Livro da Vida Perfeita – Deixar-se encher por Deus


  1. «Aquele que se deixa encher por Deus, diz-se, tem suficiente de todas as coisas.»
  2. Isto é verdadeiro. E, inversamente, aquele que encontra a sua satisfação em qualquer coisa – nisto ou naquilo – não se pode satisfazer com Deus.
  3. Aquele que se satisfaz com Deus não se satisfaz com nada a não ser com aquilo que não é nem isto nem aquilo, e que é Tudo.
  4. Porque Deus é Um e deve ser Um,
    Deus é Tudo e deve ser Tudo.

    O que não é Um
    não é Deus.

    O que é e não é Tudo
    – e para lá de tudo–
    não é Deus.

    Porque Deus é Um
    e para lá de tudo,
    Ele é Tudo
    e para lá de tudo.
  5. Aquele que se satisfaz com Deus satisfaz-se com o Um, e unicamente desse Um como sendo o Um.
  6. Aquele para quem Tudo não é esse Um e para quem o Um não é esse Tudo, aquele para quem todas as coisas e nada não são uma única e mesma coisa, esse não se pode satisfazer com Deus.
  7. Mas aquele para quem é bem assim, esse encontra em Deus o contentamento, e em mais nenhum lugar.
  8. Passa-se o mesmo com aquilo que se segue.
  9. Aquele que se quer abandonar e se submeter totalmente a Deus deve apenas ser abandonado e submetido de uma maneira passiva: ele não deve nem se opor, nem se defender, nem querer se salvar. É o que se observa em Cristo.
  10. Aquele que quer e deve suportar Deus, deve suportar todas as coisas no Um enquanto ele é Um. Ele não se deve opor a nenhum sofrimento. Isso é bem Cristo.
  11. Aquele que se opõe aos sofrimentos e se defende deles, esse não quer ou não pode suportar Deus.
  12. É preciso que isto seja compreendido assim: não nos devemos opor a nenhuma coisa ou a nenhuma criatura pela violência ou pela luta, em intenção ou em ação. Mas podemos sem pecado prevenir, evitar ou fugir do sofrimento.

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Livro da Vida Perfeita – O nascimento de Cristo em nós


  1. Quem conhece e compreende a vida de Cristo conhece e compreende também Cristo. Inversamente: quem não conhece a sua vida também não o conhece.
  2. Aquele que acredita em Cristo acredita que a sua vida é a mais nobre e a melhor. Se não acredita nisto, é porque não acredita em Cristo.
  3. Quanto mais há, no ser humano, da vida de Cristo, mais Cristo está nele. Quanto menos há nele da sua vida, menos Cristo está nele.
  4. Onde está a vida de Cristo, lá está Cristo. Onde não está a sua vida, lá também não está Cristo.
  5. Onde está a vida de Cristo, pode-se dizer o que disse São Paulo: «Eu vivo mas não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.» (Ga 2, 20).
  6. Esta é a vida mais nobre e a melhor: onde está esta vida, lá vive e reside Deus Ele próprio e todo o bem. Como poderia haver uma vida melhor?
  7. Observa-se isto: quando se fala de «obediência», dum «ser humano novo», da «verdadeira luz», do «amor verdadeiro» e da «vida de Cristo», trata-se de uma única e mesma coisa.
  8. Onde está um deles, eles estão todos. Onde falta um deles, eles faltam todos. Porque eles são todos uma única e mesma coisa na verdade e na essência.
  9. Para que num ser humano esta coisa nasça e viva, é preciso não nos prendermos senão a ela e a mais nada. Tudo o que lhe faz obstáculo, é preciso que o abandonemos e fujamos.
  10. Aquele que a recebe no Santíssimo Sacramento, é verdadeiramente Cristo que recebe na verdade. Quanto mais a recebemos, mais recebemos Cristo. E quanto menos a recebemos, menos temos Cristo.

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Livro da Vida Perfeita – Não se procurar a si próprio


  1. Enquanto o ser humano procura o seu próprio bem, enquanto ele procura o Melhor como sendo seu – como sendo para ele e por ele –, ele não o encontra.
  2. Enquanto for assim, não é o Melhor que ele procura. Como é que ele o poderia encontrar?
  3. Enquanto ele for assim, é ele próprio que ele procura, é ele próprio que ele imagina ser o Melhor. Enquanto ele se procura assim a ele próprio, ele não procura o Melhor – porque ele não é o Melhor.
  4. Em contrapartida, o ser humano que procura, que ama e que deseja o Bem enquanto que ele é o Bem, porque ele é o Bem e pelo único amor do Bem – e não como vindo de um eu ou como sendo «eu», «meu», «a mim» ou «para mim», etc. –, esse ser humano encontra-o.
  5. Porque ele procura-o justamente. Se ele o procura de outra forma, ele perde-se. Na verdade, é desta maneira que é preciso procurar, desejar e amar o verdadeiro e perfeito Bem. É desta maneira que o encontramos.
  6. É uma grande loucura quando um ser humano ou uma criatura imagina saber ou poder qualquer coisa por si próprio.
  7. Muito particularmente se ele imagina saber ou poder qualquer coisa de bom e merecer ou obter assim de Deus uma grande recompensa...
  8. Para quem reflete corretamente, isso é ofender Deus.
  9. O verdadeiro Bem não é rigoroso para com um ser humano simples e fraco de espírito que não sabe nada de melhor. Ele favorece-o tanto quanto possível: tudo o que ele é na medida de receber o bom, Deus lhe concede voluntariamente.
  10. Mas, como foi dito, o ser humano não encontra nem obtém nada enquanto ele age assim. É preciso que o amor próprio se vá embora. Doutra forma ele não encontrará nem obterá nada.

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Livro da Vida Perfeita – Nada é contra Deus


  1. «Existe então qualquer coisa que seja contra Deus e contra o Bem verdadeiro?»
  2. Não. Igualmente, não há nada que não tenha Deus, exceto o querer diferente da vontade eterna. E querer diferente da vontade eterna, é estar contra ela.
  3. A vontade eterna quer que só se ame e só se queira o Bem verdadeiro. Quando se ama outra coisa, está-se contra ela. Neste sentido, é verdade que quem está sem Deus está contra Deus.
  4. Na verdade, não existe nada que seja contra Deus ou contra o Bem verdadeiro.
  5. É preciso portanto compreender aqui a mesma coisa como se Deus dissesse: «Aquele que quer sem Mim, ou não quer como Eu, ou quer diferente de Mim, isso equivale a contra Mim.
  6. Porque tal é a minha vontade que ninguém queira diferente de Mim ou sem Mim. E sem a minha vontade não deve haver nenhuma vontade. Da mesma forma que sem Mim não há nem ser nem vida, nem isto nem aquilo, assim não deve haver nenhuma vontade sem Mim e sem a minha vontade.»
  7. Da mesma forma que na verdade todos os seres são essencialmente um no ser único e que todos os bens são um único bem no Bem único; da mesma forma que nada pode existir sem o Um, assim todas as vontades deveriam ser uma única vontade na única e perfeita vontade, e sem ela não deveria haver nenhuma vontade.
  8. Lá onde é diferente, é a injustiça, é contra Deus e contra a sua vontade. E é por isso que é pecado.
  9. Vê-se aqui, como já se viu, que toda a vontade que é sem a vontade de Deus – quer dizer toda a vontade própria – e tudo o que se produz por uma tal vontade, tudo isso é pecado.

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Livro da Vida Perfeita – Estar de guarda


  1. A falsa luz é o diabo, e o diabo é essa luz.
  2. Isto pode ser observado no diabo. Ele acredita ser Deus, ele quer sê-lo e ser tido como tal: em tudo isto ele se engana, e tão profundamente que ele pensa não se enganar. Passa-se o mesmo com a falsa luz, com o seu amor e com a sua vida.
  3. O diabo gostaria de enganar todos os seres humanos, puxá-los para ele e para o seu e torná-los semelhantes a ele, e ele dispões para esse efeito de bastantes artifícios e artimanhas. Passa-se o mesmo com a falsa luz. E como ninguém será capaz de mudar o diabo, ninguém será capaz de mudar essa luz.
  4. Tudo isto vem do diabo e da natureza acreditarem que eles não podem ser enganados e que eles estão na melhor via.
  5. Esse é o mais perverso e o mais prejudicial dos enganos. O diabo e a natureza são portanto um: quem venceu a natureza também venceu o diabo, e quem não venceu a natureza também não venceu o diabo.
  6. Quer nos viremos para a vida mundana (a natureza) quer para a vida espiritual (o diabo), ficamos então nesse duplo engano: somos enganados, e enganamos os outros por sua vez, tanto quanto podemos...
  7. Pelo que acabamos de dizer, podemos compreender e conhecer melhor ainda que não há diferenças quando falamos de «Adão», de «desobediência» ou de «ser humano velho», de «amor próprio», de «vontade própria» ou de «obstinação em si», de «egoísmo», do «eu» ou do «meu», de «natureza» ou de «falsa luz», do «diabo» ou do «pecado».
  8. Tudo isto é uma única e mesma coisa: tudo isto é contra Deus e sem Deus.

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Livro da Vida Perfeita – Vida santa e vida natural


  1. Tudo o que, no ser humano verdadeiramente santificado, pertence ao Amor divino é tão simples, tão justo e tão puro que nunca foi possível defini-lo pela palavra ou pela escrita.
  2. Nunca se conheceu nada acerca disso, a não ser que isso existe. Se isso não existisse não se poderia aceder-lhe, e ainda menos conhecê-lo.
  3. Inversamente, a vida natural, sendo subtil, ágil e fina, é múltipla e complexa.
  4. Ela procura e encontra tantas manhas, falsidades e enganos – tudo isto para seu próprio benefício – que não se pode, aqui também, nada dizer ou nada escrever.
  5. Toda a falsidade é enganada, e todo engano se engana primeiro a ele próprio: é também o que acontece a essa falsa luz e a essa vida natural. Porque aquele que engana será enganado, como já explicamos.
  6. Nessa vida natural e nessa luz falsa, e no amor delas, encontra-se tudo o que pertence ao diabo e lhe é próprio, tão completamente que não é mais possível distinguí-los.

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Livro da Vida Perfeita – O amor da vida nobre


  1. Nessa luz e nesse amor, ama-se todo o bem no Um e enquanto Um; ama-se o Um em tudo e em todos os bens: é por isso que se deve amar aí tudo o que se pode verdadeiramente chamar «bom» como a virtude, a ordem, a sabedoria, a justiça, a verdade, etc.
  2. Tudo o que pertence a Deus e ao Bem verdadeiro é aí amado e louvado. Mas tudo o que lhes é contrário e estranho é aí doloroso e penoso, e sentido como sendo pecado – e é, na verdade, pecado.
  3. O ser humano que vive na verdadeira luz e no verdadeiro amor vive a vida mais nobre, a melhor e a mais digna que já alguma vez existiu e que alguma vez existirá.
  4. Essa vida deve ser amada e louvada mais que qualquer outra vida.
  5. Ela estava – e ela está – em Cristo na sua maior perfeição: e sem ela ele não teria sido Cristo.
  6. E esse amor, que ama essa vida nobre e todo o bem, faz com que realizemos e suportemos voluntariamente e de bom coração tudo o que temos que suportar, que realizar e tudo o que se deve produzir, por necessidade ou por obrigação – tão penoso quanto isso possa ser à natureza.
  7. É por isso que Jesus diz: «O meu jugo é suave e o meu fardo ligeiro» (Mt 10, 30). É o efeito do amor, que ama essa vida nobre.
  8. Podemos ver isto nos apóstolos e nos mártires: eles suportaram voluntariamente e de bom coração aquilo que eles tinham que suportar. Eles não pediram a Deus para abreviar, aligeirar ou diminuir os seus sofrimentos e as suas penas, mas apenas para se manterem firmes e constantes.

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Livro da Vida Perfeita – Estado do ser humano santificado


  1. Tudo o que se produz num ser humano verdadeiramente santificado – duma maneira ativa ou passiva – se produz nessa luz e nesse amor: neles, por eles e regressando para eles.
  2. Lá existe e reside um estado de satisfação e de tranquilidade, livre de todos os desejos de saber e de ter mais ou menos, de viver ou de morrer, de ser ou de não ser, etc.: tudo isso é uma única e mesma coisa, e não nos queixamos de mais nada, senão do pecado.
  3. O que é o pecado, já o dissemos antes.
  4. É querer outra coisa para além do simples e perfeito Bem, da vontade una e eterna. É querer sem, ou contra, esse Bem e essa única vontade.
  5. Tudo o que resulta daí – mentira, engano, injustiça, falsidade, todos os vícios: numa palavra, tudo o que é chamado de pecado –, tudo isso provém de querermos outra coisa para além de Deus e do Bem verdadeiro.
  6. Se não houvesse outra vontade para além da única vontade, não haveria pecado. É por isso que se pode dizer que toda a vontade própria é pecado e não é mais nada: é dela que resulta todo o mal.
  7. Um ser humano verdadeiramente santificado não deplora nada para além do pecado. Ele queixa-se dele e sofre por ele de tal forma que, se ele tivesse cem vezes de sofrer uma morte vergonhosa e penosa, ele não se queixaria dela e não sofreria com ela tanto quanto com o pecado.
  8. Esse sofrimento deve durar até à morte corporal: lá onde ele não se encontra, não pode, sem dúvida nenhuma, haver ser humano verdadeiramente santo ou santificado.

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Livro da Vida Perfeita – O amor do Um pelo Um


  1. Quando a verdadeira luz e o verdadeiro amor estão num ser humano, o verdadeiro Bem é conhecido e amado por ele próprio.
  2. No entanto, ele não se ama aí para si próprio, por si próprio ou como si próprio, mas como o verdadeiro e simples Bem.
  3. O Perfeito, sendo ele próprio amor, não pode e não quer amar nada mais que o único, o verdadeiro Bem.
  4. Sendo Ele próprio esse Bem, Ele deve amar-se a Ele próprio: no entanto, não por si próprio, para si próprio e como si próprio, mas como o único e verdadeiro Bem ama o único e verdadeiro Bem, e como o único, o verdadeiro e perfeito Bem é amado pelo único, o verdadeiro e perfeito Bem.
  5. É nesse sentido que se diz – e é a verdade –: «Deus não se ama enquanto Ele próprio, porque se existisse uma coisa melhor que Deus, seria ela que Ele amaria e não a Ele próprio».
  6. Nessa verdadeira luz, nesse verdadeiro amor, não reside nem «eu», nem «meu», «me», nem «tu», «teu», etc.
  7. Essa luz conhece e indica um Bem que é todo o bem e para lá de todo o bem: todos os bens são essencialmente um nesse Um e, sem esse Um, não há nenhum Bem.
  8. É por isso que lá não se ama nem isto nem aquilo, nem «eu» nem «tu», etc., mas apenas o Um que não é nem «eu» nem «tu», nem isto nem aquilo, mas para além de todo o «eu» e «tu», de todo isto e aquilo: n'Ele todo o bem é amado como um Bem único. Como se diz:
  9. Tudo no Um enquanto que Um,
    o Um em tudo enquanto que Tudo,
    o Um e todo o bem
    amados pelo Um no Um
    e pelo amor do Um,
    pelo amor
    que se sente pelo Um.
  10. Tudo deve ser aqui perdido e abandonado – todo eu, todo ter próprio, todo amor próprio, etc. Nada disso está em Deus, exceto aquilo que é necessário para a distinção das pessoas divinas.

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Livro da Vida Perfeita – Falso saber e falso amor


  1. Existe também um conhecimento a que se chama «saber» e que no entanto não o é: imagina-se conhecer muitas coisas pelas conversas, as leituras ou pela frequentação assídua das Escrituras.
  2. Chama-se a isso «saber» e diz-se: «Eu sei isto», «Eu sei aquilo». Se perguntamos: «Donde é que tu sabes isso? – Eu li-o nas Escrituras», respondem, ou outras coisas semelhantes.
  3. Chama-se a isso «saber», chama-se a isso «conhecer». Mas, na verdade, é «crer». Porque esse saber, esse conhecimento sabem e conhecem muito, mas não amam.
  4. Existe também um amor que é falso: ama-se qualquer coisa por uma recompensa. Ama-se a justiça, não por amor à justiça mas para obter por esse meio uma vantagem, etc.
  5. Se uma criatura ama uma outra criatura – ou Deus – por um benefício ou por qualquer outra razão, esse amor é falso e pertence apenas à natureza.
  6. A natureza como tal não sabe e não é capaz de outro amor para além desse, porque, se virmos bem, a natureza só ama a ela própria.
  7. É dessa forma ainda que qualquer coisa de bom pode ser conhecida sem no entanto ser amada.
  8. Inversamente, o verdadeiro amor é instruído e conduzido pela luz e o conhecimento verdadeiros.
  9. A luz verdadeira, eterna e divina ensina ao amor a não amar nada para além do Bem verdadeiro, simples e perfeito – não para obter uma recompensa ou o que quer que seja, mas pelo amor do Bem e porque ele é o Bem e que é justo amá-lo.
  10. O que é conhecido assim pela verdadeira luz deve também ser amado pelo verdadeiro amor. Ora o perfeito Bem – a que se chama Deus – só pode ser conhecido pela verdadeira luz: é por isso que Ele deve ser amado logo que Ele é conhecido!

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Livro da Vida Perfeita – O verdadeiro amor


  1. Dissemos: «Aquele que conhece Deus e não o ama nunca se torna feliz devido a esse conhecimentos.» O que quer dizer que se poderia conhecer Deus e não o amar...
  2. Dissemos algures: «Quando Deus é conhecido, Ele é também amado e aquele que conhece Deus deve também amá-lo.»
  3. Como conciliar estas duas afirmações?
  4. É preciso fazer aqui uma observação.
  5. Falamos de duas luzes: uma que é verdadeira, a outra que é falsa. Igualmente, existem dois tipos de amor: um amor verdadeiro e um outro que é falso.
  6. Cada um desses amores deve ser instruído e guiado por uma luz ou um conhecimento. Da verdadeira luz vem o amor verdadeiro, da falsa luz vem o falso amor.
  7. Porque aquilo que a luz tem como sendo o melhor, ela o apresenta ao amor como tal e pede-lhe para o amar. E o amor obedece-lhe e segue o seu mandamento.
  8. Dissemos precedentemente que a falsa luz era natureza e natural.
  9. Tudo o que é próprio e pertence à natureza lhe é igualmente próprio e lhe pertence – quer dizer: «eu», «meu», «me», isto, aquilo, etc.
  10. É por isso que ela é falsa e se engana sobre ela própria: nunca um «eu» ou um «meu» chegaram à luz e ao conhecimento sem se enganarem – exceto nas pessoas santas. Para chegar ao conhecimento da verdade simples, tudo isso deve ser aniquilado e perdido.
  11. É próprio da luz falsa – da luz natural – o saber muitas coisas e o querer saber tanto quanto seja possível.
  12. Ela sente um grande prazer, uma grande alegria e um grande orgulho no seu saber e no seu conhecimento e deseja acumulá-los sempre mais. Quanto mais o seu saber é importante e elevado, mais ela tem prazer e orgulho nele sem nunca chegar ao repouso e à satisfação.
  13. Quando ela se elevou tão alto que ela imagina conhecer todas as coisas e para lá de todo o conhecimento, ela está então no cume do seu prazer e do seu orgulho.
  14. Ela considera o conhecimento como sendo o mais nobre e o melhor: é por isso que ela ensina ao amor a amar o saber e o conhecimento como sendo o que há de mais nobre e de melhor.
  15. Vê: é o saber e o conhecimento que são então amados, mais do que aquilo que é conhecido. Porque a luz falsa – a luz natural – ama o seu saber e o seu conhecimento, quer dizer ama-se a ela própria, mais do que aquilo que é conhecido.
  16. Se fosse possível que essa luz natural conhecesse Deus e a simples verdade como eles são neles próprios, ela não abandonaria aquilo que lhe é próprio – a saber ela própria e o seu.
  17. É neste sentido que pode haver um conhecimento sem amor daquilo que é conhecido. A luz natural sobe e eleva-se tão alto que ela imagina conhecer Deus e a pura e simples verdade: ela ama-se a ela própria em si própria.
  18. É verdade que Deus só é conhecido por Deus.
  19. Ora esta luz, crendo ser Deus, imagina ser o próprio Deus: ela apresenta-se como tal e pretende ser tida por tal. Ela pensa ser digna de todas as coisas e ter direito sobre todas.
  20. Ela imagina ter chegado acima e para lá de todas as coisas e ter mesmo ultrapassado Cristo e a sua vida. Ela chega mesmo a troçar dela: não é Cristo que ela quer ser, mas Deus Ele próprio na Sua eternidade!
  21. Cristo e a sua vida são contrárias e penosas a toda a natureza. É por isso que a natureza não a quer. Ela não quer ser um ser humano, mas Deus Ele próprio na eternidade, ou Cristo depois da Ressurreição: fácil, agradável e cómodo à natureza. Ela considera tudo isto como sendo o Melhor, porque ela crê que, para ela, é o melhor.
  22. Vê: esta falsa luz e este amor falso e enganado conhecem bem alguma coisa, sem no entanto a amar: o saber e o conhecimento são aqui mais amados do que aquilo que é conhecido!

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Livro da Vida Perfeita – Primazia do amor


  1. «O que é um ser humano "santificado" ou um ser humano "santo"?», perguntar-se-á.
  2. Aquele que está iluminado e aclarado pela luz eterna e divina, aquele que arde com o Amor eterno e divino, esse é um ser humano «santo» ou «santificado».
  3. Estivemos a meditar sobre a luz. Mas é preciso saber que a luz ou o conhecimento não é nem vale nada sem o Amor.
  4. Podemos observar isso: mesmo se um ser humano conhece muito bem o que é a virtude e o vício, ele não é nem se tornará virtuoso por isso. Bem pelo contrário, se ele não ama a virtude, ele abandonará a virtude para seguir o vício.
  5. Mas se ele procura a virtude, ele a seguirá e o seu amor por ela lhe fará detestar o vício. Ele não o cometerá nem o praticará, e ele o odiará em todos os seres humanos.
  6. Ele amará de tal forma a virtude que ele nunca negligenciará de a praticar e a exercerá em toda a parte onde ele possa. Não para obter uma recompensa nem por nenhuma outra razão, mas apenas por amor da virtude.
  7. A virtude ela própria se torna na sua recompensa, e ela chega-lhe.
  8. Ele não aceitará nenhum tesouro, nenhum bem em troca da virtude. É assim que ele é e se tornará virtuoso.
  9. Um ser humano verdadeiramente virtuoso não aceitaria que lhe dessem o mundo inteiro se ele devesse em troca abandonar a virtude. Ele preferiria ainda morrer de uma morte horrível.
  10. Vê: passa-se o mesmo com a justiça.
  11. Mais do que um ser humano sabe o que é a justiça e o que é a injustiça: mas ele não é, nem se torna justo por isso. Ele não ama a justiça? Vemos ele praticar o vício e a injustiça...
  12. Mas se ele amasse a justiça, ele não quereria então cometer nada de injusto. Ele seria de tal forma inimigo da injustiça e tão triste de a reconhecer num ser humano que ele aceitaria voluntariamente sofrer ou realizar grandes coisas para que a injustiça seja aniquilada e que esse ser humano se possa tornar justo.
  13. Ele preferiria morrer em vez de cometer a injustiça, e isso apenas pelo amor da justiça. A justiça tornar-se-ia na sua recompensa e seria suficiente por ela própria para o recompensar. É assim que somos e que nos tornamos justos. E preferiríamos morrer mil vezes do que viver na injustiça.
  14. Vê: passa-se o mesmo com a verdade.
  15. Um ser humano pode saber exatamente o que é a verdade, a falsidade e a mentira: se ele não ama a verdade, ele não é verdadeiro.
  16. Mas se ele a ama, acontece nele aquilo que nós dissemos para a justiça.
  17. Da justiça, Isaías diz no capítulo 6 do seu Livro:
  18. «Maldição, maldição para todos aqueles que têm um espírito duplo: aqueles que parecem bons no exterior e que, no interior, estão cheios de mentira e na boca dos quais se encontra a mentira!» (cf. Is 5, 20; 6, 5)
  19. Vê-se com isto que o saber e o conhecimento não valem nada sem o amor.
  20. Notaremos isto também no diabo: ele sabe e conhece o que é bom ou mau, o que é justo e injusto, etc. Mas, não tendo amor pelo bem que ele conhece, ele não se torna bom. O que aconteceria, pelo contrário, se ele tivesse amor pela verdade e pelos outros bens e virtudes que ele conhece...
  21. É bem verdade que o amor deve ser dirigido e instruído pelo conhecimento: mas se o amor não segue o conhecimento, este não serve para nada!
  22. Passa-se o mesmo com Deus e com o que pertence a Deus.
  23. Um ser humano pode ser muito conhecedor sobre Deus e o que é próprio de Deus, ele pode crer conhecer e compreender o que é Deus: se ele não tem amor, ele nunca será santo ou santificado.
  24. Mas se ele tem nele um amor verdadeiro, ele deve-se agarrar a Deus e abandonar tudo o que não é Deus e não Lhe pertence. Ele detesta tudo isso, ele sofre com isso, ele fica aborrecido e afligido com isso.
  25. É este amor que une o ser humano a Deus de tal forma que ele nunca será separado Dele.

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Livro da Vida Perfeita – A semente do Diabo


  1. «É preciso, diz a falsa luz, não ter remorsos. É uma tolice e uma loucura ocupar-se disso.» E ela crê poder prová-lo por Cristo, que não tinha remorsos.
  2. O diabo também não tem remorsos, e não é melhor por isso ...
  3. Notem primeiro o que é o «remorso». Ele consiste em que o ser humano saiba que ele se afasta, de Deus por sua vontade – ao que se chama e que é o «pecado» –, e que é a culpa do ser humano e não de Deus, porque Deus não é culpado do pecado.
  4. Mas quem é inocente do pecado, sem ser Cristo e alguns outros?
  5. Vê: aquele que é «sem remorsos», só pode ser Cristo ou o diabo!
  6. Brevemente, lá onde está a verdadeira luz, lá está a via reta e verdadeira que é amada e apreciada por Deus.
  7. Não é a vida de Cristo na sua perfeição, mas é uma vida formada e orientada segundo ela.
  8. Aí ama-se a vida de Cristo, e tudo o que se relaciona às regras, à ordem e a todas as virtudes. Todo amor-próprio, todo «eu», todo «meu», etc. são abandonados e não se procura e não se deseja nada para além do Bem como Bem e porque ele é o Bem.
  9. Mas lá onde está a falsa luz, tornamo-nos desatentos à vida de Cristo e a todas as suas virtudes.
  10. Só procuramos e só desejamos aquilo que é cómodo e agradável à natureza. Essa liberdade falsa e desordenada vem de nós não termos consideração e atenção por nenhuma coisa.
  11. A verdadeira luz é uma semente de Deus: é por isso que ela produz o fruto de Deus.
  12. Mas a falsa luz é a semente do diabo: lá onde ela é semeada, ela produz o fruto do diabo – e o diabo ele próprio.
  13. Isto pode ser observado e compreendido pelas explicações e distinções que precedem.

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Livro da Vida Perfeita – Erros sobre o que é o melhor


  1. É uma coisa excelente que o ser humano queira e possa encontrar o que é o melhor para ele naquilo que é também o melhor para Deus.
  2. Isto é bem verdadeiro, mas isto não se produz enquanto o ser humano só procura e só deseja o «seu» melhor.
  3. Para encontrar e atingir o Melhor, ele deve primeiro perdê-lo, como foi dito precedentemente.
  4. Mas abandonar e deixar o «seu» melhor para encontrar o «seu» melhor, isto é também falso.
  5. É por isso que são poucos os que podem seguir esta via...

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Livro da Vida Perfeita – O Anticristo


  1. Ao crer-se Deus e apropriando-se disso, a falsa luz é Lúcifer – o diabo.
  2. Ao rejeitar a vida de Cristo e outras coisas que são próprias do verdadeiro Bem e que Cristo viveu e ensinou, a falsa luz é Anticristo. Porque ela ensina contra Cristo e opõe-se a ele.
  3. Porque esta luz é enganada pela sua própria habilidade, ela engana igualmente todos aqueles que não são Deus Ele próprio ou que não são santificados – quer dizer todos aqueles que não foram iluminados pela verdadeira luz e pelo seu amor.
  4. Porque aqueles que a verdadeira luz iluminou – quaisquer que eles sejam e em qualquer momento que seja –, esses não serão nunca enganados.
  5. Mas aquele que não foi, aquele que tem de caminhar ou permanecer com essa falsa luz, esse será enganado.
  6. Isto deve-se a que todos os seres humanos nos quais não está a verdadeira luz estão voltados para eles próprios.
  7. Eles têm-se a eles próprios, e o que lhes é agradável e cómodo, como sendo o Melhor. Quem lhes propõe isto como sendo verdadeiramente o Melhor, aquele que os ajuda e lhes ensina a obtê-lo, eles seguem-no e têm-no como sendo o melhor dos mestres.
  8. Ora a falsa luz ensina tudo o que lhe é próprio: é por isso que todos aqueles que ignoram a verdadeira luz a seguem. E eles enganam-se todos em conjunto.
  9. «Quando o Anticristo vier, diz-se, todos aqueles que não tiverem o sinal de Deus o seguirão.»
  10. «Mas aqueles que estão marcados com este sinal não o seguirão.» (cf. Ap 7, 3; 9, 4).
  11. Passa-se o mesmo aqui.

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Livro da Vida Perfeita – As ilusões da falsa luz


  1. Sendo natureza, a falsa luz possui também as suas propriedades, a saber: procurar-se a si própria e o seu em todas as coisas, e só desejar o que é mais cómodo, o mais confortável e o mais agradável a si própria e à natureza.
  2. Devido a ela estar no erro, ela imagina e afirma que aquilo que lhe é mais divertido, mais agradável e mais cómodo é também o melhor.
  3. Ela declara que é o melhor das coisas que cada um procure e faça o que lhe é mais agradável. E ela não quer saber nada de nenhum outro bem para além do seu: que ele é bom para ela, segundo ela imagina.
  4. Se lhe falam do verdadeiro e simples Bem – que não é nem isto nem aquilo –, ela não quer saber e faz troça.
  5. Isto é evidente: porque a natureza como tal não pode lá chegar e esta luz, sendo apenas natureza, também não pode lá chegar.
  6. A falsa luz afirma também que ela está para além dos remorsos e dos escrúpulos, e que tudo aquilo que ela faz é bem feito.
  7. Um espírito falsamente livre que estava neste erro ia até ao ponto de proclamar: «Se eu matasse dez seres humanos, eu não teria mais remorsos do que se eu matasse um cão.»
  8. Numa palavra, esta falsa luz foge de tudo o que é contrário e penoso à natureza – e isto é bem normal, porque ela é ela própria natureza.
  9. E devido a ela estar de tal forma no erro que ela imagina ser Deus, ela juraria por todos os santos que ela sabe o que é o Melhor e que ela só deseja e só procura a Ele!
  10. É por isso que ela não pode nunca ser convertida nem instruída – tal como o diabo.

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Livro da Vida Perfeita – As manhas da falsa luz


  1. «Donde vem, como é possível, pode-se perguntar, que a falsa luz engane tudo o que possa ser enganado?»
  2. Isto deve-se à sua extraordinária habilidade. Ela é tão esperta, tão subtil, tão ágil, ela eleva-se e sobe tão alto que ela imagina estar acima da natureza e que é impossível às outras criaturas ou à natureza chegar até ela.
  3. É por isso que ela imagina mesmo ser o próprio Deus, e se apropria de tudo o que é de Deus – e em particular o que é de Deus como Deus e não o que é dele quando Ele é ser humano.
  4. Ela imagina e diz então que ela está para lá de todas as ações e de todas as palavras, para lá das regras e das ordens, para lá da vida corporal de Cristo quando ele era homem.
  5. Ela não pode ser tocada por nenhuma criatura nem pelas suas ações – boas ou más, contra ou a favor de Deus. Tudo lhe é agora indiferente. Ela mantém-se completamente desprendida de tudo isto tal como se ela fosse Deus na eternidade...
  6. De tudo o que pertence a Deus, e não às criaturas, ela se apropria.
  7. Ela pensa que tem direito a tudo isto, que ela é digna de todas as coisas e que é justo e equitativo que todas as criaturas a sirvam e lhe sejam submetidas.
  8. Assim não lhe resta nenhuma pena, nenhum sofrimento, nenhuma aflição por qualquer assunto ou objeto que seja – com exceção das percepções do corpo e dos sentidos, e dos sofrimentos que daí possam vir, os quais é preciso suportar até à morte corporal.
  9. Ela imagina e afirma portanto ter chegado além da vida corporal de Cristo, além de todo o sofrimento e de toda a emoção, como estava Cristo depois da Ressurreição.
  10. E muitos outros erros estranhos que daí resultam e daí decorrem...

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Livro da Vida Perfeita – Os erros da falsa luz


  1. Vejam como esta falsa luz se engana em primeiro lugar: ela não quer e não escolhe o Bem como Bem e porque ele é o Bem, mas ela quer-se e escolhe-se e o seu como o que é Melhor.
  2. Isso é falso e constitui o seu primeiro erro.
  3. Igualmente, ela crê ser aquilo que ela não é: ela imagina ser Deus, quando ela é natureza.
  4. Imaginando ser Deus, ela apropria-se do que é de Deus: não apenas o que é de Deus quando ele é ser humano ou dentro de um ser humano santificado, mas também o que é de Deus e Lhe pertence enquanto Deus eterno e incriado.
  5. Diz-se: «Deus não tem necessidade, Ele não tem necessidade de nada. Ele é livre, ocioso, vazio e para lá de todas as coisas, etc. Ele é imóvel e não se apropria de nada. Ele não tem consciência e tudo aquilo que Ele faz é bem feito.»
  6. Tudo isto é inteiramente verdadeiro.
  7. Mas a falsa luz diz por sua vez: «Eis como eu quero ser, eu também! Quanto mais se é semelhante a Deus, melhor se é. Eu quero portanto ser semelhante a Deus, eu quero mesmo ser Deus! Eu quero estar sentada ao lado Dele e ser como Ele.»
  8. Lúcifer – o diabo – fez a mesma coisa...
  9. Certo, na eternidade, Deus está sem esforço, sem sofrimento, sem aflição. Nada daquilo que é ou se produz Lhe é difícil ou doloroso. Mas é doutra forma quando Deus é ser humano ou dentro de um ser humano santificado.
  10. Numa palavra: esta falsa luz engana tudo o que pode ser enganado.
  11. E visto que ela engana tudo o que pode ser enganado – todas as criaturas, a natureza e tudo o que não é divino ou o próprio Deus –, é possível que esta falsa luz, sendo ela própria natureza, seja enganada.
  12. É por isso que ela é enganada e se engana a ela própria.

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Livro da Vida Perfeita – O que é a falsa luz


  1. Fez-se menção a uma outra luz.
  2. É preciso dizer agora o que ela é e o que lhe pertence.
  3. Tudo o que é contra a verdadeira luz pertence à falsa luz.
  4. Pertence necessariamente à verdadeira luz o não querer enganar e o não desejar que alguém seja enganado – da mesma forma que ela não pode ser enganada.
  5. Inversamente, a falsa luz engana-se e é enganada, da mesma forma que ela engana os outros com ela.
  6. Deus não quer enganar ninguém e não pode desejar que alguém seja enganado: passa-se o mesmo com a verdadeira luz.
  7. A verdadeira luz é divina: ela é mesmo Deus. A falsa luz é natural: ela é a natureza.
  8. Pertence a Deus num ser humano santificado o não querer, o não desejar e o não procurar nem isto nem aquilo, mas apenas o Bem como Bem e apenas porque ele é o Bem. Passa-se o mesmo com a verdadeira luz.
  9. Inversamente, pertence à natureza e à criatura o ser qualquer coisa, o procurar e o desejar qualquer coisa – isto ou aquilo –, e não apenas o Bem como Bem e porque ele é Bem, mas com vista a qualquer coisa – isto ou aquilo.
  10. Deus e a verdadeira luz são sem eu, sem amor próprio e sem procura de si.
  11. Inversamente, pertence à natureza – à falsa luz – o ter "eu", "meu", "me", etc.
  12. Em todas as coisas, é a ela própria e o seu que ela procura, mais do que ela procura o Bem como Bem. É essa a sua propriedade e a de toda a natureza.

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Leis do ser humano interior e do ser humano exterior


  1. Os mandamentos, as palavras e o ensinamento de Deus, dizem respeito ao ser humano interior e à sua união com Deus.
  2. Quando esta união se produz, o ser humano exterior é tão bem guiado e ensinado pelo ser humano interior que ele não tem mais necessidade de nenhum mandamento ou ensinamento exteriores.
  3. Inversamente, os mandamentos e as leis dos seres humanos dizem respeito ao ser humano exterior.
  4. Eles são necessários quando não se conhece nada de melhor. Sem eles, não se saberia o que se deve fazer ou não fazer, e ser-se-ia como os cães ou como o gado.

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Livro da Vida Perfeita – Quatro tipos de seres humanos


  1. «Deus está para além de toda a regra, de toda a medida e de toda a ordem.»
  2. «É Ele que dá a todas as coisas regra, ordem, medida e sabedoria.»
  3. Diz-se, e é a verdade. É preciso compreendê-lo assim:
  4. Deus quer que tudo isso seja – ordem, medida, etc. –, mas não o pode ter Ele próprio, sem criatura. Porque, em Deus, sem criatura, não há nem ordem nem desordem, nem regra nem desregramento, etc.
  5. Deus quer que tudo isso seja para que essas coisas existam e se produzam. Lá onde existem palavras, ações e relações, elas devem necessariamente produzir-se quer na ordem, na regra, na medida e na sabedoria, quer na desordem. Ora a ordem e a sabedoria são melhores e mais nobres que o contrário.
  6. Deve-se observar no entanto que os seres humanos que se ocupam da ordem, das leis e das regras são de quatro tipos:
  7. – Alguns não o fazem nem por Deus, nem por isto ou por aquilo, mas apenas por constrangimento: eles fazem-no o menos possível, e ainda assim é-lhes penoso e difícil.
  8. – Outros fazem-no por uma recompensa: são seres humanos que não conhecem mais nada e imaginam que não há melhor meio para atingir e merecer o Reino celeste e a vida eterna. Para eles, aquele que se adstringe rigorosamente a essas regras é um santo; aquele que não é atento a elas e as negligencia está perdido e pertence ao diabo. Eles prendem-se a elas portanto com grande zelo e um grande ardor, mesmo se eles acham que fazer isso é penoso.
  9. – Os terceiros são os espíritos maus e falsos que crêem ser prefeitos: eles declaram que não têm necessidade dessas coisas e troçam delas.
  10. – Os quartos são os seres humanos iluminados pela verdadeira luz. Eles não se prendem a essas regras para uma recompensa: eles não querem aí ganhar nenhuma vantagem e não querem aí atingir nada. Eles agem apenas por amor. Eles não se preocupam muito em fazer com eficácia, com rapidez, etc., mas apenas em fazer bem, na paz e na serenidade.
  11. Se lhes acontece o negligenciarem qualquer coisa, eles não se crêem perdidos por causa disso.
  12. Eles sabem bem que a ordem e a sabedoria são melhores e mais nobres que a desordem, e é por isso que eles se atêm a elas.
  13. Mas eles sabem também que a Felicidade não depende disso, e é por isso que eles não se preocupam tanto com isso como os outros.
  14. São esses seres humanos que são criticados e condenados pelos outros seres humanos.
  15. Os mercenários dizem: «São uns negligentes» ou ainda: «Eles vivem na injustiça», etc.
  16. Os outros – aqueles que têm um espírito «livre» – troçam deles: «São uns espíritos grosseiros», «São uns insensatos», etc.
  17. Eles atêm-se assim ao melhor, que é o Melhor.
  18. Porque aquele que ama verdadeiramente Deus é melhor e mais amado por Deus que cem mil mercenários.
  19. Passasse o mesmo com as suas ações.

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Livro da Vida Perfeita – Não esperar recompensas


  1. «Se o ser humano não consegue obter nada de útil ao seguir a vida de Cristo, o que é que o retêm de a descartar?» Responde-se aqui à questão que foi colocada mais acima (ver A natureza e a graça).
  2. Não se segue a vida de Cristo para atingir um fim, nem para obter qualquer coisa de útil, mas por amor à nobreza, e porque ela é amada e apreciada por Deus.
  3. Aquele que diz ou pensa que não precisa mais dela ou que pode abandoná-la, nunca a saboreou nem a conheceu. Porque, quando ela foi verdadeiramente encontrada e saboreada, não se pode mais abandoná-la.
  4. Aquele que segue a vida de Cristo para atingir ou merecer uma recompensa, age como um mercenário e não por amor.
  5. Ele não a seguiu mesmo de todo: porque aquele que não a segue por amor, não a pode seguir.
  6. Ele pode imaginar que a segue, mas ele engana-se.
  7. Cristo viveu a sua vida por amor, e não para uma recompensa.
  8. O amor torna a vida leve e sem preocupações. Ele faz amá-la e suportá-la voluntariamente. Mas aquele que não a vive por amor, mas crê vivê-la para uma recompensa, ele encontra-a pesada e deseja desembaraçar-se dela.
  9. É próprio de todos os mercenários o desejarem o fim do seu trabalho. Mas aquele que ama verdadeiramente não é oprimido nem pelo trabalho, nem pelo tempo, nem pelo sofrimento.
  10. É por isso que está escrito: «Servir Deus, e viver para Ele, é fácil para quem O serve e vive para Ele.»
  11. Isto é verdadeiro para aquele que age por amor, mas aquele que age para uma recompensa considera isto difícil.
  12. Passa-se o mesmo com todas as virtudes, com todas as boas ações, mas também com as regras, as convenções, etc.

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Livro da Vida Perfeita – A vida nobre e verdadeira


  1. Lá onde estaria – lá onde está – um ser humano assim «santificado», lá está a vida melhor, a mais nobre e a mais digna de Deus que alguma vez existiu e que alguma vez existirá.
  2. O Amor eterno aí ama Deus como o Bem, e porque Ele é o Bem. Ele ama o melhor e o mais nobre em todas as coisas, porque ele é o Bem. E ele ama de tal forma a vida nobre e verdadeira que ele não a abandona e não a rejeita nunca mais.
  3. Quando esta vida está num ser humano, ele não pode mais abandoná-la, mesmo que ele tivesse de viver até ao Último Dia.
  4. Igualmente se ele tivesse que morrer de mil mortes e sofrer todo o sofrimento que se pode abater sobre as criaturas, ele preferiria sofrer tudo isso em vez de abandonar essa nobre vida.
  5. Ele não a abandonaria sequer mesmo pela vida dum anjo...

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Livro da Vida Perfeita – O sofrimento do pecado


  1. Deus, enquanto que Ele é Deus, não conhece nem sofrimento, nem aflição, nem infelicidade. No entanto Ele é afligido pelo pecado do ser humano.
  2. Isto não se pode produzir em Deus sem a criatura, e tem que portanto se produzir quando Deus é humano ou num ser humano santificado.
  3. Deus está então tão desgostoso e abatido pelo pecado que Ele aceitaria voluntariamente o ser atormentado ou o sofrer a morte corporal se Ele pudesse apagar com isso o pecado de um único ser humano.
  4. Se alguém lhe perguntasse se Ele preferia viver e que o pecado permanecesse, ou morrer e pela sua morte apagar o pecado, Ele escolheria a morte. Porque o pecado de um único ser humano é-lhe mais doloroso e cruel que os seus próprios tormentos e a sua própria morte.
  5. Se o pecado de um único ser humano lhe causa tanto mal, o que será do pecado de todos os seres humanos?
  6. Vê-se por isso quanto o ser humano aflige Deus com os seus pecados.
  7. Lá onde Deus é ser humano – ou num ser humano santificado -, não se deplora nada a não ser o pecado: não há outro sofrimento. Porque tudo o que é ou se produz sem pecado, Deus quer tê-lo e sê-lo.
  8. Mas as queixas e as lamentações por causa do pecado devem, por necessidade e por obrigação, permanecer num ser humano santificado até à sua morte corporal – mesmo que ele tivesse que viver eternamente ou até ao Último Dia.
  9. Daí vinham – e vêem – os sofrimentos secretos de Cristo de que ninguém fala e não sabe nada a não ser Cristo ele próprio. É por isso que eles são – e se lhes chama - «secretos».
  10. É ainda uma propriedade que Deus aprecia e que lhe agrada bastante no ser humano. Propriedade de Deus e não do ser humano, o qual não é capaz...
  11. Mas quando Deus consegue obtê-la no ser humano, ela é a mais amada e a mais digna d'Ele, porque também a mais amarga e a mais penosa para o ser humano.
  12. Tudo aquilo que se escreveu aqui desta propriedade de Deus – que Ele quer no entanto ver praticada e realizada no ser humano -, nos é ensinado pela luz verdadeira.
  13. Ela ensina também que o ser humano, no qual ela é praticada e realizada, lhe atribui tão pouco valor como se ela não existisse de todo. Fica-se a saber assim que o ser humano não é capaz dela e que ela não lhe pertence.

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Livro da Vida Perfeita – Todas as coisas têm o seu ser em Deus


  1. Quando se diz que «qualquer coisa é ou faz contra Deus», que «ela O aflige ou O ofende», é preciso saber que nenhuma criatura é «contra Deus».
  2. Nenhuma criatura O aflige ou O ofende porque ela é ou vive, porque ela sabe ou pode. Nada de tudo isso é contra Deus.
  3. Que o ser humano viva ou que o diabo exista, isso é muito bom e vem de Deus – porque Deus é a essência e a origem de tudo isso.
  4. Deus é o ser de todos os existentes, a vida de todos os viventes, a sabedoria de todos sábios.
  5. Todas as coisas têm o seu ser em Deus mais verdadeiramente que nelas próprias, e igualmente das faculdades delas, da vida delas, etc.
  6. Porque de outra forma Deus não seria todo o bem. E é por isso que tudo o que existe, é bom.
  7. O que é bom é amado por Deus e Ele o deseja. É por isso que não é contra Deus.
  8. «O que é que então é contra Deus e O aflige?»
  9. O pecado, e ele apenas !
  10. «Mas o que é o pecado?»
  11. A criatura quer diferente de Deus. Ela quer contra Deus e contra a vontade de Deus. O pecado não é nada mais que isto. Que cada um o observe em si próprio!
  12. Aquele que quer diferente de mim, ou que é contra mim, é meu inimigo. Aquele que quer como eu é meu amigo e é-me querido. É igual com Deus.
  13. Aquele que quer diferente de mim ou contra mim – o que quer que ele faça ou não faça, o que quer que ele diga ou não diga – é contra mim e é-me penoso. É igual com Deus.
  14. Aquele que quer diferente de Deus ou contra a vontade de Deus – o que quer que ele faça ou não faça, o que quer que ele tenha a realizar – é contra Deus e entrega-se ao pecado.
  15. A vontade que quer diferente de Deus está também contra a vontade de Deus: «Aquele que não está comigo, diz Cristo, está contra mim» (Mt 12, 30).
  16. O que quer dizer: «Aquele que não quer comigo, aquele que não tem uma única vontade comigo, esse quer contra mim.»
  17. Um ser humano pode observar com isto se ele está sem pecado ou não, se ele peca ou não, e o que é o pecado.
  18. Ele pode observar também como ou por quais meios se deve – e pode – repará-lo e corrigi-lo.
  19. Chama-se a essa vontade contrária a Deus «desobediência», «Adão», «eu», amor próprio, «vontade própria», «pecado» - ou também ainda o «homem velho», o «afastamento» e a «separação de Deus»: tudo isto é a mesma coisa.

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Livro da Vida Perfeita – Nada das criaturas


  1. É próprio de Deus, num ser humano santificado, o estar numa humildade profunda, verdadeira e essencial. Não há ser humano santificado sem uma tal humildade.
  2. Cristo ensinou isso com as suas palavras, com os seus atos e com a sua vida.
  3. E isso aparece quando se reconhece na verdadeira luz – como é na verdade – que a essência, a vida, o conhecimento, o saber e o poder, etc. pertencem ao verdadeiro Bem e não às criaturas.
  4. A criatura como tal não é nada, e não tem nada por ela própria.
  5. Quando ela se afasta do verdadeiro Bem por sua vontade, os seus atos e aquilo que se relaciona com eles, não se encontra aí nada mais que pura malignidade.
  6. Também é bem verdade que a criatura como tal não é por ela própria digna de nada: ela não tem direito a nada, ninguém lhe deve nada, nem Deus nem nenhuma criatura. É ela que deve com toda a justiça se abandonar e se submeter a Deus. Este ponto é o mais importante e o mais notável.
  7. Aquele que quer e deve se abandonar e se submeter a Deus deve, por necessidade e por obrigação, se submeter também a todas as criaturas – duma maneira passiva e não de uma maneira ativa, o que seria erróneo.
  8. Deste último ponto vem a verdadeira humildade, como também do ponto precedente. Se não fosse assim na verdade, se não fosse o Melhor segundo a verdadeira justiça de Deus, Cristo não o teria ensinado com as suas palavras e não o teria realizado com a sua vida.
  9. Toca-se aqui numa verdade – e é preciso insistir nela. A criatura deve ser submissa a Deus e a todas as criaturas, segundo a verdade e justiça de Deus, e nada lhe deve ser submetido ou abandonado: Deus e todas as criaturas têm direito a ela e sobre ela, mas ela não tem direito a nada e sobre nada.
  10. Ela tem obrigações para com todos, e ninguém tem para com ela. Tudo isto, bem entendido, deve ser compreendido de uma maneira passiva e não ativa.
  11. Disso vem também a pobreza espiritual, da qual Cristo dizia: «Bem aventurados os pobres em espírito porque o Reino de Deus é deles.» (Mt 5, 3).
  12. Tudo isso, isto o ensinou com as suas palavras e o realizou com a sua vida.

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Livro da Vida Perfeita – Contra a vontade própria


  1. «Se é verdadeiro, poder-se-ia dizer, que Deus quer, deseja e faz a cada um aquilo que é o melhor, Deus deveria vir em ajuda de cada um e fazer por forma que todas as suas vontades se realizassem: para um tornar-se papa, para outro bispo, etc.»
  2. Aquele que ajuda o ser humano a realizar a sua vontade própria ajuda-o para o pior. Porque quanto mais o ser humano segue a sua vontade própria, mais ela cresce nele, e mais o ser humano se afasta de Deus e do Bem verdadeiro.
  3. Deus ajuda voluntariamente o ser humano, entre todas as coisas, a atingir aquilo que é o Melhor – o melhor em si ou o melhor para o ser humano. Mas, para que isso aconteça, é preciso, já se disse mais acima, que toda a vontade própria desapareça. E para isso também Deus ajuda o ser humano voluntariamente.
  4. Enquanto o ser humano procura aquilo que é o «seu» melhor, ele não procura o Melhor e não o encontrará. Porque o melhor para o ser humano seria – e é – o não procurar e o não considerar nem a si próprio nem o seu. É isso que Deus diz e ensina.
  5. Aquele portanto que quer que Deus o ajude a atingir o Melhor, que ele siga a palavra, o ensinamento e os mandamentos de Deus. É assim que ele obterá a sua ajuda e não de outra forma. O ser humano deve de se abandonar a si próprio e de abandonar todas as coisas para O seguir. É isto que Deus diz e ensina.
  6. Aquele que ama a sua alma – quer dizer que se ama a ele próprio -, aquele que a quer guardar e a preservar – quer dizer que se procura a si próprio e o seu nas coisas -, esse perderá a sua alma.
  7. Mas aquele que não se preocupa com a sua alma, aquele que se abandona a si próprio e tudo o que é seu, este guardará e preservará a sua alma na vida eterna.

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Livro da Vida Perfeita – O ser humano santificado


  1. Num ser humano santificado, o amor é portanto puro, sem mistura e benevolente para com todos e todas as coisas.
  2. Nele ama-se todas as pessoas e todas as coisas.
  3. Deseja-se-lhes, quer-se-lhes, faz-se-lhes um bem sem mistura.
  4. Sim, que se faça a um ser humano santificado tudo aquilo que se quiser – bem ou mal, alegria ou pena, isto ou aquilo – sim, que cem vezes o matem e que ele regresse à vida: ele precisaria necessariamente de amar aquele que o matou, aquele que lhe fez tanto dano, mal e sofrimento.
  5. Ele quererá necessariamente desejar-lhe e querer-lhe o bem. Ele quererá necessariamente fazer-lhe todo o bem possível na condição apenas de que aquele queira bem aceitá-lo e recebê-lo dele.
  6. Pode-se confirmá-lo, prová-lo e demonstrá-lo por Cristo.
  7. A Judas, que o traiu, ele diz: «Meu amigo, porque vieste?» (Mt 26, 50), como se ele dissesse: «Tu odeias-me, tu és meu inimigo: mas eu, eu amo-te e tu és meu amigo. Tu desejas-me, queres-me e fazes-me o maior mal possível: mas eu, eu desejo-te e quero-te o maior bem, e eu to faria e to concederia voluntariamente na condição apenas de que tu quisesses bem aceitá-lo e recebê-lo.»
  8. Exatamente como se Deus dissesse pela sua humanidade: «Eu sou um puro e simples Bem. Eu não posso desejar, querer, fazer nem conceder senão o Bem. Eu devo recompensar o teu mal e a tua maldade com o Bem, porque eu não sou e eu não tenho nada mais.»
  9. Num ser humano santificado, Deus não deseja, não quer nem realiza nenhuma vingança por todo o mal que lhe façam ou lhe farão.
  10. Vê-se-o bem em Cristo que dizia: «Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem» (Lc 23, 34).
  11. Igualmente, é próprio de Deus o não constranger ninguém pela força a fazer ou a não fazer: Ele deixa cada um fazer segundo a sua vontade – o bem ou o mal – sem se opor a isso.
  12. Vê-se-o bem ainda em Cristo que não quis opor-se àqueles que lhe faziam mal, nem resistir-lhes. Quando Pedro quis defendê-lo, ele disse-lhe: «Pedro, recoloca a tua espada na sua bainha! Porque não compete a mim nem aos meus discípulos de se oporem, de se defenderem ou de constrangerem pela violência» (Jo 18, 11).
  13. Igualmente, um ser humano santificado não importuna nem aflige ninguém: ele não tem nenhuma vontade, nenhum desejo, nenhum pensamento de fazer ou de não fazer, de dizer ou de não dizer aquilo que poderia inquietar ou afligir uma pessoa.

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Livro da Vida Perfeita – O Bem único


  1. Deus é luz e conhecimento.
  2. Ora pertence à luz e ao conhecimento o aclarar e o iluminar, o brilhar e o fazer-se conhecer.
  3. Porque Ele é luz e conhecimento, Deus deve aclarar, iluminar e fazer-se conhecer.
  4. Em Deus toda essa claridade e conhecimento é sem criatura: ela não existe como «ação», mas como essência e como origem.
  5. É só nas criaturas que ela se pode produzir como ação e duma maneira ativa.
  6. Quando essa luz e conhecimento está ativa numa criatura, ela faz conhecer e ensina o que ela é: o Bem.
  7. Não sendo nem este bem aqui nem aquele bem acolá, ela não dá a conhecer, não ensina «isto» ou «aquilo».
  8. Ela ensina a conhecer o Bem único: o perfeito, verdadeiro e simples Bem. Aquele que não é nem isto nem aquilo, mas que é todo o bem e para além de todo o bem.
  9. «Ela ensina o Bem único, dizemos nós: então o que é que ela ensina?» Estejamos aqui bem atentos.
  10. Da mesma forma que Deus é bem, conhecimento e luz, Ele é também vontade e amor, justiça e verdade assim como todas as virtudes. Tudo isso está em Deus sem criatura, como essência e como origem e não como ação. Tudo isso não se pode cumprir e realizar sem a criatura.
  11. Mas se esse Um, que é no entanto Tudo, toma a Ele uma criatura e se apodera dela, e se essa criatura é conveniente para Ele e parece bem disposta a Ele para que Ele se conheça a Ele próprio nela, então, sendo uma única vontade e um único amor, uma única luz e um único conhecimento, Ele aprende então com Ele próprio que Ele não deve ver nada mais que o Um que Ele é.
  12. A partir de então a criatura não quer mais, não ama nada mais que o Bem enquanto que ele é Bem e porque ele é Bem.
  13. Não porque ele é este bem aqui ou aquele bem acolá. Não porque ele é amável ou penoso, agradável ou doloroso, doce ou amargo, etc.
  14. Ela não pede nada de tudo isso para ela própria e não se procura mais a ela própria. Porque todo o meu e todo o amor próprio, todo o «me» e todo o «eu» são a partir de agora abandonados e deixados.
  15. Ela não diz mais: «Eu amo-me» ou «Eu amo-te», «Eu amo isto» ou «Eu amo aquilo», etc.
  16. Se perguntassem ao Amor: «O que amas tu?», ele responderia: «Eu amo o Bem». Se lhe perguntassem: «Porquê?», ele responderia: «Porque é o Bem e pelo amor do Bem.»
  17. É bom, justo e feliz que o Bem seja assim amado. E se existisse um Bem maior que Deus, era preciso ama-lo mais que a Deus Ele próprio.
  18. Deus não se ama porque Ele é Deus, mas porque Ele é o Bem. E se existisse, e se Ele conhecesse, um bem maior que Ele próprio, seria esse bem que Ele amaria e não a Ele próprio.
  19. Eu e amor próprio estão assim completamente ausentes de Deus. Nada lhe é próprio, salvo aquilo que é necessário para a distinção das pessoas divinas.
  20. É assim que é na verdade – e deve ser – num ser humano santo ou num ser humano verdadeiramente santificado.
  21. De outra forma, ele não seria santo ou santificado.

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Livro da Vida Perfeita - Nem isto nem aquilo


  1. Deus, enquanto que Ele é bom, é bom em si. Ele não é nem este bem aqui nem aquele bem acolá. Façamos aqui uma observação.
  2. Aquilo que está em «qualquer lugar», aqui ou acolá, não está em todo o lugar e para além de todo o lugar e sítio.
  3. Aquilo que está em «qualquer tempo», hoje ou amanhã, não está em todo o instante, em todo o tempo e para lá de todo o tempo.
  4. Aquilo que é «qualquer coisa», isto ou aquilo, não é todas as coisas e para lá de todas as coisas.
  5. Se Deus fosse «qualquer coisa» - isto ou aquilo -, Ele não seria, como Ele é, Tudo e para além de tudo. Ele não seria a verdadeira perfeição.
  6. É por isso que Deus «é», e no entanto nem isto nem aquilo que as criaturas, enquanto que tais, possam conhecer ou nomear, pensar ou dizer.
  7. Se Deus, enquanto que Ele é bom, fosse este bem aqui ou aquele bem acolá, Ele não seria todo o Bem e para lá de todo o bem.
  8. Ele não seria este perfeito e simples Bem que Ele é.

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Mestre Eckhart – Daniel o profeta diz: nós te seguimos



  1. O ser humano tem o espírito de sabedoria quando ele considera todas as coisas como um puro nada
  2. É verdadeiramente uma loucura o pedir a Deus qualquer outra coisa que não seja Ele
  3. O dom de sabedoria é o mais nobre dos sete dons do Espírito Santo
  4. São Paulo desejava estar separado de Deus, por Deus, e pelos seus irmãos
  5. A verdadeira cruz consiste em se renunciar para obedecer à vontade divina
  6. Não se pode conceber Deus sem a alma, nem a alma sem Deus, de tal forma eles são um
  7. A alma não tem diferença com Nosso Senhor Jesus Cristo, senão o de ter um ser mais grosseiro
  8. Aquele que viu Deus e o provou, não o abandona e continua a correr atrás dele
  9. O conhecimento procura Deus e apreende-o na sua raiz, mas a vontade fica no exterior e liga-se à bondade



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Mestre Eckhart – Daniel o profeta diz: nós te seguimos 1


Sermão 59 - Daniel o profeta diz: nós te seguimos
  1. O profeta Daniel diz: «Nós te seguimos com todo o coração, e nós te tememos, e nós procuramos o teu rosto.» (Dn 3, 41) 1
  2. Estas palavras adaptam-se bem àquelas que eu disse ontem: «Eu chamei-o, eu convidei-o, eu atraí-o, e o espírito de sabedoria veio a mim, e eu estimei-o mais do que todos os reinos, e o poder, e o domínio, e o ouro, e a prata, e as pedras preciosas, e comparadas ao espírito de sabedoria, eu considerei todas as coisas como um grão de areia, como lama, e como um nada.»
  3. É um sinal manifesto que o ser humano tem o «espírito de sabedoria» quando ele considera todas as coisas como um puro nada.
  4. Naquele que pode considerar o que quer que seja como qualquer coisa, o «espírito de sabedoria» não existe.
  5. Que ele tenha dito «como um grão de areia», era muito pouco; que ele tenha dito «como lama», era ainda muito pouco; que ele tenha dito «como um nada», estava bem dito, porque todas as coisas são um puro nada comparadas com o «espírito de sabedoria».
  6. Eu chamei-o, e atraí-o, e convidei-o, e o «espírito de sabedoria» veio a mim.
  7. O «espírito de sabedoria» vem àquele que o chama para o mais interior dele próprio. 2

Notas
  1. Este texto encontra-se na missa da sexta-feira depois do domingo da Paixão. [  ]
  2. Os exegetas não conseguem determinar a qual sermão Eckhart faz exatamente alusão quando ele cita as palavras do Livro da Sabedoria 7, 7 que ele «disse ontem».

    Que, para aquele que possui o «espírito de Sabedoria», todas as coisas sejam não apenas «um grão de areia» e «lama», é ainda demasiado pouco dizer; «como um nada», estava bem dito, porque todas as coisas são um puro nada, comparadas com o espírito de Sabedoria.

    Nós reencontramos aqui uma das constantes do pensamento eckhartiano, tal como nós já bastantes vezes reencontramos a sua expressão. [  ]


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Mestre Eckhart – Daniel o profeta diz: nós te seguimos 3


  1. Ora ele (o sábio) diz: «Com o espírito de sabedoria, todo o bem me veio ao mesmo tempo.»
  2. O dom de sabedoria é o dom mais nobre entre os sete dons.
  3. Deus não faz nenhum destes dons sem se dar Ele próprio primeiro, da mesma maneira, e na geração.
  4. Tudo aquilo que é bom e que pode trazer alegria e consolação, eu tenho tudo no «espírito de sabedoria», e toda a doçura, por forma que ele não é omisso nem mesmo em algo tão pequeno quanto a ponta de uma agulha, e no entanto seria pouca coisa se não o tivesse em plenitude e igualdade, absolutamente como Deus desfruta dele; eu desfruto dele portanto da mesma maneira, da mesma coisa na sua natureza.
  5. Porque no «espírito de sabedoria», ele age em plena igualdade, tão bem que a mais pequena coisa se torna como a maior, mas não a maior como a mais pequena, da mesma forma que se enxerta um ramo nobre num sujeito grosseiro, todo o fruto fica conforme à nobreza do ramo, não conforme à grosseria do sujeito.
  6. Passa-se o mesmo neste espírito, então todas as obras se tornam iguais, porque a mais pequena torna-se como a maior e não a maior como a mais pequena.
  7. Ele dá-se a Ele próprio na geração, porque a obra mais nobre em Deus é a de gerar, se uma coisa em Deus fosse mais nobre que a outra, porque Deus tem toda a sua alegria a gerar.
  8. Tudo aquilo que me é inato, ninguém mo pode tirar, a menos que Ele (Deus) mo tire a mim próprio.
  9. Tudo aquilo que me pode acontecer de fortuito, eu posso perdê-lo; é por isso que Deus se gera totalmente em mim para que eu não o perca nunca, porque tudo aquilo que é inato, eu não o perderei nunca.
  10. Deus tem toda a sua alegria no nascimento, é por isso que Ele gera o seu Filho em nós, afim de que nós tenhamos nisso toda a nossa alegria, e que nós geremos ao mesmo tempo que Ele esse mesmo Filho segundo a natureza, porque Deus tem toda a sua alegria no nascimento, é por isso que Ele se gera em nós, afim de que Ele tenha toda a sua alegria na alma, e que nós tenhamos toda a nossa alegria n'Ele.
  11. Eis porque Cristo diz, como São João escreve no Evangelho: «eles seguem-me».
  12. Seguir Deus verdadeiramente, é bem: que nós sigamos a sua vontade, como eu o disse ontem: «que a sua vontade seja feita».
  13. São Lucas escreve no Evangelho que Nosso Senhor diz: «Que aquele que me quer seguir se renuncie a ele próprio, pegue na sua cruz e me siga.»
  14. Aquele que se renunciasse verdadeiramente pertenceria verdadeiramente a Deus, e Deus seria verdadeiramente dele, eu estou tão certo disto quanto o eu ser um ser humano.
  15. Para esse ser humano, é tão fácil deixar todas as coisas quanto uma lentilha, e quanto mais ele deixou, melhor é. 1

Notas
  1. O dom de sabedoria é o mais nobre dos sete dons do Espírito Santo. Deus não concede nenhum deles sem se dar a Ele próprio sob a forma da geração. Tudo aquilo que pode trazer alegria e consolação, eu tenho tudo no espírito de Sabedoria, em plena igualdade com Deus, tão bem que a mais pequena coisa se torna como a maior, e não inversamente.

    Se enxertarmos um ramo nobre num sujeito grosseiro, todo o fruto fica conforme à nobreza do ramo; igualmente, se este espírito de Sabedoria é dado à pessoa fruste e grosseira, todas as suas obras tornam-se iguais.

    A obra mais nobre em Deus sendo a de gerar – se pelo menos se pode dizer que em Deus uma coisa é mais nobre que a outra – eu sinto ao gerar o Filho em mim a mesma alegria que Ele tem em gerar o Filho n'Ele. «Tudo aquilo que me pode acontecer de fortuito, eu posso perdê-lo; mas Deus gera-se totalmente em mim para que eu não o perca nunca... Deus tem toda a sua alegria no nascimento, Ele gera-se portanto em nós afim de que Ele tenha toda a sua alegria na alma, e que nós tenhamos toda a nossa alegria n'Ele.» [  ]


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Mestre Eckhart – Daniel o profeta diz: nós te seguimos 2


  1. Existe na alma uma potência mais vasta que todo o mundo.
  2. É preciso que ela seja muito vasta visto que Deus reside nela.
  3. Certas gentes não convidam o «espírito de sabedoria», elas convidam a saúde, e a riqueza, e o prazer, mas o «espírito de sabedoria» não vem a elas.
  4. Aquilo que elas pedem é-lhes mais caro que Deus – como aquele que dá um pfennig por um pão, prefere o pão ao pfennig -, elas fazem de Deus seu criado.
  5. «Faz-me isto e cura-me», diria uma pessoa rica, «pede-me o que tu queres e eu te darei», se ele pedisse então um heller, seria uma aberração, e se ele lhe pedisse cem marcos, ele (o rico) dar-lhos-ia.
  6. É por isso que é verdadeiramente uma loucura o pedir a Deus qualquer outra coisa que não seja Ele; é indigno d'Ele porque Ele não dá nada mais voluntariamente que a Ele próprio.
  7. Um mestre diz: todas as coisas têm um porquê, mas Deus não tem porquê, e o ser humano que pede a Deus qualquer coisa mais que Ele próprio, faz de Deus um «porquê». 1

Notas
  1. Para aqueles que «não convidam» o espírito de Sabedoria, mas a saúde, a riqueza, o prazer, aquilo que eles pedem é-lhes mais caro que Deus. É uma loucura o pedir a Deus outra coisa que Ele próprio, é fazer de Deus um «porquê». Ora, Deus é «sem porquê».

    Nós já reencontramos várias vezes o tema importante do «sem porquê», que Mestre Eckhart apenas aflora aqui. Deus não age por nenhuma outra razão que não seja o seu próprio ser, e o ser humano, igualmente, deve viver sem fins finitos, por nenhuma outra razão que não seja o ser de Deus. Portanto, Deus não pode nunca ser um meio em vista a obter qualquer coisa na terra. [  ]


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Mestre Eckhart – Daniel o profeta diz: nós te seguimos 4


  1. São Paulo desejava estar separado de Deus, por Deus, e pelos seus irmãos.
  2. Sobre este assunto, os mestres têm grandes dificuldades e muitas hesitações.
  3. Certos dizem: ele pensava: «um momento».
  4. Não é absolutamente nada verdadeiro: de tão mau grado um instante quanto eternamente, e de tão bom grado eternamente quanto um instante.
  5. Quando o ser humano considera a vontade de Deus, quanto mais tempo isso fosse, mais ele ficaria satisfeito, e mais o tormento seria grande, mais ele ficaria satisfeito.
  6. Tal como um comerciante que, se ele soubesse de forma certa que aquilo que ele comprou por um marco lhe rendesse dez, empregaria tantos marcos quantos possuísse e qualquer que fosse a dificuldade que ele tivesse, se ele estivesse certo de regressar a casa são e salvo e de ganhar com isso tanto mais, tudo isso lhe seria agradável.
  7. Era assim para São Paulo: aquilo que ele sabia ser a vontade de Deus, quanto mais longo fosse, mais ele estava satisfeito, e mais o tormento durava, maior era a sua alegria, porque realizar a vontade de Deus é o reino celeste, e quanto mais essa vontade durasse, mais longamente durava o reino celeste, e mais o tormento era grande, maior era a beatitude. 1

Notas
  1. Eckhart desenvolve em seguida a parte do texto de David colocada como título do sermão: «Nós te seguimos...» Ele reforça esta citação do Antigo Testamento com duas outras do Evangelho: João 10, 27 e Lucas 9, 23, onde é questão de seguir Cristo, tema que ele já desenvolveu no sermão 58, Aquele que me serve.

    É uma nova ocasião para o pregador recordar o texto de São Paulo aos Romanos, declarando que ele desejaria ser anátema para os seus irmãos. Ele já abordou esta questão no sermão 12, Quem me escuta... e no Livro da Consolação Divina. Os mestres são de opinião diferente sobre este assunto. A argumentação de Eckhart não é absolutamente a mesma nesses três textos, mas a sua conclusão permanece idêntica: não poderia tratar-se para São Paulo, como certos pensam, de estar separado de Deus «um momento», «de tão mau grado um instante quanto eternamente, e de tão bom grado eternamente quanto um instante», como ele o diz aqui: «Quando o ser humano considera a vontade de Deus, quanto mais isso fosse, mais ele ficaria satisfeito.»

    Eckhart retoma a comparação do mercador e do benefício que ele espera, já empregue no Livro da Consolação Divina. Uma frase de passagem recorda-nos a insegurança das estradas na época de Eckhart. Lá, «o mercador afronta os brigões que ameaçam a sua vida e os seus bens». Aqui, «qualquer que seja a pena que ele tomasse, se ele tivesse certo regressar a casa dele são e salvo...» Suso contou-nos bastante a esse respeito. [  ]


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Mestre Eckhart – Daniel o profeta diz: nós te seguimos 5


  1. «Renuncia-te a ti próprio e pega na tua cruz.»
  2. Os mestres dizem que as penas são o jejum e outras penitências.
  3. Mas eu digo que isso é suprimir a pena porque apenas a alegria é a consequência desse comportamento.
  4. Em seguida ele (Cristo) diz: «Eu dou-lhes a vida.»
  5. Muitas outras coisas que possuem as criaturas dotadas de intelecto são «acidente», mas a vida é própria a cada criatura dotada de intelecto como sendo o seu ser.
  6. É por isso que ele diz: «Eu dou-lhes a vida», porque o seu ser é a sua vida, e Deus dá-se absolutamente quando Ele diz: «eu dou».
  7. Nenhuma criatura seria capaz de a dar (a vida) mas se fosse possível que uma criatura a pudesse dar, Deus ama tanto a alma que Ele não poderia tolerar isso: Ele quer ser Ele próprio a dá-la.
  8. Se uma criatura a desse, a alma a consideraria sem valor, ela não faria caso dela mais do que de um mosquito.
  9. Tal como se um imperador desse uma maçã a qualquer um, este atribuir-lhe-ia mais valor do que se uma outra pessoa lhe desse uma veste; igualmente a alma também não pode tolerar o receber a vida de qualquer um que não seja de Deus.
  10. É por isso que ele diz: «eu dou», afim de que a alma tenha uma alegria perfeita nesse dom. 1

Notas
  1. Não se deve pensar, como certos, que a «cruz» de que fala Lucas, são as austeridades, os jejuns e outras penitências, pelo contrário eles suprimem as penas porque eles têm a alegria por consequência. A verdadeira cruz consiste em se renunciar para obedecer à vontade divina.

    Cristo diz em seguida: «Eu dou-lhes a vida.» As criaturas dotadas de intelecto possuem muitas coisas que são «acidente», mas a vida é própria de cada criatura dotada de intelecto como sendo o seu ser. É por isso que ele diz: «eu dou-lhes a vida», porque o seu ser é a sua vida e Deus dá-se absolutamente quando ele diz: «eu dou».

    Nenhuma criatura poderia dar a vida. E nós reencontramos aqui Mestre Eckhart com as suas suposições no impossível: «se uma criatura fosse capaz de dar a vida, Deus ama de tal forma a alma que Ele não toleraria isso, e por seu lado, se a alma a recebesse de um outro que não fosse de Deus, ela não lhe daria mais importância "do que a um mosquito"». [  ]


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