Mestre Eckhart – Esta é a vida eterna



  1. A vida eterna, é que eles te conheçam, único verdadeiro Deus
  2. Quando nós queremos rezar, que antes nós nos abaixemos
  3. Deus opera mais num coração humilde porque lá Ele tem mais possibilidades de operar
  4. Na medida em que a alma avança, ela penetra mais na luz
  5. Tudo o que se pode acrescentar a Deus encerra Deus
  6. Aquele que conhece alguma coisa mais de Deus, não conhece Deus só



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Mestre Eckhart – Esta é a vida eterna 1


Sermão 54b - Esta é a vida eterna
  1. Nosso Senhor diz: «A vida eterna, é que eles te conheçam, único verdadeiro Deus, e aquele que tu enviaste, Jesus Cristo.» «Nosso Senhor levantou os olhos para o céu e disse: "Pai, a hora chegou, glorifica o teu Filho para que o teu Filho te glorifique", e ele rezou por aqueles que lhe tinham sido dados e disse: "Dá-lhes a vida eterna; faz com que eles sejam um contigo como eu e tu nós somos um".» (Jo 17, 1-3) 1

Notas
  1. Este sermão está em relação estreita com o precedente. Josef Quint estabeleceu o texto do sermão 54b baseando-se nos dois originais que o contêm, bastante próximos um do outro.

    Quando eles divergem ele escolheu, por intermédio de critérios internos, aquele que lhe pareceu o melhor. Para além disso ele apresentou as variantes mais importantes, mais ou menos paralelamente. Apesar de nós já termos lido antes desenvolvimentos análogos - também subtis e difíceis -, consideramos que seria bom seguirmos aqui o editor. [  ]


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Mestre Eckhart – Esta é a vida eterna 2


  1. «Ele levou os olhos para o alto.» Com isto ele ensina-nos: quando nós queremos rezar, que antes nós nos abaixemos, numa humildade verdadeira e submetida, abaixo de todas as criaturas.
  2. Apenas depois nós devemos subir diante do trono da Sabedoria, e tanto quanto nós nos abaixamos, tanto será atendida a oração que nós realizamos.
  3. Ora um texto diz que cada vez que Nosso Senhor levantava os olhos, ele queria realizar uma grande obra.
  4. Era com efeito uma grande obra, aquilo que ele diz aqui: «que eles sejam um contigo como eu e tu nós somos um».
  5. Está dito no Livro da Sabedoria «que Deus só ama aquele que habita na Sabedoria»; ora o Filho é a Sabedoria.
  6. Como na pureza na qual Deus criou a alma, nós tornamo-nos tão puros na Sabedoria que é o Filho.
  7. Porque, assim como eu disse frequentemente, ele é uma porta pela qual a alma regressa ao Pai, tudo o que Deus alguma vez operou não era nada mais que uma imagem e um sinal da vida eterna. 1

Notas
  1. «Ele levantou os seus olhos para o alto.» O ensinamento é o mesmo que em 54a: Cristo quer que antes de rezarmos, nós nos abaixemos numa humildade verdadeira, só em seguida nós podemos nos elevar até ao trono da Sabedoria.

    Ainda como em 54a, encontramos uma alusão ao texto de Inocêncio III: quando Nosso Senhor levantava os olhos ao céu, é porque ele queria realizar uma grande obra. Ora, precisamente, aquilo que ele aqui diz é grande: que eles sejam contigo, como eu e tu nós somos um.

    Segundo o Livro da Sabedoria, Deus só ama aquele que habita na Sabedoria: a Sabedoria é o Filho, a porta pela qual nós regressamos ao Pai. [  ]


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Mestre Eckhart – Esta é a vida eterna 3


  1. «Ele levou os seus olhos ao alto», do verdadeiro fundo da mais extrema humildade.
  2. Da mesma forma que o poder do céu não opera tanto como no fundo da terra (apesar de ser o elemento mais baixo), porque é lá que ele tem mais possibilidades de operar, da mesma forma Deus opera mais num coração humilde porque lá Ele tem mais possibilidades de operar, encontrando lá a maior similitude com Ele próprio.
  3. Com isto, ele ensina como nós devemos penetrar no nosso fundo da verdadeira humildade e do verdadeiro denodo, afim de que nós nos desapossemos de tudo o que não é nosso por natureza, quer dizer os nossos pecados e as nossas faltas, e também daquilo que é nosso por natureza, quer dizer tudo o que faz parte do eu próprio.
  4. Porque aquele que quer penetrar no fundo de Deus, naquilo que Ele tem de mais interior, deve primeiro penetrar no seu próprio fundo, naquilo que ele tem de mais interior.
  5. Com efeito, ninguém pode conhecer Deus se ele não se conhece primeiro a si próprio. 1
  6. Ele deve penetrar naquilo que ele tem de mais baixo e naquilo que Deus tem de mais interior, ele deve penetrar naquilo que é primeiro e mais elevado em Deus, porque lá se concentra tudo o que Deus pode realizar.
  7. O que é mais elevado na alma encontra-se no maior abaixamento, porque é o mais interior de tudo.
  8. Como aquele que quer aplanar um objeto redondo: o que estava com efeito em cima encontra-se com efeito em baixo. 2
  9. O terceiro ensinamento que ele nos dá quando ele «levou os seus olhos para o alto» é este: aquele que quer rezar deve levar para a bondade de Deus tudo aquilo que ele recebeu por graça, e quando ele quer implorar pelas suas faltas ou pelos pecados de outrem, ele deve levá-los para a misericórdia de Deus porque eles rezam por eles próprios.
  10. Aquilo que Deus encontra abaixado, Ele o reergue e eleva n'Ele.
  11. O quarto ensinamento quando «ele levou os olhos ao alto», é que com todo o nosso coração, nós subamos ao céu e a Ele com desejo, que nós metamos em Deus e em direção à altura suprema todo o nosso desejo, não por baixo de Deus nem ao lado de Deus, porque todas as instâncias superiores estão mais dispostas a agir naquilo que está por baixo delas.
  12. É por isso que todas as criaturas materiais são para o sol e as estrela um isco que transmite na pedra (magnética) o poder destes e a igualdade com eles.
  13. Quando o sol atrai a si o ar húmido, ele dá à pedra a igualdade com ele e o seu poder, por forma que ela emite invisivelmente um vapor e um poder, o qual atrai certo ferro, certa carne e certos ossos; quando alguém se aproxima dela, fica fixo lá.
  14. Assim faz o sopro divino, Ele atrai a alma a Ele, une-a a Ele, e torna-a semelhante a Ele.
  15. Da mesma forma que se alguém pegasse numa barrica cheia de água e a colocasse por cima e encostada a um grande tonel cheio de vinho, este dar-lhe-ia o poder do vinho, e a natureza do vinho, e a cor do vinho.
  16. Se o vinho é tinto, ela torna-se tinta; se o vinho é branco, ela torna-se igualmente branca e torna-se vinho, o que é devido ao vapor e ao odor do vinho.
  17. O que significa isto? Uma boa asserção! Da mesma forma que o vapor do vinho penetra na barrica cheia de água, da mesma maneira o poder de Deus penetra na alma.
  18. Aquele que quer ser conforme a Deus deve elevar-se com todo o seu desejo. 3

Notas
  1. O pregador retoma aqui as comparações do sermão precedente: da mesma forma que o poder do céu não opera em nenhum lugar tanto quanto no fundo da terra - sendo no entanto o elemento mais baixo - Deus opera sobretudo num coração humilde porque Ele encontra lá a maior similitude com Ele próprio.

    É preciso que nós nos desembaracemos de tudo aquilo que não é nosso, quer dizer de todos os nossos pecados, e também de tudo o que é nosso por natureza, quer dizer o nosso eu próprio.

    Aquele que quer penetrar no fundo de Deus deve primeiro penetrar no seu próprio fundo. [  ]
  2. Eckhart apresenta aqui antíteses e paradoxos: «Ele (o ser humano) deve penetrar naquilo que ele tem de mais baixo, e no mais interior de Deus.» «O que é mais elevado na alma encontra-se no maior abaixamento.»

    Nós encontramos aqui uma imagem que não se encontra em 54a: «Como aquele que quer aplanar um objeto redondo: aquilo que estava com efeito em cima se encontra com efeito em baixo.» [  ]
  3. Outro ensinamento dado por Cristo quando ele levanta os olhos: aquele que quer implorar pelas suas próprias faltas ou pelas de outrem deve leva-las para a misericórdia de Deus onde «elas rezam por elas próprias». Porque os seus defeitos rezam por eles próprios. Deus quer que todo o nosso desejo seja orientado para Ele.

    Como todos os seres superiores são naturalmente condescendentes com respeito ao que se encontra por baixo deles, Deus reergue tudo aquilo que se baixou. Eckhart dá-nos exemplos, retirados do mundo natural, que provam que as instâncias superiores estão dispostas a agir naquilo que está por baixo delas: é assim com o sol e as estrelas, dos quais a pedra magnética recebe o seu poder, por forma que ela atrai «certo ferro, certa carne e certos ossos». [  ]


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Mestre Eckhart – Esta é a vida eterna 4


  1. Uma outra interpretação: «ele levantou os olhos». Com isto ele ensina-nos: da mesma forma que o elemento mais elevado não pode operar em nenhuma parte tão bem como no fundo da terra - ele produz aí o ouro, a prata e as pedras preciosas - e naquilo que está lá misturado à terra como a folhagem, a erva e as árvores -, isso tem em si uma semelhança com o céu e com o anjo que move o céu: isso estende-se e amplifica-se e forma um habitáculo, afim de que o sol e o poder das estrelas sejam capazes de operar muito nelas e isto inclui em si a natureza do anjo e opera como o anjo, apesar de ser de muito longe; 1 igualmente nós devemos formar um habitáculo, nos estendermos e nos amplificarmos, afim de que Deus possa operar muito em nós, nós devemos ser semelhantes a Ele e operar como Ele.
  2. O animal conhece «aqui» e «agora», mas o anjo não conhece nem «aqui» nem «agora», e o ser humano, está acima das outras criaturas, conhece numa luz verdadeira onde não existe nem o tempo nem o espaço, sem «aqui» e sem «agora».
  3. Na medida em que a alma avança, ela penetra mais na luz.
  4. A alma, que é uma luz, inclui muito de Deus nela. 2

Notas
  1. Outra versão do texto: «Uma outra interpretação: "ele levantou os olhos". Tudo o que está acima de um elemento, como o céu e as estrelas, produz no elemento mais grosseiro, a terra, aquilo que nós não podemos ver como o ouro, a prata e as pedras preciosas porque é impossível que o céu possa alguma vez operar noutro sítio como acontece no fundo da terra, e naquilo que está misturado à terra como a folhagem, a erva e as árvores. Vê aqui uma comparação com o céu: não há criatura que não traga em si qualquer coisa daquilo de quem ela é filha. Os nossos mestres dizem: àquilo que está no alto não é suficiente o expandir da árvore e da erva e o seu curso como o do céu, não apenas o do céu, mas o do anjo que move o céu. Isto inclui em si a natureza do anjo e opera como o anjo, apesar de ser de muito longe;». [  ]
  2. A sensibilidade do animal está condicionada pelo tempo e o espaço. Não é assim para a do anjo e para a do ser humano. O ser humano, que está acima das outras criaturas, conhece numa luz verdadeira, sem «aqui» e sem «agora». [  ]


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Mestre Eckhart – Esta é a vida eterna 5


  1. «Ele levantou os olhos para o céu.» «Celum» significa um habitáculo do sol.
  2. Tudo o que se pode acrescentar a Deus encerra Deus, tudo o que se pode acrescentar a Ele, senão «ser puro», encerra Deus.
  3. Ora ele diz: «Pai, a hora chegou; glorifica o teu Filho afim de que o teu Filho te glorifique, e eu peço-te para além disso que dês uma vida eterna a todos aqueles que tu me deste.»
  4. Ora interroguem quem vocês quiserem, todos responderão que o seu pensamento era: «Pai, dá a vida eterna a todos aqueles que tu me deste.»
  5. Mas verdadeiramente esta frase significa: «Pai, tudo aquilo que tu me deste - o ser o Filho saído de ti, o Pai - eu te peço que lhes dês e que eles desfrutem disso; dessa vida eterna, é a recompensa eterna deles.»
  6. Vejam, isto quer dizer: tudo o que o Pai deu ao seu Filho, tudo aquilo que Ele é, que Ele lhes dê a eles. 1

Notas
  1. Tudo aquilo que se pode dizer de Deus, ou acrescentar a Deus, encobre o ser puro de Deus. Ora Cristo pede ao Pai que dê uma vida eterna àqueles que Ele lhe deu, o que quer dizer: tudo aquilo que Tu me deste - o ser o Filho saído de ti, o Pai -, eu te peço que tu lhes dês a eles. Tudo o que o Pai deu ao seu Filho, tudo aquilo que Ele é, que Ele lhes dê a eles. [  ]


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Mestre Eckhart – Esta é a vida eterna 6


  1. Uma «vida eterna», o que é, notem-no vocês próprios: «a vida eterna, é que eles te conheçam, a ti único verdadeiro Deus».
  2. O que entende ele dizendo: «Só a ti»?
  3. É que a alma não tenha gosto, a não ser por Deus só.
  4. É um outro significado quando ele diz: «te conhecer a ti só, é a vida eterna».
  5. Ele quer dizer que Deus é, e que nada é ao pé d'Ele.
  6. Aquele que conhece alguma coisa mais de Deus, não conhece Deus só.
  7. Mas aquele que conhece Deus só, conhece mais Deus.
  8. Os nossos mestres dizem: um tal conhece um em Deus, e um outro tal conhece mil em Deus.
  9. Aqueles que conhecem um, conhecem mais que aqueles que conhecem mil, porque é antes "em" Deus que eles conhecem, enquanto que aqueles que conhecem mil conhecem antes "ao pé" de Deus.
  10. Mais felizes são aqueles que conhecem mil, que aqueles que conhecem um, porque lá eles conhecem de Deus mais que em um.
  11. Mais felizes ainda são aqueles que conhecem um, que aqueles que conhecem mil, sempre mais um e não Deus nele.
  12. Porque, quando eu conheço qualquer coisa em Deus, o que quer que eu conheça, isso torna-se um comigo.
  13. Mas aquele que conhece Deus mais como um, conhece portanto menos ao pé de Deus.
  14. A nossa «vida eterna», é que nós conheçamos um; em conhecendo menos, nós te conhecemos mais, a ti, «um verdadeiro Deus».
  15. Porque é que ele diz: «tu um verdadeiro Deus» e ele não diz: tu, um Deus «sábio», ou «bom», ou «poderosos»? Porque a verdade introduz no ser. 1
  16. Tudo o que pode exprimir com palavras sequestra Deus e acrescenta-lhe.
  17. Mas a verdade inclui num único conhecimento, e afasta do múltiplo. 2
  18. Que a Trindade, numa única natureza divina, nos ajude para que, neste conhecimento, nós nos desprendamos de tudo, e nos tornemos um. Amém. 3

Notas
  1. Outra versão do texto: «E é mais feliz, aquele que conhece mil em Deus, que aquele que conhece um em Deus. Mas a beatitude não consiste em que ele conheça mil em Deus.

    Ela consiste em que ele tenha conhecido menos nele, e fora dele, e é por isso que ele conhece mais nele e não mais coisas, porque todas as coisas são um em Deus, e em Deus não há nada que não seja ser. Neste conhecimento simples reside a nossa vida eterna.

    Ora ele diz: «tu só verdadeiro Deus» e porque é que ele não diz: Deus «rico», ou Deus «poderoso», ou Deus «sábio»? É porque ele pensa que a verdade ultrapassa o que é mais elevado e é um ser puro.» [  ]
  2. A vida eterna, é que eles te conheçam, único verdadeiro Deus. «Aquele que conhece qualquer coisa mais de Deus, não conhece Deus só.» Aqueles que conhecem Deus como Um, conhecem mais de Deus do que aqueles que o conhecem como mil.

    Nós reencontramos a mesma dificuldade que no sermão precedente. É preciso, para a resolver, reencontrar um pensamento fundamental de Mestre Eckhart: quanto menos nós conhecermos em Deus multiplicidade, nomes, atributos, «acidentes» que encobrem o seu ser, mais nós conhecemos a unidade que Ele é. [  ]
  3. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 161-167. [  ]


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Mestre Eckhart – Nosso Senhor levantou os olhos



  1. A alma é levada até Deus pela Sabedoria divina
  2. É preciso que nós cheguemos ao nosso próprio fundo e àquilo que nós temos de mais interior, em pura humildade
  3. A alma bem ordenada no fundo da humildade, sobe e é atraída para o alto na potência divina
  4. A alma eleva-se acima do tempo e do espaço em igualdade com a luz do anjo e opera com ele espiritualmente no céu
  5. A todos aqueles que Tu me deste, Eu dou-lhes a vida eterna, e a nenhuns outros
  6. Quanto mais se conhece Deus como Um, mais se conhece a raiz de onde saíram todas as coisas



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Mestre Eckhart – Nosso Senhor levantou os olhos 1


Sermão 54a - Nosso Senhor levantou os olhos
  1. Nosso Senhor levantou os olhos e dirigindo o seu olhar para cima em direção ao céu, disse: «Pai, o tempo chegou, glorifica o teu Filho para que o teu Filho te glorifique. A todos aqueles que tu me deste, dá a vida eterna. A vida eterna, é que eles te conheçam como único verdadeiro Deus.» (Jo 17, 1) 1
  2. Eis o texto de um papa: quando Nosso Senhor levantava os olhos, Ele tinha um grande pensamento.
  3. O sábio diz no Livro da Sabedoria que a alma é levada até Deus pela Sabedoria divina.
  4. Santo Agostinho diz também que todas as obras e o ensinamento da humanidade de Deus são uma imagem e uma figura da nossa vida santa e da nossa grande dignidade diante de Deus.
  5. A alma deve ser purificada e tornada subtil na luz e na graça, totalmente desprendida e despojada daquilo que é estrangeiro à alma e também de uma parte daquilo que ela é ela própria.
  6. Eu já o disse frequentemente: a alma deve ser totalmente desnudada de tudo o que é «acidente», levada ao alto na pureza, e refluir no Filho como ela fluiu d'Ele.
  7. Porque o Pai criou a alma no Filho.
  8. É por isso que ela deve refluir n'Ele tão pura quando ela fluiu d'Ele. 2

Notas
  1. Eckhart procura dar o significado mais profundo às diferentes partes do texto que escolheu, extraído do evangelho para a vigília da Ascensão. [  ]
  2. O Livro da Sabedoria diz que a alma é levada até Deus pela Sabedoria divina. Eckhart cita um comentário do papa Inocêncio III que declara que, quando Cristo levantava os olhos, tinha um grande pensamento. A ideia diretriz do sermão, apesar das aparentes digressões, o «grande pensamento» é o da unidade entre Deus e a alma.

    A alma deve ser purificada e tornada subtil na luz e na graça, despojada daquilo que lhe é estrangeiro e também de uma parte daquilo que é ela própria, de tudo o que é «acidente», para refluir no Filho, tão pura quanto ela fluiu d'Ele. [  ]


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Mestre Eckhart – Nosso Senhor levantou os olhos 2


  1. Ora ele diz: «Ele levantou os olhos e dirigiu o seu olhar para cima».
  2. Esta frase inclui dois sentidos.
  3. Um, é um testemunho de pura humildade.
  4. Se nós devemos alguma vez chegar ao fundo de Deus e àquilo que Ele tem de mais interior, é preciso primeiro que nós cheguemos ao nosso próprio fundo e àquilo que nós temos de mais interior, em pura humildade.
  5. Os mestres dizem que as estrelas vertem toda a sua potência no fundo da terra, na natureza, e no elemento da terra, e produzem lá o ouro mais puro.
  6. Na medida em que a alma chega ao fundo e ao mais interior do seu ser, nessa mesma medida a potência divina derrama-se absolutamente nela, ela aí opera muito secretamente e manifesta muito grandes obras, a alma torna-se assim muito grande, elevada no amor de Deus que é semelhante ao ouro puro.
  7. Tal é o primeiro sentido de «Ele levantou os olhos». 1

Notas
  1. «Cristo levantou os olhos e dirigiu o seu olhar para cima.» Na interpretação de Eckhart, este texto tem dois significados. Ele designa a pura humildade. Se nós queremos chegar ao fundo íntimo de Deus, é preciso primeiro que nós cheguemos ao nosso próprio fundo.

    Da mesma forma que, segundo a cosmologia da Idade Média, um pouco surpreendente para nós, as estrelas derramam a sua potência na terra para aí produzir o ouro mais puro, quando a alma penetra no mais profundo dela própria, a potência divina opera em segredo e derrama-se na alma que se torna assim muito grande. [  ]


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Mestre Eckhart – Nosso Senhor levantou os olhos 3


  1. O segundo, é que a alma se deve dirigir para o alto na humildade, com todos os seus defeitos e os seus pecados, ela deve-se colocar e se inclinar sob a porta da misericórdia de Deus, onde Deus se resolve em misericórdia, e ela deve também levar ao alto a sua virtude e as suas obras boas, ela deve colocar-se com elas sob a porta onde Deus se resolve em bondade.
  2. Assim a alma deve seguir e ordenar-se segundo o exemplo: «Ele levantou os olhos».
  3. Em seguida ele diz: «Ele dirigiu o seu olhar para cima».
  4. Um mestre diz: aquele que fosse astucioso, e conhecesse isto, colocaria água por cima do vinho, por forma a que a potência do vinho pudesse agir nela: a potência do vinho transformaria a água em vinho e se ela estivesse bem colocada por cima do vinho, ela seria melhor do que o vinho, pelo menos ela tornar-se ia tão boa quanto o vinho.
  5. O mesmo se passa na alma que está bem ordenada no fundo da humildade, ela sobe assim e é atraída para o alto na potência divina; ela nunca repousa antes de ter ido diretamente para Deus e de o ter tocado na sua nudez, ela permanece inteiramente no interior, ela não procura nada fora, ela não fica também ao lado de Deus nem perto de Deus, ela dirige-se diretamente para Deus, na pureza do ser; é lá também que está o ser da alma, porque Deus é o ser puro.
  6. Um mestre diz: em Deus, que é o ser puro, não chega nada que não seja também ser puro.
  7. É portanto «ser» a alma que chegou direta a Deus, e em Deus. 1

Notas
  1. O segundo significado, é que a alma deve-se dirigir para o alto com todos os seus defeitos, e se colocar com toda a humildade sob a porta onde Deus se resolve em misericórdia.

    Ela deve também levar as suas virtudes e as suas obras boas.

    Da mesma forma, se alguém colocasse água por cima do vinho, a potência do vinho transformaria a água, e a tornaria tão boa quanto o vinho. Assim a alma que está bem ordenada no fundo da humildade nunca repousa antes de ir direta a Deus e de o tocar na sua nudez.

    Um mestre diz: em Deus, que é o ser puro, não chega nada que não seja também ser puro. É por isso que a alma se torna plenamente ser quando ela chega direta a Deus e em Deus. [  ]


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Mestre Eckhart – Nosso Senhor levantou os olhos 4


  1. É por isso que ele diz: «Ele dirigiu o seu olhar para cima, em direção ao céu».
  2. Um mestre grego diz que «céu» significa «habitáculo do sol».
  3. O céu derrama a sua potência no sol e nas estrelas, e as estrelas derramam a sua potência no seio da terra e produzem o ouro e as pedras preciosas, de tal forma que as pedras preciosas têm o poder de realizar obras maravilhosas.
  4. Umas têm o poder de atrair os ossos e a carne.
  5. Se uma pessoa se aproximasse delas, seria travada e não se poderia libertar a menos que dispusesse dos artifícios necessário para lhes escapar.
  6. Outras pedras preciosas atraem os ossos e o ferro.
  7. Cada pedra preciosa é um habitáculo das estrelas que recepta em si uma potência celeste.
  8. Assim, da mesma forma que o céu derrama a sua potência nas estrelas, da mesma forma as estrelas a derramam por sua vez nas pedras preciosas, nas plantas e nos animais.
  9. A planta é mais nobre do que a pedra preciosa porque ela tem uma vida que se desenvolve.
  10. Ela desdenharia crescer sob o céu material se não houvesse nele uma potência espiritual da qual ela recebe a vida.
  11. Assim, da mesma forma como o anjo mais baixo derrama a potência do céu, o move, dirige a sua revolução e a sua operação, da mesma forma o céu derrama a sua potência muito misteriosamente em cada planta e nos animais.
  12. Daí advém que cada planta tem uma propriedade que ela recebe do céu e que age em volta dela à roda como o céu.
  13. Os animais elevam-se mais alto, eles têm uma vida animal e sensorial e estão portanto fixos no tempo e no espaço.
  14. Mas a alma, na sua luz natural, naquilo que ela tem de mais alto, eleva-se acima do tempo e do espaço em igualdade com a luz do anjo e opera com ele espiritualmente no céu.
  15. Assim, a alma deve elevar-se sem cessar na operação espiritual.
  16. Lá onde ela encontra qualquer coisa da luz divina ou da semelhança divina, ela deve estabelecer a sua residência, e sem retorno até que ela suba ainda mais alto.
  17. E assim, ela deve elevar-se constantemente na luz divina e chegar assim acima de todos os habitáculos até à contemplação de Deus, pura e nua, com os anjos no céu.
  18. É por isso que ele (João) diz: «Ele olhou para o céu e disse: «Pai, o tempo chegou, glorifica o teu Filho para que o teu Filho te glorifique».
  19. Como o Pai glorifica o Filho, e como o Filho glorifica o Pai, mais vale calarem-se do que falarem; era preciso que fossem anjos, aqueles que devessem falar disso. 1

Notas
  1. Um mestre grego diz que «céu» significa «habitáculo do sol». Seguindo a cosmogonia do seu tempo, retirada de Aristóteles, frequentemente pelo canal de Alberto o Grande, Eckhart pensa que o céu derrama a sua potência no sol e nas estrelas, por sua vez as estrelas vertem a sua potência no seio da terra e produzem o ouro e as pedras preciosas, daí o poder que estas têm de realizar obras estranhas. O pregador dá com efeito exemplos bastante surpreendentes: «cada pedra preciosa, cada planta é um habitáculo das estrelas que recepta em si uma potência celeste».

    Já, no sermão 18, Jovem, digo-te, levanta-te, Eckhart se tinha questionado, junto com os «mestres», sobre o que é preferível: a potência das plantas, a potência das palavras ou a potência das pedras, e ele tinha-nos contado a história do combate da serpente e da doninha. Aqui também, ele compara as virtudes respetivas dos minerais, das plantas e dos animais. Estas poucas passagens são suficientemente instrutivas da forma como os medievais concebiam o universo.

    Nesta vasta ordenação do mundo material, o espírito não está ausente. A planta «desdenharia crescer sob o céu material se não houvesse nele uma potência espiritual da qual ela recebe a vida». No cume, «da mesma forma como o anjo mais baixo derrama a potência do céu, o move, dirige a sua revolução e a sua operação, da mesma forma o céu derrama a sua potência muito misteriosamente em cada planta e nos animais».

    A visão da alma completa este quadro grandioso. Ela eleva-se acima do tempo e do espaço para operar ao mesmo tempo que o anjo.

    Eckhart disse-nos noutro local que se um limite está atribuído ao anjo segundo a sua natureza e o seu nível na hierarquia celeste, pelo contrário a alma pode subir sem cessar mais alto, acima de todos os «habitáculos», até à contemplação pura e nua de Deus.

    Lá, o silêncio impõe-se: seria preciso falar a linguagem dos anjos, diz Eckhart, para mostrar como o Pai glorifica o Filho e o Filho glorifica o Pai. [  ]


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Mestre Eckhart – Nosso Senhor levantou os olhos 5


  1. Mas eu falarei um pouco da sua frase quando ele diz: «todos aqueles que tu me deste».
  2. Para aquele que sabe o verdadeiro sentido, «tudo o que tu me deste» significa: eu dou-lhes «a vida eterna», a mesma que tem o Filho na primeira emanação, e no mesmo fundo, e na mesma pureza, e na mesma fruição, onde Ele tem a sua própria beatitude, e onde Ele possui o seu próprio ser: «esta vida eterna, eu dou-lhes a eles» e a nenhum outro.
  3. Eu algumas vezes apresentei este significado comum, mas esta noite eu expando-o, apesar de ele se encontrar verdadeiramente na frase latina que eu frequentemente pronunciei.
  4. Tu próprio, pede-a e pronuncia-a ousadamente, pela minha vida! 1

Notas
  1. O pregador abandona agora a imagem do mundo que ele nos apresentou, para regressar às palavras do Evangelho. Ele joga, se podemos dizer, com os dois textos de São João: «tudo o que tu lhe deste (ao Filho)» (17, 2) e «todos aqueles que tu me deste» (17, 11).

    A proximidade gramatical é a mesma o que cria uma certa ambiguidade, mesmo uma certa confusão. Simplificando ao extremo a frase do pregador, ela poderia ser resumida assim: «Dá a vida eterna a todos aqueles que Tu me deste.»

    E é isto que, com o seu tu cá tu lá, ele convida pessoalmente cada um dos seus auditores a pedir. [  ]


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Mestre Eckhart – Nosso Senhor levantou os olhos 6


  1. Ele diz em seguida: «A vida eterna, é que eles te conheçam como o único verdadeiro Deus.»
  2. Se duas pessoas reconhecem Deus como Um, se uma (lhe desse o valor de mil) e se a outra reconhecesse Deus como «mais de um», mas tão pouco que seja menos (de mil), esta reconheceria mais Deus como Um do que aquela que o reconhecesse como mil.
  3. Quanto mais Deus é reconhecido como Um, mais Ele é reconhecido como Tudo.
  4. Se a minha alma fosse perspicaz, se ela fosse nobre e pura, tudo aquilo que ela conhecesse seria um.
  5. Se um anjo conhecesse uma coisa que para ele tem o valor de dez, e se um outro anjo mais nobre conhecesse a mesma coisa, não seria para ele mais do que «um».
  6. É por isso que Santo Agostinho diz: se eu conhecesse todas as coisas e não Deus, eu não teria conhecido nada. Mas se eu conhecesse Deus e não conhecesse mais nenhuma coisa, eu teria conhecido todas as coisas.
  7. Quanto mais se conhece Deus lucidamente e profundamente como Um, mais se conhece a raiz de onde saíram todas as coisas.
  8. Quanto mais se conhece como Um a raiz, e o núcleo, e o fundo, da Divindade, mais se conhecem todas as coisas.
  9. É por isso que ele diz: «que sejas conhecido como o único verdadeiro Deus».
  10. Ele não diz «como Deus sábio», nem «como Deus justo», nem «como Deus poderoso», mas «como único verdadeiro Deus».
  11. Ele quer dizer que a alma deve desprender e despojar tudo aquilo que adicionam a Deus pelo pensamento ou o conhecimento, e que ela o apreenda na sua nudez, enquanto ser puro: assim ele é «verdadeiro Deus».
  12. É por isso que Nosso Senhor diz: «A vida eterna, é que eles te conheçam como único verdadeiro Deus.» 1
  13. Que Deus nos ajude para que nós cheguemos à verdade que é ser puro, e que nós aí permaneçamos eternamente. Amém. 2

Notas
  1. «A vida eterna, é que eles te conheçam como único verdadeiro Deus.» Eckhart entrega-se aqui a uma especulação tanto mais difícil quanto o texto dos manuscritos é defeituoso.

    Apesar da deficiência da letra neste lugar, o significado evidente, é que quanto mais se conhece Deus como Um, «mais se conhece a raiz de onde saíram todas as coisas», o fundo original, a Divindade.

    A sabedoria, a justiça são «acidentes», «... que a alma desprenda e despoje tudo aquilo que adicionam a Deus pelo pensamento ou o conhecimento, e que ela o apreenda na sua nudez, enquanto ser puro. É por isso que Nosso Senhor diz: "A vida eterna, é que eles te conheçam como único verdadeiro Deus."» [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 155-160. [  ]


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Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Nosso Senhor levantou os olhos 6

Mestre Eckhart – O Senhor estendeu a sua mão



  1. Deus é uma palavra, uma palavra inexpressa
  2. O Pai é uma operação que se exprime e o Filho é uma Palavra que opera
  3. É desprezível o ser humano que não se eleva acima do humano
  4. Nós não conseguimos encontrar nenhum nome que nós possamos dar a Deus
  5. Todas as criaturas são uma palavra de Deus
  6. Tu deves morrer a todas as coisas, e a imagem em ti deve reunir-se com aquilo da qual ela é a imagem na altura, onde nós residimos no Espírito Santo



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Mestre Eckhart – O Senhor estendeu a sua mão 1


Sermão 53 - O Senhor estendeu a sua mão
  1. O Senhor estendeu a sua mão, tocou na minha boca e disse... (Jr 1, 9-10) 1
  2. Quando eu prego, eu tenho o costume de falar do desprendimento e de dizer que o ser humano deve ser desprendido dele próprio e de todas as coisas.
  3. Em segundo lugar, que devemos ser reintroduzidos no Bem simples que é Deus.
  4. Em terceiro lugar, que nos recordemos da grande nobreza que Deus colocou na nossa alma afim de que o ser humano chegue assim maravilhosamente até Deus.
  5. Em quarto lugar, eu falo da pureza da natureza divina - de quanta claridade tem a natureza divina, é inexprimível.
  6. Deus é uma palavra, uma palavra inexpressa. 2

Notas
  1. O texto deste sermão é retirado à epístola para a vigília de São João Batista (23 de junho). [  ]
  2. No início, Eckhart resume os temas principais da sua prédica em geral: o desprendimento, dito de outra forma, a obrigação do ser humano de se desprender dele próprio e de todas as coisas; de se inserir no bem simples que é Deus; de se recordar da sua grande nobreza afim de chegar até Deus.

    O enunciado do quarto tema - a pureza da natureza divina - desemboca no começo do sermão propriamente dito. [  ]


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Mestre Eckhart – O Senhor estendeu a sua mão 2


  1. Agostinho diz: «Toda a Escritura é vã. Se dizem que Deus é uma palavra, ele é expresso; se dizem que Deus é inexpresso, Ele é inexprimível.»
  2. E no entanto Ele é qualquer coisa; quem pode exprimir essa Palavra?
  3. Ninguém o faz, senão aquele que é essa Palavra.
  4. Deus é uma Palavra que se exprime a ela própria; onde Deus está, Ele pronuncia essa Palavra; onde Deus não está, Ele não fala.
  5. Deus é expresso e Ele é inexpresso.
  6. O Pai é uma operação que se exprime e o Filho é uma Palavra que opera.
  7. Aquilo que está em mim sai de mim; se eu só o penso, a minha palavra revela-o e fica no entanto no interior.
  8. Igualmente, o Pai exprime o Filho inexpresso que permanece no entanto n'Ele.
  9. Eu já aliás o disse frequentemente: quando Deus sai d'Ele próprio, ele regressa a Ele próprio.
  10. Quanto mais eu estou próximo de Deus, mais Deus se exprime em mim.
  11. Quanto mais, as criaturas dotadas de intelecto, saem delas próprias nas suas obras, mais elas reentram nelas próprias.
  12. Não se passa assim com as criaturas corporais; quando mais elas agem, mais elas saem delas próprias.
  13. Todas as criaturas querem exprimir Deus em todas as suas obras; elas o exprimem todas tão aproximadamente quanto elas podem, elas não podem no entanto exprimi-lo.
  14. Quer elas queiram ou não queiram, quer elas se alegrem ou entristeçam: elas querem todas exprimir Deus e Ele permanece no entanto inexpresso. 1

Notas
  1. Toda a Escritura é vã, diz Agostinho, no sentido em que Deus é inexprimível. Ele pode no entanto ser expresso por aquele que é a sua própria Palavra.

    «O Pai é uma operação que se exprime e o Filho é uma Palavra que opera.» O Filho exprime o Pai e permanece no entanto n'Ele.

    Repetidas vezes, Eckhart comparou o Verbo saído de Deus, permanecendo no entanto em Deus, à palavra humana que se exprime e permanece no interior do ser humano.

    Todas as criaturas dotadas de intelecto querem exprimir Deus; elas só o conseguem de forma aproximada. [  ]


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Mestre Eckhart – O Senhor estendeu a sua mão 3


  1. David diz: «O Senhor é o seu nome.»
  2. «Senhor» indica a situação superior que é uma senhoria, «servidor», uma situação inferior.
  3. Certos nomes são apropriados a Deus e separados de todas as outras coisas, como «Deus».
  4. «Deus» é o nome mais apropriado a Deus, como «homem» é o nome dum ser humano.
  5. Um ser humano é sempre um ser humano, quer ele seja insensato quer seja sábio.
  6. Séneca diz: «É desprezível o ser humano que não se eleva acima do humano.»
  7. Certos nomes designam atributos de Deus, como «Paternidade» e «Filiação».
  8. Quando se diz «Pai» entende-se também «Filho».
  9. Não pode existir um Pai a menos que exista um Filho, nem um Filho a menos que exista um Pai, mas ambos têm em si um ser eterno para lá do tempo. 1

Notas
  1. Certos nomes têm uma ligação com Deus, como «Paternidade» e «Filiação». [  ]


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Mestre Eckhart – O Senhor estendeu a sua mão 4


  1. Em terceiro lugar, certos nomes levam para o alto (nomes metafóricos) em direção a Deus e estão voltados para o tempo.
  2. Na Escritura também, se designa Deus com muitos nomes.
  3. Eu digo: ter o conhecimento de qualquer coisa em Deus e aplicar-lhe o nome, é falhar Deus.
  4. Deus está acima dos nomes e acima da natureza.
  5. Nós lemos a propósito de um homem devoto que implorava a Deus na sua oração e queria dar-lhe um nome.
  6. Um irmão disse-lhe então: «Cala-te, tu desonras Deus!»
  7. Nós não conseguimos encontrar nenhum nome que nós possamos dar a Deus.
  8. No entanto é-nos permitido dar lhe os nomes pelos quais os santos o nomearam, que Deus consagrou no coração deles e inundou de luz divina.
  9. E com isso, nós devemos primeiro aprender como devemos rezar a Deus.
  10. Nós devemos dizer: «Senhor, com estes mesmos nomes que Tu assim consagraste no coração dos teus santos e inundados com a tua luz, nós te rezamos e te louvamos.»
  11. Em seguida nós devemos aprender a não dar a Deus nenhum nome com a ilusão de que nós o conseguimos com isso suficientemente louvar e exaltar, porque Deus está «acima dos nomes» e é inexprimível. 1

Notas
  1. Na Escritura, designa-se Deus com muito nomes, mas qualquer que seja aquele que se lhe dá, não é Deus: Deus está acima de todos os nomes.

    Eckhart cita o exemplo de um homem devoto que, na sua oração, queria dar um nome a Deus. Um irmão disse-lhe: «Cala-te, tu desonras Deus!»

    É-nos no entanto permitido nomear Deus com os nomes que os santos lhe deram e que Ele consagrou no coração deles; no entanto nós não devemos ter a ilusão de que com isso nós exaltamos Deus suficientemente. [  ]


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Mestre Eckhart – O Senhor estendeu a sua mão 5


  1. O Pai exprime o Filho segundo todo o seu poder, e todas as coisas que estão n'Ele.
  2. Todas as criaturas são uma palavra de Deus.
  3. A minha boca exprime e revela Deus, mas o ser da pedra também o faz, e compreende-se mais pelos efeitos da obra do que pelas palavras.
  4. A obra opera pela natureza superior segundo o seu maior poder, a natureza inferior não a consegue compreender.
  5. Se ela operasse a mesma coisa, ela não lhe seria inferior, ela ser-lhe-ia idêntica.
  6. Todas as criaturas quereriam repetir em todas as suas obras aquilo que diz Deus, mas aquilo que elas podem revelar d'Ele é no entanto bastante pouco.
  7. Mesmo os anjos mais elevados que, no seu voo, tocam em Deus - são tão diferentes daquilo que está em Deus como o branco e o preto.
  8. Aquilo que as criaturas receberam no seu conjunto é completamente diferente, apesar de que todas quisessem exprimir o mais que elas pudessem.
  9. O profeta diz: «Senhor, tu pronuncias uma palavra e eu ouço duas.»
  10. Quando Deus se pronuncia na alma, ela e Ele só são um, mas desde que essa unidade se exterioriza, eles ficam separados.
  11. Quanto mais nós nos elevamos pelo nosso conhecimento, mais nós somos um n'Ele.
  12. É por isso que o Pai pronuncia todo o tempo o Filho na unidade e derrama nele todas as criaturas.
  13. Todas requerem retornar de onde elas fluíram.
  14. Toda a vida delas, todo o ser delas é um apelo e uma urgência em direção a de onde elas saíram. 1

Notas
  1. O Pai exprime o Filho, assim como todas as coisas que estão n'Ele. «Todas as criaturas são uma palavra de Deus. O que a minha boca exprime e revela de Deus, o ser da pedra também o faz.» Aquilo que as criaturas podem revelar de Deus, mesmo os anjos mais elevados («a natureza superior») é bem pouco.

    O profeta (Salmo 61, 12) diz: «Senhor, tu pronuncias uma palavra e eu ouço duas.» Quando Deus fala na alma, ela e Ele são apenas «um». Quando não é assim, quer dizer, quando a alma não fica mais no interior dela própria, onde Deus reside, para se voltar para as potências inferiores e as criaturas, o verbo mental e o verbo proferido são distintos. Há então duas palavras, a interior e a exterior.

    Quanto mais nós nos voltamos para dentro, mais nós somos um com a própria palavra de Deus. «É por isso que o Pai pronuncia todo o tempo o Filho na unidade e derrama nele todas as criaturas. Todas requerem retornar a de onde elas fluíram.» [  ]


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Mestre Eckhart – O Senhor estendeu a sua mão 6


  1. O profeta diz: «O Senhor estendeu a sua mão» e ele quer dizer o Espírito Santo.
  2. Ele diz também: «Ele tocou na minha boca» e acrescenta também: «Ele falou-me».
  3. A boca da alma é a parte superior da alma, é aquilo que ela pensa e diz.
  4. «Ele colocou a sua palavra na minha boca.» - É o beijo da alma; a boca tocou na boca, então o Pai gera o seu Filho na alma e então a palavra é-lhe endereçada.
  5. Ora ele diz: «Vê, eu elegi-te hoje e eu estabeleci-te sobre os povos e sobre os reinos.»
  6. Num «hoje», Deus promete de nos eleger lá onde nada existe, onde no entanto, na eternidade, Ele é um «hoje».
  7. «E eu estabeleci-te sobre os povos» - é o mundo inteiro e tu deves desprender-te dele - «e sobre os reinos» - quer dizer: tudo o que é mais do que um é demasiado, porque tu deves morrer a todas as coisas e a imagem em ti deve reunir-se com aquilo da qual ela é a imagem na altura, onde nós residimos no Espírito Santo. 1
  8. Que Deus, o Espírito Santo, nos ajude a isso. Amém. 2

Notas
  1. O pregador passa agora à exegese do texto inicial: «A mão de Deus» significa o Espírito Santo.

    «Ele tocou na minha boca, Ele falou-me.» A boca da alma é a parte superior da alma. «Ele colocou a sua palavra na minha boca.» É o beijar da alma. «Então o Pai gera o seu Filho na alma e então a palavra é-lhe endereçada: Vê, eu elegi-te hoje.»

    Comparar com o sermão 14, Em pé, levanta-te, Jerusalém: «O que significa hoje? A eternidade.»

    «... e eu estabeleci-te sobre os povos e sobre os reinos.» Quer dizer: «tudo o que é mais do que o Um é demasiado, porque tu deves morrer a todas as coisas, e a imagem em ti deve reunir-se com aquilo da qual ela é a imagem na altura, onde nós residimos no Espírito Santo.» [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 150-154. [  ]


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Mestre Eckhart – Tu deves honrar pai e mãe



  1. Tu deves honrar pai e mãe
  2. Tudo aquilo que nós conseguimos compreender na Escritura, e tudo aquilo que nos podem dizer, revela um outro sentido escondido
  3. Todas as comparações existem para servir de comparação com o Pai
  4. Toda a alegria do Pai, e o seu carinho, e o seu sorriso, estão unicamente no Filho
  5. Tudo aquilo que é conhecido, ou que nasceu, é uma imagem
  6. Quando a alma encontra o Um, onde tudo é um, ela reside nesse único Um
  7. Todas as coisas tendem para um acréscimo de perfeição
  8. Quem honra Deus? Aquele que tem em vista a honra de Deus em todas as coisas
  9. É nas trevas que se encontra verdadeiramente a luz



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Mestre Eckhart – Tu deves honrar pai e mãe 1


Sermão 51 - Tu deves honrar pai e mãe
  1. Hec dicit dominus: honora patrem tuum. Esta frase que eu disse em latim está escrita no Evangelho. Nosso Senhor a pronuncia e ela significa: «Tu deves honrar pai e mãe.» (Mt 15, 4) 1
  2. E nosso Senhor Deus dá um outro mandamento: «Tu não deves desejar o bem do teu próximo, nem a sua casa, nem a sua mulher, nem nada que lhe pertença.»
  3. O terceiro texto, é que o povo foi procurar Moisés e disse: «Perdoa-nos, porque nós não conseguimos ouvir Deus.»
  4. A quarta é o que disse nosso Senhor Deus: «Moisés, tu me farás um altar de terra e na terra, e tudo o que lá for oferecido em sacrifício, tu o queimarás.»
  5. Eis o quinto: «Moisés aproximou-se da nuvem e avançou na montanha; ele aí encontrou Deus e, nas trevas, ele encontrou a verdadeira luz.» 2

Notas
  1. Como o precedente, este sermão só aparece num texto frequentemente defeituoso, o que não facilitou o trabalho do editor. [  ]
  2. As citações que nós lemos no texto não têm entre elas uma relação evidente: elas encontram-se na epístola e no evangelho da quarta-feira depois do terceiro domingo da Quaresma, o que explica porque é que o pregador as aproximou. [  ]


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Mestre Eckhart – Tu deves honrar pai e mãe 2


  1. O senhor São Gregório diz: «Onde o cordeiro toca no fundo, o boi ou a vaca nadam, e onde a vaca nada, o elefante a ultrapassa e a água passa por cima da sua cabeça.»
  2. É um sentido muito belo, de onde se pode tirar muito.
  3. O senhor Santo Agostinho diz que a Escritura é um mar profundo; um pequeno cordeiro designa uma pessoa humilde e simples que consegue tocar no fundo da Escritura.
  4. Pelo boi que nada, é preciso entender as pessoas frustes. Cada uma toma lá aquilo que lhe convém.
  5. Mas pelo elefante que corre para diante, é-nos dado entender as pessoas espirituais que penetram na Escritura e avançam nela.
  6. Eu espanto-me que a santa Escritura seja tão densa e os mestres dizem que ela não deve ser interpretada simplesmente tal qual ela é.
  7. Eles dizem que se lá se encontra alguma coisa de grosseiro, é preciso que isso seja decifrado, mas para isso são precisas comparações.
  8. (Desses animais,) um penetrou lá até ao tornozelo, o segundo até ao joelho, o terceiro até à cintura, o quarto até por cima da cabeça e afogou-se nela.
  9. O que é que isto significa?
  10. Santo Agostinho diz: No princípio, a Escritura sorri às crianças, ela atrai a si a criança e no fim, quando se quer sondar a Escritura, ela troça das pessoas sábias e ninguém tem o espírito suficientemente simples para não encontrar lá aquilo que lhe convém, e ninguém é tão sábio que, querendo penetrá-la, não a encontra mais profunda e não encontra lá mais.
  11. Tudo aquilo que nós conseguimos compreender nela, e tudo aquilo que nos podem dizer, revela um outro sentido escondido.
  12. Tudo aquilo que nós compreendemos aqui é tão dissemelhante àquilo que está em Deus como se aquilo não estivesse. 1

Notas
  1. Como no sermão 49, este aqui começa por uma espécie de prólogo onde os animais são postos em cena: um cordeiro, um boi ou uma vaca, e um elefante. Eckhart encontra aí um muito belo símbolo de onde se podem tirar ensinamentos.

    A citação de São Gregório, retomada por Alberto o Grande, no qual aliás só são referidos o cordeiro e o elefante, é seguida neste sermão por um texto de Agostinho onde a Escritura é comparada a um mar profundo, apesar de não se ver bem como é que o cordeiro, que representa as pessoas humildes e santas, o pode sondar.

    Compreende-se melhor que o elefante se afogue nesse mar, mesmo se ele é o símbolo das pessoas espirituais, porque Mestre Eckhart já nos tinha dito várias vezes, e nomeadamente aqui, que ninguém pode verdadeiramente penetrar no sentido profundo da Escritura.

    O conjunto da parábola fica portanto um pouco confuso. [  ]


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Mestre Eckhart – Tu deves honrar pai e mãe 3


  1. Ora retomemos esta frase: «Tu deves honrar pai e mãe.»
  2. Num sentido vulgar, ela designa o pai e a mãe e a honra que se deve a eles; deve-se honrar também, e mesmo um pouco mais, todos aqueles que têm um poder espiritual, igualmente aqueles dos quais tu tens todos os bens perecíveis.
  3. Lá pode-se patinhar e tocar no fundo, mas (no sentido da palavra assim entendida) aquilo que nós obtemos é bem pouco.
  4. Uma mulher diz: E se devemos honrar aqueles dos quais recebemos um bem exterior, é bem mais preciso honrar aqueles de quem temos tudo.
  5. Todos os bens que temos aqui exteriormente na multiplicidade, são possuídos lá interiormente na unidade.
  6. Ora vocês compreendem bem que esta comparação diz respeito ao Pai.
  7. Eu pensei, esta noite, que todas as comparações existem para servir de comparação com o Pai. 1

Notas
  1. O sermão propriamente dito começa pela exegese do primeiro texto proposto, sobre a honra que se deve aos seus pai e mãe e, mais geralmente, a todas as pessoas das quais se recebe algum bem, sobretudo espiritual.

    (Não se vê nitidamente quem é essa mulher do qual o pregador fala em seguida, certos críticos pensaram na mãe de Macabeu da qual é questão no fim do sermão, mas esta interpretação não se impõe.)

    Como Eckhart sublinha, todas as comparações existem para servir de comparação com o Pai. [  ]


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Mestre Eckhart – Tu deves honrar pai e mãe 4


  1. Em segundo lugar «tu deves honrar o Teu Pai», quer dizer o teu Pai celeste de quem tu tens o teu ser.
  2. Quem honra o Pai? Ninguém outro que o Filho, só ele o honra.
  3. E ninguém também honra o Filho senão o Pai apenas.
  4. Toda a alegria do Pai, e o seu carinho, e o seu sorriso, estão unicamente no Filho.
  5. O Pai não conhece nada de exterior ao Filho.
  6. Ele tem uma tão grande alegria no seu Filho que Ele não tem outra necessidade que não seja gerar o seu Filho, porque este é uma semelhança perfeita e uma imagem perfeita do Pai. 1

Notas
  1. É portanto para o Pai celeste em primeiro lugar que deve ir toda a honra.

    Ora, só o Filho honra o Pai, e só o Pai honra o Filho. [  ]


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Mestre Eckhart – Tu deves honrar pai e mãe 6


  1. Eu pensei, esta noite, que todas as comparações são uma condição prévia.
  2. Eu não posso ver uma coisa a menos que ela me seja semelhante, e eu não posso conhecer uma coisa a menos que ela não me seja semelhante.
  3. Deus contém misteriosamente todas as coisas n'Ele próprio, não isto ou aquilo nas suas distinções, mas «um» na Unidade.
  4. O olho não tem em si a cor, o olho recebe a cor, não é a orelha que a recebe; a orelha recebe o som, e a língua o gosto.
  5. Cada um dos órgãos possuiu aquilo, com o que, ele é um.
  6. Assim, a imagem da alma, e a imagem de Deus, são um único ser, lá onde nós somos Filhos.
  7. E se eu não tivesse nem olhos nem orelhas, no entanto eu teria o ser.
  8. Se alguém me tirasse os olhos, no entanto ele não me tiraria o meu ser, nem a minha vida, porque a vida reside no coração.
  9. Se alguém me quisesse atingir nos olhos, eu meteria a minha mão na frente, e ela receberia a pancada.
  10. Mas àquele que me quisesse atingir no coração, eu oporia todo o meu corpo para preservar esse corpo.
  11. Àquele que me quisesse cortar a cabeça, eu lançaria o meu braço inteiro para guardar a minha vida e o meu ser.
  12. Eu já disse frequentemente: a casca deve ser quebrada para que saia aquilo que ela contém.
  13. Porque se tu queres ter o fruto, tu tens que quebrar a casca.
  14. E portanto, se tu queres encontrar a natureza na sua nudez, todos os símbolos devem ser quebrados, e quanto mais se penetra neles, mas se está próximo do ser.
  15. E quando ela (a alma) encontra o Um, onde tudo é um, ela reside nesse único Um.
  16. Quem honra Deus? Aquele que tem em vista a honra de Deus em todas as coisas. 1

Notas
  1. Todas as comparações são um avanço, uma aproximação. Segundo o princípio de Aristóteles, o semelhante só pode ser conhecido pelo semelhante. Portanto, de qualquer forma, se nós conhecemos Deus, só pode ser graças a um mesmo elemento n'Ele e em nós. Este elemento de semelhança é o ser.

    Deus, misteriosamente, incluiu todas as coisas n'Ele próprio, não nas suas distinções, mas na unidade.

    Os órgãos dos sentidos só podem recolher as sensações às quais eles estão adaptados. «Assim, a imagem de Deus, e a imagem da alma, são um único ser.»

    O pregador propõe diversas hipóteses para mostrar bem aos seus auditores o que é o ser: «E se eu não tivesse nem olhos nem orelhas, no entanto eu teria o ser...» Mas da mesma forma que é preciso partir a casca para obter o fruto, os símbolos devem ser quebrados, e quanto mais penetrarmos neles, mais estaremos próximo do ser. «E quando a alma encontra o Um, onde tudo é um, ela reside nesse único Um.» [  ]


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Mestre Eckhart – Tu deves honrar pai e mãe 5


  1. Os nossos mestres dizem: Tudo aquilo que é conhecido, ou que nasceu, é uma imagem.
  2. E eles explicam-se assim: Se o Pai deve gerar o seu Filho único, é preciso que Ele gere a sua imagem que reside n'Ele próprio, no seu fundo.
  3. A imagem, tal qual ela esteve eternamente n'Ele (forme illius), é a sua forma residindo n'Ele próprio.
  4. A natureza ensina, e parece-me com efeito certo, que se deve dar uma ideia de Deus por comparações, por isto e por aquilo, e no entanto Ele não é nem isto nem aquilo, e é por isso que o Pai não se contenta com isso, antes pelo contrário Ele retira-se na origem, no mais interior, no fundo e no núcleo do ser paterno onde ele esteve eternamente n'Ele próprio na Paternidade, e onde Ele desfruta d'Ele próprio, Pai enquanto que Pai Ele próprio no único Um.
  5. Aqui todas as palhas de erva, e a madeira, e a pedra, e todas as coisas são Um.
  6. Esse é o bem supremo, e eu estou apaixonado por ele.
  7. Assim portanto: tudo aquilo que a natureza é capaz de realizar, ela o projeta aí, ela precipita-se na Paternidade, afim de ser «um», e um Filho, e de se libertar de tudo o resto, e de ser totalmente «um» na Paternidade, e se ela não o consegue, de ser então o símbolo do Um.
  8. A natureza, que é de Deus, não procura nada de exterior a ela, e mesmo a natureza, que é em si, não tem nada a ver com a aparência exterior, porque a natureza, que é de Deus, não procura nada mais que a semelhança com Deus. 1

Notas
  1. Eckhart insiste neste tema que lhe é caro: a alegria que o Pai sente no seu Filho, a sua perfeita semelhança, a sua perfeita imagem «permanecem n'Ele próprio no seu fundo... tal qual ela esteve eternamente n'Ele.»

    Pode-se assim, diz Mestre Eckhart, tentar dar uma ideia de Deus por comparações, na condição de que elas sejam tidas como tais, porque elas nunca são apropriadas ao Pai que se retira no «mais interior», no «fundo», no «núcleo», Ele é «Pai enquanto que Pai Ele próprio no único Um.» [  ]


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Mestre Eckhart – Tu deves honrar pai e mãe 7


  1. Há muitos anos, eu não existia, depois há pouco tempo, o meu pai e a minha mãe comeram carne, pão e ervas que cresciam no jardim, e com isso eu tornei-me num ser humano; no entanto, o meu pai e a minha mãe não puderam cooperar nisso: Deus fez diretamente o meu corpo, e criou a minha alma a partir daquilo que é o mais elevado, então eu tomei posse da minha vida.
  2. Este grão tende a tornar-se centeio; ele tem na sua natureza o poder de se tornar fermento; é por isso que ele não tem repouso antes de ter chegado a essa mesma natureza.
  3. Este grão de fermento tem na sua natureza o poder de se tornar em todas as coisas, é por isso que ele paga a parada e aceita a morte afim de ser transformado em todas as coisas.
  4. E este mineral é cobre, ele tem na sua natureza o poder de se tornar em prata, e a prata tem na sua natureza o poder de se tornar em ouro, é por isso que ele nunca tem repouso antes de chegar a essa mesma natureza.
  5. Sim, esta madeira tem na sua natureza o poder de se tornar numa pedra.
  6. Eu digo mais ainda: ela pode tornar-se em todas as coisas; ela entrega-se ao fogo, e deixa-se consumir, para ser transformada na natureza do fogo, e ela torna-se um com o Um, e ela tem eternamente um único ser.
  7. Sim, a madeira, e a pedra, e o osso, e todas as palhas da erva foram um na primeira origem.
  8. E se a natureza age assim, o que faz então essa outra natureza que é tão pura nela própria, que não procura nem isto nem aquilo, que se desprende de tudo o resto e corre apenas em direção à pureza primeira. 1

Notas
  1. Na perspetiva de Eckhart, todas as coisas tendem para um acréscimo de perfeição.

    Os alimentos que os seus pais comeram fizeram dele um ser humano.

    O grão tende a tonar-se em fermento, o cobre e a prata a tornarem-se em ouro, a madeira entrega-se ao fogo para ser transformada na natureza do fogo. A madeira, e a pedra, e todas as palhas da erva, foram em conjunto «um» no Princípio.

    «E se a natureza (material) age assim, o que faz então essa outra natureza que é tão pura nela própria, que não procura nem isto nem aquilo, que se desprende de tudo o resto (o ser humano desprendido) e corre apenas em direção à pureza primeira (a Divindade).»

    Eckhart já nos falou desta transformação em direção à maior perfeição no sermão 3, Agora eu sei verdadeiramente, num outro contexto, mas com a mesma intenção: «Visto que Deus transforma em si coisas de tão pouco valor, o que pensam vocês então que Ele faça à alma que Ele honrou com a imagem d'Ele próprio?» [  ]


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Mestre Eckhart – Tu deves honrar pai e mãe 8


  1. Eu pensei esta noite que os céus são numerosos.
  2. Ora certas gentes incrédulas não acreditam que este pão sobre este altar possa ser transformado para se tornar no nobre corpo de Nosso Senhor, e que Deus o possa realizar.
  3. Essas más gentes que não conseguem acreditar que Deus o possa fazer!
  4. E se Deus deu à natureza o poder de se tornar em todas as coisas, é ainda bem mais possível a Deus que este pão sobre o altar se possa tornar no seu corpo.
  5. E se a fraca natureza pode transformar uma pequena folha num ser humano, é ainda bem mais possível a Deus o fazer de um pão o seu corpo.
  6. Quem honra Deus? Aquele que tem em vista a honra de Deus em todas as coisas.
  7. Este sentido é ainda bem mais manifesto, apesar do primeiro ser preferível. 1

Notas
  1. «Eu pensei esta noite que os céus são numerosos...» (céu da Lua, céu de Mercúrio, céu de Vénus, céu do Sol, etc.) que realizam a sua revolução em torno da Terra, centro do mundo. Eckhart, naturalmente, fez sua esta noção vinda da Antiguidade, que será ainda a de Dante.

    Se Deus deu assim à natureza o poder de se tornar em todas as coisas, e aos alimentos de se transformarem em corpo humano, como é que «más gentes» podem não acreditar que o pão sobre o altar se pode tornar no seu corpo? Em todos os seus argumento, o princípio é portanto sempre o mesmo: Deus transforma e assimila em si todas as coisas.

    «Quem honra Deus? Aquele que tem em vista a honra de Deus em todas as coisas. Este sentido é ainda bem mais manifesto, apesar do primeiro ser preferível», «todas as comparações existem para servir de comparação com o Pai». [  ]


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Mestre Eckhart – Tu deves honrar pai e mãe 9


  1. O quarto sentido: eles mantiveram-se afastados e disseram a Moisés: «Moisés, fala-nos, nós não conseguimos ouvir Deus.»
  2. Eles estavam longe, e essa era a escória que os impedia de ouvirem Deus.
  3. Moisés entrou na nuvem e avançou na montanha, e lá ele viu a luz divina.
  4. É nas trevas que se encontra verdadeiramente a luz.
  5. Assim, quando se está no sofrimento e na aflição, essa luz está mais próxima de nós.
  6. Que Deus faça o melhor ou o pior, Ele precisa de se dar a nós, quer seja nos tormentos ou na aflição.
  7. Uma santa mulher tinha numerosos filhos, e quis matá-los, ela riu-se e disse: «Não se entristeçam, fiquem alegres e pensem no vosso Pai celeste, porque vocês não têm nada de mim.»
  8. Tal como se ela quisesse dizer: «Vocês têm o vosso ser diretamente de Deus.»
  9. Isto convém bem ao nosso propósito.
  10. Nosso Senhor diz: «As tuas trevas - é o teu sofrimento - serão transformadas em luz clara.»
  11. Mas eu não devo tender para nada, nem desejar nada.
  12. Eu disse noutro lugar: as trevas escondidas da luz invisível na eterna Divindade são ignoradas e nunca serão conhecidas.
  13. E a luz do Pai eterno brilhou eternamente nessas trevas, e essas trevas não apreenderam a luz. 1
  14. Que Deus nos ajude a chegar a essa luz eterna. Amém. 2

Notas
  1. Dos cinco textos citados no princípio do sermão, Eckhart só comentou verdadeiramente o primeiro. Ele passou completamente sem dizer nada do segundo e do quarto, e falou brevemente do terceiro (o povo disse a Moisés), mas mais longamente do quinto (chamado erradamente de quarto).

    Moisés, tendo penetrado na nuvem e subido a montanha, viu a luz divina. «É nas trevas que se encontra verdadeiramente a luz. Assim, quando se está no sofrimento e na aflição, essa luz está mais próxima de nós.» O pregador cita, desta vez sem dúvida possível, a mãe dos Macabeus, apesar de ele lhe chamar apenas «uma santa mulher».

    «Nosso Senhor diz: As tuas trevas - é o teu sofrimento - serão transformadas em luz clara.» E eis como que a assinatura de Mestre Eckhart: « Mas eu não devo tender para nada, nem desejar nada.» [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 131-137. [  ]


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Mestre Eckhart – Antigamente vocês eram trevas



  1. Os profetas hesitavam em transmitir o conhecimento que tinham de Deus
  2. O Pai gera o seu Filho único, e dessa efusão desabrocha o Espírito Santo que é o Espírito de um e do outro
  3. No nascimento eterno, onde o Pai gera o seu Filho, a alma fluiu no seu ser, e a imagem da Divindade é impressa na alma
  4. Não há devir em Deus, é um «agora», um devir sem devir, um novo sem renovação: eis o devir que é o seu ser



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Mestre Eckhart – Antigamente vocês eram trevas 1


Sermão 50 - Antigamente vocês eram trevas
  1. São Paulo diz: «Antigamente vocês eram trevas, mas agora uma luz em Deus.» (Ef 5, 8) 1
  2. Os profetas que caminham na luz conhecem e encontram, sob a influência do Espírito Santo, a verdade escondida.
  3. Eles eram, por vezes, levados a voltarem-se para o exterior e a falar, para a nossa beatitude, das coisas que eles conheciam, e nos ensinarem a conhecer Deus, depois acontecia-lhe que se calavam porque eles não conseguiam falar.
  4. Isto por três causas.
  5. Aprimeira: o bem que eles conheciam e contemplavam em Deus era tão grande e tão escondido que não se podia formar no entendimento deles, porque tudo aquilo que aí se podia formar era tão desigual àquilo que eles contemplavam em Deus, e tão falso, comparado com a verdade, que eles se calavam, não querendo mentir.
  6. A segunda causa: tudo aquilo que eles viam em Deus era tão igualmente grande e nobre que eles não lhe conseguiam tirar nem imagem, nem forma, para falar daquilo.
  7. A terceira causa do mutismo deles, é que eles viam na verdade escondida, e encontravam em Deus o mistério que eles não conseguiam traduzir em palavras.
  8. Acontecia-lhes no entanto por vezes de se voltarem para o exterior e de falarem, e devido à dissemelhança com a verdade, eles caiam na matéria grosseira, e queriam ensinar-nos a conhecer Deus com as coisas baixas da criatura. 2

Notas
  1. Este sermão só está contido num único manuscrito. Ele é por vezes defeituoso, apresenta mesmo talvez algumas lacunas. Josef Quint fez dele uma cópia diplomática, restabelecendo uma pontuação que o torna legível. [  ]
  2. Para a primeira parte da citação bíblica: «Antigamente vocês eram trevas», Eckhart cita o exemplo dos profetas que hesitavam em transmitir o conhecimento que eles tinham de Deus, de tal forma aquilo que eles tinham contemplado era diferente daquilo que se podia formar no entendimento deles, aparecia tão grande e nobre que formas e imagens se furtavam a eles, que as palavras lhes faltavam para exprimir.

    Quando, no entanto, eles se voltavam para o exterior para tentar comunicá-lo, eles caiam na «matéria grosseira», no tempo, nas trevas que obscurecem a luz. [  ]


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Mestre Eckhart – Antigamente vocês eram trevas 2


  1. Ora Paulo diz: «Antigamente vocês eram trevas, mas agora uma luz em Deus.»
  2. «Aliquando», para aquele que consegue plenamente sondar esta palavra, significa «antigamente» e designa o tempo que obstrui para nós a luz, porque nada é tão contrário a Deus como o tempo.
  3. Não apenas o tempo, ele quer dizer também uma ligação ao tempo; ele também não quer dizer apenas uma ligação ao tempo, ele quer dizer também um contato com o tempo.
  4. Não apenas um contato com o tempo, menos ainda: um cheiro e um odor do tempo, da mesma forma que um odor fica lá onde uma maçã foi colocada: entende assim o contato com o tempo.
  5. Os nossos melhores mestres dizem que o céu material, o sol e também as estrelas têm tão pouco a ver com o tempo que eles apenas tocam no tempo.
  6. Aqui eu penso que a alma é absolutamente criada longe acima do céu e que, naquilo que ela tem de mais elevado e de mais puro, ela não tem nada a ver com o tempo.
  7. Eu falei frequentemente da operação em Deus e do nascimento: o Pai gera o seu Filho único, e dessa efusão desabrocha o Espírito Santo que é o Espírito de um e do outro; nessa difusão, a alma brota e flui, e a imagem da Divindade é impressa na alma, e nesse fluxo e refluxo das três Pessoas a alma é reconduzida e é de retorno formada na sua primeira imagem sem imagem. 1

Notas
  1. «Nada é tão contrário a Deus como o tempo.» O pregador insiste nesse ponto: não apenas o tempo, mas a ligação ao tempo, o contato com o tempo, mesmo «o odor do tempo».

    Os mestres dizem que o céu material, o sol e as estrelas têm pouco a ver com o tempo. Entre esse mestres, Eckhart cita a esse propósito Agostinho no seu Comentário I sobre a Génese.

    Igualmente a alma, naquilo que ela tem de mais elevado e de mais puro, não tem nada a ver com o tempo.

    Eckhart fala das processões trinitárias segundo a teologia clássica. Na difusão das Pessoas, a alma brota e flui, e a imagem da Divindade é impressa na alma. Nesse fluxo e refluxo das três Pessoas no fundo delas, a alma reflui, e é de retorno formada na sua primeira imagem sem imagem. [  ]


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Mestre Eckhart – Antigamente vocês eram trevas 3


  1. É o que pensa Paulo quando diz: «mas agora uma luz em Deus».
  2. Ele não diz: «vocês são uma luz», ele diz: «mas agora uma luz».
  3. Ele quer dizer aquilo que eu disse frequentemente: é preciso que aquele que deve conhecer as coisas, as conheça na sua causa.
  4. Os mestres dizem: as coisas têm uma ligação ao seu nascimento, porque lá elas podem ter do ser a visão mais pura.
  5. Porque, onde o Pai gera o seu Filho, é um «agora» presente.
  6. No nascimento eterno, onde o Pai gera o seu Filho, a alma fluiu no seu ser, e a imagem da Divindade é impressa na alma. 1

Notas
  1. Eckhart passa ao comentário da segunda parte do texto: «Mas agora uma luz». Ele dá certamente uma grande importância à forma na qual São Paulo exprime o seu pensamento, e sublinha o facto de Paulo não dizer «vocês são uma luz», mas antes «agora uma luz em Deus».

    No sermão 21, Um Deus e Pai de todos, já tivemos um exemplo do comentário que ele fez desta omissão. Nesse sermão, o verbo «ser» parece a Eckhart ter para São Paulo o sentido duma modificação, de uma relação com a temporalidade. Tal é sem dúvida o caso deste sermão aqui.

    Todo o comentário incide aqui na oposição entre «aliquando» e «» (nunc), «antigamente» e «agora»: «Ele (São Paulo) quer dizer aquilo que eu disse frequentemente: é preciso que aquele que deve conhecer as coisas, as conheça na sua causa.» Quer dizer em Deus, que é o ser puro sem modificações.

    Eckhart retoma aquilo que ele nos disse mais acima: lá onde o Pai gera o seu Filho, é um instante, um «agora» presente: a alma fluiu no seu ser, e a imagem da Divindade é impressa na alma. [  ]


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Mestre Eckhart – Antigamente vocês eram trevas 4


  1. Quando se falou disto na Escola, alguns mestres disseram que Deus imprimiu a imagem na alma como aquele que pinta uma imagem na parede, e que se apaga. Isto foi contradito.
  2. Outros mestres falaram melhor e disseram que Deus imprimiu uma imagem permanente, como um pensamento que permanece nela.
  3. Como por exemplo: hoje eu tenho uma vontade, e eu tenho amanhã o mesmo pensamento, e eu retenho a imagem pela minha representação permanente.
  4. Eles disseram portanto que as obras de Deus são perfeitas.
  5. Se o carpinteiro fosse perfeito na sua obra, ele não teria necessidade de materiais: assim que ele pensasse nela, a casa estaria acabada.
  6. Tais são as obras de Deus: assim que Ele pensa nelas, as obras são completadas num «agora» presente.
  7. Veio o quinto mestre, ele foi o melhor a falar, e disse: não há devir (em Deus), é um «agora», um devir sem devir, um novo sem renovação: eis o devir que é o seu ser.
  8. Em Deus há uma subtileza na qual não pode haver renovação.
  9. Há também na alma uma subtileza tão pura e tão delicada que não pode haver nela renovação porque tudo aquilo que está em Deus é um «agora» presente sem renovação 1
  10. Eu queria falar de quatro coisas: da subtileza de Deus, e da subtileza da alma, e da operação em Deus, e da operação da alma, mas vou ficar por aqui. 2

Notas
  1. O pregador evoca em seguida um discurso de Escola: na Sorbonne? no studium generale de Colónia? Todos os mestres que se encontram lá reconhecem na alma humana a presença de Deus, com mais ou menos intensidade: para um, como uma pintura fugaz numa parede, para outro, uma imagem permanente.

    E esse quinto, que diz melhor, não seria Eckhart? É-nos permitido supô-lo, visto a citação ser anónima. Se ele não emitiu, ele próprio, essa opinião, ele fê-la sua: está certamente aí não apenas o seu pensamento, mas a sua maneira: «Não há devir, é um "agora", um devir sem devir, um novo sem renovação, e o devir é o seu ser.»

    Ele já nos disse no sermão 20a, Um homem tinha preparado um festim: «O que quer que Deus dê, isso foi sempre um devir; o seu devir é agora novo e total num "agora" eterno.»

    Neste sermão, o termo «kleinlicheit» é empregue quer para designar o fundo original em direção ao qual fluem e de onde refluem as Pessoas divinas (Divindade) como aquilo que, na alma, é vulgarmente designado por numerosos termos diferentes, e sobretudo «a centelha», ou «a pequena centelha», ou o «qualquer coisa na alma».

    O termo «klein» no alemão de Mestre Eckhart, e mesmo ainda hoje, cobre um campo semântico mais vasto do que o português correspondente «pequeno». Ele pode evocar qualidades de fineza, de delicadeza, de beleza (das Kleinod, a jóia). A tradução desta palavra por «subtileza», em vez de «imponderabilidade», segue a tradução que Josef Quint faz para o alemão moderno: «Subtilität».

    No final do sermão, o pregador informa-nos que tinha querido tratar ainda de outras questões, mas que fica por aqui. Por vez acontece-lhe acabar abruptamente, como aconteceu neste caso. [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 126-130. [  ]


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