Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 4



Da brevidade desta obra, e como não se pode chegar a ela pela curiosidade do espírito nem pela imaginação.
  1. Mas, afim de que tu não erres, nem penses que esta obra é diferente daquilo que ela é, é preciso que eu te fale dela um pouco mais longamente, segundo o meu entendimento.
  2. Esta obra não reclama um longo tempo, como crêem alguns, para a sua verdadeira realização; é com efeito a operação mais breve de todas aquelas que o ser humano possa imaginar. Ela nunca dura mais, nem menos, do que um átomo 1, o qual átomo, segundo a definição dos verdadeiros filósofos na ciência da astronomia, é a mais pequena parte do tempo: tão pequena que por causa mesmo da sua pequenez ele é indivisível e quase incompreensível. É sobre ele, sobre esse tempo, que está escrito: Todo o tempo que te é dado a ti, a ti será perguntado como tu o gastaste. E é motivo para que tu te preocupes com isso, porque ele não é nem mais longo nem mais curto, mas ele tem a medida certa, não mais, daquilo que é por dentro o principal poder ativo da tua alma: quer dizer a tua vontade. Porque pode haver e há, numa hora da tua vontade, exatamente tantos quereres e desejos, nem mais nem menos, que há de átomos numa hora.
  3. Ora se tu te encontrasses, pela graça, restabelecido no primeiro estado da alma humana, tal qual ela estava antes do pecado, então, e com a ajuda dessa mesma graça, tu serias mestre do seu, ou dos seus movimentos; e dessa forma ninguém se iria perder, mas todos convergiriam e tenderiam para o soberanamente desejável e supremo bem, o qual é Deus 2. Porque Ele vem mesmo à conveniência da nossa alma pela medida que Ele dá à sua Divindade; e a nossa alma igualmente está à Sua conveniência pela excelência original da nossa criação «à Sua imagem e à Sua semelhança». E por Ele próprio apenas, e nada para além d'Ele e n'Ele, Ele é plenamente suficiente, e ainda bem mais, para preencher a vontade e o desejo da nossa alma. E, pela virtude reformadora da graça, a nossa alma torna-se plenamente suficiente e capaz de O compreender inteiramente, a Ele que é incompreensível a todas as faculdades e poderes de conhecimento das criaturas, quer angélicas quer humanas: eu entendo bem pela ciência, mas não pelo amor delas. E é por isso que eu lhes chamo, neste caso, de faculdades do conhecimento. No entanto, todas as criaturas que têm inteligência, as angélicas assim como as humanas, possuem nelas próprias e cada uma por si, uma primeira potência operativa principal, a qual se chama de conhecimento, e uma outra potência operativa principal, a qual se chama do amor. Das quais duas faculdades, Deus é o criador delas, permanece sempre incompreensível à primeira, que é a do conhecimento; e à segunda, que é a do amor, Ele é completamente compreensível, plenamente e inteiramente, embora diversamente para cada um. Por forma que uma única mesma alma pode, pela virtude do amor, compreender nela própria Aquele que é em Si plenamente suficiente – e incomparavelmente mais ainda – para encher e cumular todas as almas e todos os anjos alguma vez criados. E é este o imenso e maravilhoso milagre do amor cuja obra nunca conhecerá fim, até sempre Deus o fará e que nunca Ele deixará de fazer. Que veja isto, aquele a quem a graça deu olhos para ver, porque é uma infinita benção o ter o sentimento dele, e o contrário é uma desolação infinita.
  4. E é por isso que aquele que foi restabelecido pela graça a permanecer constantemente na guarda dos movimentos da sua vontade – visto que ele não pode estar, por natureza, sem esses movimentos – nunca estará nesta vida sem qualquer gosto da infinita suavidade, nem na beatitude do céu sem o seu pleno e completo alimento. Portanto não te espantes se eu te impilo e te incito para esta obra. Porque ela é a própria obra, como tu vais aprender em seguida, que o ser humano teria prosseguido se ele não tivesse pecado: é a obra para a qual o ser humano foi feito, e todas as coisas para o ser humano, afim de lhe prestarem assistência e o impelirem mais para diante; e também é trabalhando nela que o ser humano será restabelecido de novo. Porque pela falta a este trabalho, cada vez mais profundamente o ser humano cai no pecado, cada vez mais longe e mais longe de Deus. Mas ao meter e guardar nesta obra o seu contínuo esforço, sem mais, o ser humano se ergue cada vez mais do pecado, sempre mais perto e mais perto de Deus.
  5. E é por isso que tu deves tomar portanto grandemente guarda ao tempo, e como tu o despendes: porque nada é mais precioso do que o tempo. Um nada de tempo, tão pequeno quanto seja, e o céu pode ser ganho e perdido. Uma garantia que o tempo é precioso, é que Deus, que é o dispensador dele, nunca nos dá dois tempos ao mesmo tempo mas sempre um depois do outro. Ele faz assim porque Ele não quer reverter a ordem e o curso normal das coisas na Sua criação. Porque o tempo é feito para o ser humano, e não o ser humano para o tempo. E é por isso que Deus, a quem pertence o governo da natureza, não quer, pelo Seu dom do tempo, preceder o movimento da natureza na alma humana, o qual movimento tem a exata medida de um tempo, e nada mais do que um tempo. Por forma a que no Julgamento, o ser humano não terá desculpas a invocar diante de Deus e, prestando contas do tempo despendido, ele não terá que dizer: «Tu deste-me dois tempos ao mesmo tempo, e eu só tinha um movimento de cada vez.»
  6. Mas, cheio de tristeza, eis que tu me dizes: «Como farei? E visto que é assim como tu dizes, como daria eu conta de cada tempo separadamente? Eu, que até este dia, com presentemente vinte e quatro anos de idade, nunca tive cuidado com o tempo. Agora, se eu quisesse retificar, tu sabes perfeitamente, pela própria razão das palavras que tu escreveste mais acima, que isso não é possível nem segundo o curso natural, nem pelo socorro da graça comum, e que eu não saberia presentemente ter cuidado e fazer reparação senão unicamente para os tempos que estão para vir. E para além disso ainda, eu sei seguramente, pelo facto da minha excessiva fragilidade e da minha indolência de espírito, que mesmo para esses tempos que estão para vir, eu não seria de nenhuma maneira capaz de vigiar mais de um em cem. Por forma que eu sou verdadeiramente prisioneiro dessas razões. Pelo amor de Jesus, ajuda-me agora!»
  7. Muito certo e muito exatamente dito: pelo amor de Jesus! Porque no amor de Jesus, lá com efeito estará a tua ajuda e o teu socorro. O amor tem este poder, que todas as coisas então são postas em comum. Também portanto ama Jesus, e tudo o que ele tiver será teu. Ele é, pela Sua Divindade, o criador e dispensador do tempo. Ele é, pela sua humanidade, o guarda verdadeiro do tempo. E pela Sua Divindade em conjunto com a sua humanidade, Ele é o Juiz mais exato, e que pede contas do tempo despendido. É por isso que tu te deves unir a Ele, pelo amor e pela fé, e assim, pelo efeito e virtude dessa ligação, tu perceberás em comum com Ele, e com todos que pelo amor estão também ligados a Ele: é, a saber, com a nossa Senhora Santa Maria que era plena de todas as graças nessa guarda do tempo, depois, com todos os anjos do céu, os quais nunca puderam perder qualquer tempo que fosse, e com todos os anjos do céu e da terra, os quais, pela graça de Jesus, em virtude do amor, tomaram com exatidão um verdadeiro cuidado com o tempo. Vê portanto! Aqui se encontra o reconforto: medita nisto claramente, e para ti tira disto algum proveito.
  8. Mas eu aviso-te de uma coisa entre todas as outras: Eu não vejo quem poderia pretender a ter uma comunhão equitativa assim com Jesus e a Sua Mãe, com os Seus anjos eminentes e os Seus santos, se não fosse alguém que faça por si próprio todos os seus esforços e o seu possível afim de ajudar a graça nessa guarda do tempo. De tal forma que o vejamos pela sua parte, tão pequena quanto ela seja, vir em benefício da comunhão, assim como entre eles, cada um o faz pela sua.
  9. Também portanto dá a tua atenção a esta obra, e à sua maravilhosa maneira, interiormente, na tua alma. Porque desde que ela seja bem concebida, não é mais do que um brusco movimento, e como que inesperado, que se lança vivamente para Deus, tal como uma faísca de carvão. E maravilhoso é contemplar os movimentos que podem, numa hora, fazer-se numa alma que foi disposta para este trabalho. E no entanto basta um único movimento entre todos esses, para que ela tenha, subitamente e completamente, esquecido todas as coisas criadas. Mas imediatamente depois de cada movimento, devido à corrupção da carne, é a queda de novo em qualquer pensamento ou qualquer ação, executada ou não. Mas o que importa? Porque imediatamente depois, ela se lança de novo tão rapidamente como ela tinha feito antes.
  10. E aqui nós podemos fazer uma breve ideia da matéria desta operação, e claramente discernir que ela está longe de todas as visões, falsas imaginações ou bizarrias do pensamento: porque assim, ela não seria produzida por um tão devoto e humilde impulso cego do amor, mas antes por um espírito imaginativo, cheio de orgulho e de curiosidade. Semelhante espírito de orgulho e de curiosidade deve ser sempre rebaixado e duramente calcado com os pés, se verdadeiramente, esta obra, for na pureza do coração que a queremos conceber. Porque alguém, por ter ouvido qualquer coisa desta obra, quer por leitura quer por palavras, imaginasse que se pudesse ou devesse lá chegar pelo trabalho do espírito; e desde então se sentasse e se pusesse a procurar na sua cabeça como ela pode realmente ser, e, nessa curiosidade, fizesse trabalhar a sua imaginação talvez verdadeiramente ao contrário da ordem natural, indo inventar um tipo ou maneira de operar, a qual não é nem corporal nem espiritual – na verdade essa pessoa, quem quer que ela seja, está perigosamente no erro. A um tal ponto, que a menos que Deus, na Sua grande bondade não realize um milagre de misericórdia e não a faça rapidamente deixar esse esforço e vá pedir conselho, humildemente, àqueles que têm experiência, essa pessoa então cairá nas loucuras frenéticas, ou ainda em outros grandes pecados contra o espírito ou ilusões diabólicas, pelas quais essa pessoa pode muito facilmente perder ao mesmo tempo a sua vida e a sua alma, agora e sempre.
  11. E por isso portanto, pelo amor de Deus, mostra prudência nesta obra e não trabalhes de nenhuma maneira nem pelo espírito nem pela imaginação; porque eu digo-te verdadeiramente: ela não pode ser feita pelo trabalho deles. Deixa-os pois, e nunca trabalhes com eles.
  12. E não creias, porque eu falei numa "obscuridade" ou numa "nuvem", que possa ser qualquer nuvem da acumulação dos humores que flutuam no ar, nem também uma obscuridade como dentro da tua casa, de noite, quando a candeia é apagada. Porque uma tal "obscuridade" e uma tal "nuvem", tu as podes imaginar pela curiosidade do espírito, e ter uma diante dos teus olhos no dia mais luminoso do verão, assim como também, pelo contrário, na mais escura noite do inverno, tu podes imaginar uma luz brilhante e clara. Deixa uma tal falsidade. Eu não quero dizer nada disso. Porque quando eu digo "obscuridade", eu quero dizer um falta ou ausência de conhecimento, como é obscura para ti uma coisa que tu não conheces ou que tu esqueceste: visto que tu não a vês com o olho do espírito. E por essa razão, ela não é chamada uma "nuvem do ar", mas uma "nuvem de desconhecimento", a qual está entre ti e o teu Deus.

Notas
  1. Átomo, ou athomo: cerca de 1/6 de segundo. A hora, na idade média, dividia-se em 60 ostenta, das quais cada uma continha 376 atomi. [ ]
  2. Se a alma fosse restabelecida no primitivo estado da alma, tal qual ela estava antes do pecado, então tu serias mestre dos movimentos da tua vontade (ou desejo); e dessa forma nenhuma alma se iria perder, mas todas convergiriam e tenderiam para Deus. [ ]



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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 3



Como deve ser empreendida a obra que diz este livro, da sua preeminência sobre todas as coisas.

  1. Eleva para Deus o teu coração num impulso de humildade e de amor; pensa n'Ele apenas, e não nos Seus bens 1. Assim, considera com repugnância todos os pensamentos que não sejam d'Ele 2. Por forma a que no teu entendimento e na tua vontade, não haja outra obra senão a Sua 3. E aquilo que tu tens de fazer, é esquecer todas as criaturas que Deus alguma vez fez, e mesmo as obras delas 4, a fim de que nem o teu pensamento nem o teu desejo não se levantem nem se inclinem para nenhuma delas, nem no geral nem no particular 5; deixa-as existirem e não te preocupes com elas. A obra da alma que mais agrada a Deus, é esta 6. Todos os santos e os anjos têm alegria neste trabalho e eles apressam-se a ajudar nele com todas as suas forças. Os demónios entram todos em furor quando tu te dedicas a ele, e eles esforçam-se tanto que eles podem conseguir que falhemos nele. Todos os humanos vivos sobre a terra são maravilhosamente assistidos por eles (os santos e os anjos), apesar de tu não saberes como. E as almas no purgatório, sim, são aliviadas das suas penas pela virtude desta operação. Tu próprio és purificado por ela e és tornado virtuoso mais que por qualquer outra obra. E no entanto, é a mais fácil de todas, quando com a graça a alma se sente levada até ela, e é o mais rapidamente feita. Mas de outra forma, ela é árdua, e é para ti como que um prodígio o realizá-la.
  2. É por isso que tu não te deves relaxar, mas deves trabalhar até à altura em que tu te sintas levado até ela (esta obra). Porque, nos começos, quando tu o fazes, não encontras nada a não ser uma obscuridade; e como se aí existisse uma nuvem de desconhecimento, tu não sabes o quê, exceto que tu sentes na tua vontade um impulso movido para Deus. Essa obscuridade e essa nuvem estão, o que quer que tu faças, entre ti e o teu Deus, e elas fazem com que tu não possas nem claramente O ver pela luz do entendimento na tua razão, nem O sentir na tua afeição pela doçura do amor. 7
  3. Portanto, prepara-te para estares nessa obscuridade tanto quanto tu possas, sempre mais suspirando por Aquele que tu amas. Porque se alguma vez o teu sentimento chegar a O conhecer ou se tu O vires, tanto quanto se pode aqui em baixo, sempre será na nuvem dessa obscuridade. E se tu tens vontade de te esforçares ativamente assim como eu te peço, eu tenho toda a confiança na Sua misericórdia que tu lá chegarás.

Notas
  1. A alma humana é constituída por três potências: 1) o Entendimento (ou Razão, ou Mente), 2) a Memória, e 3) a Vontade (ou Desejo). O "coração" (a Vontade ou Desejo) deve elevar-se para Deus num impulso de humildade e de amor. [ ]
  2. No Entendimento (ou Razão, ou Mente) considerar com repugnância todos os pensamentos que não sejam de Deus. [ ]
  3. No Entendimento (ou Razão, ou Mente) e na Vontade (ou Desejo) não deve haver outra obra senão a obra de Deus. [ ]
  4. A Memória deve esquecer todas as criaturas, e mesmo as obras das criaturas. [ ]
  5. A fim de que nem o teu pensamento (o Entendimento, ou Razão, ou Mente) nem o teu desejo (ou Vontade) não se levantem nem se inclinem para nenhuma das criaturas, nem no geral nem no particular. [ ]
  6. Portanto, a "obra" de que fala este livro consiste em: 1) o Entendimento (ou Razão, ou Mente) deve considerar com repugnância todos os pensamentos que não sejam de Deus, 2) a Memória deve esquecer todas as criaturas, e mesmo as obras das criaturas, e 3) a Vontade (ou Desejo) deve elevar-se para Deus num impulso de humildade e de amor. [ ]
  7. Essa obscuridade e essa nuvem estão, o que quer que tu faças, entre ti e o teu Deus, e elas fazem com que tu não possas nem claramente ver Deus pela luz do entendimento na tua razão (o pensamento na Mente), nem sentir Deus na tua afeição (o amor na Vontade ou Desejo) pela doçura do amor. [ ]



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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 2



Curta exortação à humildade e à realização da obra que este livro diz.

  1. Também agora olha, miserável criatura, e vê o que tu és. O que és tu então, e em quê então tu mereceste ser assim chamado por nosso Senhor? Que fraco e miserável coração, completamente adormecido na preguiça, o qual não será acordado pela atração desse amor e pela voz desse apelo! Mas atenção, infeliz, desconfia imediatamente do teu inimigo, e não te consideres nunca mais santo ou melhor pelo facto da excelência desse apelo e pelo género de vida solitária onde tu entraste. Que miséria, pelo contrário, e que maldição, se tu não tiras o melhor de ti mesmo, quando tu tens o suporte da graça e da direção espiritual, para viveres segundo a tua vocação! Também, quanto maior é preciso que sejam a tua humildade e o teu amor espiritual pelo esposo, quando Ele que é o Deus todo-poderoso, Rei dos reis e Senhor dos senhores, se tornou humilde ao ponto de se abaixar até ti e, de todas as ovelhas do seu rebanho, te fazer a graça de te escolher para seres um daqueles que Lhe estão reservados, outorgando-te no pasto um lugar onde tu possas ser alimentado com as suavidades do Seu amor, como antecipação da tua herança no reino dos céus.
  2. Em ação, portanto, e sem demoras, eu te suplico. Olha no presente diante de ti e deixa o que está para trás: vê aquilo que te falta, e não aquilo que tu tens, é o caminho mais certo para tu ganhares e guardares a humildade. Toda a tua vida agora consiste e está no desejo, se tu deves avançar nos degraus da perfeição: esse desejo que só pode ser absolutamente criado e formado na tua vontade pela mão de Deus todo-poderoso, mas com o teu acordo. E eu digo-te uma coisa: Ele é um amante ciumento e que não suporta partilhar; Ele não se compraz em agir na tua vontade se Ele não estiver nela sozinho, unicamente, contigo. Ele não reclama nenhuma ajuda, mas apenas a ti próprio. É Ele que quer, e tu só tens que olhar para Ele e deixá-lo, a Ele só. Mas compete a ti o guardares bem as janelas e as portas, porque as moscas e os inimigos assaltam através delas.
  3. E se tu tens o firme propósito de fazer assim, tu não tens outra necessidade senão a de suplicares humildemente a Ele na oração, e em breve Ele quererá ajudar-te. Suplica-lhe portanto, e faz ver quais são as tuas disposições. Ele está pronto e Ele só te escuta a ti. Mas o que fazes tu, e como é que tu Lhe vais suplicar?


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 1



Dos quatro graus da vida do cristão; e como os percorre a vocação que diz este livro.

  1. Amigo espiritual em Deus, tu deves perfeitamente compreender que, grosseiramente, eu vejo quatro graus ou estados na vida do cristão: os quais são a saber, da vida comum (ou vulgar), da vida especial (ou religiosa), da vida solitária e da vida perfeita. Os três primeiros têm o seu começo e fim nesta vida; mas o quarto, que pela graça pode começar aqui, nunca terá fim a não ser na beatitude do céu.
  2. E tais como tu os encontras ordenados aqui, e em primeiro a vida comum, depois a vida especial, em seguida a vida solitária e a perfeita no fim, tais justamente e nesta mesma ordem são os graus, segundo a minha opinião, pelos quais, na sua grande misericórdia, Nosso Senhor te chama e te conduz a Ele no desejo do teu coração. Porque tu sabes bem que quando tu vivias anteriormente no grau comum da vida cristã e na companhia dos teus irmãos do mundo, foi muito evidentemente o Seu eterno amor – pelo qual tu foste feito e criado do nada onde estavas, e resgatado ao preço do Seu precioso sangue do pecado de Adão onde tu estavas perdido – que não quis suportar que tu estivesses tão longe d'Ele nesse estado e nesse grau da vida. E é por isso que Ele muito graciosamente suscitou o teu desejo, e pelo liame do fervor o firmou, conduzindo-te assim e levando-te a uma forma de vida e ao estado mais especial de servidor no número dos seus servidores, por forma a que te foi possível aprender a viver mais espiritualmente e mais especialmente ao Seu serviço: muito mais do que tu tinhas feito ou que tu tivesses podido fazer no grau comum da tua vida anterior. Mas mais?
  3. No entanto, parece que Ele não te deixou, nem te abandonou assim ligeiramente, no amor do Seu coração que Ele não deixou de ter por ti desde quando tu eras tão pouco quanto nada. Mas o que é que Ele fez? Não vez tu com que cuidados e que atenções, com quantas graças, Ele te elevou intimamente em direção ao terceiro grau e a terceira forma de vida, a qual é chamada solitária? E nessa forma e nesse estado de vida solitária, tu podes aprender a elevar mais alto o teu amor e a caminhar em direção àquele estado e àquele grau, o qual é o último de todos, que é o da vida perfeita.


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Nuvem de Desconhecimento – Advertência


  1. Amigo espiritual em Deus, eu te peço e te adjuro de teres uma constante e sustida consideração e um perpétuo olhar sobre a maneira e a matéria da tua vocação. E que no teu coração tu dês graças a Deus de poder, pela assistência da Sua graça, te manter firmemente no estado, no grau e na forma de vida que tu plenamente escolheste contra todos os assaltos subtis dos inimigos espirituais e corporais, e triunfar até à coroa da vida que não tem fim. Amém.


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Nuvem de Desconhecimento – Prólogo


  1. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo! Eu te peço e te adjuro, com toda a energia e força compatíveis com a caridade, a ti que terás este livro entre as tuas mãos, quer ele tenha chegado à tua posse por propriedade ou quer tu o tenhas à tua guarda, quer tu o vás transmitir ou quer tu o tenhas recebido de alguém, qualquer caso que seja eu te intimo, tanto quanto está no poder da sabedoria e da vontade, de não o leres, de não o copiares e de não o dares em leitura a alguém, e também de não permitires que ele seja lido, ou copiado, ou que seja dado em leitura, a menos que seja por alguém, ou a alguém, que tu presumes retamente que ele tem a intenção única e o desejo verdadeiro de se tornar num discípulo perfeito de Cristo, não apenas na vida ativa, mas ainda no ponto supremo da vida contemplativa, ao qual possa chegar nesta vida, pela graça, com a alma ainda completamente aprisionada, no entanto, neste corpo mortal; e que para isso o tenham preparado, e no teu conhecimento desde há muito tempo já, a prática de tais virtudes da vida ativa que o tornem apto à vida contemplativa. Porque de outra forma este livro não está de forma nenhuma adaptado a ele. E ainda por cima eu te peço e te adjuro, se alguém como esse o lesse, o copiasse ou falasse dele, ou ainda escutasse a sua leitura ou ouvisse falar dele, eu te intimo, em nome e pela autoridade da caridade, como eu te mando a ti próprio, de lhe mandares ler este livro ou de ouvir a leitura dele, de o copiar ou de falar dele inteiramente em toda a extensão do livro. Porque pode acontecer que haja neste livro alguma matéria incluída no seu começo, ou no meio, que esteja aí em suspenso e não seja plenamente tratada nesse lugar: mas ela selo-a brevemente depois, ou talvez mesmo no fim. É por isso que se alguém só quisesse considerar uma passagem do livro, e não uma outra, ele poderia facilmente ser induzido em erro; e afim de evitar esse erro, quer a ti quer a todos os outros, eu te suplico por caridade de fazeres como eu te disse.
  2. Os disputadores do mundo, os louvadores e os críticos deles próprios ou dos outros, os discursadores de vaidades, corredores de histórias e contadores de contos, todos os tipos de fazedores de embaraços, nunca eu procurei ou pretendi que eles conhecessem este livro. Porque nunca entrou na minha intenção de escrever esta coisa para eles, e portanto também eu desejo que eles não se metam nela de forma nenhuma: nem eles, nem nenhum curioso, letrado ou inculto. Sim! Mesmo se eles fossem excelentes pessoas de bens na vida ativa, nada disto contudo diz respeito a eles. Mas se fosse para aquelas pessoas, pelo contrário, que estivessem na vida ativa pela forma exterior da existência, mas que no entanto, sob a inspiração do Espírito de Deus (cujos julgamentos são desconhecidos) se encontram, devido a um movimento interior, plenamente dispostos pela graça, não continuamente como é o caso dos verdadeiros contemplativos, mas de tempos a tempos, a ter os olhos abertos para o mais alto deste ato da contemplação; se portanto fossem tais pessoas que vissem este livro, elas poderiam, pela graça de Deus, serem por ele grandemente confortadas.
  3. O presente livro está separado em setenta e cinco capítulos, entre os quais o último de todos ensina certos sinais seguros, pelos quais uma alma pode verificar verdadeiramente se ela é chamada, ou não, por Deus para trabalhar nesta via, para ser o operário deste trabalho.


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Nuvem de Desconhecimento – Oração do prólogo


Ó Deus, para quem estão abertos todos os corações,
e a quem falam todas as vontades,
e para quem nada de secreto permanece escondido:
eu Vos suplico de purificar os desígnios do meu coração
pelo inefável dom da Vossa graça,
por forma a que eu possa perfeitamente Vos amar,
e dignamente Vos louvar.
Amém. 1

Nota
  1. São quase os mesmos termos da Oração da Missa Votiva do Espírito Santo. [ ]



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Nuvem de Desconhecimento – Capítulos 1 a 9


Introdução
Oração do prólogo
Prólogo
Advertência

  1. Dos quatro graus da vida do cristão; e como os percorre a vocação que diz este livro
  2. Curta exortação à humildade e à realização da obra que este livro diz
  3. Como deve ser empreendida a obra que diz este livro, da sua preeminência sobre todas as coisas
  4. Da brevidade desta obra, e como não se pode chegar a ela pela curiosidade do espírito nem pela imaginação
  5. Que no tempo desta obra, todas as criaturas que alguma vez existiram, existem agora ou existirão, e todas as obras dessas mesmas criaturas, devem estar escondidas sob a nuvem do esquecimento
  6. Curta consideração da obra que se trata, tirada de uma questão
  7. Como o ser humano se guardará, nesta obra, contra todos os pensamentos, e particularmente contra aqueles saídos da curiosidade e da astúcia do espírito natural
  8. Um bom esclarecimento de certas dúvidas que podem surgir nesta obra, tirado de uma questão, pela refutação da própria curiosidade e astúcia do espírito humano natural, e pela distinção dos graus e partes entre a vida ativa e a contemplativa
  9. Que no tempo desta obra, a recordação da criatura mais santa que alguma vez fez Deus é mais prejudicial que proveitosa


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Nuvem de Desconhecimento



Um livro de contemplação chamado
Nuvem de Desconhecimento
no qual a Alma é unida a Deus



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Livro da Vida Perfeita – Oração final


Afim de que nós nos possamos renunciar a nós próprios
e morrer à nossa própria vontade
e viver apenas por Deus e pela sua vontade,
que nos ajude Aquele
que entregou a sua vontade ao seu Pai celeste
e que vive e reina eternamente
com Deus Pai
na unidade do Espírito Santo
na perfeita Trindade.

Amém.

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Livro da Vida Perfeita – Estar de guarda sempre


  1. É preciso igualmente observar isto: quando o ser humano chega a este ponto, onde ele pensa e imagina estar no objetivo, é altura para ele estar de guarda por forma a que o diabo não semeie aí as suas cinzas.
  2. Que ele tome guarda para que a natureza não procure e tome então a sua satisfação, o seu repouso e o seu bem-estar, e que ela não se deixe arrastar para uma liberdade e uma indiferença loucas e desordenadas que são estranhas e desconhecidas à vida verdadeiramente divina.
  3. É o que acontece ao ser humano que não seguiu o bom caminho e que não quer entrar pela boa porta – quer dizer por Cristo, como nós mostramos.
  4. É o que acontece ao ser humano que imagina poder ou querer chegar à suprema Verdade de outra forma ou por outro caminho – e que pensa já lá ter chegado antes de lá ter chegado verdadeiramente...
  5. Cristo, ele próprio, atestou-o quando disse:
  6. «Aquele que quer entrar de outra forma sem ser por mim, esse nunca entrará e não chegará à suprema verdade: é um ladrão e um salteador» (Jo 10,1).

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Livro da Vida Perfeita – Ser a mão de Deus


  1. Uma curta frase ainda: tornarmo-nos para Deus aquilo que a mão é para o ser humano, é nisso que o ser humano deve encontrar o seu contentamento.
  2. É isso verdadeiramente que ele deve fazer.
  3. É isso que todas as criaturas devem a Deus, na verdade e na justiça, e particularmente todas as criaturas inteligentes, na primeira fila das quais está o ser humano.
  4. É isso que vocês podem observar em tudo aquilo que foi escrito aqui.

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Livro da Vida Perfeita – O que deveria ser o ser humano


  1. Este longo discurso, que se acaba agora de escrever, quer fazer compreender, muito brevemente, como é que o ser humano deveria ser na verdade e na justiça.
  2. Não deveria haver nada no ser humano que ele se atribua, queira, deseje, ame ou pense, o que quer que seja, fora de Deus apenas e da Divindade –, quer dizer do Bem eterno, único e perfeito.
  3. Desde que haja no ser humano qualquer coisa que ele se atribua, queira, pense ou deseje, o que quer que seja, para além ou mais do que o Bem eterno, essa «qualquer coisa» é demasiada. É um mal.

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Livro da Vida Perfeita – A passagem para o inefável


  1. Se o melhor é o que nós devemos amar e imitar mais, é preciso que o Bem único e eterno seja amado unicamente e mais do que tudo.
  2. É preciso que o ser humano se agarre a Ele apenas, e se una a Ele tanto quanto isso seja possível.
  3. Se devemos atribuir todo o bem ao Bem único e eterno – como é verdadeiro e justo que se faça –, também é verdade atribuir-Lhe todo começo, todo progresso e toda realização.
  4. Tudo isso Lhe deve ser plenamente reconhecido e atribuído, por forma a que não fique nada que seja devido ao ser humano e à criatura.
  5. Sim, na verdade, deve ser assim, que se diga e cante tudo o que se quiser! Porque é assim que se acede a uma verdadeira vida interior.
  6. Mas o que advém em seguida – o que é então revelado e provado –, ninguém o sabe cantar nem dizer. Não há boca que alguma vez o tenha exprimido, nenhum coração que alguma vez o tenha pensado nem conhecido tal qual é na verdade.

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Livro da Vida Perfeita – Outro caminho para a vida interior


  1. Uma outra via de acesso excelente seria esta: apercebermo-nos que o Melhor deve ser o mais amado, escolhermos o Melhor, persistirmos e unirmo-nos a Ele – em primeiro lugar nas criaturas.
  2. «Mas o que é o Melhor nas criaturas?»
  3. Ele está lá, onde o Bem eterno e perfeito, e tudo o que lhe pertence, brilha e age mais, lá onde Ele é o mais conhecido e o mais amado.
  4. «Mas o que é de Deus, e Lhe pertence?»
  5. É tudo o que se pode, verdadeiramente e justamente, chamar «bom».
  6. Vê: quando nos agarramos assim ao que conhecemos como sendo o melhor nas criaturas, ao mantermo-nos lá sem voltarmos para trás, chegaremos brevemente a qualquer coisa de melhor, depois a uma outra ainda melhor – até que o ser humano conheça e saboreie que o Eterno, o Um, o Perfeito é sem medida, sem número e está para lá de todo o bem criado.

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Livro da Vida Perfeita – O caminho para a verdadeira vida interior


  1. Tudo o que se disse aqui diz respeito ainda à vida exterior.
  2. É um caminho e um acesso em direção à verdadeira vida interior. Porque a vida interior começa depois da vida exterior.
  3. Quando o ser humano saboreia o Perfeito, tanto quanto é possível, todas as coisas criadas e o ser humano ele próprio tornam-se para ele num nada.
  4. Quando sabemos na verdade que o Perfeito é Tudo em tudo e para além de tudo, segue-se necessariamente que devemos atribuir todo o bem – o ser, a vida, o conhecimento, o saber, o poder, etc. – ao único Perfeito e não às criaturas.
  5. Daí resulta que o ser humano não atribui a ele mais nada: nem vida nem ser, nem poder nem saber, nem ação nem omissão – nem nada a que se possa chamar um bem.
  6. O ser humano torna-se assim completamente pobre, ele aniquila-se a si próprio e com ele todas as coisas, quer dizer todas as coisas criadas.
  7. Apenas então começa uma verdadeira vida interior.
  8. A partir desse momento, Deus torna-se no próprio homem. Não há aí mais nada que não seja Deus ou que não pertença a Deus – mais nada que aí se aproprie do que quer que seja.
  9. É Deus sozinho – o eterno, o único e sozinho Perfeito – que é, que vive, que conhece, que pode, ama, quer, faz e não faz.
  10. É assim que deve ser uma verdadeira vida interior.
  11. Quando ela não é assim, ela poderia certamente ser sempre melhor e mais justa.

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Livro da Vida Perfeita – A atração do Pai


  1. Observa agora como o Pai atrai para Cristo.
  2. Quando qualquer coisa desse Bem perfeito é revelada e manifestada à alma ou ao ser humano – como numa intuição ou num êxtase –, nasce no ser humano o desejo de se aproximar desse Bem perfeito e de se unir a Ele.
  3. Quanto mais esse desejo cresce nele, mais revelação ele recebe. Quanto mais ele recebe de revelação, mais ele deseja e sente atração.
  4. É assim que o ser humano é atraído e chamado à união com o Bem eterno.
  5. É o que se chama «a atração» do Pai.
  6. E, Aquilo que o atrai, ensina-lhe que ele não pode aceder à união se não vem pela vida de Cristo. É então que ele começa a seguir essa vida de que falamos mais acima.
  7. Tem atenção agora a estas frase de Cristo.
  8. A primeira: «Ninguém vai ao Pai sem ser por mim» (Jo 14, 6), quer dizer «pela minha vida», como se disse mais acima.
  9. A segunda: «Ninguém vem a mim, quer dizer, ninguém adota a minha vida e me segue, se ele não é movido e atraído pelo meu Pai» (Jo 6, 44), quer dizer «pelo Bem simples e perfeito» do qual São Paulo disse: «Quando vier o Perfeito, o que é parcial será abolido.» (1Co 13, 10), quer dizer: «O ser humano no qual esse Perfeito é conhecido, sentido e saboreado, tanto quanto é possível neste mundo, considera todas as coisas criadas como nada em comparação com esse Perfeito.»
  10. É bem assim na verdade: porque fora do Perfeito e sem Ele, não há ser verdadeiro nem verdadeiro Bem.
  11. Quem tem o Perfeito, quem O conhece e O ama, tem e conhece Tudo e todo o bem.
  12. Então, que mais outra coisa lhe faltaria, ou que mais outra pessoa?
  13. O que seriam para ele as partes, visto que o Perfeito une num ser único todas as partes?

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Livro da Vida Perfeita – O Pai


  1. «Ninguém vem a mim, disse Cristo, se o Pai não o trouxer a mim» (Jo 6, 44).
  2. Estejam bem atentos: por «o Pai», eu entendo o Bem simples e perfeito que é Tudo e para lá de tudo, sem o qual e fora do qual não existe nenhum ser verdadeiro, nenhum verdadeiro bem, sem o qual não se produz nem se produzirá nunca nenhuma boa ação.
  3. Visto que Ele é Tudo, Ele deve também estar em tudo e para lá de tudo. Ele não pode ser nenhuma das coisas que a criatura, como tal, pode apreender ou compreender.
  4. Porque o que a criatura como tal – quer dizer, segundo a sua natureza criada – pode apreender e compreender é sempre qualquer coisa – isto ou aquilo –, e portanto sempre criatura.
  5. Se o Bem simples e perfeito fosse alguma coisa – isto ou aquilo – que a criatura compreende, Ele não seria Tudo nem estaria em tudo, Ele não seria «perfeito».
  6. É por isso que lhe chamam também «nada».
  7. Querem dizer com isto que Ele não é nada do que a criatura – segundo a sua natureza criada – pode apreender, conhecer, pensar ou nomear.
  8. Vê: quando esse Perfeito, que não tem nome, flui numa pessoa em estado de criar e de fazer nascer o seu Filho único – e Ele próprio com o seu Filho –, então dão-lhe o nome de «Pai».

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Livro da Vida Perfeita – O bom caminho


  1. Aquele que vivesse essa vida, iria e viria por Cristo.
  2. Porque ele seria o seu sucessor.
  3. Com ele e por ele, ele iria ao Pai.
  4. Ele seria um verdadeiro servidor de Cristo, segundo aquilo que ele próprio disse: «Aquele que quer servir-me, que me siga!» (Jo 12, 26), o que quer dizer: «Aquele que não me segue, também não me serve!»
  5. Portanto, aquele que segue e que serve Cristo, esse chega lá onde está Cristo: no Pai. É o que o próprio Cristo disse: «Pai, eu quero que lá onde eu estou, esteja também o meu servidor.» (Jo 17, 24).
  6. Aquele que segue este caminho, entrará pela porta do redil – quer dizer, na vida eterna – e o guarda lhe abrirá a porta.
  7. Aquele que segue um outro caminho – aquele que imagina querer ou poder ir ao Pai ou à Felicidade eterna sem ser por Cristo –, esse engana-se. Ele não segue o bom caminho e não entrará pela boa porta. É por isso que não lhe abrirão a porta, porque ele é um ladrão e um brigão, segundo as próprias palavras de Cristo (Jo 10, 1-3).
  8. Agora, sê atento: ao viver numa liberdade desordenada e numa total indiferença para com a virtude e o vício, a ordem e a desordem, etc., é esse o bom caminho que se segue? Entraremos assim pela boa porta?
  9. Essa indiferença não existiu em Cristo. Ela não se encontra em nenhum dos seus verdadeiros sucessores.

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Livro da Vida Perfeita – Estar atento a si próprio


  1. «Ninguém vem ao Pai, disse Cristo, sem ser por mim» (Jo 14, 6).
  2. Observem agora como se deve, por Cristo, ir ao Pai.
  3. O ser humano deve estar atento a ele próprio e a tudo o que é seu, no interior como no exterior.
  4. Ele deve conter-se e guardar-se – tanto quanto é possível – afim de que não surjam e não permaneçam nunca no interior dele outra vontade, desejo ou amor, outro pensamento, ideia ou desejo que o que pertenceria e conviria a Deus se Ele fosse Ele próprio esse ser humano.
  5. Quando ele se apercebe que surge nele qualquer outra coisa – que não pertence e não convêm a Deus –, ele deve aniquilá-la nele e resistir-lhe o mais rápido e o melhor que pode.
  6. Devemos ser iguais no exterior, quando se trata de fazer ou de não fazer, de parecer ou de se calar, de vigiar ou de dormir – em resumo de todos os atos e comportamentos do ser humano com respeito a ele próprio e aos outros seres humanos.
  7. Ele deve estar atento a tudo isto: ele não se deve voltar para nenhuma outra coisa, ele não deve permitir que nenhuma outra coisa surja dele, que permaneça fora dele ou que se produza através dele, a não ser aquilo que pertence ou convém a Deus se Ele fosse Ele próprio esse ser humano.
  8. Vê: se fosse assim, tudo o que existe ou se faz – interiormente ou exteriormente – seria de Deus. O ser humano seria um sucessor de Cristo e da sua vida, tal qual nós a podemos compreender e explicar.

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Livro da Vida Perfeita – Tomar a cruz


  1. Tudo o que se escreveu aqui, Cristo ensinou-o com uma longa vida – trinta e três anos e meio – e com esta simples palavra: «Segue-me!» (Mc 2, 14).
  2. Aquele que o quer seguir tem que abandonar tudo. Porque nele tudo estava abandonado também completamente, tanto quanto isso foi e será alguma vez possível numa criatura.
  3. Aquele que o quer seguir deve carregar a sua cruz: e essa cruz não é outra senão a própria vida de Cristo. Ela é uma cruz amarga à natureza toda.
  4. É por isso que ele disse: «Aquele que não abandona tudo e não toma sobre si a sua cruz, esse não é digno de mim. Ele não é meu discípulo e não me segue» (Mt 10, 38).
  5. A natureza falsamente livre imagina que abandonou tudo. Mas ela não quer a cruz. Ela pretende que já a teve bastante e não tem mais necessidade dela.
  6. Ela engana-se! Se ela tivesse uma única vez provado a cruz, ela não desejaria mais deixá-la.
  7. Quem acredita em Cristo deve acreditar em tudo o que está escrito aqui.
  8. Amém.

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Livro da Vida Perfeita – Não ter nada de próprio


  1. Se não existisse vontade própria, não haveria nada de próprio.
  2. No Reino celeste, não há nada de próprio. É por isso que lá reside o contentamento, a verdadeira paz e a felicidade.
  3. Se existisse lá alguém que atribuísse a si alguma coisa de próprio, seria preciso que ele saísse do céu e caísse no inferno: seria preciso que ele se tornasse num diabo.
  4. No inferno, inversamente, cada um quer ter a sua própria vontade. É por isso que tudo lá é infelicidade e perdição. Passa-se o mesmo no mundo.
  5. Mas se existisse alguém no inferno que não tivesse vontade própria e não tivesse nada de próprio, ele sairia imediatamente do inferno e passaria para o Reino celeste.
  6. O ser humano está, neste mundo, entre o Reino celeste e o inferno. Ele pode voltar-se para um ou para o outro.
  7. Quanto mais ele possui de próprio, mais ele se encontra no inferno e na perdição. E quanto menos ele tem de vontade própria, menos ele está no inferno e mais ele está próximo do Reino celeste.
  8. Se o ser humano pudesse estar neste mundo completamente desprovido de vontade própria e de qualquer apropriação, se ele pudesse ser desprendido e livre por (intermédio de) uma verdadeira luz divina, e se ele pudesse permanecer essencialmente assim, ele teria a garantia de atingir o Reino celeste.
  9. Aquele que tem – ou quer ou gostaria ter – qualquer coisa de próprio, esse torna-se ele próprio na propriedade.
  10. Aquele que não tem – ou não quer ou não deseja ter – qualquer coisa de próprio, esse está desprendido e livre. Ele não é a propriedade de ninguém.

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Livro da Vida Perfeita – A nobre liberdade não existe sem sofrimento


  1. Quando a vontade pode usar a sua liberdade no ser humano, ela aí realiza a sua obra própria – que é o querer.
  2. Ela aí quer aquilo que ela quer sem ser entravada. Também, ela quer o que é melhor e o mais nobre em todas as coisas, e tudo o que não é bom e nobre lhe é contrário, ela entristece-se e deplora isso.
  3. Quanto mais a vontade é livre e desentravada, mais aquilo que é mau, injusto, maldoso e vicioso – tudo aquilo a que se chama e que é «pecado» – a entristece e a esforça.
  4. Observa-se isto em Cristo, em quem a vontade era a mais livre, a mais desprendida, a mais desapropriada que existiu e que alguma vez existirá em qualquer ser humano.
  5. Assim, a humanidade de Cristo foi a criatura mais livre e mais desprendida, e no entanto ela conheceu devido ao pecado – quer dizer, de tudo o que é contra Deus – os maiores sofrimentos, aflições e esforços que não conhecerá nunca nenhuma criatura.
  6. Inversamente, quando nos apropriamos da liberdade – quando não nos entristecemos nem nos afligimos com o pecado e com tudo o que é contra Deus, quando queremos ser indiferentes e insensíveis a tudo isso, quando queremos ser neste mundo aquilo que Cristo só foi depois da sua Ressurreição –, não se trata então de uma liberdade verdadeira e divina vinda de uma luz verdadeiramente divina.
  7. Trata-se de uma liberdade natural, injusta, falsa e errónea. Uma liberdade do diabo, vinda de uma luz natural, falsa e errónea.

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Livro da Vida Perfeita – Não se apropriar da única vontade


  1. Aquilo que é livre não pertence a ninguém. Aquele que se apropria disso (daquilo que é livre) age injustamente.
  2. Entre tudo o que é livre, não há nada tão livre quanto a vontade. Quem se apropria dela, aquele que não a deixa à sua nobre liberdade, na sua livre nobreza, na sua livre condição, esse age injustamente. É o que fazem o diabo, Adão e todos os seus sucessores.
  3. Mas aquele que deixa a vontade na sua nobre liberdade, esse age justamente. É o que fazem Cristo e todos os seus sucessores.
  4. Aquele que rouba à vontade a sua nobre liberdade e se apropria dela, esse só terá por salário as preocupações e as aflições, os descontentamentos e as perturbações, as inquietações de todos os tipos de infelicidades. E isto durará todo o tempo em que ele agir assim – neste mundo e na eternidade.
  5. Aquele que deixa a vontade na sua livre condição, esse tem o contentamento, a paz, o repouso e a felicidade, neste mundo e na eternidade.
  6. Aquele que não se apropria da vontade, mas a deixa na sua nobre liberdade, ele é verdadeiramente aquele ser humano e aquela criatura livre e desprendida de quem Cristo diz: «A verdade vos tornará livres» (Jo 8, 32) e logo depois: «Aquele, a quem o Filho tornou livre, é verdadeiramente livre» (Jo 8, 36).

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Livro da Vida Perfeita – A dentada


  1. O diabo e Adão – quer dizer, a falsa natureza – vêem apropriar-se desta falsa vontade e tornam-na sua. Eles utilizam-na para eles próprios e para o que é deles.
  2. Isto é o mal, a injustiça. Esta é a dentada de Adão na maçã.
  3. Isto é o que é interdito, o que é contra Deus.
  4. Enquanto a vontade própria permanecer em qualquer um, nunca haverá verdadeiro repouso. Isto tanto pode ser observado no ser humano como no diabo.
  5. Lá onde reside esta vontade própria – que é a apropriação pela qual nós atribuímos a nós próprios a vontade e a fazemos nossa –, nunca haverá verdadeira Felicidade, nem no mundo nem na eternidade.
  6. Se não abandonamos esta vontade própria neste mundo, se a levamos para lá do tempo, é de prever que nunca a possamos abandonar. Na verdade, não conhecemos nunca a paz nem o contentamento, nem o repouso, nem a felicidade. É o que se observa no diabo.
  7. Se não existisse a inteligência e a vontade nas criaturas, Deus permaneceria desconhecido.
  8. Ele não receberia o amor, o louvor, nem as honras. As criaturas não teriam nenhum valor, nem nenhuma utilidade, para Deus.
  9. Respondemos assim inteiramente à questão (sobre a origem da vontade própria).
  10. Se alguém puder tornar-se melhor com estas numerosas e longas explicações – que no entanto são breves e úteis em Deus –, Deus ficará contente.

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Livro da Vida Perfeita – Toda vontade criada é de Deus


  1. É a mesma vontade eterna que está em Deus originalmente e essencialmente – sem nenhuma ação nem nenhuma atividade – e que quer e age no ser humano ou na criatura.
  2. Porque pertence à vontade, e é próprio da vontade, o querer.
  3. O que faria ela para além disso? Ela seria inútil se ela não agisse. E ela não pode agir sem criatura.
  4. É por isso que a criatura deve existir. Deus quer que ela exista para que a sua vontade atue e aí tenha a sua própria realização, senão ela permaneceria e deveria permanecer n'Ele sem ação.
  5. É por isso que a vontade que está nas criaturas – a que se chama vontade «criada» - pertence a Deus tanto quanto a vontade eterna. Ela não pertence às criaturas. Porque Deus não pode querer ativamente e efetivamente sem as criaturas, Ele quer fazê-lo em e por elas.
  6. É por isso que a criatura não deve querer nada por essa vontade, mas é Deus que quer e deve querer ativamente por essa vontade – que está no ser humano e no entanto pertence a Deus.
  7. O ser humano, que fosse puramente e completamente assim, não seria mais ele que queria nele, mas Deus mesmo.
  8. Não haveria aí mais nenhuma vontade do que a vontade de Deus. Porque seria Deus mesmo que quereria, e não o ser humano. A sua vontade seria uma com a vontade eterna e fluindo nela.
  9. Permaneceria realmente nesse ser humano a alegria e o sofrimento, o bem-estar e a dor, etc.
  10. Porque lá onde a vontade quer plenamente, há alegria e sofrimento: se tudo se faz como a vontade quer, é alegria; se de outra maneira, é sofrimento.
  11. Essa alegria e esse sofrimento não pertencem ao ser humano, mas a Deus. Porque aquele a quem pertence a vontade, a ele pertence também a alegria e o sofrimento.
  12. Não sendo a vontade do ser humano, mas de Deus, é a Deus também que pertencem a alegria e o sofrimento.
  13. Assim não há sofrimento a deplorar a não ser daquilo que é contra Deus. E não existe alegria senão de Deus, e do que é Seu e Lhe pertence.
  14. O que é verdade para a vontade é também para o conhecimento, para a inteligência, para o poder, para o amor e para tudo o que existe no ser humano: tudo pertence a Deus, e nada pertence ao ser humano.
  15. Se a vontade estivesse inteiramente abandonada a Deus, tudo o resto lhe estaria também abandonado. Deus receberia então tudo aquilo que lhe pertence.
  16. A vontade deixaria de ser vontade própria.
  17. Vê: é para isto que Deus criou a vontade, e não para que ela se torne vontade própria.

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Livro da Vida Perfeita – A inteligência e a vontade


  1. «Se essa árvore – a vontade própria – é tão contrária a Deus e à vontade eterna, perguntarão, porque é que Deus a criou? E porque é que Ele a plantou no Paraíso?»
  2. O ser humano – ou a criatura – que deseja apreender e compreender o conselho secreto e a vontade de Deus, que quer saber porque é que Deus faz ou não faz isto ou aquilo, etc., esse ser humano não deseja nada mais para além de Adão e do diabo.
  3. Enquanto durar esse desejo, ele não será nunca diferente de Adão ou do diabo. Ele nunca conhecerá nada. Porque esse desejo tem raramente outro motivo que não seja o de ter prazer e de se glorificar: na verdade, é orgulho!
  4. Um ser humano verdadeiramente humilde e iluminado não deseja que Deus lhe revele os Seus segredos. Ele não pergunta porque é que Ele faz ou ordena isto ou aquilo.
  5. Ele deseja apenas aniquilar-se a si próprio e torna-se sem vontade. Ele deseja apenas que a vontade eterna viva e seja poderosa nele, que ela não seja entravada por nenhuma outra vontade e que ela encontre nele e por ele satisfação.
  6. Mas pode-se dar a esta questão uma outra resposta.
  7. Aquilo que é mais nobre e mais agradável em todas as criaturas, é o conhecimento – ou a inteligência – e a vontade.
  8. As duas vão em conjunto: onde está uma, lá está a outra.
  9. Se não houvesse em conjunto a inteligência e a vontade, não haveria criatura inteligente, mas apenas bestas e bestialidade.
  10. Isso seria um grande mal, porque Deus não poderia em nenhum lugar receber aquilo que Lhe é devido e Lhe pertence – como se disse precedentemente. Ele não se poderia realizar, o que no entanto deve acontecer e é inerente à perfeição.
  11. O conhecimento – ou a inteligência – foi criada e dada com a vontade.
  12. Ela deve ensinar-lhe – e ensinar-se igualmente a ela própria – que nem uma nem a outra não podem ter existência própria: nenhuma delas é nem deve ser de si própria; nenhuma delas deve agir por si, nem se servir a si própria, nem desfrutar dela própria para ela própria.
  13. Porque elas (a inteligência e a vontade) são d'Aquele de quem elas saíram: elas devem abandonar-se a Ele, refluir para Ele e tornarem-se num nada para elas próprias, quer dizer para o eu delas.

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Livro da Vida Perfeita – O Paraíso


  1. «O que é então o Paraíso?»
  2. É tudo aquilo que existe aqui. Porque tudo o que existe, é bom e agradável.
  3. Tudo o que existe é agradável a Deus. É por isso que se chama – e é verdadeiramente – um Paraíso.
  4. Diz-se também que o Paraíso é um posto avançado ou uma periferia do Reino celeste.
  5. Assim tudo aquilo que existe aqui, é verdadeiramente uma periferia da eternidade ou daquilo que é eterno.
  6. E particularmente aquilo que se pode observar e conhecer de Deus e da eternidade no tempo e nas coisas temporais, nas criaturas e entre as criaturas.
  7. Porque as criaturas são uma via e uma baliza em direção a Deus e em direção à eternidade.
  8. Assim tudo isto é um posto avançado e uma periferia da eternidade.
  9. É por isso que se pode chamar-lhe – e é verdadeiramente – um Paraíso.
  10. Tudo o que está dentro deste Paraíso é permitido: tudo, com exceção de uma árvore e do seu fruto.
  11. Isto significa que, em tudo o que existe, nada é interdito, nada é contra Deus, nada exceto uma coisa: a vontade própria – quer dizer, querer diferente da vontade eterna.
  12. Tem bastante atenção ao que Deus disse a Adão:
  13. «O que tu és, o que tu fazes ou não fazes, nada disso te é proibido. Tudo te é permitido se é feito por e segundo a minha vontade, e não por e segundo a tua vontade. Mas o que é feito pela tua vontade é contra a vontade eterna.»
  14. Não que todas as ações assim realizadas sejam contra a vontade eterna, mas elas são realizadas por outra vontade – ou de outra forma – diferente da vontade eterna.

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Livro da Vida Perfeita – O que quer dizer «o inferno»


  1. «Não existe nada no inferno, diz-se, em tão grande quantidade quanto a vontade própria.»
  2. É verdade. Não há mais nada no inferno para além da vontade própria. Não fosse a vontade própria, não existiria nem o inferno nem o diabo.
  3. Quando se diz: «Lúcifer caiu do reino dos céus», «ele afastou-se de Deus», etc., isto significa apenas que ele quis ter uma vontade própria, que ele não quis ser uma única vontade com a vontade eterna. Passou-se o mesmo com Adão no Paraíso.
  4. Quando se fala de «vontade própria», isto significa apenas «querer diferente da simples e eterna vontade».

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Livro da Vida Perfeita – O que quer dizer «acreditar»


  1. «Aquele que não acredita, ou que não pode ou não quer acreditar, esse, disse Cristo, é e será condenado e perdido» (Mc 16, 16).
  2. Isto é perfeitamente verdadeiro. Um ser humano que vem a este mundo não compreende e não pode compreender nada, a menos que acredite primeiro. Quem quer compreender antes de acreditar nunca perceberá nada.
  3. Com esta palavra «acreditar», não queremos dizer «acreditar nos artigos da fé cristã». Todo o ser humano, todo o cristão – pecador ou bem-aventurado, mau ou bom – acredita neles: devemos acreditar neles mesmo se nunca os podermos compreender.
  4. Com esta palavra «acreditar», falamos de qualquer coisa que pertence à verdade.
  5. Aquilo que se pode compreender e saber, devemos acreditar nisso antes mesmo de o compreender e de o saber. Sem isto nunca acederemos à verdadeira compreensão.
  6. É desta fé que fala Cristo.

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Livro da Vida Perfeita – Tudo o que existe é bom


  1. «Se devemos amar todas as coisas, dirão, é preciso portanto amar também o pecado?»
  2. Não!
  3. Quando se diz «todas as coisas», entende-se «tudo o que é bom».
  4. Tudo o que existe, é bom enquanto o é. O próprio diabo é bom enquanto ele o é.
  5. Neste sentido, não existe nada que seja mau, nada que não seja bom.
  6. O pecado é de querer, desejar ou amar diferente de Deus. Esse querer não é um «ser»: é por isso que ele não é bom.
  7. Todas as coisas só são boas enquanto elas estão em Deus ou com Deus.
  8. Ora todas as coisas estão essencialmente em Deus, e mais essencialmente em Deus que nelas próprias. É por isso que todas as coisas são essencialmente boas.
  9. Se existisse qualquer coisa que não estivesse essencialmente em Deus, ela não seria boa.
  10. Vê: querer e desejar o que é contra Deus, isso não pode estar em Deus. Porque Deus não pode querer e desejar contra Deus e diferente de Deus.
  11. Querer e desejar desse modo é portanto mau – ou não é bom – ou não é mesmo nada.
  12. Deus ama as ações, mas não as ama todas.
  13. Então quais são as que Deus ama? Aquelas que são produzidas pelo ensino e as instruções da verdadeira luz e pelo verdadeiro amor.
  14. O que é produzido nessa e por essa luz e esse amor é produzido no espírito e na verdade: isto é de Deus e segundo o seu prazer.
  15. Mas o que é produzido pela falsa luz e o falso amor, tudo isso é mau. Muito em particular, o que é produzido – feito ou deixado, realizado ou acolhido – por uma outra vontade, um outro desejo, um outro amor que não seja a vontade e o amor de Deus, isso é contra Deus e produz-se sem Deus.
  16. Isso é contra a ação de Deus: isso é o pecado.

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Livro da Vida Perfeita – Amar todas as coisas no Um


  1. Aquele que quer ou que deva amar Deus, ama todas as coisas no Um, enquanto ele é Um.
  2. Ele ama o Um e o Tudo, em todas as coisas, enquanto elas estão no Um.
  3. Aquele que ama qualquer coisa – isto ou aquilo – sem ser no Um, e pelo amor do Um, esse não ama Deus.
  4. Porque ele ama qualquer coisa que não é Deus. Ele ama as coisas, mais do que Deus.
  5. Aquele que ama uma coisa mais do que Deus, ou tanto quanto Deus, esse não ama Deus. Porque Deus quer e deve ser o único amado.
  6. Na verdade, não devemos amar mais nada a não ser apenas Deus.
  7. Quando reside num ser humano a verdadeira luz, e o verdadeiro Amor, nada é amado a não ser Deus.
  8. Ele ama Deus, enquanto Bem, e porque Ele é o Bem.
  9. Ele ama todo o bem enquanto que Um, ele ama o Um enquanto que todo o bem. Porque, na verdade, são o Um, e o Um é todas as coisas em Deus.

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