Mestre Eckhart – Iluminou os degraus da sua casa



  1. A alma é criada entre «um» e «dois»
  2. Pelas suas potências superiores, a alma toca Deus
  3. Que se retire o que é prejudicial e que completemos o que nos faz falta
  4. As mais altas potências da alma são em número de três
  5. A operação própria da potência ascendente é a de tender para o alto
  6. A beatitude divina reside em três pontos



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Mestre Eckhart – Iluminou os degraus da sua casa 1


Sermão 32 - Iluminou os degraus da sua casa
  1. «Uma mulher de bem iluminou os degraus da sua casa e não comeu o seu pão na ociosidade.» (Pr 31, 27) 1
  2. Esta casa significa a totalidade da alma, e os degraus da casa designam as potências da alma.
  3. Um mestre antigo diz que a alma é criada entre «um» e «dois».
  4. O «um» é a eternidade que é em todos os tempos única e simples.
  5. O «dois», é o tempo que move e se diversifica.
  6. Ele quer dizer que a alma, pelas suas potências superiores, toca na eternidade, quer dizer em Deus, e pelas suas potências inferiores, ela toca no tempo, daí ela ser mutável e inclinada para as coisas corporais, o que a priva da sua nobreza.
  7. Se a alma pudesse, como os anjos, conhecer totalmente Deus, ela nunca teria penetrado no corpo.
  8. Se ela pudesse conhecer Deus sem o mundo, o mundo nunca teria sido criado para ela.
  9. O mundo foi criado para ela afim de que os olhos da alma se exerçam e se fortifiquem de maneira a poderem suportar a luz divina.
  10. Da mesma forma que o brilho do sol não se projeta sobre a terra a não ser que seja envolvido pelo ar e disseminado sobre outras coisas, sem o qual os olhos do ser humano não o poderiam suportar, da mesma forma a luz divina é de um poder tão sobreeminente e tão clara que os olhos da alma não a poderiam suportar se eles não fossem fortificados e levados ao alto pela matéria e as suas semelhanças e não fossem assim conduzidos e acostumados à luz divina. 2

Notas
  1. O texto deste sermão é extraído do célebre elogio da mulher forte dos Provérbios, que a Igreja escolheu como epístola para a missa duma mulher santa. [  ]
  2. Eckhart preferiu adaptar em vez de traduzir a primeira parte do versículo.

    Tendo feito da casa bíblica o símbolo da alma, ele pode identificar os «degraus» às potências ou faculdades da alma.

    Josef Quint reconheceu Alcher de Clairvaux, no seu De spiritu et anima, como sendo o autor do texto sobre a alma, situada entre o tempo e a eternidade, que Mestre Eckhart tinha atribuído a S. Agostinho no sermão 23. [  ]


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  1. Pelas suas potências superiores, a alma toca Deus.
  2. Daí, ela é formada segundo Deus.
  3. Deus é formado segundo ele próprio, ele tem a sua imagem de si próprio e de nenhum outro.
  4. A sua imagem, é que ele se conhece absolutamente a si próprio e não é nada mais que luz.
  5. Quando a alma o toca com um verdadeiro conhecimento, ela é semelhante a ele nessa imagem.
  6. Se imprimirmos um selo numa cera verde ou vermelha ou num tecido, ele produz sempre uma imagem.
  7. Se o selo é totalmente impresso através da cera, por forma a que nada subsiste da cera que não tenha absolutamente penetrado no selo, a cera não faz mais do que um com o selo, sem diferença.
  8. Assim a alma é totalmente unida a Deus na imagem e na semelhança quando ela o toca com um verdadeiro conhecimento.
  9. S. Agostinho diz que a alma foi criada tão nobre e tão elevada acima de todas as criaturas que nenhuma coisa efémera que, no último dia, deve desaparecer, pode falar dentro da alma nem agir nela sem intermediário e sem mensageiro.
  10. Os olhos, os ouvidos e os cinco sentidos, tais são os degraus pelos quais a alma sai para o mundo, e por esses degraus, o mundo penetra por sua vez dentro da alma.
  11. Um mestre diz que «as potências da alma devem regressar rapidamente para a alma com uma grande colheita»; quando elas saem, elas trazem de cada vez qualquer coisa para ela.
  12. É por isso que o ser humano deve vigiar com cuidado sobre os seus olhares, afim de que eles não tragam alguma coisa que seja prejudicial à alma.
  13. Eu estou certo: o que quer que veja a pessoa boa, ela torna-se melhor.
  14. Se ela vê coisas más, ela agradece a Deus de a ter preservado e reza por aquela na qual está esse mal afim de que Deus a converta.
  15. Se ela vê coisas boas, ela deseja que Deus as realize nela. 1

Notas
  1. O mestre que diz que a alma traz sempre qualquer coisa quando sai para o mundo é Avicena, nomeado num comentário em latim de Eckhart onde o mesmo pensamento se encontra.

    A alma deve portanto vigiar sobre os cinco sentidos para não trazer nada de prejudicial. [  ]


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Mestre Eckhart – Iluminou os degraus da sua casa 3


  1. O olhar deve ser duplo: que se retire o que é prejudicial e que nós completemos o que nos faz falta.
  2. Também, eu já o disse frequentemente: aqueles que jejuam muito, prolongam as suas vigílias, realizam grandes obras sem corrigir os seus defeitos e os seus hábitos – no qual consiste o verdadeiro progresso -, enganam-se a si próprios e são a risada do diabo.
  3. Um homem tinha um ouriço graças ao qual enriqueceu. Habitava perto do mar. Quando o animal notava para onde virava o vento, eriçada a pele e virava as costas para esse lado.
  4. O homem ia então para o mar e dizia às gentes: «O que me dão se eu vos indicar a direcção do vento?»
  5. Ele vendia o vento, o que o enriqueceu.
  6. Da mesma forma o ser humano enriquece em virtudes se examinar onde é mais deficiente, afim de se corrigir e de aplicar o seu zelo a emendar-se. 1

Notas
  1. «Pelas suas potências superiores a alma toca Deus.» O pregador empregou antes uma comparação com a cera e o selo bastante brilhante, enquanto que aqui a comparação com o ouriço parece um pouco forçada. [  ]


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  1. Foi o que fez assiduamente S. Isabel.
  2. Ela tinha «sabiamente iluminado os degraus da sua casa».
  3. Também, «ela não temia o inverno porque os seus servidores estavam duplamente vestidos».
  4. Ela estava alerta contra aquilo que a podia prejudicar.
  5. Se qualquer coisa lhe faltava, ela aplicava o seu zelo a aperfeiçoá-la.
  6. É por isso que «ela não comeu o seu pão na ociosidade.»
  7. Ela tinha também voltado as suas potências superiores para o nosso Deus.
  8. As mais altas potências da alma são em número de três: a primeira é o conhecimento, a segunda, a irascibilis que é uma potência ascendente, a terceira é a vontade.
  9. Quando a alma se entrega ao conhecimento da autêntica verdade, à potência simples pela qual se conhece Deus, a alma é chamada uma luz.
  10. E Deus também é uma luz e quando a luz divina se derrama na alma, a alma é unida a Deus como uma luz a uma luz, ela é então chamada luz de fé e isso é uma virtude divina.
  11. Onde a alma não consegue chegar nem pelos seus sentidos nem pelas suas potências, é a fé que a leva até lá. 1

Notas
  1. Eckhart passa em seguida a S. Isabel, a quem se reporta o seu texto inicial. Este exemplo é convincente.

    É muito excepcional que Mestre Eckhart nomeie um santo ou uma santa sem ser a propósito de uma citação, sobretudo quando o santo é, como Isabel, todo carregado de obras exteriores: ele desconfia sempre um pouco delas, temendo que elas dêem demasiado facilmente boa consciência.

    Isabel da Hungria ou da Turingia morreu em 1231. Mais de um século separam-na do nosso pregador, mas ela era muito popular na Alemanha onde aliás permaneceu. Como é menos conhecida em Portugal no século XXI, contaremos um pouco acerca dela.

    Nascida em 1207, filha do rei da Hungria, foi levada para a Turingia em 1211 afim de casar um dia com Luís IV, filho mais velho do poderoso senhor feudal da Turingia Harmann I, união desejada pelas duas partes por razões políticas. Muito devota desde a infância, ela alimenta os pobres e trata dos doentes. Luís e Isabel amam-se profundamente. O casamento tem lugar provavelmente em 1221.

    A partir de 1226, Isabel toma por director um padre severo que a interdita de comer ou de beber, mesmo nas refeições de cerimónia, antes de saber se não se trata de um bem mal adquirido, quer dizer proveniente de domínios usurpados, ou abusivamente retirado à colheita dos pobres camponeses.

    Em 1227, Luís IV morre na estrada da cruzada. Isabel com 20 anos espera então o seu terceiro filho.

    Ela deixa a Wartbourg, sua residência habitual, com os filhos, temendo que o seu cunhado não tenha a largueza de espírito do seu esposo e não aceite as suas restrições à mesa. Não que ela tenha sido expulsa como pretende a lenda, nós temos sobre esse ponto o testemunho formal de um dos seus assistentes: «Ela teria podido relacionar-se com o irmão do seu marido, mas ela não queria receber o seu alimento do roubo e da extorsão dos pobres tais como são frequentemente praticados nas cortes dos príncipes e ela escolheu ser rejeitada e ganhar o seu alimento como uma mercenária com o trabalho das suas mãos.»

    Ela teria querido ir mendigar o seu pão de porta em porta. O seu director não lhe permitiu. A sua família materna tentou em vão voltar a casá-la.

    Quando a sucessão de Luís é acertada, ela dispõe dos seus bens para os dar aos pobres e mandar construir um hospital. Toma o hábito franciscano em 1228, leva uma vida extremamente austera, continua a alimentar os indigentes, e tratar os mais deserdados e os leprosos. Morre em 1231 com 24 anos. [  ]


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Mestre Eckhart – Iluminou os degraus da sua casa 5


  1. A outra potência é a potência ascendente cuja operação própria é a de tender para o alto.
  2. Da mesma forma que a propriedade do olho é a de ver a forma e a cor, que a propriedade do ouvido é a de ouvir os sons harmoniosos e as vozes, a operação própria da alma é a de, por essa potência, ela tender sem cessar para o alto.
  3. Se ela afasta os seus olhares, ela cai no orgulho, o que é pecado.
  4. Ela não pode suportar que alguma coisa esteja acima dela.
  5. Eu penso que ela também não pode suportar que Deus esteja acima dela.
  6. Se ele não está nela e se ela não está plenamente satisfeita como ele está ele próprio, ela não pode nunca encontrar o repouso.
  7. Por esta potência, a alma agarra Deus tanto quanto é possível a uma criatura, é por isso que a nomeamos esperança, e é também uma virtude divina.
  8. Por ela, a alma tem uma tão grande confiança em Deus que parece que Deus, em todo o seu ser, não tem nada que ela não possa receber por sua vez.
  9. Monsenhor Salomão diz que «as águas roubadas são mais suaves que qualquer outra água.»
  10. S. Agostinho diz: as pêras que eu roubava pareciam-me mais doces que aquelas que a minha mãe me comprava porque elas eram-me interditas e inacessíveis.
  11. Da mesma forma a graça que a alma adquire por uma sabedoria e uma aplicação particulares é muito mais doce para a alma que aquela que é comum a todos. 1

Notas
  1. As três potências da alma são o conhecimento, a irascibilis e a vontade que o pregador subordina respetivamente à fé, à esperança e ao amor.

    Tocamos aqui com o dedo na dificuldade que Mestre Eckhart sentiu ainda ao exprimir-se na sua língua materna. Ele pensou em latim e traduziu este termo para os seus auditores por «ein ûfkriegende kraft», uma potência ascendente.

    No sermão 33, Sancti per fidem vicerunt regna, em relação com este, ele traduziu literalmente «irascibilis» por «diu zürnerin», derivado de «zorn», a cólera, ao lado de «diu ûfkriegende kraft» e no sermão 34, Gaudete in domino, iterum gaudete, ele só conservou o «kriegend» e «ûfkriegend».

    Ora os dicionários etimológicos dão como primeiro sentido deste termo o verbo «streben» cujo equivalente português exato não existe e que significa «fazer esforço», «procurar atingir».

    É também por «strebend», «aufstrebend» que Josef Quint traduz em alemão moderno as expressões de Eckhart. Como este liga esta «potência» da alma à virtude da esperança e à ideia de se elevar, eu traduzi-a por «potência ascendente» que me parece próxima do pensamento e mesmo da expressão eckhartiana, não por «irascível» o que teria sido apenas um decalque.

    Da mesma forma, não traduzi «ein göttlîchiu tugent» por «virtude teologal», mas por «virtude divina», querendo conservar tanto quanto possível a simplicidade do vocabulário alemão. Isto como exemplo típico. [  ]


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Mestre Eckhart – Iluminou os degraus da sua casa 6


  1. A terceira potência é a vontade interior que, tal como um rosto, está sempre voltada para Deus, para a vontade divina, e bebe em Deus e toma em si o amor.
  2. Então Deus é atraído pela alma e a alma é atraída por Deus, isto é o amor divino e é também uma virtude divina.
  3. A beatitude divina reside em três pontos: o conhecimento que faz com que ele se conheça a si próprio absolutamente, em seguida a liberdade que faz com que ele permaneça sem ser agarrado nem constrangido por nenhuma criatura, e por fim a satisfação perfeita de ser suficiente a ele próprio assim como a todas as criaturas.
  4. É também no que consiste a perfeição da alma: no conhecimento e na consciência de ter agarrado Deus, e na união do amor perfeito.
  5. Nós queremos saber o que é o pecado? É afastarmo-nos da beatitude e da virtude, eis de onde vem todo o pecado.
  6. Toda a alma bem-aventurada deve também considerar estes degraus.
  7. É por isso que «ela não teme o inverno, porque os seus servidores estão também vestidos com roupas duplas» segundo o que a Escritura diz dela.
  8. Ela (Isabel) estava vestida com força para resistir a toda a imperfeição e ela estava ornada com a verdade.
  9. Em face do mundo, esta mulher estava exteriormente na riqueza e nas honras, e interiormente ela adorava a verdadeira pobreza.
  10. E então ela foi privada de consolação exterior, ela dirigiu-se para Aquele para quem fluem todas as criaturas, ela desdenhou o mundo e a ela própria.
  11. Com isso, ela ultrapassou-se a si própria e desdenhou de ser desdenhada, apesar de ela não se preocupar e não renunciou no entanto à perfeição.
  12. Ela desejou, com um coração puro, poder lavar e tratar das gentes doentes e sujas. 1
  13. Que Deus no ajude a que nós possamos assim iluminar os degraus da nossa casa e a não comer o nosso pão na ociosidade. Amém. 2

Notas
  1. Se as primeiras palavras que mestre Eckhart lhe consagra são bastante banais, as do fim do sermão provam que ele conhece bem a sua vida: «Esta mulher estava exteriormente na riqueza e nas honras face ao mundo e interiormente ela adorava a pobreza (ele diz mesmo "adorava", anebetete, e é uma palavra da qual ele não abusa). E quando ela foi privada de consolação exterior... » [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 11-17. [  ]


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