Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 57



Como tais jovens discípulos presunçosos compreendem mal e desprezam a expressão «para o alto», e das ilusões e erros que daí advêm.
  1. Nada mais sobre isto quanto ao presente, mas avancemos na nossa matéria: como esses jovens discípulos espirituais presunçosos desentendem essa outra expressão «para o alto».
  2. Porque se acontece que eles próprios leram, ou ouviram ler ou dizer que os seres humanos deveriam elevar os seus corações para Deus, imediatamente eis que eles elevam os olhos para as estrelas como se eles quisessem ir para além da lua, e que esticam as orelhas como se eles fossem ouvir um anjo do céu pôr-se a cantar. Esses seres humanos, na curiosidade da sua imaginação, vão em breve penetrar nos planetas e fazer um furo no firmamento, para o observar dessa forma. Eles vão fazer por eles próprios um Deus à conveniência deles, que eles vão vestir com ricas roupas e sentar sobre um trono também mais sumptuoso do que tudo o que alguma vez foi pintado sobre a terra. Eles vão imaginar os anjos com figura corporal, e fazer de cada um um menestrel com instrumentos mais estranhos e mais diversos do que tudo o que alguma vez foi visto ou ouvido aqui em baixo. E o diabo enganará e iludirá alguns muito maravilhosamente.
  3. Porque ele lhes enviará uma espécie de orvalho, alimento dos anjos pensarão eles, enquanto que ele descerá do céu e cairá suavemente e deliciosamente na boca deles; e é por isso que eles ganharam o hábito de ficarem sentados com a boca escancarada como se eles quisessem apanhar uma mosca. E isso, no entanto, tudo isso que não passa de uma ilusão não lhes parece ser senão mais santo; mas eles têm a alma perfeitamente vazia, durante esse tempo todo, de qualquer verdadeira devoção. Eles só têm vaidade e mentira no coração, por culpa do estranho trabalho da sua curiosidade.
  4. E ainda muito frequentemente o diabo lhes simulará sons insólitos nas suas orelhas, luzes e clarões maravilhosas nos seus olhos, requintados perfumes nos seus narizes: e tudo isso não passa de falsidade. Mas eles não crêem nisso (que seja falsidade) de maneira nenhuma, pensando encontrar o exemplo deles, para olharem assim para o alto e se aplicarem dessa forma, em são Martinho que viu Deus, por revelação, no meio dos Seus anjos, envolvido no seu manto, ou ainda de santo Estêvão, o qual viu nosso Senhor em pé no céu, e de tantos outros; e ainda de Cristo, o qual ascendeu em corpo ao céu, à vista dos Seus discípulos. Também dizem eles que nós devemos ter os olhos elevados assim lá do outro lado (no céu), para o alto.
  5. Eu admito e concedo bem que no comportamento do corpo, nós devêssemos levantar para o alto quer os olhos quer as mãos se nós somos chamados a isso em espírito. Mas eu afirmo que a obra do nosso espírito não tem de maneira nenhuma que ser dirigida para o alto ou para baixo, nem de um lado nem do outro, nem para diante nem para trás, como acontece quando se trata do corpo. Porquê? Porque a nossa obra deve ser espiritual e não corporal, nem corporalmente gerada.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 56



Da deceção daqueles que seguem mais a curiosidade do intelecto natural, e mais o ensinamento aprendido na escola dos seres humanos, do que a doutrina comum e o conselho da santa Igreja.
  1. Alguns no entanto, apesar de eles não serem enganados no erro que eu aqui coloquei, não abandonam menos a santa doutrina e o conselho da Igreja por curiosidade do espírito pela ordem natural e por erudição livresca e ciência orgulhosa. Esses e todos os seus sectários apoiam-se infinitamente demasiado sobre o seu próprio saber; e visto que eles nunca estão fundados sobre uma vida de virtude e sobre um sentimento de cega humildade, eles merecem por isso mesmo o manter neles um falso sentimento ilusório e concebido pelo inimigo espiritual. O que vai a tal ponto que no fim eles rebentam e blasfemam contra todos os santos, os sacramentos, os estatutos e as ordenações da santa Igreja. Humanos carnais que vivem no mundo, eles pensam que os estatutos da santa Igreja são demasiado duros para eles se emendarem neles, e ei-los muito rapidamente e muito facilmente que se juntam aos heréticos e os apoiam fervorosamente: e tudo isso porque eles pensam seguir com eles (os heréticos) uma via mais fácil do que aquela ordenada pela santa Igreja.
  2. Na verdade, aquele que não quer nada seguir a estreita via do Paraíso, ele seguirá a suave rampa do Inferno; eis o que eu penso. Cada ser humano fará a prova disso por si próprio; mas eu penso bem que todos os heréticos deste tipo e os seus sectários, se eles pudessem ser claramente vistos naquilo que eles serão no último dia, eles seriam vistos completamente oprimidos (como eles são) pelos grandes e horríveis pecados do mundo na horrível carne deles, secretamente, ao lado da pretensão aberta deles de manter o seu erro: de tal forma que eles serão apropriadamente chamados de discípulos do Anticristo. Porque está escrito acerca deles, que apesar de toda a sua pureza exterior, eles interiormente não são menos que uns completos e repugnantes debochados.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 55



Como estão na ilusão aqueles que, seguindo o ardor do seu espírito, julgam e condenam sem discrição qualquer outro.
  1. A certos seres humanos, o Inimigo os enganará desta maneira: Muito maravilhosamente eles inflamam o seu espírito a quererem o respeito e a manutenção da lei de Deus nos outros, e a destruição em todos os outros do pecado. Nunca ele (o Inimigo) os tentará, a esses, por uma coisa manifestamente má: ele (o Inimigo) os fará quererem-se tais como se fossem prelados cheios de zelo a vigiar todos os graus da vida cristã das suas ovelhas, ou como faz um abade com os seus monges. A todos os seres humanos, eles vão repreendê-los pelos seus defeitos e faltas, exatamente como se eles estivessem encarregues e tivessem vigilância das almas deles: e sempre eles pensam, assim fazendo, que eles não fariam nada por Deus, se eles não dissessem aos outros os defeitos deles. Eles afirmam que não são levados a isso senão pelo fogo da caridade e pelo amor de Deus que eles alimentam nos seus corações: e eles mentem, na verdade, porque é pelo fogo do inferno, que eles o fazem, o qual flameja nas suas almas e nas suas imaginações.
  2. Tal é a verdade segura, aparecendo como se segue. O diabo é um espírito, o qual não tem nenhum corpo por natureza, tal como um anjo. Mas não é menos verdade, no entanto, que cada vez que o diabo ou um anjo, com a permissão de Deus, tomar um corpo para qualquer mandamento a qualquer humano nesta vida, se harmoniza com a atividade e obra da qual ele é o ministro, que será esse corpo na sua qualidade, e à sua semelhança de qualquer maneira. Os exemplos, nós os temos nas Sagradas Escrituras. Porque cada vez que um anjo foi enviado em corpo, no Antigo Testamento como também no Novo, sempre ele apareceu mostrando, quer pelo seu nome, quer por qualquer acessório ou qualidade do seu corpo, qual era a matéria ou a mensagem da sua missão espiritual. Ora, acontece o mesmo para com o Inimigo. Porque quando ele aparece em corpo, ele representa corporalmente de qualquer maneira o que serão os seus servidores em espírito. Do qual exemplo se poderá tomar isto, mais que em todas as outras coisas, porque eu o sei de alguns discípulos da necromância, os quais têm na sua ciência a evocação dos maus espíritos, e também de alguns aos quais o diabo apareceu com a semelhança de corpo. É que sempre, e qualquer que seja a aparência do corpo na qual eles aparecem, o diabo apenas tem uma única narina, a qual é grande e escancarada; e ele nunca é tão feliz como quando a abre, afim de que o olhar do ser humano aí mergulhe e possa ver assim no cérebro dele, na cabeça dele. Esse cérebro não é nada mais que o fogo do inferno, porque o Inimigo não poderia ter outro cérebro; e se ele pode fazer um ser humano ver para lá, ele não pede mais nada do que isso. Porque o ser humano, perante essa visão, perderá os sentidos para sempre. Mas um perfeito praticante da necromância sabe isso bastante bem, e por conseguinte, ele toma as disposições que ele é capaz, para que o diabo não o incite a isso.
  3. E portanto isso é assim como eu digo, e tenho dito, que sempre quando o diabo toma um corpo, ele se harmoniza com qualquer qualidade desse corpo, aquilo que são os seus servidores em espírito. Porque ele inflama a tal ponto a imaginação dos seus contemplativos com o fogo do inferno, que esses muito subitamente abandonam toda a prudência e discrição das suas ideias e, sem outro aviso, eles tomarão sobre eles o julgar e o censurar dos outros sem olharem para os seus próprios defeitos: isto porque eles não têm eles próprios senão uma narina, espiritualmente falando. Porque essa divisão que existe no nariz corporal do ser humano, a qual separa uma narina da outra, significa que um ser humano deve guardar e ter discrição espiritual, e que ele pode distinguir o bom do mau, e o mau do pior, e o bom do melhor, antes de dar qualquer julgamento, do que quer que seja que ele veja ou oiça fazer ou dizer diante dele. E pelo cérebro humano é espiritualmente entendida a imaginação, porque por natureza ela habita e trabalha na cabeça.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 54



Como é que, pela virtude desta obra, um ser humano é governado na plena sabedoria. E ele se torna perfeitamente decente tanto de corpo como de alma.
  1. Quem quer que seja que esteja nesta obra, ele deverá nela ser tido e governado na perfeita decência, tanto no seu corpo como na sua alma; e por todos aqueles que o vêem, ele deverá por isso ser simpaticamente considerado. Se efetivamente o homem ou a mulher menos favorecidos nesse ponto de vista, se eles viessem para esta vida para trabalharem nesta obra, a consideração por eles muito subitamente e graciosamente se encontraria mudada, de tal forma que todos os seres humanos de bem, encontrando-os, se sentiriam felizes e alegres com a companhia deles, e mais, considerariam com a presença desses que eles eram ajudados e assistidos pela graça para se voltarem para Deus.
  2. E é por isso que esse dom é obtido por aquele que pode, pela graça, tê-lo: porque quem quer que o possui autenticamente e que o tem na verdade, esse saberá e poderá governar-se e conduzir-se pela virtude aí associada, e não apenas para si próprio mas também para tudo o que depende dele. Nenhuma natureza, e nenhuma disposição, escapará à sua prudência. E muito bem saberá ele fazer-se semelhante aos seus semelhantes, quer estes sejam pecadores inveterados ou não, sem ter nele próprio nenhum pecado; e todos os que o virem ficarão espantados, e, com a assistência da graça, ele levará outros a trabalharem e a operarem no próprio espírito em que ele próprio opera.
  3. As palavras dele e os encorajamentos dele ficarão impregnados de sabedoria espiritual, e pronunciados com fogo e com fruto numa sóbria firmeza e numa muito suave segurança, sem nenhuma das afetações e dos empoamentos dos hipócritas. Porque há os que, com todas as suas forças interiores e exteriores, empalham os seus discursos, imaginam que se preservam de todo o tipo de quedas por intermédio das numerosas palavras humildemente empoadas e dos gestos de aparente devoção: os quais se preocupam mais em parecerem santos aos olhos dos seres humanos do que de o serem efetivamente aos olhos de Deus e dos Seus anjos. Porque essas gentes, elas afetam-se muito mais e atribuem uma importância muito maior a um certo gesto ou palavra que choca e que parece incongruente aos humanos, do que a mil vãos pensamentos e fedorentas intenções de pecado que elas aceitam ter nelas e que elas suportam com indiferença ao exibirem-nas à vista de Deus, dos santos e dos anjos do céu. Ah! Senhor Deus! é realmente onde se encontra interiormente o orgulho, que se encontram exteriormente em igual abundância as palavras humildes e empoadas! Mas o que assenta e convém, eu te asseguro, àqueles que são humildes por dentro, é que a humildade e a decência dos gesto e das palavra, por fora, estejam de acordo com a humildade que eles têm no fundo do coração, – e eles não têm necessidade de que ela se exprima em vozes quebradas ou empoadas, contra as disposições da natureza e do caráter que eles têm. Porque, se eles são verdadeiros, eles falam com toda a firmeza e a amplitude da voz e do espírito que estão neles. E quem possui, por natureza, uma voz grossa e brutalmente brilhante, se ele fala por cochichos e por empoamentos – a menos que, evidentemente, ele esteja doente, ou de outra forma que seja entre ele e o seu Deus, ou entre ele e o seu confessor – então ele dá aí um verdadeiro sinal de hipocrisia. E eu entendo bem aqui a hipocrisia idosa, assim como a hipocrisia jovem.
  4. O que direi eu mais, sobre essas ilusões e enganos venenosos e envenenados? Eu creio e penso verdadeiramente que por falta, com a (ajuda da) graça (de Deus), de abandonar e de deixar esses cochichares e esses empoamentos hipócritas, que são secretamente enterrados no íntimo do coração, no meio do orgulho de toda a humildade exterior das palavras, a alma perdida arrisca e vai muito em breve soçobrar na aflição e no desespero.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 53



De diversas práticas incongruentes que seguem aqueles que abandonam a obra que diz este livro.
  1. Numerosas e surpreendentes práticas, seguem aqueles que estão na ilusão dessa falsa obra ou qualquer contrafação da mesma, quando estas estão bem afastadas daquilo que fazem aqueles que são verdadeiros discípulos de Deus: porque estes nunca excedem a decência nas suas práticas, tanto corporais quanto espirituais. Mas não se passa o mesmo com aqueles outros. Quem quisesse ou pudesse observá-los, tais e onde eles estão neste momento, supondo que eles tivessem as pálpebras abertas, esse os veria com os olhos fixos como loucos e o olhar em bico como se eles vissem o diabo. E certo, é bom que eles se acautelem, porque o inimigo não está longe, verdadeiramente. Alguns cavilham os seus olhos para dentro da cabeça quais carneiros em vertigem a quem bateram na cabeça, e como se eles fossem morrer na hora. Outros inclinam a cabeça para o lado como se eles tivessem um verme na orelha. Outros gorgolejam e assobiam da goela quando eles deveriam falar, como se eles não tivessem mais fôlego no corpo: e é esse propriamente o estado de um hipócrita. Outros vociferam e gemem a plena voz, tão ávidos eles estão, e cheios de pressa para dizerem aquilo que eles pensam: e é esse o estado dos heréticos, nos quais e noutros semelhantes a presunção e a curiosidade mantêm sempre o erro que eles sustentam igualmente.
  2. Inúmeras práticas desordenadas e incongruentes resultam desse erro, para quem as pudesse observar a todas. No entanto, há (práticas) tão estranhas, que eles chegam a escondê-las em grande parte diante dos outros. Mas se esses seres humanos pudessem ser vistos tais quais eles são em privado, então, certamente, elas (as práticas) não ficariam nada escondidas; como também não, eu creio, elas (as práticas) não permaneceriam (escondidas) para aquele que se pusesse imediatamente a contradizer a opinião deles, a qual (opinião), rapidamente, poderia vê-los aparecer e rebentar em qualquer ponto (por ser uma opinião incongruente). O que não impede que eles não pensem menos que tudo aquilo que eles fazem, é pelo amor de Deus e a manutenção da verdade. Ora, na verdade, eu creio com fé que se Deus não realiza um milagre com a Sua misericórdia, afim de os fazer cessar bem rapidamente, a tanto amar Deus dessa maneira, eles acabarão diretamente, e assombrados, no diabo.
  3. Não é que eu diga que o diabo tenha tão perfeitos servidores nesta vida, que ele os possa enganar e iludir e infetar com todas essas coisas imaginárias aqui descritas, não; apesar de haver mais de um, ai! que esteja infetado com elas todas; mas eu digo que não há sobre a terra um perfeito hipócrita, nem um herético completo, que não seja culpado de qualquer coisa daquelas que eu declarei, ou talvez eu vou declarar se Deus o permitir.
  4. Porque certos seres humanos são afligidos, no seu comportamento corporal, por hábitos tão belamente estranhos que, para escutar, eles lançam a sua cabeça fantasticamente de lado e avançam o queixo, a boca toda escancarada como se eles ouvissem pela boca e não pelas orelhas. Outros, para falar, apontam com o dedo ou sobre os seus dedos, ou sobre o seu próprio peito ou sobre o daquele com quem eles falam. Outros são incapazes de se manterem sentados tranquilamente, ou tranquilamente em pé, ou tranquilamente deitados, sem mexer com os pés ou qualquer coisa nas mãos. Outros remam com os braços para falar, como se eles tivessem que atravessar a nado uma grande extensão de água. Outros estão sempre ali a sorrir e a rir com cada nova palavra que eles dizem, como se eles fosses daquelas raparigas que dão risadinhas ou bufões de feira atacados de riso incontrolável. Uma alegria decente lhes ficaria muito bem, com um comportamento sóbrio e modesto do corpo na sua manutenção feliz.
  5. Eu não digo de forma nenhuma que todas essas práticas incongruentes sejam nelas próprias grande pecados. Mas eu digo que se essas incongruentes e desordenadas formas se tornam senhoras de quem as tem, e que eles não se possam desfazer delas no momento em que eles querem, então eu digo que elas são sinal de orgulho, de espírito de curiosidade e de excesso de impaciência e ambição de saber. E particularmente são elas sinais verdadeiros da instabilidade do coração e da inquietude do espírito; e muito particularmente pela falta e o abandono da obra que diz este livro.
  6. Tal é também a única razão porquê eu me estendi tanto sobre essas ilusões e erros, aqui, neste escrito; é porque o operário espiritual será reconhecido por elas, e meterá a sua obra à prova.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 52



Que esses jovens discípulos presunçosos compreendem mal e se equivocam nesta palavra «dentro», e das ilusões e erros que se seguem a isso.
  1. E é dessa maneira, que essa loucura da qual eu falo é gerada. Eles lêem bem ou ouvem dizer que eles devem abandonar todas as ocupações exteriores das suas faculdades, e que eles devem trabalhar interiormente; mas como eles ignoram o que é o trabalho interior, eles operam mal. Porque eles voltam as suas faculdades e pensamentos corporais interiormente para dentro dos seus corpos, contra o curso da natureza; e eles fazem esforço, constrangendo-se a eles próprios como se eles quisessem ver para dentro com os seus olhos corporais, ouvir interiormente com as suas orelhas, e assim de seguida para todos os seus sentidos e faculdades, odor, tacto, sentimento interior. E com isso, eles voltam-se ao contrário e vão às avessas do corpo natural; depois também pela curiosidade do espírito eles extenuam a sua imaginação tão indiscretamente que eles acabam por voltar ao contrário o cérebro dentro da cabeça; e imediatamente, então, o diabo tem o poder de provocar ilusoriamente qualquer falsa luz ou sons, agradáveis odores nas suas narinas, gostos requintados nas suas bocas, e inúmeras chamas e calores bizarros nos seus peitos corporais ou nas suas entranhas, nas suas costas ou nos seus rins, e nos seus membros.
  2. E contudo, com essas ilusões completamente imaginárias, eles são persuadidos no entanto de que eles vêem e de que eles têm uma tranquila recordação do seu Deus, sem o obstáculo de nenhum pensamento vão, o que é seguramente o caso duma certa maneira, visto que eles estão de tal forma cheios e atafulhados de mentira que a vaidade, com efeito, não lhes consegue mais tocar. E porquê? Porque ele, esse mesmo inimigo que lhes suscitaria vãos pensamentos se eles estivessem na boa via, ele próprio e esse mesmo é o mestre de obras e o patrão desse trabalho. E tu sabe bem, sabe-o bem, que não lhe agrada nem lhe convém, a ele próprio, o parar. A recordação de Deus, não, ele não lhes retira de forma nenhuma, com receio de se ver com isso suspeitado.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 51



Que os seres humanos devem ter grande atenção e prudência, afim de não compreenderem corporalmente uma coisa dita espiritualmente; e que é particularmente bom estar atento e prudente a estas duas palavras: «dentro» e «em cima».
  1. É por isso que tu deves obedecer humildemente a esse cego impulso de amor dentro do teu coração. E eu não compreendo aqui o teu coração corporal e de carne, mas o teu coração espiritual, o qual é a tua vontade. E tem bastante atenção, que tu não concebas nada corporalmente daquilo que é dito espiritualmente. Porque eu te digo na verdade, essas concepções e ideias corporais e carnais, daqueles que têm a inteligência imaginativa e o espírito da curiosidade, elas são causa de muito erro.
  2. Tu pudeste ver um exemplo disso, porque eu te disse e pedi para esconderes de Deus o teu desejo dentro daquilo que está em ti. Porque podia acontecer, se eu te tivesse dito para mostrares o teu desejo a Deus, que tu tivesses concebido a coisa mais corporal do que fazes quando eu te peço para o esconderes. Porque tu sabes bem que tudo o que é voluntariamente escondido, se encontra enterrado e lançado na profundeza do espírito. Também é a minha opinião de que é grandemente necessário o ter uma extrema prudência e atenção a escutar bem as palavras que são ditas com uma intenção espiritual, afim de que tu as compreendas e concebas não corporalmente mas espiritualmente, no sentido que elas têm; e muito particularmente, é preciso vigiar bem esta palavra «dentro» e a esta palavra «em cima». Porque, ao compreender mal estas duas palavras, acontecem inúmeros erros e ilusões àquele que se propõe ser operário na obra espiritual, segundo o meu julgamento; o que eu sei bastante bem, em parte por experiência, e em parte por ouvir dizer. E dessas ilusões, eu acho que te devo falar um pouco, segundo o meu julgamento.
  3. Um jovem discípulo na escola de Deus, recentemente afastado do mundo, esse vai imaginar que, durante o pouco tempo em que ele está entregue à penitência e à oração, segundo o conselho tomado na confissão, ele é então capaz de empreender e de tomar sobre ele o trabalhar na obra espiritual da qual ele ouviu falar quer por palavras quer por leituras (de outrem), quer ainda porque ele tenha lido qualquer coisa por ele próprio. E de seguida, quando ele lê ou ouve qualquer descrição do trabalho espiritual – e nomeadamente como (é que) um ser humano «deve reentrar dentro de si próprio» ou como ele deve «se ultrapassar a si próprio» - imediatamente, tanto por cegueira da alma quanto por curiosidade carnal do espírito, ele imagina, ouvindo mal e equivocando-se sobre essas palavras, ser chamado pela graça para trabalhar nessa obra, porque ele sente nele um desejo e uma inclinação natural para as coisas escondidas. E é a tal ponto que, se o seu diretor espiritual não lhe quiser nada conceder o meter-se à obra nessa obra, imediatamente ei-lo resmungando contra esse diretor e pensando – talvez mesmo, sim, afirmando aos seus semelhantes – que ele não consegue encontrar ninguém que saiba e possa plenamente compreendê-lo. E é por isso que imediatamente, por temeridade e presunção da sua curiosidade, ele irá abandonando a humilde oração e a penitência para se meter, crê ele, num trabalho todo espiritual dentro da sua alma. O qual trabalho, se for bem e verdadeiramente compreendido, não é nem um trabalho corporal nem um trabalho espiritual, e, em resumo, é um trabalho contra a natureza, do qual o diabo é o patrão. E é esse o mais curto caminho para a morte do corpo e da alma, porque é loucura e não é sabedoria, e que conduz o ser humano à demência. E no entanto, eles (que são assim) não acredita em nada disto: porque eles não têm outro propósito, fazendo assim, senão pensar em Deus.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulos 50 a 59


  1. Qual é o amor casto; e como em certas criaturas tais consolações sensíveis só aparecem raramente, e noutras muito frequentemente
  2. Que os seres humanos devem ter grande atenção e prudência, afim de não compreenderem corporalmente uma coisa dita espiritualmente; e que é particularmente bom estar atento e prudente a estas duas palavras: «dentro» e «em cima»
  3. Que esses jovens discípulos presunçosos compreendem mal e se equivocam nesta palavra «dentro», e das ilusões e erros que se seguem a isso
  4. De diversas práticas incongruentes que seguem aqueles que abandonam a obra que diz este livro
  5. Como é que, pela virtude desta obra, um ser humano é governado na plena sabedoria. E ele se torna perfeitamente decente tanto de corpo como de alma
  6. Como estão na ilusão aqueles que, seguindo o ardor do seu espírito, julgam e condenam sem discrição qualquer outro
  7. Da deceção daqueles que seguem mais a curiosidade do intelecto natural, e mais o ensinamento aprendido na escola dos seres humanos, do que a doutrina comum e o conselho da santa Igreja
  8. Como tais jovens discípulos presunçosos compreendem mal e desprezam a expressão «para o alto», e das ilusões e erros que daí advêm
  9. Que um ser humano não deve tirar o seu exemplo de são Martinho ou santo Estêvão, para tender para o alto a sua imaginação corporal durante o tempo da oração
  10. Que um ser humano não deve tirar exemplo da ascensão corporal de Cristo, para tender para o alto a sua imaginação corporal durante o tempo da oração: e que o tempo, o lugar e o corpo, todos os três são para esquecer em todas as obras espirituais


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 50



Qual é o amor casto; e como em certas criaturas tais consolações sensíveis só aparecem raramente, e noutras muito frequentemente.
  1. E por isto, tu podes ver e compreender que nós temos que comandar toda a nossa conduta segundo esse humilde impulso de amor na nossa vontade. E a todas essas outras delícias e consolações, tão agradáveis e santas que elas sejam, nós não devemos mostrar, se é correto dizê-lo, senão uma espécie de indiferença. Que elas (as delícias e consolações) venham, e sejam bem vindas. Mas não te inclines demasiado para elas, por temor de fraquejares: porque ao permaneceres demasiado tempo em tais emoções e lágrimas tão suaves, isso rouba demasiado as tuas forças. Talvez mesmo tu acabasses por amar Deus devido a elas (as delícias e consolações), cujo sentimento disto tu terás se tu resmungares e grunhires demasiado, quando elas faltam. E se for assim, então o teu amor não é ainda nem casto nem perfeito. Porque um amor perfeito e casto, se ele sofre quando o corpo é alimentado por consolações pela presença de emoções e lágrimas tão suaves, no entanto ele (o amor perfeito e casto) não protesta nem grunhe nada quando elas faltam segundo a vontade de Deus, mas pelo contrário (ele) fica feliz e satisfeito. E isto ainda que, em certas criaturas, não seja comum que elas faltem, enquanto que tais delícias e consolações em outras criaturas não são raras.
  2. E tudo isto é segundo a disposição e a ordenação de Deus, inteiramente para o proveito e a necessidade das diversas criaturas. Porque existem criaturas tão fracas e tão delicadas em espírito, que a menos que elas sejam confortadas com o sentimento de tais delícias, elas não conseguiriam de forma nenhuma suportar nem sustentar a variedade das tentações e tribulações que elas têm que suportar corporalmente e espiritualmente, nesta vida, da parte dos seus inimigos. E há outras (criaturas) as quais são tão fracas nos seus corpos, que elas não podem fazer grandes penitências para se purificarem; e essas criaturas, na sua plena graça, nosso Senhor quer purificá-las em espírito com tais sentimentos suaves e tais lágrimas. E ainda, por outra parte, há certas criaturas que têm o espírito tão vigoroso e forte que elas conseguem encontrar suficiente reconforto nas suas almas, ao oferecerem reverentemente esse humilde impulso de amor e essa conformidade da vontade, as quais criaturas não têm elas próprias assim tanta necessidade do reconforto dessas delícias e sentimentos corporais. De entre todas, uma mais que a outra, qual é a mais santa e a mais cara a Deus? Deus sabe, eu não.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 49



A essência e substância de toda a perfeição não é nada mais que uma boa vontade; e como todas essas delícias e harmonias e outras consolações que se podem ter nesta vida, não são nada mais que meros acidentes.
  1. E é por isso que eu te peço, obedece com docilidade e de boa graça a esse humilde impulso de amor no teu coração, e segue-o fielmente: porque ele quer ser o teu guia nesta vida para te conduzir à beatitude na outra vida. Ele é a essência e a substância de toda a boa existência e sem ele, não há boa obra que possa ter começo ou fim. Ele não é nada mais que um bom querer e uma conformidade da vontade com Deus, e uma forma de felicidade e de perfeita potência que tu sentes na tua vontade por tudo o que faz Deus.
  2. Semelhante boa vontade, é a substância de toda a perfeição. Todas as doçuras, delícias e consolações corporais ou espirituais, tão santas quanto sejam, não são para ela senão acidentes e não fazem nada senão depender dessa boa vontade. Acidentes, chamei-lhes eu, porque elas podem com efeito quer aparecer quer faltar sem lhe juntarem nada nem lhe retirarem nada. Eu entendo assim: nesta vida, porque não será assim na beatitude do céu onde essas delícias serão unas e sem partilha com a substância, como será o corpo com a alma: esse corpo no qual elas se vertem. E assim é a substância delas aqui, não outra coisa senão uma boa vontade espiritual. E certamente eu penso que para aquele que chegar e tocar na perfeição dessa vontade, tanto quanto é possível aqui, ele não poderá aí ter delícias ou consolações suscetíveis de acontecerem a qualquer um nesta vida, que ele não esteja tão contente e alegre por não as ter, se tal é a vontade de Deus, do que as sentir e as ter.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 48



Como Deus quer ser servido quer pelo corpo quer pela alma, e como Ele recompensa os seres humanos num e no outro; e como é preciso, para os seres humanos, conhecerem quando são boas, e quando são más, todas essas harmonias e outras suavidades que caem no corpo no momento da oração.
  1. Eu não digo isto porque eu quero que tu te prives e retenhas em qualquer momento que seja, se tu te sentes levado a isso, de rezares com a tua boca, ou de começares subitamente, por abundância de piedade e grande fervor no teu espírito, a rezar a Deus como a uma pessoa, dizendo-Lhe qualquer palavra boa conforme te sentes levado a isso, tais como: «Bom Jesus! Belo Jesus! Suave Jesus!» ou qualquer outra semelhante! Não! não queira Deus que tu penses assim! Porque na verdade, não foi isso que eu quis dizes; e Deus não permitiria que eu separasse aquilo que Deus acoplou e uniu: o corpo e o espírito. Porque Deus quer ser servido pelo corpo e pela alma em conjunto ao mesmo tempo, como Ele assenta, e Ele devolverá em recompensa a Sua beatitude quer no corpo quer na alma. E em penhor e primícias dessa recompensa, por vezes, aqui nesta vida, Ele abrasará o corpo dos seus devotos servidores: não uma vez ou duas, mas talvez muito frequentemente segundo Lhe agrada, enchendo-o de maravilhosas doçuras e consolações. Algumas das quais doçuras e consolações não virão de fora para o corpo pelas janelas do nosso entendimento, mas antes virão de dentro: surgindo e jorrando do excesso e abundância da felicidade espiritual e duma verdadeira devoção do espírito. Essas não têm nada para serem consideradas suspeitas e, para resumir, aquele que as sentir, eu estou certo que não as terá por suspeitas.
  2. Mas todas as outras delícias, harmonias e consolações, as quais chegam a partir de fora completamente de súbito e tu nunca sabes de onde, eu te suplico que suspeites delas. Porque elas podem ser ambas: ou boas ou más; provocadas por um bom anjo quando elas são boas, e por um mau anjo se elas são más. Mas estas nunca poderão em nenhum caso ser más se as ilusões e enganos delas, devidas à curiosidade do espírito e à desordem dos impulsos do coração carnal, forem repelidas como eu te ensinei, ou ainda de melhor forma se puderes. E porquê? Seguramente por causa deste reconforto, quer dizer pelo devoto impulso do amor, o qual brota do puro espírito e hábito na pureza do coração. Ele é aí suscitado pela mão do Todo-Poderoso Deus sem meios nem vias; e por isso ele tem de característico o estar sempre afastado de qualquer imaginação ou de qualquer julgamento erróneo, falsa opinião ou outra, assim como pode acontecer ao ser humano nesta vida.
  3. Quanto a todas as outras consolações e doçuras e harmonias, como saber se elas são boas ou más? Eu sou da opinião de não te dizer presentemente, e isto porque isso não me parece necessário. Com efeito, tu podes encontrá-lo escrito num outro lugar na obra dum outro homem, e mil vezes melhor do que eu seria capaz de dizer ou escrever: e assim poderás tu e serás tu capaz daquilo que eu pus aqui, muito melhor do que aquilo que eu disse. Então para que serve? É porque, portanto, eu assim não me deterei nisso e não me darei tabulatura para satisfazer ao desejo do teu coração, do qual tu me deste demonstração até aqui em palavras, e que está agora em atos.
  4. Mas há isto que eu te posso dizer dessas harmonias e delícias que vêm pelas janelas do entendimento e dos sentidos, e que podem ser das duas: boas e más. Que tu faças uso sem nunca cessar desse cego e devoto e constante impulso de amor que eu te disse; e então eu não tenho dúvida nenhuma que ele não te saiba perfeitamente ensinar nesse assunto. E se no entanto tu te espantasses com a primeira abordagem delas, devido ao facto de elas te serem desconhecidas, no entanto esse impulso e esse movimento em ti deve fazer com que tão firmemente seja ligado o teu coração, que tu não darás importância de nenhuma maneira nem darás grande fé a essas delícias, enquanto elas forem antes de tempo ou enquanto tu estejas inteiramente seguro, quer maravilhosamente pelo Espírito de Deus, ou senão, exteriormente pelo conselho de qualquer pai prudente.


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