Mestre Eckhart – Antigamente vocês eram trevas



  1. Os profetas hesitavam em transmitir o conhecimento que tinham de Deus
  2. O Pai gera o seu Filho único, e dessa efusão desabrocha o Espírito Santo que é o Espírito de um e do outro
  3. No nascimento eterno, onde o Pai gera o seu Filho, a alma fluiu no seu ser, e a imagem da Divindade é impressa na alma
  4. Não há devir em Deus, é um «agora», um devir sem devir, um novo sem renovação: eis o devir que é o seu ser



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Mestre Eckhart – Antigamente vocês eram trevas 1


Sermão 50 - Antigamente vocês eram trevas
  1. São Paulo diz: «Antigamente vocês eram trevas, mas agora uma luz em Deus.» (Ef 5, 8) 1
  2. Os profetas que caminham na luz conhecem e encontram, sob a influência do Espírito Santo, a verdade escondida.
  3. Eles eram, por vezes, levados a voltarem-se para o exterior e a falar, para a nossa beatitude, das coisas que eles conheciam, e nos ensinarem a conhecer Deus, depois acontecia-lhe que se calavam porque eles não conseguiam falar.
  4. Isto por três causas.
  5. Aprimeira: o bem que eles conheciam e contemplavam em Deus era tão grande e tão escondido que não se podia formar no entendimento deles, porque tudo aquilo que aí se podia formar era tão desigual àquilo que eles contemplavam em Deus, e tão falso, comparado com a verdade, que eles se calavam, não querendo mentir.
  6. A segunda causa: tudo aquilo que eles viam em Deus era tão igualmente grande e nobre que eles não lhe conseguiam tirar nem imagem, nem forma, para falar daquilo.
  7. A terceira causa do mutismo deles, é que eles viam na verdade escondida, e encontravam em Deus o mistério que eles não conseguiam traduzir em palavras.
  8. Acontecia-lhes no entanto por vezes de se voltarem para o exterior e de falarem, e devido à dissemelhança com a verdade, eles caiam na matéria grosseira, e queriam ensinar-nos a conhecer Deus com as coisas baixas da criatura. 2

Notas
  1. Este sermão só está contido num único manuscrito. Ele é por vezes defeituoso, apresenta mesmo talvez algumas lacunas. Josef Quint fez dele uma cópia diplomática, restabelecendo uma pontuação que o torna legível. [  ]
  2. Para a primeira parte da citação bíblica: «Antigamente vocês eram trevas», Eckhart cita o exemplo dos profetas que hesitavam em transmitir o conhecimento que eles tinham de Deus, de tal forma aquilo que eles tinham contemplado era diferente daquilo que se podia formar no entendimento deles, aparecia tão grande e nobre que formas e imagens se furtavam a eles, que as palavras lhes faltavam para exprimir.

    Quando, no entanto, eles se voltavam para o exterior para tentar comunicá-lo, eles caiam na «matéria grosseira», no tempo, nas trevas que obscurecem a luz. [  ]


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Mestre Eckhart – Antigamente vocês eram trevas 2


  1. Ora Paulo diz: «Antigamente vocês eram trevas, mas agora uma luz em Deus.»
  2. «Aliquando», para aquele que consegue plenamente sondar esta palavra, significa «antigamente» e designa o tempo que obstrui para nós a luz, porque nada é tão contrário a Deus como o tempo.
  3. Não apenas o tempo, ele quer dizer também uma ligação ao tempo; ele também não quer dizer apenas uma ligação ao tempo, ele quer dizer também um contato com o tempo.
  4. Não apenas um contato com o tempo, menos ainda: um cheiro e um odor do tempo, da mesma forma que um odor fica lá onde uma maçã foi colocada: entende assim o contato com o tempo.
  5. Os nossos melhores mestres dizem que o céu material, o sol e também as estrelas têm tão pouco a ver com o tempo que eles apenas tocam no tempo.
  6. Aqui eu penso que a alma é absolutamente criada longe acima do céu e que, naquilo que ela tem de mais elevado e de mais puro, ela não tem nada a ver com o tempo.
  7. Eu falei frequentemente da operação em Deus e do nascimento: o Pai gera o seu Filho único, e dessa efusão desabrocha o Espírito Santo que é o Espírito de um e do outro; nessa difusão, a alma brota e flui, e a imagem da Divindade é impressa na alma, e nesse fluxo e refluxo das três Pessoas a alma é reconduzida e é de retorno formada na sua primeira imagem sem imagem. 1

Notas
  1. «Nada é tão contrário a Deus como o tempo.» O pregador insiste nesse ponto: não apenas o tempo, mas a ligação ao tempo, o contato com o tempo, mesmo «o odor do tempo».

    Os mestres dizem que o céu material, o sol e as estrelas têm pouco a ver com o tempo. Entre esse mestres, Eckhart cita a esse propósito Agostinho no seu Comentário I sobre a Génese.

    Igualmente a alma, naquilo que ela tem de mais elevado e de mais puro, não tem nada a ver com o tempo.

    Eckhart fala das processões trinitárias segundo a teologia clássica. Na difusão das Pessoas, a alma brota e flui, e a imagem da Divindade é impressa na alma. Nesse fluxo e refluxo das três Pessoas no fundo delas, a alma reflui, e é de retorno formada na sua primeira imagem sem imagem. [  ]


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Mestre Eckhart – Antigamente vocês eram trevas 3


  1. É o que pensa Paulo quando diz: «mas agora uma luz em Deus».
  2. Ele não diz: «vocês são uma luz», ele diz: «mas agora uma luz».
  3. Ele quer dizer aquilo que eu disse frequentemente: é preciso que aquele que deve conhecer as coisas, as conheça na sua causa.
  4. Os mestres dizem: as coisas têm uma ligação ao seu nascimento, porque lá elas podem ter do ser a visão mais pura.
  5. Porque, onde o Pai gera o seu Filho, é um «agora» presente.
  6. No nascimento eterno, onde o Pai gera o seu Filho, a alma fluiu no seu ser, e a imagem da Divindade é impressa na alma. 1

Notas
  1. Eckhart passa ao comentário da segunda parte do texto: «Mas agora uma luz». Ele dá certamente uma grande importância à forma na qual São Paulo exprime o seu pensamento, e sublinha o facto de Paulo não dizer «vocês são uma luz», mas antes «agora uma luz em Deus».

    No sermão 21, Um Deus e Pai de todos, já tivemos um exemplo do comentário que ele fez desta omissão. Nesse sermão, o verbo «ser» parece a Eckhart ter para São Paulo o sentido duma modificação, de uma relação com a temporalidade. Tal é sem dúvida o caso deste sermão aqui.

    Todo o comentário incide aqui na oposição entre «aliquando» e «» (nunc), «antigamente» e «agora»: «Ele (São Paulo) quer dizer aquilo que eu disse frequentemente: é preciso que aquele que deve conhecer as coisas, as conheça na sua causa.» Quer dizer em Deus, que é o ser puro sem modificações.

    Eckhart retoma aquilo que ele nos disse mais acima: lá onde o Pai gera o seu Filho, é um instante, um «agora» presente: a alma fluiu no seu ser, e a imagem da Divindade é impressa na alma. [  ]


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Mestre Eckhart – Antigamente vocês eram trevas 4


  1. Quando se falou disto na Escola, alguns mestres disseram que Deus imprimiu a imagem na alma como aquele que pinta uma imagem na parede, e que se apaga. Isto foi contradito.
  2. Outros mestres falaram melhor e disseram que Deus imprimiu uma imagem permanente, como um pensamento que permanece nela.
  3. Como por exemplo: hoje eu tenho uma vontade, e eu tenho amanhã o mesmo pensamento, e eu retenho a imagem pela minha representação permanente.
  4. Eles disseram portanto que as obras de Deus são perfeitas.
  5. Se o carpinteiro fosse perfeito na sua obra, ele não teria necessidade de materiais: assim que ele pensasse nela, a casa estaria acabada.
  6. Tais são as obras de Deus: assim que Ele pensa nelas, as obras são completadas num «agora» presente.
  7. Veio o quinto mestre, ele foi o melhor a falar, e disse: não há devir (em Deus), é um «agora», um devir sem devir, um novo sem renovação: eis o devir que é o seu ser.
  8. Em Deus há uma subtileza na qual não pode haver renovação.
  9. Há também na alma uma subtileza tão pura e tão delicada que não pode haver nela renovação porque tudo aquilo que está em Deus é um «agora» presente sem renovação 1
  10. Eu queria falar de quatro coisas: da subtileza de Deus, e da subtileza da alma, e da operação em Deus, e da operação da alma, mas vou ficar por aqui. 2

Notas
  1. O pregador evoca em seguida um discurso de Escola: na Sorbonne? no studium generale de Colónia? Todos os mestres que se encontram lá reconhecem na alma humana a presença de Deus, com mais ou menos intensidade: para um, como uma pintura fugaz numa parede, para outro, uma imagem permanente.

    E esse quinto, que diz melhor, não seria Eckhart? É-nos permitido supô-lo, visto a citação ser anónima. Se ele não emitiu, ele próprio, essa opinião, ele fê-la sua: está certamente aí não apenas o seu pensamento, mas a sua maneira: «Não há devir, é um "agora", um devir sem devir, um novo sem renovação, e o devir é o seu ser.»

    Ele já nos disse no sermão 20a, Um homem tinha preparado um festim: «O que quer que Deus dê, isso foi sempre um devir; o seu devir é agora novo e total num "agora" eterno.»

    Neste sermão, o termo «kleinlicheit» é empregue quer para designar o fundo original em direção ao qual fluem e de onde refluem as Pessoas divinas (Divindade) como aquilo que, na alma, é vulgarmente designado por numerosos termos diferentes, e sobretudo «a centelha», ou «a pequena centelha», ou o «qualquer coisa na alma».

    O termo «klein» no alemão de Mestre Eckhart, e mesmo ainda hoje, cobre um campo semântico mais vasto do que o português correspondente «pequeno». Ele pode evocar qualidades de fineza, de delicadeza, de beleza (das Kleinod, a jóia). A tradução desta palavra por «subtileza», em vez de «imponderabilidade», segue a tradução que Josef Quint faz para o alemão moderno: «Subtilität».

    No final do sermão, o pregador informa-nos que tinha querido tratar ainda de outras questões, mas que fica por aqui. Por vez acontece-lhe acabar abruptamente, como aconteceu neste caso. [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 126-130. [  ]


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Mestre Eckhart – Feliz o ventre que te trouxe



  1. A pessoa que escuta a palavra de Deus, e que a guarda, é mais feliz do que foi Maria
  2. Quem escuta a palavra de Deus, para a guardar, deve possuir quatro coisas
  3. Aquele que escuta a palavra de Deus, e a guarda, recebe uma tal honra, e infinitamente mais
  4. Com o Pai, na potência do Filho, tu geras sem descanso a ti próprio, e todas as coisas, num contínuo presente
  5. Se o grão de milho caído na terra não perece, fica sozinho e não dá fruto, mas se cai na terra e perece, produz fruto em cêntuplo
  6. Quem quer lançar a sua alma no campo da humanidade de Jesus Cristo, afim de que ela aí pereça, e se torne fecunda, deve-se corromper também segundo dois modos
  7. Se alguém fosse mais humilde e menor que João, seria eternamente maior do que ele no reino dos céus



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Mestre Eckhart – Feliz o ventre que te trouxe 1


Sermão 49 - Feliz o ventre que te trouxe
  1. Lê-se hoje no evangelho que uma mulher, uma mulher casada, diz a Nosso Senhor: «Feliz o corpo que te trouxe, felizes as mamas que te amamentaram.»
  2. Então Nosso Senhor diz: «Tu dizes a verdade. Feliz é o corpo que me trouxe e felizes são as mamas que me amamentaram. Mas mais feliz ainda é aquele que escuta a minha palavra e a guarda.» (Lc 11, 27) 1
  3. Prestem bem atenção a esta frase que disse Cristo: «Mais feliz é aquele que escuta a minha palavra e a guarda, do que o corpo que me trouxe, e as mamas que me amamentaram.»
  4. Se eu tivesse dito isso, e se fosse a minha própria frase - que a pessoa que escuta a palavra de Deus, e que a guarda, é mais feliz do que foi Maria nesse nascimento que a tornou corporalmente mãe de Cristo - eu repito; se eu tivesse dito isso, as pessoas poderiam espantar-se, mas é o próprio Cristo que o diz.
  5. É por isso que devemos acreditar nele como sendo a verdade, porque Cristo é a verdade.
  6. Notem o que entende aquele que escuta a palavra de Deus.
  7. Ele escuta Cristo nascido do Pai, em plena igualdade com o Pai, tendo assumido a nossa humanidade unida à sua pessoa, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, um Cristo; tal é a palavra que escuta absolutamente aquele que escuta a palavra de Deus, e a guarda com toda a perfeição. 2

Notas
  1. O texto comentado neste sermão está inscrito no antigo missal dominicano para todas as festas da Virgem entre o Natal e a Purificação.

    Excepcionalmente longo, este sermão apresenta ainda uma outra particularidade: comporta um "prólogo" sobre o qual o pregador explica a razão: ele quis dar aos auditores (auditoras de um mosteiro?) o tempo de se recolherem, em seguida ele desculpa-se de os ter retido. Sem dúvida, ele deixou-se levar pelo seu discurso. Quando ele diz: «Eu quero agora pregar», ele na realidade já prega desde há algum tempo, e aquilo que ele expôs nesse "prólogo" pertence organicamente àquilo que se vai seguir. [  ]
  2. Não é a única vez que Mestre Eckhart insiste sobre a audácia das palavras de Cristo, fazendo alusão ao escândalo que ele teria provocado se fosse ele próprio que as tivesse pronunciado.

    E no entanto ele faz-lhes como que uma atenuação, o que não está nos seus hábitos.

    Com efeito, o texto de São Lucas não diz nada desse «Tu dizes a verdade», seguido da repetição das palavras da mulher.

    Talvez ele tenha tido em consideração a veneração por Nossa Senhora do povo que o escuta. Ele regressará mais adiante ao culto que lhe é prestado pela «santa cristandade», quer dizer a Igreja, e os pedidos de intercepção que lhe são endereçados. Três vezes ele repete: «e é verdade». [  ]


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Mestre Eckhart – Feliz o ventre que te trouxe 2


  1. São Gregório escreve-nos que quem escuta a palavra de Deus, para a guardar, deve possuir quatro coisas.
  2. A primeira, é que ele se deve ter mortificado a ele próprio em todos os seus movimentos carnais, ter morto em si todas as coisas corruptíveis, e estar ele próprio morto a tudo o que é corruptível.
  3. A segunda condição, é que ele se tenha totalmente e absolutamente elevado em Deus pelo conhecimento, pelo amor, e pela interioridade verdadeira e total.
  4. A terceira, é que ele não faça a ninguém aquilo que lhe seria penoso se lhe fizessem a ele.
  5. A quarta, é que ele seja generoso quanto às coisas temporais e ao bem espiritual, que ele dê tudo isso generosamente.
  6. Muitas pessoas parecem dar, mas na verdade não dão.
  7. Essas pessoas são aquelas que fazem o seu dom àqueles que até possuem mais desse bem do que elas próprias dão, do qual elas próprias não possuem, enquanto que talvez até não seja desejado, ou apenas com o fim de que lhes seja prestado algum serviço em troca do seu dom, ou de que lhes dêem alguma coisa em troca, ou porque elas querem ser honradas.
  8. O dom dessas gentes pode mais verdadeiramente chamar-se uma solicitação do que um dom, porque na verdade elas não o dão.
  9. Nosso Senhor Jesus Cristo era liberto e pobre em todos os dons que ele nos fez generosamente: em todos os seus dons ele não procurava absolutamente nada para ele próprio, ele desejava apenas o louvor e a honra do Pai, assim como a nossa beatitude, ele sofreu e entregou-se ele próprio à morte por verdadeiro amor.
  10. Se alguém quer dar por amor a Deus, ele deve portanto dar o bem material unicamente para Deus, por forma a que ele não pense nem num serviço nem na reciprocidade, nem na honra efémera, que ele não procure absolutamente em nada o seu bem próprio, apenas o louvor e a honra de Deus e, para Deus, a ajuda do seu próximo que tem falta do necessário.
  11. E ele deve dar assim o bem espiritual quando ele reconhece que um cristão como ele o acolherá voluntariamente afim de emendar a sua vida para Deus; ele não deve desejar desse próximo nem agradecimentos, nem recompensa, nem nenhuma vantagem: ele também não deve desejar nenhuma recompensa da parte de Deus devido a esse serviço, mas desejar apenas que Deus seja louvado.
  12. Assim, ele deve ser desinteressado ao dar, como Cristo era desinteressado e pobre em todos os dons que ele nos fez.
  13. Aquele que dá assim, deu verdadeiramente.
  14. Aquele que encontra nele estes quatro pontos pode na verdade ter confiança: ele escutou a palavra de Deus, e guardou-a. 1

Notas
  1. Segundo São Gregório, o ser humano que escuta a palavra de Deus, e a guarda, deve responder a quatro exigências: 1) estar morto ao mundo e a si próprio, 2) estar totalmente elevado para Deus, 3) não provocar dano a ninguém, 4) dar generosamente os bens materiais, sem nada pedir em troca, nem ao seu próximo, nem a Deus.

    Uma frase de passagem revela a sabedoria de Mestre Eckhart: o cristão deve dispensar o bem espiritual quando ele reconhece que o outro o acolherá voluntariamente, dito de outra forma, ele aconselha a não se impor, a permanecer discreto. [  ]


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Mestre Eckhart – Feliz o ventre que te trouxe 3


  1. Toda a santa cristandade presta a Nossa Senhora grande honra e dignidade porque ela é corporalmente a mãe de Cristo, está certo.
  2. A santa cristandade pede-lhe a graça, e ela pode obtê-la, e está certo.
  3. E se a santa cristandade lhe presta uma tão grande honra, o que está bem certo, a santa cristandade pode oferecer ainda muito mais louvor e honra àquele que escutou a palavra de Deus, e a guardou, porque ele é ainda mais feliz do que Nossa Senhora por ter sido corporalmente a mãe de Cristo, tal como Cristo o disse ele próprio.
  4. Aquele que escuta a palavra de Deus, e a guarda, recebe uma tal honra, e infinitamente mais.
  5. Eu fiz este prólogo para que vocês se recolhessem durante este tempo.
  6. Perdoem-me por vos ter assim retido.
  7. Eu quero agora pregar.
  8. Nós pegamos em três pontos do evangelho sobre os quais eu quero pregar.
  9. O primeiro é: «Aquele que escuta a palavra de Deus, e a guarda, esse é feliz.»
  10. A segunda é: «Se o grão de milho não cai na terra e não perece, fica sozinho, mas se ele cai na terra e aí perece, ele produz fruto em cêntuplo.»
  11. A terceira é o que diz Cristo: «Ninguém, entre os filhos nascidos da mulher, é maior do que João Batista.»
  12. Eu deixo de lado os dois últimos pontos e falo do primeiro. 1

Notas
  1. Depois da homenagem a Nossa Senhora começa o sermão propriamente dito: «Eu quero agora pregar.»

    Eckhart desenvolverá, e na ordem indicada, os três textos que ele cita. [  ]


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Mestre Eckhart – Feliz o ventre que te trouxe 4


  1. E Cristo diz: «Aquele que escuta a palavra de Deus, e a guarda, esse é feliz.»
  2. Ora apliquem-se a compreender o sentido!
  3. O próprio Pai não escuta nada a não ser esse Verbo, Ele não conhece nada a não ser esse mesmo Verbo, Ele não diz nada a não ser esse mesmo Verbo, Ele não gera nada a não ser esse mesmo Verbo.
  4. Nesse mesmo Verbo, o Pai escuta, e o Pai conhece, e o Pai gera-se a Ele próprio, e também gera esse mesmo Verbo, e todas as coisas, e a sua Divindade até ao seu fundo, Ele próprio segundo a natureza, e esse Verbo com a mesma natureza numa outra Pessoa.
  5. Pois bem! notem o modo dessa Palavra!
  6. O Pai pronuncia segundo o modo do conhecimento, em fecundidade, a sua própria natureza, totalmente, no seu Verbo eterno.
  7. Ele não pronuncia voluntariamente o Verbo como um ato da vontade, como quando qualquer coisa é dita ou feita pela faculdade da vontade e que, nessa mesma faculdade, se pode também omitir caso se queira.
  8. Não é assim para o Pai, e para o seu Verbo eterno: quer Ele queira, ou não queira, Ele precisa de pronunciar esse Verbo, e gerá-lo sem cessar, porque eis o que é o Pai: toda a natureza do Pai, é a de ser naturalmente como a raiz (da Trindade), eis o que o Pai é n'Ele próprio.
  9. Vejam, é por isso que o Pai pronuncia esse Verbo em conformidade com a sua vontade, e não por um ato da vontade, e em conformidade com a sua natureza, e não por um ato da sua natureza.
  10. Nesse Verbo, o Pai pronuncia o meu espírito, e o teu espírito, e o espírito de todos os seres humanos, semelhante a esse mesmo Verbo.
  11. Nessa mesma Palavra, tu és e eu sou naturalmente filho de Deus, como esse mesmo Verbo.
  12. Porque, assim como eu disse precedentemente: o Pai só conhece esse mesmo Verbo, e Ele próprio, e toda a natureza divina, e todas as coisas, nesse mesmo Verbo, e tudo o que Ele conhece n'Ele é idêntico ao Verbo, e é o próprio Verbo naturalmente, na verdade.
  13. Quando o Pai te dá, e te revela, esse conhecimento, Ele dá-te a sua vida, e o seu ser, e a sua Divindade, absolutamente, verdadeiramente, na verdade.
  14. Nesta vida aqui, o pai segundo o corpo comunica à sua criança a sua natureza, mas ele não lhe dá a sua própria vida, nem o seu próprio ser, porque a criança tem uma outra vida, e um outro ser, que não o do pai.
  15. Eis a prova: o pai pode morrer, e a criança pode viver, ou a criança pode morrer, e o pai viver.
  16. Se ambos tivessem uma única vida e um único ser, era preciso necessariamente que os dois morressem ou vivem em conjunto, porque a vida e o ser dos dois seriam um. E não é assim.
  17. É por isso que cada um deles é estranho ao outro, eles estão separados um do outro quanto à vida, e ao ser.
  18. Se eu pego em fogo num local e o coloco noutro, ele fica separado apesar de ser igualmente fogo; este pode queimar e aquele pode apagar-se, ou este pode apagar-se e aquele pode queimar, e é por isso que ele nem é um nem é eterno.
  19. Mas, como eu disse precedentemente: o Pai do reino celeste dá-te o seu Verbo eterno, e nesse Verbo eterno Ele dá-te a sua própria vida, e o seu próprio ser, e a sua Divindade, absolutamente, porque o Pai e o Verbo são duas Pessoas, e uma vida, e um ser sem separação.
  20. Quando o Pai te acolhe nessa mesma luz, afim de que tu conheças e contemples essa luz, nessa luz, da mesma maneira que Ele se conhece a Ele próprio, e todas as coisas, segundo a sua potência paterna, nesse Verbo - esse mesmo Verbo, segundo o intelecto e a verdade, tal como eu disse - Ele dar-te-á o poder de gerar com Ele, a ti próprio, e todas as coisas, e Ele dá-te a sua própria potência, como a esse mesmo Verbo.
  21. Assim, com o Pai, na potência do Filho, tu geras sem descanso a ti próprio, e todas as coisas, num contínuo presente.
  22. Nessa luz, assim como eu disse, o Pai não conhece nenhuma diferença entre ti e Ele, nem nenhuma vantagem, nem mais nem menos, do que entre Ele e esse mesmo Verbo.
  23. Com efeito, o Pai e tu próprio, e todas as coisas, e esse mesmo Verbo, são um na luz. 1

Notas
  1. Primeiro, na sequência do prólogo, um dos seus temas favoritos: as relações do Pai com o Filho, e a alma humana.

    O Pai «pronuncia», exprime o seu Filho. Ele o faz, em conformidade com a sua vontade, mas não por um ato da sua vontade, quer dizer que Ele aquiesce plenamente ao seu ato, mas a sua natureza obriga-o a isso: Ele não poderia não o realizar.

    Ao mesmo tempo, Ele «pronuncia» o espírito de todos os seres humanos: «o Pai do reino celeste dá-te o seu Verbo eterno, e nesse Verbo eterno Ele dá-te a sua própria vida, e o seu próprio ser, e a sua Divindade... Ele dá-te o poder de gerar com Ele, a ti próprio, e todas as coisas, e Ele dá-te a sua própria potência, como a esse mesmo Verbo. Assim, com o Pai, na potência do Filho, tu geras sem descanso a ti próprio, e todas as coisas, num contínuo presente.»

    A luz na qual o Pai não conhece nenhuma diferença entre o seu Filho e a alma é a pequena centelha: «o Pai e tu próprio, e todas as coisas, e esse mesmo Verbo, são "um" na luz.»

    Estes são pensamentos com os quais, desde os seus primeiros sermões, Eckhart familiarizou os seus auditores e leitores. [  ]


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Mestre Eckhart – Feliz o ventre que te trouxe 5


  1. Agora eu pego no outro ponto.
  2. É o que diz Nosso Senhor: «Se o grão de milho caído na terra não perece, fica sozinho e não dá fruto, mas se ele cai na terra e perece, ele produz fruto em cêntuplo.»
  3. «Em cêntuplo», isto significa no sentido espiritual: produz fruto sem número.
  4. Mas o que é o grão de milho que cai na terra, e o que é a terra no qual ele deve cair?
  5. Como eu quero provar desta vez, é o espírito, esse grão de milho a quem se nomeia ou que se chama uma alma humana, e a terra na qual ele deve cair, é a toda louvável humanidade de Jesus Cristo, eis com efeito o campo mais nobre que foi alguma vez criado da terra ou preparado para alguma fecundidade.
  6. O próprio Pai, e esse mesmo Verbo e Espírito Santo, prepararam o campo.
  7. Pois bem! qual era o fruto desse precioso campo de Jesus Cristo na sua humanidade?
  8. Era a sua nobre alma a partir do momento em que aconteceu, pela vontade de Deus e o poder do Espírito Santo, o serem formados a nobre humanidade e o nobre corpo, para a salvação dos seres humanos, no corpo de Nossa Senhora, e onde foi criada a nobre alma, de forma que o corpo e a alma foram unidos num único instante com o Verbo eterno.
  9. Tão rápido e tão verdadeiramente ocorreu a união; desde que o corpo e a alma compreenderam que ele estava lá, nesse mesmo instante, ele compreendeu que se tinham unido nele a natureza humana e a natureza divina, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, um Cristo que é Deus.
  10. Ora notem o modo da sua fecundidade.
  11. Agora eu chamo, desta vez, à sua nobre alma, um grão de milho que pereceu na terra da sua nobre humanidade, pelos seus sofrimentos e pelos seus atos, na tristeza e na morte, segundo a frase que ele próprio diz no momento da sua Paixão: «A minha alma está triste até à morte.»
  12. Ele não queria falar da sua própria alma, quando ela contempla espiritualmente o Bem supremo com o qual ela está unida na sua pessoa e que ele próprio é segundo a união e segundo a pessoa; mesmo no seu supremo sofrimento, ele contemplou esse Bem sem cessar segundo a sua potência superior, tão próximo e absolutamente como ele o faz agora, e nenhuma tristeza aí podia penetrar, nem sofrimento, nem morte.
  13. Porque, na verdade, quando o corpo morreu de dor sobre a cruz, o seu nobre espírito vivia nessa presença.
  14. Mas na parte em que o nobre espírito estava unido como potência intelectual aos sentidos e à vida do corpo santo, nessa medida, Nosso Senhor chamava ao seu espírito criado uma alma, enquanto ela dava a vida ao corpo, estava unida aos sentidos e à potência intelectual; segundo esse modo e nessa medida, a sua alma estava «triste até à morte», com o corpo, porque o corpo devia morrer.
  15. Eu falo agora da corrupção que o grão de milho, a sua nobre alma, sofreu no seu corpo de duas maneiras.
  16. De uma maneira que eu já falei previamente, quer dizer que a nobre alma tinha com o Verbo eterno uma contemplação espiritual de toda a natureza divina.
  17. Desde o primeiro instante em que ele foi criado e unido, ela corrompeu-se de tal forma na terra, no corpo, que, dessa maneira, ela não tinha mais nada a ver com ele, senão que ela estava unida com ele, e vivia com ele.
  18. Mas a vida dela estava como o corpo acima do corpo, diretamente em Deus, sem nenhum obstáculo.
  19. Assim, ela corrompeu-se na terra, no corpo, de tal forma que ela não tinha mais nada a fazer com ele, senão estar unida a ele.
  20. O outro modo da sua corrupção na terra, no corpo, era, como eu já disse precedentemente, quando ela deu a vida ao corpo, e foi unida aos sentidos; ela foi com o corpo cheia de trabalho, de esforços, de vicissitudes, de tristeza «até à morte», por forma que ela não tinha com o corpo e o corpo com ela - para falar deste modo - nunca nem repouso nem descanso nem satisfação indefectíveis, todo o tempo que o corpo foi mortal.
  21. E é o outro modo pelo qual o grão de milho, a nobre alma, se corrompeu desta maneira quanto ao repouso e ao prazo.
  22. Agora, notem o fruto cêntuplo e sem número deste grão de milho.
  23. O primeiro fruto, foi que ele prestou louvor e honra ao Pai, e a toda a natureza divina, pelo facto de que, pelas suas potências superiores, ele não se afastou em nada, nem um instante (do Bem supremo), nem para qualquer operação da potência intelectual, nem por qualquer sofrimento do corpo; apesar disso, ele permanecia sem cessar na contemplação da Divindade, prestando, por uma procriação em retorno, um louvor ininterrupto à senhoria paterna.
  24. Tal é um dos modos da fecundidade do grão de milho na terra da sua nobre humanidade.
  25. O outro modo é este: todo o sofrimento fecundo da sua santa humanidade que ele sofreu nesta vida: a fome, a sede, o frio, o calor, o vento, a chuva, o granizo, a neve, todos os tipos de trabalhos e mais a amargura da morte, tudo isso, ele o ofereceu absolutamente em sacrifício para a honra do Pai celeste; é ao mesmo tempo para ele próprio um louvor e uma fecundidade da parte de todas as criaturas que o querem seguir, vivendo da sua graça e de toda a potência dela.
  26. Vejam: tal é a outra fecundidade da sua santa humanidade, e do grão de milho da sua nobre alma que, por isso, se tornou fecunda com vista ao louvor dele próprio, e para a beatitude da natureza humana. 1

Notas
  1. Na segunda parte do sermão, a mais longa, Eckhart desenvolve o texto de João 12, 25, sobre o grão de milho que deve perecer na terra para produzir fruto em cêntuplo.

    O grão de milho é antes de mais a alma de Cristo que caiu na terra, no campo da sua humanidade.

    O primeiro fruto desse campo, foi quando, para a salvação dos seres humanos, o corpo foi formado no corpo da Virgem Maria, a alma foi criada, o corpo e a alma foram unidos num ponto do tempo com o Verbo de Deus.

    O segundo fruto foi a Paixão.

    A alma pereceu na terra da sua humanidade pelos seus atos e os seus sofrimentos, a tristeza e a morte.

    Ele próprio disse: «A minha alma está triste até à morte.» No entanto, pelas suas potências superiores, a alma continuava a contemplar o Pai celeste.

    O fruto múltiplo do grão de milho, a alma de Cristo, é a homenagem que ela prestou ao Pai, e a toda a natureza divina, o seu louvor constante, o sacrifício consentido. [  ]


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Mestre Eckhart – Feliz o ventre que te trouxe 6


  1. Eis que vocês acabaram de escutar como foi que a nobre alma de Nosso Senhor Jesus Cristo se tornou fecunda na sua santa humanidade.
  2. Ora vocês devem para alem disso ainda notar agora como é que o ser humano também deve aí chegar.
  3. Esse ser humano que quer lançar a sua alma, o grão de milho, no campo da humanidade de Jesus Cristo, afim de que ela aí pereça, e se torne fecunda, deve-se corromper também segundo dois modos.
  4. Um deve ser corporal, o outro espiritual.
  5. Deve-se compreender assim o modo corporal: o que quer que ele sofra quanto à fome, à sede, o desprezo e muitos sofrimentos imerecidos, de qualquer maneira que Deus lho inflija, ele deve acolhê-lo de bom grado e alegremente, tal como se Deus só o tivesse criado para o sofrimento, as vicissitudes e a pena, e ele não deve aí procurar e desejar em nada o seu bem próprio, nem no céu nem sobre a terra, e todo o seu sofrimento lhe deve parecer bem mínimo, tal como uma gota de água em relação com o mar encapelado.
  6. Também mínimo te deve parecer todo o teu sofrimento, comparado ao grande sofrimento de Jesus Cristo.
  7. Assim, o grão de milho, a tua alma, torna-se fecundo no nobre campo da humanidade de Jesus Cristo, e aí perece de tal forma que renuncia totalmente a si próprio.
  8. Tal é o primeiro modo da fecundidade do grão de milho caído no campo e na terra da humanidade de Jesus Cristo.
  9. Notem o segundo modo de fecundidade do espírito, do grão de milho!
  10. É toda a fome e a amargura espirituais nas quais Deus o faz cair; ele deve suportar tudo isso pacientemente; mesmo quando ele faz tudo o que ele pode, interiormente e exteriormente, ele não deve esperar nada em retorno.
  11. E se Deus o quisesse aniquilar ou lançar no inferno, ele não deve querer, nem desejar, que Deus o mantenha no seu ser ou que Ele o preserve do inferno, mas ele deve deixar Deus fazer dele aquilo que Ele quer, ou como se ele não existisse.
  12. Deus deve ter tanto poder sobre tudo aquilo que tu és, como sobre a sua própria natureza incriada.
  13. Tu deves ter outra coisa ainda.
  14. Eis: se Deus te tirasse a tua pobreza interior, te cumulasse de riqueza interior, e de graça, e te unisse a Ele próprio numa altura tão grande que a tua alma pudesse suportar, que então tu te consideres destituído dessa riqueza e dês a Deus apenas a honra, como quando a tua alma estava destituída quando Deus fez dela qualquer coisa a partir de nada.
  15. Tal é o outro modo da fecundidade que o grão de milho, a tua alma, recebeu da terra que é a humanidade de Jesus Cristo que, em toda a nobreza da sua fruição, permanecia desprendido como ele próprio diz aos fariseus: «Se eu procurasse a minha honra, a minha honra não seria nada. Eu procuro a honra do meu Pai que me enviou.» 1

Notas
  1. Como nele, o grão de milho da alma humana deve ser lançado ao campo da humanidade de Cristo, para que essa alma pereça como a sua, e produza também fruto no cêntuplo.

    Segundo dois modos: primeiro dando-se plenamente a Deus, quer dizer aceitando de bom grado todas os sofrimentos que Deus lhe quer enviar. Eles devem-lhe parecer mínimos, comparados com os de Cristo.

    Espiritualmente também, aceitando a fome e a amargura da alma, a sua aniquilação ou a sua danação se Deus quisesse assim. «Deus deve ter tanto poder sobre tudo aquilo que tu és, como sobre a sua própria natureza incriada.»

    E se Deus quiser conceder-te uma grande riqueza interior, que tu te consideres como destituído dessa riqueza, e prestes honra a Deus apenas. [  ]


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Mestre Eckhart – Feliz o ventre que te trouxe 7


  1. O terceiro ponto deste sermão, é o que disse Nosso Senhor: «João Batista é grande, ele é o maior que alguma vez apareceu entre todos os filhos das mulheres, mas se alguém fosse menor do que João, seria maior do que ele no reino dos céus.»
  2. Pois bem! notem quanto são estranhas e singulares as palavras de Jesus Cristo: ele louvou a grandeza de João, ele diz que ele era o maior daqueles que nasceram alguma vez da mulher, e ele diz no entanto: «Se alguém fosse menor do que João, seria maior do que ele no reino dos céus.»
  3. Como devemos nós compreender isto? Eu vou vos mostrar.
  4. Nosso Senhor não contradiz a sua própria palavra.
  5. Quando ele louvava João de ser o maior, queria dizer que ele era pequeno em verdadeira humildade: tal era a sua grandeza.
  6. Nós podemos constatá-lo porque o próprio Cristo diz: «Aprendam de mim que eu sou manso e humilde de coração.»
  7. Tudo o que em nós é virtudes, é em Deus um ser puro, e a sua própria natureza.
  8. É por isso que Cristo diz: «Aprendam de mim que eu sou manso e humilde de coração.»
  9. Tão humilde que fosse João, havia no entanto uma medida, e para além dessa medida, ele não era mais humilde, nem maior, nem melhor do que aquilo que ele era.
  10. Ora Nosso Senhor diz: «Se alguém fosse menor do que João, seria maior do que ele no reino dos céus.»
  11. É como se ele quisesse dizer: «Se alguém quisesse ultrapassar a humildade, nem que fosse da espessura de um cabelo, ou do que quer que seja, e fosse por isso mais humilde do que João, seria eternamente maior no reino dos céus.»
  12. Notem bem! Nem João, nem nenhum entre todos os santos, nos é proposto como um fim que nós deveríamos perseguir, ou como um fim limitado abaixo do qual nós deveríamos ficar.
  13. Cristo, Nosso Senhor, é o nosso fim único que nós devemos seguir, o nosso objetivo abaixo do qual nós devemos permanecer, e ao qual nós devemos estar unidos, semelhante a toda a sua honra, assim como uma tal união nos assenta.
  14. Nenhum santo, no reino dos céus, é tão santo, e tão perfeito, que na sua vida aqui em baixo, as suas virtudes não tenham tido uma medida.
  15. A grandeza da sua vida eterna é de acordo com essa medida, e toda a sua perfeição corresponde absolutamente a essa mesma medida.
  16. Verdadeiramente, na verdade, se qualquer pessoa ultrapassasse a medida do mais elevado dos santos que viveu nas virtudes e recebeu a sua beatitude em consequência disso - se qualquer pessoa ultrapassasse mesmo que fosse pouco a medida da virtude, ela seria segundo o modo da virtude ainda mais santa e mais feliz que esse santo alguma vez foi.
  17. Eu digo-o por Deus - é tão verdadeiro quanto é verdadeiro que Deus vive - não há no céu santo tão perfeito que tu não possas ultrapassar o modo da sua santidade pela tua santidade e pela tua vida, e que tu não possas estar acima dele no céu e aí permanecer eternamente.
  18. É por isso que eu digo: se alguém fosse mais humilde e menor que João, seria eternamente maior que ele no reino dos céus.
  19. A verdadeira humildade, é que um ser humano, sendo tudo aquilo que ele é, naturalmente criado a partir de nada, não pretenda absolutamente fazer ou omitir o que quer que seja se ele não o obtém da luz da graça.
  20. Que se saiba o que é preciso fazer e omitir, eis a verdadeira humildade da natureza.
  21. A humildade do espírito, é quando o ser humano se apropria e atribui a si tão pouco, todo o bem que Deus alguma vez lhe fez, quanto ele o fazia quando ele não tinha. 1
  22. Que Deus nos ajude a sermos assim tão humildes. Amém. 2

Notas
  1. Terceira parte do sermão: sobre o texto de Mateus 11, 11. Cristo louva João Batista: ele é o maior entre todos os filhos das mulheres, mas «se alguém fosse menor que João, seria maior que ele no reino dos céus.»

    Quando Cristo louvou João de ser tão grande, era por causa da sua humildade. Ora tão grande que tenha sido João, a sua santidade tinha uma medida, e nenhum limite é proposto à santidade.

    Só Cristo é o nosso modelo e o nosso fim. Se a tua humildade é maior que a de tal ou tal santo, tu podes ultrapassar a sua santidade. «Que se saiba o que é preciso fazer e omitir, eis a verdadeira humildade da natureza. A humildade do espírito, é quando o ser humano se apropria e atribui a si tão pouco, todo o bem que Deus alguma vez lhe fez, quanto ele o fazia quando ele não tinha (todo o bem que Deus alguma vez lhe fez).» [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 115-125. [  ]


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Mestre Eckhart – Todas as coisas semelhantes amam-se reciprocamente



  1. Todas as coisas semelhantes amam-se reciprocamente e unem-se entre elas
  2. No ser humano que profundamente se renunciou, é preciso que Deus se derrame totalmente
  3. A união reside na operação, mais do que no ser
  4. Há uma luz que está na alma, que é incriada e incriável
  5. Essa centelha recusa todas as criaturas, e só quer Deus na sua nudez



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Mestre Eckhart – Todas as coisas semelhantes amam-se reciprocamente 1


Sermão 49 - Todas as coisas semelhantes amam-se reciprocamente
  1. Um mestre diz: todas as coisas semelhantes amam-se reciprocamente e unem-se entre elas, e todas as coisas dissemelhantes afastam-se e odeiam-se reciprocamente. 1
  2. Um outro mestre diz que nada é tão dissemelhante quanto o céu e a terra.
  3. A terra sentiu na sua natureza que ela está longe do céu e lhe é dissemelhante.
  4. É por isso que ela fugiu dele até ao lugar mais baixo, e é por isso que a terra é imóvel, afim de não se aproximar do céu.
  5. O céu constatou na sua natureza que a terra fugiu dele, e que ocupou o lugar mais baixo.
  6. É por isso que ele se derrama totalmente na terra em fecundidade, e os mestres consideram que o largo e vasto céu não contém nada, mesmo na largura de uma ponta de agulha, que ele não o dê totalmente à terra em fecundidade.
  7. É por isso que a terra se chama a criatura mais fecunda entre todas as coisas temporais. 2

Notas
  1. É bastante raro que um sermão não seja introduzido por um texto da Escritura. O mestre ao qual Eckhart faz alusão é sem dúvida São Tomás, que ele cita numa passagem correspondente no seu Comentário I sobre a Génese. [  ]
  2. As coisas semelhantes amam-se e unem-se entre elas tal como pretende a sabedoria popular, as coisas dissemelhantes afastam-se e odeiam-se.

    O pregador dá primeiro, retirado à cosmologia medieval, o exemplo da terra e do céu aparentemente confuso, pelo facto de que, se a terra foge do céu, ela não o odeia: é porque, assimilada a um ser consciente, ela sentiu tudo o que a separa dele, e procurou em consequência o lugar mais baixo, como Eckhart nos disse noutro sítio mais concretamente ainda: «ela contraiu-se num canto, ela tem vergonha, ela desejava escapar ao belo céu de um canto ao outro» (sermão 14, Ergue-te, eleva-te Jerusalém).

    Precisamente por essa razão, o céu derrama-se totalmente na terra em fecundidade: «É por isso que a terra se chama a criatura mais fecunda entre todas as coisas temporais.» [  ]


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Mestre Eckhart – Todas as coisas semelhantes amam-se reciprocamente 2


  1. Da mesma maneira, portanto, eu digo do ser humano que se aniquilou a si próprio, em Deus, e em todas as criaturas: esse ser humano ocupou o lugar mais baixo, e nesse ser humano, é preciso que Deus se derrame totalmente, ou então Ele não é Deus.
  2. Eu digo-o de boa vontade, e em eterna verdade, e em perdurável verdade: em todo o ser humano que profundamente se «renunciou» (deixou), é preciso que Deus se derrame totalmente segundo todo o seu poder, tão completamente e absolutamente que em toda a sua vida, em todo o seu ser, na sua natureza, e em toda a sua Divindade, Ele não reserve nada que Ele não deva absolutamente derramar em fecundidade no ser humano que está «abandonado» (deixado) a Deus, e ocupou o lugar mais baixo. 1

Notas
  1. Como no sermão 22, Salve, cheia de graça, com uma força singular, como no sermão 26, Mulher, a hora chegará, e noutros lugares ainda, Eckhart insiste sobre a necessidade na qual se encontra Deus de se derramar no ser humano humilde, ele não encontra termos suficientemente fortes para o dizer e redizer: «É preciso que Deus se derrame totalmente segundo todo o seu poder... tão completamente e absolutamente que em toda a sua vida, em todo o seu ser, na sua natureza, e em toda a sua Divindade, Ele não reserve nada que Ele não deva absolutamente derramar em fecundidade», «ou então Ele não é Deus».

    Aquilo que ele não nos disse aqui, mas instruiu-nos noutros sermões, foi a causa desse constrangimento: ela não é outra senão a sua bondade. [  ]


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Mestre Eckhart – Todas as coisas semelhantes amam-se reciprocamente 3


  1. Hoje, quando vinha para aqui, eu questionava-me sobre como é que eu poderia pregar-vos suficientemente inteligivelmente para que vocês me compreendessem bem.
  2. Eu pensei então numa comparação, e se vocês conseguirem compreender, vocês compreenderão a minha maneira de ver, e o fundo de todos os pensamentos que eu alguma vez preguei.
  3. Era a comparação do meu olho e da madeira: quando o meu olho está aberto, é um olho; quando ele está fechado, é o mesmo olho.
  4. Quanto à madeira, quer ela seja vista ou não, não lhe acrescenta nem lhe retira nada.
  5. Compreendam-me bem! Mas se acontecer que o meu olho, que é um e simples em si próprio, estiver aberto e projetar a sua visão sobre a madeira, cada um fica aquilo que é, mas no entanto, na realização da visão, eles tornar-se-ão um, de tal forma que se pode dizer na verdade «olho-madeira», e a madeira é o meu olho.
  6. Mas se a madeira não tivesse matéria, e fosse absolutamente espiritual como a visão do meu olho, poder-se-ia dizer em verdade que na realização da visão, a madeira e o meu olho constituem um único ser.
  7. Se é verdade para as coisas materiais, é ainda bem mais verdadeiro para as coisas espirituais.
  8. Vocês devem saber que o meu olho tem muito mais unidade com o olho de uma ovelha que se encontra do outro lado do mar e que eu nunca vi, do que o meu olho tem de unidade com as minhas orelhas, com as quais ele está no entanto unido no mesmo ser; a causa disso é que o olho da ovelha tem a mesma atividade que o meu olho, e é por isso que eu lhe imputo mais unidade na operação do que eu o faço para os meus olhos e as minhas orelhas, porque eles diferem quanto às suas operações. 1

Notas
  1. «Hoje, quando vinha para aqui...» Acontece, de templos a tempos, que Mestre Eckhart fala de si próprio, das suas atividades, introduzindo os seus auditores no movimento do seu pensamento, e na intimidade da sua meditação; ele tenta com isto colocar ao alcance, daqueles que o escutam, verdades por vezes difíceis, mesmo paradoxais.

    Ele dá grande importância a isto, visto que ele chega a dizer: «Esse é o fundo de todos os pensamentos que eu alguma vez preguei.»

    Trata-se da teoria aristotélica da identidade entre o objeto conhecido e o conhecedor, da qual ele recebeu em herança através de São Tomás: a madeira e o olho que a observa tornam-se como um único; «olho-madeira, a madeira é o meu olho». Fórmula que pode surpreender os não iniciados e que por essa razão, ele a escolheu tão chocante quanto possível.

    No seu Comentário sobre São João, onde ele se refere expressamente a Aristóteles, ele escreve: «Ver e ser visto, é um mesmo ato».

    Aquilo que é verdadeiro dos objetos materiais, é ainda mais das realidades espirituais. A união reside na operação, mais do que no ser: assim, o olho humano e o de uma ovelha «do outro lado do mar» têm mais unidade entre eles do que os olhos e as orelhas que no entanto são um no ser. [  ]


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Mestre Eckhart – Todas as coisas semelhantes amam-se reciprocamente 4


  1. Eu algumas vezes falei de uma luz que está na alma, que é incriada e incriável.
  2. Dessa luz, eu falo sempre nos meus sermões, e essa mesma luz apreende Deus sem intermediário, sem que nada o recubra e na sua nudez, tal qual Ele é Ele próprio, e é esse o apreender na realização do nascimento.
  3. Então, eu posso verdadeiramente dizer que a luz tem mais unidade com Deus do que ela tem unidade com qualquer faculdade humana, no entanto com a qual ela é «um» no ser.
  4. Porque vocês devem saber que esta luz não é mais nobre no ser da minha alma do que a potência mais baixa ou a mais grosseira de todas, como o ouvido ou a vista, ou uma outra potência que respeita à fome ou à sede, ao frio ou ao calor; a razão disso é que o ser é simples.
  5. De tal forma que se se considera as potências no ser, elas são todas «um» e igualmente nobres, mas se se considera as potências nas suas operações, uma é muito mais nobre e mais elevada do que a outra. 1

Notas
  1. Como outro exemplo da unidade na operação - e é a isso que visa o sermão - Eckhart fala-nos agora da centelha que ele nomeia primeiro «uma luz que está na alma», sobre a qual ele insiste tantas vezes.

    Este sermão é um daqueles onde ele a nomeia de «incriada e incriável», o que causou tantas dificuldades a Mestre Eckhart junto dos diferentes censores.

    No ser, esta luz não é mais nobre que as potências mais baixas, aquelas que tocam no corpo e nos sentidos, o ser é simples, mas na operação, ela tem mais unidade com Deus do que com qualquer outra potência da alma. [  ]


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Mestre Eckhart – Todas as coisas semelhantes amam-se reciprocamente 5


  1. Eu digo portanto: quando o ser humano se afasta de si próprio, e de todas as coisas criadas - tanto tu ages assim, tanto tu estás unido e bem-aventurado na centelha da alma que nunca toca no tempo, nem no espaço.
  2. Essa centelha recusa todas as criaturas, e só quer Deus na sua nudez, tal qual Ele é n'Ele próprio.
  3. Não lhe chega nem o Pai, nem o Filho, nem o Espírito Santo, nem as Três Pessoas, na medida em que cada uma delas fica na sua particularidade.
  4. Eu digo na verdade que para essa luz não é suficiente a unicidade da natureza divina enquanto fecunda.
  5. Eu direi mais, o que dará um aspeto ainda mais estranho; eu digo-o em boa verdade, e em eterna verdade, e em perdurável verdade: a essa mesma luz não é suficiente nem mesmo o ser divino simples e impassível que não dá nem recebe; ela quer saber de onde vem esse ser; ela quer penetrar no fundo simples, no deserto silencioso onde nunca a distinção lançou um olhar, nem Pai, nem Filho, nem Espírito Santo, o mais íntimo onde nada está em si.
  6. É lá apenas que essa luz encontra a sua satisfação, e lá ela está mais intimamente do que ela está em si própria, porque esse fundo é um silêncio simples, imóvel em si próprio, e por essa imobilidade todas as coisas são movidas, e são concebidas todas as vidas que os vivos dotados de inteligência são em si próprios. 1
  7. Que a perdurável verdade de que eu falei nos ajude a viver assim segundo o intelecto. Amém. 2

Notas
  1. «É por isso que eu digo: quando o ser humano se afasta de si próprio, e de todas as coisas criadas - tanto tu ages assim, tanto tu estás unido e bem-aventurado na centelha da alma que nunca toca no tempo, nem no espaço.» Como ele já nos disse em tantas outras ocasiões, essa centelha recusa não apenas as criaturas, mas o Deus trinitário na propriedade das suas Pessoas.

    Ele sabe que vai espantar quem não têm o hábito de o escutar: «Eu direi mais, o que dará um aspeto ainda mais estranho.» Ele não emprega a palavra Divindade, mas ele evoca essa inefável realidade com imagens misteriosas: «o fundo simples, o deserto silencioso» onde essa luz «está mais intimamente do que ela está em si própria, porque esse fundo é um silêncio simples, imóvel em si próprio, e por essa imobilidade todas as coisas são movidas, e são concebidas todas as vidas que os vivos dotados de inteligência são em si próprios.» [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 110-114. [  ]


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Mestre Eckhart – O Espírito do Senhor encheu o globo da terra



  1. As criaturas trazem em si uma marca da natureza divina da qual elas emanam
  2. Um carpinteiro que faz uma casa formou-a nele previamente
  3. O que Deus opera de mais nobre em todas as criaturas, é o ser
  4. Com as potências superiores a alma toca na eternidade, mas com as potências inferiores ela toca no tempo
  5. Como é que a alma pode suportar, sem morrer, que Deus a aperte a Ele?



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Mestre Eckhart – O Espírito do Senhor encheu o globo da terra 1


Sermão 47 - O Espírito do Senhor encheu o globo da terra
  1. «O Espírito do Senhor encheu o globo da terra.» (Sb 1, 7).
  2. Um mestre diz que todas as criaturas trazem em si uma marca da natureza divina da qual elas emanam, por forma que elas possam operar segundo a natureza divina de onde elas fluíram. 1
  3. As criaturas emanam segundo dois modos.
  4. O primeiro modo dessas emanações está nas suas raízes, da mesma forma que as raízes produzem a árvore.
  5. O segundo modo da emanação é segundo um modo unificador.
  6. Vejam, a emanação da natureza divina produz-se também segundo dois modos.
  7. Uma dessas emanações é a do Filho a partir do Pai, ela ocorre segundo o modo da geração.
  8. A outra emanação é segundo um modo unificador, o Espírito Santo; esta emanação é a do amor do Pai e do Filho: é o Espírito Santo porque os dois se amam nele.
  9. Vejam, todas as criaturas manifestam que elas emanaram e fluíram da natureza divina, e elas trazem uma marca dela nas suas obras.
  10. Um mestre grego diz que Deus mantém todas as criaturas como que no freio para que elas ajam à sua semelhança.
  11. É por isso que a natureza tende sem cessar para o mais elevado que ela possa realizar.
  12. A natureza não queria só produzir o filho; se ela pudesse, ela queria produzir o pai.
  13. É por isso que, se a natureza operasse fora do tempo, ela não sofreria de faltas acidentais. 2

Notas
  1. «Todas as criaturas trazem nelas uma marca da natureza divina de onde elas emanaram...» O mestre a que Eckhart se refere anonimamente é talvez Boécio, que ele cita no seu Comentário sobre São João a propósito de um pensamento próximo deste, mas muitos mais mestres exprimiram uma opinião semelhante.

    Eckhart, ele próprio, disse-nos no sermão 9, Como uma estrela da manhã: «Aquele que não conhecesse nada a não ser as criaturas nunca teria necessidade de pensar num sermão, porque todas as criaturas estão cheias de Deus e são um livro.» [  ]
  2. Eckhart considera dois tipos de emanações: das Pessoas divinas a partir da Divindade, e das criaturas a partir do Criador.

    A primeira dessas duas «processões» é ela própria dupla: o Pai gera o Filho e num momento unificador, o Pai e o Filho amam-se no Espírito Santo.

    A segunda dessas «processões» é a das coisas a partir da sua causa. [  ]


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Mestre Eckhart – O Espírito do Senhor encheu o globo da terra 2


  1. Sobre este assunto, um mestre grego diz que a natureza, porque ela age dentro do tempo e do espaço, diferencia o filho do pai.
  2. Um mestre diz: um carpinteiro que faz uma casa formou-a nele previamente, e se a madeira estivesse suficientemente submetida à sua vontade, logo que ele quisesse, ela (a casa) ficaria pronta, e se a matéria não existisse não existiria outra diferença a não ser entre a geração e o imediatamente gerado.
  3. Vejam, não é assim em Deus porque não há nele nem tempo nem espaço, é por isso que elas (as Pessoas divinas) são um em Deus, e não existe outra diferença a não ser entre a emanação e o emanado. 1

Notas
  1. Ora, o ser humano pode percorrer ao contrário esta segunda emanação.

    É esta a importância da comparação com o carpinteiro, muitas vezes citada: o carpinteiro traz no seu espírito a imagem da casa que ele quer construir, e para compreender essa casa, é preciso reencontrar a ideia no espírito do carpinteiro.

    Da mesma forma, o ser humano só se compreende a si próprio se regressar à ideia do ser humano que permanece no seio do Criador.

    Este caminho de regresso é no entanto entravado pelo espaço e pelo tempo, da mesma forma que o carpinteiro não pode realizar imediatamente o plano da casa porque a madeira opõe uma resistência à sua vontade.

    Eckhart reservou a maior parte do seu sermão aos dois desenvolvimentos que acabam de ser mencionados. [  ]


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Mestre Eckhart – O Espírito do Senhor encheu o globo da terra 3


  1. «O Espírito do Senhor». Porque é que Ele se chama Senhor?
  2. É porque ele nos enche.
  3. Porque é que Ele se chama Espírito?
  4. É porque Ele nos une a Ele.
  5. Reconhece-se a senhoria por três sinais.
  6. Um deles, é que o Senhor é rico. Rico é aquilo que possui tudo sem nenhuma falta. Eu sou um homem e se eu sou rico, eu não sou por isso um outro homem. Se eu fosse todos os homens, eu não seria por isso um anjo. Mas se eu fosse anjo e homem, eu não seria por isso todos os anjos. É por isso que não é verdadeiramente rico senão Deus apenas porque contém simplesmente todas as coisas n'Ele.
  7. É por isso que Ele pode dar totalmente: tal é o outro sinal da riqueza. Um mestre diz que Deus se oferece a Ele próprio a todas as criaturas, cada uma pode tomar d'Ele tanto quanto ela queira. Eu digo que Deus se oferece a mim como ao anjo mais elevado, e se eu estivesse tão disponível como ele, eu receberia tanto quanto ele. Eu disse frequentemente que Deus se comportou eternamente como se Ele tivesse procurado com zelo como é que Ele poderia agradar à alma.
  8. O terceiro sinal da riqueza, é que se dê sem reciprocidade, porque aquele que dá para obter qualquer coisa não é plenamente rico. É por isso que a riqueza de Deus se manifesta no facto de que Ele dá gratuitamente todos os seus dons. Daí esta frase do profeta: «Eu disse ao meu Senhor: tu és o meu Deus porque tu não tens necessidade do meu bem.»
  9. Só esse é um «Senhor» e é «Espírito».
  10. Eu digo que Ele é «Espírito»: a nossa beatitude consiste em que Ele nos une a Ele.
  11. O que Deus opera de mais nobre em todas as criaturas, é o ser.
  12. O meu pai dá-me realmente a minha natureza, mas ele não me dá o meu ser. Isso, só Deus o opera absolutamente.
  13. É por isso que, todas as coisas que existem, sentem uma alegria bem compreensível pelo facto de serem.
  14. Vejam - eu já o disse por vezes, e eu não fui bem compreendido - é por isso que Judas no inferno não quereria (se pudesse) ser um outro no céu. Porquê? Se ele devesse ser outro, era preciso que o seu ser fosse aniquilado. Isso não é possível porque o ser não se renega a si próprio.
  15. O ser da alma é receptivo ao fluxo da luz divina, no entanto nem tão pura nem tão límpida quanto Deus a pode dar (a luz divina), mas velada.
  16. Vê-se bem a luz do sol quando ela se derrama sobre uma árvore ou sobre outra coisa, mas nós não a podemos apreender a ela própria.
  17. Vejam, é assim dos dons divinos, é preciso que eles sejam medidos segundo aquele que os deve receber, e não segundo aquele que os dá. 1

Notas
  1. Deus é Senhor. A senhoria reconhece-se por três sinais.

    Um deles é a riqueza. Ora Deus é o único rico porque só Ele possui tudo. Segundo sinal: Ele pode dar totalmente. Cada uma das suas criaturas pode tomar d'Ele tanto quanto ela queira. E o terceiro sinal de riqueza: Ele dá tudo gratuitamente e sem reciprocidade.

    «O que Deus opera de mais nobre em todas as criaturas, é o ser.» Para ilustrar o valor do ser e o apego de cada criatura ao seu próprio ser, o pregador exprime-se em seguida assim: «É por isso que Judas no inferno não quereria (se pudesse) ser um outro no céu. Porquê? Se ele devesse ser outro, era preciso que o seu ser fosse aniquilado. Isso não é possível porque o ser não se renega a si próprio.»

    Apesar de Mestre Eckhart muitas vezes ter convidado os seus auditores a apreenderem bem o sentido das suas palavras, apesar de várias vezes os ter avisado para não se inquietarem se o significado das suas palavras lhes escapassem, ele informa-nos aqui claramente que ele não foi bem compreendido quando ele citou Judas a propósito do apego da criatura ao seu ser.

    Nós não encontramos em nenhuma outra parte das suas obras, exceto nas atas do processo, uma tal alusão à incompreensão da qual ele foi objeto. Encontra-se, no entanto, outros textos onde ele fala deste mesmo apego que pode surpreender, como o do sermão 6, Os justos viverão eternamente: «Tão desejável em si é a vida que é desejada por ela própria. Aqueles que estão no inferno, nos tormentos eternos, não quereriam (se pudessem) perder a sua vida, nem os demónios, nem as almas, porque a vida deles é tão nobre que ela flui diretamente de Deus para a alma.»

    Isto só se aplicaria ainda às coletividades, dos demónios, dos danados - não a Judas infamado por todos os séculos cristãos, e aqui estamos na Idade Média. A declaração de Eckhart abre-nos perspetivas sobre o que se possa ter passado e que, com efeito, por tal ou tal caminho, se passou realmente: as tagarelices, as discussões entre auditores mais ou menos escandalizados, alguns mais audaciosos pedindo ao Mestre explicações, e esses rumores chegaram até aos inimigos dos dominicanos, até ao arcebispo.

    Não nos espantaremos no entanto por não encontrar rasto dessa acusação nos diversos processos (é verdade que nós não os possuímos todos). Tão obtusos que fossem os censores, eles não poderiam negar a doutrina unanimemente admitida segundo a qual a perfeição primeira é o ser. [  ]


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Mestre Eckhart – O Espírito do Senhor encheu o globo da terra 4


  1. Um mestre diz: Deus é uma medida de todas as coisas, e segundo um ser humano tem em si mais de Deus que outro, ele é mais sábio, mais nobre, e melhor que o outro.
  2. Ter mais de Deus não é outra coisa do que ser mais semelhante a Deus; quanto mais há em nós semelhança com Deus, mais nós somos espirituais.
  3. Um mestre diz: onde terminam os espíritos mais baixos começam as coisas corporais mais altas.
  4. Tudo isto significa: Deus sendo espírito, a menor coisa que é espírito é mais nobre que a coisa corporal mais elevada.
  5. É por isso que uma alma é mais nobre que todas as coisas corporais, tão nobres quanto sejam.
  6. A alma é criada como num lugar entre o tempo e a eternidade, onde ela toca um e a outra.
  7. Com as suas potências superiores ela toca na eternidade, mas com as suas potências inferiores ela toca no tempo.
  8. Assim portanto, ela age no tempo, não segundo o tempo, mas segundo a eternidade.
  9. Isto, ela partilha-o com os anjos.
  10. Um mestre diz: o espírito é um trenó que leva a vida a todos os membros graças à grande união da alma com o corpo.
  11. Apesar do espírito ser dotado de intelecto e de ele realizar absolutamente a obra que é realizada pelo corpo, não se deve no entanto dizer: a minha alma conhece ou faz isto ou aquilo, mas deve-se dizer: eu faço ou eu conheço isto ou aquilo devido à grande união que têm um com o outro, porque o corpo e a alma em conjunto são um único ser humano.
  12. Se uma pedra recebesse o fogo nela, ela operaria segundo a potência do fogo, mas quando o ar recebe em si a luz do sol, nenhuma outra luz aparece distinta do ar, devido à sua permeabilidade à luz, no entanto há mais luz numa légua, que em meia légua.
  13. Vejam, eu ouso dizer e é verdade: devido à grande união entre a alma e o corpo, a alma está no membro mais pequeno tão perfeitamente como está dentro do corpo todo inteiro.
  14. Sobre este assunto, Agostinho diz: se a união do corpo e da alma é tão grande, a união que une o espírito ao Espírito é ainda bem maior.
  15. Vejam, Ele é «Senhor» e «Espírito» afim de nos fazer felizes ao nos unir a Ele. 1

Notas
  1. Desta grande união da alma e do corpo, todos os mestres falaram, desde Aristóteles até São Tomás. Eckhart insiste particularmente na unidade do composto humano: apesar de ser o espírito dotado de intelecto que age no corpo, não se deve dizer: a minha alma conhece ou faz isto ou aquilo, mas antes: eu faço ou eu conheço isto ou aquilo.

    Deus é espírito, é por isso que a coisa mais pequena que é espírito é mais nobre que todas as coisas corporais.

    Agostinho diz: se a união do corpo e da alma é tão grande, a união que une o espírito ao Espírito é ainda maior. Vejam, Ele é «Senhor» e «Espírito» afim de nos fazer felizes ao nos unir a Ele. [  ]


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Mestre Eckhart – O Espírito do Senhor encheu o globo da terra 5


  1. Uma questão à qual é difícil responder: como é que a alma pode suportar, sem morrer, que Deus a aperte a Ele?
  2. Eu digo: tudo o que Deus lhe dá, Ele dá-lhe n'Ele por duas razões.
  3. Eis uma: se Ele lhe desse o que quer que fosse fora d'Ele, ela desdenhá-lo-ia.
  4. Eis a outra razão: porque Ele lhe dá n'Ele próprio, ela pode recebê-lo e suportá-lo n'Ele, e não nela, porque o que é d'Ele é dela.
  5. Tendo-a subtraído a ela própria, é preciso que o que é d'Ele seja dela, e o que é dela seja verdadeiramente d'Ele.
  6. Assim, ela pode suportar a união com Deus.
  7. Tal é o «Espírito do Senhor» «que encheu toda a terra».
  8. Porque é que a alma se chama «toda a terra»? e como é preciso que seja a alma para que seja eleita, isso não é dito, mas notem bem isto: da mesma forma que Ele é «Senhor» e «Espírito», nós devemos ser uma «terra» espiritual e um «globo» que deve ser enchido pelo «Espírito do Senhor». 1
  9. Nós rezamos ao nosso querido Senhor para que nós sejamos cheios por esse «Espírito» que é «Senhor» e «Espírito». Amém. 2

Notas
  1. No fim do sermão, Eckhart coloca uma questão à qual, diz ele, é difícil responder: «como é que a alma pode suportar, sem morrer, que Deus a aperte a Ele?... porque Ele lhe dá n'Ele próprio, ela pode recebê-lo e suportá-lo n'Ele, e não nela, porque o que é d'Ele é dela. Tendo-a subtraído a ela própria, é preciso que o que é d'Ele seja dela, e o que é dela seja verdadeiramente d'Ele. Assim, ela pode suportar a união com Deus.»

    Não se trata aqui da união na eternidade, sem o que o pregador não teria perguntado como é que a alma a pode suportar «sem morrer», sobretudo depois de ter falado da perenidade do ser. Parece bem que temos aqui um dos raros textos nos quais Eckhart fala diretamente da união mística.

    A expressão «tendo-a subtraído a ela própria» é particularmente notória. Nós encontramos com profusão descrições desses estados em místicos de épocas ulteriores, em João da Cruz, em Teresa de Ávila, para não falar de tantos outros de menor envergadura. [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 104-109. [  ]


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