Mestre Eckhart – Daniel o profeta diz: nós te seguimos



  1. O ser humano tem o espírito de sabedoria quando ele considera todas as coisas como um puro nada
  2. É verdadeiramente uma loucura o pedir a Deus qualquer outra coisa que não seja Ele
  3. O dom de sabedoria é o mais nobre dos sete dons do Espírito Santo
  4. São Paulo desejava estar separado de Deus, por Deus, e pelos seus irmãos
  5. A verdadeira cruz consiste em se renunciar para obedecer à vontade divina
  6. Não se pode conceber Deus sem a alma, nem a alma sem Deus, de tal forma eles são um
  7. A alma não tem diferença com Nosso Senhor Jesus Cristo, senão o de ter um ser mais grosseiro
  8. Aquele que viu Deus e o provou, não o abandona e continua a correr atrás dele
  9. O conhecimento procura Deus e apreende-o na sua raiz, mas a vontade fica no exterior e liga-se à bondade



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Mestre Eckhart – Daniel o profeta diz: nós te seguimos 1


Sermão 59 - Daniel o profeta diz: nós te seguimos
  1. O profeta Daniel diz: «Nós te seguimos com todo o coração, e nós te tememos, e nós procuramos o teu rosto.» (Dn 3, 41) 1
  2. Estas palavras adaptam-se bem àquelas que eu disse ontem: «Eu chamei-o, eu convidei-o, eu atraí-o, e o espírito de sabedoria veio a mim, e eu estimei-o mais do que todos os reinos, e o poder, e o domínio, e o ouro, e a prata, e as pedras preciosas, e comparadas ao espírito de sabedoria, eu considerei todas as coisas como um grão de areia, como lama, e como um nada.»
  3. É um sinal manifesto que o ser humano tem o «espírito de sabedoria» quando ele considera todas as coisas como um puro nada.
  4. Naquele que pode considerar o que quer que seja como qualquer coisa, o «espírito de sabedoria» não existe.
  5. Que ele tenha dito «como um grão de areia», era muito pouco; que ele tenha dito «como lama», era ainda muito pouco; que ele tenha dito «como um nada», estava bem dito, porque todas as coisas são um puro nada comparadas com o «espírito de sabedoria».
  6. Eu chamei-o, e atraí-o, e convidei-o, e o «espírito de sabedoria» veio a mim.
  7. O «espírito de sabedoria» vem àquele que o chama para o mais interior dele próprio. 2

Notas
  1. Este texto encontra-se na missa da sexta-feira depois do domingo da Paixão. [  ]
  2. Os exegetas não conseguem determinar a qual sermão Eckhart faz exatamente alusão quando ele cita as palavras do Livro da Sabedoria 7, 7 que ele «disse ontem».

    Que, para aquele que possui o «espírito de Sabedoria», todas as coisas sejam não apenas «um grão de areia» e «lama», é ainda demasiado pouco dizer; «como um nada», estava bem dito, porque todas as coisas são um puro nada, comparadas com o espírito de Sabedoria.

    Nós reencontramos aqui uma das constantes do pensamento eckhartiano, tal como nós já bastantes vezes reencontramos a sua expressão. [  ]


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  1. Ora ele (o sábio) diz: «Com o espírito de sabedoria, todo o bem me veio ao mesmo tempo.»
  2. O dom de sabedoria é o dom mais nobre entre os sete dons.
  3. Deus não faz nenhum destes dons sem se dar Ele próprio primeiro, da mesma maneira, e na geração.
  4. Tudo aquilo que é bom e que pode trazer alegria e consolação, eu tenho tudo no «espírito de sabedoria», e toda a doçura, por forma que ele não é omisso nem mesmo em algo tão pequeno quanto a ponta de uma agulha, e no entanto seria pouca coisa se não o tivesse em plenitude e igualdade, absolutamente como Deus desfruta dele; eu desfruto dele portanto da mesma maneira, da mesma coisa na sua natureza.
  5. Porque no «espírito de sabedoria», ele age em plena igualdade, tão bem que a mais pequena coisa se torna como a maior, mas não a maior como a mais pequena, da mesma forma que se enxerta um ramo nobre num sujeito grosseiro, todo o fruto fica conforme à nobreza do ramo, não conforme à grosseria do sujeito.
  6. Passa-se o mesmo neste espírito, então todas as obras se tornam iguais, porque a mais pequena torna-se como a maior e não a maior como a mais pequena.
  7. Ele dá-se a Ele próprio na geração, porque a obra mais nobre em Deus é a de gerar, se uma coisa em Deus fosse mais nobre que a outra, porque Deus tem toda a sua alegria a gerar.
  8. Tudo aquilo que me é inato, ninguém mo pode tirar, a menos que Ele (Deus) mo tire a mim próprio.
  9. Tudo aquilo que me pode acontecer de fortuito, eu posso perdê-lo; é por isso que Deus se gera totalmente em mim para que eu não o perca nunca, porque tudo aquilo que é inato, eu não o perderei nunca.
  10. Deus tem toda a sua alegria no nascimento, é por isso que Ele gera o seu Filho em nós, afim de que nós tenhamos nisso toda a nossa alegria, e que nós geremos ao mesmo tempo que Ele esse mesmo Filho segundo a natureza, porque Deus tem toda a sua alegria no nascimento, é por isso que Ele se gera em nós, afim de que Ele tenha toda a sua alegria na alma, e que nós tenhamos toda a nossa alegria n'Ele.
  11. Eis porque Cristo diz, como São João escreve no Evangelho: «eles seguem-me».
  12. Seguir Deus verdadeiramente, é bem: que nós sigamos a sua vontade, como eu o disse ontem: «que a sua vontade seja feita».
  13. São Lucas escreve no Evangelho que Nosso Senhor diz: «Que aquele que me quer seguir se renuncie a ele próprio, pegue na sua cruz e me siga.»
  14. Aquele que se renunciasse verdadeiramente pertenceria verdadeiramente a Deus, e Deus seria verdadeiramente dele, eu estou tão certo disto quanto o eu ser um ser humano.
  15. Para esse ser humano, é tão fácil deixar todas as coisas quanto uma lentilha, e quanto mais ele deixou, melhor é. 1

Notas
  1. O dom de sabedoria é o mais nobre dos sete dons do Espírito Santo. Deus não concede nenhum deles sem se dar a Ele próprio sob a forma da geração. Tudo aquilo que pode trazer alegria e consolação, eu tenho tudo no espírito de Sabedoria, em plena igualdade com Deus, tão bem que a mais pequena coisa se torna como a maior, e não inversamente.

    Se enxertarmos um ramo nobre num sujeito grosseiro, todo o fruto fica conforme à nobreza do ramo; igualmente, se este espírito de Sabedoria é dado à pessoa fruste e grosseira, todas as suas obras tornam-se iguais.

    A obra mais nobre em Deus sendo a de gerar – se pelo menos se pode dizer que em Deus uma coisa é mais nobre que a outra – eu sinto ao gerar o Filho em mim a mesma alegria que Ele tem em gerar o Filho n'Ele. «Tudo aquilo que me pode acontecer de fortuito, eu posso perdê-lo; mas Deus gera-se totalmente em mim para que eu não o perca nunca... Deus tem toda a sua alegria no nascimento, Ele gera-se portanto em nós afim de que Ele tenha toda a sua alegria na alma, e que nós tenhamos toda a nossa alegria n'Ele.» [  ]


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Mestre Eckhart – Daniel o profeta diz: nós te seguimos 2


  1. Existe na alma uma potência mais vasta que todo o mundo.
  2. É preciso que ela seja muito vasta visto que Deus reside nela.
  3. Certas gentes não convidam o «espírito de sabedoria», elas convidam a saúde, e a riqueza, e o prazer, mas o «espírito de sabedoria» não vem a elas.
  4. Aquilo que elas pedem é-lhes mais caro que Deus – como aquele que dá um pfennig por um pão, prefere o pão ao pfennig -, elas fazem de Deus seu criado.
  5. «Faz-me isto e cura-me», diria uma pessoa rica, «pede-me o que tu queres e eu te darei», se ele pedisse então um heller, seria uma aberração, e se ele lhe pedisse cem marcos, ele (o rico) dar-lhos-ia.
  6. É por isso que é verdadeiramente uma loucura o pedir a Deus qualquer outra coisa que não seja Ele; é indigno d'Ele porque Ele não dá nada mais voluntariamente que a Ele próprio.
  7. Um mestre diz: todas as coisas têm um porquê, mas Deus não tem porquê, e o ser humano que pede a Deus qualquer coisa mais que Ele próprio, faz de Deus um «porquê». 1

Notas
  1. Para aqueles que «não convidam» o espírito de Sabedoria, mas a saúde, a riqueza, o prazer, aquilo que eles pedem é-lhes mais caro que Deus. É uma loucura o pedir a Deus outra coisa que Ele próprio, é fazer de Deus um «porquê». Ora, Deus é «sem porquê».

    Nós já reencontramos várias vezes o tema importante do «sem porquê», que Mestre Eckhart apenas aflora aqui. Deus não age por nenhuma outra razão que não seja o seu próprio ser, e o ser humano, igualmente, deve viver sem fins finitos, por nenhuma outra razão que não seja o ser de Deus. Portanto, Deus não pode nunca ser um meio em vista a obter qualquer coisa na terra. [  ]


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Mestre Eckhart – Daniel o profeta diz: nós te seguimos 4


  1. São Paulo desejava estar separado de Deus, por Deus, e pelos seus irmãos.
  2. Sobre este assunto, os mestres têm grandes dificuldades e muitas hesitações.
  3. Certos dizem: ele pensava: «um momento».
  4. Não é absolutamente nada verdadeiro: de tão mau grado um instante quanto eternamente, e de tão bom grado eternamente quanto um instante.
  5. Quando o ser humano considera a vontade de Deus, quanto mais tempo isso fosse, mais ele ficaria satisfeito, e mais o tormento seria grande, mais ele ficaria satisfeito.
  6. Tal como um comerciante que, se ele soubesse de forma certa que aquilo que ele comprou por um marco lhe rendesse dez, empregaria tantos marcos quantos possuísse e qualquer que fosse a dificuldade que ele tivesse, se ele estivesse certo de regressar a casa são e salvo e de ganhar com isso tanto mais, tudo isso lhe seria agradável.
  7. Era assim para São Paulo: aquilo que ele sabia ser a vontade de Deus, quanto mais longo fosse, mais ele estava satisfeito, e mais o tormento durava, maior era a sua alegria, porque realizar a vontade de Deus é o reino celeste, e quanto mais essa vontade durasse, mais longamente durava o reino celeste, e mais o tormento era grande, maior era a beatitude. 1

Notas
  1. Eckhart desenvolve em seguida a parte do texto de David colocada como título do sermão: «Nós te seguimos...» Ele reforça esta citação do Antigo Testamento com duas outras do Evangelho: João 10, 27 e Lucas 9, 23, onde é questão de seguir Cristo, tema que ele já desenvolveu no sermão 58, Aquele que me serve.

    É uma nova ocasião para o pregador recordar o texto de São Paulo aos Romanos, declarando que ele desejaria ser anátema para os seus irmãos. Ele já abordou esta questão no sermão 12, Quem me escuta... e no Livro da Consolação Divina. Os mestres são de opinião diferente sobre este assunto. A argumentação de Eckhart não é absolutamente a mesma nesses três textos, mas a sua conclusão permanece idêntica: não poderia tratar-se para São Paulo, como certos pensam, de estar separado de Deus «um momento», «de tão mau grado um instante quanto eternamente, e de tão bom grado eternamente quanto um instante», como ele o diz aqui: «Quando o ser humano considera a vontade de Deus, quanto mais isso fosse, mais ele ficaria satisfeito.»

    Eckhart retoma a comparação do mercador e do benefício que ele espera, já empregue no Livro da Consolação Divina. Uma frase de passagem recorda-nos a insegurança das estradas na época de Eckhart. Lá, «o mercador afronta os brigões que ameaçam a sua vida e os seus bens». Aqui, «qualquer que seja a pena que ele tomasse, se ele tivesse certo regressar a casa dele são e salvo...» Suso contou-nos bastante a esse respeito. [  ]


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Mestre Eckhart – Daniel o profeta diz: nós te seguimos 5


  1. «Renuncia-te a ti próprio e pega na tua cruz.»
  2. Os mestres dizem que as penas são o jejum e outras penitências.
  3. Mas eu digo que isso é suprimir a pena porque apenas a alegria é a consequência desse comportamento.
  4. Em seguida ele (Cristo) diz: «Eu dou-lhes a vida.»
  5. Muitas outras coisas que possuem as criaturas dotadas de intelecto são «acidente», mas a vida é própria a cada criatura dotada de intelecto como sendo o seu ser.
  6. É por isso que ele diz: «Eu dou-lhes a vida», porque o seu ser é a sua vida, e Deus dá-se absolutamente quando Ele diz: «eu dou».
  7. Nenhuma criatura seria capaz de a dar (a vida) mas se fosse possível que uma criatura a pudesse dar, Deus ama tanto a alma que Ele não poderia tolerar isso: Ele quer ser Ele próprio a dá-la.
  8. Se uma criatura a desse, a alma a consideraria sem valor, ela não faria caso dela mais do que de um mosquito.
  9. Tal como se um imperador desse uma maçã a qualquer um, este atribuir-lhe-ia mais valor do que se uma outra pessoa lhe desse uma veste; igualmente a alma também não pode tolerar o receber a vida de qualquer um que não seja de Deus.
  10. É por isso que ele diz: «eu dou», afim de que a alma tenha uma alegria perfeita nesse dom. 1

Notas
  1. Não se deve pensar, como certos, que a «cruz» de que fala Lucas, são as austeridades, os jejuns e outras penitências, pelo contrário eles suprimem as penas porque eles têm a alegria por consequência. A verdadeira cruz consiste em se renunciar para obedecer à vontade divina.

    Cristo diz em seguida: «Eu dou-lhes a vida.» As criaturas dotadas de intelecto possuem muitas coisas que são «acidente», mas a vida é própria de cada criatura dotada de intelecto como sendo o seu ser. É por isso que ele diz: «eu dou-lhes a vida», porque o seu ser é a sua vida e Deus dá-se absolutamente quando ele diz: «eu dou».

    Nenhuma criatura poderia dar a vida. E nós reencontramos aqui Mestre Eckhart com as suas suposições no impossível: «se uma criatura fosse capaz de dar a vida, Deus ama de tal forma a alma que Ele não toleraria isso, e por seu lado, se a alma a recebesse de um outro que não fosse de Deus, ela não lhe daria mais importância "do que a um mosquito"». [  ]


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Mestre Eckhart – Daniel o profeta diz: nós te seguimos 6


  1. Ora ele diz: «Eu e o Pai nós somos um.»
  2. A alma em Deus e Deus nela.
  3. Se metessem água num vaso, o vaso rodearia a água, mas a água não penetraria no vaso nem o vaso na água, mas a alma é com efeito um com Deus, de tal forma que eles não podem ser compreendidos um sem o outro.
  4. Pode-se conceber bem o calor sem o fogo e a luz sem o sol, mas não se pode conceber Deus sem a alma, nem a alma sem Deus, de tal forma eles são um. 1

Notas
  1. Cristo diz: «Eu e o Pai, nós somos um»: a alma em Deus e Deus nela. A comparação do vaso e do vinho encontra-se já no sermão 16b, Como um vaso de ouro. Nós lemos em seguida uma asserção bastante insólita: «Pode-se conceber bem o calor sem o fogo e a luz sem o sol, mas não se pode conceber Deus sem a alma nem a alma sem Deus, tanto eles são um.» Nós reencontramos assim, nestes sermões, textos apresentados de forma bastante abrupta sobre a identidade entre o fundo da alma e o fundo de Deus. Eles não se podem inserir no conjunto da doutrina eckhartiana sem ser com aproximações e explicações. É assim que a afirmação desta reciprocidade, que nós acabamos de ler, faz pensar no fim do sermão 52, Felizes os pobres em espírito: «... se eu não existisse, Deus também não existiria». Tais passagem parecem sugerir que a união entre Deus e a alma é um assunto da natureza da qual depende toda a Divindade (fim do sermão 26, Mulher, vem a hora), mais do que de vontade, enquanto que, no pensamento de Mestre Eckhart, ela é uma possibilidade oferecida ao ser humano. [  ]


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Mestre Eckhart – Daniel o profeta diz: nós te seguimos 7


  1. A alma não tem diferença com Nosso Senhor Jesus Cristo, senão o de a alma ter um ser mais grosseiro, porque o ser dele (Cristo) está unido à Pessoa eterna.
  2. Tanto quanto ela (a alma) se afasta do seu caráter grosseiro – e como não pode ela separar-se dele absolutamente! – tanto ela é totalmente idêntica a ele, e tudo aquilo que se pode dizer de Nosso Senhor Jesus Cristo, poder-se-ia dizê-lo da alma. 1

Notas
  1. Aquilo que se segue é também de grande dificuldade, mas Eckhart deu-nos noutro local a demonstração válida (sermão 24, São Paulo diz): «... Deus tomou a natureza humana em si e uniu-a à sua pessoa... Ele assumiu a natureza humana essencialmente e não um ser humano...» Eis porque este sermão 59 nos diz que a alma não tem, na sua natureza, diferença com Nosso Senhor, o seu ser é apenas mais grosseiro porque o ser de Cristo está unido à Pessoa eterna. Quanto mais a alma se afasta desse caráter grosseiro, mais ela é idêntica a ele. [  ]


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Mestre Eckhart – Daniel o profeta diz: nós te seguimos 8


  1. Um mestre diz: a menor coisa de Deus enche todas as criaturas, e a sua grandeza não está em parte nenhuma.
  2. Eu vou-vos contar uma história.
  3. Alguém perguntava a uma pessoa boa porque é que ela tinha por vezes tanto gosto pela devoção e pela oração, e porque é que outras vezes ela não tinha.
  4. Foi-lhe assim respondido: o cão que vê a lebre, fareja-a e descobre-lhe o rasto, corre atrás da lebre; os outros vêm-no a correr bastante e correm também, mas em breve eles se cansam e param.
  5. É assim daquele que viu Deus e o provou, ele não abandona e continua a correr.
  6. A este propósito David diz: «Provem e vejam quanto o Senhor é doce!»
  7. Esta pessoa não se cansa, mas as outras cansam-se rapidamente.
  8. Certas pessoa correm à frente de Deus, certas ao lado de Deus, outras seguem Deus.
  9. Aquelas que correm à frente de Deus são aquelas que seguem a sua vontade própria e não aquiescem à vontade de Deus, é absolutamente mal.
  10. As outras, que vão ao lado de Deus, dizem: «Senhor, eu não quero nada mais do que aquilo que tu queres.»
  11. Mas se elas estão doentes, elas desejam que a vontade de Deus seja a de lhes dar saúde; é aceitável.
  12. As terceiras seguem Deus: onde Ele quer ir, elas seguem-no de bom grado e estas são perfeitas.
  13. É delas que São João diz no Livro das Revelações que elas seguem o Cordeiro para todo o lado onde ele vai.
  14. Estas pessoas seguem Deus, onde quer que Ele as conduza: aos dias de doença e à saúde, à felicidade e à infelicidade.
  15. São Pedro caminhava diante de Deus, então Nosso Senhor disse-lhe: «Pára, demónio!»
  16. Igualmente, Deus está na alma e a alma está em Deus. 1

Notas
  1. Como ele faz por vezes para instruir e talvez para distender os seus auditores, Eckhart conta-lhes uma história.

    É questão de uma pessoa boa a quem pedem porque é que tanto ela sente devoção e tanto ela não sente. Resposta do interpelado: o cão que farejou a lebre corre no seu rasto, os outros vêm-no correr e correm também, mas rapidamente eles se cansam e param. Apenas o cão que teve a sensação da presa continua a perseguição. Igualmente, aquele que alguma vez conheceu a doçura de Deus não pára e continua a segui-lo.

    Mestre Eckhart distingue três tipos de pessoas. Umas correm à frente de Deus: aquelas que seguem a sua vontade própria, e é mal. As outras correm ao lado de Deus. Elas dizem: «Eu só quero aquilo que tu queres», mas se elas estão doentes, por exemplo, elas desejam que a vontade de Deus seja restituir-lhes a saúde. Eckhart julga-as sem severidade, conhecendo a natureza humana: «é aceitável». As outras seguem o Cordeiro para toda a parte onde ele vai, como diz São João, na doença e na saúde, na felicidade e na infelicidade, e são as perfeitas. É um pensamento caro a Eckhart que nós reencontramos constantemente, tanto nas suas obras alemãs como nas suas obras latinas. [  ]


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Mestre Eckhart – Daniel o profeta diz: nós te seguimos 9


  1. Ora ele diz: «Nós procuramos o teu rosto».
  2. Verdade e bondade são uma veste de Deus.
  3. Deus está acima de tudo o que nós podemos exprimir em palavras.
  4. O conhecimento procura Deus e apreende-o na sua raiz de onde emanam o Filho e toda a Divindade, mas a vontade fica no exterior e liga-se à bondade, porque a bondade é uma veste de Deus.
  5. Os anjos mais elevados apreendem Deus no seu vestiário antes dele ser revestido de bondade ou de qualquer outra coisa que se pode exprimir por palavras.
  6. É por isso que ele diz: «Nós procuramos o teu rosto», porque o rosto de Deus é o seu ser. 1
  7. Que Deus nos ajude a compreendê-lo e que estejamos prontos para possui-lo. Amém. 2

Notas
  1. «Nós procuramos o teu rosto.» Tal é o último membro da frase na citação do profeta Daniel no início do sermão. O conhecimento procura Deus e apreende-o na sua raiz de onde saiu o Filho, de onde saiu toda a Divindade, mas a vontade permanece no exterior e liga-se à bondade. Ora a verdade e a bondade são uma veste de Deus. Os anjos mais elevados aprendem-no no seu vestiário, antes que Ele se tenha revestido do que quer que seja que se possa exprimir com palavras. «Nós procuramos o teu rosto», porque o rosto de Deus é o seu ser. [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 189-196. [  ]


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Mestre Eckhart – Aquele que me serve



  1. Todos aqueles que querem seguir Deus devem deixar tudo aquilo que os pode impedir de ir a Deus
  2. É um fiel servidor aquele que, em todas as suas obras, não procura nada para além da honra de Deus
  3. É uma recompensa por demais grande, que todos aqueles que o servem, devam residir com Ele na união



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Mestre Eckhart – Aquele que me serve 1


Sermão 58 - Aquele que me serve
  1. Nosso Senhor Jesus Cristo pronunciou estas palavras: «Aquele que me serve, que ele me siga e onde eu estou, lá o meu servidor estará comigo.» (Jo 12, 26) 1
  2. Nestas palavras podem-se notar três coisas.
  3. A primeira, é que se deve seguir e servir Nosso Senhor visto que ele diz: «Aquele que me serve deve seguir-me».
  4. É por isso que estas palavras convêm a São Segundo, o qual significa «quem segue Deus», porque ele deixou por Deus os seus bens, e a sua vida, e todas as coisas.
  5. Da mesma maneira, todos aqueles que querem seguir Deus devem deixar tudo aquilo que os pode impedir de ir a Deus.
  6. Crisóstomo diz: é uma asserção penosa para aqueles que se voltaram para este mundo e para as coisas corporais, porque para esses é muito doce possui-las; difícil e amargo de as deixar.
  7. Com isto, pode-se notar quanto é penoso para certas gentes, que não conhecem nada das coisas espirituais, o deixarem todas as coisas corporais.
  8. Como eu disse frequentemente, porque é que as coisas doces não têm o mesmo sabor para a orelha do que para a boca?
  9. Porque ela não está constituída para esse efeito.
  10. É por isso que uma pessoa carnal ignora as coisas espirituais, porque ela não está preparada para isso.
  11. Pelo contrário, é fácil a uma pessoa judiciosa que conhece as coisas espirituais, o deixar todas as coisas corporais.
  12. São Dioniso diz que Deus oferece a baixo preço o seu reino celeste e nada é de valor tão pequeno como o reino celeste, tão baixo é o preço, e nada é tão nobre e nada satisfaz como possuí-lo quando ele é merecido.
  13. Diz-se que ele é de baixo valor porque cada um pode adquiri-lo pelo preço que pode pagar.
  14. É por isso que o ser humano deve dar tudo aquilo que tem em troca do reino celeste: a sua vontade própria.
  15. Enquanto ele ainda guardar o que quer que seja da sua vontade própria, ele não mereceu o reino celeste.
  16. Para aquele que se deixa a ele próprio e à sua vontade própria, é fácil deixar todas as coisas corporais.
  17. Como eu disse frequentemente: um mestre ensinava ao seu discípulo como é que ele devia chegar a conhecer as coisas espirituais.
  18. O discípulo disse: «Mestre, segundo o teu ensinamento, eu subi mais alto e eu sei que todas as coisas materiais são como um pequeno esquife que voga sobre o mar, e como um pássaro que voa no ar.»
  19. Porque todas as coisas espirituais estão elevadas acima das coisas materiais; quanto mais elas estão elevadas, mais elas se amplificam e abarcam as coisas materiais.
  20. É por isso que as coisas materiais são pequenas, comparadas com as coisas espirituais, e quanto mais as coisas espirituais são elevadas, mais elas são grandes, e quanto mais elas são poderosas nas suas obras, mais elas são puras no ser. 2
  21. Eu já disse frequentemente, e é certo, e é uma asserção verdadeira: se um ser humano estivesse a morrer de fome e se lhe oferecessem as melhores iguarias, ele preferiria morrer de fome do que prova-las ou que trancá-las se não estivesse lá uma figura de Deus.
  22. E se um ser humano estivesse a morrer de frio, quais quer que fossem as roupas que lhe oferecessem, ele não poderia deitar-lhes a mão nem as vestir se não estivesse nelas uma figura de Deus.
  23. Este é o primeiro ponto: como é que se deve deixar todas as coisas e seguir Deus. 3

Notas
  1. O texto deste sermão encontra-se no antigo missal dominicano para o Comum de um mártir. [  ]
  2. O desenvolvimento do sermão compõe-se de três partes. A primeira, é que se deve seguir e servir Nosso Senhor. Estas palavras aplicam-se perfeitamente a São Segundo. Este nome significa com efeito «que segue Deus».

    Os Acta Sanctorum conheciam vários "São Segundo", mártires. Entre eles, aquele cujo culto parece ter sido mais difundido foi perseguido e depois decapitado sob Adriano. A Lenda Dourada ignora os outros e consagra várias páginas a este. Jacques de Voragine, que escreveu no século 13, informa que a vila de Asti, onde ele foi martirizado, guarda a sua memória e honra-o como seu santo patrono. A sua festa era celebrada no dia 30 de Março.

    Segundo o seu exemplo, diz Eckhart, aqueles que querem seguir Deus devem deixar tudo o que os pode impedir de ir a Ele. É doce, para aqueles que estão voltados para o mundo, o possuírem as coisas corporais; pelo contrário, para aqueles que conhecem os bens espirituais, é fácil o deixarem todas as coisas materiais.

    O pregador cita uma frase de «São Dioniso»: Deus oferece a baixo preço o seu reino celeste, cada um obtêm-no pelo preço que pode pagar. O ser humano deve portanto dar tudo aquilo que tem em troca do reino celeste: a vontade própria. «Para aquele que se deixa a ele próprio e à sua vontade própria, é fácil deixar todas as coisas corporais.» Elas não têm mais peso do que um esquife que voga sobre o mar, ou um pássaro que voa no ar.

    As coisas espirituais são elevadas acima das coisas materiais e quanto mais elas são poderosas nas obras, mais elas são puras no ser. [  ]
  3. Nada tem sentido nem gosto para o ser humano se Deus não está aí presente de qualquer maneira: morrendo de fome, ele não tocaria nas melhores iguarias se ele não visse nelas uma figura de Deus. Morrendo de frio, ele não vestiria as melhores roupas se ele não visse nelas uma figura de Deus. Eckhart acrescenta: «Eu já disse frequentemente, é certo e é uma asserção verdadeira.» Nós não a conhecíamos até aqui. [  ]


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  1. O segundo ponto: de que maneira nós devemos seguir Nosso Senhor.
  2. Santo Agostinho diz: «Aquele é um fiel servidor que, em todas as suas obras, não procura nada para além da honra de Deus.»
  3. Monsenhor David diz também: «Deus é o meu Senhor, eu devo servi-lo» porque Ele serviu-me e em todo o seu serviço, Ele não tinha necessidade de mim a não ser para a minha própria utilidade, assim eu devo servi-lo em retorno e procurar a sua honra só.
  4. O que não fazem outros mestres: eles procuram o interesse próprio deles nos serviços deles, porque eles prestam-nos apenas para nos explorar.
  5. É por isso que nós não somos obrigados a prestar-lhes grandes serviços: a reciprocidade deve ser segundo a grandeza e a nobreza do serviço. 1

Notas
  1. Numa segunda parte, o pregador mostra como nós devemos servir Deus e não procurar nada senão a honra de Deus. E, diz «David»: «Deus é o meu Senhor, eu devo servi-lo, porque Ele serviu-me e em todo o seu serviço Ele não tinha necessidade de mim a não ser para a minha própria utilidade; assim eu devo servi-lo em retorno e procurar a sua honra só.»

    Uma passagem desta breve segunda parte reterá especialmente a nossa atenção. O pregador acaba portanto de falar do desinteresse com o qual nós devemos servir Deus, visto que Ele próprio só teve em vista a nossa própria utilidade.

    «O que não fazem outros mestres: eles procuram o seu interesse próprio nos seus serviços, visto que eles os prestam apenas para nos explorar. É por isso que nós não somos obrigados a prestar-lhes grandes serviços: a reciprocidade deve ser segundo a grandeza e a nobreza do serviço.» [  ]


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  1. O terceiro ponto: nós estaremos atentos a esta recompensa de que fala Nosso Senhor: «Onde eu estou, lá o meu servidor estará comigo.»
  2. Onde é a residência de Nosso Senhor Jesus Cristo?
  3. Na união com o Pai.
  4. É uma recompensa por demais grande, que todos aqueles que o servem, devam residir com Ele na união.
  5. É por isso que São Filipe diz, quando Nosso Senhor falou do seu Pai: «Senhor, mostra-nos o teu Pai, isso chega-nos.»
  6. Como se ele dissesse que vê-lo ser-lhe-ia suficiente.
  7. Mas nós teremos uma bem maior satisfação em residir com Ele.
  8. Quando Nosso Senhor foi transfigurado sobre a montanha, e deu um vislumbre da glória do céu, São Pedro também pediu a Nosso Senhor para ficar lá eternamente.
  9. Nós deveríamos ter um desejo infinitamente grande de união com o Nosso Senhor Deus.
  10. Deve-se reconhecer a união com o Nosso Senhor Deus por esta distinção: da mesma forma que Deus é três, nas suas Pessoas, Ele é um, na sua natureza.
  11. Deve-se compreender assim a união de Nosso Senhor Jesus Cristo com o Pai e com a alma.
  12. Da mesma forma que o branco e o preto são diferentes - um não se pode conciliar com o outro, o branco não é preto – é assim de qualquer coisa e de nada.
  13. «Nada» é aquilo que não pode receber nada de nada.
  14. «Qualquer coisa» é aquilo que pode receber qualquer coisa de qualquer coisa.
  15. É assim absolutamente em Deus.
  16. Tudo aquilo que é «qualquer coisa» está em Deus, absolutamente, lá nada falta.
  17. Quando a alma está unida a Deus, ela tem nele, em toda a sua perfeição, tudo aquilo que é qualquer coisa.
  18. A alma esquece-se lá dela própria tal qual ela é nela própria, e todas as coisas, ela reconhece-se divina em Deus enquanto Deus está nela, ela ama-se n'Ele como sendo divina e ela está unida a Ele sem distinção, por forma que ela não saboreia nada a não ser Ele, e encontra a sua alegria n'Ele.
  19. O que é que o ser humano quer desejar ou saber mais quando está assim feliz na união com Deus?
  20. É para esta união que Nosso Senhor criou o ser humano. 1
  21. Quando monsenhor Adão desobedeceu ao mandamento e foi expulso da Paraíso, Nosso Senhor colocou dois tipos de guardas diante do Paraíso: um anjo e uma espada de fogo de duplo corte.
  22. Isto significa dois meios pelos quais o ser humano deve regressar ao céu, do qual ele caiu.
  23. A primeira: pela natureza do anjo.
  24. São Dioniso diz que a natureza angélica significa a revelação da luz divina.
  25. Com os anjos, graças aos anjos, e pela luz, a alma deve tender de novo para Deus até que ela retorne à sua primeira origem.
  26. A segunda: pela espada de fogo, quer dizer que a alma deve regressar graças a obras boas e divinas realizadas no amor ardente por Deus e pelos outros cristãos. 2
  27. Que Deus nos ajude afim de que seja assim para todos. Amém. 3

Notas
  1. Terceiro ponto: « Onde eu estou, lá o meu servidor estará comigo.» A residência de Nosso Senhor é na união com o seu Pai. Esta recompensa é tão grande, parece demasiado grande a São Filipe, o que lhe faz dizer: «Senhor, mostra-nos o teu Pai, isso chega-nos.» Com efeito, como se essa visão pudesse ser suficiente para ele. Mas a nossa satisfação será bem maior em residir com Ele. Também, a quando da Transfiguração, São Pedro pediu a Nosso Senhor para ficar com Ele eternamente.

    Deus é três nas suas Pessoas e um na sua natureza, assim se deve compreender a união de Nosso Senhor com o seu Pai e com a alma. «Qualquer coisa» e «nada» opõem-se como o branco e o preto. Nada é aquilo que nada pode receber de nada; qualquer coisa é aquilo que recebe qualquer coisa de qualquer coisa... Tudo o que é qualquer coisa está em Deus, absolutamente. Assim, quando a alma está unida a Deus, ela tem n'Ele tudo o que é «qualquer coisa» em toda a sua perfeição e esquece o «nada», quer dizer ela própria e todas as criaturas. Eckhart passou aqui para o plano místico, no sentido pleno que se dá geralmente a este termo. Nós não leremos mais nitidamente, em Santa Teresa de Ávila, o estado da alma nesta união. É preciso insistir sobre toda esta passagem:

    «A alma esquece-se lá dela própria tal qual ela é nela própria, e todas as coisas, ela reconhece-se divina em Deus enquanto Deus está nela, ela ama-se n'Ele como sendo divina e ela está unida a Ele sem distinção, por forma que ela não saboreia nada a não ser Ele, e encontra a sua alegria n'Ele. O que é que o ser humano quer desejar ou saber mais quando está assim feliz na união com Deus? É para esta união que Nosso Senhor criou o ser humano.» [  ]
  2. O pregador evoca em seguida «monsenhor Adão» quando ele foi expulso do Paraíso. O anjo e a espada de duplo corte, colocados como guardas diante da entrada do Paraíso, significam duas coisas pelas quais o ser humano deve regressar ao céu. Uma é a natureza do anjo. Segundo São Dioniso, o anjo é a revelação da luz divina; pelos anjos, a alma deve tender para Deus para regressar à sua primeira origem. A espada de fogo simboliza as obras divinas que a alma deve realizar num amor ardente por Deus e pelos outros cristão. [  ]
  3. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 183-188. [  ]


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Mestre Eckhart – Vi a Cidade Santa, uma Nova Jerusalém



  1. Esta «cidade» designa a tua alma espiritual
  2. A paz faz com que as criaturas se inclinem e regressem para Deus
  3. A santidade é toda pureza, liberdade, perfeição
  4. Se o ser humano se quer tornar puro, que ele deixe as coisas terrestres
  5. Quando nós estamos unidos a Deus, nós tornamo-nos «novos»
  6. Nós devemos verdadeiramente amar as coisas que nos conduzem a Deus
  7. A luz divina aparece a cinco tipos de pessoas
  8. Aquele que quer conhecer Deus, e não está ornamentado com obras divinas, é rejeitado para o mal



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Mestre Eckhart – Vi a Cidade Santa, uma Nova Jerusalém 1


Sermão 57 - Vi a Cidade Santa, uma Nova Jerusalém
  1. Vi a Cidade Santa, uma Nova Jerusalém, descer do céu, desde junto de Deus. (Ap 21, 2) 1
  2. São João viu «uma cidade».
  3. Uma «cidade» designa duas coisas: uma, é que ela é fortificada, tão bem que ninguém a pode prejudicar, a outra, é a união entre os habitantes.
  4. Esta cidade não tinha casa de oração, Deus ele próprio era o templo.
  5. Lá não é precisa a luz do sol nem da lua: a claridade de Nosso Senhor ilumina-a. 2
  6. Esta «cidade» designa a tua alma espiritual, como diz São Paulo: a alma é um templo de Deus; ela é tão forte, diz Santo Agostinho, que ninguém a pode prejudicar, a não ser que ela se prejudique a si própria por malícia. 3

Notas
  1. Este texto é lido na epístola da festa da Dedicação.

    Reconhece-se, no estilo deste sermão, elementos especificamente eckhartianos que testemunham da sua autenticidade: antíteses, hipérboles, paralelos, comparações e exemplos numerosos.

    Reconhecemos aqui sobretudo citações escolhidas entre os autores favoritos do Mestre e a repetição, senão desenvolvimento, de alguns dos seus temas. [  ]
  2. Segundo o texto de São João, a alma é uma cidade: ela é fortificada, ninguém a pode prejudicar, os seus habitantes estão unidos. Ela não tem casa de oração: Deus ele próprio é o seu templo e Nosso Senhor a sua luz. [  ]
  3. Eckhart tinha-nos dito, no sermão 18, Jovem, digo-te: levanta-te..., «esta cidade é a alma... una e bem fortificada na salvação por Jesus, rodeada de muros e envolvida pela luz divina.»

    Para falar dela, ele cita aqui São Paulo – a alma é um templo de Deus – e Santo Agostinho: «Ninguém a pode prejudicar, a menos a que ela se prejudique a ela própria por malícia.» [  ]


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Mestre Eckhart – Vi a Cidade Santa, uma Nova Jerusalém 2


  1. Em primeiro lugar, é preciso notar a paz que deve estar na alma.
  2. É por isso que ela é chamada «Jerusalém».
  3. São Dinis diz: «a paz divina penetra, e ordena, e termina, todas as coisas, e se a paz não agisse assim, todas as coisas se diluiriam e não teriam ordem».
  4. Em segundo lugar, a paz faz com que as criaturas se derramem, e fluam no amor, e não para prejudicar.
  5. Em terceiro lugar, ela torna as criaturas serviçais umas para com as outras, por forma que cada uma seja um sustento para a outra.
  6. O que uma delas não consegue ter por si própria, ela recebe-o da outra.
  7. É por isso que uma criatura depende da outra.
  8. Em quarto lugar, ela faz com que as criaturas se inclinem e regressem para a primeira origem delas, quer dizer para Deus. 1

Notas
  1. Ela deve conhecer a paz, é por isso que ela se chama Jerusalém. Tal é a interpretação que Mestre Eckhart já tinha dado, deste nome, no sermão 13, Viu um cordeiro sobre o monte Sião.

    Esta paz ordena todas as coisas, ela faz com que as criaturas fluam no amor de Deus, serviçais umas para com as outras, e se inclinem para a primeira origem: Deus. [  ]


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Mestre Eckhart – Vi a Cidade Santa, uma Nova Jerusalém 3


  1. A segunda palavra que ele pronuncia, é que a cidade é «santa».
  2. São Dioniso diz que a santidade é toda pureza, liberdade, perfeição.
  3. A pureza, é que o ser humano se afaste dos pecados, o que torna a alma livre.
  4. A similitude é, no reino celeste, a felicidade, a alegria maior, e se Deus viesse à alma, e se ela não lhe fosse sensível, ela sentiria um tormento, porque São João diz: «aquele que peca é um escravo do pecado».
  5. Dos anjos e dos santos, nós podemos dizer que eles são perfeitos, mas dos santos não absolutamente, porque eles têm ainda amor aos seus corpos que repousam ainda na poeira, mas em Deus só está a perfeição total. 1
  6. Eu ficaria surpreendido se, sem ter contemplado em espírito, São João tivesse alguma vez ousado dizer que há três Pessoas, e como o Pai se dispersa com toda a sua perfeição na geração, quer dizer, no Filho, e com a sua bondade no derrame de amor, quer dizer no Espírito Santo. 1

Notas
  1. «A cidade é santa», diz São João. Para Dioniso, «santidade» significa pureza, liberdade, perfeição, seja afastamento do pecado, similitude com Deus que torna a alma capaz de o acolher na alegria.

    Os anjos e os santo são perfeitos, estes últimos com uma restrição que o pregador encontrou em Agostinho: eles têm ainda amor aos seus corpos reduzidos a poeira. Em Deus só, está toda a perfeição. [  ]
  2. Parece a Eckhart que São João não teria ousado falar de três Pessoas em Deus se ele não tivesse contemplado em espírito como é que o Pai comunica a sua própria perfeição pela geração que produz o Filho, e pelo derrame comum de amor que produz o Espírito Santo. [  ]


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Mestre Eckhart – Vi a Cidade Santa, uma Nova Jerusalém 4


  1. Em segundo lugar, «santidade» significa «aquilo que está subtraído à terra».
  2. Deus é «qualquer coisa» e um ser puro, e o pecado é nada e afasta de Deus.
  3. Deus criou os anjos e a alma a partir de «qualquer coisa», quer dizer, a partir de Deus.
  4. A alma é criada, por assim dizer, como que sob a sombra do anjo, no entanto ela e ele têm a mesma natureza, e todas as coisas materiais são criadas do nada e longe de Deus. 1
  5. É por isso que, quando a alma flui para dentro do corpo, ela fica obscurecida e deve ser levada para o alto com o corpo, para Deus.
  6. Quando a alma é desobstruída das coisas criadas, ela é «santa».
  7. Zaqueu, enquanto estava no chão, não conseguia ver Nosso Senhor.
  8. Santo Agostinho diz: «Se o ser humano se quer tornar puro, que ele deixe as coisas terrestres».
  9. Eu aliás já o disse frequentemente: a alma não se pode tornar pura a menos que ela retorne à sua pureza primeira, tal qual Deus a criou.
  10. Da mesma forma que não se pode fazer ouro com cobre se não o fundirmos duas ou três vezes para o fazer retornar à sua natureza primeira, porque todas as coisas que o calor faz fundir, ou que o frio endurece, são totalmente da natureza da água.
  11. É por isso que elas devem ser de novo totalmente reduzidas à água e totalmente privadas da natureza na qual elas se encontram agora; assim, se o céu e a arte ajudarem, contribuem para que ele (o cobre) seja totalmente transformado em ouro.
  12. Compara-se voluntariamente o ferro à prata e o cobre ao ouro, mas quanto mais eles são identificados um ao outro, sem os privar da natureza deles, mais nos enganamos.
  13. O mesmo se passa com a alma.
  14. É fácil pretender ter virtudes ou falar delas, enquanto que é muito raro possui-las. 2

Notas
  1. «Santidade» significa também «aquilo que está subtraído à terra. Para designar Deus, Eckhart emprega habitualmente a palavra «ser». Neste sermão também, ele chama a Deus «ser puro», mas também «qualquer coisa» oposto a «nada», pelo qual ele designa aqui o pecado, e tantas vezes também, as criaturas.

    É por isso que ele nos disse no sermão 24, São Paulo diz, que Deus criou todas as coisas materiais a partir da imagem que Ele tem nele e não a partir dele próprio; ele repete-nos aqui que Ele criou os anjos e a alma a partir de «qualquer coisa», quer dizer a partir dele próprio, Deus. [  ]
  2. Pela sua união com o corpo, a alma fica obscurecida. Apenas quando ela se desobstrui das coisas criadas, ela é levada com o corpo para Deus, «regressada à sua pureza primeira, tal qual Deus a tinha criado».

    Zaqueu não conseguia ver Nosso Senhor enquanto estava no chão. Da mesma forma os metais têm que ser fundidos duas ou três vezes, regressar à natureza da água, da qual eles saíram, para serem transformados em ouro, desde que o céu e a arte lhes adicionem os seus efeitos. (Esta noção da mutação dos metais era corrente na Idade Média.) [  ]


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Mestre Eckhart – Vi a Cidade Santa, uma Nova Jerusalém 5


  1. Em terceiro lugar, ele diz que esta cidade é «nova».
  2. É novo aquilo que não é exercido ou que está próximo do seu começo.
  3. Deus é o nosso começo.
  4. Quando nós estamos unidos a Ele, nós tornamo-nos «novos».
  5. Certas pessoas imaginam tolamente que Deus fez ou guardou eternamente nele próprio as coisas que nós vemos agora e que Ele projeta no tempo, mas nós devemos considerar as obras divinas como sendo expontâneas (fora do tempo) assim como eu vos vou dizer.
  6. Eu agora estou aqui, e se eu estivesse estado aqui há trinta anos, e se o meu rosto estivesse descoberto, e se ninguém o tivesse visto, no entanto eu teria estado aqui.
  7. Se tivessem preparado um espelho e o tivessem colocado diante de mim, o meu rosto projetar-se-ia nele e desenhar-se-ia nele sem esforço da minha parte, e se isso se tivesse produzido ontem, seria novo, e hoje também, seria também mais novo, e assim daqui por trinta anos ou eternamente, seria eternamente novo; e se existissem mil espelhos, isso produzir-se-ia sem esforço da minha parte.
  8. Igualmente, Deus tem eternamente nele todas as imagens, não enquanto alma ou uma outra criatura, mas enquanto Deus; nele nada é novo nem imagem, mas como eu disse do espelho, em nós há o novo e o eterno em conjunto. 1

Notas
  1. Segue-se uma passagem difícil, mesmo contraditória nos termos. Talvez Eckhart se tenha querido opor àqueles que acreditam na eternidade do mundo. O editor alemão cita a este propósito um texto do tratado Do Desprendimento onde Eckhart se exprime mais claramente graças a citações de Agostinho (Da Trindade) e de Isidoro de Sevilha. Isidoro fala no mesmo sentido no livro Do Bem Supremo: «Muitas gentes perguntam o que fazia Deus antes de criar o céu e a terra, ou antes quando é que Deus teve a vontade nova de formar as criaturas?» e ele responde assim: «Nunca houve em Deus uma vontade nova, porque apesar de a criatura não tivesse sido em si própria tal como ela é agora, ela estava eternamente em Deus e no intelecto de Deus. Deus não criou o céu e a terra como nós dizemos no tempo: "que assim seja!" porque todas as criaturas são expressas no Verbo eterno.»

    Deus possui nele todas as coisas novas, as ideias ou arquétipos eternos, aquilo a que Mestre Eckhart chama as «imagens» fora do tempo, e não as cria no tempo segundo um novo ato da sua vontade mas espontaneamente, sem esforço, da mesma forma que sem esforço da minha parte, a minha imagem se refletiria num espelho ou em mil.

    Deus tem eternamente nele todas as imagens, ao mesmo tempo nós lemos que nele nada é novo nem imagem. A contradição é só aparente nos termos, ela não é no pensamento do pregador. Deus tem nele todas as imagens, quer dizer as «ideias», os «arquétipos» das coisas, não enquanto que alma ou uma outra criatura na existência separada dela, mas enquanto que Deus. É um lugar comum da escolástica que «aquilo que está em Deus é Deus». Eckhart ele próprio disse-o duas vezes no sermão 3, Agora sei verdadeiramente, e igualmente várias vezes nas suas obras latinas. Aqui mesmo: «Nele nada é novo nem imagem, mas como eu disse do espelho, para nós "novo" e "eterno" existem ambos.» Portanto há «imagens» em Deus no sentido de modelos ou «ideias», não no sentido de um reflexo ou de uma representação. [  ]


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Mestre Eckhart – Vi a Cidade Santa, uma Nova Jerusalém 6


  1. Quando o corpo está pronto, Deus transfunde nele a alma, e ele forma-a segundo o corpo; ela tem uma semelhança com ele e, por causa dessa semelhança, tem amor por ele.
  2. É por isso que não há ninguém que não se ame a si próprio; aqueles que imaginam que não se amam a eles próprios, enganam-se a eles próprios, teriam que se odiar e não poderiam subsistir.
  3. Nós devemos verdadeiramente amar as coisas que nos conduzem a Deus; não há amor sem o amor de Deus.
  4. Se eu tenho o desejo de atravessar o mar, e se eu quero um barco unicamente para viajar sobre o mar, quando eu o tiver atravessado, eu não tenho mais necessidade do barco.
  5. Platão diz: o que é Deus, eu não sei – ele quer dizer: todo o tempo que a alma está encerrada no corpo, ela não pode conhecer Deus -, mas aquilo que Ele não é, eu sei-o bem, como se pode notar pelo sol do qual ninguém pode suportar o brilho se ele antes não foi absorvido pelo ar e assim difundido sobre a terra.
  6. São Dioniso diz: «Quando a luz divina brilha em mim, ela tem que ser velada, tal como a minha alma está velada.» 1

Notas
  1. Deus transfunde a alma dentro do corpo quando este está pronto, ele forma-a segundo o corpo (ideia original!): devido a esta semelhança, a alma tem amor por ele, o que faz com que ninguém sem ilusão pretenda odiar-se a si próprio.

    Nós devemos amar as coisas que nos conduzem a Deus, «não há amor sem o amor de Deus».

    Se eu tenho o desejo de ter um barco para navegar pelo mar, uma vez que eu tenha atravessado o mar, eu não tenho mais necessidade do barco. Assim a alma, quando ela estiver em Deus, não terá mais necessidade do corpo que lhe permite aqui em baixo receber a luz divina.

    «Platão diz: o que é Deus, eu não sei (ele quer dizer: todo o tempo que a alma está ligada ao corpo, ela não pode saber o que é Deus), mas aquilo que Ele não é, eu sei.» Se o sol não estivesse rodeado pelo ar, ninguém poderia suportar o seu brilho. Igualmente, a luz divina deve ser velada ao corpo para poder brilhar nele, como diz São Dioniso. [  ]


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Mestre Eckhart – Vi a Cidade Santa, uma Nova Jerusalém 7


  1. Ele diz também: a luz divina aparece a cinco tipos de pessoas.
  2. As primeiras não a acolhem. Elas são como os animais, inaptos para a acolherem, como se pode notar por uma comparação: se eu me aproximasse de uma água que esteja agitada ou turva, eu não poderia aí ver o meu rosto porque ela não estaria plana.
  3. Às segundas, um pouco de luz aparece como a faísca de uma espada numa forja.
  4. As terceiras recebem mais dela, como um relâmpago luminoso que rapidamente se extingue; são todas aquelas que recaem da luz divina no pecado.
  5. As quartas recebem ainda mais dela, mas por vezes Deus retira-se sem outra razão que a de as estimular e de amplificar o desejo delas.
  6. É certo: se alguém quisesse encher o avental de cada um de nós, cada um de nós avançaria o seu avental para poder receber muito.
  7. Agostinho diz: «Que aquele que quer receber muito, amplifique o seu desejo.»
  8. As quintas recebem uma grande luz, como em pleno dia, e no entanto ela só é produzida por uma fenda.
  9. A alma fala dela no Livro do Amor: «O meu bem amado viu-me por uma fenda; o seu rosto era encantador.»
  10. Santo Agostinho diz também: «Senhor, tu dás por vezes uma tão grande doçura que se ela fosse perfeita e não fosse o reino celeste, eu não sei o que é o reino celeste.» 1

Notas
  1. São Dioniso diz também que se podem distinguir cinco tipos de pessoas segundo a capacidade delas para acolherem a luz divina. As comparações são bastante sugestivas, por vezes inesperadas.

    Umas, semelhantes aos animais, não a recebem, da mesma forma que uma água agitada não pode refletir o meu rosto. Nas segundas, a luz divina é fugitiva, como a faísca de uma espada que forjamos. Para as terceiras, ela assemelha-se a um relâmpago luminoso e rapidamente se extingue: elas recaem imediatamente no pecado. Acontece que, nas quartas, que recebem mais, Deus se retira para intensificar o desejo delas. Uma citação de Agostinho - «que aquele que quer receber muito, amplifique o seu desejo» - é traduzida por uma comparação pitoresca: se alguém quisesse receber muito, abriria muito o seu avental. As quintas beneficiam de uma grande luz; no entanto, segundo a citação do Cântico, ela só lhes aparece por uma fenda.

    Um outro texto de Santo Agostinho deixa entrever uma nova perspectiva mística: «Senhor, tu dás por vezes uma tão grande doçura que se ela fosse perfeita e não fosse o reino celeste, eu não sei o que é o reino celeste.» [  ]


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Mestre Eckhart – Vi a Cidade Santa, uma Nova Jerusalém 8


  1. Um mestre diz: aquele que quer conhecer Deus, e não está ornamentado com obras divinas, é rejeitado para o mal.
  2. Mas não existe um meio para que se conheça perfeitamente Deus?
  3. – Sim, a alma fala nisso no Livro do Amor: «O meu bem amado viu-me por uma janela» - quer dizer sem obstáculos - «e eu vi-o, ele estava perto da parede» - quer dizer perto do corpo que é perecível – e ele diz: «abre-me, minha amiga!» - quer dizer ela é absolutamente minha no amor, porque «ele é meu e eu sou dele»; «minha pomba» - quer dizer simples no desejo -, «minha bela» - quer dizer nas obras - «levanta-te depressa e vem para mim! A frieza passou», pela qual todas as coisas morrem, e igualmente todas as coisas revivem no calor.
  4. «A chuva cessou» - é a voluptuosidade das coisas efémeras.
  5. «As flores abriram no nosso país»: as flores são o fruto da vida eterna.
  6. «Foge, vento do norte!» que secas – com isto, Deus ordena à tentação para não fazer mais obstáculo à alma.
  7. «Vem, vento do sul e sopra através do meu jardim para que emanem os meus perfumes»; aí, Deus ordena a todas as perfeições que penetrem na alma. 1 2

Notas
  1. Para terminar o sermão, Eckhart multiplica as citações do Cântico e interpreta cada palavra desse monólogo da alma: «Vem, vento do sul, e sopra através do meu jardim para que emanem os seus perfumes.» Com isto, Deus ordena à tentação para nunca mais criar obstáculos, e a todas as perfeições para penetrarem dentro da alma. [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 175-182. [  ]


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Mestre Eckhart – Maria estava em pé junto ao túmulo e chorava



  1. O amor fez com que ela estivesse em pé, o sofrimento fez com que ela chorasse
  2. Se a alma soubesse quando Deus penetra nela, ela morreria de alegria, e se ela soubesse quando Ele a deixa, ela morreria de dor
  3. Maria procurava Deus só, é por isso que ela o encontrou, e ela não desejava nada mais do que Deus



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Maria estava em pé junto ao túmulo e chorava 1


Sermão 56 - Maria estava em pé junto ao túmulo e chorava
  1. Maria estava em pé junto ao túmulo e chorava. (Jo 20, 11)
  2. É uma maravilha que ela tenha podido chorar, tanto ela estava triste.
  3. O amor fez com que ela estivesse em pé, o sofrimento fez com que ela chorasse.
  4. Então ela avançou e olhou para dentro do túmulo.
  5. Ela procurava um homem morto e encontrou dois anjos vivos.
  6. Orígenes diz: Ela estava em pé.
  7. Porque é que ela estava em pé quando os apóstolos tinham fugido?
  8. - Ela não tinha nada a perder, tudo aquilo que ela possuía, ela tinha perdido com ele.
  9. Quando ele morreu, ela morreu com ele.
  10. Quando o enterraram, enterraram a sua alma com ele.
  11. É por isso que ela não tinha nada a perder. 1

Notas
  1. Nós reencontramos neste fragmento alguns dos temas encontrados no sermão precedente, em relação direta com o texto do Pseudo-Orígenes.

    Mas enquanto que antes o pregador se tinha limitado, como o «mestre» no qual ele se inspirou, ao comentário do acontecimento evangélico, procurando apenas explicar-se e explicar-nos a atitude e os sentimentos de Maria Madalena, ele retira neste fragmento uma conclusão espiritual: o nível do inconsciente em que Deus age no ser humano. [  ]


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Mestre Eckhart – Maria estava em pé junto ao túmulo e chorava 2


  1. Ela avançou, então ela encontrou-o.
  2. Ela pensou que era um jardineiro, e disse: «Onde é que tu o puseste?»
  3. Ela estava de tal forma preocupada com ele que ela só fixou uma das suas palavras 1: «Onde é que tu o puseste?» Foi o que ela lhe disse.
  4. Em seguida ele revelou-se, pouco a pouco, a ela.
  5. Se ele se tivesse revelado rapidamente a ela, quando ela sentia um tal desejo, ela teria morrido de alegria.
  6. Se a alma soubesse quando Deus penetra nela, ela morreria de alegria, e se ela soubesse quando Ele a deixa, ela morreria de dor.
  7. Ela não sabe, nem quando Ele vem, nem quando Ele vai; sem dúvida ela pressente quando Ele está junto dela.
  8. Um mestre diz: A sua vinda e a sua partida estão escondidas.
  9. A sua presença não está escondida, porque é uma luz, e a natureza da luz é a de se manifestar. 2

Notas
  1. Texto defeituoso. [  ]
  2. Se Cristo se tivesse revelado a Maria Madalena rapidamente, ela teria morrido de alegria. Seria o mesmo para a alma se ela soubesse quando Deus penetra nela, e ela morreria de dor se soubesse quando Ele a deixa. [  ]


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Mestre Eckhart – Maria estava em pé junto ao túmulo e chorava 3


  1. Maria procurava Deus só, é por isso que ela o encontrou, e ela não desejava nada mais do que Deus.
  2. Para a alma que procura Deus, todas as criaturas devem ser um tormento.
  3. É para ela um tormento ver os anjos.
  4. Igualmente, para a alma que procura Deus, todas as coisas devem ser como um nada.
  5. Para que a alma encontre Deus, ela deve possuir seis coisas.
  6. A primeira, é que aquilo que lhe parecia suave anteriormente se lhe torne amargo.
  7. A segunda, é que, em casa dela, a alma se sinta num espaço apertado, por forma que ela não possa permanecer em casa dela.
  8. A terceira, é que ela não deseja nada de Deus.
  9. A quarta, é que ninguém outro para além de Deus a possa consolar.
  10. A quinta, é que ela não regresse às coisas fugitivas.
  11. A sexta, é que ela não tenha repouso interior antes que Ele lhe seja entregue. 1
  12. Rezemos... 2

Notas
  1. Maria Madalena só procurava Deus, foi por isso que ela o encontrou. Assim como foi para ela um tormento ver dois anjos em vez daquele que ela procurava, as criaturas são um tormento e como um nada para quem só procura Deus.

    Segue-se uma breve enumeração daquilo que é exigido à alma para que ela encontre Deus. [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 173-174. [  ]


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Mestre Eckhart – Maria Madalena foi ao túmulo



  1. Maria Madalena foi ao túmulo e procurou Nosso Senhor Jesus Cristo
  2. Ela tinha a esperança de que qualquer coisa de Deus tivesse ficado dentro do túmulo
  3. Quanto mais o ser humano está mergulhado no fundo da verdadeira humildade, mais ele está mergulhado no fundo do ser divino
  4. Se ela amou o teu corpo, ela sabia muito bem que a Divindade estava presente nele
  5. É próprio de Deus que nada seja semelhante a Ele



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Mestre Eckhart – Maria Madalena foi ao túmulo 1


Sermão 55 - Maria Madalena foi ao túmulo
  1. Maria Madalena foi ao túmulo e procurou Nosso Senhor Jesus Cristo, ela avançou e olhou para o interior.
  2. Ela viu dois anjos junto do túmulo e eles disseram: «Mulher, que procuras tu? - Jesus de Nazaré. - Ele ressuscitou, ele não está aqui.» E ela calou-se e não lhes respondeu.
  3. Ela olhou para trás, e para diante, e por cima do seu ombro, e viu Jesus e ele disse: «Mulher, que procuras tu? - Ó Senhor, se tu o levaste, mostra-me onde tu o puseste; eu quero levá-lo.»
  4. E ele disse: «Maria!» E porque ela tinha escutado frequentemente esta palavra ternamente dita por ele, ela reconheceu-o, caiu aos seus pés e quis tocá-lo. Ele deu um passo atrás e disse: «Não me toques! Eu ainda não fui para o meu Pai.» (Jo 20, Mc 16) 1

Notas
  1. Este texto é retirado do evangelho da Sexta Feira Santa.

    Noutros locais também, Eckhart comentou estas diferentes passagens de João e de Marco sobre o mesmo assunto, nomeadamente no seu Comentário sobre São João.

    Como aqui, ele utilizou uma homilia do Pseudo-Orígenes e uma outra de São Gregório sobre o mesmo assunto. Pode-se constatar que se Eckhart permaneceu fiel às suas fontes, ele não as seguiu servilmente. [  ]


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Mestre Eckhart – Maria Madalena foi ao túmulo 2


  1. Porque diz ele: «Eu ainda não fui ao meu Pai»?
  2. No entanto ele nunca deixou o Pai.
  3. Ele queria dizer: «Eu ainda não verdadeiramente ressuscitei em ti.»
  4. Porque é que ela diz: «Mostra-me para onde é que tu o levaste, eu quero ir buscá-lo»?
  5. Se ele o tivesse levado para a casa do juiz, ela também teria lá ido buscá-lo?
  6. Sim, diz um mestre, ela teria ido buscá-lo ao castelo do juiz.
  7. Ora poder-se-ia perguntar porque é que ela se aproximou tanto dele apesar dela ser uma mulher, e que aqueles que eram homens - um que amava Deus (Pedro), o outro que era amado por Deus (João) - tinham medo?
  8. E o mesmo mestre diz: «A razão é que ela não tinha nada a perder, porque ela era dele e, sendo dele, ela não tinha medo.» 1
  9. Como se eu tivesse dado a minha capa a um qualquer e que um outro lha quisesse tirar, eu não podia impedi-lo porque ela pertenceria ao primeiro, assim como eu o disse frequentemente. 2
  10. Ela não tinha medo por três razões.
  11. A primeira, é porque ela era dele.
  12. A segunda, é porque ela estava tão longe da porta dos sentidos e no interior dela própria.
  13. A terceira, é porque o coração dela estava com ele. Lá onde ele estava, lá estava o coração dela.
  14. É por isso que ela não tinha medo.
  15. A segunda razão pela qual ela estava tão perto dele, diz o mesmo mestre, é porque ela desejava que a viessem matar: porque, viva, ela não podia em nenhuma parte encontrar Deus, a sua alma ao menos encontraria Deus nalguma parte.
  16. A terceira razão porque ela estava tão perto, é que se eles tivessem vindo e a tivessem matado - ela sabia bem que ninguém podia chegar ao reino do céu antes que Cristo lá tivesse ele próprio subido, e era bem preciso que a sua alma tivesse um apoio em qualquer parte - então ela desejava que a sua alma estivesse com ele no túmulo, e o seu corpo perto do túmulo: a sua alma no interior e o seu corpo muito perto, porque ela tinha a esperança de que Deus tendo feito uma erupção na humanidade, qualquer coisa de Deus tivesse ficado dentro do túmulo.
  17. Da mesma forma que se eu tivesse tido um certo tempo uma maçã na minha mão, quando eu a retirasse, aí ficasse qualquer coisa dela, como um perfume.
  18. Igualmente, ela tinha a esperança de que qualquer coisa de Deus tivesse ficado dentro do túmulo. 3
  19. Eis a quarta razão pela qual ela ficou tão perto do túmulo: porque ela tinha perdido Deus duas vezes: vivo na cruz e morto no túmulo, ela temia que afastando-se do túmulo, ela perdesse também o túmulo, porque se ela tivesse perdido também o túmulo, não lhe teria ficado absolutamente mais nada. 4

Notas
  1. Ele espanta-se, junto como esses «mestres», que uma mulher tenha tido a coragem de ir até ao túmulo, e tenha manifestado uma maior coragem ainda, enquanto que os homens tinham fugido: um que amava Deus - Pedro -, o outro que era amado por Deus - João -. Com efeito, ela não tinha nada a perder, tendo-se entregue a ele. [  ]
  2. Aqui encontramos uma comparação com a capa (ou o capuz?) dada a um terceiro, do qual Eckhart nos diz que frequentemente citou, mas que nós ainda não encontramos. [  ]
  3. Uma outra razão pela qual ela permaneceu tão perto do túmulo, é porque ela desejava que os inimigos venham e a matem: não podendo, viva, encontrar Cristo, a sua alma pelo menos encontraria Deus em qualquer parte.

    Tendo necessidade de um suporte, ela desejava que a sua alma estivesse com ele no túmulo e o seu corpo perto do túmulo, «porque ela tinha a esperança de que tendo Deus feito erupção na humanidade, qualquer coisa de Deus teria ficado no túmulo». [  ]
  4. Por outro lado: tendo perdido Deus duas vezes, vivo na cruz e morto no túmulo, ela pensava que, afastando-se, ela poderia perder também o túmulo. [  ]


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Mestre Eckhart – Maria Madalena foi ao túmulo 3


  1. Ora poder-se-ia perguntar porque é que ela estava em pé e não sentada.
  2. Ela estaria no entanto tão próxima dele sentada como em pé.
  3. Certos pensam que eles estavam afastados num campo vasto e plano onde nada fazia obstáculo à vista deles, eles veriam igualmente longe quer sentados quer em pé.
  4. Mas o que quer que eles pensem, não é assim.
  5. Maria estava em pé afim de ver tão longe quanto possível em volta dela se Deus não estava escondido sob qualquer sarça onde ela o iria procurar.
  6. A segunda razão: ela estava nela própria de tal forma estendida para Deus com todas as suas potências quanto ela o estava também exteriormente.
  7. A terceira razão: ela estava de tal forma submergida pelo sofrimento. 1
  8. Acontece que certos, quando morre o seu querido superior, sejam de tal forma submergidos pelo sofrimento que eles não se conseguem aguentar em pé e têm que permanecer sentados.
  9. Mas como o seu sofrimento tinha Deus por causa e o seu fervor por base, não era necessário para ela. 2
  10. A quarta razão pela qual ela estava em pé: se ela visse Deus em qualquer lugar, ela poderia mais rapidamente apreendê-lo.
  11. Aconteceu-me dizer que uma pessoa em pé era mais acolhedora para Deus, mas eu agora digo de outra maneira: sentados numa verdadeira humildade, recebemos mais do que em pé; eu disse também, anteontem, que o céu não pode operar em nenhuma parte melhor que no fundo da terra, igualmente Deus não pode operar em nenhuma parte melhor do que no fundo da humildade, porque quanto mais a humildade é profunda, melhor ela acolhe Deus.
  12. Os nossos mestres dizem: se pegássemos num recipiente e o enterrássemos na terra, ele poderia receber mais (chuva) do que se ele estivesse em cima da terra; por pouco que fosse, por forma que se possa com dificuldade ver, seria no entanto qualquer coisa mais.
  13. Quanto mais o ser humano está mergulhado no fundo da verdadeira humildade, mais ele está mergulhado no fundo do ser divino. 3

Notas
  1. Eckhart questiona-se em seguida porque é que Maria Madalena estava em pé, não sentada. Certos pensam que, num campo vasto e plano, se pode ver tão longe sentado quanto em pé, mas não é assim. Eckhart encontra de novo razões para esta atitude:

    Ela esperava que se Jesus estivesse escondido debaixo de qualquer sarça, ela o descobriria melhor assim. Ela estava em si própria de tal forma estendida para Deus que ela estava-o também exteriormente. [  ]
  2. O pregador introduz aqui uma consideração muito pessoal que a experiência lhe parece ter ditado: quando certos religiosos perdem «o seu querido superior», eles sentem um sofrimento tão grande que eles são obrigados a ficarem sentados.

    Não era assim com Maria Madalena, porque o seu sofrimento tinha Deus por causa e a sua firmeza por base. [  ]
  3. Eckhart interrompe agora a sua exposição sobre Maria Madalena para apresentar um desenvolvimento que não tem relação direta com aquilo que precede.

    Aconteceu-lhe dizer, explica ele, que uma pessoa em pé é mais acolhedora para Deus. Ele hoje fala de maneira diferente: sentados numa verdadeira humildade, recebe-se mais do que em pé.

    Ele refere-se também a uma frase que disse «anteontem»: o céu não pode operar em nenhuma parte melhor do que no fundo da terra; igualmente Deus não pode operar melhor do que no fundo da humildade: assim, um recipiente que se enterra na terra, mesmo sendo pouco, pode receber mais chuva que se estivesse colocado sobre a terra. [  ]


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Mestre Eckhart – Maria Madalena foi ao túmulo 4


  1. Um mestre diz: Senhor, qual é a tua intenção ao te afastares tanto tempo desta mulher, de que é que ela se fez culpada, ou o que é que ela fez?
  2. Depois daquela vez em que tu lhe perdoaste os seus pecados, ela não fez nada mais do que amar-te.
  3. Se ela cometeu alguma falta, perdoa-lha na tua bondade.
  4. Se ela amou o teu corpo, ela sabia muito bem que a Divindade estava presente nele.
  5. Senhor, eu apelo à tua verdade divina: tu disseste que tu não te afastarias nunca dela.
  6. Tu tens razão porque tu nunca saíste do coração dela, e tu disseste que aquele que te ama, tu o amarias de volta, e que àquele que se levanta cedo, tu aparecerias.
  7. Ora São Jorge diz: Se Deus fosse mortal, e se Ele se tivesse afastado tanto tempo dela, o coração dela ter-se-ia completamente despedaçado. 1

Notas
  1. Depois da digressão anterior, Eckhart regressa a Maria Madalena.

    Seguindo sempre o Pseudo-Orígenes, ele interpela diretamente Cristo: porque é que ele se comporta tão duramente com relação a esta mulher? Ela não fez nada mais que amá-lo. «Se ela amou o teu corpo, ela sabia muito bem que a Divindade estava presente nele...» [  ]


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Mestre Eckhart – Maria Madalena foi ao túmulo 5


  1. Ora pode-se também perguntar porque é que ela não viu Nosso Senhor apesar de ele estar tão perto dela?
  2. Pode acontecer que os seus olhos tenham sido obscurecidos pelas lágrimas, por forma que ela não o pudesse ver imediatamente.
  3. Talvez também que o amor a tivesse cegado, e que ela não acreditasse que ele estivesse tão próximo dela.
  4. Terceira razão: ela olhava constantemente para mais longe do que ele estava dela, era por isso que ela não o via.
  5. Ela procurava um único corpo morto, e encontrou dois anjos vivos.
  6. «Anjo» quer dizer «mensageiro», e «mensageiro»: aquele que é enviado.
  7. Ora nós encontramos bem que o Filho é enviado, e que o Espírito Santo também é enviado, mas eles são idênticos; é próprio de Deus, diz um mestre, que nada seja semelhante a Ele.
  8. Ela procurava o que era semelhante, e encontrou a dissemelhança: um anjo estava à cabeça, o outro aos pés.
  9. Este mestre diz: é próprio de Deus ser um.
  10. Porque ela procurava um e encontrou dois, ela não podia ser consolada, assim como eu disse frequentemente.
  11. Nosso Senhor disse: «A vida eterna, é que eles te conheçam, um único verdadeiro Deus». 1
  12. Que Deus nos ajude para que nós o procuremos e encontremos também. Amém. 2

Notas
  1. Pode-se também perguntar porque é que ela não viu logo Cristo, apesar de ele estar tão perto dela.

    Talvez os seus olhos estivessem obscurecidos pelas lágrimas. Ou o amor a tivesse cegado. Ou ela estava a olhar para muito longe. « Porque ela procurava um e encontrou dois...» (os dois anjos assinalados por João), era por isso que ela não podia ser consolada.

    Este sermão termina com um texto que foi o objeto dos dois sermões precedentes: «A vida eterna, é que eles te conheçam, "um" único verdadeiro Deus». [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 168-172. [  ]


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