca de uma viga que se talha - um relâmpago, lá onde, da parte inferior do seu ser, o anjo toca no céu; de lá verdeja, e floresce, e vive tudo o que está no mundo. 1

Notas
  1. «Cheia de graça». «A menor obra de graça é mais elevada do que todos os anjos na sua natureza.» De novo uma comparação familiar: Deus pode girar o mundo, como o pregador uma maçã na sua mão.

    A graça não opera obra. Deus age segundo dois modos: Ele cria todas as coisas e elas devem-lhe a sua existência, mas o espírito humano deve-lhe a sua graça. [  ]


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 11

Mestre Eckhart – Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 12


  1. Eu falo por vezes de duas fontes.
  2. Apesar disto soar estranho, nós estamos constrangidos a falar segundo o nosso entendimento.
  3. A primeira fonte, donde jorra a graça, encontra-se lá onde o Pai gera o seu Filho único; neste jorra a graça, e é da mesma fonte que jorra a graça.
  4. A segunda fonte, é quando as criaturas fluem de Deus; ela está tão longe da fonte de onde jorra a graça como o céu está da terra.
  5. A graça não opera.
  6. Quando o fogo está dentro da natureza, ele nem incomoda nem consome.
  7. O ardor do fogo brilha aqui em baixo; mesmo o ardor, quando está na natureza do fogo, não consome nem incomoda.
  8. Bem mais: quando o ardor está dentro do fogo, está tão longe da verdadeira natureza do fogo como o céu está da terra.
  9. A graça não opera obra, ela é demasiado subtil para isso.
  10. Operar uma obra está tão longe dela como o céu está da terra.
  11. Uma presença interior, uma ligação, uma união com Deus, tal é a graça.
  12. Lá, Deus está «contigo», porque é o que se segue imediatamente. 1

Notas
  1. Eckhart exprime voluntariamente esta dupla atividade de Deus pela imagem das duas fontes: de uma jorra o Filho e, com Ele, a graça.

    Da outra fonte, bem diferente, fluem as criaturas. [  ]


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 12

Mestre Eckhart – Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 13


  1. «Deus contigo» - então tem lugar o nascimento.
  2. Não deve parecer impossível a ninguém de lá chegar.
  3. Que prejuízo é esse para mim, tão difícil quanto seja, visto que é Ele que o realiza?
  4. Todos os Seus mandamentos me são fáceis de observar.
  5. Que Ele me comande tudo aquilo que Ele quiser, eu não me preocupo absolutamente nada com isso, tudo isso é para mim pouca coisa se Ele me der a graça para o realizar.
  6. Certos dizem que não a têm; eu digo: «Lamento. Mas tu desejas? - Não! - Eu lamento ainda mais.»
  7. Se não se pode possui-la, que se tenha ao menos o desejo.
  8. Se não se pode ter o desejo, que se deseje ao menos desejá-la.
  9. David disse: «Senhor, eu desejei o desejo da Tua justiça.» 1
  10. Que Deus nos ajude, a desejar assim de Deus, que Ele queira nascer em nós. Amém. 2

Notas
  1. «Deus está contigo.» É o que se segue imediatamente na Ave Maria.

    Uma vez mais, Mestre Eckhart insiste para que não se tome a sua doutrina como apanágio de alguns privilegiados.

    Não deve parecer impossível a ninguém o obter que o Filho nasça nele.

    O pregador interpela diretamente o seu auditório, citando o versículo do salmo: «Eu desejei o desejo da Tua justiça.»

    Se não podemos ter o desejo, que se deseje ao menos o desejar. [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 46-53. [  ]


[ Anterior ] [ Índice ] [ ◊ ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Nesse tempo, o anjo Gabriel foi enviado 13

Mestre Eckhart – O meu homem, teu servo, está morto



  1. Uma mulher vem ter com o profeta Eliseu
  2. A pequena centelha do intelecto é a cabeça da alma
  3. O intelecto penetra no alto até dentro do ser
  4. A alma tem duas faces, uma voltada para o mundo, e a outra diretamente para Deus
  5. O intelecto contém em si os traços das ideias ou modelos de todas as coisas
  6. Todos os vasos emprestados devem ser cheios de sabedoria divina



Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » O meu homem, teu servo, está morto

Mestre Eckhart – O meu homem, teu servo, está morto 1


Sermão 37 - O meu homem, teu servo, está morto
  1. Uma mulher diz ao profeta: «Senhor, o meu homem, teu servo, está morto; eis que vieram aqueles para com quem nós temos dívidas, eles levaram os meus dois filhos para fazerem deles seus servos, por causa da dívida, e eu não tenho nada a não ser um pouco de óleo.»
  2. O profeta diz: «Então pede emprestados vasos vazios e deita um pouco (do óleo) dentro de cada um deles, ele crescerá e aumentará, vende-o, paga a tua dívida e liberta os teus dois filhos. Com o que sobrar alimenta-te, assim como aos teus dois filhos.» (2Rs 4, 1) 1

Notas
  1. O texto do sermão 37 é tirado da lição da terça-feira depois do terceiro domingo da quaresma.

    Uma mulher vem ter com o profeta Eliseu e diz estas palavras: «Senhor, o meu homem, teu servo, está morto.» À parte alguns detalhes, a cena é completamente contada. [  ]


[ ◊ ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » O meu homem, teu servo, está morto 1

Mestre Eckhart – O meu homem, teu servo, está morto 2


  1. A pequena centelha do intelecto é a cabeça da alma, ela chama-se «o homem» da alma, é como uma pequena centelha de natureza divina, uma luz divina, um raio e uma imagem de natureza divina impressa (na alma).
  2. Nós lemos que uma mulher solicitou o dom de Deus.
  3. O primeiro dom de Deus, é o Espírito Santo; nele, Deus dá todos os seus dons, é «a água viva».
  4. «Aquele a quem eu a dou nunca mais terá sede.»
  5. Esta água é graça e luz, ela jorra dentro da alma, jorra interiormente, ela eleva-se e «lança-se até à eternidade».
  6. Então a mulher diz: «Senhor, dá-me dessa água.»
  7. Nosso Senhor diz: «Traz-me o teu homem.»
  8. Ela diz: «Senhor, eu não tenho.»
  9. Nosso Senhor diz: «Tu dizes a verdade, tu não tens; tu tens cinco, e aquele que tu tens agora não é o teu homem.»
  10. Santo Agostinho diz: porque é que Nosso Senhor diz: «tu dizes a verdade»?
  11. Ele quer dizer: os cinco homens, são os cinco sentidos; eles tiveram-te na tua juventude completamente segundo a sua vontade e o seu desejo.
  12. Agora, na tua velhice, tu tens um que não é o teu; é o intelecto ao qual tu não obedeces.
  13. Quando este «homem» está morto, as coisas vão mal.
  14. Quando a alma se separa do corpo, é muito mau, mas quando Deus se separa da alma, é imensamente mau.
  15. Da mesma forma que a alma dá a vida ao corpo, assim também Deus dá a vida à alma.
  16. Da mesma forma que a alma se derrama por todos os membros, assim da mesma forma Deus flui por todas as potências da alma, e penetra-as com esse fluxo, de tal forma que elas O derramam em bondade e em amor sobre tudo o que está ao seu redor, por forma a que tudo tenha conhecimento d'Ele.
  17. Assim, Ele flui constantemente, quer dizer para lá do tempo, na eternidade e na vida onde vivem todas as coisas.
  18. É por isso que Nosso Senhor diz à mulher: «Eu dou a água viva; quem beber dela nunca mais terá sede, e vive a vida eterna.» 1

Notas
  1. Podemos ficar surpreendidos por o pregador passar imediatamente para outro texto: Jesus e a Samaritana.

    A aproximação é devida à evocação do «homem» numa e na outra cena.

    Em conformidade com as tradições judaica, cristã, greco-latina, para só falar daquelas com as quais Mestre Eckhart está em contato intelectual, o «homem» tem o papel mais nobre, ele é a «cabeça» da alma, como ele diz aqui e como ele disse mais explicitamente ainda no sermão 20b: «Quando a alma se volta a direito para Deus com o seu intelecto, é um homem..., mas quando a alma se volta para as coisas inferiores, é uma mulher.»

    Eckhart faz aqui do homem não apenas uma metáfora do intelecto, mas da «pequena centelha do intelecto»; ela é «de natureza divina», «uma luz divina, um raio e uma imagem impressa de natureza divina».

    Ele falou-nos muitas vezes dela, não encontrando nada de demasiado alto para a evocar, «à imagem de Deus e da raça de Deus» dirá ele aos seus juizes de Colónia. Para não regressar aos termos discutidos de «incriada e de incriável». [  ]


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » O meu homem, teu servo, está morto 2

Mestre Eckhart – O meu homem, teu servo, está morto 3


  1. A mulher diz: «Senhor, o meu homem, teu servo, está morto.»
  2. «Servo» designa qualquer um que recebe e guarda para o seu mestre.
  3. Se ele o guardasse para si próprio, seria um ladrão.
  4. O intelecto é mais verdadeiramente «servo» que a vontade ou o amor.
  5. A vontade e o amor projetam-se sobre Deus enquanto Ele é bom e, se Ele não fosse bom, eles não lhe prestariam atenção.
  6. O intelecto penetra no alto até dentro do ser, antes de pensar na bondade, ou no poder, ou na sabedoria, ou em tudo o que é atributo.
  7. Aquilo que é acrescentado a Deus, ele não se ocupa disso; ele agarra-O em si próprio, ele mergulha no ser e agarra Deus enquanto que Ele é puramente ser.
  8. E se Ele não fosse nem sábio, nem bom, nem justo, ele agarrá-lo-ia enquanto que Ele é puramente ser.
  9. Aqui, o intelecto é semelhante à mais alta senhoria dos anjos que abraçam os três coros: os Tronos acolhem Deus neles, e guardam Deus neles, e Deus repousa neles; os Querubins confessam Deus e ficam próximo d'Ele; os Serafins são o ardor.
  10. O intelecto assemelha-se a todos os três, e guarda Deus em si.
  11. Com os seus anjos, o intelecto agarra Deus no seu vestiário, na sua nudez, tal qual Ele é Um, sem distinções. 1

Notas
  1. Eckhart passa em seguida à exegese da palavra «servo», regressando uma vez mais a uma questão que ele leva a peito: «O intelecto é mais verdadeiramente servo que a vontade ou o amor.»

    Com efeito, uma e outro «projetam-se sobre Deus» enquanto que ele é bom, poderoso ou sábio. Ora é precisamente isso que, em Deus, é atributivo.

    Ele tinha-nos falado de «acidente» no sermão 35, oposto à «substância».

    Ele emprega aqui «atributivo» no mesmo sentido, mas em relação a Deus.

    Porque, aquilo a vontade e o amor procura em Deus é «atributo», enquanto que o intelecto «mergulha no ser e agarra Deus enquanto que Ele é puro».

    Eckhart compara o intelecto aos mais elevados entre os anjos - Tronos, Querubins e Serafins - segundo a hierarquia estabelecida por Dioniso, à qual se referiram os teólogos medievais. [  ]


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » O meu homem, teu servo, está morto 3

Mestre Eckhart – O meu homem, teu servo, está morto 4


  1. Ora a mulher diz: «Senhor, o meu homem, teu servidor, está morto. Eles vieram, aqueles para com quem nós temos dívidas, e levaram os meus dois filhos.»
  2. O que são estes «dois filhos» da alma?
  3. Santo Agostinho - e como ele um outro, um mestre pagão - fala de duas faces da alma.
  4. Uma está voltada para este mundo e para o corpo; nesta (face) ela (a alma) pratica a virtude, o saber, e a vida santa.
  5. A outra face está voltada diretamente para Deus, nela está sem cessar a luz divina e aí opera, só que a alma não o sabe, porque ela não está em casa dela. 1
  6. Quando a pequena centelha da alma está agarrada em Deus na sua pureza, o «homem» vive.
  7. Então ocorre o nascimento, então o Filho nasce.
  8. Este nascimento não ocorre uma vez no ano, nem uma vez no mês, nem uma vez no dia, mas em todo o tempo, quer dizer acima do tempo, na amplitude que não é nem aqui, nem agora, nem natureza, nem pensamento.
  9. É por isso que nós dizemos «filho» e não «filha». 2
  10. Agora falemos dos «dois filhos» num outro sentido, quer dizer do conhecimento e da vontade.
  11. O conhecimento é o primeiro a emanar do intelecto, e a vontade em seguida emana dos dois.
  12. Nada mais sobre este assunto!

Notas
  1. Continuando o seu texto, Eckhart dá diversas interpretações dos «dois filhos» da viuva.

    Primeiro, são as duas faces da alma, das quais uma está voltada para o mundo, e a outra diretamente para Deus, tais como foram definidas por Agostinho e «um mestre pagão» (que não é nomeado, mas que nós sabemos ser Avicena graças a uma passagem do Comentário II sobre a Génese, onde ele empregou essa comparação e onde ele o nomeia). [  ]
  2. Quando «a pequena centelha da alma» está absorvida em Deus na sua pureza, o homem vive.

    Então, em vez do nascimento do Filho, não uma vez no ano, ou no mês, ou no dia, tal como ele nos explicou longamente no célebre sermão 2, Jesus subiu a um certo castelo, mas em todo o tempo, quer dizer para lá da duração.

    A alma não o sabe, porque ela não está «em casa dela»: ela deixa-se distrair pelas coisas exteriores em vez de ficar em si própria, onde ela encontraria Deus.

    «É por isso que nós dizemos "filho" e não "filha"», frase um pouco desconcertante porque nós tínhamos compreendido bem que este nascimento é o do Filho de Deus dentro da alma. [  ]


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » O meu homem, teu servo, está morto 4

Mestre Eckhart – O meu homem, teu servo, está morto 5


  1. Falemos ainda num outro sentido dos «dois filhos» do intelecto.
  2. Um é a «possibilidade», o outro é a «atividade».
  3. Ora um mestre pagão diz: «Nessa potência passiva, a alma pode tornar-se espiritualmente todas as coisas.»
  4. Na potência ativa, ela assemelha-se ao Pai, e faz de todas as coisas um ser novo.
  5. Deus teria querido imprimir nela a natureza de todas as criaturas, mas ela não existia antes do mundo.
  6. Deus criou espiritualmente todo este mundo em cada anjo antes que este mundo tenho sido criado nele próprio. 1
  7. O anjo tem um conhecimento duplo.
  8. Um é uma luz matutina, o outro é uma luz vespertina.
  9. A luz matutina faz com que ele veja todas as coisas em Deus.
  10. A luz vespertina faz com que ele veja todas as coisas na sua luz natural.
  11. Se ele saísse para entrar dentro das coisas, seria a noite.
  12. Ele fica no interior, é por isso que esta luz se chama vespertina.
  13. Nós dizemos que os anjos rejubilam quando o homem realiza uma obra boa.
  14. Os mestres questionam se os anjos se entristecem quando o homem comete o pecado.
  15. Nós dizemos: não! porque eles contemplam a justiça de Deus e percebem aí todas as coisas em Deus, tais quais elas são em Deus.
  16. É por isso que eles não se podem entristecer.
  17. Ora o intelecto na potência passiva assemelha-se à luz natural dos anjos que é a luz vespertina.
  18. Com a potência ativa, ele leva ao alto todas as coisas em Deus, e ele é todas as coisas na luz matutina. 2

Notas
  1. Na interpretação que se segue, Eckhart explica-nos que dos dois filhos do intelecto, um é a «possibilidade», e o outro a «atividade».

    O mestre pagão que ele não nomeia, é Aristóteles.

    No seu sermão latino 4, ele empregou como Santo Tomás as expressões traduzidas do grego: «intellectus possibilis» e «intellectus agens» sobre os quais dá a definição.

    Especulando arduamente sobre a intenção do Criador, ele pensa que Deus terá querido imprimir no intelecto a natureza de todas as criaturas, mas o homem ainda não existia, enquanto que os anjos já tinham sido criados.

    Deus então criou espiritualmente o mundo em cada anjo antes que o mundo exista nele próprio.

    Assim se explica, segundo Eckhart, que o intelecto, quer seja angélico quer seja humano, contenha em si os traços das ideias ou modelos de todas as coisas sobre a terra. [  ]
  2. Reencontramos em seguida uma noção devida a Santo Agostinho sobre o conhecimento do anjo, matutino quando ele vê as coisas em Deus, vespertino quando ela as vê na luz natural.

    Em relação bastante indireta com o que precede, Eckhart fala da alegria dos anjos quando o homem realiza o bem.

    No sermão 6, Os justos viverão eternamente, ele tinha dado um verdadeiro grito de alegria ao pensar que o homem pode regozijar os santos e os anjos.

    Ele exprime-se aqui mais sobriamente.

    Mas o recíproco não existe: os anjos não se podem afligir quando o homem comete um mal porque eles contemplam tudo dentro da justiça de Deus.

    Ele compara a potência «receptora» do intelecto à luz natural dos anjos, luz vespertina, enquanto que na potência «ativa», o intelecto assemelha-se ao Pai, como o pregador nos disse mais acima; ele faz de todas as coisas um ser novo «e ele é todas as coisas na luz matutina». [  ]


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » O meu homem, teu servo, está morto 5

Mestre Eckhart – O meu homem, teu servo, está morto 6


  1. A mulher diz: «Eles vieram, aqueles com quem nós temos dívidas e levaram os meus dois filhos para o serviço deles.»
  2. O profeta diz: «Pede emprestados vasos vazios aos teus vizinhos!»
  3. Esses vizinhos, são todas as criaturas, e os cinco sentidos, e todas as potências da alma - a alma tem nela muitas potências que agem muito secretamente - e também os anjos.
  4. A todos esses «vizinhos», tu deves «pedir emprestados vasos vazios». 1
  5. Que Deus nos ajude para que nós peçamos emprestados muitos vasos vazios e que todos sejam cheios de sabedoria divina, afim de que nós possamos «pagar a nossa dívida» e viver eternamente «do que sobrar». Amém. 2

Notas
  1. O pregador regressa à cena da viuva a quem o profeta aconselhou a pedir emprestados vasos vazios aos seus vizinhos; esses vizinhos são todas as criaturas, os cinco sentidos, as diferentes potências da alma e os anjos.

    Todos os vasos emprestados devem ser cheios de sabedoria divina, afim de que nós compensemos a nossa dívida para vivermos eternamente «do que sobra». [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 40-45. [  ]


[ Anterior ] [ Índice ] [ ◊ ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » O meu homem, teu servo, está morto 6

Mestre Eckhart – Era na noite do dia



  1. É um puro repouso para quem está penetrado e ardente de amor divino
  2. Enquanto a alma estiver nalgum lugar, ela não está naquilo que Deus tem de mais íntimo
  3. Nada daquilo que é recolhido pelos sentidos penetra na alma, nem na potência mais elevada da alma
  4. No fundo onde Deus tem o seu próprio repouso, nós também devemos fazer o nosso repouso
  5. Tudo aquilo que nós podemos dizer de Deus é mais uma negação sobre aquilo que ele não é, do que uma afirmação sobre aquilo que ele é



Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Era na noite do dia

Mestre Eckhart – Era na noite do dia 1


Sermão 36b - Era na noite do dia
  1. Era na noite do dia em que Nosso Senhor veio até aos seus discípulos, colocou-se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco!» (Jo 20, 19)
  2. Ora ele (o evangelista) diz: «era na noite do dia». Quando o calor do meio-dia penetra no ar e o aquece, o calor da noite acrescenta-se a ele e fica ainda mais quente: então a noite está no seu ardor mais forte por causa do calor que se adicionou.
  3. O ano, igualmente, tem a sua noite: o mês de agosto em que o ardor é mais forte do ano.
  4. É também a noite, numa alma que ama Deus.
  5. É um puro repouso para quem está penetrado e ardente de amor divino.
  6. Eis porque ele diz: «era na noite do dia».
  7. Nesse dia, a manhã, o meio-dia e a noite, acumulam-se e nada desaparece deles, enquanto que, num dia do tempo, a manhã e o meio-dia desaparecem e a noite sucede-lhes.
  8. Não é assim no dia da alma onde todas as coisas permanecem um.
  9. A luz natural da alma, é a manhã.
  10. Quando, nessa luz, a alma faz a sua penetração em direção ao mais elevado e ao mais puro, e entra assim na luz do anjo, nessa luz é meia-manhã, depois a alma eleva-se com a luz do anjo em direção à luz divina, e é meio-dia.
  11. Por fim, quando a alma permanece na luz de Deus e no silêncio do puro repouso, é a noite; então o ardor é o maior no amor divino.
  12. Ora ele (o evangelista) diz: «era na noite do dia». Tal é o dia da alma. 1

Notas
  1. Este sermão 36b situa, numa relação mais precisa que o 36a, as diferentes partes do dia terrestre e as fases do «dia da alma», manhã, meio-dia e noite: a alma passa da luz natural à luz do anjo e à luz divina, esta aqui incluindo as outras duas. [  ]


[ ◊ ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Era na noite do dia 1

Mestre Eckhart – Era na noite do dia 2


  1. «Jacob, o patriarca, chegou a um lugar e quis repousar durante a noite, quando o sol estava deitado.»
  2. Ele disse: «num local», ele não o nomeou. O lugar é Deus.
  3. Deus não tem nome próprio, ele é um lugar e o local de todas as coisas, e o lugar natural de todas as criaturas.
  4. O céu, naquilo que ele tem de mais elevado e de mais puro, não tem lugar, mas pela sua revolução, pela sua operação, ele é o lugar e o local de todas as coisas corporais que estão por baixo dele.
  5. O fogo é o lugar do ar, e o ar é o lugar da água e da terra.
  6. É o meu lugar aquilo que me rodeia, onde eu estou.
  7. Assim, o ar envolveu a terra e a água.
  8. Quanto mais uma coisa é subtil, mais ela é poderosa, assim ela pode agir em todas as coisas que são mais grosseiras e estão por baixo dela.
  9. A terra não pode ser verdadeiramente um lugar porque ela é muito grosseira e também o menor dos elementos.
  10. A água é, em parte, um lugar porque ela é mais subtil e portanto mais poderosa.
  11. Quanto mais um elemento é poderoso e subtil, mais ele é o lugar e o local de outro.
  12. Assim, o céu é o lugar de todas as coisas corporais, e ele próprio não tem lugar corporal, pelo contrário o anjo mais baixo é o seu lugar, a sua ordem, e o seu local, e assim de grau em grau.
  13. Cada anjo, quanto mais nobre, é o lugar, o local e a medida de outro, e o anjo mais elevado é o lugar, o local, e a medida de todos os outros anjos abaixo dele, e ele próprio não tem lugar, nem medida, mas é Deus que é a sua medida, e que é o seu lugar, e ele é puro espírito.
  14. São Gregório diz que Deus não é um espírito, e também que todas as palavras que nós dizemos de Deus são balbuciamento sobre Deus.
  15. É por isso que (o texto) diz: «ele veio a um lugar». O lugar é Deus que dá a todas as coisas o seu lugar e a sua ordem. 1
  16. Eu disse-o frequentemente: todas as criaturas estão cheias daquilo que Deus tem de mais mínimo, elas aí vivem e crescem e verdejam, e aquilo que Ele tem de mais sublime não está em nenhuma parte.
  17. Enquanto a alma estiver nalgum lugar, ela não está naquilo que Deus tem de mais íntimo, e que não está em parte nenhuma. 2

Notas
  1. Não se trata aqui da escada de Jacob, pelo contrário Eckhart estende-se principalmente sobre a relação entre os elementos e os anjos, o lugar e o local de cada um, dando Deus a ordem a todas as coisas.

    Esta hierarquia cósmica, esta ideia dum universo organizado em graus é devida, na Idade Média, aos livros do Pseudo-Dioniso o Areopagita (início do 6º século): Da hierarquia terrestre, Da hierarquia celeste.[  ]
  2. A imanência e a transcendência divinas inspiram ao pregador uma frase concisa e bela que nós não lemos no 36a: «Todas as criaturas estão cheias daquilo que Deus tem de mais mínimo, elas aí vivem e crescem e verdejam, e aquilo que Ele tem de mais sublime não está em parte nenhuma.» [  ]


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Era na noite do dia 2

Mestre Eckhart – Era na noite do dia 3


  1. «Ele quis repousar naquele lugar.» Toda a riqueza, e toda a pobreza, e toda a beatitude residem na vontade.
  2. A vontade é tão livre e tão nobre que ela não aceita nenhuma coisa corporal, é pela sua própria liberdade que ela realiza a sua operação.
  3. O intelecto, esse, adquire muito das coisas corporais: nisso, a vontade é mais nobre.
  4. No entanto, é apenas numa parte do intelecto, num olhar para baixo e num abaixamento que esse conhecimento recebe a impressão das coisas corporais, mas na sua região mais elevada, o intelecto não recebe das coisas corporais.
  5. Um grande mestre diz: nada daquilo que é recolhido pelos sentidos penetra na alma, nem na potência mais elevada da alma.
  6. Santo Agostinho diz, e Platão, um mestre pagão, diz também que a alma tem naturalmente nela todo o saber, é por isso que ela não tem necessidade de atrair do exterior o saber para si, mas pelo exercício do saber exterior é manifestado o saber que está naturalmente escondido na alma: assim como um médico que acertadamente limpa o meu olho e afasta o obstáculo que dificulta a minha visão, não dá a visão ao olho.
  7. A potência da alma que atua naturalmente no olho, só confere a visão ao olho quando o obstáculo é afastado.
  8. Da mesma forma, não dá a luz à alma tudo aquilo que, imagens e formas, é trazido pelos sentidos, mas isto só prepara e purifica a alma para que ela possa acolher puramente, naquilo que ela tem de mais elevado, a luz do anjo e, com ela, a luz divina. 1

Notas
  1. Nós reencontramos a títulos diversos Heráclito, São Gregório, Platão e Santo Agostinho, assim como a discussão sobre a nobreza respetiva da vontade e do intelecto.

    A alma possui a totalidade do saber, ele está escondido nela.

    O pregador compara aquilo que dissimula esse saber ao obstáculo que dificulta a visão e que o médico afasta, mas não é o médico que dá a visão ao olho.

    Da mesma forma, as impressões sensíveis transmitidas ao intelecto não conferem a luz à alma.

    Em termos agostinianos, a sabedoria que está na alma opõe-se à ciência obtida pela abstração e pelas definições.

    O treino dessa ciência exterior prepara a alma para que ela possa acolher a luz do anjo e a luz divina.

    O exercício da ciência manifesta a sabedoria. [  ]


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Era na noite do dia 3

Mestre Eckhart – Era na noite do dia 4


  1. «Jacob quis repousar naquele lugar.» Esse lugar é Deus, o ser divino que dá a todas as coisas lugar e vida, ser e ordem.
  2. Nesse lugar, a alma deve repousar no mais elevado e no mais íntimo do lugar.
  3. Nesse mesmo fundo onde Ele tem o seu repouso, nós devemos, nós também, fazer o nosso repouso e possui-lo com Ele. 1

Notas
  1. Estamos tanto mais atentos às passagens onde se crê discernir o eco discreto de uma experiência pessoal de Eckhart quanto mais elas são raras.

    Parece que as conseguimos perceber aqui e ali nestes dois sermões paralelos.

    O que é esta luz divina que inunda a alma «quando diminui a luz deste mundo, que a pessoa está concentrada em si própria e repousa»?

    Não é aquilo que nos mostra a imagem mística com a qual o iluminador ornamentou um manuscrito de Suso?

    A alma, esquecendo todas as coisas, reflui para o abismo da essência divina «nesse lugar que não tem nome... lá onde todas as coisas foram Deus em Deus, ela repousa» assim como Mestre Eckhart nos diz aqui: «... É um puro repouso para quem está penetrado e ardente de amor divino.»

    E «nesse mesmo fundo onde Ele tem o seu próprio repouso, nós devemos, nós também, fazer o nosso repouso e possui-lo com Ele». [  ]


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Era na noite do dia 4

Mestre Eckhart – Era na noite do dia 5


  1. O lugar fica inominado e ninguém pode dizer sobre ele uma palavra apropriada.
  2. Toda a palavra que nós podemos dizer dele é mais uma negação sobre aquilo que Deus não é, do que uma afirmação sobre aquilo que ele é.
  3. Foi o que compreendeu um grande mestre; pareceu-lhe que em tudo aquilo que ele pudesse dizer sobre Deus por intermédio das palavras, ele não poderia exprimi-lo verdadeiramente sem que dissesse sempre qualquer coisa falsa.
  4. Foi por isso que ele se calou sem nunca querer pronunciar uma palavra, e os outros mestre troçaram muito dele.
  5. Por esta razão, vale mais calarmo-nos sobre Deus do que falar dele.
  6. Ele disse também: «Foi na noite do dia, então Nosso Senhor apareceu no meio dos seus discípulos e disse: "A paz esteja convosco!"» 1
  7. Que o Espírito Santo nos ajude para que nós cheguemos à paz eterna e ao lugar inominado que é o ser divino. Amém. 2

Notas
  1. No fim do seu sermão, Eckhart recorda a palavra de Cristo com a qual começou: «A paz esteja convosco!»

    Parece-nos adivinhar aqui uma alusão às graças que os místicos dos séculos futuros nos descreverão abundantemente.

    Eles nos explicarão, em particular, que é impossível obtê-las pelos nossos próprios esforços.

    Ora Eckhart diz-nos no 36a: «Para aquele que repousa em Deus, o repouso está fora da sua vontade.»

    Os tratados de teologia mística falam de "graças da oração", de "sono das potências", de "quietude". Não procuremos discernir mais profundamente. Que nos seja suficiente sentir passar aqui uma realidade que nos escapa. [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 36-39. [  ]


[ Anterior ] [ Índice ] [ ◊ ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Era na noite do dia 5

Mestre Eckhart – Jesus apareceu entre os seus discípulos



  1. É um dia total e pleno na alma quando ela fica cheia da luz divina
  2. O lugar da alma é só a Divindade
  3. Convém guardar totalmente o silêncio sobre Aquele que é a origem de todas as coisas
  4. Nós não podemos falar de Deus em termos adequados
  5. A alma traz impressa nela o modelo de todo o saber



Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Jesus apareceu entre os seus discípulos

Mestre Eckhart – Jesus apareceu entre os seus discípulos 1


Sermão 36a - Jesus apareceu entre os seus discípulos
  1. São João escreve-nos no seu evangelho: «No primeiro dia da semana, chegada a noite, Nosso Senhor apareceu entre os seus discípulos, estando as portas fechadas, e disse: "A paz esteja convosco!" e de novo: "A paz esteja convosco!" e a terceira vez: "Recebam o Espírito Santo!"» (Jo 20, 19) 1
  2. Ora nunca chega a noite se não houve antes uma manhã e um meio-dia.
  3. Diz-se que o meio-dia é mais quente que a noite.
  4. Na medida no entanto em que a noite inclui em si (o calor) do meio-dia e acrescenta (o seu próprio) calor, ela é mais quente, porque com a noite se termina um dia inteiro e pleno.
  5. Mais tarde no ano, depois do solstício, quando o sol se aproxima da terra, a noite torna-se (a mais) quente.
  6. Nunca o meio-dia pode chegar se a manhã não desapareceu e a noite não pode vir se o meio-dia não desapareceu.
  7. Isto significa: quando a luz divina brilha mais e mais na alma até que se produza um dia total e pleno, a manhã não cede ao meio-dia, nem o meio-dia à noite: tudo se concentra absolutamente em um.
  8. É por isso que a noite aí é quente.
  9. Então é um dia total e pleno na alma, quando tudo o que é a alma está cheio de luz divina.
  10. Mas então a queda da noite na alma produz-se, como eu disse precedentemente, apenas quando decresce a luz deste mundo, quando a pessoa está concentrada em si própria e repousa.
  11. Então Deus diz: «Paz!» e ainda: «Paz!» e: «Recebam o Espírito Santo!» 2

Notas
  1. Os sermões 36a e 36b estão próximos um do outro pela estrutura e pelo significado profundo.

    Mestre Eckhart tem outros sermões paralelos. Escolheu para eles o mesmo texto, 5a e 5b, Eis como o amor de Deus se manifestou para nós; 20a e 20b, Um homem tinha preparado um festim.

    Para os sermões 36a e 36b, os textos são diferentes, ambos retirados de João 20, 19, início do evangelho para a oitava da Páscoa.

    Reencontramos aqui as três luzes, sobre as quais já lemos a sua evocação em vários sermões. No sermão 19, Fica à porta do templo do Senhor, o pregador indica a sua fonte, Santo Agostinho, que ele não cita aqui sobre este assunto. [  ]
  2. Eckhart indica aqui que a noite é mais quente que os outros momentos do dia porque cada um destes lhe acrescentaram o seu próprio ardor.

    É também «um dia total e pleno na alma quando ela fica cheia da luz divina». [  ]


[ ◊ ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Jesus apareceu entre os seus discípulos 1

Mestre Eckhart – Jesus apareceu entre os seus discípulos 2


  1. «Jacob o patriarca veio a um certo lugar quando era noite, pegou em pedras que se encontravam aí, colocou-as debaixo da cabeça e repousou. Durante o sono, viu uma escada erguer-se para o céu, os anjos subiam e desciam, e no alto Deus inclinou-se para a escada.»
  2. O lugar onde Jacob dormiu não é nomeado.
  3. Isto significa: o lugar da alma é só a Divindade, e ela não tem nome.
  4. Ora os nossos mestres dizem: o que é o lugar de uma coisa deve estar por cima dela, da mesma forma que o céu é o lugar de todas as coisas.
  5. O fogo é o lugar do ar, o ar é o lugar da água e da terra, mas a água não é plenamente o lugar da terra, e a terra não é de todo um lugar.
  6. O anjo (mais baixo) é o lugar do céu, e cada anjo que recebeu de Deus uma gotinha mais que o outro é o lugar e o sítio dos outros, e o anjo mais elevado é o lugar e o sítio e a medida de todos os outros, mas ele próprio é sem medida.
  7. No entanto, apesar dele ser sem medida, Deus é no entanto a sua medida. 1

Notas
  1. O pregador passa do evangelho para a Génese (28, 10-12).

    Jacob repousa. A escada que ele vê no seu sonho vai até ao céu.

    A ascensão e a descida dos anjos permite mostrar a gradação dos elementos e dos anjos, segundo a ordenação divina. [  ]


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Jesus apareceu entre os seus discípulos 2

Mestre Eckhart – Jesus apareceu entre os seus discípulos 3


  1. «Jacob repousou neste lugar» sem nome.
  2. Pelo facto de não se lhe dar um nome, ele é nomeado.
  3. Quando a alma chega neste lugar que não tem nome, ela toma aí o seu repouso; aí onde todas as coisas foram Deus em Deus, ela repousa.
  4. O lugar da alma, que é Deus, não é nomeado.
  5. Eu digo que Deus é inexpresso.
  6. Ora Santo Agostinho diz que Deus não é inexpresso, porque se ele fosse inexpresso, isso seria uma asserção, e o silêncio é mais apropriado que o falar.
  7. A um dos nossos mais antigos mestres (Heráclito) que encontrou a verdade já há muito tempo, e muito tempo antes do nascimento de Deus, antes que a fé cristã fosse tal como ela é agora, ele considerava que tudo aquilo que ele pudesse dizer sobre as coisas trazia em si qualquer coisa de estrangeiro e de falso, e é por isso que ele se queria calar.
  8. Ele não queria dizer: «Dêem-me pão ou dêem-me de beber!» Para ele, eram coisas de que ele não queria falar porque ele não conseguia falar delas com tanta clareza quanta elas têm quando elas emanam da causa primeira.
  9. É por isso que ele se preferia calar, e que ele exprimia as sua necessidades por sinais com os dedos.
  10. Visto que ele não podia falar das coisas, convém ainda mais para nós guardar totalmente o silêncio sobre Aquele que é a origem de todas as coisas. 1

Notas
  1. Seguindo o mesmo texto, Eckhart explica que sendo o lugar onde repousava Jacob sem nome, então só podia ser Deus que não tem nome.

    Deus é inexprimível, daí a famosa anedota sobre Heráclito que Alberto o Grande e Tomás de Aquino usaram, e que Mestre Eckhart os copiou sem nomear a personagem: se o filósofo não falou, com receio que o falso se misturasse ao verdadeiro no seu discurso, com maior razão nós próprios devemos fazer o mesmo a propósito de Deus. [  ]


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Jesus apareceu entre os seus discípulos 3

Mestre Eckhart – Jesus apareceu entre os seus discípulos 4


  1. Nós dizemos que Deus é um espírito.
  2. Não é assim.
  3. Se Deus fosse um espírito, ele seria, no sentido próprio, expresso.
  4. São Gregório diz: nós não podemos falar de Deus em termos adequados. Aquilo que nós dizemos dele, nós devemos balbuciá-lo.
  5. Neste lugar sem nome, todas as criaturas verdejam e florescem numa justa ordenação, e o lugar de todas as criaturas determina-se absolutamente pelo fundo deste lugar de justa ordenação, e o lugar da alma flui deste fundo. 1

Notas
  1. Seguindo o seu gosto pelo paradoxo, Eckhart cita o texto de São Gregório: Deus não é um espírito.

    Pretendê-lo seria querer dar uma definição de Deus, o que é impossível: falando de Deus, nós não podemos fazer mais que balbuciar. [  ]


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Jesus apareceu entre os seus discípulos 4

Mestre Eckhart – Jesus apareceu entre os seus discípulos 5


  1. «Jacob quis repousar.» Reparem! «ele quis repousar».
  2. Para aquele que repousa em Deus, o repouso está fora da sua vontade.
  3. Nós dizemos: a vontade não é um assunto de treino.
  4. A vontade é livre, ela não adquire nada da matéria.
  5. Neste ponto, ela é mais livre do que o conhecimento; certas pessoas insensatas tropeçam aqui e pretendem que ela está acima do conhecimento.
  6. Não é assim, mas o conhecimento adquire da matéria e das coisas corporais num lugar da alma, como eu disse na vigília da Páscoa: certas potências da alma estão ligadas aos cinco sentidos, tais como o ver e o ouvir que introduzem nela (alma) aquilo de que ela deve ser informada.
  7. Um mestre diz: Deus não quer absolutamente que os olhos e as orelhas levem o que possa carregar a parte mais nobre da alma, mas (que levem) exclusivamente o lugar sem nome que é o lugar de todas as coisas. 1
  8. O resto é certamente uma boa preparação, favorável no sentido em que (esse levar do exterior) está misturado com a cor, com os sons e com as coisas corporais.
  9. É apenas um treino dos sentidos.
  10. A alma é assim acordada, e o modelo do saber é naturalmente impresso nela.
  11. Platão diz, e com ele Santo Agostinho: a alma possui nela a totalidade do saber, e tudo o que lhe podemos levar do exterior não passa de um acordar do saber. 2
  12. «Jacob repousa à noite.» Nós antes pedimos por um «agora», hoje nós pedimos por uma coisa pequena, apenas por uma noite. 3
  13. Que Deus nos ajude afim de que ela nos seja dada. Amém. 4

Notas
  1. «Jacob quis repousar.» O repouso em Deus não depende da vontade, é a ocasião para Eckhart, dizendo isto, regressar a uma questão que frequentemente tratou: qual é a faculdade humana que penetra mais profundamente no fundo da Divindade?

    Ele dá quase sempre a prioridade ao intelecto.

    Ele emprega aqui a palavra «conhecimento», apesar de encontrarmos mais frequentemente a palavra «intelecto» quando ele o opõe à vontade.

    Ele considera que, num ponto, a vontade é mais livre que o conhecimento porque este adquire da matéria e das coisas corporais num «lugar da alma» (quer dizer, num dos órgãos pelos quais ela atua) «como eu disse na vigília da Páscoa» (alusão ao sermão 35).

    Ligado ao mundo exterior, o conhecimento não pode penetrar na parte mais nobre da alma, reservada «ao lugar sem nome que é o lugar de todas as coisas», quer dizer Deus. [  ]
  2. Seguindo aqui Platão e Santo Agostinho, que nomeia a ambos, Eckhart explica que a alma traz impressa nela o modelo de todo o saber, as «ideias eternas».

    Pelo treino, o conhecimento, que se move no mundo das cores e dos sons, pode todavia acordar este saber na alma. [  ]
  3. Para concluir, o pregador faz alusão ao fim do sermão 35 onde ele pediu a Deus, para ele próprio e para os seus auditores, o chegar ao «agora» da eternidade.

    Ele pede aqui - com uma ligeira ironia, ou pelo menos um sorriso - «uma coisa pequena»: apenas uma noite.

    Ora esta noite onde repousa Jacob é a do maior amor de Deus e sem dúvida a de uma inefável graça. [  ]
  4. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 32-35. [  ]


[ Anterior ] [ Índice ] [ ◊ ]


Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Jesus apareceu entre os seus discípulos 5