Nuvem de Desconhecimento – Índice Analítico




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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 75



De alguns sinais seguros, os quais um ser humano pode sentir, se ele for chamado por Deus para trabalhar nesta obra.
  1. Todos aqueles que lêem, ou ouvem ler, ou ainda falar, da matéria deste livro, e que a quando dessa leitura ou audição pensam que é uma coisa boa, e que lhes assenta: eles não são por isso chamados por Deus para trabalharem nesta obra, devido apenas a esse movimento de complacência sentido neles próprios durante o tempo e o momento da leitura. Porque pode muito bem acontecer que da curiosidade da inteligência natural lhes tenha vindo esse movimento, bem mais do que de algum chamamento da graça (de Deus).
  2. Mas se eles querem sentir de onde vem esse movimento, eles podem-no como se segue, se eles quiserem. E primeiro, que eles vejam se eles fizeram tudo o que estava neles previamente, a fim de se tornarem capazes duma purificação das suas almas perante o julgamento da santa Igreja e de acordo com o diretor espiritual deles. Se acontecer assim, tanto melhor; mas se eles o querem conhecer mais de perto, que eles vejam se esse movimento é sempre mais instante à recordação deles, e mais habitual do que qualquer outro em todas as formas de exercício espiritual. E se lhes parece que não há nenhum tipo de coisa que eles façam, corporalmente ou espiritualmente, que seja suficiente e satisfatória, perante o testemunho da consciência deles, a menos que seja esse insignificante ardor secreto de amor, de uma maneira espiritual, a capital e primeira de todas as obras deles: então, se tal é o sentimento deles, é esse um sinal de que eles são chamados por Deus para esta obra, e de outro modo seguramente que não.
  3. Eu não digo que ele deve sempre durar e habitar continuamente no espírito deles todos, aqueles que são chamados a trabalhar nesta obra. De forma nenhuma, porque não é assim. E num jovem aprendiz espiritual nesta obra, muitas vezes o sentimento imediato desta retira-se, por diversas causas e razões. Por vezes, é porque lhe é tirado (por Deus) afim de que ele não meta aí demasiada presunção e não se ponha a imaginar que está em seu poder, em grande parte, o tê-lo quando lhe agrada e como lhe agrada. E esta ideia não seria senão orgulho. Ora, quando é retirado (por Deus) o sentimento da graça, a causa é sempre o orgulho: não sempre o orgulho que estaria lá, mas o orgulho que poderia estar, se não fosse retirado esse sentimento da graça. E é assim que frequentemente, tais jovens loucos, imaginam que Deus é inimigo deles, quando precisamente Ele é amigo deles todo inteiramente.
  4. De nenhuma vez, Ele se retira devido ao facto da incúria e da negligência deles; e quando é assim, eles sentem depois disso uma dor muito amarga que os atinge muito gravemente e dolorosamente. Certas vezes, nosso Senhor quer prolongar essa espera, por um desígnio muito hábil, porque Ele quer, nessa espera, o crescimento deles, afim de que o regresso desse sentimento seja neles mais delicioso quando ele lhes for dado, e que eles sintam quanto longamente ele foi perdido. E é esse um dos mais prontos e dos mais soberanos sinais que uma alma pode ter, para reconhecer assim se ela é chamada ou não a trabalhar nesta obra: se ela sente depois uma semelhante espera e longa falta desta obra, que ela regresse a ela rapidamente como deve, e por nenhuma via nem meio rebuscado, e que ela possua então nela própria um grande fervor e um desejo impaciente de trabalhar e de obrar nesta obra, muito maior do que nunca antes. A tal ponto que muito frequentemente, eu creio, ela encontra uma alegria maior pouco depois deste impulso, do que ela tinha tido de tristeza com a sua perca.
  5. E se isto se passa assim, seguramente é um sinal autêntico, e verdadeiro e sem erro de que ela é chamada por Deus para trabalhar nesta obra, independentemente do que quer que ela tenha sido previamente ou do que ela seja presentemente.
  6. Porque não é nada daquilo que tu és, nem do que tu foste, que Deus observa com os olhos da Sua misericórdia; mas aquilo que tu tens desejo de ser. E São Gregório dá-nos testemunho de que todos os desejos santos crescem e aumentam com o retardamento deles e as demoras; e se eles desaparecem na demora e na espera, então é porque eles nunca foram desejos santos. Porque aquele que sente sempre uma alegria cada vez menor nos reencontros e nas novas apresentações dos desejos do seu antigo propósito, apesar de poderem ser desejos naturais em direção ao Bem, assim ele saberá que nunca foram desejos santos. Dos quais desejos santos fala santo Agostinho, o qual diz que a vida de todo o bom Cristão não é nada mais do que o seu desejo santo.
  7. Porta-te bem, amigo espiritual, com a benção de Deus e a minha! E eu peço ao Deus Todo-Poderoso que a paz verdadeira, o conselho santo e o reconforto espiritual em Deus por abundância da graça, estejam sempre contigo e com aqueles todos que O amam nesta terra. Amém.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 74



Como é que o conteúdo deste livro, nunca o lerá ou ouvirá ler, nem falará ou ouvirá falar, uma alma disposta a esta obra, sem sentir um verdadeiro sentimento da sua conveniência e da sua eficácia; e a reiteração da admoestação escrita no prólogo.
  1. E se tu pensas que esta maneira de trabalhar não está de acordo com as tuas disposições, tanto do corpo quanto da alma, então tu podes abandoná-la e tomar outra, com toda a segurança com o conselho de um diretor bom e espiritual, e sem censura. E eu peço-te que me desculpes, porque verdadeiramente eu desejava trazer-te qualquer proveito com este escrito da minha ciência; e tal era a minha intenção. Mas lê-o bem duas vezes ou três vezes completamente, e mesmo ainda mais vezes seria melhor, e melhor tu saberias compreender a coisa. De tal modo que, talvez, qualquer frase que te ficasse fechada na primeira ou segunda leitura, rapidamente depois tu a considerarias fácil.
  2. Verdadeiramente, sim! parece-me impossível crer que uma alma tendo disposições para esta obra possa ler ou ouvir ler, falar ou ouvir falar disto, sem que ela tenha imediatamente sentimentos de uma verdadeira conveniência e real eficácia nesta obra. E se, portanto, te parece ser dum bom efeito, então agradece a Deus do fundo do coração e, pelo amor de Deus, reza por mim.
  3. Faz assim. E eu peço-te pelo amor de Deus que não deixes ninguém ver este livro, a menos que seja alguém que tu penses que ela é conveniente para ele, e segundo aquilo que tu próprio encontraste previamente nele, no lugar onde é dito quais seres humanos, e quando, devem trabalhar nesta obra. E se tu deixas um ser humano desse tipo vê-lo, então eu peço-te que lhe recomendes e que lhe mandes que tome o tempo de o ver por inteiro. Porque talvez haja qualquer matéria no seu começo, ou no meio, a qual está em suspenso e só é desenvolvida inteiramente neste lugar. Mas se ela não o é neste lugar, ela o será um pouco depois, ou talvez no fim. E assim, por ver apenas uma parte e não uma outra, um ser humano pode facilmente ser levado ao erro: e é por isso que eu te peço para que trabalhes como eu te digo. E se tu encontrares qualquer matéria que tu gostasses de ver mais aberta, faz-me saber qual ela é, e também a tua opinião sobre esse ponto: e ela será melhorada, se eu puder com a minha simples ciência.
  4. Quanto aos disputadores carnais, para o louvor ou para a censura, aos faladores, aos falsificadores de histórias e todos os outros contadores de contos, pouco me importa que eles vejam este livro: porque nunca eu tive a intenção de escrever para eles semelhantes coisas. E é por isso que eu gostava que eles não ouvissem falar delas, nem eles nem nenhum outro curioso, letrado ou inculto, ah! não, mesmo que eles fossem na vida ativa uns perfeitos e excelentes seres humanos, porque isto não lhes convém de forma nenhuma.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 73



Como, à imagem de Moisés, de Besaliel e de Aarão que se ocuparam da Arca do Testamento, nós temos três maneiras de perfeição nesta graça da contemplação, a qual graça é figurada por essa Arca.
  1. Três homens foram os mais importantes daqueles que se ocuparam dessa Arca do Antigo Testamento: Moisés, Besaliel e Aarão. Moisés aprendeu de nosso Senhor sobre a montanha como ela devia ser feita. Besaliel realizou-a e colocou-a no interior do Véu, segundo o exemplo que tinha sido mostrado na montanha. E a Aarão competiu guardá-la no Templo, vendo-a e tocando-lhe tão frequentemente quanto lhe agradava.
  2. À semelhança desses três, nós temos três maneiras de perfeição nesta graça da contemplação. Por vezes, nós aí temos perfeição apenas pela graça, e então nós somos à imagem de Moisés, o qual, por toda aquela ascensão e aquele penoso trabalho que ele tinha tido sobre a montanha, só a podia ver raramente: e mesmo essa visão, ele só a tinha quando agradava a nosso Senhor mostrar-lha, e não que ele a tenha merecido, e por recompensa do seu trabalho. Por vezes, nós aí temos perfeição devido à nossa penetração espiritual, com a assistência e a ajuda da graça; e então nós somos à imagem de Besaliel, o qual não podia ver a Arca à sua frente antes que ele a tivesse feito com o seu próprio trabalho, assistido pelo exemplo que tinha sido mostrado a Moisés sobre a montanha. E por vezes, nós aí temos perfeição pelo ensinamento de outros seres humanos, e então nós somos à imagem de Aarão, o qual tinha à sua guarda e no seu hábito o ver e tocar quando lhe agradava, essa Arca que Besaliel tinha realizado e confeccionado com as suas mãos.
  3. Eis portanto, amigo espiritual! que com este livro, por muito infantil e imprópria que seja a sua linguagem, e ainda que eu seja uma criatura miserável completamente indigna de ensinar outrem, eu ocupo no entanto o ofício de Besaliel: confeccionando e depositando de alguma forma entre as tuas mãos a matéria desta Arca espiritual. Mas muito melhor do que eu faço e mais excelentemente, tu podes trabalhar tu próprio se tu quiseres ser Aarão: quer dizer, trabalhando e operando continuamente e sem parar no interior, quer para ti quer para mim. Faz assim, eu peço-te, pelo amor de Deus Todo-Poderoso. E visto que nós os dois fomos chamados para trabalhar nesta obra, eu peço-te pelo amor de Deus, que completes pela tua parte aquilo que falta à minha (parte).


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 72



Que um operário nesta obra não deve nem julgar nem pensar do trabalho dum outro nesta obra, segundo o seu próprio sentimento interior.
  1. Vê! Com isto tu podes compreender que aquele a quem é dado de não ver e sentir a perfeição desta obra senão por um longo trabalho, e ainda (por cima) raramente, esse pode facilmente cair no erro se ele fala, pensa e julga os outros segundo aquilo que ele conhece por si próprio, decidindo que outro não consegue lá chegar senão raramente e não sem um grande trabalho. E igualmente estará no erro aquele que a pode ter quando ele a quer, se ele julga os outros segundo si próprio, dizendo que os outros a podem ter quando eles querem. Não! deixa isso: seguramente não é assim que se deve proceder. Porque talvez bem, quando e se agrada a Deus, aqueles que não a conseguem atingir imediatamente e que só a têm raramente, depois de um longo trabalho, esses mais tarde lá chegarão quando eles quiserem, e tão frequentemente quanto lhes agradar. E o exemplo disto, nós o temos em Moisés, o qual inicialmente só a teve raramente e não sem grande trabalho, esse dom de ver como era a Arca, sobre a montanha, para depois a ver no Véu tão frequentemente quanto lhe agradava.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 71



Que certos não conseguiriam chegar a ter a experiência da perfeição desta obra senão num tempo de êxtase, e que outros a podem ter quando eles querem no estado comum da alma humana.
  1. Certos, consideram esta matéria tão árdua e perigosa, que eles afirmam que não se pode chegar a ela senão com um trabalho prévio enormemente enérgico, e mesmo assim só raramente, e só num tempo de êxtase. E a esses seres humanos eu quero responder, tanto quanto pode a minha fraqueza, e dizer: que tudo é segundo a ordenança e disposição de Deus, e também segundo a aptidão e a capacidade da alma à qual é dada esta graça da contemplação e da obra espiritual.
  2. Porque há certos que não conseguem lá chegar sem longos e numerosos exercícios espirituais, e mesmo assim só raramente eles terão a experiência da perfeição desta obra, e sob um apelo muito particular de nosso Senhor: o qual é denominado êxtase. Mas há outros, os quais são tão subtis em graça e em espírito, e tão familiarmente com Deus nesta graça da contemplação, que eles a podem ter quando eles querem no estado comum da alma humana: sentados, caminhando, em pé ou de joelhos. E ainda nesse tempo, eles têm plena e livre disposição de todos os seus sentidos corporais e espirituais, e eles podem usar deles se eles o desejarem (não sem algum impedimento, certo, mas nada de importante ou grave). O exemplo dos primeiros, nós o temos em Moisés, e dos segundos, em Aarão sacerdote do Templo; porque, com efeito, esta graça da contemplação é figurada pela Arca do Testamento na antiga Lei, e os operários dessa graça são figurados por aqueles que tocam mais nessa Arca duma forma ou de outra, como testemunha a História. E muito bem é que esta graça e esta obra sejam comparadas à Arca. Porque, muito justamente, assim como nessa Arca estavam contidas todas as jóias e relíquias do Templo, assim também neste minúsculo amor dirigido para esta nuvem, estão contidas todas as virtudes da alma humana, a qual é o espiritual Templo de Deus.
  3. Moisés, antes que ele pudesse ver essa Arca, e isso para aprender como ela devia ser feita, com um longo e grande trabalho tinha trepado a montanha até ao cimo, e lá ele tinha permanecido, e seis dias ocupado dentro duma nuvem: esperando até ao sétimo dia para que nosso Senhor se dignasse mostrar-lhe a maneira de fazer a construção dessa Arca. E por esse longo trabalho de Moisés e a tardia demonstração, são entendidos e compreendidos aqueles que não conseguem chegar à perfeição desta obra espiritual sem um longo trabalho prévio: e mesmo assim só será raramente, e quando Deus se dignar a mostrá-lo a eles.
  4. Mas o que Moisés só conseguia chegar a ver raramente, e não sem um grande trabalho longo, isso, Aarão o tinha em seu poder, devido ao seu ofício, e ele podia vê-lo no Templo, no interior, no Véu, tão frequentemente quanto lhe agradava de lá entrar. E por Aarão, são entendidos e compreendidos todos aqueles dos quais eu falei acima, os quais, pela penetração espiritual deles, com a assistência da graça, podem atribuir a eles a perfeição desta obra como lhes agrada.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulos 70 a 75


  1. Que pela ultrapassagem e a cessação dos nossos sentidos corporais, nós começamos a chegar mais rapidamente ao conhecimento das coisas espirituais; como pela ultrapassagem e a cessação dos nossos sentidos espirituais, nós começamos a chegar mais rapidamente ao conhecimento de Deus, tanto quanto é possível, pela graça, aqui em baixo
  2. Que certos não conseguiriam chegar a ter a experiência da perfeição desta obra senão num tempo de êxtase, e que outros a podem ter quando eles querem no estado comum da alma humana
  3. Que um operário nesta obra não deve nem julgar nem pensar do trabalho dum outro nesta obra, segundo o seu próprio sentimento interior
  4. Como, à imagem de Moisés, de Besaliel e de Aarão que se ocuparam da Arca do Testamento, nós temos três maneiras de perfeição nesta graça da contemplação, a qual graça é figurada por essa Arca
  5. Como é que o conteúdo deste livro, nunca o lerá ou ouvirá ler, nem falará ou ouvirá falar, uma alma disposta a esta obra, sem sentir um verdadeiro sentimento da sua conveniência e da sua eficácia; e a reiteração da admoestação escrita no prólogo
  6. De alguns sinais seguros, os quais um ser humano pode sentir, se ele for chamado por Deus para trabalhar nesta obra


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 70



Que pela ultrapassagem e a cessação dos nossos sentidos corporais, nós começamos a chegar mais rapidamente ao conhecimento das coisas espirituais; como pela ultrapassagem e a cessação dos nossos sentidos espirituais, nós começamos a chegar mais rapidamente ao conhecimento de Deus, tanto quanto é possível, pela graça, aqui em baixo.
  1. E é por isso que tu deves trabalhar firmemente nesse "nada" e nessa "parte nenhuma", e deixar os teus sentidos corporais do lado de fora e tudo aquilo que eles fazem: porque eu digo-te verdadeiramente, esta obra não pode e não poderia ser concebida por eles.
  2. Porque pelos teus olhos, tu não fazes ideia de uma coisa, senão que ela é larga ou comprida, grande ou pequena, redonda ou quadrada, distante ou próxima, e que ela tem tal cor. E pelas tuas orelhas, nada senão o barulho ou qualquer tipo de som. Pelo teu nariz, nada senão o fedor ou o perfume. E pelo gosto, nada senão o azedume ou a doçura, o amargor ou a insipidez, a aprovação ou a repulsa. E pelo tocar, nada senão o quente ou frio, o suave ou o duro, o liso ou o rugoso. E verdadeiramente, essas qualidades e quantidades, Deus não as tem, nem nenhuma coisa espiritual. É por isso portanto, que tu deves deixar os teus sentidos externos e não deves trabalhar com eles, nem interiormente nem exteriormente; porque todos aqueles que se metem a ser operários espirituais interiormente, e que imaginam poder no entanto ouvir ou ver, sentir ou saborear, quer interiormente quer exteriormente, as coisas espirituais, esses estão seguramente na ilusão e fazem obra contra a natureza.
  3. Porque por natureza, os sentidos estão ordenados por forma a que com eles, os seres humanos possam ter conhecimento de todas as coisas corporais exteriores; mas de forma nenhuma eles conseguem chegar, com eles, ao conhecimento das coisas espirituais: pelas operações deles, quero eu dizer. Porque pela cessação e impotência deles, nós podemos, da maneira que se segue: quando nós lemos ou ouvimos falar de certas coisas, e de seguida compreendemos que os nossos sentidos exteriores não conseguem informar-nos nem aprender de forma nenhuma qual é a qualidade dessas coisas, então nós podemos verdadeiramente ficar seguros de que essas coisas são espirituais e não corporais.
  4. De maneira semelhante se passa com os nossos sentidos espirituais, quando nós trabalhamos no conhecimento de Deus Ele próprio. Porque um ser humano teria como nunca a compreensão e o conhecimento de todas as coisas espiritualmente criadas, contudo ele não pode nunca, pela obra dessa inteligência, chegar ao conhecimento duma coisa espiritual não criada, a qual não é outra coisa senão Deus. Mas pela impotência e cessação dessa inteligência, ele pode: porque a coisa diante da qual ela é impotente não é outra coisa senão Deus somente. E é por isso que São Dioniso disse: «o mais perfeito conhecimento de Deus é aquele no qual Ele é conhecido por desconhecimento.» E na verdade, quem quer que quiser olhar para os livros de São Dioniso, ele encontrará que as suas palavras afirmam, e confirmam claramente, tudo aquilo que eu disse e poderia dizer, desde o começo até ao fim deste presente tratado. Mas de outro modo eu não o citarei, nem a ele nem a nenhum outro Doutor, quanto a mim desta vez. Porque se antigamente, os seres humanos puderam pensar fazer ato de humildade não tirando nada das suas cabeças, que não fosse afirmado pelas Escrituras e as palavras dos Doutores, tornou-se hoje num rebuscar e num ostentar de habilidade erudita. Para ti, isso não serviria de nada, e é por isso que eu não o faço. Porque aquele que tem ouvidos, que oiça; e aquele que se sente inclinado a acreditar, que acredite: porque de outra forma eles não o farão.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 69



Como é que a afeição de um ser humano é maravilhosamente mudada em sentimento espiritual nesse nada, quando ele é concebido em parte nenhuma.
  1. Prodigiosamente é metamorfoseada a afeição humana em sentimento espiritual por esse "nada" quando ele é concebido em "parte nenhuma". Porque no primeiro instante que uma alma olha para lá, ela aí encontrará e verá todos os atos pecaminosos particulares que ela cometeu desde o nascimento, do corpo e do espírito, representados obscuramente ou secretamente. E para onde quer que ela se volte em roda, sempre ela os verá diante dos seus olhos: até que o tempo venha, em que, com muito duro e penoso trabalho, e muitos suspiros cruéis, e muitas lágrimas amargas, ela se veja em grande parte lavada neles. Por vezes parecer-lhe-á, durante esse trabalho, que está a olhar para lá como para o inferno, de tal forma lhe parecerá que ela desespera de alguma vez triunfar sobre essa pena, na perfeição do perfeito repouso espiritual. Até a essas profundas entranhas, há muitos que aí chegam; mas pela enormidade da pena que eles sentem e pela ausência de reconforto, então eles voltam para trás para a consideração das coisas corporais, procurando reconfortos carnais exteriores ao invés dos espirituais, mas que eles não teriam tido falta de ter se eles tivessem perseverado.
  2. Porque aquele que persevera sente por vezes qualquer reconforto, e tem qualquer espécie de perfeição: porque ele sente e vê que muitos dos seus pecados antigos são em grande parte, com a ajuda da graça, apagados. No entanto, ainda, ele se sente sempre no meio da pena, mas ele pensa que ela terá um fim, porque ela vai sempre diminuindo a pouco e pouco. E é por isso que ele não chama a isto de outra forma senão "purgatório". Por vezes, ele não encontra lá marcado nenhum pecado particular, mas então parece-lhe que o pecado é um bloco maciço completo do qual ele não sabe nunca do que é feito, mas no entanto (ele não é feito) de nada mais senão de si próprio; e então ele pode ser chamado aquilo que ele é: a base e a pena do pecado original. Por vezes, lhe parecerá estar no paraíso ou no céu, devido a diversas delícias maravilhosas e a numerosos reconfortos e consolações, alegrias e virtudes benditas que ele lá encontra. E por vezes, parecer-lhe-á que é Deus, devido à paz e ao repouso que ele lá encontra.
  3. Ah! Que ele pense aquilo que ele quiser; porque sempre e sempre ele encontrará uma nuvem de desconhecimento, a qual está entre ele e o seu Deus.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 68



Que corporalmente em nenhuma parte, é em toda a parte espiritualmente; e como o ser humano do exterior chama nada à obra que diz este livro.
  1. E da mesma maneira, se qualquer outro ser humano te dissesse para recolheres completamente em ti próprio as tuas faculdades e os teus sentidos, e assim adorar Deus – apesar daquilo que ele diz ser perfeitamente bem e completamente verdade, ah! e ninguém diria maior verdade, por pouco que isso seja bem concebido – no entanto, por temor das ilusões e dos erros, e que essas palavras sejam entendidas corporalmente, eu não te pedi para tu o fizesses. Tem atenção para não estares de forma nenhuma dentro de ti próprio. Muito rapidamente eu te direi, e resumidamente: não é que eu queira que tu estejas fora de ti próprio, nem por baixo, nem atrás, nem dum lado, nem do outro.
  2. «Mas então onde, perguntas tu, é preciso que eu esteja? Em nenhuma parte, segundo parece!» Mas sim, realmente tu disseste bem: porque é aí que eu te quero ter. Porque em nenhuma parte, corporalmente: é em toda a parte, espiritualmente. Observa e vigia bem para que a tua obra espiritual não esteja em nenhuma parte corporalmente; e então, onde quer que esteja a coisa sobre a qual em substância tu trabalhares no teu espírito, seguramente, tu estarás lá em espírito, tão verdadeiramente e realmente como o teu corpo está no lugar onde tu estás corporalmente. E apesar dos teus sentidos corporais não conseguirem encontrar lá nada que os alimente, e que lhes pareça que é insignificante e nada aquilo que tu fazes, seja! faz então esse nada, e fá-lo pelo amor de Deus. E não saias de lá, mas trabalha ativamente nesse nada com o desejo vigilante de querer e possuir Deus que nenhum ser humano pode conhecer. Porque eu digo-te verdadeiramente, que me vale mais de estar nessa parte nenhuma corporalmente, lutando e combatendo com esse nada cego, em vez de ser um senhor tão grande, que eu possa estar por toda a parte em que eu desejo, jogando alegremente e distraindo-me completamente dessa qualquer coisa que é para o Senhor o seu bem e a sua possessão.
  3. Deixa esse "por toda a parte" e essa "qualquer coisa", e abandona-os por essa "parte nenhuma" e esse "nada". O que te importa que os teus sentidos nunca encontrem a razão desse "nada"? Porque muito seguramente eu amo-o ainda mais, porque ele é em si próprio duma tão perfeita excelência que eles não se podem apoderar dele e tirar partido dele. Esse "nada" pode melhor ser sentido pela experiência, do que ser visto: porque ele é completamente cegueira e completamente obscuridade para aqueles que apenas brevemente lançaram os olhos nele. E no entanto, para falar ainda mais perto da verdade, uma alma é mais cega nele pela abundância e pelo excesso da luz divina, do que ela é cega pelas trevas ou pela falta da luz corporal.
  4. Ora, quem é, aquele que a chama de um "nada"? Seguramente, é o ser humano exterior, e não o ser humano interior. O nosso ser humano interior chama-lhe de um Tudo, porque por Ele, ele aprende a conhecer a razão de todas as coisas corporais e espirituais, sem nenhuma consideração mais particular por alguma coisa que seja.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 67



Que quem não conhece as faculdades de uma alma e a maneira das suas operações, facilmente pode ser enganado na compreensão das palavras espirituais e das operações espirituais; e como uma alma é feita um Deus em graça.
  1. Vê portanto, amigo espiritual! Em qual miséria, tal que tu podes ver, nós caímos pelo pecado: e que não é de espantar, portanto, que nós sejamos cegamente e facilmente enganados na compreensão e no entendimento das palavras espirituais e das operações espirituais, – e mais particularmente aqueles que não conhecem as faculdades e os poderes das suas almas e as maneiras das suas operações?
  2. Porque sempre que a Memória está ocupada com qualquer objeto corporal, – tivesse ele sido agarrado pelo melhor dentre todos os fins – tu estás no entanto por baixo de ti próprio nessa ocupação ou trabalho, e fora da tua alma. E sempre, quando tu tens o sentimento de que a tua Memória está ocupada com os carateres e subtis estados das faculdades da tua alma nas suas operações e obras espirituais, como são os vícios e as virtudes, teus ou de qualquer criatura, a qual é tua igual em natureza, e isto a fim de poderes com isso aprender a conhecer esse tu próprio em previsão e em vista da perfeição: então tu estás dentro de ti próprio e igual a ti. Mas sempre, quando tu sentes a tua Memória ocupada de alguma maneira com um objeto corporal ou espiritual, mas que é unicamente da própria substância de Deus, assim como ele é e pode ser na experiência da obra que diz este livro: estão tu estás por cima de ti, e por baixo do teu Deus.
  3. Por cima de ti, tu estás: visto que tu consegues chegar pela graça para lá do que, por natureza, tu podes e poderias atingir. Quer dizer, (atingir) a ser unido a Deus, em espírito, pelo amor, e por conformidade de vontade. E por baixo do teu Deus, tu estás: visto que, e apesar que se possa duma certa maneira afirmar que nesse momento Deus e tu não são dois mas um, em espírito – a tal ponto que tu ou um outro, conhecendo por experiência esta unidade pela perfeição da obra, poderá muito seguramente, por testemunho das Escrituras, ser chamado um Deus – no entanto tu estás por baixo de Deus. E porquê? É que Ele é Deus por natureza e sem começo; enquanto que tu, que recentemente eras em substância nada, e que, rapidamente depois de teres sido, pelo Seu poder e pelo Seu amor, feito qualquer coisa, tu fizeste de ti próprio pior do que nada pelo pecado voluntário e aceite, é apenas pela Sua misericórdia e sem mérito nenhum da tua parte, que tu és feito um Deus na graça, unido a Ele em espírito sem partilha, tudo em conjunto aqui e na beatitude do céu e sem fim. E assim, apesar de tu seres um com Ele na graça, no entanto tu estás distante por baixo Dele em natureza.
  4. Vê portanto, amigo espiritual! Aqui tu podes ver e compreender qualquer coisa, em parte, de como aquele que não conhece as faculdades da sua alma e a forma como elas operam, ele pode ser muito facilmente enganado no entendimento das palavras escritas com um sentido espiritual. E com isto tu podes perceber a causa porque é que eu não tive a audácia de te mandar e pedir para tu mostrares plenamente e abertamente o teu desejo a Deus, mas infantilmente te requisitei para fazeres em ti uma espécie de esconder e cobrir. E eu fiz, isso, com receio que tu concebesses corporalmente aquilo que era entendido espiritualmente.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 66



Que quem não conhece as faculdades de uma alma e a maneira das suas operações, facilmente pode ser enganado na compreensão das palavras espirituais e das operações espirituais; e como uma alma é feita um Deus em graça.
  1. Vê portanto, amigo espiritual! Em qual miséria, tal que tu podes ver, nós caímos pelo pecado: e que não é de espantar, portanto, que nós sejamos cegamente e facilmente enganados na compreensão e no entendimento das palavras espirituais e das operações espirituais, – e mais particularmente aqueles que não conhecem as faculdades e os poderes das suas almas e as maneiras das suas operações?
  2. Porque sempre que a Memória está ocupada com qualquer objeto corporal, – tivesse ele sido agarrado pelo melhor dentre todos os fins – tu estás no entanto por baixo de ti próprio nessa ocupação ou trabalho, e fora da tua alma. E sempre, quando tu tens o sentimento de que a tua Memória está ocupada com os carateres e subtis estados das faculdades da tua alma nas suas operações e obras espirituais, como são os vícios e as virtudes, teus ou de qualquer criatura, a qual é tua igual em natureza, e isto a fim de poderes com isso aprender a conhecer esse tu próprio em previsão e em vista da perfeição: então tu estás dentro de ti próprio e igual a ti. Mas sempre, quando tu sentes a tua Memória ocupada de alguma maneira com um objeto corporal ou espiritual, mas unicamente da própria substância de Deus, assim como ele é e pode ser na experiência da obra que diz este livro: estão tu estás por cima de ti, e por baixo do teu Deus.
  3. Por cima de ti, tu estás: visto que tu chegas a chegar pela graça para lá do que, por natureza, tu podes e poderias atingir. Quer dizer, (atingir) a ser unido a Deus, em espírito, pelo amor, e por conformidade de vontade. E por baixo do teu Deus, tu estás: visto que, e apesar que se possa duma certa maneira afirmar que nesse momento Deus e tu não são dois mas um, em espírito – a tal ponto que tu ou um outro, conhecendo por experiência esta unidade pela perfeição da obra, poderá muito seguramente, por testemunho das Escrituras, ser chamado um Deus – no entanto tu estás por baixo de Deus. E porquê? É que Ele é Deus por natureza e sem começo; enquanto que tu, que recentemente eras em substância nada, e que, rapidamente depois de teres sido, pelo Seu poder e pelo Seu amor, feito qualquer coisa, tu fizeste de ti próprio pior do que nada pelo pecado voluntário e aceite, é apenas pela Sua misericórdia e sem mérito nenhum da tua parte, que tu és feito um Deus na graça, unido a Ele em espírito sem partilha, tudo em conjunto aqui e na beatitude do céu e sem fim. E assim, apesar de tu seres um com Ele na graça, no entanto tu estás distante por baixo Dele em natureza.
  4. Vê portanto, amigo espiritual! Aqui tu podes ver e compreender qualquer coisa, em parte, de como aquele que não conhece as faculdades da sua alma e a forma como elas operam, ele pode ser muito facilmente enganado no entendimento das palavras escritas com um sentido espiritual. E com isto tu podes perceber a causa porque é que eu não tive a audácia de te mandar e pedir para tu mostrares plenamente e abertamente o teu desejo a Deus, mas infantilmente te requisitei para fazeres em ti uma espécie de esconder e cobrir. E eu fiz, isso, com receio que tu concebesses corporalmente aquilo que era entendido espiritualmente.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 65



Do primeiro dos poderes secundários, de seu nome a Imaginação; e das obras e da obediência desta à Razão, antes do pecado e depois.
  1. A Imaginação é um poder pelo qual nós representamos para nós próprios todas as imagens das coisas presentes e ausentes; e em conjunto, ela e a coisa na qual ela obra, estão contidas na Memória. Antes do ser humano ter pecado, a Imaginação era tão obediente à Razão, para com a qual ela é como que uma serva, que ela nunca lhe mandava uma imagem contrafeita de qualquer criatura corporal, nem nenhuma imagem fantástica de qualquer criatura espiritual; mas presentemente não é assim. Porque a menos que ela seja refreada pela luz da graça na Razão, nunca ela deixará, na vigília como no sono, de representar imagens contrafeitas das criaturas corporais, ou então fantasmas, os quais não são nada mais do que representações corporais de coisas espirituais, ou ainda representações espirituais de coisas materiais. O que é sempre fingimento e falsidade, e muito próximo do erro.
  2. Esta desobediência da Imaginação pode muito bem ser reconhecida naqueles que se voltaram recentemente do mundo para a devoção, no momento das suas orações. Porque antes que o tempo chegue, em que a Imaginação será em grande parte refreada pela luz da graça na Razão, como acontece pela contínua meditação das coisas espirituais – tais como são a própria miséria do ser humano, a Paixão de nosso Senhor e a Sua Bondade, e muito outros – nunca eles conseguirão de alguma maneira rejeitar os espantosos e diversos pensamentos, fantasias e imagens, as quais são mandadas e impressas no seu espírito apenas pela luz e curiosidade da Imaginação. E tudo isso, e esta desobediência, é a pena recebida do pecado original.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 64



Das duas outras faculdades principais: a Razão e a Vontade; e da obra destas antes do pecado, e depois.
  1. A Razão é o poder pelo qual nós separamos o bem do mal, o mau do pior, o bem do melhor, e o pior do pior, e o melhor do melhor de tudo. Antes do ser humano ter pecado, a Razão poderia por natureza fazer naturalmente toda essa separação. Mas tão cega está ela presentemente, pelo erro do pecado original, que ela não é capaz de realizar essa obra sem ser iluminada pela graça. E em conjunto estas duas, a própria Razão e a coisa na qual ela trabalha, estão compreendidas e contidas na Memória.
  2. A Vontade é o poder pelo qual nós escolhemos o bem, depois de ele ter sido discriminado pela Razão; e pelo qual também nós amamos o bem, nós desejamos o bem, e repousamos sem fim com pleno consentimento e contentamento eterno n'Ele. Antes do ser humano ter pecado, não era possível que a Vontade fosse enganada na sua escolha, no seu amor, nem em nenhuma das suas obras. Porque ela possuía por natureza o sabor de todas as coisas tal qual elas eram; mas presentemente, ela não pode fazer assim, exceto se ela for ungida pela graça. Porque frequentemente, na sequência da infeção do pecado original, ela considera como sendo bom o sabor de uma coisa, a qual é completamente má e que só tem a aparência de bem. E em conjunto estas duas, a própria Vontade e a coisa que é desejada, a Memória as compreende e as inclui nela.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 63



Dos poderes e faculdades da alma em geral, e como a Memória em particular é uma potência principal, a qual contém nela todas as outras faculdades e todas as coisas sobre as quais elas operam.
  1. A Memória é em si própria uma potência de tal forma, que a falar propriamente e duma certa maneira, ela não opera ela própria. Mas a Razão e a Vontade são duas potências operativas, e também o são igualmente a Imaginação e a Sensibilidade. Todas as quatro faculdades e as suas obras, a Memória as contém e as compreende nela própria. Mas de outra forma não poderíamos dizer que a Memória opera, se não fosse que uma tal compreensão seja uma obra e uma operação.
  2. Daí segue-se que eu chamo a certos poderes a alma, a uns principais e a outros secundários. Não porque uma alma seja divisível, visto que ela não o pode ser: mas porque todas essas coisas nas quais ela opera são divisíveis, certas sendo principais como coisas todas espirituais, certas outras sendo secundárias como coisas todas corporais. As duas principais potências operativas, a Razão e a Vontade, obram puramente nelas próprias sobre objetos todo espirituais, sem a ajuda nem o socorro das duas outras potências secundárias. A Imaginação e a Sensibilidade obram brutalmente sobre objetos todos corporais, quer eles estejam presentes ou ausentes, dentro do corpo e com os sentidos corporais. Mas através delas duas, sem a ajuda e o socorro da Razão e da Vontade, nunca uma alma chegaria a conhecer a virtude e os carateres das criaturas corporais, nem tão pouco a causa da sua existência e criação.
  3. E é por isso que a Razão e a Vontade são chamadas potências principais: porque elas obram em puro espírito sem nada de corporal de qualquer tipo; e secundárias, a Imaginação e a Sensibilidade, porque elas operam e trabalham no corpo com os instrumentos do corpo, os quais são os cinco sentidos. A Memória é chamada uma potência principal porque ela contém nela espiritualmente não apenas todas as outras faculdades, mas por isso, também, todas as coisas onde elas obram. O que tu vês na experiência.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 62



Como um ser humano deve conhecer quando a sua obra espiritual está por baixo dele ou sem ele, e quando ela está com ele ou nele, e quando ela está por cima dele e por baixo do seu Deus.
  1. E para isso, para que tu sejas capaz de melhor saber como devem ser concebidas espiritualmente essas palavras que são ditas corporalmente, eu pensei em dar-te os significados espirituais de certas palavras que pertencem à obra espiritual. Por forma a que tu possas saber claramente e sem erro quando a tua obra está por baixo de ti e sem ti, quando ela está contigo e ainda dentro de ti, e quando ela está por cima de ti e por baixo do teu Deus.
  2. Todos os tipos de coisas corporais estão por fora da tua alma e por baixo dela por natureza, sim! e mesmo o sol e a lua e as estrelas todas, apesar delas estarem por cima do teu corpo, no entanto elas estão por baixo da tua alma.
  3. Todos os anjos e todas as almas, apesar de confirmadas e ornamentadas pela graça e pelas virtudes, e por isso acima de ti em pureza, no entanto são iguais a ti por natureza.
  4. Dentro de ti por natureza estão os poderes e as faculdades da tua alma, dos quais os três principais são a Memória, a Razão e a Vontade; e em segundo a Imaginação e a Sensibilidade.
  5. Acima de ti por natureza, não está outra coisa senão Deus apenas.
  6. Por toda a parte e sempre que seja escrito e questão de ti, em espiritualidade, então entende-se da tua alma e não do teu corpo. E portanto, sempre segundo a coisa sobre a qual estão ocupadas as faculdades da tua alma, assim julgarás tu da excelência ou condição da tua obra: saber se ela está por baixo de ti, em ti, ou por cima de ti.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 61



Que todas as coisas corporais estão submetidas e obedecem às espirituais, pelas quais elas são comandadas no curso natural, e de forma nenhuma o contrário.
  1. No entanto, há alguma utilidade em elevar os nossos olhos e as nossas mãos corporalmente para o céu corporal ao qual os astros estão agarrados. Eu quero dizer, se nós formos treinados para isso pela obra do nosso espírito, e não de outra forma. Porque todas as coisas corporais estão submetidas às coisas espirituais, e a partir delas reguladas e comandadas, e de forma nenhuma o contrário.
  2. Pode ver-se um exemplo disso na ascensão de nosso Senhor: porque quando o tempo determinado chegou, em que foi conveniente que Ele regressasse para o Seu Pai corporalmente na Sua humanidade, a qual humanidade não foi e não será nunca ausente da Sua Divindade, então, Todo-Poderoso, pela virtude do Espírito Santo, a humanidade com o corpo seguiu a Divindade na unidade da Pessoa. A aparência visível da qual, era mais conveniente e era mais adequado, que ela fosse a subir e para o alto.
  3. Esta mesma sujeição do corpo ao espírito pode ser, de maneira verdadeira, concebida pela prova da obra espiritual que diz este livro, por aqueles que trabalham nele. Porque no instante em que uma alma se dispõe a (trabalhar) isso efetivamente, logo imediatamente e subitamente, para benefício próprio daquele que nela opera, o corpo, que talvez mesmo antes que (a obra) começasse, estava inclinado para o chão, ou inclinado para um lado ou para o outro para a comodidade carnal, mas pela virtude e força do espírito (o corpo) é endireitado: seguindo pela maneira e à semelhança corporal a obra do espírito, a qual (obra) é espiritual. E assim é que convém melhor que seja.
  4. E é pela razão dessa própria conveniência que o ser humano – o qual é, de todas as criaturas de Deus, a mais decente de corpo e a mais digna – não é feito dobrado para o chão, como são todos os outros animais, mais erguido a direito para o céu. Porquê assim? Porque deve figurar, na aparência corporal, a obra e o trabalho espiritual da alma, a qual obra e o qual trabalho, lhes convém que sejam direitos espiritualmente, e de maneira nenhuma espiritualmente tortuosos e dobrados. Toma bem guarda que eu digo espiritualmente direito, e não corporalmente. Porque, como poderia ser uma alma, a qual não tem por natureza nenhuma maneira e matéria de corporalidade, mantida corporalmente direita em pé? Não, não; isso não pode ser.
  5. E é por isso que tu deves ter o cuidado de não conceberes corporalmente aquilo que é significado espiritualmente, apesar disso ser dito com palavras corporais, tais como são as de «ao alto» ou «em baixo», «dentro» ou «fora», «atrás» ou «adiante», «dum lado» ou «do outro lado». Porque mesmo que algo espiritual que possa alguma vez ser uma coisa em si própria, no entanto, se for preciso falar dela, e visto que o discurso é uma obra corporal, e feita e gerada pela língua, a qual é um instrumento do corpo, isso não poderá ser feito senão sempre com palavras corporais. Mas o que importa? Deve suceder que o compreendamos e concebamos corporalmente? Não, certamente, mas antes espiritualmente, como foi explicado.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulos 60 a 69


  1. Que a grande avenida e a mais imediata do céu é percorrida pelos desejos, e não pelos passos da caminhada
  2. Que todas as coisas corporais estão submetidas e obedecem às espirituais, pelas quais elas são comandadas no curso natural, e de forma nenhuma o contrário
  3. Como um ser humano deve conhecer quando a sua obra espiritual está por baixo dele ou sem ele, e quando ela está com ele ou nele, e quando ela está por cima dele e por baixo do seu Deus
  4. Dos poderes e faculdades da alma em geral, e como a Memória em particular é uma potência principal, a qual contém nela todas as outras faculdades e todas as coisas sobre as quais elas operam
  5. Das duas outras faculdades principais: a Razão e a Vontade; e da obra destas antes do pecado, e depois
  6. Do primeiro dos poderes secundários, de seu nome a Imaginação; e das obras e da obediência desta à Razão, antes do pecado e depois
  7. Do outro poder secundário, de seu nome a Sensibilidade; e das obras e da obediência desta à Vontade, antes do pecado e depois
  8. Que quem não conhece as faculdades de uma alma e a maneira das suas operações, facilmente pode ser enganado na compreensão das palavras espirituais e das operações espirituais; e como uma alma é feita um Deus em graça
  9. Que corporalmente em nenhuma parte, é em toda a parte espiritualmente; e como o ser humano do exterior chama nada à obra que diz este livro
  10. Como é que a afeição de um ser humano é maravilhosamente mudada em sentimento espiritual nesse nada, quando ele é concebido em parte nenhuma


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 60



Que a grande avenida e a mais imediata do céu é percorrida pelos desejos, e não pelos passos da caminhada.
  1. Mas presentemente, pode acontecer que portanto tu me perguntes como é que isso é (assim), e então como é que se vai até lá? Porque te parece que há prova autêntica e evidente de que o céu está no alto: porque Cristo ascendeu corporalmente para o alto nos ares, e que Ele enviou segundo a Sua promessa, desde o alto corporalmente o Espírito Santo, à vista de todos os Seus discípulos; e tal é a nossa fé. E é por isso que tu pensas e te questionas, porque tu tens essa verdadeira e real evidência, porque é que tu não dirigirias corporalmente para o alto o teu espírito durante o tempo da tua oração.
  2. E a isso, eu quero responder-te tanto quanto eu posso na minha fraqueza, e eu digo: visto que Cristo, sendo que era assim, devia fazer ascensão corporal e em seguida enviar corporalmente o Espírito Santo, então era mais conveniente que fosse para o alto na altura em vez de para baixo e por baixo, ou atrás, ou adiante, ou de um lado ou do outro. Mas de outra forma, sem ser devido a essa exigência, Ele não tinha nenhuma necessidade de se afastar subindo mais do que descendo; eu quero dizer quanto à proximidade e a prontidão do caminho. Porque o céu espiritual está tão próximo em baixo quanto em cima, e tão próximo no alto quanto em baixo, e tanto atrás quanto adiante, e diante quanto atrás, e dum lado quanto do outro. Por forma que quem quer que tenha um verdadeiro desejo de estar no céu, então ele lá estará no próprio instante espiritualmente. Porque é pelos desejos e não pelos passos da caminhada, que a grande avenida e a mais rápida do céu é corrida. E é por isso que são Paulo disse assim, falando dele próprio e de muitos outros: apesar dos nossos corpos estarem presentemente aqui na terra, no entanto portanto a nossa vida está no céu. Ele compreendia com isto o amor e os desejos deles, o qual é espiritualmente a vida deles. E muito seguramente a alma está tão realmente na verdade lá onde ela ama, quanto ela está no corpo onde ela vive e ao qual ela dá a vida. E é por isso que, se nós queremos espiritualmente ir ao céu, não serve de nada esforçar e tender o nosso espírito para o alto mais do que para baixo, nem para um lado mais do que para o outro.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 59



Que um ser humano não deve tirar exemplo da ascensão corporal de Cristo, para tender para o alto a sua imaginação corporal durante o tempo da oração: e que o tempo, o lugar e o corpo, todos os três são para esquecer em todas as obras espirituais.
  1. E se agora tu me dizes uma coisa ou a outra, com respeito à ascensão de nosso Senhor, e que, porque ela se fez corporalmente, por isso ela tem um significado tanto corporal quanto espiritual, visto que Ele subiu todo inteiro verdadeiro Deus e verdadeiro homem: a isso eu te responderei que Ele tinha estado morto, e que Ele estava revestido de imortalidade, e que assim nós estaremos todos no Dia do Julgamento. E então nós seremos feitos tão subtilmente em corpo e em alma tudo em conjunto, que nós nos encontraremos tão depressa então com o corpo que nos agradar, tal como nós o somos atualmente em pensamento espiritual; quer seja no alto ou em baixo, de um lado ou do outro, adiante ou atrás, será tudo um e igualmente bom, como o dizem os clérigos; e assim eu penso. Mas presentemente tu não podes chegar ao céu corporalmente, não, mas espiritualmente. E igualmente, isso será tão espiritualmente que isso não pode acontecer duma maneira corporal qualquer, e não mais no alto do que em baixo, de um lado do que do outro, nem adiante nem atrás.
  2. E sabe bem que todos aqueles que se metem em serem operários espirituais, e particularmente na obra que diz este livro, apesar deles lerem «eleva para o alto» e «vai para dentro» e apesar de tudo o que, neste livro, é chamado de um impulso, apelo, movimento, contudo eles devem estar muito atentos a isto, que este impulso e movimento não leva corporalmente para o alto, nem para dentro, e não é de nenhuma maneira um impulso como se ele fosse de um lugar para o outro lugar. E ainda, quando aí se fala de repouso, que no entanto eles não pensem que seja um repouso como o de ficar num lugar sem se mexerem de lá. Porque a perfeição desta obra é tão pura e tão espiritual em si mesma, que se ela é bem concebida e verdadeiramente entendida, ela será vista de outra forma e muito longe de tal movimento e de tal lugar que seja.
  3. E seria melhor e não sem razão de lhe chamar uma mudança brusca, em vez de um movimento qualquer de lugar. Porque o tempo, o lugar e o corpo: os três devem ser esquecidos em todos os trabalhos espirituais. E é por isso que tu deves ser prudente nesta obra, em não tomares a ascensão corporal de Cristo como exemplo para forçar e tender espiritualmente para o alto a tua imaginação, durante o tempo da tua oração, como se tu quisesses trepar para além da lua. Porque isso não seria de nenhuma maneira assim, espiritualmente. Mas se tu fosses fazer a ascensão corporal ao céu, da mesma maneira que Cristo fez, então tu poderias tirar exemplo dela: porém acontece que ninguém a não ser Deus o pode fazer, como Ele próprio o afirmou, dizendo: «Não há ninguém que possa subir ao céu a não ser apenas Aquele que desceu do céu, e Se fez homem por amor ao homem.»
  4. Ora, se isso fosse possível, como de nenhuma maneira pode ser, então isso seria por abundância e desborde da obra espiritual e unicamente pela potência e pelo poder espiritual, completamente afastado de qualquer tensão e esforço que seja da imaginação corporal, não mais no alto do que dentro, (não mais) de um lado do que do outro.
  5. E é por isso que tu deves deixar essas falsidades: as coisas não acontecem assim.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 58



Que um ser humano não deve tirar o seu exemplo de são Martinho ou santo Estêvão, para tender para o alto a sua imaginação corporal durante o tempo da oração.
  1. Porque o que eles dizem de são Martinho e de santo Estêvão, mesmo se eles tivessem visto essas coisas com os seus olhos corporais, elas não lhes foram mostradas no entanto senão por um milagre e em testemunho de qualquer coisa espiritual. E todos sabem muito bem que o manto de são Martinho não foi de forma nenhuma em substância por cima do corpo de Cristo, visto que Ele não tinha nenhuma necessidade de Se preservar do frio em Se cobrindo: mas por milagre ele estava lá, e em representação daquilo que todos nós somos capazes de ser salvos, e de sermos unidos espiritualmente ao corpo de Cristo. E quem quer que vista um pobre ou faça qualquer outra boa ação pelo amor de Deus, corporalmente ou espiritualmente, a quem tiver necessidade, esse pode estar seguro de que ele o faz espiritualmente ao próprio Cristo: e ele será recompensado disso substancialmente tal como se ele o tivesse feito ao corpo pessoal de Cristo. Isto Ele disse-o Ele próprio no Evangelho. Mas mesmo assim Ele pensou que não seria suficiente, e Ele o afirmou depois por um milagre: é por essa razão que Ele Se mostrou a são Martinho em revelação. E todas as revelações alguma vez vistas em aparência corporal, aqui, nesta vida, por qualquer ser humano, têm um sentido e um significado espiritual. E eu penso que se esses, a quem elas foram mostradas, tivessem sido suficientemente espirituais, ou se eles tivessem podido espiritualmente compreender os seus significados espirituais, nunca eles as teriam visto corporalmente. E é por isso que devemos rejeitar a casca rude, e nos devemos alimentar do miolo da amêndoa.
  2. Mas como? De forma nenhuma como esses heréticos, os quais podem bem ser comparados a loucos, tendo esse hábito que, sempre, tendo bebido por uma taça esplêndida, eles a lançam e estilhaçam contra a parede. Não, não é isso que nós faremos, se nós quisermos fazer bem. Porque nós nunca estaremos suficientemente alimentados pelo fruto, ao ponto de que nós desprezemos a árvore; nem também suficientemente saciados, a ponto de que nós devêssemos quebrar a taça depois de ter bebido. A árvore e a taça, é assim que eu nomeio o milagre visível e também todas as convenientes observâncias corporais, as quais estão de acordo harmonioso com a obra espiritual e não lhe prestam um mau serviço nunca. O fruto e o licor é assim que eu nomeio o significado espiritual desses milagres visíveis e observâncias corporais convenientes: tais como elevar ao alto os olhos para o céu, ou as mãos. Se elas são feitas por um movimento e apelo do espírito, então elas são bem feitas; mas de outra forma, elas são hipocrisia, e más. Se elas são verdadeiras e contêm o seu fruto espiritual, então porquê as desprezar? Visto que o ser humano beija a taça pelo vinho que está lá dentro.
  3. E porque nosso Senhor, quando Ele ascendeu ao céu no Seu corpo, tomou o Seu caminho em direção ao alto nas nuvens, à vista da Sua mãe e dos Seus discípulos nos seus olhos corporais, depreende-se que nós devêssemos na nossa obra espiritual, por isso, sempre olhar para o alto com os nossos olhos corporais, como que procurando vê-Lo corporalmente assentado no céu, como são Martinho O viu, ou em pé, como santo Estêvão? Não. Seguramente Ele não se mostrou a santo Estevão corporalmente no céu pela razão de que Ele queria nos dar o exemplo de elevarmos, na nossa obra espiritual, os nossos olhos corporais para o céu, procurando se nós O conseguriamos ver sentado lá, ou em pé como O viu santo Estêvão, ou deitado. Porque como está o Seu corpo no céu – sentado, em pé ou deitado – nenhum ser humano o sabe. E não é preciso saber mais nada, para além de que o Seu corpo está unido à alma, tudo um e sem partilha. O corpo e a alma, a saber a Sua humanidade, unida à Sua Divindade, igualmente tudo um e sem partilha. Que Ele esteja sentado, ou em pé, ou deitado, ninguém tem necessidade de o saber: mas que Ele está lá como Lhe agrada e no Seu corpo tanto quanto Lhe convém e como Ele o entende melhor.
  4. Porque se Ele se mostrou corporalmente deitado, em pé ou sentado, a qualquer criatura nesta vida, isso foi feito com um significado espiritual e não pela maneira corporal que Ele tem de estar no céu. Segue-se o exemplo: Por estar em pé, entende-se a prontidão na assistência. É assim que é dito vulgarmente a uma amigo, por um amigo, na batalha corporal: « Aguenta, amigo, combate firmemente e não abandones o combate demasiado facilmente, porque eu aguentarei de pé contigo.» O qual não quer dizer unicamente estar corporalmente em pé, visto que essa batalha pode ser a cavalo e não a pé, ou ainda em movimento e não fixa em pé. O que ele quer dizer, é que ele estará pronto a ajudá-lo. E é a razão porque nosso Senhor Se mostrou corporalmente em pé no céu a santo Estêvão, o qual era um mártir: por isso, e não para nos dar exemplo de olharmos para o alto em direção ao céu. Como se ele tivesse dito, na pessoa de santo Estêvão, a todos os que sofrem perseguições pelo Seu amor:
  5. «Olha, Estêvão! Tão realmente como eu abro este firmamento corporal, o qual é chamado céu, e que tu Me podes ver aqui em pé, igualmente realmente tem fé que eu estou em pé espiritualmente ao teu lado pelo poder da Minha Divindade. E Eu estou pronto para te ajudar; assim, aguenta tu firmemente na fé e sofre intrepidamente os golpes dessas duras pedras que te são atiradas: porque eu te coroarei na beatitude para tua recompensa; e não apenas tu, mas todos aqueles que sofrem perseguições por Mim de qualquer maneira.»
  6. E assim tu podes ver que essas aparições corporais são feitas com um único sentido e significado espiritual.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 57



Como tais jovens discípulos presunçosos compreendem mal e desprezam a expressão «para o alto», e das ilusões e erros que daí advêm.
  1. Nada mais sobre isto quanto ao presente, mas avancemos na nossa matéria: como esses jovens discípulos espirituais presunçosos desentendem essa outra expressão «para o alto».
  2. Porque se acontece que eles próprios leram, ou ouviram ler ou dizer que os seres humanos deveriam elevar os seus corações para Deus, imediatamente eis que eles elevam os olhos para as estrelas como se eles quisessem ir para além da lua, e que esticam as orelhas como se eles fossem ouvir um anjo do céu pôr-se a cantar. Esses seres humanos, na curiosidade da sua imaginação, vão em breve penetrar nos planetas e fazer um furo no firmamento, para o observar dessa forma. Eles vão fazer por eles próprios um Deus à conveniência deles, que eles vão vestir com ricas roupas e sentar sobre um trono também mais sumptuoso do que tudo o que alguma vez foi pintado sobre a terra. Eles vão imaginar os anjos com figura corporal, e fazer de cada um um menestrel com instrumentos mais estranhos e mais diversos do que tudo o que alguma vez foi visto ou ouvido aqui em baixo. E o diabo enganará e iludirá alguns muito maravilhosamente.
  3. Porque ele lhes enviará uma espécie de orvalho, alimento dos anjos pensarão eles, enquanto que ele descerá do céu e cairá suavemente e deliciosamente na boca deles; e é por isso que eles ganharam o hábito de ficarem sentados com a boca escancarada como se eles quisessem apanhar uma mosca. E isso, no entanto, tudo isso que não passa de uma ilusão não lhes parece ser senão mais santo; mas eles têm a alma perfeitamente vazia, durante esse tempo todo, de qualquer verdadeira devoção. Eles só têm vaidade e mentira no coração, por culpa do estranho trabalho da sua curiosidade.
  4. E ainda muito frequentemente o diabo lhes simulará sons insólitos nas suas orelhas, luzes e clarões maravilhosas nos seus olhos, requintados perfumes nos seus narizes: e tudo isso não passa de falsidade. Mas eles não crêem nisso (que seja falsidade) de maneira nenhuma, pensando encontrar o exemplo deles, para olharem assim para o alto e se aplicarem dessa forma, em são Martinho que viu Deus, por revelação, no meio dos Seus anjos, envolvido no seu manto, ou ainda de santo Estêvão, o qual viu nosso Senhor em pé no céu, e de tantos outros; e ainda de Cristo, o qual ascendeu em corpo ao céu, à vista dos Seus discípulos. Também dizem eles que nós devemos ter os olhos elevados assim lá do outro lado (no céu), para o alto.
  5. Eu admito e concedo bem que no comportamento do corpo, nós devêssemos levantar para o alto quer os olhos quer as mãos se nós somos chamados a isso em espírito. Mas eu afirmo que a obra do nosso espírito não tem de maneira nenhuma que ser dirigida para o alto ou para baixo, nem de um lado nem do outro, nem para diante nem para trás, como acontece quando se trata do corpo. Porquê? Porque a nossa obra deve ser espiritual e não corporal, nem corporalmente gerada.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 56



Da deceção daqueles que seguem mais a curiosidade do intelecto natural, e mais o ensinamento aprendido na escola dos seres humanos, do que a doutrina comum e o conselho da santa Igreja.
  1. Alguns no entanto, apesar de eles não serem enganados no erro que eu aqui coloquei, não abandonam menos a santa doutrina e o conselho da Igreja por curiosidade do espírito pela ordem natural e por erudição livresca e ciência orgulhosa. Esses e todos os seus sectários apoiam-se infinitamente demasiado sobre o seu próprio saber; e visto que eles nunca estão fundados sobre uma vida de virtude e sobre um sentimento de cega humildade, eles merecem por isso mesmo o manter neles um falso sentimento ilusório e concebido pelo inimigo espiritual. O que vai a tal ponto que no fim eles rebentam e blasfemam contra todos os santos, os sacramentos, os estatutos e as ordenações da santa Igreja. Humanos carnais que vivem no mundo, eles pensam que os estatutos da santa Igreja são demasiado duros para eles se emendarem neles, e ei-los muito rapidamente e muito facilmente que se juntam aos heréticos e os apoiam fervorosamente: e tudo isso porque eles pensam seguir com eles (os heréticos) uma via mais fácil do que aquela ordenada pela santa Igreja.
  2. Na verdade, aquele que não quer nada seguir a estreita via do Paraíso, ele seguirá a suave rampa do Inferno; eis o que eu penso. Cada ser humano fará a prova disso por si próprio; mas eu penso bem que todos os heréticos deste tipo e os seus sectários, se eles pudessem ser claramente vistos naquilo que eles serão no último dia, eles seriam vistos completamente oprimidos (como eles são) pelos grandes e horríveis pecados do mundo na horrível carne deles, secretamente, ao lado da pretensão aberta deles de manter o seu erro: de tal forma que eles serão apropriadamente chamados de discípulos do Anticristo. Porque está escrito acerca deles, que apesar de toda a sua pureza exterior, eles interiormente não são menos que uns completos e repugnantes debochados.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 55



Como estão na ilusão aqueles que, seguindo o ardor do seu espírito, julgam e condenam sem discrição qualquer outro.
  1. A certos seres humanos, o Inimigo os enganará desta maneira: Muito maravilhosamente eles inflamam o seu espírito a quererem o respeito e a manutenção da lei de Deus nos outros, e a destruição em todos os outros do pecado. Nunca ele (o Inimigo) os tentará, a esses, por uma coisa manifestamente má: ele (o Inimigo) os fará quererem-se tais como se fossem prelados cheios de zelo a vigiar todos os graus da vida cristã das suas ovelhas, ou como faz um abade com os seus monges. A todos os seres humanos, eles vão repreendê-los pelos seus defeitos e faltas, exatamente como se eles estivessem encarregues e tivessem vigilância das almas deles: e sempre eles pensam, assim fazendo, que eles não fariam nada por Deus, se eles não dissessem aos outros os defeitos deles. Eles afirmam que não são levados a isso senão pelo fogo da caridade e pelo amor de Deus que eles alimentam nos seus corações: e eles mentem, na verdade, porque é pelo fogo do inferno, que eles o fazem, o qual flameja nas suas almas e nas suas imaginações.
  2. Tal é a verdade segura, aparecendo como se segue. O diabo é um espírito, o qual não tem nenhum corpo por natureza, tal como um anjo. Mas não é menos verdade, no entanto, que cada vez que o diabo ou um anjo, com a permissão de Deus, tomar um corpo para qualquer mandamento a qualquer humano nesta vida, se harmoniza com a atividade e obra da qual ele é o ministro, que será esse corpo na sua qualidade, e à sua semelhança de qualquer maneira. Os exemplos, nós os temos nas Sagradas Escrituras. Porque cada vez que um anjo foi enviado em corpo, no Antigo Testamento como também no Novo, sempre ele apareceu mostrando, quer pelo seu nome, quer por qualquer acessório ou qualidade do seu corpo, qual era a matéria ou a mensagem da sua missão espiritual. Ora, acontece o mesmo para com o Inimigo. Porque quando ele aparece em corpo, ele representa corporalmente de qualquer maneira o que serão os seus servidores em espírito. Do qual exemplo se poderá tomar isto, mais que em todas as outras coisas, porque eu o sei de alguns discípulos da necromância, os quais têm na sua ciência a evocação dos maus espíritos, e também de alguns aos quais o diabo apareceu com a semelhança de corpo. É que sempre, e qualquer que seja a aparência do corpo na qual eles aparecem, o diabo apenas tem uma única narina, a qual é grande e escancarada; e ele nunca é tão feliz como quando a abre, afim de que o olhar do ser humano aí mergulhe e possa ver assim no cérebro dele, na cabeça dele. Esse cérebro não é nada mais que o fogo do inferno, porque o Inimigo não poderia ter outro cérebro; e se ele pode fazer um ser humano ver para lá, ele não pede mais nada do que isso. Porque o ser humano, perante essa visão, perderá os sentidos para sempre. Mas um perfeito praticante da necromância sabe isso bastante bem, e por conseguinte, ele toma as disposições que ele é capaz, para que o diabo não o incite a isso.
  3. E portanto isso é assim como eu digo, e tenho dito, que sempre quando o diabo toma um corpo, ele se harmoniza com qualquer qualidade desse corpo, aquilo que são os seus servidores em espírito. Porque ele inflama a tal ponto a imaginação dos seus contemplativos com o fogo do inferno, que esses muito subitamente abandonam toda a prudência e discrição das suas ideias e, sem outro aviso, eles tomarão sobre eles o julgar e o censurar dos outros sem olharem para os seus próprios defeitos: isto porque eles não têm eles próprios senão uma narina, espiritualmente falando. Porque essa divisão que existe no nariz corporal do ser humano, a qual separa uma narina da outra, significa que um ser humano deve guardar e ter discrição espiritual, e que ele pode distinguir o bom do mau, e o mau do pior, e o bom do melhor, antes de dar qualquer julgamento, do que quer que seja que ele veja ou oiça fazer ou dizer diante dele. E pelo cérebro humano é espiritualmente entendida a imaginação, porque por natureza ela habita e trabalha na cabeça.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 54



Como é que, pela virtude desta obra, um ser humano é governado na plena sabedoria. E ele se torna perfeitamente decente tanto de corpo como de alma.
  1. Quem quer que seja que esteja nesta obra, ele deverá nela ser tido e governado na perfeita decência, tanto no seu corpo como na sua alma; e por todos aqueles que o vêem, ele deverá por isso ser simpaticamente considerado. Se efetivamente o homem ou a mulher menos favorecidos nesse ponto de vista, se eles viessem para esta vida para trabalharem nesta obra, a consideração por eles muito subitamente e graciosamente se encontraria mudada, de tal forma que todos os seres humanos de bem, encontrando-os, se sentiriam felizes e alegres com a companhia deles, e mais, considerariam com a presença desses que eles eram ajudados e assistidos pela graça para se voltarem para Deus.
  2. E é por isso que esse dom é obtido por aquele que pode, pela graça, tê-lo: porque quem quer que o possui autenticamente e que o tem na verdade, esse saberá e poderá governar-se e conduzir-se pela virtude aí associada, e não apenas para si próprio mas também para tudo o que depende dele. Nenhuma natureza, e nenhuma disposição, escapará à sua prudência. E muito bem saberá ele fazer-se semelhante aos seus semelhantes, quer estes sejam pecadores inveterados ou não, sem ter nele próprio nenhum pecado; e todos os que o virem ficarão espantados, e, com a assistência da graça, ele levará outros a trabalharem e a operarem no próprio espírito em que ele próprio opera.
  3. As palavras dele e os encorajamentos dele ficarão impregnados de sabedoria espiritual, e pronunciados com fogo e com fruto numa sóbria firmeza e numa muito suave segurança, sem nenhuma das afetações e dos empoamentos dos hipócritas. Porque há os que, com todas as suas forças interiores e exteriores, empalham os seus discursos, imaginam que se preservam de todo o tipo de quedas por intermédio das numerosas palavras humildemente empoadas e dos gestos de aparente devoção: os quais se preocupam mais em parecerem santos aos olhos dos seres humanos do que de o serem efetivamente aos olhos de Deus e dos Seus anjos. Porque essas gentes, elas afetam-se muito mais e atribuem uma importância muito maior a um certo gesto ou palavra que choca e que parece incongruente aos humanos, do que a mil vãos pensamentos e fedorentas intenções de pecado que elas aceitam ter nelas e que elas suportam com indiferença ao exibirem-nas à vista de Deus, dos santos e dos anjos do céu. Ah! Senhor Deus! é realmente onde se encontra interiormente o orgulho, que se encontram exteriormente em igual abundância as palavras humildes e empoadas! Mas o que assenta e convém, eu te asseguro, àqueles que são humildes por dentro, é que a humildade e a decência dos gesto e das palavra, por fora, estejam de acordo com a humildade que eles têm no fundo do coração, – e eles não têm necessidade de que ela se exprima em vozes quebradas ou empoadas, contra as disposições da natureza e do caráter que eles têm. Porque, se eles são verdadeiros, eles falam com toda a firmeza e a amplitude da voz e do espírito que estão neles. E quem possui, por natureza, uma voz grossa e brutalmente brilhante, se ele fala por cochichos e por empoamentos – a menos que, evidentemente, ele esteja doente, ou de outra forma que seja entre ele e o seu Deus, ou entre ele e o seu confessor – então ele dá aí um verdadeiro sinal de hipocrisia. E eu entendo bem aqui a hipocrisia idosa, assim como a hipocrisia jovem.
  4. O que direi eu mais, sobre essas ilusões e enganos venenosos e envenenados? Eu creio e penso verdadeiramente que por falta, com a (ajuda da) graça (de Deus), de abandonar e de deixar esses cochichares e esses empoamentos hipócritas, que são secretamente enterrados no íntimo do coração, no meio do orgulho de toda a humildade exterior das palavras, a alma perdida arrisca e vai muito em breve soçobrar na aflição e no desespero.


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Nuvem de Desconhecimento – Capítulo 53



De diversas práticas incongruentes que seguem aqueles que abandonam a obra que diz este livro.
  1. Numerosas e surpreendentes práticas, seguem aqueles que estão na ilusão dessa falsa obra ou qualquer contrafação da mesma, quando estas estão bem afastadas daquilo que fazem aqueles que são verdadeiros discípulos de Deus: porque estes nunca excedem a decência nas suas práticas, tanto corporais quanto espirituais. Mas não se passa o mesmo com aqueles outros. Quem quisesse ou pudesse observá-los, tais e onde eles estão neste momento, supondo que eles tivessem as pálpebras abertas, esse os veria com os olhos fixos como loucos e o olhar em bico como se eles vissem o diabo. E certo, é bom que eles se acautelem, porque o inimigo não está longe, verdadeiramente. Alguns cavilham os seus olhos para dentro da cabeça quais carneiros em vertigem a quem bateram na cabeça, e como se eles fossem morrer na hora. Outros inclinam a cabeça para o lado como se eles tivessem um verme na orelha. Outros gorgolejam e assobiam da goela quando eles deveriam falar, como se eles não tivessem mais fôlego no corpo: e é esse propriamente o estado de um hipócrita. Outros vociferam e gemem a plena voz, tão ávidos eles estão, e cheios de pressa para dizerem aquilo que eles pensam: e é esse o estado dos heréticos, nos quais e noutros semelhantes a presunção e a curiosidade mantêm sempre o erro que eles sustentam igualmente.
  2. Inúmeras práticas desordenadas e incongruentes resultam desse erro, para quem as pudesse observar a todas. No entanto, há (práticas) tão estranhas, que eles chegam a escondê-las em grande parte diante dos outros. Mas se esses seres humanos pudessem ser vistos tais quais eles são em privado, então, certamente, elas (as práticas) não ficariam nada escondidas; como também não, eu creio, elas (as práticas) não permaneceriam (escondidas) para aquele que se pusesse imediatamente a contradizer a opinião deles, a qual (opinião), rapidamente, poderia vê-los aparecer e rebentar em qualquer ponto (por ser uma opinião incongruente). O que não impede que eles não pensem menos que tudo aquilo que eles fazem, é pelo amor de Deus e a manutenção da verdade. Ora, na verdade, eu creio com fé que se Deus não realiza um milagre com a Sua misericórdia, afim de os fazer cessar bem rapidamente, a tanto amar Deus dessa maneira, eles acabarão diretamente, e assombrados, no diabo.
  3. Não é que eu diga que o diabo tenha tão perfeitos servidores nesta vida, que ele os possa enganar e iludir e infetar com todas essas coisas imaginárias aqui descritas, não; apesar de haver mais de um, ai! que esteja infetado com elas todas; mas eu digo que não há sobre a terra um perfeito hipócrita, nem um herético completo, que não seja culpado de qualquer coisa daquelas que eu declarei, ou talvez eu vou declarar se Deus o permitir.
  4. Porque certos seres humanos são afligidos, no seu comportamento corporal, por hábitos tão belamente estranhos que, para escutar, eles lançam a sua cabeça fantasticamente de lado e avançam o queixo, a boca toda escancarada como se eles ouvissem pela boca e não pelas orelhas. Outros, para falar, apontam com o dedo ou sobre os seus dedos, ou sobre o seu próprio peito ou sobre o daquele com quem eles falam. Outros são incapazes de se manterem sentados tranquilamente, ou tranquilamente em pé, ou tranquilamente deitados, sem mexer com os pés ou qualquer coisa nas mãos. Outros remam com os braços para falar, como se eles tivessem que atravessar a nado uma grande extensão de água. Outros estão sempre ali a sorrir e a rir com cada nova palavra que eles dizem, como se eles fosses daquelas raparigas que dão risadinhas ou bufões de feira atacados de riso incontrolável. Uma alegria decente lhes ficaria muito bem, com um comportamento sóbrio e modesto do corpo na sua manutenção feliz.
  5. Eu não digo de forma nenhuma que todas essas práticas incongruentes sejam nelas próprias grande pecados. Mas eu digo que se essas incongruentes e desordenadas formas se tornam senhoras de quem as tem, e que eles não se possam desfazer delas no momento em que eles querem, então eu digo que elas são sinal de orgulho, de espírito de curiosidade e de excesso de impaciência e ambição de saber. E particularmente são elas sinais verdadeiros da instabilidade do coração e da inquietude do espírito; e muito particularmente pela falta e o abandono da obra que diz este livro.
  6. Tal é também a única razão porquê eu me estendi tanto sobre essas ilusões e erros, aqui, neste escrito; é porque o operário espiritual será reconhecido por elas, e meterá a sua obra à prova.


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