Mestre Eckhart – Jovem, digo-te: Levanta-te!



  1. Há na alma «qualquer coisa» onde Deus vive, e onde a alma vive em Deus
  2. Onde terminam o conhecimento e o desejo, são as trevas, e lá brilha Deus
  3. A minha alma é tão jovem quanto quando ela foi criada
  4. A alma tem duas potências que não têm nada a ver com o corpo: o intelecto e a vontade
  5. O ser humano devia aderir tão fielmente a Deus que nada o pudesse rejubilar ou entristecer
  6. Deus quer Ele próprio operar essa obra, a pessoa só tem que seguir e não resistir



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Mestre Eckhart – Jovem, digo-te: Levanta-te! 1


Sermão 42 - Jovem, digo-te: Levanta-te!
  1. Lê-se no evangelho que o senhor São Lucas fala de um jovem que estava morto. Então Nosso Senhor passou, aproximou-se, teve pena dele, tocou-o e disse: «Jovem, digo-te e ordeno-te: Levanta-te!» (Lc 7, 12).
  2. Ora saibam: em todas as pessoa boas, Deus está totalmente, e há na alma qualquer coisa onde Deus vive; há uma «qualquer coisa» na alma onde a alma vive em Deus.
  3. Mas quando a alma se volta para as coisas exteriores, ela morre, e Deus morre também para a alma; Ele não morre no entanto n'Ele próprio, e Ele vive n'Ele próprio.
  4. Quando a alma se separa do corpo, o corpo fica morto mas a alma vive; também, Deus morre para a alma, mas vive para Ele próprio.
  5. Ora saibam: há na alma uma potência mais vasta que o céu que é inacreditavelmente vasto, tão vasto que não pode verdadeiramente ser expresso, mas essa própria potência é ainda mais vasta. 1

Notas
  1. Desde as primeiras linhas do sermão, é questão de «qualquer coisa» na alma onde Deus vive e onde a alma vive em Deus.

    Esse é um dos numerosos nomes da «pequena centelha».

    Depois de nos ter dito, em referência ao texto inicial, que a alma morre para Deus e que Deus morre para a alma quando ela se volta para as coisas exteriores, Eckhart regressa a essa «qualquer coisa» e chama-lhe desta vez «uma potência mais vasta que o céu». [  ]


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Mestre Eckhart – Jovem, digo-te: Levanta-te! 2


  1. Pois bem! apliquem nisto a vossa atenção!
  2. Nessa nobre potência, o Pai celeste diz ao seu Filho único: «Jovem, levanta-te!»
  3. A união de Deus à alma é tão grande que é incrível, e Deus é tão elevado n'Ele próprio que nenhum conhecimento, nem nenhum desejo, podem chegar até lá.
  4. O desejo vai mais longe do que tudo o que se pode abarcar com o conhecimento.
  5. É mais vasto que todos os céus, mesmo que todos os anjos, e no entanto tudo o que existe sobre a terra vive graças a uma centelha do anjo.
  6. O desejo é vasto, imensamente vasto. No entanto, tudo o que pode abarcar o conhecimento, e tudo o que pode desejar o desejo, não é Deus.
  7. Lá onde terminam o conhecimento e o desejo, são as trevas, e lá brilha Deus. 1

Notas
  1. Essa nobre potência é por onde Deus comunica com o ser humano, e se comunica ao ser humano.

    Através dela, Ele fala à alma chamada aqui o «Filho único».

    Assim a união entre Deus e a alma revive: «Jovem: levanta-te!»

    Essa união é tão grande que o conhecimento e o desejo não são suficientes para a restabelecer. [  ]


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Mestre Eckhart – Jovem, digo-te: Levanta-te! 3


  1. Ora Nosso Senhor diz: «Jovem, digo-te, levanta-te!»
  2. Pois bem! para que eu me aperceba em mim do «dizer» de Deus, é preciso que eu seja completamente estrangeiro a tudo o que é meu, assim como me é estrangeiro aquilo que está do outro lado do mar, mas particularmente o que está no tempo.
  3. Nela própria, a alma é tão jovem como quando ela foi criada, e a velhice que lhe aparece é devida ao corpo pelo qual ela move os sentidos.
  4. Um mestre diz: «Se uma pessoa velha tivesse os olhos de um jovem, ela veria tão bem como o jovem.»
  5. Eu estive ontem num lugar onde pronunciei uma frase que parece verdadeiramente incrível; eu digo: Jerusalém está tão próxima da minha alma quanto o lugar onde eu estou agora.
  6. Sim, em toda a verdade, o que está a mais de mil léguas mais distante do que Jerusalém está tão próximo da minha alma quanto o meu próprio corpo; eu estou tão certo disso como estou certo de ser um homem, e é fácil de compreender pelos clérigos intuídos.
  7. Saibam: a minha alma é tão jovem quanto quando ela foi criada, sim, e ainda bastante mais jovem!
  8. E saibam: eu não ficarei surpreendido que ela seja amanhã ainda mais jovem que hoje! 1

Notas
  1. Para que a palavra divina seja apercebida pela alma, é preciso que esta se torne completamente estrangeira a tudo o que lhe pertence no espaço e no tempo, e que ela fique tão jovem quanto ela era quando foi criada.

    «E saibam: eu não ficarei surpreendido que ela seja amanhã ainda mais jovem que hoje!» Porque só o corpo envelhece. [  ]


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Mestre Eckhart – Jovem, digo-te: Levanta-te! 5


  1. Existe na alma uma potência pela qual todas as coisas são igualmente deleitosas: sim, a pior e a melhor são para essa potência absolutamente iguais, ela apreende todas as coisas acima de «aqui» e de «agora».
  2. «Agora» é o tempo, «aqui» é o lugar - o lugar onde eu me encontro agora.
  3. Se portanto eu tivesse saído de mim próprio e absolutamente desprendido, pois bem! o Pai geraria o seu Filho único no meu espírito tão puramente quanto o espírito o geraria por sua vez.
  4. Sim, em toda a verdade, se a minha alma estivesse tão pronta como a alma de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai operaria tão puramente em mim quanto no seu Filho único e não menos, porque Ele me ama com o mesmo amor com o qual Ele se ama a Ele próprio.
  5. São João diz: «No princípio estava o Verbo, e o Verbo estava ao pé de Deus e Deus era o Verbo.»
  6. Pois bem! aquele que quer compreender esta frase no Pai - onde reina um grande silêncio - esse deve ser muito silencioso e desprendido de todas as imagens e mesmo de todas as formas.
  7. O ser humano devia aderir tão fielmente a Deus que em todas as coisas nada o pudesse rejubilar ou entristecer.
  8. Ele deve tomar todas as coisas em Deus, tal como elas são lá. 1

Notas
  1. Eckhart retoma agora a noção que lhe é tão cara do «qualquer coisa» na alma, à qual ele precedentemente deu e dá de novo o nome de «potência», considerando aliás que esse nome não lhe convém mais que qualquer outro. [  ]


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Mestre Eckhart – Jovem, digo-te: Levanta-te! 4


  1. A alma tem duas potências que não têm nada a ver com o corpo: o intelecto e a vontade; elas operam acima do tempo.
  2. Ah! se os olhos da alma estivessem portanto abertos para que o conhecimento contemple claramente a verdade!
  3. Saibam: para uma tal pessoa, seria tão fácil deixar todas as coisas como uma ervilha, ou uma lentilha, ou um pequeno nada.
  4. Sim, pela minha alma, todas as coisas seriam para essa pessoa tanto quanto nada.
  5. Ora, certas gentes deixam todas as coisas por amor, elas consideram que são coisas muito grandes aquelas que elas deixaram.
  6. Mas aquele que reconhece que na verdade, mesmo ter renunciado a si próprio e a todas as coisas não é ainda absolutamente nada, pois bem! àquele que vive assim, todas as coisas pertencem na verdade. 1

Notas
  1. Eckhart fala agora de «duas potências da alma»: o intelecto e a vontade.

    O emprego no mesmo sermão da palavra «potência», por um lado para a «qualquer coisa» na alma, por outro lado para o intelecto e a vontade designadas habitualmente por esse mesmo termo, não deve desorientar o leitor: a ambiguidade no vocabulário não traduz uma flutuação no pensamento, Eckhart não cessa de recordar a diferença entre essas realidades: o «fundo» da alma e as suas faculdades.

    O intelecto e a vontade são igualmente independentes do tempo «e não têm absolutamente nada a ver com o corpo».

    Se os olhos da alma estivessem abertos e contemplassem a verdade, todas as coisas seriam iguais e o desprendimento seria fácil.

    Não teria aliás valor como se a pessoa que deixou tudo, incluindo ela própria, considerasse que não tivesse deixado nada.

    Todas as coisas então lhe pertenceriam. [  ]


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Mestre Eckhart – Jovem, digo-te: Levanta-te! 6


  1. Ora ele diz: «Jovem, eu digo-te, levanta-te!»
  2. Ele quer Ele próprio operar a obra.
  3. Aquele que me ordenasse para levar uma única pedra poderia bem me ordenar para levar mil pedras, em vez de uma só, se ele se quisesse encarregar disso ele próprio.
  4. Ou se alguém me ordenasse para levar um quintal, ele poderia ordenar-me que levasse mil, tanto quanto um, se ele o quisesse fazer ele próprio.
  5. Pois bem! Deus quer Ele próprio operar essa obra, a pessoa só tem que seguir e não resistir.
  6. Ah! e se a alma apenas vivesse dentro, ela teria presentes todas as coisas.
  7. Existe uma potência na alma, e não apenas uma potência, um ser, e não apenas um ser, mas que separa do ser; é tão puro, e tão elevado, e tão nobre em si próprio que nenhuma criatura aí pode penetrar, mas Deus apenas aí reside.
  8. Sim, em toda a verdade, Deus ele próprio não pode aí penetrar devido a que ele tem um modo, nem devido a que ele é sábio, nem devido a que ele é bom, nem devido a que ele é rico.
  9. Sim, Deus não pode aí penetrar com nenhum modo, Deus só pode aí penetrar com a nudez da sua natureza divina.
  10. Pois bem! notem que ele diz: «Jovem, digo-te, levanta-te!»
  11. E o que é o «dizer» de Deus? É a obra de Deus, e a obra é tão nobre e tão elevada que só Deus a opera.
  12. Ora saibam: toda a nossa perfeição e toda a nossa beatitude, é que o ser humano faça a penetração, e ultrapasse todo o criado, e toda a temporalidade, e todo o ser, e penetre no fundo que não tem fundo. 1
  13. Nós pedimos ao nosso caro Senhor Deus para nos tornarmos um, e para residir no interior, e que Deus nos ajude a chegar a esse mesmo fundo. Amém. 2

Notas
  1. «Existe uma potência na alma, e não apenas uma potência, um ser, e não apenas um ser, mas que separa do ser...» «Se portanto eu tivesse saído de mim próprio e absolutamente liberto, o Pai geraria o seu Filho único no meu espírito tão puramente quanto o espírito o geraria por sua vez.»

    A essa «qualquer coisa», a essa «potência», nenhuma criatura tem acesso. Só Deus aí penetra, e não na medida em que ele é sábio, ou bom, ou rico.

    Nós reencontramos o que Mestre Eckhart tinha dito no sermão 2 sobre «o castelo da alma» com a mesma intensidade, a saber que o fundo da alma fica em repouso enquanto que Deus se comunica e que o ser humano que regressa ao seu próprio fundo só descobre um «fundo sem fundo»: o abismo onde se joga a identidade entre o ser humano e Deus.

    Esta comunicação é chamada aqui o «dizer» de Deus.

    O que é o «dizer» de Deus? É a obra de Deus, e a obra é tão nobre e tão elevada que apenas Deus a opera.

    «Ora sabe: toda a nossa perfeição e toda a nossa beatitude, é que o ser humano faça a penetração, e ultrapasse todo o criado, e toda a temporalidade, e todo o ser, e penetre no fundo que não tem fundo.» [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 75-79. [  ]


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Mestre Eckhart – Deus ama aqueles que perseguem a justiça 1


Sermão 41 - Deus ama aqueles que perseguem a justiça
  1. Tomei uma frase pequena da epístola que se lê hoje sobre dois santos, assim como uma frase do Evangelho.
  2. O rei Salomão diz hoje na epístola: «Deus ama aqueles que perseguem a justiça» (Pr 15, 9).
  3. O senhor São Mateus pronuncia uma outra frase: «Felizes os pobres e aqueles que têm fome e sede de justiça» e «que perseguem» (Mt 5, 6). 1

Notas
  1. Os dois textos escolhidos para este longo sermão são retirados um da epístola, o outro do evangelho para a festa de São Cosme e Damião, mártires, inscritos no antigo missal dominicano na data de 27 de Setembro.

    A palavra «justiça» que se encontra num e no outro, será um dos temas do desenvolvimento.

    Ela será colocada em relação primeiro com Deus como sabedoria e como amor, depois com o «sem porquê» tão caro a Eckhart. [  ]


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Mestre Eckhart – Deus ama aqueles que perseguem a justiça 2


  1. Notem esta frase: «Deus ama.»
  2. Seria para mim um grande favor, e um muito grande, se, como eu disse frequentemente, nós quiséssemos desejar que Deus me ame.
  3. O que é que Deus ama?
  4. Deus só se ama a si próprio, assim como a tudo aquilo que se assemelha a Ele, desde que Ele o encontre em mim, e eu n'Ele.
  5. No Livro da Sabedoria está escrito: «Deus só ama aquele que está estabelecido na Sabedoria.»
  6. A Escritura contém também uma outra frase ainda melhor: «Deus ama aqueles que perseguem a justiça», «na Sabedoria».
  7. Os mestres estão todos de acordo: A Sabedoria de Deus é o seu Filho único.
  8. Este texto diz: «aqueles que perseguem a justiça», «na Sabedoria», quer dizer aqueles que o perseguem, a Ele, Ele os ama, porque Ele não ama nada em nós a não ser aquilo que de nós se encontra n'Ele.
  9. Existe uma grande diferença entre o amor de Deus e o nosso amor.
  10. Nós amamos apenas na medida em que nós encontramos Deus naquilo que nós amamos.
  11. E mesmo se eu tivesse jurado o contrário, eu não poderia amar nada a não ser a Bondade.
  12. Mas Deus ama-se apenas a Ele próprio na medida em que Ele é bom - Ele não encontra portanto no ser humano outra coisa para amar a não ser a sua própria bondade.
  13. A nós, Ele ama-nos na medida em que nós estamos n'Ele e no seu amor.
  14. Isso é um dom: o que nos vale o seu amor, é que nós estejamos n'Ele e «estabelecidos na Sabedoria». 1

Notas
  1. «Deus ama aqueles que perseguem a justiça», «na Sabedoria».

    Ora, segundo todos «os mestres», a Sabedoria de Deus é o seu Filho único.

    Deus ama-nos portanto na medida em que nós estamos estabelecidos em Jesus Cristo. [  ]


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Mestre Eckhart – Deus ama aqueles que perseguem a justiça 3


  1. São Paulo diz: «Nós somos transferidos no amor.»
  2. Notemos esta frase: «Deus ama». Que maravilha!
  3. O que é o amor de Deus?
  4. A sua natureza e o seu ser: tal é o seu amor.
  5. Aquele que privasse Deus de nos amar, privá-lo-ia do seu ser e da sua Divindade.
  6. O seu ser depende de que Ele me ame, e é assim que emana o Espírito Santo. Benção divina! Que maravilha está aqui!
  7. Se Deus me ama com toda a sua natureza - visto que ela depende disso -, Deus ama-me tal como se o seu devir e o seu ser estivesse ligados a isso.
  8. Deus só tem um amor: com o mesmo amor que o Pai ama o seu Filho único, ele me ama a mim. 1

Notas
  1. Segue-se um texto que parece ser de uma grande aridez, insere-se no entanto não apenas na doutrina eckhartiana, mas também na fé revelada.

    Se portanto, por um suposição insólita, Deus fosse privado de nos amar, Ele seria privado do seu ser e da sua Divindade.

    «O que é o amor de Deus? A sua natureza e o seu ser: tal é o seu amor.» O pregador completará mais adiante o seu pensamento: «Deus só tem um amor.» O que o enche de maravilha.

    Já antes ele tinha dito no sermão 10, Agradou a Deus nesses dias, exagerando mais os termos do paradoxo: «... no amor em que Deus se ama a Ele próprio, nesse amor Ele me ama a mim, e a alma ama Deus nesse mesmo amor no qual Ele se ama a Ele próprio; se esse amor não fosse, aquele no qual Deus ama a alma, não haveria o Espírito Santo.» [  ]


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Mestre Eckhart – Deus ama aqueles que perseguem a justiça 4


  1. Agora, um outro sentido.
  2. Prestem bem atenção a esta interpretação.
  3. Ela está completamente de acordo com a Escritura, se estivermos prontos para a abrir, para a desselar.
  4. É dito: «que perseguem a justiça», «na Sabedoria».
  5. O ser humano justo tem de tal forma necessidade de justiça que não pode amar nada mais que a justiça.
  6. Como eu disse frequentemente: se Deus não fosse justo, ele não prestaria atenção a Deus.
  7. A sabedoria e a justiça fazem um com Deus, e lá, amar a sabedoria e amar a justiça, são a mesma coisa, e se o diabo fosse justo, ele a amaria na medida em que ele fosse justo, e nem mais a espessura de um cabelo.
  8. O ser humano justo não ama em Deus nem isto nem aquilo, e se Deus lhe desse toda a sua sabedoria e tudo aquilo que Ele lhe pode oferecer, exceto a Ele próprio, ele não prestaria atenção a essas coisas, e não encontraria nelas sabor, porque ele não quer nada e não procura nada, porque tudo aquilo que ele faz ele age «sem porquê», da mesma forma que Deus age «sem porquê» e não tem «porquê».
  9. Deus e o justo têm a mesma forma de agir: «sem porquê», e da mesma forma que a vida vive por ela própria e não procura porque é que ela vive, é também «sem porquê» que o justo faz alguma coisa. 1

Notas
  1. «O ser humano justo não quer nada e não procura nada», é «sem porquê» que ele faz alguma coisa, da mesma forma que Deus age «sem porquê» e não tem «porquê».

    O ser humano deve realizar todos os seus atos no mais perfeito desinteresse, Eckhart não cessa de nos repetir com variadas imagens.

    No sermão 4, O melhor dom de Deus, ele comparou aquele que procura qualquer coisa ao mesmo tempo que Deus à pessoa que pega numa candeia para encontrar um objeto perdido, e quando encontra aquilo que procurava, deixa a candeia.

    Ele trata de «servos» e de «mercenários» aqueles que agem com vista a qualquer «porquê» (39, O justo vive na eternidade) e neste sermão vai mais longe ainda comparando-os a Judas.

    Eckhart desenvolveu muito particularmente este pensamento no sermão 26, Mulher, vem a hora. Todas as coisas que estão no tempo têm um «porquê».

    Não se passa o mesmo com as coisas espirituais: «Poderia dizer-se a uma pessoa boa: "- Porque procuras Deus? - Porque Ele é Deus! - Porque procuras a verdade? - Porque ela é a verdade!"»

    O segundo ato de acusação de Colónia reteve esta asserção (artigo 31). Mestre Eckhart respondeu com aquela altivez que ele adota geralmente com respeito aos seus juizes ignorantes: «É preciso dizer que, como inúmeras outras coisas, ela parece absurda às gentes limitadas (tardioribus); é no entanto uma verdade manifesta que a obra divina não é perfeita se o ser humano não a completa a partir do próprio Deus».

    Os juizes de Colónia não devem ter lido o sermão que nos ocupa aqui, onde a proposição se agravou ainda mais: não apenas é o ser humano que deve viver «sem porquê», «da mesma forma que Deus age "sem porquê" e não tem "porquê"».

    Este último membro da frase está perfeitamente correto: Deus não tem «porquê», Ele é porque Ele é.

    Não se passa o mesmo com aquilo que precede: Deus age «sem porquê». A teologia clássica admite perfeitamente que se coloquem estas questões: «Porque é que Deus criou o ser humano? Porque é que Deus se incarnou?» Mas ela responde que Deus o faz com um porquê: com vista à sua própria glória e afim de salvar os seres humanos.

    O budista zen Shizuteru Ueda estudou profundamente Mestre Eckhart, mostrando claramente o que separa este cristão do budismo:

    «Fieis ao pensamento de Mestre Eckhart nós devemos portanto dizer: Porque é que Deus se fez homem? - Sem porquê. Sem porquê, não é uma resposta a bem dizer. Aquele que replica sem porquê nega a própria questão colocada. Sem porquê, esta réplica não entra mais no esquema claro e distinto onde se procuram intenções e significados. "Porque é que Deus se fez homem? Sem porquê." Nada é explicado. Mas qualquer coisa se manifesta. Deus mostra-se Ele próprio no seu ser que não tem porquê. O interrogador encontra-se arrancado de qualquer posição de onde ele pudesse ainda pedir razões a Deus. O ser humano é arrancado do posto crítico onde ele pede contas a Deus pela sua ação no mundo, pelo seu ser, pela sua Incarnação. O ser humano é assim introduzido imediatamente no sem porquê, quer dizer em Deus.» (LVS, 1-71, p. 36-37).

    Apesar do seu conselho, Mestre Eckhart colocou a si próprio esta mesma questão: «Porque é que Deus se fez homem?» Ora ele respondeu não segundo a teologia tradicional, mas assim: «...Ele fez-se homem afim de te poder gerar como seu Filho único e não menos» (30, Prega a palavra). Isto é uma contradição com o «sem porquê» que ele preconiza.

    Eckhart disse-nos bastantes vezes que Deus obedece a uma necessidade da sua natureza ao amar-nos, Ele está «constrangido» a amar-nos. Ora a sua natureza é amor: «Todos os mandamentos de Deus vêm da bondade da sua natureza... Quem permanece na bondade da sua natureza permanece no amor de Deus e o amor não tem porquê» (28, Eu vos elegi). [  ]


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Mestre Eckhart – Deus ama aqueles que perseguem a justiça 5


  1. Ora notem esta pequena frase que ele pronuncia: «Eles têm fome e sede da justiça.»
  2. O Senhor diz: «Aqueles que me comerem terão ainda mais fome, aqueles que me beberem terão ainda mais sede.»
  3. Como devemos compreender isto?
  4. Porque não é assim para as coisas corporais: quanto mais comemos, mais ficamos saciados, mas nas coisas espirituais, não há saciedade: quanto mais possuímos, mais temos desejo.
  5. Daí esta frase: «Eles ficarão ainda mais sedentos, aqueles que me bebem, mais esfomeados, aqueles que me comem.»
  6. Esses, têm de tal forma fome da vontade de Deus, e ela tem para eles um tal sabor, que tudo o que Deus lhes impões lhes é tão agradável, e os satisfaz tanto, que eles não poderiam querer nem desejar outra coisa.
  7. Enquanto o ser humano tem fome, as comidas têm gosto para ele, e quanto maior é a sua fome, mais ele tem satisfação no comer.
  8. É assim para aqueles que têm fome da vontade de Deus; a sua vontade tem um tal sabor para eles, e tudo o que Deus quer, e que Ele lhes impõe, agrada-lhes tanto que mesmo que Deus os quisesse poupar, eles não queriam ser poupados, tanto lhes agrada essa vontade primeira de Deus.
  9. Se eu quisesse ser amado por alguém, e se eu quisesse agradar apenas a essa pessoa, tudo o que lhe fosse agradável, e pelo qual eu lhe agradasse, seria para mim preferível a qualquer outra coisa.
  10. E se eu lhe agradasse numa roupa andrajosa em vez de veludo, não há qualquer dúvida que eu vestiria a roupa andrajosa de preferência a qualquer outra roupa.
  11. Passa-se o mesmo com aquele a quem agrada a vontade de Deus: Tudo aquilo que Deus lhe envia, quer seja doença ou pobreza, ou o que quer que seja, ele prefere-o a qualquer outra coisa.
  12. Porque Deus o quer, ele encontra aí mais sabor que em qualquer outra coisa. 1

Notas
  1. O pregador assimila o amor da justiça ao amor pela vontade de Deus.

    Desde as Instruções Espirituais às suas noviças de Erfurt, como no Livro da Consolação Divina e em tantos sermões, ele introduz o que pode trazer confiança espiritual e consolação prática.

    Para aqueles que têm verdadeiramente fome e sede da vontade divina, ela tem um tal sabor que tudo aquilo que Deus quer, e que Ele lhes impõe, lhes agrada, e se Deus os quisesse poupar, eles não queriam ser poupados.

    Nós encontramos aqui uma comparação sobre rouparia bastante rara em Eckhart: «Se eu quisesse ser amado por alguém, e se eu quisesse agradar apenas a essa pessoa..., se eu lhe agradasse numa roupa andrajosa em vez de veludo, não há qualquer dúvida que eu vestiria a roupa andrajosa de preferência a qualquer outra roupa.» [  ]


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Mestre Eckhart – Deus ama aqueles que perseguem a justiça 6


  1. Ora vocês queriam dizer: «Como é que eu posso saber se é a vontade de Deus?»
  2. Eu digo: se um único instante não fosse a vontade de Deus, isso não seria; é preciso que seja sempre a sua vontade.
  3. Se portanto a vontade de Deus te conviesse, tu serias absolutamente como no reino dos céus, o que quer que te aconteça ou não te aconteça; e está bem feito para aqueles que desejam outra coisa que não seja a vontade de Deus, porque eles estão sem cessar nos gemidos e na infelicidade, fazem-lhes constantemente violência e mal, e eles sofrem sem descanso.
  4. E é muito conveniente que seja assim, porque eles fazem exatamente como se eles vendessem Deus, assim como Judas o vendeu.
  5. Eles amam Deus por qualquer outra coisa que Deus não é.
  6. E se então eles obtêm aquilo que eles amam, eles não se preocupam mais com Deus.
  7. Quer seja devoção, ou alegria, ou o que quer que seja que te agrada, nada de tudo o que é criado é Deus.
  8. A Escritura diz: «O mundo é feito por Ele, e aquilo que Ele fez não o reconheceu.»
  9. Aquele que imaginasse que aquele que tem mil mundos acrescentados a Deus, tem tão pouco que seja a mais de Deus, não conheceria Deus, e absolutamente não saberia o que é Deus, e seria um rústico.
  10. É por isso que o ser humano não deve prestar atenção a nada ao mesmo tempo que a Deus.
  11. Como eu disse frequentemente, aquele que procura qualquer coisa mais que Deus não sabe o que procura. 1

Notas
  1. O ouvinte-interlocutor pergunta: «Como é que eu posso saber se é a vontade de Deus?»

    Mestre Eckhart responde de forma pouco habitual: «Eu digo: e se não fosse a vontade divina, isso não seria.»

    Não existem para ele nem contingências, nem acaso, nem fatalidade, tudo, absolutamente tudo, vem de Deus, e é assim que o ser humano justo o deve considerar. [  ]


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Mestre Eckhart – Deus ama aqueles que perseguem a justiça 7


  1. Eis como o Filho nasce em nós: quando nós estamos «sem porquê», e quando nós somos em retorno gerados no Filho.
  2. Orígenes escreve uma frase muito nobre, e se fosse eu que a pronunciasse, ela vos pareceria incrível: «Não somente nós somos gerados no Filho, mas nós nascemos a partir d'Ele, e nós nascemos de regresso a Ele, nós renascemos, e isto diretamente no Filho. Eu digo - e é verdade - em cada pensamento bom, ou intenção boa, ou obra boa, nós nascemos constantemente de novo em Deus».
  3. É por isso que, como eu disse recentemente: o Pai só tem um Filho único, e quanto menos nós temos pensamento ou atenção para o que quer que seja para além de Deus, e menos nós olhamos para o exterior, tanto mais nós somos transformados no Filho, tanto mais o Filho nasce em nós, e nós nascemos no Filho, e nós somos um único Filho.
  4. Nosso Senhor Jesus Cristo é um Filho único do Pai, e só Ele é homem e Deus.
  5. Só há portanto um Filho em um ser, e é o ser divino.
  6. Assim nós nos tornamos um n'Ele se nós não tivermos outro pensamento que não seja Ele.
  7. Deus quer sempre estar sozinho, é uma verdade necessária, e não pode ser de outra maneira, é preciso sempre que se dê toda a atenção a Deus apenas. 1

Notas
  1. É por esta adesão total a Deus que o Filho nasce em nós, em cada pensamento, em cada ato, em cada intenção boa, nós somos constantemente gerados e de novo nascidos no Filho. «Assim nós nos tornamos um n'Ele se nós não tivermos outro pensamento que não seja Ele.» [  ]


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Mestre Eckhart – Deus ama aqueles que perseguem a justiça 8


  1. Deus certamente distribuiu satisfação e alegria nas criaturas, mas a raiz de toda a satisfação e a substância de toda a alegria, Deus guarda-a n'Ele próprio.
  2. Eis uma comparação: o fogo comunica bem a sua raiz na água com o calor, porque quando se tira o fogo, o calor fica durante um bom tempo na água, e também na madeira; depois da presença do fogo, o calor fica tanto mais tempo quanto o fogo foi mais forte.
  3. Mas o sol irradia no ar e penetra-o com a sua luz, ele não lhe comunica no entanto a sua raiz, porque quando o sol não está mais presente, nós também não temos mais luz.
  4. É assim que Deus se comporta com as criaturas: Ele comunica o reflexo da sua satisfação às criaturas, mas a raiz de toda a satisfação Ele guarda-a apenas para Ele próprio, porque Ele quer que nós só pertençamos a Ele e a mais ninguém.
  5. Deus prepara-se e oferece-se assim à alma, e aplicou-se com toda a sua Divindade a tornar-se agradável à alma, porque Deus quer ser apenas Ele a agradar à alma, e Ele não quer ter rival.
  6. Deus não tolera limite; Ele também não quer que se preste atenção a outra coisa que não seja Ele. 1

Notas
  1. Deus distribuiu satisfação e alegria nas suas criaturas, mas Ele guardou n'Ele «a raiz» de toda a alegria.

    Da mesma forma que o sol penetra no ar com a sua luz sem aí projetar a sua «raiz», «porque quando o sol não está mais presente, nós também não temos mais luz».

    Paralelamente, Deus quer-nos só para Ele e não tolera rival. [  ]


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Mestre Eckhart – Deus ama aqueles que perseguem a justiça 9


  1. Ora certas pessoas imaginam que elas são muito santas e muito perfeitas, dispersam-se em grandes coisas e em grandes palavras, procuram e desejam no entanto muito, querem também possuir muito, preocupam-se muito com elas próprias, e com isto e com aquilo, elas pretendem aplicar-se à devoção, e elas não conseguem suportar qualquer repreensão.
  2. Tenham a certeza, na verdade, que elas estão longe de Deus, e excluídas dessa união.
  3. O profeta diz: «Eu dispersei a minha alma em mim.»
  4. Santo Agostinho exprime-se melhor quando diz: «Eu dispersei a minha alma por cima de mim.»
  5. É necessário que ela se eleve acima dela própria, se ela quer tornar-se «um» no Filho, e quanto mais ela sai dela própria, mais ela se torna «um» com o Filho.
  6. São Paulo diz: «Nós seremos transformados nessa mesma imagem que Ele é.»


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Mestre Eckhart – Deus ama aqueles que perseguem a justiça 10


  1. Um texto diz: a virtude nunca é uma virtude a menos que ela venha de Deus, ou por Deus, ou em Deus; uma destas três coisas é sempre necessária.
  2. Se fosse de outra forma, não seria uma virtude, porque aquilo para onde se tende, se não tem relação com Deus, é muito pouca coisa.
  3. A virtude é Deus, ou diretamente em Deus.
  4. Mas aquilo que é melhor, eu não vos quero falar disso agora. Ou vocês poderiam dizer: «Diga, Mestre, o que é? Como poderíamos nós estar diretamente em Deus, por forma a que nós não teríamos outro pensamento e outra procura a não ser Deus? e como é que nós deveríamos ser suficientemente pobres ao ponto de deixar todas as coisas? É verdadeiramente um discurso difícil: nós não deveríamos desejar recompensa?
  5. - Tenham a certeza de que Deus não negligencia o dar-nos tudo, e mesmo se Ele tivesse jurado o contrário, Ele não se poderia impedir de dar-nos tudo.
  6. É muito mais necessário para Ele o dar-nos a nós, que a nós o receber, mas nós não devemos visar a isso, porque quanto menos nós procurarmos e desejarmos, mais Deus dá.
  7. Deus não tem com isso outra intenção que não seja o tornar-nos assim mais ricos e permitir-nos receber mais. 1

Notas
  1. De novo, o pregador nos introduz no diálogo fictício com o seu ouvinte: «Como deveríamos nós ser suficientemente pobres e deixar todas as coisas? É verdadeiramente um discurso difícil: nós não deveríamos desejar recompensa?»

    Ora ele assegura-lhes: Deus tem mais desejo de nos dar que nós de receber, mas nós não devemos visar a isso. [  ]


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Mestre Eckhart – Deus ama aqueles que perseguem a justiça



  1. Felizes os pobres e aqueles que têm fome e sede de justiça
  2. Deus só ama aquele que está estabelecido na Sabedoria
  3. Nós somos transferidos no amor
  4. Deus e o justo têm a mesma forma de agir: «sem porquê»
  5. Eles têm fome e sede da justiça
  6. Não prestar atenção a nada ao mesmo tempo que a Deus
  7. Eis como o Filho nasce em nós: quando nós estamos «sem porquê»
  8. Deus não tolera limite; nem quer que se preste atenção a outra coisa que não seja Ele
  9. Nós seremos transformados nessa mesma imagem que Ele é
  10. A virtude é Deus, ou diretamente em Deus
  11. Deus está pronto para dar grandes coisas



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Mestre Eckhart – Deus ama aqueles que perseguem a justiça 11


  1. Eu tenho por vezes costume, quando devo rezar, de pronunciar estas poucas palavras: «Senhor, é tão pouco, aquilo que nós te pedimos. Se alguém mo pedisse, eu conceder-lhe-ia, e isso é para ti cem vezes mais fácil que para mim, e tu também o fazes com melhor boa vontade. E se nós te pedimos qualquer coisa de mais importante, seria para ti fácil de o dar, e quanto mais é importante, mais tu o dás de boa vontade.»
  2. Porque Deus está pronto para dar grandes coisas, se nós pudéssemos deixar todas as coisas na justiça. 1
  3. Que Deus nos ajude afim de que nós possamos assim «perseguir a justiça», «na sabedoria», que nós tenhamos fome e sede dela afim de sermos saciados. Amém. 2

Notas
  1. E eis que no fim do sermão, ele faz uma confidência que parece colocá-lo em plena contradição com o seu propósito precedente.

    Ele, que nos interdita de pedir, confessa que reza por vezes assim: «Senhor, é tão pouco, aquilo que nós te pedimos. Se alguém mo pedisse, eu conceder-lhe-ia, e isso é para ti cem vezes mais fácil que para mim, e tu também o fazes com melhor boa vontade.»

    É impossível que ele não se tenha apercebido da contradição. Será que ele a inseriu na peroração para se colocar ao nível do seu auditório que pode ter considerado, como ele suspeita, o seu discurso difícil e pode ter-lhe criticado a sua intransigência?

    Mas tomemos bem atenção que ele acrescentou: «E se nós te pedimos qualquer coisa de mais importante, seria para ti fácil de o dar, e quanto mais é importante, mais tu o dás de boa vontade.»

    Ora, com esta indicação discreta, ele incita-os a pedir o que é precisamente o mais importante: o amor da justiça, a aceitação da vontade divina, a vida sem porquê, o nascimento do Filho na alma, o próprio Deus. [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 66-74. [  ]


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Mestre Eckhart – Permaneçam em mim!



  1. Três das exigências essenciais de Mestre Eckhart
  2. Apreender a sua beatitude na pureza onde Deus Ele próprio a apreende
  3. Deus nasce em todo o tempo no ser humano
  4. O ser humano nasce em todo o tempo em Deus
  5. O Filho é a Sabedoria que nasce eternamente
  6. Em vez de considerar as coisas como objetos, compreendê-las como «ideias» no pensamento de Deus



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Mestre Eckhart – Permaneçam em mim! 1


Sermão 40 - Permaneçam em mim!
  1. Nosso Senhor Jesus Cristo diz no Evangelho: «Permaneçam em mim!» (Jo 15, 4) e uma outra fase da epístola diz: «Feliz é o homem que está estabelecido na Sabedoria.» (Eclo 14, 22).
  2. E estas duas frases estão de acordo, a frase de Cristo: «Permaneçam em mim!» e a frase da epístola: «Feliz é o homem que está estabelecido na Sabedoria.» 1
  3. Ora prestem atenção ao que o ser humano deve ter para estar estabelecido n'Ele, quer dizer em Deus.
  4. Ele deve possuir três coisas.
  5. A primeira é que ele se tenha renunciado a si próprio, e que ele tenha renunciado a todas as coisas, que ele não esteja mais agarrado ao que quer que seja que toque nos sentidos do exterior, e que ele não permaneça em nenhuma criatura que esteja no tempo ou na eternidade.
  6. A segunda coisa é que ele não ame nem este bem aqui nem aquele bem acolá, mas que ele ame o Bem de onde fluem todos os bens, porque nenhuma coisa é agradável ou desagradável senão na medida em que Deus está nela.
  7. É por isso que não se deve amar tal bem senão na medida em que se ama Deus nesse bem.
  8. Não se deve portanto amar Deus, nem pelo seu reino celeste, nem pelo que quer que seja, deve-se amá-lo pelo Bem que Ele é em si próprio.
  9. Porque aquele que O ama por outra coisa, não está estabelecido n'Ele, ele está estabelecido nesse porquê ele O ama.
  10. Se portanto vocês querem permanecer n'Ele, não O amem por nada mais do que por Ele próprio.
  11. A terceira coisa, é que o ser humano não deve apreender Deus segundo Ele é bom ou justo, ele deve apreendê-lo na Sua substância pura e despojada, na qual Ele se apreende a si próprio na Sua nudez.
  12. Porque a bondade e a justiça são as vestes de Deus, porque elas O envolvem.
  13. É por isso que vocês devem retirar de Deus tudo aquilo que O envolve e apreendê-lo na sua nudez, no Seu vestiário, sem nada que O cubra e na Sua pureza, tal qual Ele é em si próprio.
  14. Assim, vocês permanecem n'Ele. 2

Notas
  1. Josef Koch, que estudou as relações de Mestre Eckhart com a liturgia, estabeleceu que os dois textos escolhidos para este sermão só se encontram aproximados no evangelho e na epístola do antigo missal dominicano para a festa de São Vital, mártir, no dia 28 de Abril. O sermão foi portanto pronunciado nesse dia. [  ]
  2. Os dois textos estão de acordo. O pregador enumera, de forma sistemática, as condições necessárias para a habitação da alma em Deus.

    Nós encontramos aqui, segundo uma graduação ascendente, três das exigências essenciais de Mestre Eckhart: 1) ser desprendido de si próprio, e de todas as coisas; 2) amar a Deus no desinteresse total de si próprio neste mundo, e no outro; 3) amar a Deus na Sua própria substância, na Sua «nudez», com exclusão dos bens que Lhe são acrescentados, a Sua bondade e a Sua justiça, por exemplo. [  ]


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Mestre Eckhart – Permaneçam em mim! 2


  1. Aquele que permanece assim n'Ele possui cinco coisas.
  2. A primeira, é que não há mais, entre ele e Deus, distinção, mas eles são um.
  3. Existem muitos anjos «sem número»; eles não transcendem a multiplicidade.
  4. Porque devido à grande simplicidade deles, eles são sem número.
  5. As três Pessoas em Deus são três «sem número», no entanto elas formam uma pluralidade.
  6. Mas entre um tal ser humano e Deus não apenas não existe distinção, também não existe pluralidade, só lá existe «um».
  7. A segunda coisa, é que esse ser humano apreende a sua beatitude na pureza onde Deus Ele próprio a apreende, e onde ele se fixa. 1

Notas
  1. Depois de ter enumerado as condições necessárias, o pregador indica todos os benefícios espirituais obtidos por aquele que preenche essas condições. [  ]


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Mestre Eckhart – Permaneçam em mim! 3


  1. A terceira coisa, é que esse ser humano tem uma única ciência com a ciência de Deus, e uma única operação com a operação de Deus, e um único conhecimento com o conhecimento de Deus. 1
  2. A quarta coisa, é que Deus nasce em todo o tempo num tal ser humano.
  3. Como é que Deus nasce em todo o tempo no ser humano?
  4. Tomem nota! Quando o ser humano desnuda e desprende a imagem divina que Deus naturalmente criou nele, a imagem de Deus manifesta-se nele.
  5. Pelo nascimento, a revelação de Deus faz-se conhecer, porque se é dito que o Filho nasceu do Pai, é porque o Pai lhe revelou paternalmente o seu mistério.
  6. E é por isso que quanto mais o ser humano desnuda e torna clara em si a imagem de Deus, mais claro é nele o nascimento de Deus.
  7. É preciso compreender assim o nascimento de Deus em todo o tempo: o Pai desnuda e desprende a imagem, e brilha nela. 2

Notas
  1. Esse, não faz mais que um com Deus. É uma única e mesma beatitude que preenche Deus e o ser humano. Ele participa no saber, na operação e no conhecimento de Deus. [  ]
  2. Deus nasce, em todo o tempo, nele. Aqui, o pregador dá ao seu auditório algumas explicações sobre esta frase difícil e misteriosa para quem ainda não o tivesse ouvido. [  ]


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Mestre Eckhart – Permaneçam em mim! 4


  1. A quinta coisa, é que o ser humano nasce em todo o tempo em Deus.
  2. Como é que o ser humano nasce em todo o tempo em Deus?
  3. Tomem nota! Pelo desprender da imagem (de Deus) dentro do ser humano, o ser humano torna-se semelhante a Deus, porque, pela imagem, o ser humano é semelhante à imagem que é Deus, aquela que Deus é segundo a pureza da Sua essência.
  4. E quanto mais o ser humano é desprendido, mais ele é semelhante a Deus, e quanto mais ele se torna semelhante a Deus, mais ele está unido a Ele.
  5. É preciso portanto entender assim o nascimento perpétuo do ser humano em Deus: o ser humano com a sua imagem brilha na imagem que é Deus, aquela que Deus é segundo a pureza da sua essência, e com a qual o ser humano é um.
  6. É preciso portanto entender a unidade do ser humano e de Deus segundo a semelhança da imagem, porque o ser humano é semelhante a Deus segundo a imagem.
  7. É por isso que, quando se diz que o ser humano é um com Deus, e que em consequência dessa unidade ele é Deus, entende-se o ser humano segundo a parte da imagem pela qual ele é semelhante a Deus, e não segundo a sua natureza criada.
  8. Ao considerá-lo como Deus, não o consideramos segundo a sua natureza criada; ao considerá-lo como Deus, não negamos a sua natureza criada no sentido em que seria necessário sustentar essa negação pela aniquilação da sua natureza criada, é preciso bem pelo contrário entendê-la como uma asserção respeitante a Deus, pela qual se nega que haja, o que quer que seja, de criado em Deus.
  9. Porque Cristo, que é Deus e homem, quando é considerado segundo a sua humanidade, não tomamos em consideração a sua divindade, não que neguemos com isso a sua divindade, mas então não temos atenção a ela.
  10. E é assim que deve ser entendida a frase de Santo Agostinho quando ele diz: «Aquilo que o ser humano ama, ele o é. Se ele ama uma pedra, ele é uma pedra; se ele ama um ser humano, ele é um ser humano; se ele ama Deus - ora eu não ouso continuar, porque se eu digo que ele é Deus, vocês poderiam delapidar-me, mas eu reenvio-vos para a Escritura.»
  11. E é por isso que o ser humano, quando ele se une totalmente a Deus com amor, está desprendido das imagens, formado e transformado na conformidade divina, na qual ele é um com Deus.
  12. O ser humano possui isto quando permanece n'Ele. 1

Notas
  1. Em vários sermões, em particular no sermão 16b, Como um vaso de ouro maciço, Eckhart falou da imagem.

    A primeira imagem do Pai é o Filho, mas na alma humana também o Pai imprimiu a sua imagem: «Vocês devem saber que a imagem divina e simples que está impressa na alma, no mais interior da sua natureza, é aí recebida diretamente, e o que há de mais íntimo e de mais nobre na natureza divina é reproduzido muito verdadeiramente na imagem da alma...»

    Neste sermão aqui, Eckhart retoma esta mesma doutrina: a imagem divina que Deus colocou no ser humano pode ser mais ou menos recoberta pelas criaturas, mas na medida em que o ser humano se desprende do criado, «mais claro é nele o nascimento de Deus».

    Assim, a alma prepara, pelo desprendimento, o nascimento que Deus realiza: «o Pai desnuda e desprende a imagem divina, e brilha nela».

    O supremo ganho para o ser humano é que ele nasce em todo o tempo em Deus: o ser humano reproduz a sua própria imagem na imagem que Deus é segundo a pureza da sua substância.

    Eckhart tem bem o cuidado de precisar como se deve entender essa identidade.

    Ele distingue no ser humano o ser caráter de criatura, e esta imagem divina nele.

    Ele toma o exemplo de Cristo, do qual não se nega a divindade, quando é considerado na sua humanidade.

    Por várias vezes ele citou o texto de Agostinho, tantas vezes o seu recurso.

    Ele não vai aqui até ao fim da citação, como fez no sermão 38, onde Agostinho não receou invocar a autoridade do salmo 81: «Eu disse que vocês são deuses.»

    A frase que nós lemos aqui exprime a mesma audácia: «E é por isso que o ser humano, quando ele se une totalmente a Deus com amor, está desprendido das imagens (entendamos: as imagens das coisas criadas), formado e transformado na conformidade divina, na qual ele é um com Deus.»

    Esta realidade mística escapa, evidentemente, ao saber e à consciência psicológica do ser humano. Ela pertence ao domínio da fé. [  ]


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Mestre Eckhart – Permaneçam em mim! 5


  1. Ora notem o fruto que o ser humano produz quando ele está lá.
  2. Quando ele é um com Ele, esse fruto consiste em ele produzir com Ele todas as criaturas e que, segundo a medida da sua união, ele leva a felicidade a todas as criaturas.
  3. A outra frase, a da epístola, diz: «Feliz é o homem que está estabelecido na Sabedoria.»
  4. Quando ele diz «a Sabedoria», Sabedoria é um nome materno, porque um nome materno designa a propriedade de sofrer; em Deus estão a operação e o sofrimento, porque o Pai é operante e o Filho é sofredor; é assim devido à propriedade de nascimento.
  5. Eis porque o Filho é a Sabedoria que nasce eternamente, no qual todas as coisas estão incluídas na sua distinção, eis porque ele diz: «Feliz é o homem que está estabelecido na Sabedoria.» 1

Notas
  1. Eckhart passa agora ao seu segundo texto: «Feliz é o homem que está estabelecido na Sabedoria.»

    A Sabedoria é feminina. Como toda a tradição identifica o Filho à Sabedoria eterna, é normal que o pregador dê aqui um nome «materno» àquele «no qual todas as coisas estão incluídas na sua distinção».

    Ele aliás escreveu no seu comentário do Livro da Sabedoria: «ela (a Sabedoria) é a mãe de todas as coisas boas». [  ]


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Mestre Eckhart – Permaneçam em mim! 6


  1. Ora ele diz: «Feliz é o homem». Eu disse-o frequentemente: na alma estão duas potências: uma é o homem, a outra é a mulher.
  2. Ora ele diz: «Feliz é o homem». A potência, que está na alma e que se chama homem, é a potência superior da alma na qual Deus brilha na Sua nudez, porque nessa potência não penetra nada mais do que Deus, e essa potência está em todo o tempo em Deus. 1
  3. Se portanto o ser humano apreendesse todas as coisas nessa potência, ele não as apreenderia enquanto elas são coisas, ele as apreenderia enquanto elas estão em Deus.
  4. É por isso que o ser humano deveria em todo o tempo estar estabelecido nessa potência, porque nessa potência, todas as coisas são iguais.
  5. Se portanto o ser humano estivesse estabelecido igualmente em todas as coisas, e as considerasse segundo que elas são todas iguais em Deus, o ser humano possuiria aí todas as coisas; um tal ser humano tiraria de todas as coisas aquilo que elas têm de mais grosseiro, e as apreenderia segundo elas são agradáveis e desejáveis.
  6. Então, ele as possui desta maneira, porque segundo a natureza que lhe é própria, Deus não pode fazer de outro modo que não seja dar tudo aquilo que Ele alguma vez criou, e Ele próprio.
  7. Eis porque é feliz o ser humano que está estabelecido em todo o tempo nessa potência, porque ele está estabelecido em todo o tempo em Deus. 2
  8. Que nosso Senhor Jesus Cristo nos ajude, afim de que nós estejamos em todo o tempo em Deus. Amém. 3

Notas
  1. No desenvolvimento sobre «Feliz é o homem», Eckhart considera que a potência «que está na alma e que se chama homem é a potência superior da alma na qual Deus brilha na sua nudez».

    Antes mesmo que ele tenha esclarecido melhor, nós reconhecemos a «pequena centelha» ou o «castelo» da alma dos quais ele nos fala tão frequentemente com expressões diferentes.

    Tanto ele lhe recusa categoricamente o nome de «potência», quer dizer faculdade da alma, tanto, como aqui, ele lhe dá este nome segundo as necessidades da sua exegese: «nessa "potência" não penetra nada mais do que Deus, e essa potência está em todo o tempo em Deus». [  ]
  2. A última parte do sermão é um conselho aos auditores: se o ser humano estivesse estabelecido nessa potência, em vez de considerar todas as coisas como objetos à sua disposição, ele as despojaria daquilo que elas têm de mais grosseiro e as compreenderia pelas suas «ideias», tal como elas são todas iguais em Deus, «agradáveis e desejáveis» no eterno pensamento de Deus. «... segundo a natureza que lhe é própria, Deus não pode fazer de outro modo que não seja dar tudo aquilo que Ele alguma vez criou, e Ele próprio. Eis porque é feliz o ser humano que está estabelecido em todo o tempo nessa potência, porque ele está estabelecido em todo o tempo em Deus.» [  ]
  3. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 60-65. [  ]


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Mestre Eckhart – O justo vive na eternidade



  1. Deus nasce em cada virtude do justo
  2. O justo não procura nada nas suas obras
  3. Aquele que está na Justiça, está em Deus, e é Deus
  4. Todas as virtudes do justo são a geração do Filho pelo Pai
  5. Dentro do justo nada deve agir senão apenas Deus
  6. O ser humano, elevado acima do tempo na eternidade, opera uma única obra com Deus
  7. O Pai pressiona e persegue, afim de que nós nasçamos no Filho, e nos tornemos naquilo que é o Filho
  8. Onde o Filho se manifesta na alma, o amor do Espírito Santo manifesta-se também
  9. Afasta-te de todas as coisas, e agarra-te puramente ao Ser



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Mestre Eckhart – O justo vive na eternidade 1


Sermão 39 - O justo vive na eternidade
  1. Hoje lê-se uma pequena frase na epístola onde o Sábio diz: «O justo vive na eternidade.» (Sb 5, 19) 1
  2. Eu disse por vezes o que é uma pessoa justa, mas agora eu digo outra coisa, num outro sentido: é justa uma pessoa que é formada e transformada na Justiça. 2
  3. O justo vive em Deus e Deus nele, porque Deus nasce na justiça, e o justo em Deus.
  4. Deus nasce em cada virtude do justo e rejubila com cada virtude do justo, e não apenas com cada virtude, mas com cada obra do justo, tão pequena quanto seja, operada pelo justo na Justiça.
  5. Deus rejubila, fica mesmo cheio de alegria, porque nada reside no seu fundo que não trepide de alegria.
  6. As gentes frustes devem acreditar nisto, as gentes esclarecidas devem saber isto. 3

Notas
  1. O texto deste sermão era lido na epístola do Comum de vários mártires, mais especialmente na festa de certos santos da Ordem Dominicana. [  ]
  2. O sermão ao qual, desde o início deste sermão, Mestre Eckhart faz alusão é muito provavelmente aquele que ele pronunciou sobre um texto idêntico: 6, Os justos viverão para sempre, é tanto mais provável porque o desenvolvimento não é o mesmo aqui e lá: «Eu disse por vezes o que é uma pessoa justa, mas agora eu digo outra coisa.» [  ]
  3. O tema que lhe vai servir de base é, pode-se dizer, ainda mais eckhartiano que no outro sermão.

    Nós lemos já por diversas vezes, particularmente no Livro da Consolação Divina, uma doutrina completamente semelhante: «A pessoa boa e a Bondade não são mais do que uma única bondade, absolutamente uma, com a diferença de que uma gera e de que a outra é gerada. Tudo o que pertence à pessoa boa, ela recebe-o da Bondade, na Bondade... Ora tudo o que eu disse da pessoa boa e da Bondade é igualmente verdadeiro... para o justo e para a Justiça...»

    Ele diz-nos aqui: «...é uma pessoa justa aquela que é formada e transformada na Justiça... O justo vive em Deus e Deus nele.»

    Nós leremos mais adiante: «...toda a virtude do justo e cada obra operada pela virtude do justo não é nada mais do que o gerar do Filho pelo Pai».

    Mais explicitamente ainda que num sermão breve como este, Eckhart expôs esta mesma doutrina no seu Comentário latino do Livro da Sabedoria: as perfeições espirituais, a sabedoria, a justiça e outras, têm no ser humano uma causa exterior a ele.

    Será mesmo essa uma das acusações principais no primeiro processo de Colónia. [  ]


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Mestre Eckhart – O justo vive na eternidade 2


  1. O justo não procura nada nas suas obras.
  2. São servos e mercenários, aqueles que procuram alguma coisa nas suas obras, ou que agem com vista em algum «porquê».
  3. Se portanto tu queres ser formado e transformado na Justiça, não procures nas tuas obras e não vises a nenhum «porquê», nem no tempo nem na eternidade, nem recompensa, nem beatitude, nem isto nem aquilo, porque tais obras estão todas verdadeiramente mortas.
  4. Verdadeiramente, e se tu visas a imagem de Deus em ti, quaisquer que sejam as obras que tu empreendas com essa intenção, elas estão todas mortas e tu desbaratas as obras boas e não apenas desbaratas as obras boas, tu cometes também um pecado porque tu fazes exatamente como um jardineiro que, devendo plantar árvores num jardim, arrancasse as árvores e reclamasse em seguida um salário. Assim, tu desbaratas as obras boas.
  5. Assim portanto se tu queres viver e se tu queres que as tuas obras vivam, tu deves estar morto para todas as coisas e teres-te tornado nada.
  6. É próprio da criatura o fazer qualquer coisa a partir de qualquer coisa, mas é próprio de Deus o fazer qualquer coisa a partir de nada.
  7. Se portanto Deus deve fazer qualquer coisa em ti ou contigo, tu deves previamente teres-te tornado nada.
  8. Regressa portanto para o teu próprio fundo e lá, age, e as obras que tu operas lá são todas vivas.
  9. É por isso que ele diz «o justo vive»: pelo fato de que ele é justo, ele age e as suas obras vivem. 1

Notas
  1. «O justo não procura nada nas suas obras» nem nas obras ditas temporais, quer dizer em todos os nossos empreendimentos sobre a terra, nem nas obras ditas eternas, quer dizer no nosso comportamento com relação a Deus.

    Ele deve agir com o mais total desinteresse, e sem colocar questões a si próprio sobre a finalidade das suas obras, «sem porquê», como Eckhart nos disse com tanta insistência no sermão 26, Mulher, vem a hora.

    Para que as obras do ser humano sejam vivas, é Deus que deve agir nele, e não do exterior, mas do mais íntimo dele próprio.

    «É próprio da criatura o fazer qualquer coisa a partir de qualquer coisa, mas é próprio de Deus o fazer qualquer coisa a partir de nada.»

    «Se portanto tu queres viver e se tu queres que as tuas obras vivam, tu deves estar morto para todas as coisas e teres-te tornado nada.»

    Nada, nós sabemos que o ser humano o é por natureza, adquirindo o seu ser de um outro ser. Se nós devemos sê-lo, é no plano moral, desprendendo-nos das criaturas. [  ]


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Mestre Eckhart – O justo vive na eternidade 3


  1. Ora ele diz: «A sua recompensa está com o Senhor.» Eu falarei um pouco disto.
  2. Quando ele diz «com o», isso significa que a recompensa do justo está onde está o próprio Deus, porque a beatitude do justo e a beatitude de Deus são uma única beatitude, porque o justo é bem-aventurado lá onde Deus é bem-aventurado.
  3. São João diz: «O Verbo estava com Deus.»
  4. Ele diz «com», e é por isso que o justo está com Deus, porque Deus é a Justiça. 1
  5. Por essa razão, aquele que está na Justiça, está em Deus, e é Deus. 2

Notas
  1. Ora, apesar da gratuidade do ato que o justo realiza, porque Deus age nele, Eckhart fala de «recompensa», termo bastante raro nele.

    O ser humano obtêm-na pelo facto mesmo de não a ter procurado.

    A recompensa do justo está no próprio Deus «porque a beatitude do justo e a beatitude de Deus são uma única beatitude, porque o justo é bem-aventurado» pela própria felicidade de Deus. [  ]
  2. «Aquele que está na Justiça, está em Deus, e é Deus.»

    Já há muito que Mestre Eckhart nos habituou a tais fórmulas.

    Elas não nos escandalizam porque nós sabemos o que se deve entender com elas: elas referem-se à identidade de ato entre Deus e o seu humano, identidade num ato a que ele chama por vezes desprendimento, por vezes amor, por vezes penetração, por vezes nascimento.

    Neste mesmo sermão, ele mostra aliás até onde nos leva uma vida descrita com estes termos: «...nós não devemos ter repouso antes de nos tornarmos naquilo que nós fomos eternamente n'Ele», quer dizer de nos reunirmos com a ideia que Deus tem de cada um de nós na sua eternidade.

    Num dos desenvolvimentos do sermão, o pregador aborda outra vez ainda o tema do presente perpétuo de Deus, assim como do ser humano que vive já n'Ele. [  ]


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Mestre Eckhart – O justo vive na eternidade 5


  1. Dentro do justo nada deve agir senão apenas Deus.
  2. Porque pelo facto de um motivo exterior te levar a agir, na verdade, essas obras são todas mortas, e se do exterior Deus te levasse a agir, na verdade, essas obras seriam todas mortas.
  3. Se as tuas obras devem viver, é preciso que Deus te impulsione interiormente no mais íntimo da alma para que elas vivam, porque apenas lá está a tua vida, e apenas lá tu vives.
  4. E eu digo: se uma virtude te parece superior a outra, e se tu a estimas mais do que a outra, tu não a amas tal qual ela é na Justiça, Deus ainda não age em ti.
  5. Porque todo o tempo que a pessoa estima ou ama mais uma virtude, ela não as ama e não as considera tais quais elas estão na Justiça, ela ainda não é justa, porque o justo considera e pratica todas as virtudes na Justiça, porque elas são a própria Justiça.


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Mestre Eckhart – O justo vive na eternidade 4


  1. Falemos ainda um pouco da palavra «justo».
  2. Ele não diz «a pessoa justa», nem «o anjo justo», ele diz apenas «o justo».
  3. O Pai gera o seu Filho enquanto justo, e o justo enquanto seu Filho, porque todas as virtudes do justo, e cada obra operada pela virtude do justo não são nada mais que a geração do Filho pelo Pai, também o Pai nunca tem repouso, ele persegue e pressiona constantemente para que o seu Filho nasça em mim, como diz a Escritura: «Não é por causa de Sião que eu me calarei, nem por causa de Jerusalém que eu me repousarei, até que o justo se manifeste e brilhe como um relâmpago.»
  4. Sião significa «altura da vida» e Jerusalém «altura da paz».
  5. Na verdade, nem para a «altura da vida», nem para a «altura da paz», Deus se repousa alguma vez, ele persegue e pressiona constantemente para que o justo se manifeste.


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Mestre Eckhart – O justo vive na eternidade 6


  1. A Escritura diz: «Antes do mundo criado, Eu sou.»
  2. Ele diz: «antes», «Eu sou».
  3. Quer dizer: quando o ser humano é elevado acima do tempo na eternidade, o ser humano opera uma única obra com Deus.
  4. Alguns perguntam: como é que o ser humano pode operar as obras que Deus operou há mil anos e operará dentro de mil anos, e eles não compreendem.
  5. Na eternidade não há antes nem depois.
  6. É por isso que os acontecimentos anteriores a mil anos, que terão lugar dentro de mil anos, e se produzem agora, só são um na eternidade.
  7. É por isso que aquilo que Deus criou há mil anos, e fará dentro de mil anos, e o que faz agora, são só uma obra.
  8. Por esta razão, o ser humano que está elevado acima do tempo na eternidade, opera com Deus aquilo que Deus fez há mil anos, e fará dentro de mil anos.
  9. E isto também, as gentes sábias devem saber, e as gentes frustes devem acreditar.


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Mestre Eckhart – O justo vive na eternidade 7


  1. São Paulo diz: «Nós somos eternamente eleitos no Filho.»
  2. É por isso que nós nunca nos devemos repousar antes de nos tornarmos naquilo que fomos eternamente n'Ele, porque o Pai pressiona e persegue, afim de que nós nasçamos no Filho, e nos tornemos naquilo que é o Filho.
  3. O Pai gera o seu Filho, e nessa geração, o Pai recolhe tanta quietude e alegria que aí consome toda a sua natureza.
  4. Porque tudo o que está no Pai o leva a gerar; sim, pelo seu fundo, pela sua natureza, pelo seu ser, o Pai é levado a gerar.


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Mestre Eckhart – O justo vive na eternidade 8


  1. Por vezes, uma luz manifesta-se na alma, e a pessoa imagina que é o Filho, e no entanto não passa de uma luz.
  2. Porque, onde o Filho se manifesta na alma, o amor do Espírito Santo manifesta-se também.
  3. É por isso que eu digo: a natureza do Pai é a de gerar o Filho, e a natureza do Filho é a de que eu nasça n'Ele e segundo Ele; a natureza do Espírito Santo é a de que eu seja consumido n'Ele, e totalmente fundido com Ele, e que eu me torne totalmente amor.
  4. Aquele que está assim no amor, e totalmente amor, imagina que Deus não ama mais ninguém a não ser ele próprio, e que Ele não conhece outra pessoa, para além dele próprio, que ame e seja amado. 1

Notas
  1. Ficamos retidos por aquilo que se segue: «Por vezes, uma luz manifesta-se na alma, e a pessoa imagina que é o Filho, e no entanto não passa de uma luz.»

    O que é essa luz ?

    Sem dúvida, uma espécie de certeza interior e completamente subjetiva, aquilo a que alguns chamaram "mística natural", como a da pessoa "arrebatada" em face de certos espetáculos da natureza, ou certas obras de arte.

    Ou ainda de outros fenómenos psíquicos voluntariamente associados à luz ou ao fogo.

    Mestre Eckhart prossegue: «Porque, onde o Filho se manifesta na alma, o amor do Espírito Santo manifesta-se também. É por isso que eu digo: a natureza do Pai é a de gerar o Filho, e a natureza do Filho é a de que eu nasça n'Ele e segundo Ele; a natureza do Espírito Santo é a de que eu seja consumido n'Ele, e totalmente fundido com Ele, e que eu me torne totalmente amor.»

    É difícil acreditar que tais palavras sejam a simples exposição de uma doutrina, ou o eco de confidências devotas.

    Parece que a discrição de Mestre Eckhart deixou-se desta vez surpreender pelo seu fervor. « Aquele que está assim no amor, e totalmente amor, imagina que Deus não ama mais ninguém a não ser ele próprio, e que Ele não conhece outra pessoa, para além dele próprio, que ame e seja amado.»

    Assim se distingue o misticismo autenticamente cristão. A luz interior não é suficiente: ela acompanha-se pelo amor. É o face a face de Deus e da alma.

    Mestre Eckhart junta-se aqui a Santo Agostinho nos Solilóquios: «Conhecer Deus e a alma, eis tudo o que eu desejo - E nada mais? - Não, nada mais.» [  ]


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Mestre Eckhart – O justo vive na eternidade 9


  1. Alguns mestres pretendem que o espírito bebe a sua beatitude no amor; outros pretendem que ele a bebe na contemplação de Deus, mas eu digo: ele não a bebe no amor, nem no conhecimento, nem na contemplação.
  2. Ora poderia-se dizer: o espírito não contempla então Deus na vida eterna? Sim e não.
  3. Na medida em que ele nasceu, ele não tem nem visão nem contemplação de Deus, mas na medida em que o seu nascimento está ainda em vias de realização, ele contempla Deus.
  4. É por isso que a beatitude do espírito ocorre quando ele nasce, e não quando o seu nascimento se completa, porque ele vive onde vive o Pai, quer dizer na simplicidade e na nudez do ser.
  5. Afasta-te portanto de todas as coisas, e agarra-te puramente ao Ser, porque aquilo que é exterior ao Ser é acidente, e todos os acidentes colocam um «porquê». 1
  6. Que Deus nos ajude, para que nós vivamos na eternidade. Amém. 2

Notas
  1. O último parágrafo do sermão trata da questão frequentemente discutida entre os «mestres»: a beatitude reside no conhecimento ou no amor?

    Geralmente perentório, a palavra de Mestre Eckhart hesita aqui: Sim e não.

    Quando o nascimento acontece, a visão e a contemplação podem ainda subsistir, mas quando o espírito nasce, ele está lá onde está o Pai, quer dizer na simplicidade da nudez do Ser.

    A beatitude eterna não é então imediatamente adquirida quando a alma se reúne com Deus?

    Comporta ela vários graus: um nascimento na eternidade que acontece e um nascimento perfeito?

    É possível que esta dualidade se explique pela coexistência de dois temas: o tema do nascimento do Filho na alma, e o tema da penetração na Divindade. [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 54-59. [  ]


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