Livro da Vida Perfeita - Necessidade das regras e instruções


  1. Nesta pobreza e nesta humildade espirituais, apercebemo-nos de que todos os seres humanos estão fechados neles próprios.
  2. Compreendemos que eles estão voltados para o vício e a maldade.
  3. É por isso que é necessário e útil que existam regras, instruções, leis e mandamentos, afim de instruir aqueles que são cegos, e de constranger à obediência aqueles que são maus.
  4. Sem essas instruções e regras, os seres humanos seriam muito mais maus e mais desobedientes que os cães e os outros animais.
  5. Graças a elas, em contrapartida, mais do que um já foi atraído e conduzido para a Verdade, que não teria chegado lá se elas não existissem.
  6. E são pouco numerosos, aqueles que atingiram a Verdade sem terem começado por essas práticas, quando eles não conheciam nada mais ou nada melhor.
  7. É por isso que o ser humano que vive na pobreza e na humildade espirituais não despreza nem escarnece das leis, dos mandamentos, das regras, das instruções, assim como daqueles que as respeitam e se ocupam delas.
  8. Mas, numa misericórdia cheia de amor, e numa compaixão cheia de piedade, ele diz então: «Deus da verdade, é uma miséria para nós - tal como deve ser também para Ti - que a cegueira, o vício e a maldade das pessoas tornem necessário e indispensável aquilo que, na verdade, não é de modo nenhuma necessário.»
  9. Ele deseja que os seres humanos, que não conhecem nada mais ou nada melhor que essas leis e essas regras para chegarem à Verdade, saibam e conheçam porque é que elas devem existir. E ele observa-as e pratica-as junto com eles, afim de os afastar das coisas más e de os conduzir para o Bem.

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Imitação de Cristo - Das conversações interiores de Jesus Cristo com a alma fiel


  1. Alma: «Eu ouvirei o que o Senhor Deus me disser» (Sl 84, 9).
  2. Feliz a alma que ouve o Senhor falar-lhe interiormente, e que recebe da sua boca a palavra de consolação!
  3. Felizes os ouvidos sempre atentos a recolher o sopro divino, e surdos ao ruído do mundo!
  4. Felizes, mais uma vez, os ouvidos que escutam não a voz que soa no exterior, mas a verdade que ensina no interior!
  5. Felizes os olhos que, fechados às coisas exteriores, só contemplam as interiores!
  6. Felizes aqueles que penetram os mistérios que o coração esconde, e que, pelos exercícios de cada dia, procuram preparar-se cada vez mais para compreender os segredos do Céu!
  7. Felizes aqueles cuja alegria é a de se ocuparem de Deus, e que se desembaraçam de todos os embaraços do mundo!
  8. Considera estas coisas, ó minha alma, e fecha a porta dos teus sentidos, afim de que tu possas ouvir o que o Senhor teu Deus diz em ti.
  9. Cristo: Eis o que te diz o teu amigo: «Eu sou a tua salvação» (Sl 34, 3), a tua paz, e a tua vida.
  10. Fica ao pé de mim, e tu encontrarás a paz.
  11. Deixa tudo o que passa; procura só o que é eterno.
  12. O que são todas as coisas do mundo, senão seduções vãs?
  13. E de que te servirão todas as criaturas, se tu fores abandonado pelo Criador?
  14. Renuncia portanto a tudo, e ocupa-te a agradar ao teu Criador, e a ser-lhe fiel, afim de chegares à verdadeira beatitude.


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Imitação de Cristo - 3. Da vida interior


  1. Das conversações interiores de Jesus Cristo com a alma fiel
  2. A verdade fala dentro de nós sem ruído de palavras
  3. Como é preciso escutar a palavra de Deus, e como muitos não a recebem como deviam
  4. Como é preciso andar na presença de Deus em verdade e em humildade
  5. Dos maravilhosos efeitos do amor divino
  6. Da prova do verdadeiro amor
  7. Que é preciso esconder humildemente as graças que Deus nos faz
  8. Da vil estimação de nós mesmos diante de Deus
  9. Todas as coisas se devem referir a Deus como a seu último fim
  10. Como é bom desprezar o mundo para servir a Deus
  11. Devemos examinar e moderar os desejos do coração
  12. Do exercício da paciência e da luta contra as paixões desordenadas
  13. Da obediência do súbdito humilde, segundo o exemplo de Jesus Cristo
  14. Como devemos considerar os ocultos juízos de Deus, para não nos desvanecermos com os benefícios recebidos
  15. Como devemos sentir e falar das coisas que desejamos
  16. Só em Deus se há de buscar a verdadeira consolação
  17. Devemos entregar a Deus todos os nossos cuidados
  18. Como devemos, a exemplo de Cristo, suportar com serenidade de animo as misérias temporais da vida
  19. Do sofrimento das injúrias e da verdadeira paciência
  20. Da fraqueza humana e das misérias da vida
  21. Sobre todas as coisas só em Deus se encontra descanso
  22. Devemos lembrar-nos dos inúmeros benefícios de Deus
  23. De quatro coisas que dão grande paz
  24. Não devemos importar-nos com a vida alheia
  25. Em que consiste a paz do coração e o verdadeiro aproveitamento espiritual
  26. Da excelência da liberdade de espírito, que se adquire mais pela oração humilde do que pela muita leitura
  27. O amor próprio é o que mais nos impede de alcançar o sumo bem
  28. Contra as línguas maldizentes
  29. Como devemos invocar e bendizer a Deus no tempo da tribulação
  30. Como se há de pedir o auxílio divino, e da confiança em recuperar a graça
  31. Importa desprezar todas as criaturas para encontrar o Criador
  32. Da abnegação de nós mesmos e da renúncia de todos os desejos imoderados
  33. Da inconstância do coração humano, e que a nossa intenção só em Deus se há de fixar
  34. Como é delicioso amar a Deus sobre todas as coisas
  35. Nesta vida ninguém está livre de tentações
  36. Contra os vãos juizos das pessoas
  37. Da completa renúncia de si mesmo para alcançar a liberdade de coração
  38. Como havemos de nos portar nas coisas exteriores, e recorrer a Deus nos perigos
  39. Não devemos entregar-nos com demasiada solicitude aos negócios do mundo
  40. O ser humano de si nada tem de bom, nem de coisa alguma se pode gloriar
  41. Do desprezo de toda a honra temporal
  42. A nossa paz não deve depender das pessoas
  43. Contra a vã ciência do mundo
  44. Não devemos embaraçar-nos com as coisas exteriores
  45. Não se deve dar crédito a todos, e quanto é difícil ser comedido nas palavras
  46. Da confiança que devemos ter em Deus, quando nos disserem palavras ofensivas
  47. Devemos sofrer todos os males temporais na esperança da vida eterna
  48. Da bem-aventurança eterna e das misérias desta vida
  49. Do desejo da vida eterna, e quantos bens estão prometidos aos que valorosamente combatem
  50. Como, na tribulação, deve o ser humano entregar-se nas mãos de Deus
  51. Devemos aplicar-nos a exercícios humildes, quando nos falecem forcas para os mais sublimes
  52. O ser humano não deve julgar-se digno de consolação, mas sim de castigo
  53. A graça de Deus e incompatível com o gosto das coisas terrenas
  54. Dos diversos movimentos da natureza e da graça
  55. Da corrupção da natureza e da eficácia da graça divina
  56. Devemos abnegar-nos a nós mesmos e imitar a Cristo pela cruz
  57. Não deve a pessoa afligir-se demasiadamente, quando cai nalguma falta
  58. Não se devem perscrutar as coisas sublimes nem os ocultos juizos de Deus
  59. Só em Deus se há de pôr toda a esperança e confiança



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Livro da Vida Perfeita - Pobreza e humildade espirituais


  1. Lá onde se encontram a pobreza e a humildade espirituais, as coisas passam-se de outra forma completamente diferente.
  2. Porque aí se encontra então que o ser humano não é nada por si próprio, nem por aquilo que é seu.
  3. Aí sabe-se que ele não pode, que ele não tem, que ele não quer nada: nada a não ser os seus defeitos, os seus vícios e a sua malignidade.
  4. Então, o ser humano considera-se indigno de tudo o que lhe possa acontecer, por Deus ou pelas criaturas.
  5. Ele descobre que tudo o que lhe acontece, frequentemente também tudo aquilo que ele realiza, ele fica a dever a eles. É por isso que, na verdade, ele não tem direito a nada.
  6. Com um coração humilde, ele diz então: «É justo e equitativo que Deus, e todas as criaturas, estejam contra mim, e tenham direito sobre mim. É justo e equitativo que eu não esteja contra ninguém, e que eu não tenha direito sobre ninguém.»
  7. Então, o ser humano não pode, nem quer, pedir nada, nem desejar de Deus, nem das criaturas, senão o estritamente necessário. Mesmo assim, só o aceita com temor, não como um direito, mas como uma graça.
  8. Ele só concede ao seu corpo, e à sua natureza, as satisfações e os prazeres que lhes são necessários.
  9. Ele não deixa, nem permite a ninguém que o ajude, a não ser em caso de necessidade - e mesmo assim, sempre com humildade.
  10. Porque ele não tem direito a nada, e não merece nada.
  11. Ele acha que tudo o que diz, que tudo o que explica, não vale nada, e é completamente absurdo.
  12. É por isso que ele não fala, nem explica nada, quer para ensinar quer para criticar, a menos que seja levado a isso pelo amor divino e pela fé - e mesmo assim, sempre com humildade, e a maior moderação.

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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza


  1. Nosso Senhor disse no Evangelho: "Uma pessoa nobre partiu para um pais distante afim de aí obter um reino, e regressou em seguida." 1 Nosso Senhor ensina-nos, com estas palavras, a que ponto o ser humano é criado nobre na sua natureza, a que ponto é divino aquilo que ele pode atingir pela graça, e também como é que ele lá deve chegar. Estas palavras estão também em relação com uma grande parte da Santa Escritura.
  2. É preciso primeiro saber, e é absolutamente manifesto, que o ser humano tem em si duas naturezas: o corpo e o espírito. É por isso que um texto diz: Aquele que se conhece a si próprio conhece todas as criaturas, porque todas as criaturas são ou corpo ou espírito. É por isso que a Escritura diz do ser humano que há em nós uma pessoa exterior e uma outra: a pessoa interior 2. À pessoa exterior pertence tudo aquilo que é inerente à alma, envolto em carne e misturado com ela, fazendo obra corporal comum com e dentro de cada membro, como o olho, a orelha, a língua, a mão e outros. E a Escritura chama a isso tudo a pessoa velha, a pessoa terrestre, a pessoa exterior, a pessoa inimiga, uma pessoa escrava.
  3. A outra pessoa que existe em nós é a pessoa interior; a Escritura chama-lhe uma pessoa nova, uma pessoa celeste, uma pessoa jovem, um amigo e uma pessoa nobre. E é nela que pensa Nosso Senhor quando diz que "uma pessoa nobre partiu para um pais distante afim de aí obter um reino, e regressou em seguida".
  4. É preciso ainda saber que São Jerónimo e os mestres em geral, dizem que, desde o início da sua existência humana, cada ser humano tem um espírito bom, um anjo, e um espírito mau, um demónio. O anjo bom convida e incentiva constantemente para o que é bom, para o que é divino, para a virtude, e para o que é celeste e eterno. O espírito mau convida e incentiva sem cessar a pessoa para o que é temporal e efémero, para o que é contrário à virtude, mau e diabólico. Esse mesmo espírito mau relaciona-se constantemente com a pessoa exterior e, por ela, lança sem cessar e em segredo armadilhas à pessoa interior, tal como a serpente se relacionou com a Senhora Eva e por intermédio dela com o homem Adão. A pessoa interior é Adão. O elemento masculino na alma é a árvore boa que sempre e sem cessar dá bons frutos, da qual fala também Nosso Senhor. É também o campo no qual Deus semeou a sua imagem e a sua semelhança e onde ele lança a boa semente, a raiz de toda a sabedoria, de todas as artes, de todas as virtudes, de toda a bondade: a semente da natureza divina. A semente da natureza divina, é o Filho de Deus, o Verbo de Deus.
  5. A pessoa exterior é a pessoa inimiga, a má, que semeou e lançou o joio. São Paulo disse dele próprio: "Eu encontro em mim aquilo que me entrava, contrário àquilo que Deus ordena, ao que Deus aconselha, ao que Deus disse e diz ainda no mais elevado, no fundo da minha alma." Noutro local, ele diz ainda gemendo: "Ai! Infeliz que eu sou! Quem me libertará desta carne e deste corpo mortal?" Noutro local ainda, ele diz que o espírito do ser humano e a carne estão constantemente opostas uma ao outro. A carne aconselha o vício e a malícia; o espírito aconselha o amor de Deus, a alegria, a paz, e todas as virtudes. Àquele que segue o espírito, que vive segundo o espírito e o seu conselho pertence à vida eterna. A pessoa interior é aquela de quem Nosso Senhor diz que "uma pessoa nobre partiu para um pais distante afim de aí obter um reino." É a árvore boa da qual Nosso Senhor diz que ela dá sempre bons frutos e nunca maus, porque ela quer a Bondade, inclina para a Bondade, para a Bondade tal como ela plana nela própria, sem ser tocada por isto ou aquilo. A pessoa exterior é a árvore má que nunca pode dar bons frutos.
  6. Da nobreza da pessoa interior e da indignidade da pessoa exterior, da carne, os mestres pagãos Cícero e Séneca dizem também que nenhuma alma racional existe sem Deus; a semente de Deus está em nós. Se ela tivesse um cultivador bom e sábio, laborioso, ela tanto melhor prosperaria e elevar-se-ia para Deus do qual ela é a semente, e o fruto seria semelhante à natureza de Deus. A semente da pereira cresce para se tornar numa pereira, a semente da nogueira para se torna nogueira, a semente de Deus para se tornar Deus. Mas se a boa semente tem um cultivador insensato e mau, o joio cresce, cobre e sufoca a boa semente, de forma que ela não pode chegar à luz nem se desenvolver. Orígenes, um grande mestre, disse: Visto que Deus ele próprio semeou, enterrou, gerou esta semente, ela pode bem ser coberta e escondida, ela não é nunca aniquilada nem extinta; ela é ardente, ela brilha, ela ilumina e queima e tende sem cessar para Deus.
  7. O primeiro grau da pessoa interior, da pessoa nova, disse Santo Agostinho, é quando a pessoa vive segundo o modelo de pessoas boas e santas, mas ela apoia-se ainda nas cadeiras, fica perto das paredes e alimenta-se de leite.
  8. O segundo grau, é quando daqui em diante ela não olha mais apenas para os modelos exteriores nem para as pessoas de bem, mas corre à pressa para o ensinamento e o conselho de Deus e da sabedoria divina, volta as costas à humanidade e o seu rosto para Deus, escapa aos joelhos da sua mãe e sorri para o Pai celeste.
  9. O terceiro grau, é quando a pessoa escapa cada vez mais à sua mãe, se afasta sempre daqui em diante dos joelhos dela, foge da preocupação, rejeita o medo, apesar de que, mesmo podendo agir mal e injustamente sem escandalizar ninguém, ela não tem no entanto desejo disso; porque ela está unida a Deus pelo amor e pelo bom zelo, até que Deus a leve e a introduza na alegria, na suavidade e na felicidade onde ela não pode suportar o que é dissemelhante e estrangeiro a Deus.
  10. O quarto grau, é quando ela cresce e se enraíza cada vez mais no amor e em Deus, de tal forma que ela está pronta a aceitar tudo o que é contrariedade, tentação, adversidade, e a suportar sofrer de bom grado e de boa vontade, com desejo e alegria.
  11. O quinto grau, é quando ela vive fechada por todas as partes em si própria, repousando pacificamente na riqueza e na superabundância da suprema e inexprimível Sabedoria.
  12. O sexto grau, é quando a pessoa está desprendida das imagens e transformada acima dela própria pela eternidade de Deus, quando ela chegou ao esquecimento total e perfeito da vida efémera e temporal, transformada numa imagem divina, tornada filha de Deus. Para além deste, não existe grau mais elevado, lá estão o repouso e a felicidade eternas, porque o fim da pessoa interior e da pessoa nova é a vida eterna 3.
  13. Para esta pessoa interior, esta pessoa nobre, na qual a semente de Deus está impressa e semeada – como é que esta semente, esta imagem da natureza e da essência divinas, o Filho de Deus, aparece, como é que nós a apercebemos, e como é que também de tempos a tempos ela fica escondida – o grande mestre Orígenes apresenta uma comparação: a imagem de Deus, o Filho de Deus está no fundo da alma como uma fonte viva. Mas se deitarem terra por cima dela, quer dizer o desejo terrestre, ela é entravada e coberta, por forma que ela não é mais reconhecida e não é mais vista; no entanto ela permanece viva em si própria, e quando se retira a terra, ela reaparece e bebe-se dela. O mesmo mestre diz que é feita alusão a esta verdade no primeiro livro de Moisés, onde está escrito que Abraão tinha escavado no seu campo poços de água viva, que os malfeitores encheram de terra, mas que em seguida, quando a terra foi retirada, os poços reapareceram vivos.
  14. Pode-se fazer também outra comparação. O sol brilha sem interrupção, no entanto, quando uma nuvem ou um nevoeiro se interpõe entre nós e o sol, nós não vemos a sua luz. Da mesma forma, quando a vista é fraca, doente ou velada, não se apercebe da luz. Além disso, por vezes eu apresentei uma comparação impressionante. Quando um mestre faz uma imagem de madeira ou pedra, ele não introduz a imagem na madeira, ele retira as aparas que escondiam e recobriam a imagem; ele não acrescenta nada à madeira, pelo contrário, ele retira e escava aquilo que a recobre, ele retira as escórias; brilha então aquilo que estava escondido por baixo. Tal é o tesouro escondido no campo, como diz Nosso Senhor no Evangelho.
  15. Santo Agostinho disse: "Se a alma se eleva completamente apenas para Deus, a imagem de Deus aparece e brilha, mas se a alma se volta para o exterior, mesmo pelo exercício exterior da virtude, a imagem é completamente recoberta." É o que ensina São Paulo quando diz que as mulheres trazem a cabeça coberta e os homens a cabeça nua. É porque tudo o que, na alma, se volta para baixo, recebe daí um véu que a recobre, mas o que, na alma, se eleva para Deus, é a pura imagem de Deus, o nascimento de Deus sem véu, despojado na alma despojada 4. Da pessoa nobre, imagem de Deus, filho de Deus, semente da natureza divina que nunca é aniquilada em nós, apesar de poder ser recoberta, o rei David disse no saltério: "Apesar de muitas vaidades, sofrimentos e misérias assaltarem o ser humano, no entanto ele permanece na imagem de Deus, e a imagem de Deus nele." A verdadeira luz brilha nas trevas apesar de não a podermos ver.
  16. "Não reparem na minha tez escura, diz o Livro do Amor 5, eu sou bela e bem feita, mas o sol queimou-me." O sol é a luz deste mundo, e isso significa que o que é mais elevado e o melhor entre as coisas feitas e criadas, esconde e deteriora a imagem de Deus em nós. "Retirem as escórias da prata, disse Salomão, então o vaso mais puro deve luzir e brilhar": a imagem, o Filho de Deus na alma. E é o que quer dizer Nosso Senhor quando fala duma "pessoa nobre que partiu", porque a pessoa deve abandonar todas as imagens e a si própria, afastar-se e tornar-se estrangeira e dissemelhante a tudo, se ela quer e deve verdadeiramente acolher o Filho e tornar-se filho, no seio e no coração do Pai.
  17. Toda a espécie de mediação é estrangeira a Deus. "Eu sou, disse Deus, o primeiro e o último." Não existe distinção nem na natureza de Deus nem nas Pessoas segundo a unidade da natureza delas. A natureza divina é Um, e cada Pessoa também é Um e o mesmo Um que é a natureza delas. A distinção entre o ser e a essência é compreendida como Um e é Um. É apenas lá onde esse Um não está mais em si próprio que ele recebe, possui e produz uma distinção. É por isso que no Um se encontra Deus e aquele que quer encontrar Deus deve tornar-se um. "Uma pessoa partiu", disse Nosso Senhor. Na distinção não se encontra nem o Um nem o ser, nem Deus, nem repouso, nem beatitude, nem satisfação. Sê um, afim de que tu possas encontrar Deus. E em verdade, se tu fosses verdadeiramente um, tu permanecerias um também na diversidade e a diversidade tornar-se-ia um para ti e não te poderia entravar absolutamente em nada. O um permanece igualmente um em mil vezes mil pedras tal como em quatro pedras, e mil vezes mil é tão certamente um número simples como quatro é um número (simples).
  18. Um mestre pagão disse que o um nasceu de Deus altíssimo. A sua natureza é de ser um com o Um. Quem o procura abaixo de Deus engana-se a si próprio. E em quarto lugar, diz o mesmo mestre, esse Um não tem amizade mais real que a que tem com as jovens ou virgens, como o diz São Paulo: " Virgens puras, eu vos confiei e desposei ao Um." E é assim absolutamente que a pessoa deveria ser, porque Nosso Senhor disse: "Uma pessoa partiu."
  19. "Ser humano", segundo o significado do nome em latim, designa num sentido aquele que se inclina diante de Deus e se submete a ele com tudo aquilo que ele é e tudo aquilo que ele tem, que olha para cima para Deus, não para aquilo que lhe pertence, que ele sabe estar atrás de si, por baixo de si, ao lado de si. Tal é a plena e verdadeira humildade 6: o ser humano tem este nome a partir da terra. Eu não falarei mais disto. Quando se diz "ser humano", essa palavra significa também qualquer coisa de elevada acima da natureza, acima do tempo, e acima de tudo o que está voltado para o tempo ou o gosto do mundo, e eu digo a mesma coisa também do espaço e da corporalidade. Além disso, este "ser humano" não tem de uma certa maneira nada de comum com o que quer que seja, quer dizer que ele não tem nem forma nem semelhança com isto ou aquilo, e não sabe nada do vazio, de forma que não se encontra e não se percepciona em nenhuma parte dele algo de vazio, e que o vazio lhe é tão totalmente ausente por forma que se encontra unicamente nele vida pura, ser, verdade e bondade. Quem é feito assim é uma "pessoa nobre", em verdade, nem mais nem menos.
  20. Há ainda um outro modo de explicação e um ensinamento para o que Nosso Senhor chama "uma pessoa nobre". Deve-se saber com efeito que aqueles que conhecem Deus sem véu conhecem as criaturas ao mesmo tempo que ele, porque o conhecimento é uma luz da alma e, por natureza, todas as pessoas aspiram ao conhecimento, porque mesmo o conhecimento das coisas más é bom. Ora os mestres dizem: Quando se conhece a criatura em si própria, é um conhecimento "vespertino", porque assim vê-se as criaturas por imagens com uma multidão de distinções, mas quando se conhece as criaturas em Deus, esse conhecimento chama-se e é um conhecimento "matutino" e assim contempla-se as criaturas sem nenhuma distinção, desapropriadas de toda imagem e despojadas de toda semelhança no Um que Deus é ele próprio 7. Isto é também a "pessoa nobre" de quem Nosso Senhor disse: "Uma pessoa nobre" partiu: nobre porque ela é um, e reconhece Deus e a criatura no Um.
  21. Eu quero agora passar a outro significado daquilo que é a "pessoa nobre". Eu digo: quando a pessoa, a alma, o espírito contempla Deus, ele sabe-se e reconhece-se também como conhecedor, quer dizer: ele reconhece que contempla e reconhece Deus. Ora, pareceu a certos e parece também muito verosímil, que a flor e o núcleo da beatitude se situam no conhecimento pelo qual o espírito conhece que ele conhece Deus, porque se eu possuísse todas as delícias sem saber nada acerca delas, que me importaria, e que delícias seriam elas para mim? Portanto eu digo com segurança que não é assim. Se é verdade que, sem isso, a alma não seria bem-aventurada, a beatitude não se situa no entanto aí, porque o primeiro elemento da beatitude é que a alma contemple Deus sem véu. É daí que ela recebe todo o seu ser e a sua vida e que ela obtém tudo o que ela é no abismo de Deus e não sabe nada do conhecimento nem do amor nem do que quer que seja. Ela repousa totalmente e exclusivamente no ser de Deus, ela não conhece lá senão o Ser e Deus. Mas quando ela sabe e reconhece que contempla, conhece e ama Deus, é uma saída desse estado e um regresso ao estado primeiro segundo a ordem natural. Porque ninguém se reconhece como branco senão aquele que é realmente branco. É por isso que aquele que se reconhece como sendo branco se funde e se apoia na brancura, e ele tira o seu conhecimento não diretamente nem sem conhecimento da cor, mas ele tira o seu conhecimento da cor, e do saber que ele tem dela, do que é o branco, e ele obtém o seu conhecimento não exclusivamente da cor em si; mas antes, ele obtém o seu conhecimento e o seu saber daquilo que é colorido ou daquilo que é branco e ele reconhece-se como sendo branco. Branco é qualquer coisa de bem menor e de bem mais exterior que a brancura. Muito diferentes são as paredes e o fundamento sobre a qual as paredes estão construídas.
  22. Os mestres dizem que o poder graças ao qual o olho vê é diferente do poder pelo qual ele reconhece aquilo que ele vê. O facto de ver, ele tira-o exclusivamente da cor, não daquilo que é colorido. Donde importa pouco que o que é colorido seja pedra ou madeira, uma pessoa ou um anjo, o essencial reside unicamente no facto que ele tem uma cor.
  23. Da mesma forma, eu digo que a pessoa nobre pega e toma todo o seu ser, a sua vida e a sua beatitude unicamente de Deus, junto de Deus e em Deus, não do conhecimento, da contemplação e do amor de Deus ou outras coisas semelhantes. É por isso que Nosso Senhor diz muito certamente que a vida eterna consiste em conhecer apenas Deus como sendo o único verdadeiro Deus, não em conhecer que se conhece Deus. Como é que o ser humano se conhece como conhecendo Deus, quando ele não se conhece a si próprio? Porque certamente o ser humano não se conhece a si próprio nem às outras coisas, mas unicamente apenas Deus, em verdade, quando ele se torna e é bem-aventurado na raiz e no fundo da beatitude. Mas quando a alma reconhece que ela conhece Deus, ela adquire ao mesmo tempo o conhecimento de Deus e dela própria.
  24. Ora, existe uma outra potência, como eu expliquei, graças à qual o ser humano vê, e uma outra, graças à qual ele sabe e reconhece que vê. É verdade que agora, aqui em baixo, em nós, esta potência pela qual nós sabemos e reconhecemos que vemos é mais nobre e mais elevada que a potência graças à qual nós vemos, porque a natureza começa a sua operação pelo mais baixo, enquanto que Deus, nas suas obras, começa pelo mais perfeito. A natureza faz o ser humano a partir da criança e a galinha a partir do ovo, mas Deus faz o ser humano antes da criança e a galinha antes do ovo. A natureza torna primeiro a madeira quente e abrasadora, e somente então ela produz o ser do fogo, mas Deus dá primeiro o ser a todas as criaturas e em seguida no tempo, e portanto fora do tempo, separadamente, tudo o que pertence ao ser. Da mesma forma, Deus dá o Espírito Santo antes dos dons do Espírito Santo.
  25. Eu digo portanto que não há beatitude sem que o ser humano tenha consciência e saiba bem que ele contempla e conhece Deus, mas Deus quer que não seja essa a minha beatitude. Se isso é suficiente para outro, que ele fique por aí, mas eu tenho pena dele. O calor do fogo e a natureza do fogo são completamente diferentes e estranhamente distantes um do outro na natureza, apesar deles serem muito próximos um do outro no espaço e no tempo. A vista que é a de Deus e a nossa vista são absolutamente distantes e diferentes uma da outra 8.
  26. É por isso que Nosso Senhor tem razão em dizer que uma pessoa partiu para uma país distante afim de aí obter um reino e regressou em seguida. Esse ser humano deve ser um em si próprio e procurar esse um em si e no Um, e o receber no Um, quer dizer unicamente contemplar Deus e "regressar", quer dizer saber e reconhecer que se tem um saber e um conhecimento de Deus.
  27. O profeta Ezequiel exprimiu previamente aquilo que está exposto aqui quando ele disse que uma águia poderosa, com grandes asas, com grande envergadura, coberta de todos os tipos de penas, veio à nobre montanha, agarrou a medula da árvore mais elevada, arrancou a coroa da sua folhagem e levou-a para baixo. Aquilo que o Nosso Senhor chama uma pessoa nobre, o profeta chama uma grande águia. Quem é portanto mais nobre que aquele que nasceu, duma parte do mais elevado e do melhor da criatura, e doutra parte do fundo mais íntimo da natureza divina e da solidão? "Eu quero conduzir a alma nobre na solidão e eu falarei ao teu coração", disse o Senhor no profeta Oséias. Um com o Um, um do Um, um no Um e, no Um, um eternamente. Amém. 9

Notas
  1. O ponto de partida do tratado é o versículo de Lucas 19, 12: «Um homem nobre partiu para uma país distante afim de aí obter um reino, e regressou em seguida.». [  ]
  2. Tal como fez várias vezes nas suas obras latinas e alemãs, Eckhart retoma a definição clássica da "pessoa exterior" e da "pessoa interior". Ele compara esta, a pessoa nobre, à semente que frutificará se o mau cultivador não a sufocar. É a semente divina, a imagem de si próprio que Deus inseriu dentro da nossa alma, que pode estar bem escondida, mas nunca aniquilada. [  ]
  3. Seguindo Santo Agostinho em De vera religione, mas com mais amplitude, no desenvolvimento das imagens, Eckhart indica os seis graus de ascensão da pessoa nobre, as seis etapas que deve percorrer na sua viagem. A pessoa nobre imita primeiro as pessoas devotas, como uma criança que ainda não se aguenta bem em pé, e se alimenta de leite. No segundo grau, ela volta as costas à humanidade e procura a face divina. No terceiro, ela rejeita o medo, e aplica-se às coisas de Deus, unida a ele no amor. Em seguida enraíza-se de tal forma nele que ela está pronta para aceitar os sofrimentos de qualquer natureza. No quinto, ela repousa em silêncio na superabundância da suprema sabedoria. Chegada ao sexto grau, transformada para além de si própria na eternidade de Deus, ela esquece totalmente a vida temporal, ela tornou-se filha de Deus.
       Agostinho tinha indicado um sétimo grau que é o repouso supremo, e que não se distingue da beatitude eterna. Eckhart não fala de um tal sétimo grau, só fala de repouso e de beatitude eternas, com termos equivalentes aos de Agostinho, "porque o fim da pessoa interior e da pessoa nova é a vida eterna".
       Podia-se pensar que ele só faz aqui uma alusão à vida do além. No entanto, encavalitando as comparações, ele regressa em seguida à semente e à imagem de Deus na alma, ele multiplica os símbolos retirados a Orígenes, à Santa Escritura, à experiência das coisas humanas que representam essa imagem por vezes visível por vezes escondida. [  ]
  4. Eckhart só fala aqui uma vez em termos próprios do nascimento de Deus na alma, mas é sobre a mesma realidade espiritual que ele se exprime com outras palavras: "porque a pessoa deve abandonar todas as imagens e a si própria, afastar-se e tornar-se dissemelhante a tudo, se ela quer e deve verdadeiramente acolher o Filho e torna-se filho no seio e no coração do Pai." "Sê um, afim de que tu possas encontrar Deus." [  ]
  5. Cântico dos cânticos. ]
  6. Humilitas, tem a mesma raiz que húmus, terra. [  ]
  7. Suso retomou este texto no seu Livro da Verdade. [  ]
  8. É preciso especialmente ter atenção a uma questão que poderia parecer à primeira abordagem como uma discussão de escola e que Mestre Eckhart tratou duas vezes ele próprio no seu comentário latino sobre São João: A beatitude da alma consiste na contemplação de Deus ou no conhecimento que ela tem disso? "Ora, pareceu a certos, e parece também muito verosímil, que a flor e o núcleo da beatitude se situam no conhecimento pelo qual o espírito conhece que conhece Deus... A beatitude não se situa no entanto aí, porque o primeiro elemento da beatitude, é que a alma contemple Deus sem véu. É daí que ela recebe todo o seu ser e a sua vida e que ela recebe tudo o que ela é no abismo de Deus e não sabe nada do amor nem do conhecimento nem do que quer que seja... Mas quando ela sabe e reconhece que ela contempla, conhece e ama Deus, é uma saída desse estado (uzslac) e um regresso ao estado primeiro (widerslac) segundo a ordem natural."
       Nós aprendemos aqui, sem equivoco possível, que essa ultrapassagem do sexto grau, do qual Eckhart nos falou no início do seu tratado, onde a pessoa atingiu o esquecimento perfeito da vida efémera, não é apenas a vida do além, mas já (o jam de Santo Agostinho) se situa nesta vida terrestre. De outra forma, como se poderia tratar de "saída" e de "regresso"?
       Ora é notável que Suso, tão próximo do seu mestre, se não pelo caracter pelo menos pela doutrina, retomou quase textualmente a passagem Do homem nobre sobre as graças de união a Deus no seu Livro da Verdade, precisamente para defender Eckhart, e não notar nitidamente a diferença entre a doutrina de Eckhart e a do "Selvagem", representando os Begardos. À questão de saber se o ser humano pode conhecer essa realidade neste mundo, Suso responde: "Isso pode bem acontecer quando o corpo ainda está sobre a terra segundo a forma de falar comum, mas então o ser humano está para além do tempo."
       Mais expansivo que o seu mestre, Suso faz, mais que ele, alusões transparentes às graças místicas. Pode-se assim considerar a resposta precedente como uma espécie de complemento àquilo que Eckhart nos disse. [  ]
  9. A data da redação do tratado Do ser humano nobre não deve ter sido muito afastada da redação do Livro da Consolação divina, cerca de 1310.
    Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Les Traités», Éditions du Seuil, Paris, 1971, p. 141-153.
       Outra tradução deste sermão pode ser encontrada em «Mestre Eckhart - Tratados e Sermões» traduzido do original alemão por Jorge Telles de Menezes, Paulinas Editora, Lisboa, 2009, p. 163-178. [  ]



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Mestre Eckhart






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Imitação de Cristo - Da santa via da Cruz


  1. Para muitos, estas palavras parecem duras: «Renuncia a ti próprio, carrega a tua Cruz, e segue Jesus» (Lc 9, 23).
  2. Mas será muito mais duro, no último dia, ouvir estas palavras: «Retirem-se de mim, malditos, vão para o fogo eterno!» (Mt 25, 41).
  3. Aqueles que, de boa vontade, escutam agora as palavras que mandam carregar a Cruz, e que lhes obedecem, não temerão então ouvir a sentença de uma condenação eterna.
  4. Este sinal da Cruz aparecerá no Céu quando o Senhor vier para julgar.
  5. Então, todos os discípulos da Cruz, que tiverem imitado durante a sua vida Jesus crucificado, se aproximarão com grande confiança de Jesus Cristo juiz.
  6. Portanto, porque temes carregar a Cruz, pela qual se chega ao reino do céu?
  7. Na Cruz está a salvação, na Cruz a vida, na Cruz a proteção contra os nossos inimigos.
  8. É da Cruz que escorrem as suavidades celestes.
  9. Na Cruz está a força da alma; na Cruz a alegria do espírito, a consumação da virtude, a perfeição da santidade.
  10. Só há salvação para a alma, e esperança da vida eterna, na Cruz.
  11. Carrega portanto a tua Cruz e segue Jesus, e chegarás à eterna felicidade.
  12. Ele precedeu-te carregando a sua Cruz, e ele morreu por ti sobre a Cruz, afim de que também tu carregues a tua Cruz, e que tu aspires a morrer na Cruz.
  13. Porque se tu morres com ele, tu viverás também com ele; e se tu partilhares os seus sofrimentos, tu partilharás a sua glória.
  14. Assim, tudo está na Cruz, e tudo consiste em morrer.
  15. Não há outra via que conduza à vida, e à verdadeira paz do coração, para além da via da Cruz, e de uma mortificação contínua.
  16. Vai onde quiseres, procura tudo o que quiseres, não encontrarás acima uma via mais elevada, abaixo uma via mais segura que a via da santa Cruz.
  17. Dispõe tudo segundo as tuas opiniões, regula tudo segundo os teus desejos, e sempre descobrirás que tens que sofrer alguma coisa, quer queiras quer não; e assim, tu encontras sempre a Cruz.
  18. Porque, ou sentirás a dor no corpo, ou experimentarás a amargura na alma.
  19. Por vezes serás desamparado por Deus, por vezes incomodado pelo próximo, e, o que ainda é pior, serás frequentemente um peso para ti próprio.
  20. Tu não encontrarás para as tuas penas nenhum remédio, nenhum alívio; mas terás de sofrer tanto tempo quanto Deus quiser.
  21. Porque Deus quer que tu aprendas a sofrer sem consolações, e que tu te submetas a ele sem reservas, e que tu te tornes mais humilde pelas tribulações.
  22. Ninguém tem tão diante do seu coração a paixão de Jesus Cristo como aquele que sofreu alguma coisa de semelhante.
  23. A Cruz está portanto sempre preparada; ela espera-te em toda a parte.
  24. Tu não podes fugir dela, em qualquer parte para onde vás; porque em toda a parte que tu vás, tu te carregarás a ti próprio e tu te encontrarás sempre a ti próprio.
  25. Eleva-te, baixa-te, sai de ti próprio, reentra; tu encontrarás sempre a Cruz; e é necessário que em toda a parte tu tenhas paciência, se tu queres a paz interior e merecer a coroa imortal.
  26. Se carregares a Cruz de boa vontade, ela própria te carregará e te conduzirá ao termo desejado, onde deixarás de sofrer; mas não será neste mundo.
  27. Se tu a carregares contrariado, aumentas-lhe o peso, tornas o teu fardo mais duro, e no entanto tens que a levar.
  28. Se rejeitares a Cruz, certamente encontrarás outra, e talvez mais pesada.
  29. Pensas escapar àquilo que nenhum ser humano pôde evitar? Que santo esteve neste mundo sem cruz e sem tribulação?
  30. Jesus Cristo, ele próprio, Nosso Senhor, não esteve uma única hora em toda a sua vida sem sentir grande sofrimento: «Era preciso», disse ele, «que o Cristo sofresse, e que ele ressuscitasse de entre os mortos, e que ele entrasse assim na glória» (Lc 24, 26).
  31. Portanto, porque procuras tu uma outra via que não seja a via real da Santa Cruz?
  32. Toda a vida de Jesus Cristo só foi uma cruz e um longo martírio, e tu procuras o repouso e a alegria!
  33. Tu enganas-te, não duvides; tu enganas-te lamentavelmente se tu procuras outra coisa que não sejam as aflições para sofrer; porque toda esta vida mortal está cheia de misérias e cercada de cruzes.
  34. E quanto mais uma pessoa tiver feito progressos nas vias espirituais, mais as suas cruzes por vezes serão pesadas, porque o amor torna o seu exílio mais doloroso.
  35. No entanto, àquele a quem Deus prova com tantas penas não fica sem consolação que as adoce, porque sente crescer os frutos da sua paciência ao carregar a Cruz.
  36. Porque, quando ele se curva voluntariamente debaixo dela, a aflição que o abate transforma-se completamente em suave confiança que o consola.
  37. E quanto mais a carne é afligida, quebrada, mais o espírito é fortificado interiormente pela graça.
  38. Por vezes, mesmo o desejo de sofrer para estar conforme a Jesus crucificado inspira-lhe tanta força, que ele não quer estar isento de tribulações e de dores, porque ele crê que é tanto mais agradável a Deus, que ele sofra mais por Deus.
  39. Não é então a virtude da pessoa, mas a graça de Jesus Cristo, que opera poderosamente na carne fraca, por forma a que tudo o que ela detesta e foge naturalmente, ela o abraça e ama pelo fervor do espírito.
  40. Não é conforme à inclinação da natureza humana carregar a Cruz, amar a Cruz, castigar o corpo, reduzi-lo à servidão, fugir às honras, sofrer voluntariamente os ultrajes, de se desprezar a si própria e de desejar ser desprezada, de suportar as aflições e a perdas, e de não desejar nenhuma prosperidade neste mundo.
  41. Se tu só olhares para ti, não poderás fazer nada disto.
  42. Mas se tu te confiares ao Senhor, a força te será dada vinda do alto e tu terás poder sobre a carne e o mundo.
  43. Nem temerás o demónio, teu inimigo, se estiveres armado com a fé, e marcado com a Cruz de Jesus Cristo.
  44. Dispõe-te portanto, como um bom e fiel servidor de Jesus Cristo, a carregar corajosamente a Cruz do teu Mestre, crucificado pelo amor de ti.
  45. Prepara-te para sofrer mil adversidades, mil revezes nesta miserável vida; porque é isso que te espera, é isso que encontrarás em toda a parte, em qualquer lugar onde te esconderes.
  46. É preciso que seja assim, e para essa multidão de males e de dores não há outro remédio senão suportares-te a ti próprio.
  47. Bebe com alegria o cálice do Senhor, se o seu amor te é caro, e se queres ter parte na sua glória.
  48. Deixa Deus dispor das suas consolações; que ele as distribua conforme lhe agradar.
  49. Para ti, escolhe os sofrimentos e considera-os como sendo consolações dum grande preço, porque todos os sofrimentos do mundo não têm nenhuma comparação com a glória futura, e não seriam suficientes para tu a mereceres, mesmo que os suportasses todos.
  50. Quando chegares a considerar o sofrimento como sendo suave, e a amá-lo por Jesus Cristo, então considera-te feliz, porque encontraste o paraíso sobre a terra.
  51. Mas enquanto o sofrimento te for amargo, e enquanto fugires dele, viverás na perturbação, e a tribulação de que foges te seguirá por toda a parte.
  52. Se tu te aplicares a ser aquilo que deves ser, a sofrer e a morrer, em breve as tuas penas desaparecerão e terás a paz.
  53. Quando tiveres sido arrebatado, como S. Paulo, até ao terceiro céu, não fiques por causa disso a pensar que não sofrerás mais. «Eu lhe mostrarei, disse Jesus, quanto é que ele tem que sofrer em meu nome» (At 9, 16).
  54. Só te resta portanto sofrer, se quiseres amar Jesus e servi-lo constantemente.
  55. Queira Deus que tu sejas digno de sofrer qualquer coisa pelo nome de Jesus! Que glória te seria reservada! Que alegria entre todos os santos! Que edificação para o próximo!
  56. Porque todos recomendam paciência, mas poucos no entanto querem sofrer.
  57. Com que alegria devias sofrer alguma coisas por Jesus, quando tantos outros sofrem muito mais pelo mundo!
  58. Sabe e acredita firmemente que a tua vida deve ser uma morte contínua, e que quanto mais se morre a si, mais se começa a viver por Deus.
  59. Ninguém está preparado para compreender as coisas do céu, se não se submete a suportar as adversidades por Jesus Cristo.
  60. Nada é mais agradável a Deus, nada te é mais salutar neste mundo, que sofreres com alegria por Jesus Cristo; e se tu tivesses que escolher, tu deverias antes desejar ser afligido por ele que seres cumulado de consolações, porque serias então mais semelhante a Jesus Cristo, e mais conforme a todos os santos.
  61. Porque o nosso mérito, e o nosso progresso na perfeição, não consiste na suavidade nem na abundância das consolações, mas antes na força de suportar grandes tribulações e pesadas provas.
  62. Se houvesse para o ser humano alguma coisa melhor e mais útil que sofrer, Jesus Cristo ter-nos-ia ensinado pelas suas palavras e pelo seu exemplo.
  63. Ora, manifestamente, ele exorta a carregar a sua Cruz, aos discípulos que o seguem, e a todos aqueles que o quiserem seguir, dizendo: «Se alguém me quiser seguir, renuncie a si próprio, carregue a sua Cruz, e siga-me» (Mt 16, 24).
  64. Portanto, depois de termos lido tudo, examinado tudo, concluamos por fim que temos que passar por muitas tribulações para entrarmos no reino de Deus (At 14, 21).


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Mestre Eckhart - Sermão da Pobreza


  1. A beatitude abriu a sua boca de sabedoria e disse: «Felizes são os pobres em espírito porque o reino dos céus é deles.» 1
  2. Todos os anjos, e todos os santos, e tudo o que alguma vez nasceu, deve fazer silêncio quando fala a sabedoria do Pai, porque toda a sabedoria dos anjos, e de todas as criaturas, é uma pura loucura diante da sabedoria insondável de Deus. Esta disse que os pobres são felizes.
  3. Há duas espécies de pobreza: uma pobreza exterior, que é boa, e é necessário louvá-la altamente no ser humano que a pratica voluntariamente, pelo amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, porque ele próprio a praticou sobre a terra. Desta pobreza eu não quero falar mais por agora; mas existe ainda uma outra pobreza, uma pobreza interior, aquela que é preciso entender pelas palavras de Nosso Senhor quando ele diz: «Felizes são os pobres em espírito.»
  4. Eu peço-vos que vocês sejam assim para poderem compreender este discurso, porque eu vos digo na eterna verdade: se vocês não estiverem conformes a esta verdade, da qual nós queremos agora falar, vocês não me podem compreender. 2
  5. Certas pessoas perguntaram-me o que é a pobreza em si própria, e o que é um ser humano pobre. Nós queremos responder a isso. 3
  6. O bispo Alberto disse que um ser humano pobre é aquele que não se pode satisfazer com todas as coisas criadas por Deus, e são palavras certas. Mas nós diremos ainda melhor, e consideraremos a pobreza segundo um significado mais elevado: é um ser humano pobre aquele que não quer nada, e que não sabe nada, e que não tem nada. Falaremos destes três pontos, e eu peço-vos, pelo amor de Deus, de compreenderem esta verdade se puderem, e se não a compreenderem, não se preocupem, porque eu quero falar de uma tal verdade que poucas pessoas boas a podem compreender. 4
  7. Em primeiro lugar nós dizemos que é um ser humano pobre aquele que não quer nada. Certas gentes não compreendem bem este sentido; são as gentes que se agarram à penitência e aos exercícios exteriores, os quais estas gentes consideram ser importantes, porque elas se procuram neles a si próprias. Que Deus tenha piedade delas, por terem um tão fraco conhecimento da verdade divina. Estas gentes são ditas santas com base nas aparências exteriores, mas interiormente são burras, porque elas não sabem discernir a verdade divina. Estas pessoas repetem bem que um ser humano pobre é aquele que não quer nada, mas elas interpretam isso no sentido em que o ser humano deve viver sem nunca realizar em nada a sua vontade, e que para além disso se deve esforçar por realizar a muito cara vontade de Deus. Essas pessoas têm uma posição certa, porque a opinião delas é boa, nós as louvaremos portanto. Que Deus, na sua misericórdia, lhes dê o reino dos céus. Mas eu, eu digo na verdade divina que estas pessoas não são pessoas pobres, nem semelhantes a pessoas pobres. Elas estão em grande consideração aos olhos das gentes que não sabem nada de melhor, mas eu digo que são burras, que não entendem nada da verdade divina. Devido à sua boa intenção, que elas obtenham o reino dos céus, mas desta pobreza da qual nós queremos agora falar, elas não sabem nada. 5
  8. Se me perguntassem o que é um ser humano pobre, que não quer nada, eu responderia: todo o tempo que o ser humano tem como sua vontade querer realizar a muito cara vontade de Deus - este ser humano não tem a pobreza da qual nós queremos falar, porque este ser humano tem uma vontade pela qual ele quer satisfazer a vontade de Deus, e essa não é a verdadeira pobreza. Porque se o ser humano deve ser verdadeiramente pobre, ele deve estar tão desprendido da sua vontade criada, como quando ele estava quando ele (ainda) não existia. Porque eu vos digo, pela verdade eterna: todo o tempo que vocês tiverem a vontade de realizar a vontade de Deus, e que vocês tiverem o desejo da eternidade, e o desejo de Deus, vocês não são pobres, porque só é um ser humano pobre aquele que não quer nada, e que não deseja nada. 6
  9. Quando eu estava na minha causa primeira, eu não tinha Deus, e eu era a causa de mim próprio; então eu não queria nada, eu não desejava nada, porque eu era um ser livre, eu conhecia-me a mim próprio, desfrutando da verdade. 7 Eu queria-me a mim próprio, e não queria nada mais; aquilo que eu queria, eu era-o, e aquilo que eu era, eu queria-o; e lá eu estava desprendido de Deus e de todas as coisas, mas quando, pela minha livre vontade, eu saí, e recebi o meu ser criado, eu passei a ter um Deus, porque antes que existissem as criaturas, Deus não era "Deus", mas ele era aquilo que ele era. Mas quando passaram a existir as criaturas, e quando elas receberam o seu ser criado, Deus não era mais "Deus" em si próprio, ele passou a ser "Deus" nas criaturas. 8
  10. Ora, nós dizemos que Deus, enquanto ele é "Deus", não é o fim supremo da criatura, porque enquanto ela está em Deus, a mínima criatura tem a mesma riqueza que ele. E se fosse possível que uma mosca tivesse um intelecto, e fosse capaz de procurar intelectualmente o abismo eterno do ser divino de onde ela saiu, diríamos que Deus, com tudo aquilo que ele é enquanto "Deus", não poderia dar a esta mosca plenitude e satisfação. É por isso que nós pedimos a Deus para sermos desprendidos de "Deus", e para acolhermos a verdade, e para desfrutarmos dela eternamente, lá onde os anjos mais elevados, e a mosca, e a alma são iguais, lá onde eu estava, onde eu queria aquilo que eu era, e era aquilo que eu queria. Nós dizemos portanto: se o ser humano deve ser pobre em vontade, ele deve também querer pouco, e desejar que ele quisesse e desejasse como quando ele não existia. E eis, de que maneira, é pobre o ser humano que não quer nada. 9
  11. Em segundo lugar, é um ser humano pobre aquele que não sabe nada. Nós dissemos por vezes que o ser humano deveria viver como se ele não vivesse nem para ele próprio, nem para a verdade, nem para Deus. Mas agora nós dizemos de modo diferente, e iremos mais longe dizendo que o ser humano (que deve ter esta pobreza) deve viver de tal forma que ele ignore mesmo que ele não vive nem para si próprio, nem para a verdade, nem para Deus; bem melhor, ele deve estar de tal forma desprendido de todo o conhecimento que ele não sabe, nem reconhece, nem sente que Deus vive nele; mais ainda, ele deve estar desprendido de todo o conhecimento que viva nele, porque quando o ser humano estava no ser eterno de Deus, nada mais vivia nele (para além do ser eterno de Deus), e o que vivia lá, era ele próprio. Nós dizemos portanto que o ser humano deve estar tão desprendido do seu próprio saber, tal como ele estava quando ele (ainda) não existia; que o ser humano deixe Deus operar aquilo que Deus quer, e que o ser humano esteja desprendido. 10
  12. Tudo o que veio alguma vez de Deus tem por fim uma atividade pura, mas a atividade própria do ser humano é a de amar e de conhecer. Ora, a questão coloca-se em saber no que consiste essencialmente a beatitude. Certos mestres disseram que ela reside no conhecimento, outros dizem que ela reside no amor, outros dizem que ela reside no conhecimento e no amor, e estes dizem melhor. Mas nós dizemos que ela não reside nem no conhecimento nem no amor, mas antes que existe na alma "qualquer coisa" de onde fluem o conhecimento e o amor; "aquilo" não conhece nem ama como as outras potências da alma. Aquele que sabe "aquilo", sabe onde reside a beatitude. "Aquilo" não tem nem antes nem depois, não espera que nada lhe aconteça, porque "aquilo" não pode nem ganhar nem perder. É por isso que esse "qualquer coisa" também está privado de saber que Deus age nele, mas antes: esse "qualquer coisa" desfruta ele próprio de si próprio, segundo o modo de Deus. Nós dizemos portanto que o ser humano deve estar quite e privado de Deus, de tal forma que não saiba nem conheça a ação de Deus nele; é assim que o ser humano pode possuir a pobreza. Os mestres dizem que Deus é um ser, um ser dotado de intelecto, e que ele conhece todas as coisas. Ora nós dizemos: Deus não é nem ser, nem dotado de intelecto, e ele não conhece nem isto nem aquilo. Assim portanto, Deus está liberto de todas as coisas, e é por isso que ele é todas as coisas. Aquele portanto que deve ser pobre em espírito deve ser pobre de todo o seu saber próprio, de forma que ele não saiba nada de nenhuma coisa, nem de Deus, nem da criatura, nem si próprio. É portanto necessário que o ser humano deseje não poder saber nada, nem conhecer das obras de Deus. Desta maneira o ser humano pode ser pobre do seu próprio saber. 11
  13. Em terceiro lugar é pobre o ser humano que não possui nada. Muitas gentes disseram que a perfeição consiste em não possuir nada de bens materiais, e é bem verdade num sentido, para aquele que o faz voluntariamente. Mas esse não é o sentido em que eu penso. 12
  14. Eu disse previamente que é um ser humano pobre aquele que quer não realizar a vontade de Deus, mas que vive de tal forma que está liberto quer da sua vontade própria quer da vontade de Deus, tal como ele estava quando ele (ainda) não existia. Nós dizemos desta pobreza que é a pobreza mas elevada. Em segundo lugar, nós dissemos que é um ser humano pobre aquele que não sabe nada das obras que Deus opera nele. Aquele que está assim liberto de saber e de conhecer, tanto quanto Deus está liberto de todas as coisas - é a mais pura pobreza. Mas a terceira, da qual nós queremos falar agora, é a pobreza mais clara: a do ser humano que não tem nada.
  15. Notem isto com aplicação e seriedade! Eu disse frequentemente, e os grandes mestres disseram-no também, que o ser humano deve ser liberto de todas as coisas, e de todas as obras, interiores e exteriores, de tal forma que ele possa ser um lugar próprio de Deus, onde Deus possa operar. Agora nós dizemos de modo diferente. Se o ser humano é liberto de todas as criaturas, e de Deus, e dele próprio, mas se ele ainda está tal que Deus encontra nele um lugar onde operar, nós dizemos: todo o tempo em que isto acontecer neste ser humano, este ser humano não é pobre da mais extrema pobreza. Porque, nas suas operações, Deus não visa um lugar no ser humano, onde ele possa operar: a pobreza em espírito, é que o ser humano esteja de tal forma liberto de Deus, e de todas as suas obras, que Deus, se ele quer operar na alma, seja ele próprio o lugar onde ele quer operar, e isso, ele o faz de boa vontade. Porque, quando ele encontra o ser humano tão pobre, Deus opera a sua própria obra, e o ser humano acolhe assim Deus nele, e Deus é o lugar próprio das suas operações, pelo facto de que Deus opera em si próprio. Aqui, nesta pobreza, o ser humano reencontra o ser eterno que ele (antes) foi, que ele é agora, e que ele permanecerá para sempre. 13
  16. São Paulo disse: «Tudo o que eu sou, eu sou-o pela graça de Deus». Ora este discurso aqui parece situar-se acima da graça, e acima do ser, e acima do conhecimento, e acima da vontade, e acima de todo desejo - como então é que as palavras de São Paulo podem ser verdadeiras? Sobre isto responder-se-á que as palavras de São Paulo são verdadeiras. Era necessário que a graça de Deus estivesse nele porque o que a graça operou nele, foi que o que era "acidente" se tornasse "substância". Quando a graça terminou a sua obra, Paulo permaneceu aquilo que ele era (antes).14
  17. Nós dizemos portanto que o ser humano deve ser tão pobre que ele não seja, nem tenha nele, nenhum lugar onde Deus possa operar. Enquanto ele reservar um lugar, ele guarda uma distinção. É por causa disso que eu peço a Deus que ele me liberte de "Deus", porque o meu ser essencial está acima de "Deus" enquanto nós apreendemos Deus como sendo o princípio das criaturas. Neste mesmo ser de Deus, onde Deus está acima do ser e acima da distinção, eu era eu próprio, eu queria-me a mim próprio, eu conhecia-me a mim próprio para fazer este ser humano [que eu sou]. É por isso que eu sou a causa de mim próprio segundo o meu ser que é eterno, e não segundo o meu devir que é temporal. É por isso que eu sou não-nascido (ungeboren), e segundo o meu modo não-nascido, eu nunca posso morrer. Segundo o meu modo não-nascido, eu existi eternamente, e eu sou agora, e eu devo permanecer eternamente. Aquilo que eu sou segundo o meu nascimento, deve morrer e ser aniquilado, porque é mortal, é por isso que isso se deve corromper com o tempo. No meu nascimento [eterno], todas as coisas nasceram, e eu fui a causa de mim mesmo, e de todas as coisas, e se eu tivesse querido eu não existiria, e todas as coisas não existiriam, e se eu não existisse, "Deus" também não existiria. Que Deus seja "Deus", eu sou uma causa; se eu não existisse, Deus não seria "Deus". Não é necessário saber isso. 15
  18. Um grande mestre disse que o seu irromper é mais nobre que a sua difusão, e é verdade. Quando eu fluía de Deus, todas as coisas disseram: Deus é, e isso não me pode tornar feliz, porque devido a isso eu reconheço-me como sendo criatura. Mas (pelo contrário) no irromper, onde eu sou liberto da minha própria vontade, e da vontade de Deus, e de todas as obras, e de Deus ele próprio, eu estou acima de todas as criaturas, e não sou nem "Deus" nem criatura, mas antes eu sou aquilo que eu era, e o que eu devo permanecer agora, e sempre. Lá, eu recebo um impulso que me deve levar acima de todos os anjos. Neste impulso, eu recebo uma riqueza tal que Deus não me pode ser suficiente segundo tudo o que ele é "Deus", e segundo todas as suas obras divinas. Com efeito, o dom que eu recebo neste irromper, é que eu e Deus, somos um. Então, eu sou aquilo que eu era, e lá eu não cresço nem diminuo, porque eu sou lá um motor imóvel que move todas as coisas. Então, Deus não encontra lugar no ser humano, porque com esta pobreza, o ser humano adquire aquilo que ele foi eternamente, e aquilo que ele permanecerá para sempre. Então, Deus é um com o espírito, e é a suprema pobreza que se pode encontrar. 16
  19. Que aquele que não compreende este discurso não se aflija no seu coração. Todo o tempo que o ser humano não é semelhante a esta verdade, ele não pode compreender este discurso, porque é uma verdade sem véu que veio diretamente do coração de Deus. 17
  20. Que Deus nos ajude afim de que nós possamos viver para a encontrar eternamente. Amém. 18

Notas
  1. Por vezes chamado "Sermão da Pobreza", o Sermão 52 é um dos sermões mais famosos de Mestre Eckhart. Foi traduzido em latim e usado por um número de místicos posteriores, incluindo João Ruysbroec. O "Sermão da Pobreza" representa Eckhart no seu ponto mais desafiador. A organização do sermão, com a sua tripla análise da verdadeira pobreza - querer nada, saber nada, e ter nada - tem uma clareza incomum nos sermões de Mestre Eckhart. Parece estar entre os últimos sermões de Eckhart, possivelmente pregado em Colónia em 1327 para a Festa de Todos os Santos. A natureza da pobreza era um dos assuntos religiosos mais controversos dos séculos treze e catorze. A resposta de Eckhart ao que constitui a verdadeira pobreza caracteristicamente passa rapidamente pela pobreza exterior para explorar a pobreza interior da aniquilação da vontade que nos leva de volta para o nosso estado anterior à criação e para além dele, irrompendo até à união idêntica com Deus, para além de Deus. Estudos recentes mostraram que algumas frases deste sermão ecoam o livro anónimo Espelho das Almas Simples. [  ]
  2. Este sermão é provavelmente o mais difícil, de todos os que nos foram transmitidos, de Mestre Eckhart.
       É por isso que ele previne os auditores de que se eles não estão conformes à verdade que ele vai expor, eles não o poderão compreender. Um pouco mais adiante, ele insiste para que os que não o compreendam não fiquem preocupados, e de cada vez ele exprime-se com alguma solenidade: «... Eu vos digo na eterna verdade... eu peço-vos pelo amor de Deus... » Também, no fim do sermão: «... porque é uma verdade sem véu que veio diretamente do coração de Deus».
       No entanto, quais quer que sejam as dificuldades que este texto apresenta, ele não está isolado na obra de Eckhart. Ao proceder à sua análises e a comparações, encontraremos temas que lhe são e nos são familiares. [  ]
  3. A pobreza é aqui apenas o tema ocasional que permite reunir as intuições mais profundas de Mestre Eckhart: a identidade entre o fundo de Deus e o fundo do ser humano, a natureza "não-nascida" do ser humano, a dialética da "douta ignorância", a ultrapassagem de tudo o que pode ser um objeto para a vontade, a insistência sobre a vacuidade que era a nossa antes de nascermos neste mundo, a necessidade de se libertar de Deus enquanto face a face do ser humano, a felicidade como consequência da recuperação de Deus por ele próprio no ser humano. [  ]
  4. A pobreza exterior é boa, diz Eckhart, e deve ser louvada, tendo-a Nosso Senhor praticado ele próprio, mas não é dessa que ele quer falar. O bispo Alberto (Alberto, o Grande, foi bispo de Ratisbona em 1260, e demissionário em 1262) disse que uma pessoa pobre é aquela que não se pode contentar com todas as coisas criadas por Deus, mas ele, Mestre Eckhart, toma a pobreza segundo um significado mais elevado: é uma pessoa pobre aquela que não quer nada, que não sabe nada, e que não tem nada. [  ]
  5. Em primeiro lugar, aquele que não quer nada. Eckhart pensa primeiro naqueles que se submetem a uma regra de vida severa. Apesar de ele lhes desejar a misericórdia divina e o reino dos céus, a condescendência com a qual ele sempre os viu vai agora até ao desprezo declarado: ele trata-os de burros, e por duas vezes. Os cristãos que o escutam, até ao presente, seguiram-no: eles sabem que devem renunciar à sua vontade própria, mas é-lhes sem dúvida mais difícil admitir que devem renunciar a querer realizar a vontade de Deus. [  ]
  6. Talvez seja necessário ler a frase «... todo o tempo que vocês têm a vontade de realizar a vontade de Deus...» em função daquilo que se segue: «... e o desejo da eternidade e de Deus, vocês não são pobres, porque só é uma pessoa pobre aquela que não quer nada e não deseja nada». Podia-se então pensar que o predicador liga esta vontade de realizar a vontade de Deus ao desejo da eternidade bem-aventurada e de Deus. Não seria então o primeiro sermão que convidaria os seus auditores ao mais total desinteresse espiritual. No sermão 1, Intravit Iesus in templum..., ele comparou aos mercadores do Templo àqueles que realizam a vontade de Deus para obterem qualquer coisa que seja, mesmo que seja a beatitude eterna. [  ]
  7. «Quando eu estava na minha causa primeira, eu não tinha Deus, e eu era a causa de mim próprio; então, eu não queria nada, eu não desejava nada, porque eu era um ser livre, eu conhecia-me a mim próprio, desfrutando da verdade. Eu queria-me a mim próprio, e não queria nada mais; aquilo que eu queria, eu era-o, e aquilo que eu era, eu desejava-o, e lá eu estava desprendido de Deus e de todas as coisas...»
       Para compreender este texto, e alguns dos que se seguem, é preciso regressar à distinção que Mestre Eckhart estabelece entre got (Deus trinitário e criador) e diu gotheit, a Divindade, abismo sem fundo, deserto, origem, que ele nomeia aqui causa primeira. «A distinção entre Deus e a Divindade respeita dois aspectos - exterior e interior - sob os quais as criaturas in via concebem a mesma realidade simples, opondo dois níveis na sequência dum erro de óptica inevitável aqui em baixo» (Vladimir Lossky).
       Eckhart trata aqui da existência eterna do ser humano, anterior à criação, quando ele ainda não era mais que uma ideia no ato puro, na Origem, o bullitio, o bulício anterior a tudo, para retomar a expressão que Mestre Eckhart emprega nas suas obras latinas.
       Mas quem a compreendeu melhor, e a explicou melhor, que um dos seus primeiros e mais fieis discípulos, Henrique Suso? Ele escreve no Livro da Verdade:
    «Verdade eterna, mas como é que as criaturas existem em Deus desde toda a eternidade?
    - Elas estavam lá como no seu exemplar eterno.
    - O que devemos entender por exemplar? - É a sua essência eterna enquanto ela permite à criatura atingi-la duma maneira participada. E nota que todas as criaturas são eternamente Deus em Deus, e não tiveram lá nenhuma diferença fundamental. Elas são a mesma vida, a mesma essência, o mesmo poder enquanto elas estão em Deus; elas são o mesmo Um, e nada de menos.» [  ]
  8. «Mas quando pela minha livre vontade, eu recebi o meu ser criado, eu tive um Deus, porque antes que existissem as criaturas, Deus não era "Deus"», bem pelo contrário: ele era o que ele era.
       Continuação do comentário de Henrique Suso:
       «Mas quando as criaturas saíram de Deus, tomando o seu ser próprio, cada uma passou a ter a sua substância particular diferente, com a sua própria forma que lhe dá a sua essência natural... E por essa difusão, todas as criaturas encontraram o seu Deus, porque quando a criatura compreende que ela é uma criatura, ela reconhece o seu criador e o seu Deus.» [  ]
  9. Ora, esse Deus criador não seria capaz de satisfazer nem mesmo a mosca se, dotada de intelecto por uma das hipóteses paradoxais de Eckhart, ela procurasse o abismo eterno do ser divino de onde ela saiu. Ele tinha-nos dito no sermão 2, a propósito do castelo da alma: «Se Deus deve alguma vez penetrá-lo com o seu olhar, isto custar-lhe-ia todos os seus nomes divinos, e a propriedade das suas Pessoas. Ele tem que as deixar todas no exterior para que o seu olhar lá penetre. É preciso que ele seja o Um na sua simplicidade, sem nenhum modo nem propriedade, lá onde ele não é neste sentido nem Pai, nem Filho, nem Espírito Santo, e onde ele é no entanto uma qualquer coisa que não é nem isto nem aquilo.»
       «Ele era aquilo que ele era... uma qualquer coisa que não é nem isto nem aquilo...» Estas expressões reúnem-se na sua indeterminação tanto é difícil de definir o que está acima de qualquer nome: «É por isso que nós pedimos a Deus para sermos libertos de Deus, e de acolhermos a verdade, e de rejubilarmos eternamente lá onde os anjos mais elevados, e a mosca, e a alma são iguais.» [  ]
  10. Em segundo lugar, é pobre o ser humano que não sabe nada, que não sabe que vive para ele próprio, nem para a verdade, nem para Deus. Ele deve ser desprendido de todo o saber, e de todo o conhecimento, mesmo de saber, de reconhecer, e de sentir que Deus vive nele, «porque quando o ser humano estava no ser eterno de Deus, ninguém vivia nele, e quem vivia lá, era ele próprio».
       É preciso sem dúvida aproximar estas palavras sobre a exigência do não-saber, dos textos onde, como em Mulier, venit hora, Eckhart insiste com tanto vigor sobre a exigência de viver «sem porquê». [  ]
  11. «Tudo o que veio alguma vez de Deus tem por fim uma atividade pura, mas a atividade própria do ser humano é a de amar e de conhecer.» Encontramos aqui uma questão que Mestre Eckhart abordou várias vezes: em que é que consiste essencialmente a beatitude? Ele nega primeiro que ela resida no conhecimento ou no amor, depois, sem dar imediatamente uma resposta positiva, ele regressa à noção do "qualquer coisa" na alma, na qual nós reconhecemos "a centelha", sobre a qual ele dá uma nova definição. Como todas as outras, esta só poderia ser balbuciante: «"Aquilo" não tem nem antes nem depois, não espera que nada lhe aconteça, porque "aquilo" não pode nem ganhar nem perder. É por isso que esse "qualquer coisa" também está privado de saber que Deus age nele, mas antes: esse "qualquer coisa" desfruta ele próprio de si próprio, segundo o modo de Deus.»
       Estas palavras misteriosas designam aliás a região no ser humano «na qual reside a beatitude». Nós deveremos provavelmente ver aí uma espécie de espreitadela extremamente discreta - é sempre assim com Eckhart - sobre as profundezas da sua experiência mística. Esta consistiria então em tornar-se consciente do "qualquer coisa" dentro da alma que não cessa nunca de estar unido a Deus, portanto de estar na beatitude.
       Eckhart diz, de passagem, uma palavras sobre Deus que se relacionam com o seu propósito sobre a pobreza, onde culmina o paradoxo: os mestres dizem que Deus é um ser dotado de intelecto, e que ele conhece todas as coisas. Ora, nós dizemos: Deus não é nem ser, nem dotado de intelecto, e ele não conhece nem isto nem aquilo, Deus está desprendido de todas as coisas, e é por isso que ele é todas as coisas.
       Estes paradoxos, de que Mestre Eckhart nunca se cansa, são apenas a retoma dos raciocínios clássicos: se chamamos «ser» às coisas que constituem o nosso universo, então é preciso dizer que Deus não é, mas se chamamos «ser» principalmente a Deus, então são as coisas que são «um puro nada». Nós reencontramos portanto simplesmente nestes paradoxos aquilo a que os teólogos medievais chamavam a "via negativa" e a "via afirmativa" no conhecimento de Deus. Estas duas tendências ressaltam muito bem numa passagem do sermão Quasi stella matutina: «Certos mestres de espírito frustre dizem que Deus é um ser puro; ele está tão elevado acima do ser, como o mais elevado dos anjos está acima de um mosquito. Eu também falaria falsamente se dissesse que Deus é um ser, como se dissesse que o sol é pálido ou negro. Deus não é isto nem aquilo... Mas quando eu disse que Deus não era um ser, e que ele estava acima do ser, com isso eu não lhe contestei o ser, pelo contrário, eu atribui-lhe um ser mais elevado.»
       Aquele que deve ser pobre em espírito não deve saber nada, de coisa nenhuma, nem de Deus, nem da criatura, nem dele próprio. [  ]
  12. Em terceiro lugar, a pobreza mais extrema é aquela do ser humano que não tem nada. Muitos pensam que essa pobreza é a da pessoa que não possui nenhum bem material, é verdade para aquele que o faz voluntariamente, mas existe uma outra pobreza. [  ]
  13. Eckhart disse antes, assim como outros mestres, que o ser humano devia ser livre de todas as obras exteriores e interiores, afim de deixar a Deus um lugar onde ele possa agir. Ele fala hoje de forma diferente: a pobreza em espírito, é que o ser humano seja de tal forma liberto de Deus, e de todas as suas obras, que Deus, quando ele quer operar dentro da alma, seja ele próprio o local onde ele pode operar. «Aqui, nesta pobreza, o ser humano reencontra o ser eterno que ele foi, que ele é agora, e que ele permanecerá para sempre.»
       Podemos também nos perguntar se não devemos ler estas últimas linhas na perspectiva da união mística. [  ]
  14. Na última parte do sermão, Eckhart regressa àquilo que nos disse previamente sobre a existência eterna do ser humano, retomando por vezes as mesmas expressões, ou empregando outras quer mais explicitas, quer mais paradoxais ainda. Elas culminam na afirmação completamente extraordinária: «Eu peço a Deus que me liberte de Deus.» Se ela é forçada, ela é no entanto cheia de sentido: para conhecer Deus na sua autenticidade, é indispensável que se desfaçam todas as representações culturais pelas quais nós acreditamos poder agarrá-lo. A originalidade de Eckhart consiste na afirmação de que eu me encontro a mim próprio apenas na condição de me libertar também de todo o rosto de Deus que tem um nome. «O meu ser essencial está acima de Deus enquanto que nós entendemos Deus como princípio das criaturas», explica Eckhart. Compreender que a destruição das representações sobre Deus, e que a recuperação do eu autêntico, são um só e mesmo movimento, é compreender este sermão de formulações ousadas, e compreender Mestre Eckhart todo inteiro, nos três últimos parágrafos do sermão que chocou tantos leitores. [  ]
  15. O «deserto», a «solidão» acima de Deus é uma causa não ativa, eficiente, mas passiva, ideal de Deus. A expressão «eu era a causa de mim próprio» é muito forte: segundo o ensinamento tradicional, apenas Deus é causa sui. Mas no meu ser incriado, anterior à distinção entre Criador e criatura, eu fico para além do Deus criador. O fundo da alma, idêntico ao fundo de Deus, é o único organismo do ser humano, de Deus, do mundo... Na obra latina, encontra-se também o ebullitio, o escoamento das criaturas a partir da sua causa, à qual se opõe o bullitio intra-divino: na origem, para além do Deus criador «nasceram também todas as coisas», quer dizer que todas as coisas «buliriam» na origem no estado de sementes. Enquanto não há mundo criado, ou ser mortal para invocar Deus, Deus não é "Deus". Deus aparece só no frente a frente com a criatura. «Que Deus seja Deus, disso eu sou uma causa» - cada uma das criaturas é uma causa. «Qualquer que seja o sendo criado, desde que qualquer coisa existe, a dualidade aparece entre Deus e essa qualquer coisa» (Reiner Schürmann). [  ]
  16. Mestre Eckhart fala de um grande mestre para quem o irromper (o regresso à Divindade) é mais nobre que a difusão (o escoamento no ser criado), mas tal é a conclusão lógica de todo o sermão: «Quando eu fluía de Deus todas as coisas disseram: Deus existe.» É a isto que a tradição neoplatónica chama a emanação, exitus. Desde que um único ser sai do fundo primitivo ou do Um, uma diferença se colocou, e então Deus é Deus, quer dizer o frente a frente de todas as coisas visíveis. Mas esta emanação «não me pode fazer feliz». Com efeito, ela é o princípio da dispersão. Pela emanação «eu reconheço-me criatura». O regresso, o reditus, pelo contrário, regressa da dispersão. É um momento de concentração. Esse regresso leva em direção ao Um sem nome, para além do Deus criador: «no irromper... eu estou acima de todas as criaturas, e eu não sou nem Deus nem criatura».
       Vê-se porque é que o irromper, o regresso para o fundo de Deus, que é indistintamente também o fundo da alma, é mais nobre: é o regresso à ordem depois do caos. O dom que me é feito nesse irromper, é que eu e Deus sejamos um. «Lá eu sou aquilo que eu era, e lá eu não aumento nem diminuo, porque lá eu sou uma causa imutável que move todas as coisas. Aqui, Deus não encontra lugar no ser humano, porque por esta pobreza o ser humano adquire aquilo que ele foi eternamente, e aquilo que ele permanecerá para sempre. Aqui, Deus é um com o espírito, e é a suprema pobreza que se possa encontrar.» [  ]
  17. No entanto, Mestre Eckhart quis tranquilizar os seus auditores concluindo assim os seus desenvolvimentos audaciosos: «Não é necessário saber isto.» [  ]
  18. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 138-149.
    Outra tradução deste sermão pode ser encontrada em «Mestre Eckhart - Tratados e Sermões» traduzido do original alemão por Jorge Telles de Menezes, Paulinas Editora, Lisboa, 2009, p. 212-221. [  ]



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Livro da Vida Perfeita - Riqueza e orgulho espirituais


  1. Quando o ser humano percorreu todos os caminhos que o levam à Verdade, quando ele fez tantos esforços e teve tanto trabalho que ele crê ter realizado tudo - estar morto para si próprio e ter-se deixado a si próprio para se abandonar a Deus -, é então que o diabo semeia nele a sua semente.
  2. Dessa semente nascem dois frutos.
  3. O primeiro é a riqueza, o orgulho espirituais; o segundo, a falsa liberdade, a liberdade desordenada.
  4. Esses dois frutos são como dois irmãos que se encontram frequentemente e de boa vontade em conjunto.
  5. Isto começa assim: o diabo inspira ao ser humano a ilusão de que ele chegou ao mais alto, que ele está mesmo próximo do fim, que ele não tem mais necessidade das Escrituras nem de mais nada, que ele ultrapassou isso tudo.
  6. Eleva-se então nele uma grande paz, uma profunda satisfação: «Sim, exclama ele, eis-me agora acima de todas as pessoas! Eu sei, eu compreendo mais que toda a gente. Assim, é justo e equitativo que eu seja um deus para todas as criaturas: que elas me obedeçam, me sirvam e me sejam submissas.»
  7. Tal é a sua procura, tal é o seu desejo.
  8. Ele apropria-se de boa vontade desse direito sobre todas as criaturas, e em particular sobre as pessoas, porque está convencido de ser digno e de que cada um lho deve. Ele considera que todos os seres humanos são burros e bezerros.
  9. Tudo o que lhe pode proporcionar prazer e agrado - ao seu corpo, à sua carne, à sua natureza -, ele pensa que isso lhe é devido: ele o procura e o faz seu em todas as ocasiões.
  10. Tudo aquilo que se pode fazer por ele, ainda lhe parece pouco. Tudo o que é dele, acha que é perfeitamente indigno de si.
  11. Aqueles que lhe obedecem e o servem, ele considera-os com corações nobres e leais, cheios de verdade e generosos para com os pobres - mesmo que não sejam mais que ladrões e assassinos. Ele louva-os, procura-os e segue-os para toda a parte onde eles vão.
  12. Mas aquele que não obedece a esses orgulhosos e não os serve, aquele que não atua segundo a vontade deles, esse não recebe deles nenhum elogio, mas as criticas e os desprezos deles - mesmo que ele fosse tão santo quanto são Pedro.
  13. Uma tal riqueza, um tal orgulho espirituais consideram não ter necessidade nem das Escrituras, nem dos ensinamentos, nem de nada mais desse género.
  14. Também, só têm desprezo e troça pelas instruções, as regras, as leis, os mandamentos e os sacramentos da santa Igreja, assim como por todos aqueles que os respeitam e os observam.
  15. Vê-se por isto que estes dois irmãos estão sempre bem juntos.
  16. Como o orgulho espiritual acredita saber mais e compreender tudo melhor que toda a gente, ele pretende também falar e discorrer mais que os outros.
  17. Ele quer que só se escute e só se respeite aquilo que ele diz, aquilo que ele explica. As palavras e as explicações dos outros devem ser tidas por erróneas, ridículas e absurdas.

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