Mestre Eckhart – Esta é a vida eterna



  1. Vocês devem ser um único Filho com Cristo, e vocês devem ser também uma única emanação com o Verbo eterno
  2. É tão verdadeiro que Deus se tornou ser humano, como é verdadeiro que o ser humano se tornou Deus
  3. As obras do ser humano devem viver, é preciso que elas provenham do seu ser próprio
  4. Vocês devem-se apropriar da justiça segundo ela é «a» justiça, assim vocês apropriam-se dela segundo ela é Deus



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Mestre Eckhart – Esta é a vida eterna 1


Sermão 46 - Esta é a vida eterna
  1. Estas palavras estão escritas no Santo Evangelho. Nosso Senhor Jesus Cristo diz: «A vida eterna, é que tu sejas conhecido, o único verdadeiro Deus, e o teu Filho que tu enviaste, Jesus Cristo.» (Jo 17, 3). 1
  2. Ora notem! Ninguém pode conhecer o Pai, senão o seu Filho único.
  3. Com efeito, este próprio diz: «Ninguém conhece o Pai, senão o seu Filho, e ninguém conhece o Filho, senão o seu Pai.»
  4. É por isso que, se o ser humano deve conhecer Deus, no que consiste a sua felicidade eterna, ele deve ser com Cristo um Filho único do Pai, e é por isso que, se vocês querem ser felizes, vocês devem ser um com o Filho, não muito filhos, mas um Filho.
  5. Vocês devem certamente ser diferentes segundo o nascimento corporal, mas no nascimento eterno vocês devem ser um, porque é a natureza que tem origem em Deus, e é por isso que só há uma emanação natural do Filho, não duas: uma única. E é por isso que, se vocês devem ser um único Filho com Cristo, vocês devem ser também uma única emanação com o Verbo eterno. 2

Notas
  1. Não se encontrará aqui uma exegese dos diferentes termos do texto escolhido, segundo o procedimento tão frequentemente empregue por Mestre Eckhart. O sermão, aliás curto, está todo ele animado por um único pensamento, desenvolvido segundo uma rigorosa lógica: a identificação ao Filho. [  ]
  2. «A vida eterna, é que te conheçam, o único verdadeiro Deus, e o teu Filho que tu enviaste, Jesus Cristo.» Ora, segundo uma outra frase de Cristo, «ninguém conhece o Pai senão o seu Filho, e ninguém conhece o Filho, senão o seu Pai» (Mt 11, 27).

    Convém portanto que, se as pessoas querem a sua beatitude, que elas sejam um com Cristo, não apenas filhos no sentido lato, como se poderia dizer de todos os cristãos, não um único Filho, mas o próprio Filho único, uma única emanação do Verbo eterno. [  ]


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Mestre Eckhart – Esta é a vida eterna 2


  1. Como é que o ser humano deve chegar a ser um Filho único do Pai?
  2. Notem! O Verbo eterno não assumiu esta pessoa nem aquela pessoa, mas ele assumiu uma natureza humana livre, indivisa, que era simples, sem traços particulares, porque a forma simples da humanidade não tem figura.
  3. E é por isso que, quando a natureza humana foi assumida pelo Verbo eterno, simplesmente, sem figura particular, a imagem do Pai, que é o Filho eterno, tornou-se na figura da natureza humana.
  4. Porque é tão verdadeiro que Deus se tornou ser humano, como é igualmente verdadeiro que o ser humano se tornou Deus.
  5. E assim, a natureza humana é transfigurada pelo facto de que ela se tornou a imagem divina que é a imagem do Pai.
  6. E assim, se vocês devem ser um único Filho, é preciso que vocês se desprendam e separem de tudo aquilo que introduz em vocês uma diferença.
  7. Cada ser humano é acidental em relação à natureza humana, e é por isso que vocês se devem separar daquilo que é acidental em vocês, e se devem aceitar segundo a natureza humana livre, indivisa.
  8. E porque essa mesma natureza, segundo a qual vocês se aceitam e se tornam Filhos do Pai eterno, sendo assumida pelo Verbo eterno, vocês se tornam assim Filhos do Pai eterno com Cristo, pelo facto de que vocês se aceitam segundo a mesma natureza que se tornou Deus.
  9. Evitem portanto o vocês aceitarem-se de qualquer forma segundo a qual vocês são esta pessoa ou aquela pessoa, mas vocês aceitem-se segundo a natureza humana livre, indivisa.
  10. É por isso que, se vocês querem ser um único Filho, desprendam-se de todo «não» porque o «não» cria a diferença.
  11. Como? Notem! Porque tu «não» és esta pessoa, este «não» cria uma diferença entre ti e essa pessoa.
  12. E assim, se vocês querem ser sem diferença, separem-se do «não» (nada).
  13. Porque há na alma uma potência que está separada do «nada» (não) porque ela não tem nada de comum com nenhuma outra coisa; nada está nessa potência a não ser Deus sozinho, Ele projeta a sua luz pura nessa potência. 1

Notas
  1. O pregador explica em seguida como é que o ser humano pode chegar até lá. Nós já lemos diversas vezes e particularmente no sermão 24, São Paulo diz, um longo desenvolvimento sobre o tema que reencontramos aqui.

    O Verbo eterno não assumiu em si esta pessoa ou aquela pessoa, «ele assumiu em si uma natureza humana livre, indivisa, sem traços particulares que era simples sem imagem.»

    Nós encontramos frequentemente a palavra «figura, imagem» empregue por Mestre Eckhart com sentidos diferentes, em particular para designar os arquétipos das criaturas que Deus tem em si.

    Na frase acima, cada palavra é um pouco ambígua, mas o conjunto compreende-se no contexto. A natureza humana, que Cristo assumiu, é indivisa, a mesma para todas as pessoas, simples, sem imagem, quer dizer sem ter uma marca individual.

    O Verbo é a imagem do Pai, no sentido pleno da palavra, a sua reprodução integral, e pela sua incarnação ele tornou-se também a imagem da nossa natureza humana.

    Sem apelar, desta vez, ao famoso texto de Agostinho sobre a divinização do ser humano que ele gosta de citar, Eckhart conclui no mesmo espírito: «Porque é tão verdadeiro que Deus se tornou ser humano, como é igualmente verdadeiro que o ser humano se tornou Deus.»

    É preciso portanto que aquele que se quer tomar no Filho único do Pai evite assimilar-se individualmente, a esta pessoa ou àquela pessoa, mas que se separe de tudo o que em si próprio é «acidente». O pregador emprega, para designar este ser humano, os mesmos termos de que se serviu para o Verbo eterno: que ele se assuma «segundo a natureza humana livre, indivisa».

    O «não» cria toda a diferença. Eckhart joga com o duplo sentido deste termo: «não», tu não és essa pessoa, negação; e ao mesmo tempo, «não», quer dizer «nada», segundo um outro significado igualmente caro ao pregador. Duplo e único conselho: não te consideres segundo o teu próprio indivíduo e separa-te de todo o nada, quer dizer de tudo o que em ti é criado.

    Mestre Eckhart fala-nos logo depois, e não fortuitamente, daquilo que, na alma, está «separado do nada». Apesar de, aqui outra vez, lhe ter chamado «potência», nós reconhecemos a «pequena centelha», o «castelo», o «qualquer coisa na alma» que não tem nada de comum com o que quer que seja, onde Deus vive só. [  ]


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Mestre Eckhart – Esta é a vida eterna 3


  1. Vejam: o ser humano que é assim um Filho toma o seu movimento e a sua operação, e tudo aquilo que toma, no seu ser próprio.
  2. O Filho do seu Pai, deve o seu ser, o ser da eternidade, ao Pai, mas o seu ter, deve-o a si próprio.
  3. Com efeito, no seu ser e na sua natureza ele é um com o Pai.
  4. Eis porque o ser e a essência estão totalmente nele, tal como está dito: «Pai, como eu e Tu somos um, eu quero que eles sejam um.»
  5. E assim, da mesma forma que o Filho é um com o Pai, segundo o ser e segundo a natureza, tu és um com Ele, segundo o ser e segundo a natureza, e tu o tens todo em ti, como o Pai o tem em si; tu não o tens de Deus em vassalagem, porque Deus é o teu bem próprio.
  6. Em consequência, aquilo que tu assumes, tu o assumes no teu bem próprio, e as obras que tu não assumes no teu bem próprio, essas obras estão todas mortas diante de Deus.
  7. São as obras para as quais tu és movido para fora de ti por causas estrangeiras, elas não saem da vida, é por isso que estão mortas, porque só vive uma coisa que se move por si própria.
  8. Se portanto as obras do ser humano devem viver, é preciso que elas provenham do seu ser próprio, não de coisas estrangeiras nem fora dele, mas dele. 1

Notas
  1. O ser humano deve viver dessa parte dele próprio.

    Transformado no Filho com o Verbo eterno, ele possui Deus em si próprio.

    A partir do seu interior ele realiza todas as suas obras; aquelas que são movidas por causas estrangeiras são todas mortas. [  ]


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Mestre Eckhart – Esta é a vida eterna 4


  1. Notem bem! Se vocês amam a justiça segundo o que a justiça é para ti ou em ti, vocês não amam a justiça segundo que ela é «a» justiça, e assim vocês não a consideram, e não a amam, na sua simplicidade, mas vocês consideram-na como dividida.
  2. Deus sendo a justiça, vocês não o consideram, e vocês não o amam, segundo que ele é simples.
  3. É por isso que vocês se devem apropriar da justiça segundo que ela é «a» justiça, e assim vocês apropriam-se dela segundo que ela é Deus.
  4. Assim portanto, onde a justiça opera, vocês operam, porque então vocês operam a justiça em todo o tempo.
  5. Sim, e se o inferno estivesse no caminho da justiça, vocês operavam a justiça e ele não seria para vocês uma pena, ele seria para vocês uma alegria, porque vocês seriam vocês próprios a justiça, e é por isso que vocês devem operar a justiça, porque na medida em que uma qualidade se eleva em direção ao universal, ela coincide com a simplicidade dessa universalidade e, nessa medida também, ela é mais simples. 1
  6. Que Deus nos ajude a chegar à simplicidade da verdade. Amém. 2

Notas
  1. Ele realiza todas as suas obras a partir do seu interior. Aquelas que são movidas por causas estrangeiras são todas mortas, mesmo se ele as opera na justiça.

    A justiça sendo Deus, é em relação a Deus que ele as deve realizar na alegria. [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 100-103. [  ]


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Mestre Eckhart – Simão Pedro, feliz és tu



  1. Uma pessoa boa não deseja louvor, deseja apenas ser digna de louvor
  2. Não se deve abandonar a virtude por nada do mundo
  3. A beatitude depende de quatro fatores
  4. O núcleo da vida eterna reside mais no conhecimento que na vontade
  5. É preciso que se esteja morto para se contemplar Deus
  6. Se não existisse intermediário para a alma, ela veria Deus sem nenhum véu
  7. Na graça a alma é purificada, e levada para o alto, e preparada para a contemplação divina
  8. A alma que, com toda a sua força, se voltou sob a luz de Deus está inflamada e abrasada no amor divino
  9. Eckhart enumera seis pontos aos quais deve responder a pessoa para chegar à beatitude
  10. Deus dá à pessoa justa um ser divino, e nomeia-a com o mesmo nome que é próprio do seu ser
  11. Feliz a pessoa que lá chegou a receber, com o Filho, da mesma fonte de que o Filho recebe



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Mestre Eckhart – Simão Pedro, feliz és tu 1


Sermão 45 - Simão Pedro, feliz és tu
  1. Nosso Senhor diz: «Simão Pedro, feliz és tu: não foi a carne nem o sangue que to revelou, mas o meu Pai que está no céu.» (Mt 16, 17). 1
  2. São Pedro tem quatro nomes: ele chama-se «Pedro», ele chama-se «Bar Iona», ele chama-se «Simão» e ele chama-se «Cefas».
  3. Nosso Senhor diz: «Feliz és tu!» Todas as pessoas desejam a beatitude.
  4. Ora um mestre diz: todas as pessoas desejam ser louvadas.
  5. Ora Santo Agostinho diz: uma pessoa boa não deseja louvor, deseja apenas ser digna de louvor.
  6. Os nossos mestres dizem: no seu fundo e na sua especificidade, a virtude é tão pura, e tão cerceada, e tão desprendida de todas as coisas terrestres que absolutamente nada se pode misturar com ela sem sujar a virtude e a transformar em vício.
  7. Um único pensamento, ou qualquer procura do interesse próprio, e não é mais uma verdadeira virtude, ela torna-se num vício.
  8. Eis a essência da virtude. 2

Notas
  1. Segundo toda a verosimilhança, este sermão foi pronunciado numa das festas de São Pedro: Cadeira de São Pedro (22 de Fevereiro), Santos Pedro e Paulo (29 de Junho), São Pedro Acorrentado (1 de Agosto). [  ]
  2. Ele começa por um desenvolvimento da frase de Cristo a Pedro: «Feliz (beatus) és tu!» Eckhart reduz aqui a beatitude ao desejo de ser louvado, e responde pela boca de Agostinho que só o desejo de ser digno de louvor deve animar a pessoa virtuosa.

    Toda a virtude é conspurcada quando procura qualquer outra coisa que não seja ela própria. [  ]


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Mestre Eckhart – Simão Pedro, feliz és tu 2


  1. Um mestre pagão diz: aquele que pratica a virtude por qualquer outra coisa que a virtude - isso nunca foi uma virtude.
  2. Se ele procura o louvor ou qualquer outra coisa, ele vende a virtude.
  3. Devido à sua natureza, não se deve abandonar a virtude por nada do mundo.
  4. É por isso que uma pessoa boa não deseja louvor, deseja apenas ser digna de louvor.
  5. Uma pessoa não deve ficar afligida porque estão enfurecidos contra ela, deve afligir-se por merecer a fúria. 1

Notas
  1. O «mestre pagão» que ele cita a este propósito é Séneca, o qual ele nomeia numa passagem correspondente do seu comentário sobre São João. [  ]


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Mestre Eckhart – Simão Pedro, feliz és tu 3


  1. Nosso Senhor diz: «Feliz tu és!»
  2. A beatitude depende de quatro fatores: que se tenha tudo o que tem o ser, que é agradável desejar e que traz uma satisfação; que o possuamos absolutamente sem partilha e com toda a alma; que seja tomado em Deus, no mais puro e mais elevado, despojado, sem véu, na primeira emanação e no fundo do ser; e que tudo isto seja tomado onde Deus ele próprio o toma: tal é a beatitude. 1

Notas
  1. O pregador enumera em seguida as quatro condições da beatitude no sentido pleno do termo: 1) que tenhamos tudo o que possui o ser, 2) que o possuamos sem partilha e com toda a nossa alma, 3) que o tomemos no que Deus tem de mais elevado, na primeira difusão, quer dizer em Cristo, e 4) no fundo do ser onde Deus ele próprio o toma, quer dizer na Divindade. [  ]


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Mestre Eckhart – Simão Pedro, feliz és tu 4


  1. Ora ele diz: «Pedro», o que significa: «aquele que contempla Deus».
  2. Os mestres questionam se o núcleo da vida eterna reside mais no conhecimento ou na vontade.
  3. A vontade tem duas operações: o desejo e o amor.
  4. A operação do conhecimento é simples, é por isso que ela é superior; a sua operação consiste em conhecer, e ela nunca repousa antes de ter tocado sem véu naquilo que ela conhece.
  5. E assim ela precede a vontade, e dá-lhe a conhecer aquilo que ela ama.
  6. Todo o tempo que se desejam as coisas, não se têm.
  7. Quando se têm, amam-se, e o desejo desaparece. 1

Notas
  1. Eckhart aborda em seguida a interpretação dos nomes de São Pedro.

    Seguindo São Jerónimo, como ele o indica várias vezes nas suas obras latinas e no início do sermão alemão número 3, Agora sei verdadeiramente, Pedro quer dizer «conhecimento». Neste texto é mais explícito: Pedro significa «que contempla Deus».

    Eckhart regressa aqui, uma vez mais, à primazia na vida eterna da vontade ou do conhecimento.

    É a este último que ele a atribui, tal como costuma fazer na maior parte das vezes. [  ]


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Mestre Eckhart – Simão Pedro, feliz és tu 5


  1. Como deve ser constituído aquele que deve contemplar Deus?
  2. Ele deve estar morto.
  3. O Senhor diz: «Ninguém me pode ver e viver.»
  4. São Gregório diz: «Está morto aquele que está morto para o mundo.»
  5. Examinem vocês próprios como é um morto, e quanto pouco ele é afetado por tudo o que existe no mundo.
  6. Se se morre para este mundo, não se morre para Deus.
  7. Santo Agostinho pronunciava diversos tipos de orações.
  8. Ele dizia: «Senhor, tem piedade de mim, e mostra-me a tua face, e concede-me que morra, e concede-me que não morra para que eu te contemple eternamente.»
  9. Tal é o primeiro ponto: é preciso que se esteja morto se se quer contemplar Deus.
  10. É o primeiro nome: «Patrus». 1

Notas
  1. Da contemplação de Deus no lado de lá, ele passa à contemplação de Deus neste mundo.

    Apoiando-se no versículo do Êxodo 33, 20: «Não poderás ver a minha face, porquanto homem nenhum verá a minha face, e viverá», ele refere-se a São Gregório que diz: «Está morto quem está morto para o mundo.»

    Ele cita várias orações de Santo Agostinho que exprimem o seu desejo de contemplar Deus. [  ]


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Mestre Eckhart – Simão Pedro, feliz és tu 6


  1. Um mestre diz: se não existisse intermediário, ver-se-ia uma formiga no céu.
  2. Um outro mestre diz: se não existisse intermediário, não se veria nada.
  3. Ambos dizem a verdade.
  4. Para que a cor que está na parede seja trazida até ao meu olho, é preciso que ela passe pelo crivo, e refinada no ar, e na luz, e ser assim espiritualmente trazida para dentro do meu olho.
  5. Igualmente, é preciso que a alma que deve contemplar Deus seja passada pelo crivo, e refinada na luz, e na graça.
  6. É por isso que o mestre tem razão que diz que se não existisse intermediário não se veria nada.
  7. O outro mestre tem razão também que diz que se não existisse intermediário ver-se-ia uma formiga no céu.
  8. Se não existisse intermediário para a alma, ela veria Deus sem nenhum véu. 1

Notas
  1. Da mesma forma que a cor da parede deve ser afinada no ar e na luz para chegar ao meu olho, é preciso que a alma seja afinada pela luz da graça para contemplar Deus.

    Eckhart faz aqui alusão às posições contrárias de Aristóteles e de Demócrito, sem os nomear, mas ele discute-as no seu comentário ao Livro da Sabedoria (na seção Sanctis autem tuis).

    Nota-se que, falando geralmente perante um público de monjas e laicos, Mestre Eckhart não nomeia frequentemente os autores que cita senão os grandes nomes conhecidos por toda a cristandade: Gregório e particularmente Agostinho. Os outros são «os mestres», ou «um mestre»; eles ficam para o seu público no anonimato, sobretudo quando são escritores «pagãos». Mas encontramos geralmente os seus nomes nas suas obras latinas que se dirigem aos clérigos. [  ]


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Mestre Eckhart – Simão Pedro, feliz és tu 7


  1. O segundo nome «Bar Iona» significa «filho da graça» na qual a alma é purificada, e levada para o alto, e preparada para a contemplação divina. 1

Notas
  1. Eckhart detém-se pouco sobre o nome Bar Iona. Misturando várias etimologias, interpreta-o no sentido de «filho da graça». [  ]


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Mestre Eckhart – Simão Pedro, feliz és tu 8


  1. O terceiro nome é «Simão»; quer dizer «aquele que é obediente» e «aquele que é submisso».
  2. Aquele que deve ouvir Deus deve estar separado, longe dos outros.
  3. É por isso que David diz: «Eu me calarei e ouvirei o que Deus diz em mim. Ele anuncia a paz no seu povo, e aos seus santos, e a todos aqueles que estiverem voltados para Ele nos seus corações.»
  4. Feliz a pessoa que se aplica a ouvir o que Deus diz nela; ela deve submeter diretamente a sua obediência ao raio da luz divina.
  5. A alma que, com toda a sua força, se voltou sob a luz de Deus está inflamada e abrasada no amor divino.
  6. A luz divina brilha diretamente desde o alto sobre ela.
  7. Se o sol brilhasse diretamente sobre a nossa cabeça, poucas pessoas viveriam.
  8. Igualmente, a potência superior da alma, que é a cabeça, deveria estar igualmente elevada sob o raio da luz divina para que possa aí brilhar a luz divina de que eu frequentemente falei; ela é tão pura, e tão eminente, e tão elevada que todas as luzes são treva, e nada, comparadas com ela.
  9. Tais quais elas são, todas as criaturas são como um nada; quando irradia sobre elas a luz onde elas tomam o seu ser, então elas são qualquer coisa. 1

Notas
  1. Ele regressa à interpretação clássica de São Jerónimo dando a «Simão» (terceiro nome de Pedro) o sentido de «aquele que é obediente», «aquele que é submisso». E cita o Salmo 83, 9 para convidar ao silêncio aquele que quer ouvir em si a palavra de Deus.

    A potência superior da alma, o intelecto, deveria ser elevado sob o raio da luz divina para que esta possa aí brilhar.

    Quando todas as criaturas, que nelas próprias são nada (niht) - afirmação frequentemente repetida, e fonte de mal-entendidos que conduzirão aos processos de Colónia e de Avinhão -, quando portanto as criaturas se colocam debaixo dessa luz, de onde elas recebem o seu ser, elas são qualquer coisa (int). [  ]


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Mestre Eckhart – Simão Pedro, feliz és tu 9


  1. Eis porque o conhecimento natural não pode nunca ser suficientemente nobre para tocar ou apreender Deus sem intermediário, a menos que a alma não tenha nela estas seis caraterísticas de que eu falei.
  2. A primeira: que se esteja morto a toda a dissemelhança.
  3. A segunda: que se esteja bem purificado na luz e na graça.
  4. A terceira: que se tenham ultrapassado os intermediários.
  5. A quarta: que se escute a palavra de Deus no mais íntimo de si.
  6. A quinta: que se incline sob a luz divina.
  7. A sexta: é o que diz um mestre pagão: a beatitude consiste em viver segundo a potência superior da alma; ela deve levar todo o ser para o alto e tomar em Deus a sua beatitude.
  8. Lá onde o Filho, ele próprio, a toma na primeira emanação, nós também devemos tomá-la naquilo que Deus tem de mais elevado; nós também devemos então tender em direção ao que nós temos de mais elevado. 1

Notas
  1. Eckhart enumera seis pontos aos quais deve responder a pessoa para chegar à beatitude.

    Lá onde o Filho, ele próprio, a recebe, nós a devemos receber também; é em direção a esse fim que nós devemos tender aquilo que nós temos de mais elevado. [  ]


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Mestre Eckhart – Simão Pedro, feliz és tu 10


  1. «Cefas» quer dizer «cabeça».
  2. O intelecto é a cabeça da alma.
  3. Aqueles que fazem a asserção mais fruste dizem que o amor precede, mas aqueles que fazem a melhor asserção dizem expressamente - e é bem verdade - que o núcleo da vida eterna reside mais no conhecimento que no amor.
  4. E saibam porquê.
  5. Os nosso melhores mestres - eles não são numerosos - dizem que o conhecimento e o intelecto tendem diretamente para Deus, mas o amor volta-se para aquilo que ele ama e apodera-se lá daquilo que é bom, enquanto que o conhecimento apreende o porquê de qualquer coisa ser boa.
  6. O mel é, em si próprio, mais doce do que qualquer outra coisa que se possa fazer com ele.
  7. O amor toma Deus enquanto que Ele é bom, mas o conhecimento penetra mais alto, e toma Deus enquanto que Ele é ser.
  8. É por isso que Deus diz: «Simão Pedro, feliz és tu!»
  9. Deus dá à pessoa justa um ser divino, e nomeia-a com o mesmo nome que é próprio do seu ser.
  10. É por isso que ele diz em seguida: «Meu Pai que está no céu.» 1

Notas
  1. O quarto nome é «Cefas» que quer dizer «cabeça». Eckhart retoma, segundo uma outra fórmula, o pensamento emitido mais acima sobre a prioridade do intelecto: «O amor apodera-se daquilo que é bom, enquanto que o conhecimento apreende o porquê é bom.» [  ]


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Mestre Eckhart – Simão Pedro, feliz és tu 11


  1. Entre todos os nomes, nenhum convém melhor (a Deus) que «aquele que é».
  2. Porque se alguém, para indicar uma coisa, dissesse: «é ...», isso pareceria uma absurdidade; mas se dissesse: «é madeira ou uma pedra», saber-se-ia o que ele entende com isso.
  3. É por isso que nós dizemos: o Seu nome próprio obtém-se desprendendo, afastando, despojando tudo até que nada reste senão o simples «é»: tal é a particularidade do Seu nome.
  4. É por isso que Deus diz a Moisés: «Diz: "aquele que é" enviou-me!»
  5. É por isso que Nosso Senhor designa os seus com o seu próprio nome.
  6. Nosso Senhor diz aos seus discípulos: «Aqueles que me seguem serão assentados à minha mesa no reino do meu Pai, eles comerão os meus manjares, beberão a bebida que o meu Pai preparou para mim; igualmente eu também a preparei para vocês.»
  7. Feliz a pessoa que lá chegou a receber, com o Filho, da mesma fonte de que o Filho recebe.
  8. É lá também que nós recebemos a nossa beatitude, lá onde reside a beatitude d'Ele, lá onde Ele tem o seu ser, nesse mesmo fundo, todos os seus amigos receberão e beberão a beatitude deles.
  9. Tal é a «mesa no reino de Deus». 1
  10. Que Deus nos ajude para que nós cheguemos a essa mesa. Amém. 2

Notas
  1. O pregador regressa em seguida à frase de Cristo citada no início do sermão: «Simão Pedro, feliz és tu!» «Deus dá à pessoa justa um ser divino e nomeia-a com o mesmo nome que é próprio do seu ser.» Quando a palavra «feliz» parecia ter o peso da frase de Cristo, Eckhart dá dela uma outra interpretação na última parte do seu sermão.

    O nome que convém melhor a Deus é aquele pelo qual Ele se nomeia a Moisés: «Ego sum qui sum», que Mestre Eckhart comenta no Prólogo do Opus propositionum, citando o Êxodo, Job e Damasceno, e que ele cita duas vezes aqui: «aquele que é».

    Segundo o exemplo que ele dá, o emprego do verbo ser, «é ...», não seguido de um adjetivo ou de um nome que o explique, constitui uma absurdidade. Ele só tem sentido se, no seu desenvolvimento, estiver atribuído a Deus: «é». «Simão Pedro, feliz és tu!»: tu és: tal é o nome que pertence a Cristo visto que Ele é Deus, visto que ELE É, e que Ele dá aos seus aquilo que Ele próprio é, a saber o ser.

    A promessa que Cristo lhes faz em seguida, de comerem os seus manjares à mesa que Ele lhes preparou, é a sequência direta desse nome que Ele lhes deu. [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 94-99. [  ]


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Mestre Eckhart – Quando se completaram os dias



  1. O Filho não é semelhante ao Pai, mas é o mesmo, é um com o Pai
  2. Na medida em que o ser humano está no interior, nessa medida ele é divino
  3. A Deus pertence a operação, à alma o desejo, assim como o poder de que Deus nasça nela, e ela em Deus
  4. Toda a nossa vida, e todo o nosso desejo, devem estar incluídos e suspensos em Deus, e inclinados para Ele
  5. O ser humano humilde recebe imediatamente o influxo da graça
  6. Nós nascemos e somos recreados constantemente na primeira imagem
  7. Que o ser humano esteja na paz, e esteja lá bem estabelecido



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Mestre Eckhart – Quando se completaram os dias 1


Sermão 44 - E eis que um homem estava em Jerusalém
  1. São Lucas escreve no Evangelho: «Quando os dias se completaram, Cristo foi levado ao templo. E eis que em Jerusalém estava um homem chamado Simão, justo e temente a Deus: ele aguardava pela consolação do povo de Israel, e o Espírito Santo esta nele.» (Lc 2, 22 e 25). 1
  2. «E eis que»: esta pequena palavra «et» designa em latim uma união, uma ligação, uma inclusão.
  3. O que está absolutamente ligado e incluso significa união.
  4. Com isto eu quero dizer que o homem está ligado a Deus, incluso n'Ele, unido a Ele.
  5. Os nosso mestres dizem: a união quer a similitude.
  6. Não pode existir união sem similitude.
  7. O que está ligado e incluso faz a união.
  8. O que está próximo de mim, quando eu estou sentado próximo, ou quando eu me encontro no mesmo lugar, não cria a similitude.
  9. Agostinho diz a este respeito: Senhor, quando eu me encontrava longe de ti, não era por causa da distância, mas antes pela dissimilitude em que eu me encontrava.
  10. Um mestre diz: aquele cujo ser e a operação se situam absolutamente na eternidade, e aquele cujo ser e a operação se situam absolutamente no tempo, nunca se harmonizam, nunca se aproximam.
  11. Os nossos mestres dizem: entre as coisas cujo ser e a operação se situam na eternidade, e as coisas cujo ser e a operação se situam no tempo, existe necessariamente um intermediário.
  12. Mas onde a inclusão, a ligação é total, tem-se necessariamente a presença do mesmo.
  13. Onde Deus e a alma devem estar unidos, é preciso que sejam iguais.
  14. Onde não há nenhuma desigualdade, necessariamente só lá há o Um.
  15. Então produz-se, não apenas uma união por inclusão, mas antes a unidade, não apenas a semelhança, mas o mesmo.
  16. É por isso que nós dizemos que o Filho não é semelhante ao Pai, mas que é o mesmo, que é um com o Pai. 2

Notas
  1. Mestre Eckhart tirou o seu texto do evangelho de Lucas, para a Purificação de Maria (2 de fevereiro).

    O sermão apresenta-se, com efeito, como uma explicação palavra a palavra do texto latino: «Et ecce homo erat in Ierusalem».

    Estas seis palavras constituem as seis seções do sermão. [  ]
  2. O pregador começa pela interpretação do latim «et».

    Esta «pequena palavra», a cópula, designa a união. «Com isto eu quero dizer que o homem está ligado a Deus, incluso n'Ele, unido a Ele.»

    Segundo a palavra dos «mestres» (entendamos sobretudo Agostinho e Tomás), a união quer a «similitude». A palavra «semelhança» apresenta-se imediatamente ao espírito, mas no sermão 13, Viu sobre o monte Sião, onde ele emprega estes termos, Eckhart declara que eles são «maus e enganadores». «Deus pode tolerar tão pouco a semelhança, quanto pode tolerar que Ele não é Deus.»

    Igualmente no sermão 6, Os justos viverão eternamente, ele rejeita o conceito de semelhança.

    A última frase do primeiro parágrafo, sem equívoco, permite dar às diferentes acepções destas palavras um valor mais próximo do pensamento eckhartiano: «É por isso que nós dizemos que o Filho não é semelhante ao Pai, mas que é o mesmo (idêntico), que é um com o Pai.» [  ]


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Mestre Eckhart – Quando se completaram os dias 2


  1. Os nossos melhores mestres dizem: uma imagem numa pedra ou numa parede, se a pudéssemos isolar do seu suporte, se a considerássemos enquanto que imagem, faria absolutamente um com aquilo de que ela é a imagem.
  2. Quando a alma penetra na imagem, (na alma) onde não há nada de estrangeiro, onde só está a imagem (divina) com a qual ela é uma única imagem, ela recebe um bom ensinamento.
  3. Quando se é introduzido na imagem onde se é semelhante a Deus, aí apreende-se Deus, aí encontra-se Deus.
  4. Onde existe uma divisão para o exterior, não se encontra Deus.
  5. Quando a alma penetra na imagem, e se encontra unicamente na imagem, ela encontra Deus na imagem, e pelo facto de que ela se encontra e encontra Deus, é uma única operação fora do tempo; lá ela encontra Deus.
  6. Na medida em que ela está no interior, nessa medida, ela é «um» com Deus, ele quer dizer: na medida em que se está incluído lá onde a alma é a imagem de Deus.
  7. Na medida em que o ser humano está no interior, nessa medida ele é divino; na medida em que ele está no interior, nessa medida ele está em Deus, não incluído, não unido, mas antes «um». 1

Notas
  1. Nós encontramos agora várias alusões à teoria agostiniana do espírito como «imagem» de Deus: a alma deve concentrar-se nessa imagem, quer dizer, no interior dela própria, de onde tudo foi excluído. [  ]


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Mestre Eckhart – Quando se completaram os dias 3


  1. Um mestre diz: toda a similitude tem por fim um nascimento.
  2. Ele diz ainda: a natureza nunca encontra o seu semelhante sem que um nascimento se siga.
  3. Os nossos mestres dizem: o fogo, tão forte quanto seja, nunca queimaria se ele não esperasse um nascimento.
  4. Tão seca quanto seja a madeira que aí se meta, se ela não se pudesse assimilar ao fogo, ela nunca queimaria.
  5. O fogo deseja nascer na madeira, por forma a que só aí haja um fogo, e que ele se mantenha, e permaneça.
  6. Se ele se apagasse e desaparecesse, não haveria aí mais fogo, é por isso que ele deseja ser mantido.
  7. A natureza da alma nunca traria nela a similitude se ela não desejasse que Deus nascesse nela; nunca ela chegaria à sua natureza, nunca ela desejaria aí chegar se ela não esperasse esse nascimento.
  8. Também, é essa a operação de Deus, e nunca Deus a operaria se Ele não quisesse que a alma nascesse n'Ele.
  9. Deus opera e a alma deseja.
  10. A Deus pertence a operação, à alma o desejo, assim como o poder de que Deus nasça nela, e ela em Deus.
  11. É a operação de Deus que a alma se torne igual a Ele.
  12. É necessário que ela espere que Deus nasça nela, e que ela seja mantida em Deus, e que ela deseje uma união, afim de que ela seja mantida em Deus.
  13. A natureza divina derrama-se na luz da alma, e ela aí é mantida.
  14. Com isso, Deus deseja nascer nela, e estar unido, e ser mantido nela.
  15. Como é isso possível? Não dizemos nós antes que Deus se mantém por si próprio?
  16. Quando Ele atrai lá a alma, ela descobre que Deus se mantém a Ele próprio, e lá ela fica, sem o qual ela nunca aí permaneceria.
  17. Agostinho diz: «Exatamente como tu amas, tu és: se tu amas a terra, tu tornas-te terrestre; se tu amas Deus, tu tornas-te divino.
  18. Se portanto eu amo Deus, tornar-me-ia então Deus? Eu não o digo, eu reenvio-vos para a Santa Escritura.
  19. Deus falou pelo profeta: Vocês são deuses, e filhos do Altíssimo».
  20. É por isso que eu digo: na igualdade, Deus dá o nascimento.
  21. Se a alma não se apercebesse, ela nunca desejaria aí chegar.
  22. Ela quer subsistir n'Ele; a sua vida está n'Ele.
  23. Deus tem a sua substância, a sua permanência no seu ser, e é por isso que as coisas não se passam de outro modo: é preciso que se despoje e separe tudo o que é da alma: a sua vida, as suas potências, a sua natureza, é preciso que tudo isso desapareça, e que ela permaneça numa luz pura onde ela é uma única imagem com Deus: lá ela encontra Deus.
  24. É a particularidade de Deus que nada de estrangeiro se insinue n'Ele, nada de trazido, nada de acrescentado.
  25. Tal é o primeiro ponto. 1

Notas
  1. Depois da assimilação da «imagem» da alma à «imagem» de Deus, uma outra aproximação que traduz a mesma realidade espiritual. Como o fogo deseja nascer na madeira, a alma aspira ao nascimento de Deus nela.

    Deus deseja também esse nascimento, e só o pode operar.

    «A natureza divina derrama-se na luz da alma, e ela aí é mantida.» Ela é mantida em Deus, e Deus é mantido nela.

    «Como é isso possível? Nós dizemos que Deus se mantém a Ele próprio.» Resposta: «Quando Ele atrai lá a alma, ela descobre que Deus se mantém a Ele próprio, e lá ela fica, sem o qual ela nunca aí permaneceria.»

    Eckhart cita mais uma vez Agostinho sobre a identidade no amor daquele que ama com aquele que é amado. Mas é preciso que a alma se despoje de tudo aquilo que ela é, afim de ser mantida na luz pura onde ela é uma única imagem com Deus. [  ]


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Mestre Eckhart – Quando se completaram os dias 4


  1. Vejam «ecce».
  2. Esta pequena palavra «ecce» tem incluída em si todos os seus significados possíveis, é uma invariável.
  3. O verbo, é Deus, Deus é um Verbo, o Filho de Deus é um Verbo.
  4. Ele (Lucas) quer dizer que toda a nossa vida, e todo o nosso desejo, devem estar absolutamente incluídos e suspensos em Deus, e inclinados para Ele.
  5. É por isso que Paulo diz: «Eu sou aquilo que sou pela graça de Deus.»
  6. Ele diz ainda: «Eu vivo, mas não eu, é Deus que vive totalmente em mim.»
  7. O quê mais? 1

Notas
  1. «Ecce», essa palavra indeclinável, à qual portanto nada pode ser acrescentado, simboliza o Verbo de Deus, no qual devem ser incluídos o nosso desejo e a nossa vida.

    Este desenvolvimento culmina na frase de São Paulo que Mestre Eckhart traduz assim (ele cita sempre de memória): «Eu vivo, mas não eu, é Deus que vive totalmente em mim.»

    O pregador acrescenta esta exclamação: «O quê mais?» A «reportação» reteve-a: nem Eckhart, nem Agostinho, nem mesmo o profeta citado por intermédio deste último podiam com efeito ir mais longe na afirmação da identidade entre Deus e o ser humano. [  ]


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Mestre Eckhart – Quando se completaram os dias 5


  1. «Homo erat»
  2. Ele diz: «Vejam: um ser humano.»
  3. A palavra «homo», nós a aplicamos às mulheres e aos homens, mas os latinos não a querem empregar para as mulheres devido à fraqueza delas.
  4. «Homo» designa «aquilo que é perfeito» e «ao qual não falta nada».
  5. «Homo», o ser humano, significa «que é de terra», e significa «humildade».
  6. A terra é o elemento mais baixo, ela situa-se no centro, ela está completamente rodeada pelo céu, e recebe totalmente o influxo do céu.
  7. Tudo o que o céu opera, e derrama, é recebido no centro, no fundo da terra.
  8. Segundo uma outra acepção, «homo» quer dizer «humidade» e significa «aquele sobre o qual se derrama a graça», quer dizer que o ser humano humilde recebe imediatamente o influxo da graça.
  9. Neste influxo da graça, a luz do intelecto eleva-se imediatamente, então Deus irradia numa luz que não se pode dissimular.
  10. Qualquer um que fosse assim poderosamente envolvido por essa luz seria, com relação a um outro ser humano, de tal forma mais nobre, como uma pessoa viva em comparação com aquela que está pintada numa parede.
  11. Essa luz é tão poderosa que não apenas ela é em ela própria desprendida do tempo e do espaço, mas ela arranca ao tempo e ao espaço, assim como a toda a representação corporal e a tudo o que lhe é estrangeiro, aquele sobre o qual ela se derrama.
  12. Eu já o disse frequentemente: se não existisse tempo nem espaço, nem o que quer que seja, tudo seria um único ser.
  13. Aquele que fosse assim um, e mergulhasse no abismo da humildade, seria então inundado pela graça. 1

Notas
  1. «Homo» designa «o que é perfeito», «ao qual não falta nada».

    O alemão tem um termo «mensh» que se aplica quer aos homens quer às mulheres, enquanto que nas línguas latinas, homme em francês, uomo em italiano, homem em português, não se aplica às mulheres «devido à fraqueza delas».

    Seguem-se as etimologias fantasistas nas quais se comprazia a Idade Média. «Homo», próximo de «humus». A terra sendo o elemento mais baixo, «homo», segundo esta acepção, significa «humildade». «Homo» está próximo também de «humor» e quer dizer «humidade», quer dizer que o homem humilde recebe o influxo da graça que faz subir a luz do seu intelecto na luz divina. [  ]


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Mestre Eckhart – Quando se completaram os dias 6


  1. Em terceiro lugar: essa luz liberta do tempo e do espaço.
  2. «Houve um homem.» Quem lhe deu essa luz? A pureza.
  3. A palavra «erat» pertence muito particularmente a Deus.
  4. Na língua latina, nenhuma palavra é mais apropriada a Deus que «erat».
  5. É por isso que João a emprega no seu evangelho, e diz tantas vezes «erat», «era», e ele entende com isso um ser puro.
  6. Todas as coisas acrescentam, «erat» não acrescenta nada, senão em pensamento, não num pensamento atributivo, mas num pensamento abstrato.
  7. A bondade e a verdade acrescentam, pelo menos em pensamento, mas o sentido de «erat» é o ser puro ao qual nada é acrescentado.
  8. Por outro lado, «erat» designa um nascimento, um perfeito devir.
  9. Eu vim agora, eu vinha hoje; se o tempo fosse suprimido no «eu vinha» e «vim», «vinha» e «vim» seriam reunidos em um, e seriam um.
  10. Quando «vinha» e «vim» são reunidos em um, nós somos procriados, e recriados, e reformados na primeira imagem.
  11. Eu já o disse frequentemente: tanto quanto um aspeto de uma coisa guarda o seu próprio ser, não é recreada, é restaurada ou renovada apenas, como um selo antigo que se repara e renova.
  12. Um mestre pagão diz: aquilo que é, nenhum tempo o pode tornar velho, mas é uma vida bem-aventurada numa perpetuidade sem distorção nem dissimulação, onde o ser é puro.
  13. Salomão diz: «Nada de novo debaixo do sol.»
  14. É raramente compreendido segundo o seu sentido. Tudo o que está debaixo do sol envelhece e declina, mas lá não há nada mais que novidade.
  15. O tempo tem duas consequências: envelhecimento e declínio.
  16. Tudo o que o sol ilumina se situa no tempo.
  17. Todas as criaturas são agora, e são «de» Deus, mas lá onde elas estão «em» Deus, elas são tão dissemelhantes daquilo que elas são aqui, como o sol comparado com a lua, e muito mais ainda.
  18. É por isso que ele diz: «erat in eo», o Espírito Santo estava nele: lá onde o ser e o devir são um. 1

Notas
  1. «Erat». Este nome convém a Deus por duas razões. Por um lado, «erat» visa Deus sem nenhum dos seus atributos (bondade, verdade); Deus, neste primeiro sentido, é puramente ser.

    O evangelista João, segundo Eckhart, julga este verbo «ser» o mais apropriado quando começa o seu evangelho por «No princípio era (erat) o Verbo». A ausência de predicado, ou de atributos, indica já que o Verbo era Deus. Em certos textos latinos, Eckhart diz precisamente: «o ser é Deus».

    Por outro lado, a palavra «erat» convém a Deus porque está aqui no passado. Neste segundo sentido implica aos olhos de Eckhart que a distinção entre passado e presente está abolida em Deus.

    O pregador procura fazer-se compreender com um exemplo gramatical que pretende dizer que, para o Verbo divino, ter nascido e estar constantemente a nascer se resume em «erat»: assim, também nós nascemos e somos recreados constantemente na primeira imagem, mas é preciso que nada de antigo fique para que tudo seja não só reparado, mas verdadeiramente recreado. [  ]


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Mestre Eckhart – Quando se completaram os dias 7


  1. «Houve um homem.» Onde estava ele? Em Jerusalém.
  2. «Jerusalém» significa «visão de paz»; resumidamente, ele quer dizer: que o ser humano esteja na paz, e esteja lá bem estabelecido.
  3. Mas talvez ele queira dizer outra coisa. Paulo diz: «Eu desejo-vos a paz que ultrapassa todo o pensamento. Que ela guarde o vosso coração e o vosso intelecto.» 1
  4. Peçamos a Nosso Senhor para que nós sejamos um tal ser humano, e estabelecidos nessa paz que Ele próprio é. Que Deus nos ajude a isso. Amém. 2

Notas
  1. Tudo o que está debaixo do sol envelhece e declina. Retomando o texto de Lucas, Eckhart diz: «O Espírito Santo estava nele: lá onde está o ser e onde está o devir.» Esta visão de paz simbolizada por Jerusalém evoca o ser humano estabelecido na paz, tal como ele estará um dia «em» Deus, ou, como São Paulo do qual ele cita o texto, Eckhart quer dizer ainda outra coisa?

    A paz que ultrapassa todo o pensamento, todo o sentimento, pertence talvez já aqui em baixo a este mundo «em Deus», numa perspetiva mística. [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 87-93. [  ]


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Mestre Eckhart – Jovem, digo-te: Levanta-te!



  1. O intelecto é a parte superior da alma, pelo qual ela tem o mesmo ser que os anjos
  2. O tempo não afeta a natureza angélica, da mesma forma que o intelecto não é afetado pelo tempo
  3. A alma que possui Deus está todo o tempo fecunda
  4. Deus exerce toda a sua potência no seu nascimento, para que a alma regresse a Deus
  5. A alma não tem nada onde Deus possa falar a não ser o intelecto
  6. No intelecto é-se absolutamente jovem; quanto mais se age com essa potência, mais se está próximo do nosso nascimento
  7. Uma única obra que Deus opera na alma é melhor, e mais nobre, e mais sublime, que o mundo inteiro
  8. A graça é uma habitação e uma coabitação da alma em Deus
  9. A alma procria-se a si própria nela própria, e procria-se a partir dela própria, e procria-se de regresso a si
  10. Quando a alma vive naquilo que faz dela a imagem de Deus, ela procria, lá está a verdadeira união



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Mestre Eckhart – Jovem, digo-te: Levanta-te! 1


Sermão 43 - Jovem, digo-te: Levanta-te!
  1. Lê-se no Evangelho que uma viúva tinha um filho único que estava morto.
  2. Então Nosso Senhor veio até ele e disse: «Eu digo-te, jovem, levanta-te!» E o jovem ergueu-se. (Lc 7, 12). 1
  3. Por esta viúva, nós entendemos a alma.
  4. Porque o «homem» estava morto, o «filho» também estava morto.
  5. Pelo «filho» nós entendemos o intelecto que é o «homem» na alma.
  6. Porque ela (a viúva, quer dizer a alma) não vivia no intelecto, o «homem» estava morto, é por isso que ela era «viúva».2
  7. Nosso Senhor diz à mulher, perto do poço: «Vai a tua casa, traz-me o teu homem.»
  8. Ele queria dizer: como ela não vivia no intelecto, que é o «homem», ela não recebia a «água viva» que é o Espírito Santo; ele só é dado quando se vive no intelecto.
  9. O intelecto é a parte superior da alma, pelo qual ela tem o mesmo ser que os anjos, e está incluída com os anjos na natureza angélica. 3

Notas
  1. Este sermão 43 é o terceiro que tem por texto o versículo de Lucas 7, 12. O missal romano, como o antigo missal dominicano, inseria-o várias vezes no ano litúrgico. Eckhart tinha várias ocasiões para regressar a ele.

    Este sermão não se desenvolve sem algumas dificuldades, assim como o notou, melhor que ninguém, Josef Quint, o seu editor.

    Encontramos aqui certamente o cunho de Mestre Eckhart, mas aqueles que o «reportaram» ou transcreveram omitiram aqui e ali algumas palavras, mesmo partes de frases que asseguravam a continuidade lógica da exposição. [  ]
  2. Assim, no início, o pregador diz-nos que a viúva é a alma. É uma ideia reencontrada frequentemente em Eckhart que o homem é a «cabeça da alma», quer dizer o intelecto. «Porque o «homem» estava morto, o «filho» também estava morto. Pelo «filho» nós entendemos o intelecto que é o «homem» na alma.» Como explicar que, no mesmo desenvolvimento, o pai e o filho representem ambos o «homem» na alma, quer dizer o intelecto?

    Para ajudar à nossa compreensão, retomemos uma passagem do sermão 18 sobre o mesmo versículo de Lucas: «O homem estava morto, é por isso que também o filho estava morto. O filho único da alma, é a vontade, são todas as potências da alma, elas são todas "um" no mais íntimo do intelecto. O intelecto, é o homem na alma. Agora que o homem está morto, o filho também está morto. [  ]
  3. A citação da Samaritana, que se segue imediatamente, parece bastante inesperada. O pregador acaba de nos dizer que a viúva não vivia no intelecto, da mesma forma que a Samaritana, é por isso que ela não recebia a água viva.

    «Vai a tua casa, traz-me o teu homem», diz o Senhor à mulher. Ora ela não tem «homem», significando aqui que ela não tem «homem» na alma. [  ]


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Mestre Eckhart – Jovem, digo-te: Levanta-te! 2


  1. O tempo não afeta a natureza angélica, da mesma forma que o intelecto, que é o «homem» na alma, não é afetado pelo tempo.
  2. Quando não se vive nele, o «filho» morre.
  3. É por isso que ela era «viúva».
  4. Porquê uma viúva?
  5. Não há criatura que não tenha em si qualquer coisa de bom, e também qualquer coisa de deficiente que faz com que abandone Deus.
  6. A «viúva» era deficiente porque o seu poder de procriar estava morto, é por isso também que o seu fruto estava corrompido. 1

Notas
  1. A viúva era deficiente porque o seu poder de procriar estava morto, era por isso também que o seu fruto estava corrompido. [  ]


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Mestre Eckhart – Jovem, digo-te: Levanta-te! 3


  1. «Viúva» quer dizer segundo um outro significado: «que é deixada» ou «que deixou».
  2. Assim, nós devemos deixar todas as criaturas, e nos desprendermos delas.
  3. O profeta diz: «Os filhos da mulher estéril são bem mais numerosos que os filhos daquela que é fecunda.»
  4. É assim da alma que procria espiritualmente; as suas procriações são bem mais numerosas: ela procria em cada instante.
  5. A alma que possui Deus está todo o tempo fecunda.
  6. As obras que Deus opera, é-lhe necessário que as realize todas.
  7. Deus está todo o tempo operante no agora da eternidade, e a sua operação é a de gerar o seu Filho: Ele gera-o todo o tempo.
  8. Deste nascimento saem todas as coisas.
  9. Também, sente Ele uma alegria tão grande com esse nascimento que Ele consome aí toda a sua potência.
  10. Quanto mais se conhece, mais o conhecimento é perfeito, mas mais também parece que tudo isso não é nada.
  11. Porque, Deus se gera a partir d'Ele próprio, n'Ele próprio, e gera-se de regresso em si.
  12. Quanto mais o nascimento é perfeito, mais ele (o nascimento) gera.
  13. Eu digo: Deus é absolutamente um, Ele não conhece nada para além d'Ele apenas.
  14. Deus gera-se totalmente no seu Filho, Deus pronuncia todas as coisas no seu Filho.
  15. É por isso que ele diz: «Jovem, eu digo-te, levanta-te!» 1

Notas
  1. Eckhart passa em seguida a uma outra interpretação da palavra «viúva»: «que é deixada» ou «que deixou».

    O texto de Isaías sobre a mulher estéril, cujos filhos são mais numerosos que os da mulher fecunda (Is 54, 1), permite a transição da procriação carnal para a procriação espiritual: a alma que procria espiritualmente multiplica a cada instante as suas procriações, assim como Deus gera todo o tempo o seu Filho na alma que deixou tudo: na alma desprendida.

    Deus consome assim toda a sua potência para que, por essa geração do seu Filho nela, a alma reviva. [  ]


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Mestre Eckhart – Jovem, digo-te: Levanta-te! 4


  1. Deus exerce toda a sua potência no seu nascimento, e é preciso que seja assim, para que a alma regresse a Deus.
  2. E duma certa maneira, é inquietante que a alma se separe tão frequentemente daquilo onde Deus mete toda a sua potência, como Ele tem de fazer para que a alma reviva.
  3. Deus produz todas as criaturas num «dizer», mas para que a alma reviva, Deus pronuncia toda a sua potência no nascimento dela.
  4. Doutra maneira, é consolador que a alma aí seja reconduzida.
  5. Nesse nascimento ela torna-se viva, e Deus gera o seu Filho na alma, para que ela se torne viva.
  6. Deus pronuncia-se a si próprio no seu Filho.
  7. No dizer onde Ele se pronuncia no seu Filho, nesse dizer Ele fala na alma.
  8. É o apropriado, de todas as criaturas, o procriarem.
  9. Uma criatura que não procriasse, também não existiria.
  10. É por isso que um mestre diz: isso é um sinal de que todas as criaturas se originaram devido a um nascimento divino.



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Mestre Eckhart – Jovem, digo-te: Levanta-te! 5


  1. Porque é que ele diz «jovem»?
  2. A alma não tem nada onde Deus possa falar a não ser o intelecto.
  3. Certas potências são tão indigentes que Deus não pode falar nelas.
  4. Sem dúvida Ele fala, mas elas não o ouvem.
  5. A vontade, enquanto vontade, não percebe de nenhuma maneira.
  6. O «homem» não designa outra potência que não seja o intelecto.
  7. A vontade só se volta para o exterior. 1

Notas
  1. Deus não pode falar nas potências inferiores. Ele fala, mas elas não o ouvem.

    Ele nem sequer pode falar na vontade, porque ela está toda voltada para o exterior.

    Ele expressa-se inteiramente no seu Filho, e nesse «dizer», Ele fala na alma, no intelecto.

    O intelecto é portanto apresentado aqui como o cume da alma. [  ]


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Mestre Eckhart – Jovem, digo-te: Levanta-te! 6


  1. «Jovem». Quer dizer que nenhuma das potências, que pertencem à alma, envelhecem.
  2. As potências que pertencem ao corpo, pelo contrário, degradam-se e diminuem.
  3. Quanto mais o ser humano conhece, melhor ele conhece.
  4. É por isso que ele diz: «Jovem».
  5. Os mestres dizem: É jovem aquilo que está próximo do seu começo.
  6. No intelecto é-se absolutamente jovem; quanto mais se age com essa potência, mais se está próximo do nosso nascimento.
  7. É jovem aquilo que está próximo do seu nascimento.
  8. A primeira emanação da alma é o intelecto, em seguida a vontade, em seguida todas as outras potências. 1

Notas
  1. Nesta parte, Eckhart dá ao «jovem» o papel de «homem» na alma, mas o facto dele ser jovem incita o pregador a falar da «juventude» das diversas «potências».

    Enquanto que as potências do corpo se degradam, «no intelecto, é-se absolutamente jovem: quanto mais se age com essa potência, mais se está próximo do nosso nascimento.» [  ]


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Mestre Eckhart – Jovem, digo-te: Levanta-te! 7


  1. Ora ele diz: «Jovem, levanta-te!» Que significa: «Levanta-te!»?
  2. «Levanta-te da obra (deixa a obra) e que a alma fique de pé em si própria!»
  3. Uma única obra que Deus opera na luz simples da alma é mais bela que o mundo inteiro e mais agradável a Deus que tudo aquilo que Ele alguma vez operou em todas as criaturas.
  4. Gentes insensatas tomam o mal pelo bem, e o bem pelo mal.
  5. Mas para aquele que compreende bem, uma única obra que Deus opera na alma é melhor, e mais nobre, e mais sublime, que o mundo inteiro. 1

Notas
  1. «Jovem, levanta-te!..., levanta-te da obra e que a alma se levante nela própria!... Uma única obra que Deus opera na luz simples da alma é mais bela que o mundo inteiro e mais agradável a Deus que tudo aquilo que Ele alguma vez operou em todas as criaturas.» [  ]


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Mestre Eckhart – Jovem, digo-te: Levanta-te! 8


  1. Por cima desta luz está a graça; ela nunca desce no intelecto, nem na vontade.
  2. Se a graça viesse ao intelecto, era preciso que o intelecto e a vontade se elevassem acima deles próprios.
  3. Ora, não é possível, porque a vontade é tão nobre em si própria que ela não pode ser preenchida senão pelo amor divino.
  4. O amor divino realiza obras muito grandes.
  5. Ainda acima dele está uma outra parte: o intelecto; este é tão nobre em si próprio que ele não pode ser preenchido senão pela verdade divina.
  6. É por isso que um mestre diz: há, não se sabe o quê, de muito misterioso que está por cima: é a cabeça da alma.
  7. Lá, ocorre a verdadeira união entre Deus e a alma.
  8. A graça nunca realizou nenhuma obra boa porque ela nunca realizou nenhuma obra; sem dúvida, ela derrama-se a quando do exercício de uma virtude, mas a graça nunca realiza a união por intermédio de uma obra.
  9. A graça é uma habitação e uma coabitação da alma em Deus.
  10. Para isso, tudo aquilo que alguma vez se chamou de obra, exterior e interior, é demasiado indigente.
  11. Todas as criaturas procuram algo que se assemelhe a Deus: quanto mais elas são indigentes, mais elas procuram no exterior, como o ar e a água que correm, mas o céu, que é mais nobre, procura uma semelhança maior com Deus; ele está em perpétua revolução, e nessa revolução, ele produz todas as criaturas; nisso ele assemelha-se a Deus, mas não é isso que ele procura: é qualquer coisa mais elevada.
  12. Para além disso, no seu percurso, ele procura o repouso.
  13. Nunca o céu realiza uma obra para servir uma criatura que lhe seja inferior.
  14. Por isso, ele assemelha-se mais a Deus.
  15. Que Deus se gera no seu Filho único, é inacessível a todas as criaturas.
  16. No entanto, o céu tende para essa obra que Deus opera nele próprio.
  17. Se o céu age assim, da mesma forma que outras criaturas mais indigentes, quanto então a alma é ela mais nobre que o céu. 1

Notas
  1. A última parte do sermão desenvolve as mesmas perspectivas, sobre o homem e o intelecto, com relação à graça.

    A graça não desce nem no intelecto nem na vontade. «É por isso que um mestre diz: há, não se sabe o quê, de muito misterioso que está por cima: é a cabeça da alma.» É preciso tomá-la como idêntica à «qualquer coisa» da alma. A união de Deus com a alma não se realiza com uma obra, porque a graça não realiza obras: é uma habitação e uma coabitação da alma em Deus.

    Todas as criaturas procuram qualquer coisa de semelhante a Deus. O céu, que está entre as criaturas mais nobres, produz todas as criaturas e procura a paz, mas tão nobre quanto seja, a alma é mais nobre que o céu. [  ]


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Mestre Eckhart – Jovem, digo-te: Levanta-te! 9


  1. Um mestre diz: a alma procria-se a si própria nela própria, e procria-se a partir dela própria, e procria-se de regresso a si.
  2. Ela pode operar maravilhas na luz natural, ela é tão poderosa que ela separa o que é um.
  3. O fogo e o calor são um. Se o intelecto os agarra, ele separa-os.
  4. A sabedoria e a bondade são um em Deus; se o intelecto se apodera da sabedoria, ele não pensa mais na outra.
  5. A alma procria, a partir dela própria, Deus a partir de Deus, em Deus; ela procria verdadeiramente a partir dela própria; ela faz isto afim de procriar Deus a partir dela própria, lá onde ela tem a cor de Deus; lá ela é uma imagem de Deus. 1

Notas
  1. O pregador fala de passagem das maravilhas operadas pela alma na luz natural, do intelecto na sua potência de abstração: ele pode separar o que é um, como o fogo e o calor, a sabedoria e a bondade de Deus.

    O movimento de procriação próprio da alma é descrito de duas formas: 1) uma vez a partir da alma: a alma procria, a partir dela própria, Deus em Deus, e 2) uma outra vez a partir de Deus em direção à alma: Deus procria-se na alma a partir d'Ele próprio.

    É a dupla operação da alma que recebe de Deus o seu Filho, e lho entrega em retorno, pela sua irrupção na Divindade.

    Por este movimento reciproco, a alma é reconhecida como sendo «da cor de Deus». Nós já encontramos esta expressão. Ela evoca a luz de Deus que irradia na alma, próxima da «centelha». [  ]


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Mestre Eckhart – Jovem, digo-te: Levanta-te! 10


  1. Eu já o disse frequentemente: uma imagem, enquanto que ela é uma imagem e do que ela é a imagem, nada as pode separar.
  2. Quando a alma vive naquilo que faz dela a imagem de Deus, ela procria, lá está a verdadeira união; todas em conjunto, as criaturas não podem separá-las.
  3. Em desafio a Deus ele próprio, em desafio aos anjos, em desafio às almas e a todas as criaturas, eles não as podem separar lá onde a alma é a imagem de Deus!
  4. É a verdadeira união, lá reside a verdadeira beatitude.
  5. Alguns mestres procuram a beatitude no intelecto.
  6. Eu digo: a beatitude não reside nem no intelecto, nem na vontade, mas acima dos dois, a beatitude reside lá onde ela está enquanto tal, não enquanto que intelecto, e Deus reside lá enquanto que Deus, e a alma aí reside enquanto que ela é a imagem de Deus.
  7. A beatitude está lá onde a alma apreende Deus enquanto que Ele é Deus.
  8. Lá, a alma é a alma, e a graça é a graça, e a beatitude é a beatitude, e Deus é Deus. 1
  9. Nós pedimos a Nosso Senhor que Ele nos conceda de estarmos assim unidos a Ele. Que Deus nos ajude a isso. Amém. 2

Notas
  1. Eckhart falou-nos bastantes vezes da imagem de Deus que está na alma. A elas, todas as criaturas não poderiam separá-las.

    E eis que Mestre Eckhart se exprime numa das suas maravilhosas audácias: «Em desafio a Deus ele próprio, em desafio aos anjos, em desafio às almas e a todas as criaturas, eles não as podem separar lá onde a alma é a imagem de Deus! É a verdadeira união, lá reside a verdadeira beatitude.»

    Por várias vezes, Eckhart discutiu sobre a essência da verdadeira beatitude. Lê-se no tratado Do Homem Nobre: «Eu digo portanto que não há beatitude sem que o ser humano tenha consciência e saiba bem que ele contempla e conhece Deus, mas Deus queira que não seja essa a minha beatitude. Se isso é suficiente para qualquer outro, que ele fique por aí, mas eu tenho piedade dele.»

    Ele diz aqui: «Alguns mestres procuram a beatitude no intelecto. Eu digo: a beatitude não reside nem no intelecto, nem na vontade, mas acima dos dois, ... e a alma aí reside enquanto que ela é a imagem de Deus.

    Este sermão, que começou com alguma confusão, termina portanto num voo de palavras simples onde se sente trepidar a alma do mestre: «A beatitude está lá onde a alma apreende Deus enquanto que Ele é Deus. Lá, a alma é a alma, e a graça é a graça, e a beatitude é a beatitude, e Deus é Deus.» [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 80-86. [  ]


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