Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 28



Que um ser humano não poderá pretender trabalhar nesta obra antes de ser legitimamente na sua consciência purificado, em todas as suas ações particulares, do pecado.
  1. Mas se tu me perguntas quando eles deverão trabalhar nesta obra, então eu te respondo e te digo: que não seja antes que eles tenham purificado a consciência deles de todos os atos de pecado previamente cometidos, segundo a habitual ordenança da santa Igreja.
  2. Porque nesta obra, a alma põe a seco nela própria as raízes e o fundamento do pecado que sempre lá ficam depois da confissão, e (como) nunca tão vivazes. E é por isso que quem quer trabalhar nesta obra, que ele purifique primeiro a sua consciência; depois em seguida, tendo-o feito, tudo segundo as regras, que ele se prepare a isso e se disponha intrepidamente, mas com humildade. E que ele considere quanto tempo ele esteve mantido afastado! Porque é essa a própria obra à qual uma alma deveria trabalhar durante toda a sua vida, se ela nunca tivesse pecado mortalmente. E durante todos os instantes que uma alma tiver permanecido nesta carne caduca, sempre mais ela verá e sentirá entre ela e o seu Deus o estorvo dessa "nuvem de desconhecimento". E não apenas isso, mas ainda por pena do pecado original, sempre ela sentirá e verá qualquer uma de todas as criaturas que alguma vez fez Deus, ou qualquer uma das obras dessas mesmas criaturas, vir ainda em insistente recordação se meter entre ela e o seu Deus.
  3. E tal é a justa sabedoria de Deus, que o ser humano, – o qual tinha soberania e senhoria sobre todas as outras criaturas – por se ter deliberadamente metido ele próprio debaixo e tornado inferior às atividades dos seus próprios sujeitos, abandonando o mandamento de Deus e seu Criador: quando presentemente ele quer realizar o mandamento de Deus, imediatamente ele vê e sente todas as criaturas que deveriam estar debaixo dele, orgulhosamente se apressarem acima dele, e entre ele e o seu Deus.


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulo 28

Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 27



Quem trabalhará na obra da graça que diz este livro.
  1. Previamente e antes de tudo, eu quero dizer-te quem trabalhará nesta obra, e quando, e por quais vias; e também que discrição tu terás nisto. Se tu me perguntas quem trabalhará nela, eu respondo-te: todos, que numa firme vontade abandonaram o mundo, e assim não se entregam mais à vida ativa, mas a esta vida que é chamada contemplativa. Esses todos poderão trabalhar nesta graça e nesta obra; e quaisquer que eles sejam, e tenham sido ou não pecadores endurecidos.


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulo 27

Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 26



Que sem uma graça muito especial, ou um longo emprego da graça comum, a obra que diz este livro é com efeito laboriosa; e nesta obra, qual é a obra da alma assistida pela graça, e qual é a obra de Deus sozinho.
  1. É por isso portanto que tu obra firmemente e trabalha fortemente no instante, e bate (à porta) dessa alta "nuvem de desconhecimento", depois repousa-te. Mas é um trabalho árduo que ele terá, aquele que se quer empregar nesta obra, ha! certamente, um trabalho verdadeiramente duro e grande esforço, a menos que ele tenha uma graça mais especial ou então, que ele se tenha aplicado a ela durante um muito longo período de tempo.
  2. Mas onde será esse trabalho, e do quê feito, eu te pergunto? Seguramente, não desse devoto impulso de amor sem cessar suscitado na vontade, não por ele próprio, mas pela mão de Deus Todo-Poderoso, o qual está sempre pronto para essa obra em cada alma que a isso se dispôs, preparou, e que fez todo o seu possível, e que o fez há bastante tempo, a fim de ser capaz.
  3. Mas então em quê consiste esse trabalho, eu te pergunto? Seguramente esse trabalho, é de espezinhar a recordação de todas as criaturas alguma vez feitas por Deus, e de as rejeitar abaixo da "nuvem de esquecimento" já nomeada. É nisso que consiste todo o trabalho e todo o esforço: porque esse é o trabalho humano, com a ajuda da graça. E para o outro que está cima – quer dizer, esse impulso de amor – esse é a obra de Deus sozinho. Assim, faz portanto o teu trabalho, e eu te prometo seguramente que Ele não faltará ao Seu.
  4. Em ação, então: mostra como tu te comportas. Não vês tu que Ele está aqui, esperando-te? Por tua vergonha! Também trabalha firme e na hora, e em breve tu serás aliviado da dificuldade e da enormidade da tua obra. Porque, apesar de ela ser no princípio difícil e árdua, quando tu não tens devoção, no entanto com a continuação, quando tu tens a devoção, tudo se torna muito fácil e ligeiro, aquilo que era tão duro previamente. E tu não tens mais que pouco ou nenhum trabalho, porque então é Deus, em breve, que quererá sozinho trabalhar. Mas não sempre, nem também e em conjunto longo tempo, mas apenas quando Lhe agrada e como Lhe agrada; mas então tu ficarás contente por O deixar agir sozinho.
  5. Talvez então, por vezes, Ele enviará um raio de luz espiritual, furando essa "nuvem de desconhecimento" que está entre ti e Ele; e Ele te mostrará confidencialmente um ou outro dos Seus segredos, dos quais o ser humano não tem meio nem permissão de falar. Então tu sentirás o teu afeto completamente abrasado pelo fogo do Seu amor, e muito para lá daquilo que eu saberia aqui, ou poderia ou quereria te dizer. Porque desta obra, a qual pertence a Deus sozinho, eu não tenho a audácia e não me arrisco a falar com a minha balbuciante língua carnal, – e para dizer tudo: eu podia, mas eu não quero.
  6. Mas desta obra, pelo contrário, a qual pertence ao ser humano, quando ele se sente atraído e ajudado pela graça, convêm-me perfeitamente falar-te dela: o perigo nesta é o menor dos dois.


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulo 26

Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 25



Que no tempo desta obra, uma alma perfeita não dá nenhuma consideração mais particular, a quem quer que seja, nesta vida.
  1. Eu não digo que o operário nesta obra considerará à parte qualquer ser humano que seja, amigo ou inimigo, parente ou estrangeiro; porque isso não é possível se a obra for realizada com perfeição, o que é no esquecimento completo de todas as coisas abaixo de Deus, assim como precisa e convém a esta obra. Mas eu digo que o operário será, pela eficácia desta obra, e tornar-se-á tão vigoroso nas virtudes e na caridade, que a sua vontade, quando ele depois descer ao comum, falando e orando pelo seu próximo – não que chegue ao ponto em que ele abandone completamente esta obra, o que não poderia acontecer sem grande pecado; mas abandonando a sua altura, o que por vezes requer e exige a caridade – eu digo que então a sua vontade irá toda tanto em particular para o seu inimigo, como para o seu amigo, para o estrangeiro como para o seu irmão. E mesmo, sim, algumas vezes mais para o seu inimigo que para o seu amigo.
  2. Na obra, no entanto, ele não tem vagar para ver quem é seu amigo ou seu inimigo, seu parente ou estrangeiro. No entanto, eu não digo que ele não sente por vezes – e mesmo muitas vezes, sim – uma mais íntima afeição por um, dois, ou três, do que por todos os outros: porque é legítimo que assim seja, e por muitas causas, as quais quer a caridade. E porque uma mais terna afeição deste género, também Cristo sentiu por João e por Maria, e por Pedro antes de numerosos outros. Mas o que eu digo, é que no tempo da obra, todos igualmente lhe são íntimos; porque então, ele não terá sentimento de causa, senão Deus apenas. Por forma que todos serão amados muito singelamente e simplesmente como ele próprio, por Deus.
  3. Porque todos os seres humanos foram perdidos em Adão e todos, que pelas obras querem testemunhar a sua vontade de salvação, são ou serão salvos pela força e virtude da Paixão de Cristo apenas. Ora, não da mesma maneira, mas como se fosse da mesma maneira, uma alma nesta obra disposta em perfeição, e em espírito unida a Deus assim como a própria obra o testemunha e o prova, nela age com todas as suas forças para fazer todos os seres humanos tão perfeitos nesta obra como ela é (perfeita) ela própria. Porque se um membro do nosso corpo se sente mal, os outros todos estão doentes e sofrem; e se um membro está bem, os outros todos estão felizes; e exatamente o mesmo se passa na vida espiritual dos membros da santa Igreja. Porque Cristo é a nossa cabeça, e nós somos os membros se nós estivermos na caridade: e quem quer ser perfeito discípulo de nosso Senhor, deve esforçar espiritualmente o seu ardor nesta obra para a salvação de todos os seus irmãos e irmãs na natureza, da mesma forma que nosso Senhor meteu o Seu corpo sobre a Cruz. E como é que Ele O fez? Não apenas para os Seus amigos e os Seus parentes e aqueles que Lhe eram caros muito particularmente, mas por toda a humanidade em geral, sem nenhuma consideração mais particular para com este ou aquele. Porque, todos e qualquer um, querendo deixar o pecado e pedir misericórdia, pela força e virtude da Sua Paixão, será salvo.
  4. E como foi dito da humildade e da caridade, igualmente também é preciso entender e compreender sobre todas as outras virtudes. Porque todas, elas estão verdadeiramente compreendidas nesse mesquinho ardor de amor, previamente alegado.


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulo 25

Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 24



O que nela própria é a caridade; e como ela está verdadeiramente e perfeitamente contida na obra que diz este livro.
  1. E assim como foi dito da humildade, e como ela está verdadeiramente e perfeitamente contida nesse pequeno ardor de amor cego batendo (à porta) dessa obscura "nuvem de desconhecimento", sendo todas as outras coisas rejeitadas e esquecidas, – assim é preciso entender e compreender sobre todas as virtudes, e em particular da caridade.
  2. Porque a caridade não é nada mais, e não deve significar para o teu entendimento, que o amor de Deus por Ele próprio acima de todas as criaturas, e o amor do próximo como de ti próprio, pelo amor de Deus. Ora, que Deus, nesta obra, seja amado por Si próprio e acima de todas as criaturas, isso parece suficientemente evidente: porque assim como foi dito antes, a própria substância desta obra não é nada mais do que um impulso nu em direção a Deus em Si próprio.
  3. Um impulso nu, chamei-lhe eu. E porquê? Porque nesta obra, o aprendiz perfeito não reclama nem relaxamento da pena nem ganho da recompensa, e, para resumir, ele só quer Deus apenas. A tal ponto que ele não se preocupa e também não olha se ele está em pena ou em alegria, a não ser para que seja feita A vontade dAquele que ele ama. Assim, portanto, parece bem que nesta obra, Deus seja perfeitamente amado por Si próprio e acima de todas as criaturas. Porque, também, o operário perfeito desta obra não seria capaz de admitir e suportar que a recordação da criatura, mesmo a mais santa que Deus alguma vez criou, venha conversar com ele.
  4. E para o segundo e inferior ramo da caridade, que é para com o teu próximo, que ela seja nesta obra verdadeiramente e perfeitamente efetuada, vê-se à prova: visto que, com efeito, o operário perfeito nesta obra não tem atenção particular por nenhum ser humano em si próprio, quer ele seja parente ou estrangeiro, amigo ou inimigo. Todos os seres humanos são seus irmãos, nenhum lhe é estrangeiro; todos os seres humanos são seus amigos, nenhum é seu inimigo: tal é o seu pensamento. E até ao ponto em que aqueles, mesmo, que lhe causam nesta vida ou tristeza ou sofrimento, ele os considera como seus amigos muito particulares e muito caros, apressando-se a querer-lhes todo e tanto bem quanto ao seu amigo mais íntimo.


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulo 24

Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 23



Que Deus responderá por todos e por todos providenciará, em espírito, por aqueles que completamente ocupados no Seu amor não respondem nem se providenciam por eles próprios.
  1. E se, sinceramente, nós queremos e temos o desejo verdadeiro, conforme está em nós, e com a ajuda da graça e do nosso diretor espiritual, de conformar, quer o nosso amor quanto a nossa vida, ao amor e à vida de Maria, ninguém duvida que Ele não responde hoje e igualmente espiritualmente em cada dia por nós, no mais secreto do coração de todos aqueles que têm, contra nós, palavras ou pensamentos. Não, que eu diga ou pretenda, que nunca homem ou mulher não tenha ou não pronuncie qualquer palavra ou pensamento contra nós, tal como eles fizeram contra Maria, tanto e tão longamente quanto nós estivermos no trabalho desta vida. Mas eu digo – se nós não quisermos prestar atenção nenhuma aos ditos deles e aos pensamentos deles, e também não interrompermos o nosso trabalho espiritual íntimo, como ela também não o fez ela própria – eu digo, que nosso Senhor, então, lhes responderá em espírito e que, se lhes pareceu bem o falarem e pensarem assim, em poucos dias eles terão vergonha das suas palavras e dos seus pensamentos.
  2. E da mesma maneira que Ele responderá por nós em espírito, da mesma maneira também Ele suscitará outrem, espiritualmente, para nos dar as coisas necessárias a esta vida, tais como roupas, alimentos, e todas as outras..., se Ele vê que nós não queremos abandonar a obra do Seu amor para nos ocupar-mos delas. E isto, eu digo-o para a confusão daqueles que pretendem, no seu erro, que não é legítimo aos seres humanos de se porem a servir Deus na vida contemplativa, sem que eles se tenham assegurado previamente das suas necessidades corporais. Porque, dizem eles, Deus dá certamente a vaca mas não a leva pelos cornos. Mas é, na verdade, falar perversamente de Deus, e eles sabem-no bem. Porque, tem confiança firmemente, quem quer que tu sejas, tu que te afastas sinceramente do mundo em direção a Deus, que quer uma ou quer a outra dessas duas coisas te será enviada e dada por Ele: quer a abundância dos bens necessários; quer a força no corpo e a paciência no espírito para suportar as necessidades. E o que importa então, qual é a que recebemos? porque é tudo um para o verdadeiro contemplativo. E quem quer que esteja em dúvida sobre isto: ou é nele o diabo que manobra contra a sua fé, ou ele ainda não está sinceramente e verdadeiramente voltado para Deus como ele deveria estar; e isso, quaisquer que possam ser a fineza ou a santidade das razões que pretenderiam avançar contra isso quem quer que seja.
  3. E é por isso que, tu que te metes no estado de contemplativo, onde e assim como estava Maria, escolhe antes a humildade sob a eminência admirável e a excelência suprema de Deus, a qual é a humildade perfeita, em vez de sob a tua própria miséria, a qual é a humildade imperfeita. O que quer dizer: procura fixar de preferência a tua contemplação particular na suprema eminência de Deus, muito mais do que sobre a tua fraqueza. Porque àqueles que têm a humildade perfeita, nula e nenhuma coisa lhes fará falta, corporal nem espiritual. E porquê? Porque eles têm Deus, no Qual está toda a plenitude; e àquele que O possui – sim, como diz este livro – ele não tem necessidade de mais nada nesta vida.


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulo 23

Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 22



Do maravilhoso amor que Cristo teve por Maria, e na sua pessoa, por todos os pecadores sinceramente voltados e chamados à graça da contemplação.
  1. Muito suave era o amor entre nosso Senhor e Maria. Muito grande era o amor dela por Ele. Muito maior, aquele que Ele tinha por ela. E quem quiser ter grande atenção e considerar tudo o que existia e se fazia entre Ele e ela – não assim como contaria qualquer frívolo, mas segundo dá testemunho o relato do Evangelho, no qual não poderia haver nada de falso, de forma nenhuma – esse verá que ela estava tão profundamente no Seu amor que nada, abaixo dEle, não a podia confortar, e que nada também conseguia fazer com que ela O retirasse do seu coração. É ela, essa mesma Maria, que não quis ser consolada pelos anjos quando ela tinha ido em lágrimas procurá-lO no sepulcro. Porque quando eles lhe falaram tão ternamente com doçura e lhe disseram: «Não chores, Maria; aquele que tu procuras, nosso Senhor ressuscitou, e tu O terás e O verás bem vivo entre os Seus discípulos na Galileia, tal como Ele tinha dito»; ela não quis parar por causa deles. Porquê? Porque, pensava ela, quem procura na verdade o Rei dos Anjos não imagina parar por causa de anjos.
  2. E o quê mais? Seguramente, quem quer ver verdadeiramente na história do Evangelho lá encontrará numerosos e maravilhosos pontos de perfeito amor escritos dela para nosso exemplo, e também perfeitamente de acordo com a nossa obra como se eles tivessem sido escritos para ela; e tais são eles certamente, que o compreenda quem pode compreender. E se alguém tem o desejo de ver no Evangelho escrito o maravilhoso e particular amor que nosso Senhor tinha por ela, e na sua pessoa por todos os acostumados pecadores sinceramente voltados e chamados à graça da contemplação, esse descobrirá que nosso Senhor não tolerava e não deixava ninguém, homem ou mulher, não! nem mesmo a sua própria irmã, pronunciar uma única palavra contra ela, que Ele não respondesse Ele próprio. Sim. E mais? Ele criticou Simão o Leproso na sua própria morada, daquilo que ele tinha pensado contra ela. Um grande amor, era esse: um amor perfeito eminente.


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulo 22

Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 21



A exata interpretação desta frase do Evangelho: «Maria escolheu a parte melhor».
  1. Como compreender isto: Maria escolheu a parte melhor? Onde quer que seja estabelecido ou afirmado que uma coisa é a melhor, essa (coisa) reclama duas outras (coisas) antes dela: uma (coisa) boa, a segunda (coisa) melhor; por forma a que haja uma outra (coisa), a melhor (coisa), e terceira (coisa) em número. Mas quais são essas três coisas, das quais Maria escolheu a melhor? Três vidas não são, visto que a santa Igreja só considera duas: a vida ativa e a contemplativa; e são essas duas vidas que são secretamente expressas no relato do Evangelho, e figuradas pelas duas irmãs Marta e Maria: a ativa, por Marta; e a contemplativa, por Maria. Sem a primeira ou a segunda dessas vidas, não existe ninguém que possa ser salva; mas onde só há duas, ninguém pode escolher essa terceira via: a melhor.
  2. Mas ainda, apesar de só haverem duas vidas, entre essas duas vidas, no entanto, há três partes: das quais três, se vai de uma parte boa até uma melhor, e dessa até à parte melhor. Cada uma dessas três, no seu lugar particular, foi colocada já neste escrito. Porque, assim como foi dito previamente, a primeira parte, são as honestas e boas obras corporais de caridade e de misericórdia; e é esse o primeiro grau da vida ativa, como foi dito. A segunda parte dessas duas vidas, são as eficazes meditações espirituais do ser humano sobre a sua própria miséria, a Paixão de Cristo, e sobre as alegrias do céu. A primeira parte é boa, e esta segunda (parte é) melhor: porque é este o segundo grau da vida ativa, e primeiro da contemplativa; nesta parte, uma e a outra vida, a contemplativa e a ativa, estão em conjunto acopladas em parentesco espiritual, e feitas irmãs a exemplo de Marta e Maria. Até esta altura, e não mais alto, salvo exceção muito rara e por graça particular, um ativo pode chegar à contemplação; até esse nível baixo, mas não mais baixo, salvo por uma excepção muito rara e uma grande necessidade, um contemplativo pode descer à vida ativa.
  3. A terceira parte destas duas vidas repousa no alto, nessa obscura "nuvem de desconhecimento", com todos os impulsos e o secreto pressionar do amor em direção a Deus nEle próprio. A primeira parte é boa, a segunda é melhor, mas a terceira é de todas a melhor. É ela a «parte melhor» de Maria. E assim podemos plenamente compreender que nosso Senhor não diga que Maria escolheu a vida melhor, visto que não há em número mais que duas vidas, e que de duas, só se pode escolher uma melhor e não a melhor de todas. Mas Ele disse que, dessas vidas, Maria escolheu a parte melhor, a qual nunca lhe será tirada.
  4. A primeira parte e a segunda, apesar de completamente boas e santas como elas são, não deixam de terminar com esta vida. Porque não haverá nenhuma necessidade, na outra vida, das obras da misericórdia como no presente, nem do choro sobre a nossa miséria ou a Paixão de Cristo. Porque não haverá ninguém então para ter fome e sede como aqui, ninguém morrerá de frio, nem ficará doente, ou sem habitação, ou na prisão; ninguém também terá necessidade de ser enterrado visto que ninguém poderá morrer. Mas esta terceira parte que Maria escolheu, escolhe-a aquele que pela graça tem a vocação para a escolher, ou para dizê-lo mais verdadeiramente: aquele que Deus, para a fazer, escolheu. Que ele siga com ardor a sua inclinação, porque isso nunca lhe será tirado: porque se (isso) começa aqui, (isso) durará sem fim e para sempre.
  5. E é por isso que deixem a voz de nosso Senhor elevar-se contra esses ativos, como se agora Ele falasse por nós a eles, como então Ele fez a Marta por Maria: «Marta, Marta!» – «Ativos, ativos! – Afadiguem-se tanto quanto vocês possam na primeira e na segunda parte, tanto numa, quanto na outra, ou então numa e na outra conjuntamente com todo o corpo, se vocês tiverem o justo desejo e vocês se sentirem dispostos a isso. E não se misturem de forma nenhuma com os contemplativos. Vocês não sabem nada daquilo que eles têm: também deixem-nos portanto sentados no repouso deles e na ocupação deles com esta terceira parte, a qual é a parte melhor de Maria.»


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulo 21

Nuvem de Desconhecimento – Capítulos 20 a 29


  1. Como Deus o Todo Poderoso quer e tem a graça de responder por esses todos que não têm nenhum desejo, afim de se desculparem a eles próprios, de abandonarem a sua ocupação que é o amor de Deus
  2. A exata interpretação desta frase do Evangelho: «Maria escolheu a parte melhor»
  3. Do maravilhoso amor que Cristo teve por Maria, e na sua pessoa, por todos os pecadores sinceramente voltados e chamados à graça da contemplação
  4. Que Deus responderá por todos e por todos providenciará, em espírito, por aqueles que completamente ocupados no Seu amor não respondem nem se providenciam por eles próprios
  5. O que nela própria é a caridade; e como ela está verdadeiramente e perfeitamente contida na obra que diz este livro
  6. Que no tempo desta obra, uma alma perfeita não dá nenhuma consideração mais particular, a quem quer que seja, nesta vida
  7. Que sem uma graça muito especial, ou um longo emprego da graça comum, a obra que diz este livro é com efeito laboriosa; e nesta obra, qual é a obra da alma assistida pela graça, e qual é a obra de Deus sozinho
  8. Quem trabalhará na obra da graça que diz este livro
  9. Que um ser humano não poderá pretender trabalhar nesta obra antes de ser legitimamente na sua consciência purificado, em todas as suas ações particulares, do pecado
  10. Que o ser humano deve habitar fielmente no trabalho desta obra, suportando a pena e o sofrimento, e não julgar ninguém


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulos 20 a 29

Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 20



Como Deus o Todo Poderoso quer e tem a graça de responder por esses todos que não têm nenhum desejo, afim de se desculparem a eles próprios, de abandonarem a sua ocupação que é o amor de Deus.
  1. E é por isso que eu penso que esses que se metem a viver em contemplativos, não somente deveriam desculpar os da vida ativa pelas suas palavras de repreensão, mas ainda eles deveriam, eu penso, estarem tão ocupados em espírito, que eles não prestassem muita ou nenhuma atenção ao que os seres humanos fazem ou dizem a respeito deles. Foi o que fez Maria, para exemplo de nós todos, quando a sua irmã Marta se queixou dela ao nosso Senhor; e se, fielmente, nós queremos fazer assim, nosso Senhor quererá agora fazer por nós aquilo que Ele fez então por Maria.
  2. E como foi isso? Assim seguramente: nosso gracioso Senhor Jesus, a quem nada de secreto permanece escondido, e apesar de Ele ter sido requerido por Marta como juiz, por forma a que Ele mandasse a Maria de se levantar e de ajudar a servi-lO; no entanto, e porque Ele via quanto Maria estava com fervor ocupada em espírito com o amor da Sua Divindade, por conseguinte Ele respondeu cortesmente no seu lugar, muito certamente como a Ele convinha fazer por aquela que não tinha nenhum desejo, afim de se desculpar, de abandonar o Seu amor. E como respondeu Ele? Não, certamente, como aquele Juiz ao qual apelava Marta, mas como um Advogado que tomou legitimamente a defesa daquela que O amava; e Ele disse: «Marta, Marta!» por duas vezes nomeando-a pelo seu nome, porque Ele queria que ela O ouvisse e tivesse atenção às Suas palavras. «Tu estás muito ocupada, disse-lhe Ele, e tu estás preocupada com muitas coisas.» Porque aos da vida ativa, com efeito, pertence estarem sempre muito ocupados e atarefados com coisas muito numerosas, as quais lhes chegam como parte deles, tanto para conseguirem primeiro o necessário, como para em seguida fazerem ao próximo as obras de misericórdia, assim como reclama e quer a caridade. E isso, Ele disse-o a Marta porque Ele quer que ela escute e saiba bem que o seu trabalho é benfazejo e proveitoso para a saúde da sua alma. Mas, afim de que ela não chegue, por isso, a pensar que esse trabalho era o melhor de todos, e de tudo o que se pode fazer, Ele acrescenta e Ele diz: «Mas UMA coisa é necessária.»
  3. E qual é então essa coisa? Seguramente que Deus seja amado e louvado por Ele próprio, acima de todas as outras atividades corporais ou espirituais que o ser humano possa ter. E afim de que Marta não pensasse que fosse possível, ao mesmo tempo, amar e louvar Deus acima de todas as ocupações tanto corporais quanto espirituais, e portanto de se afadigar às necessidades desta vida: por isso, e para que ela não tivesse mais dúvidas sobre aquilo que não é possível à vez, e em conjunto perfeitamente, de servir Deus pelas atividades do corpo e as do espírito – imperfeitamente, ela podia – então Ele acrescenta e Ele diz que Maria escolheu a melhor parte, a qual nunca lhe será tirada. Porquê? Porque esse perfeito impulso de amor, o qual tem aqui o seu começo, é em número igual àquele que durará sem fim na beatitude do céu, porque um e o outro são apenas um.


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulo 20

Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 19



Curta desculpa de quem fez este livro, ensinando quanto por todos os contemplativos serão desculpados plenamente todos os ativos das suas ações e palavras de repreensão.
  1. Alguns poderão pensar que eu tenho pouco respeito por Marta, muito particularmente santa, visto que eu comparo as suas palavras de repreensão para com a sua irmã às palavras dos humanos e mundanos; e estes àquelas. Mas verdadeiramente eu não quero faltar ao respeito nem dela nem deles. E Deus não permitirá que nesta obra, eu possa dizer nada que se possa tomar e compreender como sendo uma repreensão de qualquer um dos Seus servidores em qualquer grau, e muito especialmente da Sua santa particular. Porque a minha opinião é que ela seja perfeitamente desculpada e tenha plena justificação dessa sua queixa, tendo em consideração o momento e a maneira em que ela a exprimiu. Porque daquilo que ela disse, a sua ignorância é a causa. E não é nada de espantar que ela não soubesse nesse momento que, e como Maria estava ocupada; porque antes, eu tenho a certeza, ela nunca tinha ouvido falar duma perfeição semelhante. E também aquilo que ela disse só foi em pouca palavras, e cortês: e por isso deveria ela sempre ser e ter plena desculpa e justificação.
  2. E igualmente é a minha opinião que esses mundanos, homens e mulheres, que vivem da vida ativa, tendo igualmente plena desculpa das suas queixas e repreensões acima alegadas, – apesar de que eles tivessem rudemente dito aquilo que disseram – tendo em consideração a ignorância deles. E porquê então? É que tão justamente como Marta sabia muito pouco daquilo que fazia Maria, a sua irmã, enquanto que ela se queixava dela ao nosso Senhor, muito justamente e igualmente essas gentes nos dias de hoje sabem muito pouco, mesmo nada, daquilo a que se propõem os nossos jovens discípulos de Deus, quando eles se metem fora dos assuntos deste mundo, e se esforçam por ser Seus servidores no espírito de justiça e de santidade. E se eles soubessem, ousaria eu dizer, eles não falariam, assim como não agiriam, como eles fazem. E daí a minha opinião, de que sempre eles tenham desculpa: porque, com efeito, eles não conhecem vida melhor que aquela que eles vivem eles próprios. Depois, também, quando eu penso nos meus inúmeros defeitos, os quais foram, por mim, traduzidos em atos e palavras até agora por falta de saber e por defeito de conhecimento, então eu digo para mim que se eu quero ter desculpa de Deus para os meus próprios defeitos de ignorância, eu devo eu próprio ser caridoso e piedoso para com os outros, e desculpar aos outros seres humanos as suas palavras e ações de ignorância. Porque de outra forma, é certo que eu não lhes faria aquilo que eu gostaria que eles me fizessem a mim.


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulo 19

Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 18



Como, e até este dia, todos os ativos se queixam dos contemplativos, assim como Marta, de Maria. Da qual queixa a ignorância é a causa.
  1. Exatamente assim como Marta então se queixava de Maria sua irmã, exatamente igualmente, ainda hoje, todos os ativos se queixam dos contemplativos. Porque se há um homem ou uma mulher em qualquer sociedade que seja deste mundo, religiosa ou secular – eu não excluo nenhuma – e se esse homem ou mulher, qual quer que seja, se sente levado pela graça e também pelo conselho, a rejeitar todos os assuntos e atividades exteriores, e isso para se pôr a viver plenamente da vida contemplativa segundo as suas capacidades e a sua consciência, não sem a permissão do seu diretor espiritual; e eis imediatamente que o seus próprios irmãos e irmãs, todos os seus amigos mais próximos e bastantes outros ainda, os quais não sabem nada da sua vida interior nem nada também do género de vida que ele começa e no qual ele se mete, que todos elevam à volta dele um grande clamor de queixas e protestos, cortando brutalmente e afirmando que ele não faz nada, fazendo aquilo que ele faz. E também ei-los enumerando uma quantidade de histórias falsas, e numerosas verdadeiras também, sobre a queda de tais e tais homens ou mulheres que se tinham, eles também, dado a esta vida: nunca um bom relato daqueles que aí se mantiveram.
  2. Eu reconheço que muitos caem e caíram, daqueles que tinham aparentemente rejeitado o mundo. E ou eles tinham-se tornado servidores de Deus e Seus contemplativos, por não se terem querido deixar dirigir por um verdadeiro conselheiro espiritual, eles tornaram-se servidores e contemplativos do diabo; e como para caluniar a santa Igreja, eles voltaram-se quer para a hipocrisia, quer para a heresia, ou então eles caíram na loucura e em muitas outras calamidades. Mas eu deixo aqui de falar nisso, para não exceder o nosso assunto. Seguidamente, no entanto, se Deus permitir e se for necessário, poder-se-á ver e encontrar certas condições e a razão da queda deles. Portanto, suficientemente falado deles aqui; mas vamos para diante na nossa matéria.


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulo 18

Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 17



Que o verdadeiro contemplativo não tem nenhum desejo de se misturar com a vida ativa, nem com nenhuma coisa feita ou dita dele, nem também de responder aos seus acusadores para se desculpar.
  1. No Evangelho segundo São Lucas, está escrito que quando nosso Senhor estava na casa de Marta e da sua irmã, todo o tempo que Marta se afadigava a preparar a Sua refeição, Maria, a sua irmã, estava sentada aos Seus pés. E a escutar a Sua palavra, ela não tinha atenção ao trabalho da sua irmã, apesar desse trabalho ser obra boa e santa visto que ele é, com efeito, a primeira parte da vida ativa; e também ela não tinha atenção à Sua muito preciosa Pessoa no Seu corpo muito santo, nem também à doçura da palavra e da voz da Sua Humanidade, – apesar de ser ainda melhor e mais santa, visto que essa é a segunda parte da vida ativa, e a primeira (parte) da vida contemplativa.
  2. Mas, à muito soberana sabedoria da Sua Divindade, que a treva das palavras da Sua Humanidade envolvia, a isso, ela tinha atenção com todo o amor do seu coração. E de lá, ela não queria sair por nada daquilo que ela via ou ouvia dizer ou fazer a seu propósito; mas ela permanecia sentada e toda silêncio no seu corpo, com suaves impulsos secretos e o seu fervoroso amor pressionando-se contra essa alta "nuvem de desconhecimento" entre ela própria e o seu Deus. Porque uma coisa eu te digo: é que nunca houve, e nunca haverá uma criatura tão pura nesta vida, tão altamente arrebatada em contemplação e amor, que não haja ainda acima (dela) uma alta e prodigiosa "nuvem de desconhecimento" entre ela e o seu Deus. E é nessa nuvem que Maria estava ocupada com todo o ardor secreto do seu amor. Porquê? Porque era essa quer a melhor quer a mais santa parte da contemplação que se pode fazer nesta vida; e dessa parte, ela não tinha querer nem desejo de se mexer para nada. Tanto e tão bem que quando a sua irmã Marta se queixou dela a nossa Senhor e Lhe pediu para mandar à sua irmã que ela se levantasse, e a ajudasse, e não a deixasse sozinha assim a entregar-se ao esforço e a trabalhar, ela ficou sentada e toda silêncio, e nem uma palavra respondeu, nem mesmo um gesto fez contra a sua irmã, por qualquer queixa que aquela pudesse ter feito. Nada de espantoso: ela tinha um outro trabalho a fazer, do qual Marta não sabia nada. E é por isso que ela não tinha nenhuma disponibilidade para a ouvir, nem para responder ao seu lamento.
  3. Vê portanto, meu amigo! Estas obras e as palavras e os gestos, os quais todos nos são mostrados entre nosso Senhor e essas duas irmãs, são-no em exemplo do que todos os ativos e todos os contemplativos foram desde então na santa Igreja, e serão até ao dia do Julgamento. Porque, por Maria é preciso compreender todos os contemplativos, os quais também conformarão a sua vida à dela; e por Marta, os ativos da mesma maneira, e pela mesma razão à semelhança dela.


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulo 17

Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 16



Que pela virtude desta obra, um pecador sinceramente voltado e chamado à contemplação chega mais rapidamente à perfeição que por qualquer outra obra; e que por ela, ele pode mais cedo ter de Deus o perdão dos seus pecados.
  1. Vê bem: ninguém iria pensar que haja presunção em ousar, apesar de ser o mais miserável pecador nesta terra, – mas depois de se ter convenientemente emendado, e depois de ter sentido em si o apelo desta vida chamada contemplativa, com o assentimento quer da sua consciência quer do seu diretor espiritual – em ousar tomar sobre si e ter um humilde impulso de amor para o seu Deus, pressionando secretamente essa "nuvem de desconhecimento", a qual está entre o ser humano e o seu Deus. Quando nosso Senhor, dirigindo-se a Maria, e na sua pessoa a todos os pecadores, lhe disse: «Os teus pecados estão perdoados», não fez isso apenas para a recordação dos seus pecados nem pela grade tristeza que ela tinha deles, nem também pela humildade que ela teria ganho ao olhar apenas para a sua miséria. Mas porquê então? Seguramente, porque ela tinha muito amor.
  2. Olha! Aqui os seres humanos podem ver o que uma pressão secreta de amor pode ganhar de nosso Senhor, diante de todas as outras obras nas quais o ser humano pode pensar. E no entanto, eu não nego que ela sentiu a maior tristeza e muito amargamente chorou pelos seus pecados, nem que ela ficou toda cheia de humildade com a recordação da sua miséria. E assim faremos nós, nós que somos e que fomos uns miseráveis e uns pecadores endurecidos: e que a duração de toda a nossa vida seja o deplorar horrível e maravilhoso dos nossos pecados, que nós sejamos completamente cheios de humildade à recordação da nossa miséria!
  3. Mas como? Certamente, como fez Maria. Ela, que no entanto não podia não sentir no seu coração a mais profunda tristeza com os seus pecados, – visto que ela os trazia, com efeito, com ela onde quer que ela ia durante toda a sua vida, ligados em conjunto como um fardo depositado e pesando secretamente na caverna do seu coração, por forma a que eles nunca fossem esquecidos – apesar de no entanto se poder dizer e afirmar segundo a Escritura: ela tinha no entanto uma mais profunda tristeza no coração, uma mais dolorosa aspiração e mais profunda impaciência, sim! e ela languescia muito mais – quase até à morte – com a sua falta de amor, apesar de ela estar plena de amor. E com isso tu não tens que te espantar, porque é a condição do amante verdadeiro, que quanto mais ele ama, mais lhe falta e mais aspira ao amor.
  4. E no entanto ela sabia bem, e ela sentia bem nela com uma rigorosa verdade, que a sua miséria era mais horrível que a de qualquer um, e que os seus pecados tinham posto, entre ela e o seu Deus que ela amava tanto, uma divisão; e portanto também que eram eles, em grande parte, que eram a causa de que ela sofresse tanto e languisse de tal forma com a sua falta de amor. Mas sobre isso, o quê então? Desceu ela para isso das alturas do seu desejo até aos abismos da sua vida pecadora? E pôs-se a escavar no horrível e fedorento lodo e no fumeiro dos seus pecados, para os tirar um a um, cada um com as suas circunstâncias, afim de ter arrependimento e de chorar sobre cada um deles? Nada disso! Certamente, ela não o fez. E porquê? Porque Deus lhe tinha dado, por Sua graça, e feito compreender dentro da sua alma que ela nunca chegaria ao fim assim. Porque desse modo, ela teria antes fortificado nela, com certeza, a sua aptidão de grande pecadora, bastante antes de ganhar por meio desse empreendimento o pleno perdão de cada um de todos os seus pecados.
  5. E foi por isso que ela suspendeu o seu amor e impaciente desejo nessa "nuvem de desconhecimento"; e ela aprendeu a amar aquilo, que nunca ela poderia ver claramente nesta vida pela luz do entendimento na razão, nem sentir positivamente no seu afeto pela doçura do amor. A tal ponto que muitas vezes ela não tinha mais com precisão a recordação de se ela tinha sido uma pecadora ou não. Sim, e muitas e muitas vezes, eu creio, ela estava tão profundamente entregue ao amor da Sua Divindade, que ela não tinha por assim dizer mais nenhum interesse na beleza do Seu precioso e muito santo corpo, no qual Ele habitava muito adoravelmente, falando e pregando diante dela; nem aliás a nenhum outro objeto, não mais corporal que espiritual. Tal é a verdade, ao que parece, segundo o Evangelho.


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulo 16

Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 15



Uma curta demonstração contra o erro deles: daqueles que dizem que não há mais perfeita causa para a humildade, que o conhecimento por um ser humano da sua própria miséria.
  1. E também fia-te firmemente nisto, que há uma humildade perfeita tal como eu disse, e que é possível pela graça chegar até ela nesta vida. O que eu afirmo, para a confusão daqueles que pretendem, no seu erro, que não há mais perfeita causa de humildade que aquela que resulta da recordação da nossa miséria e dos pecados que nós cometemos.
  2. Eu concordo que, para aqueles que têm estado no hábito do pecado, como eu estou e estive eu próprio, é, uma muito necessária e eficaz causa de humildade, a recordação da nossa miséria e dos pecados que nós cometemos, tanto e até ao momento em que seja raspada em grande parte a grande ferrugem do pecado, e isto, com a atestação da nossa consciência e do nosso diretor espiritual. Mas para os outros que são como inocentes, nunca tendo pecado mortalmente por vontade determinada em conhecimento de causa, mas apenas por fragilidade e por ignorância, e que se fazem contemplativos; – e para nós os dois igualmente, que sentimos a vocação pela graça, e o desejo de sermos contemplativos, depois, todavia, de pelo testemunho da nossa consciência e do nosso diretor espiritual nós sermos assegurados duma legítima emenda pela contrição e pela confissão, como também pela obediência aos estatutos e ordenações da santa Igreja – há, acima dessa, uma outra causa de humildade: e também longe acima dela tal como a vida de nossa Senhora Santa Maria está acima da do penitente mais pecador da santa Igreja; ou que a vida de Cristo está acima da vida de qualquer um neste mundo; ou ainda que a vida de um anjo, o qual nunca sentiu – nem sentirá – a fragilidade, está acima da vida do mais frágil dos humanos sobre esta terra.
  3. Porque se as coisas fossem assim, e se não existisse mais nenhuma causa mais perfeita de humildade que o ver e sentir a nossa miséria e fragilidade, então eu perguntaria àqueles que pretendem isso: qual causa tinham eles para a humildade deles, daqueles que nunca viram nem sentiram – e também nunca terão neles – a miséria nem o assalto do pecado, tais como nosso Senhor Jesus Cristo, nossa Senhora Santa Maria, e todos os santos anjos do céu? Ora, a essa perfeição, assim como a todas as outras, nosso Senhor Jesus Cristo nos chama Ele próprio no Evangelho, onde ele manda: que nós sejamos perfeitos, pela graça, tal como Ele é Ele próprio, pela natureza.

    (Estote ergo vos perfacti, sicut & pater vester coelestis perfectus est.)


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulo 15

Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 14



Que sem chegar primeiro à humildade imperfeita, é impossível a um pecador chegar nesta vida à virtude perfeita da humildade.
  1. Porque, apesar de eu lhe chamar humildade imperfeita, contudo, é tanta quanto eu tiver tido o conhecimento verdadeiro e o sentimento de mim próprio tal qual eu sou, que o mais rapidamente me será dada, com a causa perfeita, a virtude da humildade ela própria: e mais rapidamente que se todos os santos e os anjos do céu, e todos os homens e mulheres da santa Igreja sobre a terra, religiosos ou seculares de todos os graus, todos em conjunto se metessem a não fazer nada mais que rezar a Deus afim de que eu tenha a humildade perfeita. Sim, e mesmo então é impossível a um pecador de ter, ou de conservar tendo-a tido, essa virtude perfeita da humildade sem a outra.
  2. E é por isso que tu deves sangrar e suar tanto quanto tu possas e poderás, afim de ter, por ti próprio, o conhecimento verdadeiro e o sentimento daquilo que tu és. Porque então, eu penso que pouco depois tu terás uma experiência de Deus, o conhecimento verdadeiro e o sentimento daquilo que Ele é. Não tal como Ele é em Si próprio, porque isso ninguém pode, a não ser Ele próprio; nem ainda tal como tu O conhecerás na beatitude, juntamente com o corpo e a alma. Mas tal como é possível conhecê-l'O pela experiência, com a Sua permissão, por uma alma humilde e vivendo neste corpo mortal.
  3. E não penses, porque eu pus a esta humildade duas causas, uma perfeita e imperfeita a outra, que eu quero com isso te ver abandonar o trabalho devido à imperfeita humildade para te pôr inteiramente a querer a perfeita. Nada disso, seguramente: porque me parece que nunca tu a terás assim. Mas o que até aqui eu fiz, eu o fiz porque eu queria dizer-te e também que tu visses a excelência desse exercício espiritual e a sua precedência sobre os outros, físicos e espirituais, tal como pode ou poderia fazê-los o ser humano com a ajuda da graça. Como é também que esse amor íntimo, secretamente insistindo em pureza de espírito na obscura "nuvem de desconhecimento" que está entre ti e o teu Deus, verdadeiramente e perfeitamente contém nele a perfeita virtude da humildade, sem nenhuma particularidade ou clara consideração do que quer que seja por baixo de Deus. E ainda porque eu queria que tu conhecesses qual era a humildade perfeita, e que tu a colocasses como um sinal diante do amor do teu coração, e que tu fizesses assim para ti e para mim. Por fim, porque eu queria que, com esse conhecimento, tu te tornasses mais humilde.
  4. Porque acontece muitas vezes que a falta de conhecimento é a causa, na minha opinião, de muito orgulho. E talvez pudesse acontecer que, não conhecendo qual era a perfeita humildade, e tendo no entanto qualquer pequeno conhecimento e sentimento daquela a que eu chamo de humildade imperfeita, tu fosses imaginar ter já quase atingido a humildade perfeita: de tal forma, assim, que tu te enganasses a ti próprio, crendo estares numa total humildade quando tu estavas prisioneiro dum horrível e fedorento orgulho.
  5. E é por isso que tu te deves esforçar por trabalhar nesta humildade perfeita, porque ela tem uma qualidade tal que quem a possui, e durante todo o tempo em que ele a tem, não peca nada, e também não pecará muito depois.


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulo 14

Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 13



O que é a humildade em si própria; e quando ela é perfeita, e quando ela é imperfeita.
  1. Vejamos portanto primeiro a virtude da humildade: como ela é imperfeita quando ela tem por causa, misturada com Deus, qualquer outra razão, apesar de Ele ser a principal; e como ela é perfeita com Deus n'Ele próprio como único fim. E antes, é preciso saber o que é a humildade em si própria, se é que a coisa pode ser claramente vista e compreendida; sobre o quê, mais verdadeiramente poder-se-á conceber, na verdade do espírito, qual é a causa dela.
  2. A humildade não é em si própria nada mais que o verdadeiro conhecimento e o sentimento verdadeiro, para o ser humano, daquilo que ele é em si próprio. Porque seguramente, quem puder ver-se a si próprio na verdade e sentir aquilo que ele é, na verdade esse será humilde. E essa humildade tem duas causas, as quais estão aqui: a primeira é a sujidade, miséria e fragilidade do ser humano, nas quais ele caiu pelo pecado, e que lhe compete guardar o sentimento em todos os instantes que ele vive nesta vida, tão santo quanto ele possa ser. A segunda, é o sobreabundante Amor e a Perfeição de Deus em Si próprio, à consideração dos quais toda a natureza fica a tremer; e todos os grandes clérigos são uns loucos; e todos os santos e todos os anjos são cegos. De tal forma que, se não acontecesse que Ele temperasse, na sabedoria da Sua Divindade, a contemplação de cada um segundo a sua capacidade segundo a natureza e segundo a graça, eu não consigo dizer o que lhes aconteceria.
  3. A segunda dessas duas causas é perfeita; e a razão, é que ela durará para sempre e sem nenhum fim. Mas a primeira aqui por cima, é pelo contrário imperfeita; e porquê? é porque não somente ela cai quando acaba esta vida, mas ainda muitas vezes pode acontecer que uma alma neste corpo mortal, por abundância de graça em multiplicação do seu desejo – tão frequentemente e tão longamente quanto se digne Deus operar nela assim – pode ter subitamente e perfeitamente perdido e esquecido todas as ideias e todos os sentimentos do seu ser, sem mais nenhuma preocupação quer da sua santidade quer da sua miséria anterior. Mas, quer a coisa aconteça raramente ou frequentemente, a uma alma assim disposta, de todas as formas ela só persiste durante um instante muito breve, na minha opinião: mas durante esse instante ela é perfeitamente humilde, não tendo nenhuma ideia nem sentimento de uma causa, que não seja a principal. Enquanto que, cada vez que ela conhece e sente a outra causa misturada com esta, – e mesmo que esta fosse a principal – então a humildade é imperfeita.
  4. Mas sempre, no entanto, ela é boa; e é sempre necessário tê-la. E que Deus te preserve de a teres de forma diferente daquela que eu te disse.


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulo 13

Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 12



Que pela eficácia e virtude desta obra não somente o pecado é destruído, mas também as virtudes suscitadas.
  1. É portanto por isso que, se tu queres aguentar-te e não cair, não pares nem acabes nunca em repouso: mas sempre e mais, bate (à porta) nessa "nuvem de desconhecimento", a qual está entre ti e o teu Deus, com a "lança aguda de amor impaciente"; afasta-te horrorizado do pensamento de qualquer objeto que esteja por baixo de Deus; e não te afastes de lá por nenhuma coisa que aconteça.
  2. Porque é só por esta obra, e nela apenas, que destróis o fundamento e a raiz do pecado. Jejua como nunca, vigia mais tarde do que nunca, levanta-te mais cedo do que nunca, como nunca deita-te em cama dura, estafa-te como nunca, sim! e mesmo se fosse permitido fazer – o que não é – arranca os teus olhos, corta a tua língua, tapa as orelhas e as narinas hermeticamente como nunca, e ainda corta os teus membros e inflige ao teu corpo todas as dores e sofrimentos imagináveis: nada disso te ajudará. Sempre em ti estará o movimento e o assalto do pecado.
  3. Ai! E o quê mais? Verte lágrimas também como nunca por lástima e mágoa dos teus pecados, ou com o pensamento na Paixão de Cristo; ou então, mais vivas que nunca, te sejam presentes no espírito todas as alegrias do céu. Qual será o seu efeito, no que te diz respeito? Seguramente muito bem, grande socorro, grande lucro e muita graça retirarás tu disso. Mas em comparação com o "cego impulso de amor", tudo aquilo é tão pouco quanto nada, o que aquilo faz, podemos fazer, sem aquilo. Enquanto ele está nele próprio, e sem os outros, a melhor parte é de Maria; eles, sem ele, não avançam senão pouco, ou nada. Porque não apenas ele destrói o fundamento e a raiz do pecado, tanto quanto se pode fazer aqui, mas ainda suscita as virtudes. Que ele seja verdadeiramente concebido, – e verdadeiramente todas as virtudes nele se encontrarão, e concebidas até à perfeição, e compreendidas sensivelmente nele, sem nenhum mistura de intenção. E nunca nenhum ser humano terá sem ele tantas virtudes, sem que elas fiquem misturadas com alguma intenção falsa, a qual é a causa para elas serem imperfeitas.
  4. Porque a virtude não é nada mais, com efeito, que uma afeição ordenada e medida, e plenamente dirigida para Deus por Ele próprio. Porquê? Porque Ele é n'Ele próprio a pura causa e fim de todas as virtudes: ao ponto que se alguém tivesse uma virtude que tivesse por causa, misturada a Deus, uma outra razão ainda – sim! apesar de Deus ser ainda a principal, – não aconteceria menos que essa virtude fosse então imperfeita. Como assim se poderá ver, por exemplo, numa virtude, ou em duas, mais que em todas as outras: e tais serão perfeitamente a humildade e a caridade. Porque aquele que pode ganhar e ter claramente estas duas: ele não tem necessidade de mais. Porque tendo-as, ele tem tudo.


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulo 12

Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 11



Que um ser humano deveria pesar todos os pensamentos e movimentos interiores, quaisquer que eles sejam, e sempre se guardar da indiferença quanto ao pecado venial.
  1. Se eu falo assim, não é porque eu acredite que vocês sejam, tu e todos os outros que eu disse, culpados e oprimidos por algum pecado semelhante; mas é porque eu gostaria que tu te guardasses de faltar, e pesar cada pensamento, e cada movimento interior, qualquer que seja o seu objeto, e que tu te empregasses ativamente em destruir todos os primeiros movimentos e pensamentos nas coisas onde tu poderias assim pecar.
  2. Porque eu digo-te isto: aquele que não pesa, ou que toma ligeiramente, a primeira ideia – sim! Mesmo se não há nela nenhum pecado – ele não escapará, qualquer que ele seja, à indiferença quanto ao pecado venial. A esse pecado venial, não há ninguém, nesta vida mortal, que escape a ele absolutamente. Mas à indiferença quanto ao pecado venial, sempre escaparão todos os verdadeiros discípulos da perfeição: porque de outra forma, eu não ficaria surpreendido que eles caíssem rapidamente no pecado mortal.


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulo 11

Nuvem de Desconhecimento – Capítulos 10 a 19


  1. Como uma pessoa sabe que o seu pensamento não pecou; ou se sim, quando é pecado mortal e quando é venial
  2. Que um ser humano deveria pesar todos os pensamentos e movimentos interiores, quaisquer que eles sejam, e sempre se guardar da indiferença quanto ao pecado venial
  3. Que pela eficácia e virtude desta obra não somente o pecado é destruído, mas também as virtudes suscitadas
  4. O que é a humildade em si própria; e quando ela é perfeita, e quando ela é imperfeita
  5. Que sem chegar primeiro à humildade imperfeita, é impossível a um pecador chegar nesta vida à virtude perfeita da humildade
  6. Uma curta demonstração contra o erro deles: daqueles que dizem que não há mais perfeita causa para a humildade, que o conhecimento por um ser humano da sua própria miséria
  7. Que pela virtude desta obra, um pecador sinceramente voltado e chamado à contemplação chega mais rapidamente à perfeição que por qualquer outra obra; e que por ela, ele pode mais cedo ter de Deus o perdão dos seus pecados
  8. Que o verdadeiro contemplativo não tem nenhum desejo de se misturar com a vida ativa, nem com nenhuma coisa feita ou dita dele, nem também de responder aos seus acusadores para se desculpar
  9. Como, e até este dia, todos os ativos se queixam dos contemplativos, assim como Marta, de Maria. Da qual queixa a ignorância é a causa
  10. Curta desculpa de quem fez este livro, ensinando quanto por todos os contemplativos serão desculpados plenamente todos os ativos das suas ações e palavras de repreensão


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulos 10 a 19

Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 10



Como uma pessoa sabe que o seu pensamento não pecou; ou se sim, quando é pecado mortal e quando, venial.
  1. Pelo contrário, não é nada assim da recordação de qualquer homem ou mulher vivendo nesta vida, nem também de um objeto corporal ou mundano, qualquer que ele seja. É, com efeito, que a ideia brusca e súbita de um de entre eles, vinda a ti contra a tua vontade e o teu consentimento, apesar de ela não te poder ser imputada como pecado – porque esse é o trabalho do pecado original contra ti, do qual, no batismo, tu foste purificado – no entanto, se ela não for prontamente controlada e esse súbito impulso prontamente abatido, muito rapidamente o teu fraco coração carnal nela será arrastado: quer seja por um tipo ou outro de complacência, se esse é um objeto que te agrada ou te agradou em tempos; quer seja por um tipo ou outro de sobressalto, se esse é um objeto que tu crês doloroso para ti ou que te foi doloroso no passado. E esse apego, se ele pode ser mortal de novo para eles, homens e mulheres, que vivem da vida carnal e que estavam antes no pecado mortal; para ti, no entanto, e para todos aqueles que têm, numa vontade fiel, abandonado o mundo, os quais estão por compromisso e obrigação em algum grau da vida religiosa na santa Igreja, abertamente ou em segredo, qualquer que ele seja, – e por conseguinte não são governados pela sua própria vontade e a sua estimação pessoal, mas pela vontade e o conselho dos seus mestres e superiores, quais quer que sejam, religiosos ou seculares, – um tal apego por complacência ou por sobressalto do coração carnal não é no entanto, para esses todos, senão "pecado venial". E a causa está no profundo apoio e enraizamento em Deus do vosso objetivo e intenção, realizados desde o começo da vossa vida neste estado para onde vocês vieram, com a assistência e o conselho dum prudente Pai, vossa testemunha.
  2. Mas não é coisa menor que essa complacência ou sobressalto agarrado ao teu coração carnal, por pouco que ele aí seja admitido a residir algum tempo sem reprimenda, então e para concluir se agarra ao coração espiritual, o que quer dizer à vontade, com o pleno consentimento: o que, então, é "pecado mortal". E é o que acontece quando tu próprio, ou um daqueles que eu nomeei, chama intencionalmente em si a recordação de qualquer homem ou mulher vivendo nesta vida, ou de outra forma, qualquer objeto material ou mundano. Apesar de que se esse é um objeto que te fere ou te feriu em tempos, em ti eleva-se uma paixão furiosa e uma sede de vingança, as quais têm por nome Cólera; ou de outra forma, nós o rejeitamos pelo desdém e qualquer maneira de desgosto dessa pessoa, com pensamentos desprezíveis e julgamentos que condenam, o que se chama: Inveja. Ou ainda é a lassidão e uma falta de gosto por qualquer ação e boa ocupação, tanto corporal quanto espiritual, o que se chama: Preguiça.
  3. E se esse é um objeto que te agrada ou te agradou em tempos, então eleva-se em ti um grande deleite ao pensar nele, qualquer que possa ser essa coisa. Tão bem que tu repousas nesse pensamento e acabas por agarrar nele o teu coração, e a tua vontade também; e nisso faz repasto o teu coração carnal: a tal ponto que tu pensas no momento não teres outro bem a cobiçar, a não ser o viveres sempre e repousar em semelhante paz com a coisa na qual tu pensas. Ora, essa ideia que atrais para ti ou de outro modo acolhes quando ela veio, e na qual tu repousas com tanto deleite, se ela toca na excelência da tua natureza ou do teu saber, à graça recebida ou ao grau alcançado, aos favores ou à beleza, então ela é Orgulho. E se ela vai aos bens terrestres de qualquer forma, às riquezas ou mobiliários quais quer dos quais possamos ser senhores ou possuidores, então é Cobiça. Se é às iguarias delicadas e bebidas, ou a quaisquer outras formas de delícias que o ser humano possa provar, então é Gula, também dito Gulodice. E se é de amor ou de prazer que ela (a ideia) fala, de carícias carnais quaisquer que sejam, do preparar ou da lisonja dos charmes de qualquer homem ou mulher vivendo nesta vida, e de ti próprio igualmente: então é Lubricidade ou Luxúria.


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulo 10

Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 9



Que no tempo desta obra, a recordação da criatura mais santa que alguma vez fez Deus é mais prejudicial que proveitosa.
  1. E é por isso que esse movimento agudo do teu intelecto, que sempre te vem importunar quando tu te metes nesta obra, é sempre preciso que ele seja pisado com os pés; porque se tu não o pisas, é ele que te pisará. E assim, quando tu crês que estás no melhor, e imaginas permanecer nessa obscuridade, e que não tens no teu espírito nada mais que Deus sozinho, se tu observas com cuidado, tu encontrarás o teu espírito, não ocupado com essa obscuridade, mas antes com uma clara consideração de qualquer objeto por baixo de Deus. E sendo assim, seguramente essa coisa está por cima de ti nesse momento, e entre ti e o teu Deus. É por isso que, tem portanto o desejo de rejeitar semelhantes e claras considerações, mesmo se elas forem santas e mais favoráveis que nunca. Porque eu digo-te uma coisa: é que o mais proveitosos para a saúde da tua alma, e mais valioso em si, e mais agradável a Deus e a todos os santos ou anjos do céu, – sim! E de maior socorro para todos os teus amigos do corpo e do espírito, vivos ou mortos, – é esse "cego impulso de amor" para Deus n'Ele próprio, e um tal e secreto ardor nessa "nuvem de desconhecimento": e eu digo-te que é melhor para possuí-lo e tê-lo no teu sentimento espiritual, do que teres os olhos da tua alma abertos para a contemplação ou consideração de todos os anjos ou santos do céu, ou que ela esteja banhada em toda a alegria e na melodia da beatitude em que eles estão.
  2. E nota bem que tu não te deves espantar com isto: porque se tu pudesses tu próprio vê-lo tão claramente quanto é possível, pela graça, de o pressentir nesta vida, então tu pensarias como eu digo. Mas sabe bem e fica assegurado de que a clara visão, nunca a teremos nesta vida; o sentimento (dela), no entanto, podemos ter, pela graça, e com a permissão de Deus. E é por isso portanto que tu deves elevar o teu amor para essa nuvem; ou antes, para falar segundo a verdade, deixar Deus atrair o teu amor para essa nuvem; e procurar para ti, com o socorro da Sua graça, o esqueceres tudo o resto.
  3. Porque quando uma simples recordação de qualquer objeto por baixo de Deus, apesar de involuntária e não deliberada, já te afasta muito mais de Deus do que se ele se tivesse imposto, e te prejudica com isso porque ele te torna incapaz de ter, por experiência, o sentimento do fruto do Seu amor, – o que será então se tu te lançares voluntariamente e deliberadamente numa tal recordação ao contrário do teu propósito, e que obstáculo não vai ela aí meter? E visto que a recordação de qualquer santo em particular, ou de todos os objetos puramente espirituais, já é um semelhante obstáculo para ti, – o que será da recordação de qualquer ser humano vivendo na sua carne miserável, ou de qualquer outro objeto material ou mundano? E quanto não serás tu impedido nessa obra?
  4. Não é que eu queira dizer que uma semelhante ideia súbita e nua de qualquer bom e espiritual objeto por baixo de Deus, completamente involuntária e não deliberada, ou mesmo voluntariamente suscitada e escolhida com a intenção de aumentar a tua devoção, apesar dela ser prejudicial ao modo e à maneira desta obra, – não é que eu diga que ela seja por isso coisa má. Não! Deus não permitiria que tu a tomasses assim. Mas eu digo que, tão boa e santa que ela seja, pelo menos, nesta obra, ela faz mais impedimento que proveito. Para este tempo e este momento, quero eu dizer. E porquê? É porque aquele que procura Deus com perfeição, esse, para acabar, não vai parar e repousar na recordação de qualquer santo ou dum anjo do céu.


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulo 9

Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 8



Um bom esclarecimento de certas dúvidas que podem surgir nesta obra, tirado de uma questão, pela refutação da própria curiosidade e astúcia do espírito humano natural, e pela distinção dos graus e partes entre a vida ativa e a contemplativa.
  1. Ora eis que tu me interrogas: «E o que é então, o que me ocupa assim durante essa obra, e saber se é coisa de bem ou má? Porque se fosse coisa má, dizes tu, então eu me maravilharia que ela viesse nesse ponto acrescer a devoção do ser humano. E frequentemente me pareceu que havia aí um reconforto precioso no escutar dos seus dizeres. E há aí muitas vezes, parece-me, em que ela me tira lágrimas do coração, quer apiedando-me com a Paixão de Cristo, quer sobre a minha própria miséria ou tantos outros objetos que todos me pareceram perfeitamente santos, e de um grande bem para mim. Também, ela não seria, pela minha estimativa, nada má. Mas se a coisa é boa, e que ainda por cima ela me faça um tal e tão grande bem pelos seus dizeres e suaves palavras, então grandemente eu me espanto e me questiono porque é que tu me dizes para eu a rejeitar, e para tão longe, para debaixo da "nuvem de esquecimento".»
  2. Eis seguramente o que me parece ser uma questão pertinentemente colocada, e à qual eu penso responder bem, tanto quanto eu puder na minha fraqueza.
  3. E primeiro, quando tu me perguntas o que é isso, que te ocupa e te pressiona tão fortemente durante esta obra, e que mesmo se oferece para te ajudar nela, eu digo que é um vivo e claro olhar na luz natural do teu espírito, o qual se imprime na tua alma.
  4. E quando tu me perguntas se a coisa é boa ou má, eu digo que nela própria, pertence-lhe ser sempre boa, segundo a sua natureza. Por isto: porque é um raio da semelhança de Deus. Mas quanto ao seu emprego, então ela pode ser boa, ou má. Boa, quando ela é, pela graça, aberta sobre uma visão da tua própria miséria, sobre a Paixão, sobre a bondade e sobre as obras admiráveis de Deus nas Suas criaturas, tanto corporais quanto espirituais. Em qual caso, não há aí nenhum motivo de espanto que ela acresça tão plenamente a tua devoção, tal como tu dizes. Mas lá onde a utilização é má, é quando ela é inchada pelo orgulho e a curiosidade de um grande saber e conhecimento livresco, tal como acontece nos doutos clérigos; mas ei-los apressados em se fazerem, não humildes alunos da divindade e mestres da devoção, mas estudantes orgulhosos do diabo e mestres das vaidades e da mentira. Para todos os outros homens ou mulheres, quais quer que eles sejam, religiosos ou seculares, também o uso ou emprego desse espírito natural é mau, quando os incham de orgulho e de curiosidade por todos os talentos mundanos, os carnais pensamentos de convulsão diante dos louvores do mundo, e a possessão das riquezas, dos vãos prazeres e das bajulações dos outros.
  5. E quando tu me perguntas porque é que tu a deves rejeitar debaixo da "nuvem de esquecimento", quando a coisa é assim, e tal que segundo a sua natureza ela é boa, e seguidamente, segundo tu indicas apropriadamente, ela te faz tanto bem e acresce de tal forma a tua devoção; eu respondo a isso e digo: Que tu deves perfeitamente compreender que há duas maneiras de viver na Santa Igreja.
  6. A primeira é a "vida ativa" e a segunda é a "vida contemplativa". A ativa é a vida inferior, e a contemplativa, superior. A "vida ativa" tem dois graus, um superior e um inferior, da mesma forma que a "vida contemplativa" também tem dois graus, um inferior e um superior. Mas também essas duas vidas estão nesse ponto acasaladas em conjunto que, apesar delas poderem ser diversas em alguns pontos, no entanto nem a primeira nem a segunda poderiam existir plenamente sem alguma parte da outra. Porquê assim? Porque aquela parte que é a superior da "vida ativa", é também a mesma parte que a inferior da "vida contemplativa". De tal forma que um ser humano não poderia ser plenamente ativo, se ele não fosse em parte contemplativo; nem também contemplativo absolutamente, por tanto que se pudesse ser aqui (neste mundo), que ele não seja em parte ativo. A condição da "vida ativa", é a de ter em conjunto quer o seu começo quer o seu fim nesta vida; mas não a "vida contemplativa", a qual começa efetivamente nesta vida, mas para durar sem conhecer fim. E a razão? É que a parte que Maria escolheu, nunca ela lhe será tirada. A "vida ativa" é perturbada, agitada e trabalhada por inúmeros objetos; mas a "vida contemplativa", ela, permanece sentada na paz com um objeto único.
  7. A "vida ativa" inferior, são as honestas boas obras materiais da caridade e de misericórdia. A sua parte superior, a qual é a inferior da "vida contemplativa", são as eficazes meditações espirituais e a atenta consideração pelo ser humano, com tristeza e contrição, da sua própria miséria; da Paixão de Cristo e dos seus servidores, com piedade e compaixão; dos admiráveis dons de Deus, da Sua bondade e das Suas obras em todas as Suas criaturas corporais e espirituais, com ações de graças e louvores. Mas a mais alta parte da contemplação, tanto quanto ela se pode fazer aqui (neste mundo), consiste inteiramente nessa obscuridade e nessa "nuvem de desconhecimento", e com um impulso de amor e uma cega consideração do Ser puro de Deus, unicamente Ele próprio.
  8. O ser humano, na sua "vida ativa" inferior, está fora de si e por baixo de si. Na "vida ativa" superior, e parte inferior da "vida contemplativa", o ser humano está dentro de si e igual a si próprio. Mas na "vida contemplativa" superior, é por cima de si que ele está, e debaixo do seu Deus. Por cima de si próprio: porque a vitória que ele promete a si, com o socorro da graça, está para lá do ponto que não se pode mais pretender atingir pela natureza; que é o de estar ligado e unido a Deus em espírito, em unidade de amor e em conformidade de vontade.
  9. E muito justamente tal como é impossível à razão humana o admitir, para um ser humano, que ele chegue à parte superior da "vida ativa", se ele não conseguiu, pelo menos, cessar e deixar por um tempo a parte inferior; exatamente igualmente também é que um ser humano não pode passar à parte superior da "vida contemplativa", se ele não conseguiu, pelo menos, cessar e deixar por um tempo, a sua parte inferior. E também é coisa ilegítima e que corre para o falhanço, o querer e pretender sentar-se nessas meditações, tentando conservar no entanto a sua atenção fixa no exterior nos trabalhos do corpo, feitos ou a fazer, tão santos quanto possam ser para além disso em si próprios; também seguramente é inadmissível e um falhanço certo, o pretender e querer trabalhar nessa obscuridade e nessa "nuvem de desconhecimento" com um afetuoso impulso de amor por Deus Ele próprio, deixando elevar-se acima de si e se colocar entre si e o seu Deus, qualquer pensamento ou qualquer meditação sobre os admiráveis dons de Deus, a Sua bondade e as Suas obras em cada uma das Suas criaturas corporais e espirituais, – tão santas quanto elas possam ser, para além disso, esses pensamentos eles próprios, tão reconfortantes e profundos!
  10. E esta é a razão porque eu te digo e peço que rejeites uma tal ideia aguda e sublime, e que a recubras com uma muito espessa "nuvem de esquecimento", tão santa quanto ela (a ideia) seja e te prometa mais que nunca de te assistir e ajudar no teu propósito. E o porquê, é que o amor pode, nesta vida, atingir Deus; mas a ciência não. E todo o tempo que a alma permanece neste corpo mortal, a ponta da nossa inteligência com respeito às coisas espirituais, e muito particularmente Deus, é sujada sempre mais por todos os tipos de imaginações, por culpa das quais o nosso trabalho não pode ser senão impuro. E a grande maravilha, seria que com isso nós não fossemos induzidos em inúmeros erros.


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulo 8

Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 7



Como o ser humano se guardará, nesta obra, contra todos os pensamentos, e particularmente contra aqueles saídos da curiosidade e da astúcia do espírito natural.
  1. E se qualquer ideia se eleva e continuamente se quer forçar acima de ti, entre ti e essa obscuridade, te questionando e dizendo: «O que procuras tu? E o que gostarias tu de ver?» Tu dirás, tu, que é Deus que tu queres possuir: «É Ele que eu desejo, Ele que eu procuro, e nenhum outro para além d'Ele.»
  2. E se ela te pergunta: «O que é Deus?» Diz-lhe, tu, que foi Deus que te fez, e resgatou, e que graciosamente te chamou para este grau. «E n'Ele, tu dirás, nula e para nada é a tua habilidade.» E é por isso que tu ordenas: «Para baixo, tu, vai-te para baixo.» E rapidamente tu pões-lhe o pé em cima com um impulso de amor, por muito santa que ela te pareça, e que ela te parecesse querer ajudar-te a procurá-l'O. Porque, talvez certamente, ela queria meter-te no espírito diversos, muito admiráveis e maravilhosos aspetos da Sua bondade, e afirmar que Ele é todo doçura e todo amor, todo graça e todo misericórdia. E se tu a quiseres escutar, ela não pede melhor; porque para terminar, e sempre mais te disputando assim, ela te distrairá, a ti, do amor, para te meter no espírito a Sua Paixão.
  3. E lá, ela te fará ver a maravilhosa bondade de Deus, e se tu a escutas, ela não espera mais nada que isso. Porque rapidamente depois, ela te mostrará a tua miserável vida antiga, e talvez, a pensar nela e a vê-la, te levará ao espírito qualquer lugar onde tu residiste nesse tempo antigo. De tal forma que para acabar, e antes que tu te tenhas apercebido, eis que estás lançado não sabes onde na dissipação. E a causa dessa dissipação, é que tu te prestaste de bom grado em primeiro lugar a ouvi-la, depois porque tu lhe respondeste, e porque tu a admitiste e recebeste, e porque tu a deixaste fazer o que ela quis.
  4. E no entanto, pelo menos, a coisa que ela dizia, parecia toda ela ser boa e santa. E mesmo tão santa, sim, que o homem ou a mulher que acreditassem atingir a contemplação sem tais numerosas e ternas meditações sobre a sua própria miséria, sobre a Paixão, a Bondade, a Excelência e a Perfeição de Deus, antes de lá chegarem, certamente se enganariam e falhariam o seu objetivo. Mas pelo menos, resta ao homem ou à mulher, que longamente se empregaram nessas meditações, de as deixarem portanto, e de as rejeitarem e de as afastarem para muito longe debaixo da "nuvem de esquecimento", se eles querem alguma vez penetrar e furar um dia a "nuvem de desconhecimento" que está entre eles e Deus.
  5. Também portanto, qualquer que seja o momento em que tu te dispões para esta obra, e qual o sentimento de aí seres chamado pela graça de Deus: eleva então o teu coração para Ele, com um movimento e um impulso de humildade e de amor, na ideia do Deus que te criou, e redimiu, e que graciosamente te chamou ao grau em que tu estás, não admitindo nenhuma outra ideia para além dessa única ideia de Deus. E mesmo essa, apenas se tu te sentires levado a ela: porque um impulso direto e nu para Deus é mais que suficiente, sem nenhuma outra causa que não seja Ele próprio.
  6. E que, se (optares por) esse impulso, convêm-te tê-lo como que dobrado e empacotado numa palavra, afim de mais firmemente aderires a ele, então que seja uma pequena palavra, e com muito poucas sílabas: porque quanto mais curta ela é, melhor ela está de acordo com a obra do Espírito. Tal palavra é a palavra: DEUS, ou ainda a palavra: AMOR. Escolhe aquela que tu quiseres, ou outra que te agrade, desde que seja curta de sílabas. E essa, agarra-a tão firme ao teu coração, que ela nunca se afaste, apesar do que aconteça.
  7. E essa palavra será o teu escudo e a tua espada, quer tu andes em paz ou em guerra. Com esta palavra tu baterás nessa nuvem e nessa obscuridade acima de ti. E com ela tu abaterás todo o tipo de ideias para debaixo da "nuvem do esquecimento". A tal ponto que, se qualquer ideia te importuna de cima e te pergunta o que tu gostarias de possuir, tu não lhe responderás com nenhumas palavras senão com apenas essa palavra. E se ela argumentar com a sua competência oferecendo-se para te explicar essa palavra muito sabiamente e te expor as suas qualidades ou propriedades, diz-lhe: que tu a queres guardar e possuir intacta na sua inteireza, e não quebrada ou desfeita.
  8. E se tu te queres manter firme nesse propósito, tem a certeza que nem mais um instante, ela permanecerá. E porquê? Porque tu não queres nem a deixas alimentar-se nas doces meditações sobre Deus, alegadas acima.


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulo 7

Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 6



Curta consideração da obra que se trata, tirada de uma questão.
  1. Mas agora tu me interrogas e me dizes: «Como é que eu vou pensar n'Ele, e o que é Ele?» e a isso eu não te posso responder a não ser isto: «Eu não sei nada.»
  2. Porque, com a tua questão, tu lançaste-me nessa mesma obscuridade e nessa mesma "nuvem de desconhecimento" onde eu gostaria que fosses tu próprio. Porque de todas as outras criaturas e das suas obras, sim certo, e das obras de Deus Ele próprio, é possível que um ser humano tenha pleno conhecimento delas pela graça, – e sobre elas, ele pode muito bem pensar; mas sobre Deus Ele próprio, ninguém pode pensar. É por isso que eu deixaria todas as coisas em que posso pensar, e escolheria para meu amor a coisa em que eu não posso pensar. Porque eis: Ele pode verdadeiramente ser amado, mas pensado não. O amor pode atingi-l'O e retê-l'O, mas nunca o pensamento.
  3. Também portanto, apesar de ser bom pensar por vezes em particular na bondade e na perfeição de Deus, e ainda que seja uma luz e parte da contemplação, no entanto portanto nesta obra, isso será rejeitado e coberto com uma "nuvem de esquecimento". E tu avançarás valentemente por cima, mas prudentemente, num devoto e alegre impulso de amor, tentando penetrar a obscuridade por cima de ti. E bate com golpes redobrados nessa espessa "nuvem de desconhecimento" com a lança aguda do amor impaciente; e não saias de lá por nenhuma coisa que aconteça.


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulo 6

Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 5



Que no tempo desta obra, todas as criaturas que alguma vez existiram, existem agora ou existirão, e todas as obras dessas mesmas criaturas, devem estar escondidas sob a nuvem do esquecimento.
  1. E se alguma vez tu chegares a essa nuvem, e se tu lá permaneceres e trabalhares dentro, como eu te peço, o que tu deves, da mesma forma que a "nuvem de desconhecimento" está por cima de ti entre ti e o teu Deus, é que exatamente da mesma forma tu metas por baixo de ti uma "nuvem de esquecimento" entre ti e todas as criaturas jamais criadas. Tu vais pensar, talvez, que tu estás com efeito longe de Deus porque a "nuvem de desconhecimento" está entre ti e o teu Deus: mas muito certamente, apesar da tua concepção ser boa, tu estás muito longe d'Ele quando tu não tens uma "nuvem de esquecimento" entre ti e as criaturas que alguma vez existiram ou foram feitas. E tão frequentemente que eu te diga: todas as criaturas que alguma vez existiram ou foram feitas, também frequentemente eu entendo não apenas essas criaturas elas próprias, mas também todas as obras e condições dessas mesmas criaturas. Eu não excluo nenhuma criatura, quer ela seja corporal ou espiritual, nem também de nenhuma condição ou obra de qualquer criatura, quer ela seja boa ou má: e para resumir, todas devem estar escondidas sob a "nuvem de esquecimento" na ocorrência.
  2. Porque, apesar de ser plenamente proveitoso por vezes pensar em certas condições e ações de tais criaturas particulares, no entanto aqui, nesta obra, o proveito é minúsculo ou nulo. Então porquê? É porque a recordação ou o pensamento de qualquer criatura que Deus alguma vez fez, ou de qualquer uma das suas ações, é uma maneira de luz espiritual: porque o olho da tua alma está exatamente fixo nisso como o olho do atirador está fixo no alvo que ele visa. E eu digo-te uma coisa, é que tudo aquilo em que tu pensas, está por cima de ti durante esse tempo, e entre ti e o teu Deus: e tanto mais tu estás longe e mais longe de Deus, quanto mais tu tens no espírito a menor coisa para além de Deus.
  3. Sim! E se é possível de o dizer com decência e conveniência, para esta obra, serve de pouco ou de nada o pensar na bondade ou na perfeição de Deus, ou da nossa Senhora, ou dos santos e anjos no céu, ou ainda nas beatitudes do céu: quer dizer, por uma consideração especial, como se tu quisesses por essa consideração alimentar o teu propósito e lhe dar mais força. Eu sou da opinião que de nenhuma maneira isso te ajudaria no caso e na obra. Porque apesar de ser bom meditar na bondade de Deus, e de O amar e glorificar por isso, no entanto é muito melhor pensar no seu Ser puro, e de O amar e glorificar por Ele próprio.


[ Anterior ] [ Índice ] [ Seguinte ]


Início » Espiritualidade » Nuvem de Desconhecimento » Capítulo 5