Mestre Eckhart – Prega a palavra



  1. Prega a palavra, di-la, exprime-a, produ-la e pare a palavra!
  2. Tudo o que emana de Deus, tudo o que Deus prometeu é muito estranho
  3. O ser humano desprendido realiza ao mesmo tempo que Deus toda a obra de Deus
  4. Deus fez-se homem afim de te poder criar como seu Filho único
  5. Se todas as criaturas dormirem em ti, tu podes aperceber-te daquilo que Deus opera em ti
  6. Agarra Deus em todas as coisas, porque Deus está em todas as coisas
  7. Ama Deus acima de todas as coisas e o teu próximo como a ti mesmo
  8. Aceita com uma perfeita igualdade de alma tudo aquilo que te acontecer
  9. Desprende-te do que é teu e dirige todas as tuas obras para Deus



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Mestre Eckhart – Prega a palavra 1


Sermão 30 - Prega a palavra
  1. Hoje e amanhã lê-se uma frase a respeito de monsenhor S. Domingos. 1
  2. S. Paulo escreveu-a na carta 2 e ela significa: «Prega a palavra, di-la, exprime-a, produ-la e pare a palavra!» 3

Notas
  1. Era normal que Mestre Eckhart escolhesse este texto para o dia em que se celebrava o fundador dos Irmãos pregadores, onde ele se endereça mais particularmente a pregadores.

    Este sermão foi portanto dito num 5 de Agosto, festa de S. Domingos no antigo missal dominicano.

    A carta contém estas palavras de Paulo a Timóteo: “Praedica verbum!” Prega a palavra!

    Nós veremos muitas semelhanças nos temas, e por vezes nas expressões, com os sermões 25, 27, 28.

    O plano deste sermão 30, com as suas divisões e subdivisões, é um pouco mais complicado. [  ]
  2. Praedica verbum, vigila, in omnibus labora (2Tim 4, 2). [  ]
  3. A carta de S. Paulo comporta imperativos diferentes daqueles que o pregador acrescenta: «... di-la, exprime-a, produ-la e pare a palavra.»

    Não se trata de uma simples insistência, tal como faz compreender o último termo.

    As intenções aparecer-nos-ão mais claramente no decurso do sermão. [  ]


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Mestre Eckhart – Prega a palavra 2


  1. É uma coisa estranha que uma coisa se escoe para fora e fique no entanto dentro.
  2. Que a palavra se escoe para fora e fique no entanto dentro, é muito estranho; que todas as criaturas se escoem para fora e fiquem no entanto dentro, é muito estranho; o que Deus deu e o que Deus prometeu dar, é muito estranho, é incompreensível e inacreditável.
  3. E está bem que seja assim, porque se fosse compreensível e se fosse credível, não estaria bem.
  4. Deus está em todas as coisas.
  5. Quanto mais ele está nas coisas, mais ele está fora das coisas; quando mais ele é interior, mais ele é exterior, e quanto mais ele é exterior, mais ele é interior. 1

Notas
  1. Eckhart já usou a comparação da palavra humana que nasce do interior, se escoa para fora, permanece no entanto no interior sob a forma de pensamento; ele tenta também fazer compreender como é que a Palavra, o Verbo, flui para fora e permanece no entanto no Pai, como também todas as criaturas, saídas de Deus, permanecem em Deus.

    Tudo o que emana de Deus, tudo o que Deus prometeu é com efeito «muito estranho» (gar wunderlich), o epíteto é repetido quatro vezes.

    Eckhart insiste igualmente na imanência e na transcendência de Deus: «... quanto mais ele é interior, mais ele é exterior, e quanto mais ele é exterior, mais ele é interior». [  ]


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Mestre Eckhart – Prega a palavra 3


  1. Eu já disse várias vezes que Deus cria agora este universo todo, absolutamente.
  2. Tudo o que Deus criou há seis mil anos e mais, quando Deus fez o mundo, Deus cria-o totalmente agora, mas enquanto Deus é divino, e enquanto Deus é inteligível.
  3. Deus não está em nenhuma parte tão verdadeiramente como na alma e no anjo, se tu queres, no mais interior da alma e no mais elevado da alma.
  4. E quando eu digo «o mais interior», eu quero dizer o mais elevado, e quando eu digo «o mais elevado», eu quero dizer o mais interior da alma.
  5. No mais interior e no mais elevado da alma, eu quero dizer os dois num só.
  6. Lá onde o tempo nunca penetra, onde nenhuma imagem alguma vez irradia: no mais interior e no mais elevado da alma, Deus cria este universo inteiro.
  7. Tudo o que Deus criou há seis mil anos quando ele fez o mundo, e tudo o que Deus ainda deve criar em mil anos, se o mundo durar tanto tempo, Deus cria-o no mais interior e no mais elevado da alma.
  8. Tudo o que é passado, e tudo o que é presente, e tudo o que é futuro, Deus cria-o no mais interior da alma.
  9. Tudo o que Deus opera em todos os santos, Deus opera-o no mais interior da alma.
  10. O Pai cria o seu Filho no mais interior da alma e ele cria-te ao mesmo tempo que o seu Filho único, não menor.
  11. Se eu devo ser Filho, é preciso que eu seja Filho no mesmo ser no qual ele é Filho, e em nenhum outro.
  12. Se eu devo ser um ser humano, eu não posso ser um ser humano no ser de um animal, é preciso que eu seja um ser humano no ser de um humano, mas se eu devo ser este ser humano aqui, é preciso que eu seja este ser humano neste ser aqui.
  13. Ora S. João diz: «Vocês são filhos de Deus.» 1

Notas
  1. O pregador regressa em seguida à presença de Deus no mais elevado e no mais interior da alma.

    Não apenas ele aí cria o seu Filho único, mas ele aí cria todo o passado, todo o presente, todo o futuro.

    O ser humano desprendido estando situado fora do tempo, na eternidade, realiza ao mesmo tempo que Deus toda a obra de Deus. [  ]


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Mestre Eckhart – Prega a palavra 4


  1. «Prega a palavra, di-la, exprime-a, produ-la, pare a palavra!»
  2. «Di-la!» O que, dito no exterior, penetra em ti, é uma coisa fruste, esta é dita no interior.
  3. «Di-la!» quer dizer: descobre o que está em ti.
  4. O profeta diz: «Deus disse uma palavra e eu ouvi duas».
  5. É verdade: Deus nunca disse mais que uma.
  6. O seu dizer é apenas um.
  7. Nesse dizer único, ele diz o seu Filho e ao mesmo tempo o Espírito Santo e todas as criaturas mas só há aí no entanto um dizer em Deus.
  8. Mas o profeta diz: «Eu ouvi duas.»
  9. Quer dizer: eu ouvi Deus e as criaturas.
  10. Lá onde Deus a diz, ela é Deus, mas aqui ela é criatura.
  11. As gentes imaginam que Deus se fez homem acolá unicamente.
  12. Não é assim, porque Deus fez-se homem tanto aqui como acolá, e ele fez-se homem afim de te poder criar como seu Filho único e não menor. 1

Notas
  1. «Prega a palavra, di-la...» quer dizer descobre o que está em ti.

    Apesar de Deus nunca dizer mais do que uma palavra, o profeta ouviu duas: Deus e as criaturas.

    Lá onde Deus a diz, ela é Deus. Aqui em baixo ela é criatura.

    «As gentes imaginam que Deus se fez homem acolá unicamente. Não é assim, porque Deus fez-se homem tanto aqui como acolá.»

    O tempo, sendo um presente perpétuo, a Incarnação ocorre tanto agora quanto no seu momento histórico... «e ele fez-se homem afim de te poder criar como seu Filho único e não menor», esta criação é uma consequência da Incarnação de Deus.

    Esta primeira parte do sermão termina com este texto: «... como seu Filho único e não menor». [  ]


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Mestre Eckhart – Prega a palavra 5


  1. Eu estava ontem sentado num lugar e disse uma frase que se encontra no Pai Nosso.
  2. Ela diz: «Que a tua vontade seja feita!» mas seria melhor: «Que a vontade seja tua!», que a minha vontade se torne na sua vontade afim de que eu me torne nele: tal é o significado do Pai Nosso.
  3. Esta frase tem dois sentidos.
  4. Um é: «Dorme para todas as coisas!» quer dizer: não saibas nada do tempo, nem das criaturas, nem das imagens.
  5. Os mestres dizem: uma pessoa que dormisse profundamente, se dormisse cem anos, não saberia nada de nenhuma criatura, não saberia nada do tempo nem das imagens, e então tu podes aperceber-te do que Deus opera em ti.
  6. É por isso que a alma diz no Livro do Amor: «Eu durmo mas o meu coração vigia.»
  7. É por isso que se todas as criaturas dormirem em ti, tu podes aperceber-te daquilo que Deus opera em ti. 1

Notas
  1. Na segunda parte do sermão, o pregador explica a frase do Pai Nosso: «Fiat voluntas tua!»

    Ele atribui-lhe dois sentidos: «Dorme para todas as coisas!» Ele aproxima do segundo termo da frase de S. Paulo, «vigila», o versículo do Cântico (5, 2): «Eu durmo, mas o meu coração vigia.»

    Se todas as criaturas «dormirem» na pessoa desprendida, então o seu «coração» pode aperceber-se daquilo que Deus opera nela. [  ]


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Mestre Eckhart – Prega a palavra 6


  1. A frase: «Faz esforço em todas as coisas!» tem três significados.
  2. Ela quer dizer: «Suscita a tua vantagem em todas as coisas!»
  3. Quer dizer: «Agarra Deus em todas as coisas!», porque Deus está em todas as coisas.
  4. S. Agostinho diz: «Deus criou todas as coisas, não que ele as tenha feito ser, e depois tenha continuado o seu caminho, mas que ele ficou com elas.»
  5. As gentes imaginam, quando elas têm as coisas ao mesmo tempo que Deus, que elas têm mais do que se elas tivessem Deus sem as coisas, mas é falso, porque todas as coisas ao mesmo tempo que Deus, não é mais que Deus só, e se alguém que tem o Filho, e o Pai ao mesmo tempo que ele, imaginasse que tinha mais do que se tivesse o Filho sem o Pai, seria falso.
  6. Porque o Pai com o Filho não é mais do que o Filho só, assim como o Filho com o Pai não é mais do que o Pai só.
  7. É por isso que, agarra Deus em todas as coisas, e é um sinal de que ele te criou como seu Filho único, e não menor. 1

Notas
  1. «Faz esforço em todas as coisas!» quer dizer: «Suscita a tua vantagem em todas as coisas!» e, assim, tem três significados.

    O primeiro: «Agarra Deus em todas as coisas!» Deus está em todas as coisas e é ele que se deve procurar em todas as coisas.

    Deus e as coisas não são mais do que Deus só.

    Também, o Pai com o Filho não são mais que uma única Pessoa, o Mestre Eckhart considera-as aqui na sua essência, que é uma. [  ]


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Mestre Eckhart – Prega a palavra 7


  1. Eis o outro significado: «Suscita a tua vantagem em todas as coisas!»
  2. Quer dizer: «Ama Deus acima de todas as coisas e o teu próximo como a ti mesmo.»
  3. E é um mandamento de Deus.
  4. Ora eu digo que não é apenas um mandamento, é também um dom que Deus fez e que prometeu fazer.
  5. E se tu preferes que cem marcos sejam teus em vez de serem doutro, é um erro.
  6. Se tu preferes uma pessoa a outra, é um erro, e se tu preferes o teu pai e a tua mãe e a ti próprio mais do que outro humano, é um erro, e se tu preferes a beatitude em ti mais do que num outro, é um erro. 1
  7. «Deus nos abençoe! Que estás a dizer? Não devo preferir a beatitude em mim mais do que num outro?»
  8. Muitas gentes doutas não o compreendem e acham que é muito difícil, mas não é difícil, é muito fácil.
  9. Eu quero mostrar-te que não é difícil.
  10. Vê, a natureza tem duas intenções com respeito a cada membro que opera no ser humano.
  11. A primeira intenção que ela tem em vista nas suas operações, é de servir o corpo todo inteiro, e em seguida cada membro em particular, como ele próprio, e não menos que ele próprio, e nas suas operações, a sua intenção não vai mais para ele próprio que para um outro membro.
  12. Deve ser bem mais assim quanto à graça.
  13. Deus deve ser uma regra e um fundamento do teu amor.
  14. A primeira intenção do teu amor deve ser dirigida unicamente para Deus e em seguida para o teu próximo como para ti próprio, e não menos do que para ti próprio.
  15. E se tu preferes a beatitude em ti do que num outro, é um erro, porque se tu preferes a beatitude em ti mais do que num outro, tu preferes-te a ti próprio, e se tu te preferes, Deus não é puramente a tua preferência e é um erro.
  16. Ora se tu gostas da beatitude em S. Pedro e em S. Paulo como em ti próprio, tu possuis a mesma beatitude que eles.
  17. E se tu gostas da beatitude nos anjos como em ti, e se tu gostas da beatitude na Nossa Senhora como em ti, tu desfrutas da mesma beatitude, tão verdadeiramente como ela própria, ela pertence-te propriamente como a ela.
  18. É por isso que está dito no Livro da Sabedoria: «Ele tornou-o semelhante aos seus santos.» 2

Notas
  1. O segundo significado: «Ama Deus acima de todas as coisas e o teu próximo como a ti mesmo.»

    Está com efeito na linha eckhartiana considerar como um dom todos os mandamentos.

    O pregador puxa-o como de costume ao extremo: não preferir o dinheiro para si mais do que para um outro, não preferir o seu pai e a sua mãe mais do que um outro ser humano, não preferir a beatitude em si mais do que num outro. [  ]
  2. Prevendo as objeções íntimas dos seus auditores, Eckhart responde-lhes assegurando-lhes que uma tal atitude é fácil.

    O exemplo é aqui retirado da natureza: nas suas operações, das quais o ser humano é o objeto, ela atua primeiro para o corpo inteiro, depois para cada membro em particular.

    Com mais forte razão deve ser assim no domínio da graça: o amor do ser humano deve tender primeiro para Deus, em seguida deve amar o seu próximo «como a si próprio».

    Como grande compensação, esta pessoa desprendida de tudo – e primeiro de si própria – possuirá a beatitude de todos os anjos e de todos os santos. [  ]


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Mestre Eckhart – Prega a palavra 8


  1. Eis o terceiro significado: «Suscita a tua vantagem em todas as coisas!»
  2. Ama Deus igualmente em todas as coisas, quer dizer: ama Deus tão voluntariamente na pobreza como na riqueza, ama-o tanto na doença como na saúde, ama-o tanto na tentação como sem tentação, ama-o tanto no sofrimento como sem sofrimento.
  3. E mesmo quanto maior for o sofrimento, mais o sofrimento é leve; como dois baldes: quanto mais um é pesado, mais o outro é leve; e quanto mais a pessoa abandona, mais lhe é fácil abandonar.
  4. Para uma pessoa que ama Deus, seria tão fácil abandonar este universo inteiro quanto um ovo.
  5. Quanto mais ele abandona, mais fácil lhe é abandonar; assim como para os apóstolos: quanto mais os seus sofrimentos eram penosos, mais eles os suportavam facilmente. 1

Notas
  1. Eis o terceiro significado de «Suscita a tua vantagem em todas as coisas!»

    Quer dizer: «Ama Deus igualmente em todas as coisas!»

    Aceita com uma perfeita igualdade de alma aquilo que te acontecer: doença ou saúde, tentação ou sofrimento.

    Aliás, o sofrimento e a renuncia aceites por Deus não são penosos a uma pessoa que o ama verdadeiramente, como era o caso dos apóstolos. [  ]


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Mestre Eckhart – Prega a palavra 9


  1. «Faz esforço em todas as coisas!»
  2. Quer dizer: onde quer que te encontres estabelecido em coisas múltiplas, que não seja no Ser na sua nudez, puro e simples, faz esforço, quer dizer: «Faz esforço em todas as coisas, realiza o teu serviço.»
  3. Isto quer dizer: «Levanta a cabeça!» e tem dois significados.
  4. O primeiro é: Desprende-te de tudo o que é teu e remete-te a Deus, assim Deus torna-se no teu bem próprio como ele é o seu bem próprio e ele é Deus para ti como ele é Deus para ele próprio, e não menos.
  5. O que é meu, eu não o tenho de ninguém, mas se eu o tenho de um outro, não é meu, é dele de quem eu o tenho. 1
  6. O segundo sentido de «Levanta a cabeça!», hei-lo: dirige todas as tuas obras para Deus.
  7. Muitas gentes não compreendem isto.
  8. Eu não fico surpreendido, porque a pessoa que o pode compreender tem de ser muito desprendida e elevada acima de todas as coisas. 2
  9. Que Deus nos ajude para que nós cheguemos a essa perfeição. Amém. 3

Notas
  1. Par terminar o desenvolvimento do seu sermão, Eckhart retira outro texto de S. Paulo na mesma carta (2Tim 4, 5): «Realiza o teu serviço!» isto quer dizer: «Levanta a cabeça!» e tem, por seu turno, dois significados.

    Por um lado: Desprende-te do que é teu: pertence só a Deus e Deus tornar-se-á no teu bem próprio como ele é o seu bem próprio.

    A pequena frase que segue é nalgumas palavras como que o resumo da doutrina eckartiana sobre as relações entre Deus e o ser humano: o ser humano não se pertence, ele pertence a Deus.

    «O que é meu, eu não o tenho de ninguém, mas se eu o tenho de um outro, não é meu, é dele de quem eu o tenho.» [  ]
  2. O segundo sentido de «Levanta a cabeça!», é que é preciso dirigir todas as suas obras para Deus.

    Só há uma condição para o conseguir, sempre a mesma: o desprendimento. [  ]
  3. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 1-30 - Tome I», Éditions du Seuil, Paris, 1974, p. 241-247. [  ]


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Livro da Vida Perfeita - A natureza e a graça


  1. «É preciso, diz-se igualmente, rejeitar e afastar ao mesmo tempo a vida de Cristo e todos os mandamentos, as leis, as instruções e as regras, etc.»
  2. Isso é falso e mentiroso.
  3. «Mas, poder-se-á dizer, visto que nem Cristo nem os outros não podem atingir nem obter nada de útil ao seguirem a vida de Cristo quer pelas instruções, regras, etc., visto que já possuem tudo o que há para atingir nelas, o que os pode impedir de se livrarem delas? Devem eles apesar disso continuar a preocupar-se com elas e a observá-las?»
  4. É preciso estar aqui bem atento. Existem dois tipos de luz: uma luz que é verdadeira e uma outra que é falsa.
  5. A verdadeira luz é a luz eterna - Deus - ou então uma luz criada e portanto divina - a que se chama a «graça». Tudo isto é a luz verdadeira.
  6. Quanto à falsa luz, é a luz natural - a natureza.
  7. «Porque é que uma é verdadeira e a outra falsa?»
  8. Sente-se mais do que se pode escrever ou dizer...
  9. Deus, enquanto Divindade, não tem nada de próprio: nem vontade, nem saber, nem manifestação, nem nada que se possa nomear, dizer ou pensar.
  10. Mas Deus, enquanto Deus, deve conhecer-se, amar-se e manifestar-se a Si próprio em Si próprio - tudo isto em Deus, enquanto essência e não enquanto ação: antes mesmo que exista qualquer criatura. É nesta revelação e nesta manifestação que aparece a distinção das pessoas divinas.
  11. Quando Deus enquanto Deus se torna homem-Deus, quando Ele vive num homem santificado, «qualquer coisa» lhe é própria então que lhe pertence a Ele apenas e não à criatura.
  12. Qualquer coisa que tem nela própria, antes de qualquer criatura, a sua origem e a sua essência, mas não a sua forma e a sua realidade.
  13. E Deus quer que «essa coisa» seja cumprida, porque ela está lá para se realizar e se cumprir.
  14. O que faria ela de outra forma? Se ela ficasse ociosa, para que serviria ela? O que não serve para nada, é vão: nem Deus nem a criatura o querem.
  15. Deus quer portanto que ela se realize e se cumpra.
  16. E isso não se pode produzir sem a criatura. Se não existisse nem isto nem aquilo, se não houvesse nenhuma ação, nenhuma atualidade, nenhuma realidade, etc., que faria Deus? O que seria ele? De quê seria ele Deus?
  17. É preciso parar aqui, e fazer marcha atrás.
  18. Porque, se quiséssemos continuar assim, em breve não saberíamos mais onde estávamos, nem como sair de lá...

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