Mestre Eckhart – Esta é a vida eterna



  1. A vida eterna, é que eles te conheçam, único verdadeiro Deus
  2. Quando nós queremos rezar, que antes nós nos abaixemos
  3. Deus opera mais num coração humilde porque lá Ele tem mais possibilidades de operar
  4. Na medida em que a alma avança, ela penetra mais na luz
  5. Tudo o que se pode acrescentar a Deus encerra Deus
  6. Aquele que conhece alguma coisa mais de Deus, não conhece Deus só



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Mestre Eckhart – Esta é a vida eterna 1


Sermão 54b - Esta é a vida eterna
  1. Nosso Senhor diz: «A vida eterna, é que eles te conheçam, único verdadeiro Deus, e aquele que tu enviaste, Jesus Cristo.» «Nosso Senhor levantou os olhos para o céu e disse: "Pai, a hora chegou, glorifica o teu Filho para que o teu Filho te glorifique", e ele rezou por aqueles que lhe tinham sido dados e disse: "Dá-lhes a vida eterna; faz com que eles sejam um contigo como eu e tu nós somos um".» (Jo 17, 1-3) 1

Notas
  1. Este sermão está em relação estreita com o precedente. Josef Quint estabeleceu o texto do sermão 54b baseando-se nos dois originais que o contêm, bastante próximos um do outro.

    Quando eles divergem ele escolheu, por intermédio de critérios internos, aquele que lhe pareceu o melhor. Para além disso ele apresentou as variantes mais importantes, mais ou menos paralelamente. Apesar de nós já termos lido antes desenvolvimentos análogos - também subtis e difíceis -, consideramos que seria bom seguirmos aqui o editor. [  ]


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Mestre Eckhart – Esta é a vida eterna 2


  1. «Ele levou os olhos para o alto.» Com isto ele ensina-nos: quando nós queremos rezar, que antes nós nos abaixemos, numa humildade verdadeira e submetida, abaixo de todas as criaturas.
  2. Apenas depois nós devemos subir diante do trono da Sabedoria, e tanto quanto nós nos abaixamos, tanto será atendida a oração que nós realizamos.
  3. Ora um texto diz que cada vez que Nosso Senhor levantava os olhos, ele queria realizar uma grande obra.
  4. Era com efeito uma grande obra, aquilo que ele diz aqui: «que eles sejam um contigo como eu e tu nós somos um».
  5. Está dito no Livro da Sabedoria «que Deus só ama aquele que habita na Sabedoria»; ora o Filho é a Sabedoria.
  6. Como na pureza na qual Deus criou a alma, nós tornamo-nos tão puros na Sabedoria que é o Filho.
  7. Porque, assim como eu disse frequentemente, ele é uma porta pela qual a alma regressa ao Pai, tudo o que Deus alguma vez operou não era nada mais que uma imagem e um sinal da vida eterna. 1

Notas
  1. «Ele levantou os seus olhos para o alto.» O ensinamento é o mesmo que em 54a: Cristo quer que antes de rezarmos, nós nos abaixemos numa humildade verdadeira, só em seguida nós podemos nos elevar até ao trono da Sabedoria.

    Ainda como em 54a, encontramos uma alusão ao texto de Inocêncio III: quando Nosso Senhor levantava os olhos ao céu, é porque ele queria realizar uma grande obra. Ora, precisamente, aquilo que ele aqui diz é grande: que eles sejam contigo, como eu e tu nós somos um.

    Segundo o Livro da Sabedoria, Deus só ama aquele que habita na Sabedoria: a Sabedoria é o Filho, a porta pela qual nós regressamos ao Pai. [  ]


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Mestre Eckhart – Esta é a vida eterna 3


  1. «Ele levou os seus olhos ao alto», do verdadeiro fundo da mais extrema humildade.
  2. Da mesma forma que o poder do céu não opera tanto como no fundo da terra (apesar de ser o elemento mais baixo), porque é lá que ele tem mais possibilidades de operar, da mesma forma Deus opera mais num coração humilde porque lá Ele tem mais possibilidades de operar, encontrando lá a maior similitude com Ele próprio.
  3. Com isto, ele ensina como nós devemos penetrar no nosso fundo da verdadeira humildade e do verdadeiro denodo, afim de que nós nos desapossemos de tudo o que não é nosso por natureza, quer dizer os nossos pecados e as nossas faltas, e também daquilo que é nosso por natureza, quer dizer tudo o que faz parte do eu próprio.
  4. Porque aquele que quer penetrar no fundo de Deus, naquilo que Ele tem de mais interior, deve primeiro penetrar no seu próprio fundo, naquilo que ele tem de mais interior.
  5. Com efeito, ninguém pode conhecer Deus se ele não se conhece primeiro a si próprio. 1
  6. Ele deve penetrar naquilo que ele tem de mais baixo e naquilo que Deus tem de mais interior, ele deve penetrar naquilo que é primeiro e mais elevado em Deus, porque lá se concentra tudo o que Deus pode realizar.
  7. O que é mais elevado na alma encontra-se no maior abaixamento, porque é o mais interior de tudo.
  8. Como aquele que quer aplanar um objeto redondo: o que estava com efeito em cima encontra-se com efeito em baixo. 2
  9. O terceiro ensinamento que ele nos dá quando ele «levou os seus olhos para o alto» é este: aquele que quer rezar deve levar para a bondade de Deus tudo aquilo que ele recebeu por graça, e quando ele quer implorar pelas suas faltas ou pelos pecados de outrem, ele deve levá-los para a misericórdia de Deus porque eles rezam por eles próprios.
  10. Aquilo que Deus encontra abaixado, Ele o reergue e eleva n'Ele.
  11. O quarto ensinamento quando «ele levou os olhos ao alto», é que com todo o nosso coração, nós subamos ao céu e a Ele com desejo, que nós metamos em Deus e em direção à altura suprema todo o nosso desejo, não por baixo de Deus nem ao lado de Deus, porque todas as instâncias superiores estão mais dispostas a agir naquilo que está por baixo delas.
  12. É por isso que todas as criaturas materiais são para o sol e as estrela um isco que transmite na pedra (magnética) o poder destes e a igualdade com eles.
  13. Quando o sol atrai a si o ar húmido, ele dá à pedra a igualdade com ele e o seu poder, por forma que ela emite invisivelmente um vapor e um poder, o qual atrai certo ferro, certa carne e certos ossos; quando alguém se aproxima dela, fica fixo lá.
  14. Assim faz o sopro divino, Ele atrai a alma a Ele, une-a a Ele, e torna-a semelhante a Ele.
  15. Da mesma forma que se alguém pegasse numa barrica cheia de água e a colocasse por cima e encostada a um grande tonel cheio de vinho, este dar-lhe-ia o poder do vinho, e a natureza do vinho, e a cor do vinho.
  16. Se o vinho é tinto, ela torna-se tinta; se o vinho é branco, ela torna-se igualmente branca e torna-se vinho, o que é devido ao vapor e ao odor do vinho.
  17. O que significa isto? Uma boa asserção! Da mesma forma que o vapor do vinho penetra na barrica cheia de água, da mesma maneira o poder de Deus penetra na alma.
  18. Aquele que quer ser conforme a Deus deve elevar-se com todo o seu desejo. 3

Notas
  1. O pregador retoma aqui as comparações do sermão precedente: da mesma forma que o poder do céu não opera em nenhum lugar tanto quanto no fundo da terra - sendo no entanto o elemento mais baixo - Deus opera sobretudo num coração humilde porque Ele encontra lá a maior similitude com Ele próprio.

    É preciso que nós nos desembaracemos de tudo aquilo que não é nosso, quer dizer de todos os nossos pecados, e também de tudo o que é nosso por natureza, quer dizer o nosso eu próprio.

    Aquele que quer penetrar no fundo de Deus deve primeiro penetrar no seu próprio fundo. [  ]
  2. Eckhart apresenta aqui antíteses e paradoxos: «Ele (o ser humano) deve penetrar naquilo que ele tem de mais baixo, e no mais interior de Deus.» «O que é mais elevado na alma encontra-se no maior abaixamento.»

    Nós encontramos aqui uma imagem que não se encontra em 54a: «Como aquele que quer aplanar um objeto redondo: aquilo que estava com efeito em cima se encontra com efeito em baixo.» [  ]
  3. Outro ensinamento dado por Cristo quando ele levanta os olhos: aquele que quer implorar pelas suas próprias faltas ou pelas de outrem deve leva-las para a misericórdia de Deus onde «elas rezam por elas próprias». Porque os seus defeitos rezam por eles próprios. Deus quer que todo o nosso desejo seja orientado para Ele.

    Como todos os seres superiores são naturalmente condescendentes com respeito ao que se encontra por baixo deles, Deus reergue tudo aquilo que se baixou. Eckhart dá-nos exemplos, retirados do mundo natural, que provam que as instâncias superiores estão dispostas a agir naquilo que está por baixo delas: é assim com o sol e as estrelas, dos quais a pedra magnética recebe o seu poder, por forma que ela atrai «certo ferro, certa carne e certos ossos». [  ]


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Mestre Eckhart – Esta é a vida eterna 4


  1. Uma outra interpretação: «ele levantou os olhos». Com isto ele ensina-nos: da mesma forma que o elemento mais elevado não pode operar em nenhuma parte tão bem como no fundo da terra - ele produz aí o ouro, a prata e as pedras preciosas - e naquilo que está lá misturado à terra como a folhagem, a erva e as árvores -, isso tem em si uma semelhança com o céu e com o anjo que move o céu: isso estende-se e amplifica-se e forma um habitáculo, afim de que o sol e o poder das estrelas sejam capazes de operar muito nelas e isto inclui em si a natureza do anjo e opera como o anjo, apesar de ser de muito longe; 1 igualmente nós devemos formar um habitáculo, nos estendermos e nos amplificarmos, afim de que Deus possa operar muito em nós, nós devemos ser semelhantes a Ele e operar como Ele.
  2. O animal conhece «aqui» e «agora», mas o anjo não conhece nem «aqui» nem «agora», e o ser humano, está acima das outras criaturas, conhece numa luz verdadeira onde não existe nem o tempo nem o espaço, sem «aqui» e sem «agora».
  3. Na medida em que a alma avança, ela penetra mais na luz.
  4. A alma, que é uma luz, inclui muito de Deus nela. 2

Notas
  1. Outra versão do texto: «Uma outra interpretação: "ele levantou os olhos". Tudo o que está acima de um elemento, como o céu e as estrelas, produz no elemento mais grosseiro, a terra, aquilo que nós não podemos ver como o ouro, a prata e as pedras preciosas porque é impossível que o céu possa alguma vez operar noutro sítio como acontece no fundo da terra, e naquilo que está misturado à terra como a folhagem, a erva e as árvores. Vê aqui uma comparação com o céu: não há criatura que não traga em si qualquer coisa daquilo de quem ela é filha. Os nossos mestres dizem: àquilo que está no alto não é suficiente o expandir da árvore e da erva e o seu curso como o do céu, não apenas o do céu, mas o do anjo que move o céu. Isto inclui em si a natureza do anjo e opera como o anjo, apesar de ser de muito longe;». [  ]
  2. A sensibilidade do animal está condicionada pelo tempo e o espaço. Não é assim para a do anjo e para a do ser humano. O ser humano, que está acima das outras criaturas, conhece numa luz verdadeira, sem «aqui» e sem «agora». [  ]


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Mestre Eckhart – Esta é a vida eterna 5


  1. «Ele levantou os olhos para o céu.» «Celum» significa um habitáculo do sol.
  2. Tudo o que se pode acrescentar a Deus encerra Deus, tudo o que se pode acrescentar a Ele, senão «ser puro», encerra Deus.
  3. Ora ele diz: «Pai, a hora chegou; glorifica o teu Filho afim de que o teu Filho te glorifique, e eu peço-te para além disso que dês uma vida eterna a todos aqueles que tu me deste.»
  4. Ora interroguem quem vocês quiserem, todos responderão que o seu pensamento era: «Pai, dá a vida eterna a todos aqueles que tu me deste.»
  5. Mas verdadeiramente esta frase significa: «Pai, tudo aquilo que tu me deste - o ser o Filho saído de ti, o Pai - eu te peço que lhes dês e que eles desfrutem disso; dessa vida eterna, é a recompensa eterna deles.»
  6. Vejam, isto quer dizer: tudo o que o Pai deu ao seu Filho, tudo aquilo que Ele é, que Ele lhes dê a eles. 1

Notas
  1. Tudo aquilo que se pode dizer de Deus, ou acrescentar a Deus, encobre o ser puro de Deus. Ora Cristo pede ao Pai que dê uma vida eterna àqueles que Ele lhe deu, o que quer dizer: tudo aquilo que Tu me deste - o ser o Filho saído de ti, o Pai -, eu te peço que tu lhes dês a eles. Tudo o que o Pai deu ao seu Filho, tudo aquilo que Ele é, que Ele lhes dê a eles. [  ]


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Mestre Eckhart – Esta é a vida eterna 6


  1. Uma «vida eterna», o que é, notem-no vocês próprios: «a vida eterna, é que eles te conheçam, a ti único verdadeiro Deus».
  2. O que entende ele dizendo: «Só a ti»?
  3. É que a alma não tenha gosto, a não ser por Deus só.
  4. É um outro significado quando ele diz: «te conhecer a ti só, é a vida eterna».
  5. Ele quer dizer que Deus é, e que nada é ao pé d'Ele.
  6. Aquele que conhece alguma coisa mais de Deus, não conhece Deus só.
  7. Mas aquele que conhece Deus só, conhece mais Deus.
  8. Os nossos mestres dizem: um tal conhece um em Deus, e um outro tal conhece mil em Deus.
  9. Aqueles que conhecem um, conhecem mais que aqueles que conhecem mil, porque é antes "em" Deus que eles conhecem, enquanto que aqueles que conhecem mil conhecem antes "ao pé" de Deus.
  10. Mais felizes são aqueles que conhecem mil, que aqueles que conhecem um, porque lá eles conhecem de Deus mais que em um.
  11. Mais felizes ainda são aqueles que conhecem um, que aqueles que conhecem mil, sempre mais um e não Deus nele.
  12. Porque, quando eu conheço qualquer coisa em Deus, o que quer que eu conheça, isso torna-se um comigo.
  13. Mas aquele que conhece Deus mais como um, conhece portanto menos ao pé de Deus.
  14. A nossa «vida eterna», é que nós conheçamos um; em conhecendo menos, nós te conhecemos mais, a ti, «um verdadeiro Deus».
  15. Porque é que ele diz: «tu um verdadeiro Deus» e ele não diz: tu, um Deus «sábio», ou «bom», ou «poderosos»? Porque a verdade introduz no ser. 1
  16. Tudo o que pode exprimir com palavras sequestra Deus e acrescenta-lhe.
  17. Mas a verdade inclui num único conhecimento, e afasta do múltiplo. 2
  18. Que a Trindade, numa única natureza divina, nos ajude para que, neste conhecimento, nós nos desprendamos de tudo, e nos tornemos um. Amém. 3

Notas
  1. Outra versão do texto: «E é mais feliz, aquele que conhece mil em Deus, que aquele que conhece um em Deus. Mas a beatitude não consiste em que ele conheça mil em Deus.

    Ela consiste em que ele tenha conhecido menos nele, e fora dele, e é por isso que ele conhece mais nele e não mais coisas, porque todas as coisas são um em Deus, e em Deus não há nada que não seja ser. Neste conhecimento simples reside a nossa vida eterna.

    Ora ele diz: «tu só verdadeiro Deus» e porque é que ele não diz: Deus «rico», ou Deus «poderoso», ou Deus «sábio»? É porque ele pensa que a verdade ultrapassa o que é mais elevado e é um ser puro.» [  ]
  2. A vida eterna, é que eles te conheçam, único verdadeiro Deus. «Aquele que conhece qualquer coisa mais de Deus, não conhece Deus só.» Aqueles que conhecem Deus como Um, conhecem mais de Deus do que aqueles que o conhecem como mil.

    Nós reencontramos a mesma dificuldade que no sermão precedente. É preciso, para a resolver, reencontrar um pensamento fundamental de Mestre Eckhart: quanto menos nós conhecermos em Deus multiplicidade, nomes, atributos, «acidentes» que encobrem o seu ser, mais nós conhecemos a unidade que Ele é. [  ]
  3. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 161-167. [  ]


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Mestre Eckhart – Nosso Senhor levantou os olhos



  1. A alma é levada até Deus pela Sabedoria divina
  2. É preciso que nós cheguemos ao nosso próprio fundo e àquilo que nós temos de mais interior, em pura humildade
  3. A alma bem ordenada no fundo da humildade, sobe e é atraída para o alto na potência divina
  4. A alma eleva-se acima do tempo e do espaço em igualdade com a luz do anjo e opera com ele espiritualmente no céu
  5. A todos aqueles que Tu me deste, Eu dou-lhes a vida eterna, e a nenhuns outros
  6. Quanto mais se conhece Deus como Um, mais se conhece a raiz de onde saíram todas as coisas



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Mestre Eckhart – Nosso Senhor levantou os olhos 1


Sermão 54a - Nosso Senhor levantou os olhos
  1. Nosso Senhor levantou os olhos e dirigindo o seu olhar para cima em direção ao céu, disse: «Pai, o tempo chegou, glorifica o teu Filho para que o teu Filho te glorifique. A todos aqueles que tu me deste, dá a vida eterna. A vida eterna, é que eles te conheçam como único verdadeiro Deus.» (Jo 17, 1) 1
  2. Eis o texto de um papa: quando Nosso Senhor levantava os olhos, Ele tinha um grande pensamento.
  3. O sábio diz no Livro da Sabedoria que a alma é levada até Deus pela Sabedoria divina.
  4. Santo Agostinho diz também que todas as obras e o ensinamento da humanidade de Deus são uma imagem e uma figura da nossa vida santa e da nossa grande dignidade diante de Deus.
  5. A alma deve ser purificada e tornada subtil na luz e na graça, totalmente desprendida e despojada daquilo que é estrangeiro à alma e também de uma parte daquilo que ela é ela própria.
  6. Eu já o disse frequentemente: a alma deve ser totalmente desnudada de tudo o que é «acidente», levada ao alto na pureza, e refluir no Filho como ela fluiu d'Ele.
  7. Porque o Pai criou a alma no Filho.
  8. É por isso que ela deve refluir n'Ele tão pura quando ela fluiu d'Ele. 2

Notas
  1. Eckhart procura dar o significado mais profundo às diferentes partes do texto que escolheu, extraído do evangelho para a vigília da Ascensão. [  ]
  2. O Livro da Sabedoria diz que a alma é levada até Deus pela Sabedoria divina. Eckhart cita um comentário do papa Inocêncio III que declara que, quando Cristo levantava os olhos, tinha um grande pensamento. A ideia diretriz do sermão, apesar das aparentes digressões, o «grande pensamento» é o da unidade entre Deus e a alma.

    A alma deve ser purificada e tornada subtil na luz e na graça, despojada daquilo que lhe é estrangeiro e também de uma parte daquilo que é ela própria, de tudo o que é «acidente», para refluir no Filho, tão pura quanto ela fluiu d'Ele. [  ]


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Mestre Eckhart – Nosso Senhor levantou os olhos 2


  1. Ora ele diz: «Ele levantou os olhos e dirigiu o seu olhar para cima».
  2. Esta frase inclui dois sentidos.
  3. Um, é um testemunho de pura humildade.
  4. Se nós devemos alguma vez chegar ao fundo de Deus e àquilo que Ele tem de mais interior, é preciso primeiro que nós cheguemos ao nosso próprio fundo e àquilo que nós temos de mais interior, em pura humildade.
  5. Os mestres dizem que as estrelas vertem toda a sua potência no fundo da terra, na natureza, e no elemento da terra, e produzem lá o ouro mais puro.
  6. Na medida em que a alma chega ao fundo e ao mais interior do seu ser, nessa mesma medida a potência divina derrama-se absolutamente nela, ela aí opera muito secretamente e manifesta muito grandes obras, a alma torna-se assim muito grande, elevada no amor de Deus que é semelhante ao ouro puro.
  7. Tal é o primeiro sentido de «Ele levantou os olhos». 1

Notas
  1. «Cristo levantou os olhos e dirigiu o seu olhar para cima.» Na interpretação de Eckhart, este texto tem dois significados. Ele designa a pura humildade. Se nós queremos chegar ao fundo íntimo de Deus, é preciso primeiro que nós cheguemos ao nosso próprio fundo.

    Da mesma forma que, segundo a cosmologia da Idade Média, um pouco surpreendente para nós, as estrelas derramam a sua potência na terra para aí produzir o ouro mais puro, quando a alma penetra no mais profundo dela própria, a potência divina opera em segredo e derrama-se na alma que se torna assim muito grande. [  ]


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Mestre Eckhart – Nosso Senhor levantou os olhos 3


  1. O segundo, é que a alma se deve dirigir para o alto na humildade, com todos os seus defeitos e os seus pecados, ela deve-se colocar e se inclinar sob a porta da misericórdia de Deus, onde Deus se resolve em misericórdia, e ela deve também levar ao alto a sua virtude e as suas obras boas, ela deve colocar-se com elas sob a porta onde Deus se resolve em bondade.
  2. Assim a alma deve seguir e ordenar-se segundo o exemplo: «Ele levantou os olhos».
  3. Em seguida ele diz: «Ele dirigiu o seu olhar para cima».
  4. Um mestre diz: aquele que fosse astucioso, e conhecesse isto, colocaria água por cima do vinho, por forma a que a potência do vinho pudesse agir nela: a potência do vinho transformaria a água em vinho e se ela estivesse bem colocada por cima do vinho, ela seria melhor do que o vinho, pelo menos ela tornar-se ia tão boa quanto o vinho.
  5. O mesmo se passa na alma que está bem ordenada no fundo da humildade, ela sobe assim e é atraída para o alto na potência divina; ela nunca repousa antes de ter ido diretamente para Deus e de o ter tocado na sua nudez, ela permanece inteiramente no interior, ela não procura nada fora, ela não fica também ao lado de Deus nem perto de Deus, ela dirige-se diretamente para Deus, na pureza do ser; é lá também que está o ser da alma, porque Deus é o ser puro.
  6. Um mestre diz: em Deus, que é o ser puro, não chega nada que não seja também ser puro.
  7. É portanto «ser» a alma que chegou direta a Deus, e em Deus. 1

Notas
  1. O segundo significado, é que a alma deve-se dirigir para o alto com todos os seus defeitos, e se colocar com toda a humildade sob a porta onde Deus se resolve em misericórdia.

    Ela deve também levar as suas virtudes e as suas obras boas.

    Da mesma forma, se alguém colocasse água por cima do vinho, a potência do vinho transformaria a água, e a tornaria tão boa quanto o vinho. Assim a alma que está bem ordenada no fundo da humildade nunca repousa antes de ir direta a Deus e de o tocar na sua nudez.

    Um mestre diz: em Deus, que é o ser puro, não chega nada que não seja também ser puro. É por isso que a alma se torna plenamente ser quando ela chega direta a Deus e em Deus. [  ]


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Mestre Eckhart – Nosso Senhor levantou os olhos 4


  1. É por isso que ele diz: «Ele dirigiu o seu olhar para cima, em direção ao céu».
  2. Um mestre grego diz que «céu» significa «habitáculo do sol».
  3. O céu derrama a sua potência no sol e nas estrelas, e as estrelas derramam a sua potência no seio da terra e produzem o ouro e as pedras preciosas, de tal forma que as pedras preciosas têm o poder de realizar obras maravilhosas.
  4. Umas têm o poder de atrair os ossos e a carne.
  5. Se uma pessoa se aproximasse delas, seria travada e não se poderia libertar a menos que dispusesse dos artifícios necessário para lhes escapar.
  6. Outras pedras preciosas atraem os ossos e o ferro.
  7. Cada pedra preciosa é um habitáculo das estrelas que recepta em si uma potência celeste.
  8. Assim, da mesma forma que o céu derrama a sua potência nas estrelas, da mesma forma as estrelas a derramam por sua vez nas pedras preciosas, nas plantas e nos animais.
  9. A planta é mais nobre do que a pedra preciosa porque ela tem uma vida que se desenvolve.
  10. Ela desdenharia crescer sob o céu material se não houvesse nele uma potência espiritual da qual ela recebe a vida.
  11. Assim, da mesma forma como o anjo mais baixo derrama a potência do céu, o move, dirige a sua revolução e a sua operação, da mesma forma o céu derrama a sua potência muito misteriosamente em cada planta e nos animais.
  12. Daí advém que cada planta tem uma propriedade que ela recebe do céu e que age em volta dela à roda como o céu.
  13. Os animais elevam-se mais alto, eles têm uma vida animal e sensorial e estão portanto fixos no tempo e no espaço.
  14. Mas a alma, na sua luz natural, naquilo que ela tem de mais alto, eleva-se acima do tempo e do espaço em igualdade com a luz do anjo e opera com ele espiritualmente no céu.
  15. Assim, a alma deve elevar-se sem cessar na operação espiritual.
  16. Lá onde ela encontra qualquer coisa da luz divina ou da semelhança divina, ela deve estabelecer a sua residência, e sem retorno até que ela suba ainda mais alto.
  17. E assim, ela deve elevar-se constantemente na luz divina e chegar assim acima de todos os habitáculos até à contemplação de Deus, pura e nua, com os anjos no céu.
  18. É por isso que ele (João) diz: «Ele olhou para o céu e disse: «Pai, o tempo chegou, glorifica o teu Filho para que o teu Filho te glorifique».
  19. Como o Pai glorifica o Filho, e como o Filho glorifica o Pai, mais vale calarem-se do que falarem; era preciso que fossem anjos, aqueles que devessem falar disso. 1

Notas
  1. Um mestre grego diz que «céu» significa «habitáculo do sol». Seguindo a cosmogonia do seu tempo, retirada de Aristóteles, frequentemente pelo canal de Alberto o Grande, Eckhart pensa que o céu derrama a sua potência no sol e nas estrelas, por sua vez as estrelas vertem a sua potência no seio da terra e produzem o ouro e as pedras preciosas, daí o poder que estas têm de realizar obras estranhas. O pregador dá com efeito exemplos bastante surpreendentes: «cada pedra preciosa, cada planta é um habitáculo das estrelas que recepta em si uma potência celeste».

    Já, no sermão 18, Jovem, digo-te, levanta-te, Eckhart se tinha questionado, junto com os «mestres», sobre o que é preferível: a potência das plantas, a potência das palavras ou a potência das pedras, e ele tinha-nos contado a história do combate da serpente e da doninha. Aqui também, ele compara as virtudes respetivas dos minerais, das plantas e dos animais. Estas poucas passagens são suficientemente instrutivas da forma como os medievais concebiam o universo.

    Nesta vasta ordenação do mundo material, o espírito não está ausente. A planta «desdenharia crescer sob o céu material se não houvesse nele uma potência espiritual da qual ela recebe a vida». No cume, «da mesma forma como o anjo mais baixo derrama a potência do céu, o move, dirige a sua revolução e a sua operação, da mesma forma o céu derrama a sua potência muito misteriosamente em cada planta e nos animais».

    A visão da alma completa este quadro grandioso. Ela eleva-se acima do tempo e do espaço para operar ao mesmo tempo que o anjo.

    Eckhart disse-nos noutro local que se um limite está atribuído ao anjo segundo a sua natureza e o seu nível na hierarquia celeste, pelo contrário a alma pode subir sem cessar mais alto, acima de todos os «habitáculos», até à contemplação pura e nua de Deus.

    Lá, o silêncio impõe-se: seria preciso falar a linguagem dos anjos, diz Eckhart, para mostrar como o Pai glorifica o Filho e o Filho glorifica o Pai. [  ]


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Mestre Eckhart – Nosso Senhor levantou os olhos 5


  1. Mas eu falarei um pouco da sua frase quando ele diz: «todos aqueles que tu me deste».
  2. Para aquele que sabe o verdadeiro sentido, «tudo o que tu me deste» significa: eu dou-lhes «a vida eterna», a mesma que tem o Filho na primeira emanação, e no mesmo fundo, e na mesma pureza, e na mesma fruição, onde Ele tem a sua própria beatitude, e onde Ele possui o seu próprio ser: «esta vida eterna, eu dou-lhes a eles» e a nenhum outro.
  3. Eu algumas vezes apresentei este significado comum, mas esta noite eu expando-o, apesar de ele se encontrar verdadeiramente na frase latina que eu frequentemente pronunciei.
  4. Tu próprio, pede-a e pronuncia-a ousadamente, pela minha vida! 1

Notas
  1. O pregador abandona agora a imagem do mundo que ele nos apresentou, para regressar às palavras do Evangelho. Ele joga, se podemos dizer, com os dois textos de São João: «tudo o que tu lhe deste (ao Filho)» (17, 2) e «todos aqueles que tu me deste» (17, 11).

    A proximidade gramatical é a mesma o que cria uma certa ambiguidade, mesmo uma certa confusão. Simplificando ao extremo a frase do pregador, ela poderia ser resumida assim: «Dá a vida eterna a todos aqueles que Tu me deste.»

    E é isto que, com o seu tu cá tu lá, ele convida pessoalmente cada um dos seus auditores a pedir. [  ]


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Mestre Eckhart – Nosso Senhor levantou os olhos 6


  1. Ele diz em seguida: «A vida eterna, é que eles te conheçam como o único verdadeiro Deus.»
  2. Se duas pessoas reconhecem Deus como Um, se uma (lhe desse o valor de mil) e se a outra reconhecesse Deus como «mais de um», mas tão pouco que seja menos (de mil), esta reconheceria mais Deus como Um do que aquela que o reconhecesse como mil.
  3. Quanto mais Deus é reconhecido como Um, mais Ele é reconhecido como Tudo.
  4. Se a minha alma fosse perspicaz, se ela fosse nobre e pura, tudo aquilo que ela conhecesse seria um.
  5. Se um anjo conhecesse uma coisa que para ele tem o valor de dez, e se um outro anjo mais nobre conhecesse a mesma coisa, não seria para ele mais do que «um».
  6. É por isso que Santo Agostinho diz: se eu conhecesse todas as coisas e não Deus, eu não teria conhecido nada. Mas se eu conhecesse Deus e não conhecesse mais nenhuma coisa, eu teria conhecido todas as coisas.
  7. Quanto mais se conhece Deus lucidamente e profundamente como Um, mais se conhece a raiz de onde saíram todas as coisas.
  8. Quanto mais se conhece como Um a raiz, e o núcleo, e o fundo, da Divindade, mais se conhecem todas as coisas.
  9. É por isso que ele diz: «que sejas conhecido como o único verdadeiro Deus».
  10. Ele não diz «como Deus sábio», nem «como Deus justo», nem «como Deus poderoso», mas «como único verdadeiro Deus».
  11. Ele quer dizer que a alma deve desprender e despojar tudo aquilo que adicionam a Deus pelo pensamento ou o conhecimento, e que ela o apreenda na sua nudez, enquanto ser puro: assim ele é «verdadeiro Deus».
  12. É por isso que Nosso Senhor diz: «A vida eterna, é que eles te conheçam como único verdadeiro Deus.» 1
  13. Que Deus nos ajude para que nós cheguemos à verdade que é ser puro, e que nós aí permaneçamos eternamente. Amém. 2

Notas
  1. «A vida eterna, é que eles te conheçam como único verdadeiro Deus.» Eckhart entrega-se aqui a uma especulação tanto mais difícil quanto o texto dos manuscritos é defeituoso.

    Apesar da deficiência da letra neste lugar, o significado evidente, é que quanto mais se conhece Deus como Um, «mais se conhece a raiz de onde saíram todas as coisas», o fundo original, a Divindade.

    A sabedoria, a justiça são «acidentes», «... que a alma desprenda e despoje tudo aquilo que adicionam a Deus pelo pensamento ou o conhecimento, e que ela o apreenda na sua nudez, enquanto ser puro. É por isso que Nosso Senhor diz: "A vida eterna, é que eles te conheçam como único verdadeiro Deus."» [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 155-160. [  ]


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