Mestre Eckhart – O Senhor estendeu a sua mão



  1. Deus é uma palavra, uma palavra inexpressa
  2. O Pai é uma operação que se exprime e o Filho é uma Palavra que opera
  3. É desprezível o ser humano que não se eleva acima do humano
  4. Nós não conseguimos encontrar nenhum nome que nós possamos dar a Deus
  5. Todas as criaturas são uma palavra de Deus
  6. Tu deves morrer a todas as coisas, e a imagem em ti deve reunir-se com aquilo da qual ela é a imagem na altura, onde nós residimos no Espírito Santo



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Mestre Eckhart – O Senhor estendeu a sua mão 1


Sermão 53 - O Senhor estendeu a sua mão
  1. O Senhor estendeu a sua mão, tocou na minha boca e disse... (Jr 1, 9-10) 1
  2. Quando eu prego, eu tenho o costume de falar do desprendimento e de dizer que o ser humano deve ser desprendido dele próprio e de todas as coisas.
  3. Em segundo lugar, que devemos ser reintroduzidos no Bem simples que é Deus.
  4. Em terceiro lugar, que nos recordemos da grande nobreza que Deus colocou na nossa alma afim de que o ser humano chegue assim maravilhosamente até Deus.
  5. Em quarto lugar, eu falo da pureza da natureza divina - de quanta claridade tem a natureza divina, é inexprimível.
  6. Deus é uma palavra, uma palavra inexpressa. 2

Notas
  1. O texto deste sermão é retirado à epístola para a vigília de São João Batista (23 de junho). [  ]
  2. No início, Eckhart resume os temas principais da sua prédica em geral: o desprendimento, dito de outra forma, a obrigação do ser humano de se desprender dele próprio e de todas as coisas; de se inserir no bem simples que é Deus; de se recordar da sua grande nobreza afim de chegar até Deus.

    O enunciado do quarto tema - a pureza da natureza divina - desemboca no começo do sermão propriamente dito. [  ]


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Mestre Eckhart – O Senhor estendeu a sua mão 2


  1. Agostinho diz: «Toda a Escritura é vã. Se dizem que Deus é uma palavra, ele é expresso; se dizem que Deus é inexpresso, Ele é inexprimível.»
  2. E no entanto Ele é qualquer coisa; quem pode exprimir essa Palavra?
  3. Ninguém o faz, senão aquele que é essa Palavra.
  4. Deus é uma Palavra que se exprime a ela própria; onde Deus está, Ele pronuncia essa Palavra; onde Deus não está, Ele não fala.
  5. Deus é expresso e Ele é inexpresso.
  6. O Pai é uma operação que se exprime e o Filho é uma Palavra que opera.
  7. Aquilo que está em mim sai de mim; se eu só o penso, a minha palavra revela-o e fica no entanto no interior.
  8. Igualmente, o Pai exprime o Filho inexpresso que permanece no entanto n'Ele.
  9. Eu já aliás o disse frequentemente: quando Deus sai d'Ele próprio, ele regressa a Ele próprio.
  10. Quanto mais eu estou próximo de Deus, mais Deus se exprime em mim.
  11. Quanto mais, as criaturas dotadas de intelecto, saem delas próprias nas suas obras, mais elas reentram nelas próprias.
  12. Não se passa assim com as criaturas corporais; quando mais elas agem, mais elas saem delas próprias.
  13. Todas as criaturas querem exprimir Deus em todas as suas obras; elas o exprimem todas tão aproximadamente quanto elas podem, elas não podem no entanto exprimi-lo.
  14. Quer elas queiram ou não queiram, quer elas se alegrem ou entristeçam: elas querem todas exprimir Deus e Ele permanece no entanto inexpresso. 1

Notas
  1. Toda a Escritura é vã, diz Agostinho, no sentido em que Deus é inexprimível. Ele pode no entanto ser expresso por aquele que é a sua própria Palavra.

    «O Pai é uma operação que se exprime e o Filho é uma Palavra que opera.» O Filho exprime o Pai e permanece no entanto n'Ele.

    Repetidas vezes, Eckhart comparou o Verbo saído de Deus, permanecendo no entanto em Deus, à palavra humana que se exprime e permanece no interior do ser humano.

    Todas as criaturas dotadas de intelecto querem exprimir Deus; elas só o conseguem de forma aproximada. [  ]


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Mestre Eckhart – O Senhor estendeu a sua mão 3


  1. David diz: «O Senhor é o seu nome.»
  2. «Senhor» indica a situação superior que é uma senhoria, «servidor», uma situação inferior.
  3. Certos nomes são apropriados a Deus e separados de todas as outras coisas, como «Deus».
  4. «Deus» é o nome mais apropriado a Deus, como «homem» é o nome dum ser humano.
  5. Um ser humano é sempre um ser humano, quer ele seja insensato quer seja sábio.
  6. Séneca diz: «É desprezível o ser humano que não se eleva acima do humano.»
  7. Certos nomes designam atributos de Deus, como «Paternidade» e «Filiação».
  8. Quando se diz «Pai» entende-se também «Filho».
  9. Não pode existir um Pai a menos que exista um Filho, nem um Filho a menos que exista um Pai, mas ambos têm em si um ser eterno para lá do tempo. 1

Notas
  1. Certos nomes têm uma ligação com Deus, como «Paternidade» e «Filiação». [  ]


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Mestre Eckhart – O Senhor estendeu a sua mão 4


  1. Em terceiro lugar, certos nomes levam para o alto (nomes metafóricos) em direção a Deus e estão voltados para o tempo.
  2. Na Escritura também, se designa Deus com muitos nomes.
  3. Eu digo: ter o conhecimento de qualquer coisa em Deus e aplicar-lhe o nome, é falhar Deus.
  4. Deus está acima dos nomes e acima da natureza.
  5. Nós lemos a propósito de um homem devoto que implorava a Deus na sua oração e queria dar-lhe um nome.
  6. Um irmão disse-lhe então: «Cala-te, tu desonras Deus!»
  7. Nós não conseguimos encontrar nenhum nome que nós possamos dar a Deus.
  8. No entanto é-nos permitido dar lhe os nomes pelos quais os santos o nomearam, que Deus consagrou no coração deles e inundou de luz divina.
  9. E com isso, nós devemos primeiro aprender como devemos rezar a Deus.
  10. Nós devemos dizer: «Senhor, com estes mesmos nomes que Tu assim consagraste no coração dos teus santos e inundados com a tua luz, nós te rezamos e te louvamos.»
  11. Em seguida nós devemos aprender a não dar a Deus nenhum nome com a ilusão de que nós o conseguimos com isso suficientemente louvar e exaltar, porque Deus está «acima dos nomes» e é inexprimível. 1

Notas
  1. Na Escritura, designa-se Deus com muito nomes, mas qualquer que seja aquele que se lhe dá, não é Deus: Deus está acima de todos os nomes.

    Eckhart cita o exemplo de um homem devoto que, na sua oração, queria dar um nome a Deus. Um irmão disse-lhe: «Cala-te, tu desonras Deus!»

    É-nos no entanto permitido nomear Deus com os nomes que os santos lhe deram e que Ele consagrou no coração deles; no entanto nós não devemos ter a ilusão de que com isso nós exaltamos Deus suficientemente. [  ]


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Mestre Eckhart – O Senhor estendeu a sua mão 5


  1. O Pai exprime o Filho segundo todo o seu poder, e todas as coisas que estão n'Ele.
  2. Todas as criaturas são uma palavra de Deus.
  3. A minha boca exprime e revela Deus, mas o ser da pedra também o faz, e compreende-se mais pelos efeitos da obra do que pelas palavras.
  4. A obra opera pela natureza superior segundo o seu maior poder, a natureza inferior não a consegue compreender.
  5. Se ela operasse a mesma coisa, ela não lhe seria inferior, ela ser-lhe-ia idêntica.
  6. Todas as criaturas quereriam repetir em todas as suas obras aquilo que diz Deus, mas aquilo que elas podem revelar d'Ele é no entanto bastante pouco.
  7. Mesmo os anjos mais elevados que, no seu voo, tocam em Deus - são tão diferentes daquilo que está em Deus como o branco e o preto.
  8. Aquilo que as criaturas receberam no seu conjunto é completamente diferente, apesar de que todas quisessem exprimir o mais que elas pudessem.
  9. O profeta diz: «Senhor, tu pronuncias uma palavra e eu ouço duas.»
  10. Quando Deus se pronuncia na alma, ela e Ele só são um, mas desde que essa unidade se exterioriza, eles ficam separados.
  11. Quanto mais nós nos elevamos pelo nosso conhecimento, mais nós somos um n'Ele.
  12. É por isso que o Pai pronuncia todo o tempo o Filho na unidade e derrama nele todas as criaturas.
  13. Todas requerem retornar de onde elas fluíram.
  14. Toda a vida delas, todo o ser delas é um apelo e uma urgência em direção a de onde elas saíram. 1

Notas
  1. O Pai exprime o Filho, assim como todas as coisas que estão n'Ele. «Todas as criaturas são uma palavra de Deus. O que a minha boca exprime e revela de Deus, o ser da pedra também o faz.» Aquilo que as criaturas podem revelar de Deus, mesmo os anjos mais elevados («a natureza superior») é bem pouco.

    O profeta (Salmo 61, 12) diz: «Senhor, tu pronuncias uma palavra e eu ouço duas.» Quando Deus fala na alma, ela e Ele são apenas «um». Quando não é assim, quer dizer, quando a alma não fica mais no interior dela própria, onde Deus reside, para se voltar para as potências inferiores e as criaturas, o verbo mental e o verbo proferido são distintos. Há então duas palavras, a interior e a exterior.

    Quanto mais nós nos voltamos para dentro, mais nós somos um com a própria palavra de Deus. «É por isso que o Pai pronuncia todo o tempo o Filho na unidade e derrama nele todas as criaturas. Todas requerem retornar a de onde elas fluíram.» [  ]


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Mestre Eckhart – O Senhor estendeu a sua mão 6


  1. O profeta diz: «O Senhor estendeu a sua mão» e ele quer dizer o Espírito Santo.
  2. Ele diz também: «Ele tocou na minha boca» e acrescenta também: «Ele falou-me».
  3. A boca da alma é a parte superior da alma, é aquilo que ela pensa e diz.
  4. «Ele colocou a sua palavra na minha boca.» - É o beijo da alma; a boca tocou na boca, então o Pai gera o seu Filho na alma e então a palavra é-lhe endereçada.
  5. Ora ele diz: «Vê, eu elegi-te hoje e eu estabeleci-te sobre os povos e sobre os reinos.»
  6. Num «hoje», Deus promete de nos eleger lá onde nada existe, onde no entanto, na eternidade, Ele é um «hoje».
  7. «E eu estabeleci-te sobre os povos» - é o mundo inteiro e tu deves desprender-te dele - «e sobre os reinos» - quer dizer: tudo o que é mais do que um é demasiado, porque tu deves morrer a todas as coisas e a imagem em ti deve reunir-se com aquilo da qual ela é a imagem na altura, onde nós residimos no Espírito Santo. 1
  8. Que Deus, o Espírito Santo, nos ajude a isso. Amém. 2

Notas
  1. O pregador passa agora à exegese do texto inicial: «A mão de Deus» significa o Espírito Santo.

    «Ele tocou na minha boca, Ele falou-me.» A boca da alma é a parte superior da alma. «Ele colocou a sua palavra na minha boca.» É o beijar da alma. «Então o Pai gera o seu Filho na alma e então a palavra é-lhe endereçada: Vê, eu elegi-te hoje.»

    Comparar com o sermão 14, Em pé, levanta-te, Jerusalém: «O que significa hoje? A eternidade.»

    «... e eu estabeleci-te sobre os povos e sobre os reinos.» Quer dizer: «tudo o que é mais do que o Um é demasiado, porque tu deves morrer a todas as coisas, e a imagem em ti deve reunir-se com aquilo da qual ela é a imagem na altura, onde nós residimos no Espírito Santo.» [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 150-154. [  ]


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Mestre Eckhart – Tu deves honrar pai e mãe



  1. Tu deves honrar pai e mãe
  2. Tudo aquilo que nós conseguimos compreender na Escritura, e tudo aquilo que nos podem dizer, revela um outro sentido escondido
  3. Todas as comparações existem para servir de comparação com o Pai
  4. Toda a alegria do Pai, e o seu carinho, e o seu sorriso, estão unicamente no Filho
  5. Tudo aquilo que é conhecido, ou que nasceu, é uma imagem
  6. Quando a alma encontra o Um, onde tudo é um, ela reside nesse único Um
  7. Todas as coisas tendem para um acréscimo de perfeição
  8. Quem honra Deus? Aquele que tem em vista a honra de Deus em todas as coisas
  9. É nas trevas que se encontra verdadeiramente a luz



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Mestre Eckhart – Tu deves honrar pai e mãe 1


Sermão 51 - Tu deves honrar pai e mãe
  1. Hec dicit dominus: honora patrem tuum. Esta frase que eu disse em latim está escrita no Evangelho. Nosso Senhor a pronuncia e ela significa: «Tu deves honrar pai e mãe.» (Mt 15, 4) 1
  2. E nosso Senhor Deus dá um outro mandamento: «Tu não deves desejar o bem do teu próximo, nem a sua casa, nem a sua mulher, nem nada que lhe pertença.»
  3. O terceiro texto, é que o povo foi procurar Moisés e disse: «Perdoa-nos, porque nós não conseguimos ouvir Deus.»
  4. A quarta é o que disse nosso Senhor Deus: «Moisés, tu me farás um altar de terra e na terra, e tudo o que lá for oferecido em sacrifício, tu o queimarás.»
  5. Eis o quinto: «Moisés aproximou-se da nuvem e avançou na montanha; ele aí encontrou Deus e, nas trevas, ele encontrou a verdadeira luz.» 2

Notas
  1. Como o precedente, este sermão só aparece num texto frequentemente defeituoso, o que não facilitou o trabalho do editor. [  ]
  2. As citações que nós lemos no texto não têm entre elas uma relação evidente: elas encontram-se na epístola e no evangelho da quarta-feira depois do terceiro domingo da Quaresma, o que explica porque é que o pregador as aproximou. [  ]


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Mestre Eckhart – Tu deves honrar pai e mãe 2


  1. O senhor São Gregório diz: «Onde o cordeiro toca no fundo, o boi ou a vaca nadam, e onde a vaca nada, o elefante a ultrapassa e a água passa por cima da sua cabeça.»
  2. É um sentido muito belo, de onde se pode tirar muito.
  3. O senhor Santo Agostinho diz que a Escritura é um mar profundo; um pequeno cordeiro designa uma pessoa humilde e simples que consegue tocar no fundo da Escritura.
  4. Pelo boi que nada, é preciso entender as pessoas frustes. Cada uma toma lá aquilo que lhe convém.
  5. Mas pelo elefante que corre para diante, é-nos dado entender as pessoas espirituais que penetram na Escritura e avançam nela.
  6. Eu espanto-me que a santa Escritura seja tão densa e os mestres dizem que ela não deve ser interpretada simplesmente tal qual ela é.
  7. Eles dizem que se lá se encontra alguma coisa de grosseiro, é preciso que isso seja decifrado, mas para isso são precisas comparações.
  8. (Desses animais,) um penetrou lá até ao tornozelo, o segundo até ao joelho, o terceiro até à cintura, o quarto até por cima da cabeça e afogou-se nela.
  9. O que é que isto significa?
  10. Santo Agostinho diz: No princípio, a Escritura sorri às crianças, ela atrai a si a criança e no fim, quando se quer sondar a Escritura, ela troça das pessoas sábias e ninguém tem o espírito suficientemente simples para não encontrar lá aquilo que lhe convém, e ninguém é tão sábio que, querendo penetrá-la, não a encontra mais profunda e não encontra lá mais.
  11. Tudo aquilo que nós conseguimos compreender nela, e tudo aquilo que nos podem dizer, revela um outro sentido escondido.
  12. Tudo aquilo que nós compreendemos aqui é tão dissemelhante àquilo que está em Deus como se aquilo não estivesse. 1

Notas
  1. Como no sermão 49, este aqui começa por uma espécie de prólogo onde os animais são postos em cena: um cordeiro, um boi ou uma vaca, e um elefante. Eckhart encontra aí um muito belo símbolo de onde se podem tirar ensinamentos.

    A citação de São Gregório, retomada por Alberto o Grande, no qual aliás só são referidos o cordeiro e o elefante, é seguida neste sermão por um texto de Agostinho onde a Escritura é comparada a um mar profundo, apesar de não se ver bem como é que o cordeiro, que representa as pessoas humildes e santas, o pode sondar.

    Compreende-se melhor que o elefante se afogue nesse mar, mesmo se ele é o símbolo das pessoas espirituais, porque Mestre Eckhart já nos tinha dito várias vezes, e nomeadamente aqui, que ninguém pode verdadeiramente penetrar no sentido profundo da Escritura.

    O conjunto da parábola fica portanto um pouco confuso. [  ]


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Mestre Eckhart – Tu deves honrar pai e mãe 3


  1. Ora retomemos esta frase: «Tu deves honrar pai e mãe.»
  2. Num sentido vulgar, ela designa o pai e a mãe e a honra que se deve a eles; deve-se honrar também, e mesmo um pouco mais, todos aqueles que têm um poder espiritual, igualmente aqueles dos quais tu tens todos os bens perecíveis.
  3. Lá pode-se patinhar e tocar no fundo, mas (no sentido da palavra assim entendida) aquilo que nós obtemos é bem pouco.
  4. Uma mulher diz: E se devemos honrar aqueles dos quais recebemos um bem exterior, é bem mais preciso honrar aqueles de quem temos tudo.
  5. Todos os bens que temos aqui exteriormente na multiplicidade, são possuídos lá interiormente na unidade.
  6. Ora vocês compreendem bem que esta comparação diz respeito ao Pai.
  7. Eu pensei, esta noite, que todas as comparações existem para servir de comparação com o Pai. 1

Notas
  1. O sermão propriamente dito começa pela exegese do primeiro texto proposto, sobre a honra que se deve aos seus pai e mãe e, mais geralmente, a todas as pessoas das quais se recebe algum bem, sobretudo espiritual.

    (Não se vê nitidamente quem é essa mulher do qual o pregador fala em seguida, certos críticos pensaram na mãe de Macabeu da qual é questão no fim do sermão, mas esta interpretação não se impõe.)

    Como Eckhart sublinha, todas as comparações existem para servir de comparação com o Pai. [  ]


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Mestre Eckhart – Tu deves honrar pai e mãe 4


  1. Em segundo lugar «tu deves honrar o Teu Pai», quer dizer o teu Pai celeste de quem tu tens o teu ser.
  2. Quem honra o Pai? Ninguém outro que o Filho, só ele o honra.
  3. E ninguém também honra o Filho senão o Pai apenas.
  4. Toda a alegria do Pai, e o seu carinho, e o seu sorriso, estão unicamente no Filho.
  5. O Pai não conhece nada de exterior ao Filho.
  6. Ele tem uma tão grande alegria no seu Filho que Ele não tem outra necessidade que não seja gerar o seu Filho, porque este é uma semelhança perfeita e uma imagem perfeita do Pai. 1

Notas
  1. É portanto para o Pai celeste em primeiro lugar que deve ir toda a honra.

    Ora, só o Filho honra o Pai, e só o Pai honra o Filho. [  ]


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Mestre Eckhart – Tu deves honrar pai e mãe 6


  1. Eu pensei, esta noite, que todas as comparações são uma condição prévia.
  2. Eu não posso ver uma coisa a menos que ela me seja semelhante, e eu não posso conhecer uma coisa a menos que ela não me seja semelhante.
  3. Deus contém misteriosamente todas as coisas n'Ele próprio, não isto ou aquilo nas suas distinções, mas «um» na Unidade.
  4. O olho não tem em si a cor, o olho recebe a cor, não é a orelha que a recebe; a orelha recebe o som, e a língua o gosto.
  5. Cada um dos órgãos possuiu aquilo, com o que, ele é um.
  6. Assim, a imagem da alma, e a imagem de Deus, são um único ser, lá onde nós somos Filhos.
  7. E se eu não tivesse nem olhos nem orelhas, no entanto eu teria o ser.
  8. Se alguém me tirasse os olhos, no entanto ele não me tiraria o meu ser, nem a minha vida, porque a vida reside no coração.
  9. Se alguém me quisesse atingir nos olhos, eu meteria a minha mão na frente, e ela receberia a pancada.
  10. Mas àquele que me quisesse atingir no coração, eu oporia todo o meu corpo para preservar esse corpo.
  11. Àquele que me quisesse cortar a cabeça, eu lançaria o meu braço inteiro para guardar a minha vida e o meu ser.
  12. Eu já disse frequentemente: a casca deve ser quebrada para que saia aquilo que ela contém.
  13. Porque se tu queres ter o fruto, tu tens que quebrar a casca.
  14. E portanto, se tu queres encontrar a natureza na sua nudez, todos os símbolos devem ser quebrados, e quanto mais se penetra neles, mas se está próximo do ser.
  15. E quando ela (a alma) encontra o Um, onde tudo é um, ela reside nesse único Um.
  16. Quem honra Deus? Aquele que tem em vista a honra de Deus em todas as coisas. 1

Notas
  1. Todas as comparações são um avanço, uma aproximação. Segundo o princípio de Aristóteles, o semelhante só pode ser conhecido pelo semelhante. Portanto, de qualquer forma, se nós conhecemos Deus, só pode ser graças a um mesmo elemento n'Ele e em nós. Este elemento de semelhança é o ser.

    Deus, misteriosamente, incluiu todas as coisas n'Ele próprio, não nas suas distinções, mas na unidade.

    Os órgãos dos sentidos só podem recolher as sensações às quais eles estão adaptados. «Assim, a imagem de Deus, e a imagem da alma, são um único ser.»

    O pregador propõe diversas hipóteses para mostrar bem aos seus auditores o que é o ser: «E se eu não tivesse nem olhos nem orelhas, no entanto eu teria o ser...» Mas da mesma forma que é preciso partir a casca para obter o fruto, os símbolos devem ser quebrados, e quanto mais penetrarmos neles, mais estaremos próximo do ser. «E quando a alma encontra o Um, onde tudo é um, ela reside nesse único Um.» [  ]


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Mestre Eckhart – Tu deves honrar pai e mãe 5


  1. Os nossos mestres dizem: Tudo aquilo que é conhecido, ou que nasceu, é uma imagem.
  2. E eles explicam-se assim: Se o Pai deve gerar o seu Filho único, é preciso que Ele gere a sua imagem que reside n'Ele próprio, no seu fundo.
  3. A imagem, tal qual ela esteve eternamente n'Ele (forme illius), é a sua forma residindo n'Ele próprio.
  4. A natureza ensina, e parece-me com efeito certo, que se deve dar uma ideia de Deus por comparações, por isto e por aquilo, e no entanto Ele não é nem isto nem aquilo, e é por isso que o Pai não se contenta com isso, antes pelo contrário Ele retira-se na origem, no mais interior, no fundo e no núcleo do ser paterno onde ele esteve eternamente n'Ele próprio na Paternidade, e onde Ele desfruta d'Ele próprio, Pai enquanto que Pai Ele próprio no único Um.
  5. Aqui todas as palhas de erva, e a madeira, e a pedra, e todas as coisas são Um.
  6. Esse é o bem supremo, e eu estou apaixonado por ele.
  7. Assim portanto: tudo aquilo que a natureza é capaz de realizar, ela o projeta aí, ela precipita-se na Paternidade, afim de ser «um», e um Filho, e de se libertar de tudo o resto, e de ser totalmente «um» na Paternidade, e se ela não o consegue, de ser então o símbolo do Um.
  8. A natureza, que é de Deus, não procura nada de exterior a ela, e mesmo a natureza, que é em si, não tem nada a ver com a aparência exterior, porque a natureza, que é de Deus, não procura nada mais que a semelhança com Deus. 1

Notas
  1. Eckhart insiste neste tema que lhe é caro: a alegria que o Pai sente no seu Filho, a sua perfeita semelhança, a sua perfeita imagem «permanecem n'Ele próprio no seu fundo... tal qual ela esteve eternamente n'Ele.»

    Pode-se assim, diz Mestre Eckhart, tentar dar uma ideia de Deus por comparações, na condição de que elas sejam tidas como tais, porque elas nunca são apropriadas ao Pai que se retira no «mais interior», no «fundo», no «núcleo», Ele é «Pai enquanto que Pai Ele próprio no único Um.» [  ]


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Mestre Eckhart – Tu deves honrar pai e mãe 7


  1. Há muitos anos, eu não existia, depois há pouco tempo, o meu pai e a minha mãe comeram carne, pão e ervas que cresciam no jardim, e com isso eu tornei-me num ser humano; no entanto, o meu pai e a minha mãe não puderam cooperar nisso: Deus fez diretamente o meu corpo, e criou a minha alma a partir daquilo que é o mais elevado, então eu tomei posse da minha vida.
  2. Este grão tende a tornar-se centeio; ele tem na sua natureza o poder de se tornar fermento; é por isso que ele não tem repouso antes de ter chegado a essa mesma natureza.
  3. Este grão de fermento tem na sua natureza o poder de se tornar em todas as coisas, é por isso que ele paga a parada e aceita a morte afim de ser transformado em todas as coisas.
  4. E este mineral é cobre, ele tem na sua natureza o poder de se tornar em prata, e a prata tem na sua natureza o poder de se tornar em ouro, é por isso que ele nunca tem repouso antes de chegar a essa mesma natureza.
  5. Sim, esta madeira tem na sua natureza o poder de se tornar numa pedra.
  6. Eu digo mais ainda: ela pode tornar-se em todas as coisas; ela entrega-se ao fogo, e deixa-se consumir, para ser transformada na natureza do fogo, e ela torna-se um com o Um, e ela tem eternamente um único ser.
  7. Sim, a madeira, e a pedra, e o osso, e todas as palhas da erva foram um na primeira origem.
  8. E se a natureza age assim, o que faz então essa outra natureza que é tão pura nela própria, que não procura nem isto nem aquilo, que se desprende de tudo o resto e corre apenas em direção à pureza primeira. 1

Notas
  1. Na perspetiva de Eckhart, todas as coisas tendem para um acréscimo de perfeição.

    Os alimentos que os seus pais comeram fizeram dele um ser humano.

    O grão tende a tonar-se em fermento, o cobre e a prata a tornarem-se em ouro, a madeira entrega-se ao fogo para ser transformada na natureza do fogo. A madeira, e a pedra, e todas as palhas da erva, foram em conjunto «um» no Princípio.

    «E se a natureza (material) age assim, o que faz então essa outra natureza que é tão pura nela própria, que não procura nem isto nem aquilo, que se desprende de tudo o resto (o ser humano desprendido) e corre apenas em direção à pureza primeira (a Divindade).»

    Eckhart já nos falou desta transformação em direção à maior perfeição no sermão 3, Agora eu sei verdadeiramente, num outro contexto, mas com a mesma intenção: «Visto que Deus transforma em si coisas de tão pouco valor, o que pensam vocês então que Ele faça à alma que Ele honrou com a imagem d'Ele próprio?» [  ]


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Mestre Eckhart – Tu deves honrar pai e mãe 8


  1. Eu pensei esta noite que os céus são numerosos.
  2. Ora certas gentes incrédulas não acreditam que este pão sobre este altar possa ser transformado para se tornar no nobre corpo de Nosso Senhor, e que Deus o possa realizar.
  3. Essas más gentes que não conseguem acreditar que Deus o possa fazer!
  4. E se Deus deu à natureza o poder de se tornar em todas as coisas, é ainda bem mais possível a Deus que este pão sobre o altar se possa tornar no seu corpo.
  5. E se a fraca natureza pode transformar uma pequena folha num ser humano, é ainda bem mais possível a Deus o fazer de um pão o seu corpo.
  6. Quem honra Deus? Aquele que tem em vista a honra de Deus em todas as coisas.
  7. Este sentido é ainda bem mais manifesto, apesar do primeiro ser preferível. 1

Notas
  1. «Eu pensei esta noite que os céus são numerosos...» (céu da Lua, céu de Mercúrio, céu de Vénus, céu do Sol, etc.) que realizam a sua revolução em torno da Terra, centro do mundo. Eckhart, naturalmente, fez sua esta noção vinda da Antiguidade, que será ainda a de Dante.

    Se Deus deu assim à natureza o poder de se tornar em todas as coisas, e aos alimentos de se transformarem em corpo humano, como é que «más gentes» podem não acreditar que o pão sobre o altar se pode tornar no seu corpo? Em todos os seus argumento, o princípio é portanto sempre o mesmo: Deus transforma e assimila em si todas as coisas.

    «Quem honra Deus? Aquele que tem em vista a honra de Deus em todas as coisas. Este sentido é ainda bem mais manifesto, apesar do primeiro ser preferível», «todas as comparações existem para servir de comparação com o Pai». [  ]


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Mestre Eckhart – Tu deves honrar pai e mãe 9


  1. O quarto sentido: eles mantiveram-se afastados e disseram a Moisés: «Moisés, fala-nos, nós não conseguimos ouvir Deus.»
  2. Eles estavam longe, e essa era a escória que os impedia de ouvirem Deus.
  3. Moisés entrou na nuvem e avançou na montanha, e lá ele viu a luz divina.
  4. É nas trevas que se encontra verdadeiramente a luz.
  5. Assim, quando se está no sofrimento e na aflição, essa luz está mais próxima de nós.
  6. Que Deus faça o melhor ou o pior, Ele precisa de se dar a nós, quer seja nos tormentos ou na aflição.
  7. Uma santa mulher tinha numerosos filhos, e quis matá-los, ela riu-se e disse: «Não se entristeçam, fiquem alegres e pensem no vosso Pai celeste, porque vocês não têm nada de mim.»
  8. Tal como se ela quisesse dizer: «Vocês têm o vosso ser diretamente de Deus.»
  9. Isto convém bem ao nosso propósito.
  10. Nosso Senhor diz: «As tuas trevas - é o teu sofrimento - serão transformadas em luz clara.»
  11. Mas eu não devo tender para nada, nem desejar nada.
  12. Eu disse noutro lugar: as trevas escondidas da luz invisível na eterna Divindade são ignoradas e nunca serão conhecidas.
  13. E a luz do Pai eterno brilhou eternamente nessas trevas, e essas trevas não apreenderam a luz. 1
  14. Que Deus nos ajude a chegar a essa luz eterna. Amém. 2

Notas
  1. Dos cinco textos citados no princípio do sermão, Eckhart só comentou verdadeiramente o primeiro. Ele passou completamente sem dizer nada do segundo e do quarto, e falou brevemente do terceiro (o povo disse a Moisés), mas mais longamente do quinto (chamado erradamente de quarto).

    Moisés, tendo penetrado na nuvem e subido a montanha, viu a luz divina. «É nas trevas que se encontra verdadeiramente a luz. Assim, quando se está no sofrimento e na aflição, essa luz está mais próxima de nós.» O pregador cita, desta vez sem dúvida possível, a mãe dos Macabeus, apesar de ele lhe chamar apenas «uma santa mulher».

    «Nosso Senhor diz: As tuas trevas - é o teu sofrimento - serão transformadas em luz clara.» E eis como que a assinatura de Mestre Eckhart: « Mas eu não devo tender para nada, nem desejar nada.» [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 131-137. [  ]


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