Imitação de Cristo - Da doutrina da verdade


  1. Feliz aquele a quem a verdade se manifesta tal qual ela é, e não por figuras e palavras efémeras, mas tal como ela é em si própria.
  2. A nossa opinião e os nossos juízos pouco alcançam e muitas vezes nos enganam.
  3. Para que serve saber especular sobre questões misteriosas e obscuras, de cuja ignorância não seremos repreendidos no dia do juízo?
  4. Grande loucura é desprezarmos as coisas importantes e necessárias, e apaixonarmo-nos pelas curiosas e nocivas. «Temos olhos e não vemos» (Sl. 113, 13).
  5. Que se nos dá dos Géneros e das Espécies dos Escolásticos?
  6. Aquele, a quem o «Verbo eterno» fala interiormente, não se preocupa com as opiniões desencontradas dos homens.
  7. Todas as coisas procedem e dão testemunho desse Verbo único, e é esse o «Princípio que também nos fala» (João, 8. 25).
  8. Sem Ele, ninguém entende nem julga com retidão.
  9. Aquele que encontra tudo nesse Único, e refere tudo a Ele, e n'Ele vê tudo, terá o coração firme e permanecerá em paz com Deus.
  10. Ó Deus, verdade eterna, uni-me convosco em perpétuo amor.
  11. Estou farto de ler e de ouvir tantas coisas! Em vós, Senhor, encontro tudo quanto quero e desejo.
  12. Calem-se todos os doutores, emudeçam todas as criaturas na vossa presença: falai-me somente vós.
  13. Quanto mais estivermos recolhidos em nós próprios e mais desprendidos das coisas exteriores, tanto mais e maiores coisas entenderemos sem esforço, porque é do alto que recebemos a luz da inteligência.
  14. A alma pura, simples e constante, não se dissipa ainda que se ocupe em muitos trabalhos, porque faz tudo pela glória de Deus e em nada se busca a si própria.
  15. Nada te perturba e enreda tanto quanto os afetos não mortificados do coração.
  16. O homem bom e piedoso ordena primeiro no seu interior as coisas que tem a fazer.
  17. E não as ordena segundo o desejo da inclinação viciosa, mas sujeita-as ao arbítrio da razão reta.
  18. Quem se esforça por se vencer a si próprio tem de travar o mais renhido combate do mundo.
  19. E este deveria ser o nosso principal empenho: dominarmo-nos a nós próprios, a fim de nos tornarmos cada dia mais fortes e cada dia progredirmos no bem.
  20. Nesta vida não há perfeição que não seja acompanhada por alguma imperfeição, e todo o nosso saber não é isento de incertezas.
  21. O conhecimento humilde de ti próprio é um caminho mais seguro para Deus do que as profundas pesquisas da ciência.
  22. Isto não significa que a ciência ou qualquer outro conhecimento das coisas sejam maus. São bons em si e ordenados por Deus. No entanto, devemos sempre preferir a boa consciência e a vida virtuosa.
  23. Mas, porque muitos estudam mais para saber do que para viver bem, a cada passo erram e pouco ou nenhum proveito colhem dos seus estudos.
  24. Ah! se cuidassem tanto em arrancar os vícios e em plantar as virtudes como em ventilar questões, não haveria tantos males e escândalos entre o povo, nem tanta relaxação nas comunidades religiosas.
  25. Quando chegar o dia do juízo, não seremos questionados sobre o que lemos, mas sobre o que fizemos; nem se falámos bem, mas se vivemos como devíamos.
  26. Diz-me: onde estão hoje todos aqueles senhores e mestres que tu conheceste, enquanto viviam, e que tanto se distinguiam pelo seu talento?
  27. Já foram substituídos por outros e talvez já não haja quem se lembre deles. Em vida, pareciam valer alguma coisa; agora, já ninguém fala deles.
  28. Oh! como passa depressa a glória do mundo!
  29. Queira Deus que as suas vidas tenham correspondido ao seu saber! Porque então terão lido e aprendido com proveito.
  30. Oh! quantos há que se perdem no mundo devido a uma ciência vã que lhes fez esquecer o serviço de Deus!
  31. E, porque antes querem ser grandes do que humildes, desvanecem-se nos seus pensamentos (Rom, 1, 21).
  32. Verdadeiramente grande é aquele que ama Deus com todo o seu coração.
  33. Verdadeiramente grande é aquele que tem baixo conceito de si próprio e despreza as honras e glórias do mundo.
  34. Verdadeiramente prudente é aquele que «considera todas as coisas terrenas como sendo imundície, para ganhar Cristo» (Fil. 3. 8).
  35. E verdadeiramente sábio é aquele que renuncia à sua própria vontade, para fazer unicamente a vontade de Deus.

[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Imitação » Vida espiritual » Da doutrina da verdade

Livro da Vida Perfeita - A criatura


  1. «Quando vier o Perfeito, o parcial será desprezado» (cf. 1 Co 13, 10). Mas quando é que Ele virá?
  2. Quando Ele for conhecido, provado e saboreado dentro da alma, tanto quanto isso seja possível.
  3. «Visto que o Perfeito é inconhecível e incompreensível a todas as criaturas, perguntarão, e visto que a alma é apenas criatura, como é que Ele pode ser conhecido dentro da alma?»
  4. Foi por isso mesmo que se disse: «enquanto que criatura». Enquanto que criada e produzida, enquanto que eu e amor próprio, a criatura não pode conhecer o Perfeito.
  5. Para O conhecer, é preciso que seja primeiro perdido e anulado dentro da criatura tudo o que é criado e produzido, tudo o que é eu e amor próprio.
  6. Este é o sentido da expressão de São Paulo: «Quando vier o Perfeito».
  7. Quando ele for conhecido, então o «parcial» - tudo o que é criado e produzido, tudo o que é eu e amor próprio - será desprezado e tido por nada.
  8. Enquanto nos prendermos e agarrarmos a essa «qualquer coisa», o «Perfeito» permanece desconhecido.

[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Vida Perfeita » Introdução » A criatura

Imitação de Cristo - Do humilde conceito que devemos ter de nós próprios


  1. Todo o homem tem o desejo natural de saber; mas para que serve a ciência sem o temor de Deus?
  2. Por certo, melhor é o camponês humilde que serve a Deus do que o filósofo soberbo que estuda o movimento dos astros mas descuida a sua alma.
  3. Quem se conhece perfeitamente tem-se por vil e não se compraz nos louvores humanos.
  4. «Se eu soubesse todas as coisas do mundo e não estivesse em graça, de que me serviria tudo isso diante de Deus, que me há de julgar segundo as minhas obras» (I Cor. 13. 2)?
  5. Não te deixes dominar pelo desejo desordenado de saber, porque nele há muita dissipação e engano.
  6. Os letrados gostam de ser vistos e tidos por sábios.
  7. Há muitas coisas que pouco ou nada aproveitam à alma saber.
  8. E muito insensato é quem se ocupa de tudo, menos do que pode ser útil à sua salvação.
  9. Muitas palavras não satisfazem a alma, porém, uma palavra boa refrigera o espírito, e a consciência pura dá grande confiança em Deus.
  10. Quanto mais e melhor souberes, com tanto maior rigor serás julgado, se com esse saber não viveres mais santamente.
  11. Por isso, não te envaideças com alguma arte ou ciência que possuas, antes teme pelos dons que recebeste.
  12. Se te parece que sabes muito e és inteligente, lembra-te que é muito mais o que ignoras.
  13. «Não te presumas de alta sabedoria» (Rom. 11. 20), antes confessa a tua ignorância.
  14. Como te queres considerar superior a alguém, quando há tantos mais doutos do que tu e mais conhecedores da lei?
  15. Queres aprender alguma coisa de proveito? Deseja que não te conheçam nem te estimem.
  16. Não há estudo melhor nem mais útil que conhecer-se perfeitamente e desprezar-se a si próprio.
  17. Ter-se a si próprio em nenhuma consideração e pensar sempre bem e favoravelmente dos outros, é prova de grande sabedoria e perfeição.
  18. Se vires alguém pecar abertamente ou cometer uma falta grave, não te deves considerar melhor do que ele, pois não sabes por quanto tempo serás capaz de perseverar no bem.
  19. Nós somos todos fracos; no entanto, não deves considerar ninguém mais fraco que a ti próprio.

[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Imitação » Vida espiritual » Do humilde conceito

Livro da Vida Perfeita - O Perfeito


  1. «Quando vier o Perfeito, disse são Paulo, o que é imperfeito e parcial será abolido» (1 Co 13, 10).
  2. Observa bem isso: o que é o «Perfeito»? E o que é o «parcial»?
  3. O «Perfeito» é um ser que compreende e encerra tudo n'Ele próprio e na sua essência.
  4. Não há ser verdadeiro fora d'Ele, não há ser verdadeiro sem Ele.
  5. N'Ele todas as coisas têm o seu ser. Porque Ele é o ser de todas as coisas: imutável e imóvel n'Ele próprio, Ele é quem move e modifica todas as coisas.
  6. O «parcial» - ou imperfeito - é o que surge, ou surgiu, do Perfeito. Tal como uma claridade ou um clarão emana do sol ou duma fonte luminosa: parece ser qualquer coisa - isto ou aquilo - e chama-se-lhe «criatura».
  7. De todas essas coisas parciais, nenhuma é o Perfeito, e o Perfeito não é nenhuma de entre elas.
  8. O «parcial» é compreensível, conhecível e exprimível.
  9. O «Perfeito» é incompreensível, inconhecível e inexprimível a todas as criaturas enquanto que tais.
  10. É por isso que o Perfeito é chamado «nada». Porque Ele não é nenhuma das criaturas. A criatura enquanto que tal não O pode conhecer nem O compreender, O nomear nem O pensar.

[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Vida Perfeita » Introdução » O Perfeito

Livro da Vida Perfeita - Oração inicial


Deus todo poderoso e eterno
escreveu este pequeno livro
por intermédio de um homem sábio, racional, justo e sincero,
seu amigo,
que foi durante algum tempo cavaleiro teutónico,
padre e custódio,
no mosteiro dos cavaleiros teutónicos
de Francoforte.
Ensina-nos muitas doutrinas preciosas
da Verdade divina,
e particularmente
como é que se podem reconhecer
os verdadeiros e justos
amigos de Deus,
assim como os espíritos extraviados e falsamente livres
que são tão prejudiciais à santa Igreja.


[ ◊ ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Vida Perfeita » Oração inicial

Livro da Vida Perfeita



Oração inicial

Oração final



Início » Espiritualidade » Livro da Vida Perfeita

Da Imitação de Cristo e desprezo de todas as vaidades do mundo


  1. «Quem me segue não anda nas trevas» (João, 8. 12), diz o Senhor.
  2. Com estas palavras, Cristo exorta-nos a imitar o exemplo da sua vida, se queremos verdadeiramente ser iluminados e livres de toda a cegueira do coração.
  3. Seja, pois, a vida de Cristo o objeto principal do nosso estudo.
  4. A doutrina de Cristo excede em muito os ensinamentos de todos os santos, e quem tiver o seu espírito nela encontrará grande suavidade.
  5. É por falta desse espírito que muitos, ainda que ouçam com frequência o Evangelho, não lhe tomam o gosto.
  6. Para entender bem e apreciar as palavras de Cristo, é preciso conformar toda a nossa vida com a vida dele.
  7. De que te serve a ti saber falar sobre o mistério da Santíssima Trindade, se não és humilde e desagradas por isso a essa mesma Trindade?
  8. Não são as palavras elevadas que fazem o homem santo e justo, mas é a vida virtuosa que nos torna agradáveis a Deus.
  9. Eu antes quero sentir a contrição dentro da minha alma que saber explicar em que é que isso consiste.
  10. Ainda que tu soubesses de cor toda a Sagrada Escritura e as afirmações de todos os filósofos, de que te serviria tudo isso, sem o amor e a graça de Deus?
  11. «Vaidade das vaidades e tudo é vaidade» (Ecl. 1. 2), exceto amar e servir somente a Deus.
  12. A suprema sabedoria consiste em desprezar o mundo e aspirar ao reino dos céus.
  13. Vaidade é, pois, correr atrás de riquezas perecedouras e pôr nelas a esperança.
  14. Vaidade é também pretender honras e desejar posições elevadas.
  15. Vaidade é seguir os apetites da carne e aquilo que depois será motivo de castigo severo.
  16. Vaidade é desejar uma vida longa e ter pouco cuidado em que seja boa.
  17. Vaidade é cuidar somente da vida presente e não pensar na vida futura.
  18. Vaidade é amar o que passa tão rapidamente e não buscar com fervor a felicidade que dura para sempre.
  19. Lembra-te com frequência das palavras de Salomão: «Os olhos nunca se fartam de ver nem os ouvidos de ouvir» (Ecl. 1. 8).
  20. Portanto, procura desapegar o teu coração do amor das coisas visíveis e afeiçoá-lo às coisas invisíveis.
  21. Porque aqueles que satisfazem os seus apetites sensuais mancham a consciência e perdem a graça de Deus.

[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Imitação » Vida espiritual » Da imitação de Cristo

Imitação de Cristo



  1. Conselhos úteis para a vida espiritual
  2. Exortações à vida interior
  3. Da vida interior
  4. Exortação devota à sagrada Comunhão



Início » Espiritualidade » Imitação de Cristo

Espiritualidade da Época


  • Demanda do Santo Graal
    Foi composta em Portugal cerca de 1230-1240, integra elementos de proveniência diversa tais como o tema do Graal, a lenda de Artur, os amores de Lancelot e Guenièvre e a história de Tristão e Palamedes, articulados entre si no sentido de formar um conjunto unificado e totalizante.
  • Mestre Eckhart
    Eckhart de Hochheim O.P. (Tambach, Turíngia, 1260 – Colónia, 1328), foi um frade dominicano, conhecido pela sua obra como teólogo e filósofo, e como o primeiro dos místicos renanos.
  • Livro da Vida Perfeita
    Escrito pelo Mestre de Francoforte, autor anónimo, cerca de 1350.
  • Nuvem de Desconhecimento
    Escrito por um monge inglês anónimo cerca de 1375.
  • Imitação de Cristo
    Escrito por Gerardo Groote (cerca de 1380) e Tomás Kempis (cerca de 1423-1427).



Início » Espiritualidade

Vida de Nuno Álvares Pereira - Flor da Rosa - Crato



«Meia légua, ou pouco mais, para o norte do Crato, em meio dessa charneca dilatada que vem das Beiras, e, transposto o oásis do Alto Alentejo, se alonga até às serras do Algarve, está a Flor da Rosa, ladeada a nascente pelos montes de Portalegre, levantados contra a fronteira de Castela.

As torres quadrangulares e maciças da nova igreja do Hospital, alvas de mocidade, mordem o céu com os dentes das ameias, abrigando na sua sombra poderosa as chocas humildes dos caseiros, a quem o prior vai aforando terra, para criar, em torno da fundação, um núcleo de moradores, como tantas vilas que nesses antigos tempos constantemente nasciam do solo requeimado do Alentejo.

Os reis, os monges militares, os donatários: todos estavam apostados, ainda no último quartel do XIV século, a consolidar, povoando-a e arroteando-a, a metade agreste do reino alcançada das mãos dos mouros à custa de mil combates, devastada e nua, ressequida e deserta, após séculos de incessantes guerras: cemitério de ruínas onde a esteva e o tojo encobriam as pedras dos muros derrocados; porque as raízes das antigas árvores os pavimentos das estradas e os restos das vilas romanas, havia muito que, ou se tinham dissolvido no pó da charneca, ou jaziam soterradas nele com o perpassar constante do tropel das guerras.

Destruída a vegetação, expulsa a gente, sumiu-se a água para o subsolo, formaram-se as torrentes com o precipitar das chuvas, abriu chagas a pele da terra; e o sol, secando o ar e o chão, pôde estender o seu império absoluto sobre a amplitude nua do deserto: nua como a ilimitada campina azul do céu, também ermo de nuvens.

O Crato era a capital dos estabelecimentos hospitalários portugueses. O prior, D. fr. Álvaro Gonçalves Pereira, fundara, em 1356, na Flor da Rosa, uma igreja e mosteiro torreado, para aí dormir o sono eterno sob o patrocínio de Nossa Senhora das Neves, ao lado de seus pais, o arcebispo de Braga, D. Gonçalo Pereira, e Tareja Pires Vilarinho, a Salamanquina, que já repousavam à sombra das muros espessos da igreja acastelada, como cumpria nessa região de fronteira, sacudida sempre por algaras e devastações de inimigos.

Ainda, porém, ao cabo de dezassete anos, em 1373, quando o prior resolvera enviar à Corte o seu filho, Nuno, que apenas contava treze anos: ainda então, a traça das construções não se achava terminada; e do Crato à Flor da Rosa, ia com frequência o prior, já velho, antegostar o sossego do túmulo que escolhera, desejoso de que a morte o não surpreendesse antes de ver terminado o monumento, que devia dar testemunho da sua passagem pelo mundo.» (1)

Notas
  1. Oliveira Martins - A Vida de Nun'Álvares, 9ª ed., p. 11-12.

[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » São Nuno » Vida » Flor da Rosa - Crato

Vida de Nuno Álvares Pereira - Avô e Ascendência


«Fora seu pai o arcebispo de Braga, D. Gonçalo Pereira, que além jazia na campa da Flor da Rosa, quem o destinara para monge cavaleiro, fazendo-o proferir os votos e alcançando-lhe o priorado do Hospital.

Fora ele que, sendo deão da Sé do Porto, expulsara o bispo, e depois o banira de Lisboa. Fora homem de grandes ódios, e de maus fígados. O bispo chamava-se fr. Estêvão, frade franciscano menor, e era o trigésimo na Sé do Porto, sagrado em 1309. Dera ao deão D. Gonçalo a igreja e o mosteiro de S. Salvador de Canedo, na terra da Feira, propriedade do cabido, quando ao tempo viviam na melhor intimidade. O cabido protestou, a Câmara do Porto interveio, reclamando ambos a expulsão do bispo; mas quem partiu com um cónego para Avinhão, a pedir a Clemente V a exautoração de fr. Estêvão, foi o próprio deão D. Gonçalo: donde se vê quanto aliava a arte para vencer lances difíceis, ao amor entranhado pelas grandezas da terra.

Andava então o mundo transtornado. Com a morte do imperador Henrique VII (1308-14) viera o cisma dos eleitores, e dois imperadores a disputarem a terra: o duque de Áustria, Frederico II, e o da Baviera, Ludovico Pio. A Itália ardia em guerra. Em França morrera Filipe-o-Belo (1285-314), ao que se dizia vítima da sua guerra aos Templários. No céu tinham-se visto três luas e um grande cometa durante três meses.

Em 1315 choveu o ano inteiro, sem cessar. A Áustria e a Boémia andavam assoladas, por heresias; a Alemanha, o Brabante, a Polónia e a Inglaterra, por fomes e pestes.

Clemente V (1305-16) mudara o papado de Roma para Avinhão (1309) e extinguira a ordem dos Templários (1312), ré de tantos crimes. Mas quando o deão do Porto chegou a Avinhão, já o papa tinha morrido, ficando mais de um ano vago o sólio pontifício. O bispo do Porto teve de sair; conseguindo, porém, ser transferido pelo Papa João XXII (1317-34) para Lisboa, onde continuou a administrar os bens do Templo em Portugal, até que, em 1320, D. Dinis fundou com eles a Ordem de Cristo.

O deão estava vingado, mas o ódio de D. Gonçalo não estava satisfeito. Embora o Papa lhe tivesse dado a mitra de Leão, antes de lhe dar o arcebispado de Braga, D. Gonçalo, que durante dois anos ficou em Avinhão, perseguiu o bispo fr. Estêvão, até que o expulsou de Lisboa para Cuenca. Foi sempre assim o ódio eclesiástico.

E D. Gonçalo, o prelado quase omnipotente, era também um político audaz e hábil. Esteve na batalha de Loures, entre D. Dinis e o infante D. Afonso; interveio para a reconciliação do pai com o filho; e foi quem, sendo este já rei, celebrou as pazes com Afonso-o-Bom de Castela (1212-50), o que tomou Algeciras aos mouros, em 1344.

Tal era o sangue que girava nas veias do pai de Nuno Álvares. E esse sangue ardente vinha em ebulição desde Rodrigo Gonçalves Pereira, por via do avô do arcebispo, Pero Rodrigues, o que casou com Estevaninha Ermígia da Teixeira, e matou na lide seu primo Pedro Poiares.

Rodrigo Gonçalves e seus irmãos, Gonçalo, fundador de Nandim e Elvira, da Palmeira, descendiam da casa de Cela-nova, transmontanos cruzados de sangue leonês. A história deste avô contava-se, na família, como exemplar do génio cruelmente justiceiro. Casara com Ides Sanches e, deixando-a no castelo de Lanhoso, soube como ela aí fazia maldade com um frade de Bouro. Rodrigo Gonçalves foi lá em armas, cercou o castelo e, pondo-lhe fogo, fez arder na mesma fogueira a mulher e o frade, e a mais gente, com as bestas, os cães, e tudo quanto havia dentro, para que a chama consumisse por completo os sacrílegos e a desonra.

Não faltavam, portanto, sementeiro de força bravia na ascendência de Nuno Álvares, que vinha ao mundo temperado por três gerações de tal gente.» (1)

Notas
  1. Oliveira Martins - A Vida de Nun'Álvares, 9ª ed., p. 14-16.

[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » São Nuno » Vida » Avô e Ascendência de São Nuno

Vida de Nuno Álvares Pereira - Ordem do Hospital


«O pai [de São Nuno] nascera quando D. Gonçalo ainda não era deão nem até clérigo; foi nos estudos, em Salamanca, que o futuro arcebispo de Braga filhou Tareja Pires Vilarinho, e o fez nela.

O pai meteu-o, quase criança, no Hospital, cujo mestre era seu tio-avô, Estêvão Vasques Pimentel, irmão da mãe do arcebispo, Urraca Vasques da casa dos Pimentéis, casada com o conde de Trastâmara, D. Gonçalo Pereira, de quem o filho tirou o nome.

Cresceu D. fr. Álvaro sob o patrocínio do tio e, quando este morreu, tinha o rapaz dezoito anos, sucedeu-lhe no priorado da Ordem, cuja sede era o Crato.

Governando, pois, a Ordem do Hospital desde largos anos, tornara-a como que apanágio da sua família, tanto lhe aumentara o poder e a riqueza.

As cruzes floreteadas do seu brasão viam-se esculpidas num sem número de castelos.

Tinha construído o da Amieira, forte e mui formoso; os paços do Bonjardim, junto à sua vila da Sertã; a igreja de Santa Maria em que Deus fazia muitos milagres; e, além de outras numerosas obras, remata o castelo da Flor da Rosa, o seu mosteiro e igreja, povoando o lugar com colonos adscritos.

Da Ordem fundada em 1110 por Gérard de Martine para a Cruzada, havia em cada nação ou lingoa, um prior, balios e comendadores. Havia as lingoas da Provença, do Arverno, de França ou de Paris, da Itália, do Aragão, da Alemanha e de Castela e Portugal.

O grão-mestre, a quem se chamava eminência, governava a Ordem superiormente a todas as lingoas, enquanto ela manteve o caracter cosmopolita, ou internacional.

O comendador-mor era o "pilar" da lingoa da Provença; o marechal, o "pilar" do Arverno; o hospitalário, o da França; o almirante, o da Itália; o conservador-mor, o do Aragão; o balio-mor, o da Inglaterra; e finalmente o de Castelã, ao qual primitivamente andava sujeita a lingoa portuguesa, era chanceler-mor da Ordem.

Por todo o mundo, os monges cavaleiros do Hospital, regrantes de Santo Agostinho, levavam, em tempo de paz, o seu manto negro com a cruz de ouro de oito pontas, sobre o lado, e outra cruz sobre o peito.

Em todas as batalhas apareciam nas armaduras a grande cruz branca da Ordem, e o pendão com as armas: guelas escarlates e cruzes de prata.

Eram a milícia de Cristo: um dos vários exércitos monásticos, em que o cosmopolitismo europeu se definiu primeiro, sob o influxo da religião, para o resgate da Terra Santa, onde padecera Cristo.

Outra Palestina foi a Espanha, avassalada também pelo Islão; e por isso os exércitos cruzados paravam aqui, nas derrotas das suas viagens do mar do Norte para o Mediterrâneo; por isso as ordens hierosolemitanas, que tamanho papel tiveram na fundação de Portugal, se enraizaram, engrandecendo-se.

Expulsos da Palestina os hospitalários com a conquista da Terra Santa pelos egípcios (1291), levaram para Chipre o seu tabernáculo; mas também daí foram repelidos, indo estabelecer-se em Rodes (1310).

Nesta época, porém, a lingoa de Portugal sofrera uma revolução profunda, desde que el-rei D. Dinis nacionalizara as ordens hierosolemitanas, colocando-as sob a sua autoridade real, e transferindo para a cavalaria de Cristo os bens do Templo, abolido por Clemente V.

Já o Hospital era entre nós uma milícia particularmente portuguesa, sujeita à Coroa, como as Ordens monásticas não militares, embora no espiritual ligada ao grão-mestrado, quando o prior D. fr. Álvaro Gonçalves foi a Rodes, «muy grandemente e bem acompanhado», tributar o seu preito de vassalagem.

Mas por isso mesmo que a Ordem se tornara portuguesa, era no concurso das forças políticas da Nação um dos elementos preponderantes, não havendo, talvez, na Corte cargo mais invejado, nem de maior valia, do que o priorado do Hospital.

Entrando em Portugal em 1119, no tempo de el-rei D. Afonso Henriques, a Ordem recebera deste rei e dos seus sucessores a doação de vinte e uma vilas e lugares.

Os seus domínios concentravam-se no centro do Reino sobre o curso do Tejo e do Zêzere, alongando para o sul um braço e para o norte outro: o primeiro, em Montoito, a igual distância de Évora e do Guadiana; o segundo, eram Lobelha do Mato e Ranhados, entre Viseu e o Mondego. Dominando o Vale do Zêzere, no curso médio da sua margem direita, possuíam os hospitalários, Alvares e a Pampilhosa, fronteiras aos quais ficavam na margem esquerda, os castelos de Oleiros e Pedrógão Pequeno. A Sertã e o Bonjardim, com Proença-a-Nova mais para leste, aninhada no alto dos montes que dividem as águas do Zêzere das do Tejo, continuavam em direcção deste rio as parelhas de castelos da Ordem. Depois vinha o Carvoeiro, numa dobra do pendor austral do terreno; depois Belver, a cavaleiro sobre a margem direita do Tejo, em frente do Gavião; depois, acima do Gavião, e do lado de Vila Flor, o castelo da Amieira, construído pelo prior D. fr. Álvaro Gonçalves; depois Tolosa; depois o Crato, com Flor da Rosa, e Elvira e a comenda de Cores, e o lugar de Aguilheiro, e o conselho da margem, e o conto da Coutada, e o casal do Monte, e a vila de Ferrajos, com vinte e quatro comendas.» (1)

Notas
  1. Oliveira Martins - A Vida de Nun'Álvares, 9ª ed., p. 16-18.

[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » São Nuno » Vida » Ordem do Hospital

Vida de Nuno Álvares Pereira - Pai de São Nuno


«D. fr. Álvaro, homem poderosíssimo que já privara com el-rei D. Afonso IV, e depois com el-rei D. Pedro-o-Cru, era uma das figuras eminentes do tempo de D. Fernando.

Os seus anos, os seus serviços, o seu saber e entendimento davam-lhe essa preferência: sobretudo as artes da Astrologia, em que punha um minucioso cuidado, nas suas demoradas práticas com mestre Tomás, o astrólogo da casa, traçando os vaticínios do tempo, à luz tenuíssima que nessas épocas de barbárie lôbrega anunciava o despontar da claridade racional.

Numa atmosfera de sombra e medo, num tempo de incerteza e crueldade, o esforço pessoal e a superstição divinatória eram as duas armas com que os homens conseguiam atravessar pelas brenhas da vida, em combates incessantes.

Sábio e valente, o prior era celebrado pela magnanimidade do seu coração, pela largueza do seu espírito, pela generosidade da sua alma.

«Partia grandemente o que havia». Quando a existência depende do esforço humano e não da estabilidade da máquina social, o homem, com os impulsos do seu instinto voluntário, pode expandir à larga os dons que a natureza lhe deu, como árvore bracejando livremente no ar; e mostrar-se qual nasceu e o fizeram, ou na grandeza incoerente de herói, ou na abjecção monstruosa de malvado.

D. fr. Álvaro pertencia à família dos primeiros. Deixada a natureza ao seu livre curso, não há moderação, nem caracteres temperados: esta mediania que é a regra das sociedades bem ordenadas, onde cada qual, ao nascer, encontra preparado o molde a que tem de sujeitar-se desde o berço até à cova. Ai daqueles que vieram fadados para excêntricos voluntariosos; ai, também, dos que, nas idades tempestuosas do mundo, nasceram sem trazer nos músculos a têmpera da energia.

Era um grande braço, era um grande cérebro, era um grande coração, D. fr. Álvaro; e tudo isto era espontaneamente, à lei da natureza, levado pelos impulsos da vontade, pelos assomes do orgulho fidalgo, pela violência de um temperamento carnal.

Na sua longa vida, apesar dos votos proferidos antes dos dezoito anos, que foi quando o fizeram prior do Hospital, teve muitos amores e trinta e dois filhos, machos e fêmeas.

O mais velho chamava-se Pedro: Pedro Alvares (filho de Álvaro) ou Pedrálvares, e foi quem lhe sucedeu no priorado.» (1)

Notas
  1. Oliveira Martins - A Vida de Nun'Álvares, 9ª ed., p. 12-13.

[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » São Nuno » Vida » Pai de São Nuno

Vida de Nuno Álvares Pereira - Nascimento


«Entre os [filhos] menores [de Álvaro Gonçalves Pereira] estava Nuno, Nuno Álvares, ou Nunálvares, que nasceu em 1360, dia de S. João, como precursor também, no castelo do Bonjardim, filho duma criada da Corte, por nome Iria Gonçalves do Carvalhal.

Quando esta aventura paçã teve o seu desfecho com o parto de Iria do Carvalhal no mosteiro do Bonjardim, o pai e o astrólogo, D. fr. Álvaro e mestre Tomás, apressaram-se a tirar o vaticínio do recém-nascido, e o oráculo disse que o novo bastardo seria invencível. Vinha ao mundo com o Precursor; os signos afirmavam um prodígio; o pai exultava, e a mãe sorria, amorosa e melancólica, para o fruto do seu amor sacrílego.

Não é crível que, por grande que fosse a soltura dos costumes (e não podia ser maior) nas consciências enevoadas do tempo não acordasse vislumbre de remorso por pecados tão contra a letra expressa da lei de um Deus, de quem os mais atrevidos tremiam como varas verdes.

A prova é que a amante do prior levou a penitenciar-se o melhor da sua vida, sem comer carne, nem beber vinho, durante quarenta anos, fazendo grandes esmolas e jejuns.

Mas o pecado teve sempre uma teoria complicada. Sem penitência não se ganha o céu, e sem pecado não há motivo de penitência. Superior às forças humanas, fatalidade inevitável da natureza, para todo o pecado há perdão: o caso está em fazer por ele! E pecador há, dignos de bênção, desde que foram resgatados. O pecado de amor estava em tal caso, num tempo em que a força das coisas levava a reclamar tudo do vigor do braço, da energia do temperamento, da exuberância das paixões. Era a idade áurea da bastardia.

- E gerar nas minhas entranhas um herói, pensaria a mãe; espada invencível como a de Galaaz, o glorioso bastardo de Lançarote do Lago!... E vir à luz no próprio dia do Baptista, o precursor de Cristo!... Se não fosse, também, o pecado de Eva, nunca o mundo teria comungado no sangue do Redentor...

O prior, por seu lado, exultava abertamente. Não o assaltavam as dúvidas que perseguem a consciência, mais subtil, das mulheres. Tomava a vida como o tempo a fazia. Ele próprio, bastardo era também.» (1)

Notas
  1. Oliveira Martins - A Vida de Nun'Álvares, 9ª ed., p. 13-14.

[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » São Nuno » Vida » Nascimento de São Nuno

Vida de São Nuno


  • Nuno Álvares Pereira nasceu em 1360 nos Paços do Bonjardim, Cernache do Bonjardim, perto da Sertã. [Mais]
  • O pai foi Dom Álvaro Gonçalves Pereira [Mais], Prior do Crato [Mais], e a mãe foi Iria Gonçalves do Carvalhal.
  • O avô foi Dom Gonçalo (Gonçalves) Pereira, 97º Arcebispo de Braga (1326-1349) e a avó foi Tareja (Teresa) Peres Vilarinho. [Mais]
  • Tanto o pai Álvaro, como o avô Gonçalves e a avó Teresa, foram sepultados em Flor da Rosa, Crato. [Mais]
  • Aos treze anos, em 1373, partiu para a corte em Santarém. [Mais]
  • O prior D. fr. Álvaro e D. João Afonso, senhor de Albuquerque e Medelin, tinham representado em Castela o partido da aliança portuguesa. [Mais]
  • Foi armado cavaleiro pela rainha Leonor Teles. [Mais]



Início » São Nuno » Vida

São Nuno





Início » São Nuno

Cronologia da Época


  • 300-500 - Pais do Deserto afastam-se da civilização do seu tempo e vivem como anacoretas e cenobitas nos desertos do Egito, principalmente em Scete, Nitria e na colónia dita das Células.
  • 305 - S. António do Egito, depois de vinte anos de vida solitária no deserto, fundou uma comunidade religiosa.
  • 386 - S. Benedito determinou as leis monásticas e fundou um mosteiro no Monte Cassino em Itália. Scholástica, sua irmã, torna-se responsável por uma comunidade de freiras vizinhas ao mosteiro.
  • 910 - Abadia de Cluny foi fundada em França. Os cluniacenses (Monges Negros de S. Benedito) pretendiam seguir estritamente a Regra de S. Benedito, dando ênfase especial às orações.
  • 1041 - O Concílio de Nice estabeleceu as leis da guerra, as Tréguas de Deus.
  • 1084 - S. Bruno fundou o primeiro mosteiro Cartusiano em Chartreuse, região montanhosa de França. Os monges viviam como ermitães, cada um na sua cela.
  • 1090 - Bonizon de Sutri redigiu um código do cavaleiro cristão (miles christianus) no seu Livro da Vida Cristã. Onde incentiva o cavaleiro a se dedicar ao seu senhor, a desprezar o saque, a oferecer a vida a Deus, a combater pelo bem público, a combater contra os heréticos, a proteger os pobres, as viúvas e os órfãos, e a observar o juramento de fidelidade para com o seu senhor.
  • 1095-11-26 - No Concílio de Clermont, o Papa Urbano II persuadiu os príncipes e os cavaleiros ocidentais com o seu célebre discurso a favor da cruzada. A palavra de ordem era «Jerusalém»; o símbolo era a cruz branca.
  • 1096-1099 - Primeira cruzada, não foi um único movimento, mas um conjunto de ações bélicas de inspiração religiosa, que incluiu a Cruzada Popular, a Cruzada dos Nobres e a Cruzada de 1101.
  • 1098 - Ordem Cisterciense foi fundada em Citeaux, França. Os Cistercienses buscavam restaurar a simplicidade das Regas de S. Benedito, enfatizando o trabalho no campo (lavoura). Os mosteiros localizavam-se em regiões remotas.
  • 1099-7-15 - Jerusalém foi tomada de assalto após cinco semanas de cerco. O reino de Jerusalém teve por chefe Godofredo de Bouillon, «protetor do Santo Sepulcro».
  • 1110 - Ordem do Hospital (Ordem do Hospital de São João de Jerusalém) foi fundada por Gérard de Martine para a cruzada. Ordem de aristocratas, nunca teve entre os seus cavaleiros pessoas que não pertencessem à fidalguia.
  • 1115 - Estevão Harding envia o jovem S. Bernardo à frente de um grupo de monges para fundar uma nova casa cisterciense no vale de Langres. A fundação é chamada "Vale Claro", ou Clairvaux – Claraval. S. Bernardo é nomeado Abade desta nova Abadia.
  • 1118 - Ordem dos Templários (Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão) foi fundada em Jerusalém, onde receberam do Rei Balduíno II um local no Monte Moriah para se reunirem, monte no qual o Rei Salomão edificara o seu Templo.
  • 1118 - Ordem do Hospital entrou em Portugal.
  • 1119 - S. Bernardo faz parte do Capítulo Geral dos Cistercienses que dá a forma definitiva à Ordem. A Carta da Caridade, que é então redigida por Estevão Harding, é confirmada pouco depois pelo Papa Calisto II.
  • 1128 - S. Bernardo participa no concílio de Troyes. É durante o concílio que Bernardo consegue o reconhecimento para a Ordem do Templo, os Templários, cujos estatutos são escritos por ele próprio.
  • 1146-3-31 - Quando o reino de Jerusalém foi ameaçado, o Papa Eugénio III, ele próprio um cisterciense de Claraval, pediu a S. Bernardo que pregasse a segunda cruzada em Vézelay em 31 de Março de 1146 e mais tarde em Spire. S. Bernardo tem tanto sucesso que o rei Luís VII o Jovem e o imperador Conrado III tomam eles próprios a cruz.
  • 1147-1149 - Segunda cruzada, dirigida por Conrad III de Hohenstaufen e Luís VII de França, que tomaram a cruz por influência de S. Bernardo.
  • 1148 - Segunda cruzada fracassa na conquista de Damasco.
  • 1153-1159 - Bertoldo, inspirado pelo profeta Elias, dirigiu-se para o Monte Carmelo. Aí, com o auxílio do seu primo, o Patriarca D. Aimerico de Antioquia, construiu uma pequena capela perto da gruta de Elias e perto de ruínas que lá existiam. Aos poucos, cresceu o número de eremitas que se espalharam por todo o Monte, vivendo separados uns dos outros em pequenas cavernas, procurando assim imitar Elias.
  • 1160-1190 - Chrétien de Troyes compôs os grandes romances corteses: Lancelot, Yvan, Perceval; o primeiro trovador é Guilherme IX de Poitiers (1070-1190). O Roman de la Rose, obra inacabada de Guilherme de Lorris (cerca 1071-1127), exalta o amor cortês no meio de alegorias evocadas em sonhos.
  • 1166 - Ordem de Avis (Cavaleiros de S. Bento de Avis - 1162 ou Freires de Santa Maria de Évora - 1166) formou-se em Évora, Portugal.
  • 1174 - Ordem de Santiago (Ordem Militar de Santiago da Espada) entrou em Portugal e desempenhou um papel de relevo na conquista do Alentejo e do Algarve.
  • 1189-1192 - Terceira cruzada, dirigida com entusiasmo por Frederico I Barba-Roxa.
  • 1202-1204 - Quarta cruzada. O Papa Inocêncio III chamou a nobreza da Europa para uma nova cruzada, cujo objetivo foi o Egito.
  • 1204 - A Quarta Cruzada saqueou Bizâncio.
  • 1209 - Alberto, Patriarca de Jerusalém, deu aos eremitas que se espalharam pelo Monte Carmelo uma Norma de Vida escrita, inspirada na Regra de S. Agostinho, e reuniu-os perto da fonte de Elias. O Patriarca Alberto tinha sido religioso em Itália onde tinha praticado a Regra de S. Agostinho.
  • 1210 - S. Francisco de Assis fundou a Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) em Itália. Os frades não tinham uma casa permanente, peregrinavam pelo campo pregando.
  • 1212 - Cruzada das crianças. Milhares de rapazes e de raparigas embarcaram em Marselha. Os armadores levaram-nos para Alexandria onde foram vendidos como escravos.
  • 1216 - S. Domingos fundou a Ordem dos Pregadores (Dominicanos) em Toulouse, França. Esta Ordem procurou combater os heréticos (Albigences) e trazê-los sob a autoridade da Santa Sé.
  • 1223 - O Papa Honório III confirmou a criação da Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) de S. Francisco de Assis. Voto de pobreza absoluta.
  • 1226-1-30 - O Papa Honório IV aprovou a Regra dos Carmelitas mediante a Bula Ut vivendi norman.
  • 1226-1229 - Primeira emigração dos Carmelitas para Europa.
  • 1228-1229 - Últimas cruzadas.
  • 1230-1240 - Foi composta em Portugal a Demanda do Santo Graal integrando elementos de proveniência diversa tais como o tema do Graal, a lenda de Artur, os amores de Lancelot e Guenièvre e a história de Tristão e Palamedes, articulados entre si no sentido de formar um conjunto unificado e totalizante.
  • 1231-4-1 - O Papa Gregório IX criou o Santo Ofício (Inquisição), e colocou-o sob o controle do Dominicanos, para prender e julgar os heréticos que proliferavam em França e na Alemanha. Cerca de 2000 pessoas morreram durante a Inquisição Medieval (1231-1400).
  • 1240 - Primeiro êxodo de eremitas do Monte Carmelo em direção à Europa (Chipre, Sicília, Inglaterra e França). Na Europa adotaram o modo de vida mendicante à semelhança dos Dominicanos e Franciscanos.
  • 1244 - Jerusalém foi reconquistada pelos muçulmanos.
  • 1247-10-1 - O Papa Inocêncio IV, com a Bula Quae honorem conditoris, reconheceu a primeira Regra da Ordem Carmelita que permitia a habitação não apenas em locais desérticos mas agora também no interior das cidades. Mais tarde, S. Teresa de Ávila apelidará esta regra de "regra primitiva".
  • 1251 - Expulsos da Terra Santa, alguns frades da Ordem da Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo (Carmelitas) estabeleceram-se em Moura, sob a proteção dos Cavaleiros da Ordem do Hospital (de Malta).
  • 1265 - Raimundo Llull escreveu O Livro da Ordem de Cavalavria.
  • 1291 - São João de Acre, a última fortaleza cristã na Palestina, junto ao Monte Carmelo, foi tomada pelos muçulmanos.
  • 1309 - O papado foi transferido para Avignon.
  • 1311-1312 - Concílio de Viena de França. Os 'tomistas' (via antiqua: dominicanos) afrontaram os 'escotistas' (via moderna: franciscanos). Os 'espirituais' (extremistas minoritários) sustentaram contra a Cúria uma luta esgotante por causa do dever de pobreza.
  • 1311-1321 - A escolástica encontrou o seu simbolismo poético na epopeia religiosa, escrita por Dante Alighieri, a Divina Comédia, que transforma uma viagem desde o Inferno até ao Céu na visão de um tribunal universal de justiça.
  • 1312-5-6 - Supressão da Ordem do Templo (Templários) pelo papa Clemente V, no Concílio de Viena de França.
  • 1319-3-14 - Ordem de Cristo (Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo) foi criada pela Bula Papal Ad ea ex-quibus de João XXII, acedendo aos pedidos do rei D. Dinis. Foi herdeira das propriedades e privilégios da Ordem do Templo (Templários).
  • 1323 - O Papa João XXII condenou, no decurso de um conflito com os franciscanos, a doutrina da pobreza de Cristo e dos seus apóstolos (ideal de S. Francisco de Assis) como sendo herética.
  • 1347-1349 - A Peste Negra na Europa.
  • 1358-4-15 - D. João nasceu de D. Pedro I e Teresa Lourenço. Mais tarde foi mestre de Avis e rei de Portugal.
  • 1360-6-24 - Nuno Álvares Pereira nasceu na Quinta do Bonjardim (Cernache).
  • 1361-7-24 - Nuno Álvares foi legitimado por D. Pedro I, em Portalegre, dado ser filho natural de Iria Gonçalves do Carvalhal e do Prior da Ordem do Hospital, D. Álvaro Gonçalves Pereira.
  • 1366 - D. João professou na Ordem de Avis.
  • 1367 - D. Pedro I morreu e foi sucedido por D. Fernando no trono de Portugal.
  • 1373-2 - Nuno Álvares entrou na Corte, trazido por seu pai. Saíu a reconhecer o exército castelhano, na sua marcha sobre Lisboa. Foi armado cavaleiro por D. Leonor Teles e ficou na Corte com a sua mãe e o seu tio.
  • 1376-8-15 - Nuno Álvares casou com Leonor de Alvim; bodas em Vila Nova da Rainha; lua-de-mel no Bonjardim.
  • 1377 - O Papa Gregório XI regressou definitivamente a Roma sob a influência de S. Catarina de Siena. O Vaticano tornou-se na nova residência papal.
  • 1377-1379 - Residência de Nuno Álvares no Minho; nascimento da sua filha D. Beatriz, futura condessa de Barcelos.
  • 1378-5 - Morte do prior D. Álvaro, pai de Nuno Álvares.
  • 1378-1417 - O Grande Cisma. A Europa foi dividida em dois campos.
  • 1381-1385 - Terceira Guerra Castelhana. Nuno Álvares revela-se um militar corajoso e um estratega competente.
  • 1383-10-22 - D. Fernando faleceu e D. João I de Castela proclamou-se rei de Portugal.
  • 1383-12-6 - D. João, Mestre da Ordem de Avis, procedeu ao assassinato do Conde João Fernandes Andeiro, lacaio de Castela. Nuno Álvares tomou o partido do Mestre de Avis, contra os desejos da família.
  • 1383-12-30 - Nuno Álvares ocupou o Castelo de S. Jorge em Lisboa. Seguem-se as campanhas múltiplas e históricas no Alentejo contra Castela.
  • 1385-3-3 - Cortes de Coimbra. Discurso jurídico de João das Regras a favor do direito do Mestre de Aviz ao trono de Portugal. Invocação dos argumentos de cruzada, por forma a obter o apoio do Papa.
  • 1385-4-6 - Mestre de Avis aclamado pelas Cortes como rei D. João I de Portugal.
  • 1385-4-7 - Nuno Álvares foi nomeado Condestável do Reino.
  • 1385-8-14 - Vitória retumbante na Batalha de Aljubarrota.
  • 1386-4-27 - D. Leonor Teles morreu no exílio, em Valhadolide.
  • 1386-11-1 - D. João I e Nuno Álvares visitam o duque de Lencastre em Ponte do Muro, entre Melgaço e Monção. Aliança e negociações do casamento de D. Filipa com o rei.
  • 1387-2-2 - D. João I casou com D. Filipa de Lencastre, no Porto.
  • 1387-12-1 - Tratado de aliança com Ricardo II de Inglaterra, celebrado em Londres.
  • 1388-1 - D. Leonor de Alvim faleceu no Porto. Nuno Álvares viúvo, entrega a filha, D. Brites, aos cuidados da avó, Iria Gonçalves, em Lisboa.
  • 1393 - Nuno Álvares recebe mais terras, para além de outras já concedidas, e reparte-as com os seus companheiros de guerra.
  • 1394 - Conflito entre D. João I e Nuno Álvares sobre as doações deste. Resgate das terras doadas pelo rei aos fidalgos. Afirmação do poder soberano da Coroa. Reconciliação a breve trecho.
  • 1394 - Início das obras do Convento de Santa Maria do Vencimento, sobre o Vale Verde (Rossio) em Lisboa, por Nuno Álvares.
  • 1397 - Conclusão das partes principais do Convento. Nuno Álvares oferece-o aos frades Carmelitas de Moura, que desde logo iniciam a instalação.
  • 1401-1-1 - Escrituras do casamento da filha de Nuno Álvares, D. Beatriz, com o bastardo de D. João I, D. Afonso, em Frielas.
  • 1413-5-24 (ou 25) - Conselho real de Torres Vedras, com a presença de Nuno Álvares, onde foi decidida a tomada de Ceuta, tendo assim iniciado todo o processo histórico dos Descobrimentos Portugueses.
  • 1414 - D. Beatriz morreu em Chaves devido a complicações de parto. O pai, Nuno Álvares, foi do Alentejo a Chaves e acompanhou o saimento para Santa Cruz de Vila do Conde, onde a filha ficou a jazer.
  • 1415-7-19 - A rainha D. Filipa morreu em Lisboa.
  • 1415-7-25 - Nuno Álvares participou na expedição da tomada de Ceuta.
  • 1415 - Jan Hus e Jerónimo de Praga (1416) foram queimados vivos por heresia em Constança.
  • 1422-4-4 - Nuno Álvares fez doações e partilha dos seus bens pelos netos; distribuiu todos os seus haveres pelos familiares.
  • 1422-7 - Nuno Álvares estabeleceu residência no Convento do Carmo em Lisboa.
  • 1423-7-28 - Nuno Álvares doou o Convento à Ordem do Carmo.
  • 1423-8-15 - Nuno Álvares professou na Ordem do Carmo como simples donato (oblato), pelo que nem sequer tinha direito ao título de Frei.
  • 1425 - Projeto de expedição de socorro a Ceuta: decisão de Nuno Álvares em ir.
  • 1431-4-1 (ou 11-1) - Nuno Álvares morreu com 70 anos e onze meses no Convento de Nossa Senhora do Carmo (designação entretanto adotada) de Lisboa, onde foi enterrado.
  • 1431-5-30 - Joana de Arc morreu queimada viva em Ruão.
  • 1433-8-14 - D. João I morreu e D. Duarte foi aclamado rei de Portugal.
  • 1433 - Infante Duarte ofereceu um sermão a Fr. Francisco de Évora para pregar na festa de Nuno Álvares. Presume-se que este sermão se destinava já às festas da canonização.
  • 1433 - Data mais credível para a redação da Crónica do Condestabre, de autor anónimo, que serviu de fonte ao cronista Fernão Lopes.
  • 1437 - D. Duarte escreveu uma carta a D. Fr. Gomes, abade do Mosteiro Beneditino de Florença, solicitando empenho no processo de canonização de Nuno Álvares.
  • 1441 - Iria Gonçalves, mãe de Nuno Álvares, morreu e foi enterrada no Convento do Carmo em Lisboa, junto do filho.

Bibliografia:
  • Oliveira Martins - A Vida de Nun' Álvares
  • J. Pinharanda Gomes - S. Nuno de Santa Maria
  • Perrin - Atlas historique

Apresentação


O Galaaz do Carmelo

«A dicotomia do culto alvarino apresenta-se constante, revestida de cariz místico, como se uma das faces necessitasse da outra e vice-versa.

A lenda acentuou o conteúdo mítico e recriou o homem de armas no homem de alma. "Sem largar as contas da mão, levaria na outra a espada, guardada para servir nos desempenhos da Honra de Deus, sem que parecesse novidade cingi-la sob o hábito, porque o grande Elias, de quem era filho, lhe deixara este exemplo". É quanto se diz acerca do episódio da cruzada a Ceuta. Outros episódios se contam, dos quais se tende a extrair mais valia a favor do guerreiro.

O túmulo erguido ao fundador na capela-mor no Convento do Carmo, ao lado do túmulo de sua mãe, D. Eiria Gonçalves, compendia a paridade do varão ilustre.

De um lado, na face principal, a alegoria do monge, do outro, o guerreiro, "vivo, mancebo, coroado de flores, vestido de armas brancas, com cota de malha, cruz de seu brasão, manoplas, gravas e espaldar, espada à cinta, uma grande maça de ferro na mão direita, e com o morreão, e o seu penacho lançado aos pés". É a figura do "Conde Santo", Galaaz em demanda do Graal.

No jogo de ambas as alegorias, distinguimos o diferente do análogo. A diferença reside entre a pompa do cavaleiro em sua glória e a modéstia do monge em sua amada pobreza. A analogia reside na sequência das figuras - o cavaleiro andante das batalhas, por honra de El-Rei, é imitador de Elias. Conduz a guerra em defesa da honra de Deus, e continua cavaleiro, agora vestindo a samarra eliana, feito cavaleiro andante do Monte Carmelo.»

O Galaaz do Carmelo
S. Nuno de Santa Maria - Nuno Álvares Pereira
J. Pinharanda Gomes

8 de Dezembro de 2009
Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria
Padroeira principal de Portugal



Início