Mestre Eckhart – Mulher, vem a hora



  1. Mulher, vem a hora, e já chegou
  2. Existe na alma uma parte superior acima do tempo
  3. Os verdadeiros adoradores adoram o Pai em espírito e verdade
  4. Quantos adoram um sapato ou uma vaca ou outra criatura
  5. Quem procura Deus para sua própria vantagem, não procura Deus
  6. Quem for tocado pela verdade, justiça e bondade não pode desviar-se delas
  7. O bem tem três ramos: o útil, o deleitável e o honesto
  8. A alma tem dois rostos: o superior contempla Deus, o inferior olha para baixo
  9. Duas potências fluem da parte superior da alma: a vontade e o intelecto
  10. Para conhecer o Pai, é preciso ser o Filho
  11. Deus pode tão pouco passar sem nós, como nós sem ele



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Mestre Eckhart – Mulher, vem a hora 1


Sermão 26 - Mulher, vem a hora
  1. «Mulher, vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade» (Jo 4, 23).
  2. Está escrito no evangelho de S. João.
  3. A esse longo discurso eu retiro uma pequena frase.
  4. Nosso Senhor disse: «Mulher, vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja.» 1

Notas
  1. O texto é o da sexta-feira depois do terceiro domingo da quaresma.

    Pelo seu conteúdo, este sermão 26 está em relação estreita com os sermões 25 e 27.

    É provável também que todos os três sejam próximos uns dos outros no tempo. [  ]


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Mestre Eckhart – Mulher, vem a hora 2


  1. Ora observem a primeira pequena frase que ele pronuncia: «Vem a hora, e já chegou».
  2. Quem quer adorar o Pai deve transportar-se para a eternidade com o seu desejo e a sua confiança.
  3. Existe na alma uma parte superior elevada acima do tempo, que não sabe nada do tempo nem do corpo.
  4. Tudo o que se passou há mil anos, o dia que existiu há mil anos não está mais afastado na eternidade do que esta hora onde eu estou agora; o dia que virá daqui a mil anos, ou tão distante quanto tu consigas contar, não está mais afastado na eternidade do que esta hora onde eu estou agora. 1

Notas
  1. Da longa narrativa do encontro de Jesus com a Samaritana, Eckhart só retira um frase: «Vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja.»

    Imediatamente depois de ter destacado estas palavras, Eckhart dá a sua interpretação: «Quem quer adorar o Pai deve transportar-se para a eternidade com o seu desejo e a sua confiança.»

    Por outras palavras, o ser humano deve viver no instante presente que concentra o passado e o futuro, portanto não fica mais submetido à duração do tempo tal como não está (submetida à duração do tempo) a eternidade.

    É a parte superior da alma que se pode elevar assim acima do tempo. [  ]


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Mestre Eckhart – Mulher, vem a hora 3


  1. Ora ele diz que «os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade»
  2. O que é a verdade?
  3. A verdade é tão nobre que se Deus pudesse afastar-se da verdade, eu apegar-me-ia à verdade e deixaria Deus, porque Deus é a verdade e tudo o que existe no tempo, ou tudo o que Deus alguma vez criou, não é a verdade. 1

Notas
  1. Por uma das suas suposições no impossível, o pregador declara: «A verdade é tão nobre que se Deus pudesse afastar-se da verdade, eu apegar-me-ia à verdade e deixaria Deus, porque Deus é a verdade.»

    Este último membro da frase não parece estar unido logicamente àquele que o precede.

    É preciso portanto reconstruir a frase mentalmente desta forma: porque se Deus, que é a verdade, se afastasse dela, não seria mais Deus. [  ]


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Mestre Eckhart – Mulher, vem a hora 4


  1. Ora ele diz: «eles adoram o Pai».
  2. Ah! quantos são aqueles que adoram um sapato ou uma vaca ou outra criatura e têm grande preocupação com ela; são gentes verdadeiramente insensatas.
  3. Desde que tu adoras Deus tendo em vista a criatura, tu pedes para o teu próprio prejuízo, porque a criatura sendo criatura, ela traz em si amargura e prejuízo, mal e desagrado.
  4. E aí está porque é bem feito para essas gentes quando elas sentem desagrado e amargura.
  5. Porquê? Porque elas pediram por isso. 1

Notas
  1. Tudo o que Deus criou não é a verdade.

    Tema já muitas vezes encontrado: aquele que, pedindo, só tem em vista a criatura, só obtém amargura, porque é tudo o que ela pode dar.

    Pelo contrário, se tu só procuras Deus, encontrarás tudo ao mesmo tempo que encontrares Deus. [  ]


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Mestre Eckhart – Mulher, vem a hora 5


  1. Eu disse às vezes: quem procura Deus e procura qualquer outra coisa ao mesmo tempo que Deus não encontra Deus, mas quem só procura Deus, na verdade, encontra Deus e nunca encontra Deus sozinho, porque tudo o que Deus pode oferecer, ele encontra-o ao mesmo tempo que encontra Deus.
  2. Se tu procuras Deus, e procuras Deus com vista à tua própria vantagem ou à tua própria beatitude, na verdade, tu não procuras Deus.
  3. É por isso que ele diz que os verdadeiros adoradores adoram o Pai e ele di-lo muito acertadamente.
  4. Poder-se-ia dizer a uma pessoa boa: «Porque procuras Deus?» -«Porque é Deus!» «Porque procuras a verdade?» -«Porque é a verdade!» «Porque procuras a justiça?» -«Porque é a justiça!»
  5. Tais pessoas são tais como devem de ser.
  6. Todas as coisas que estão no tempo têm um "porquê".
  7. Se perguntassem a alguém: «Porque comes?» -«Para ter força!» «Porque dormes?» -«Pela mesma razão!»
  8. É assim com todas as coisas que estão no tempo.
  9. Mas uma pessoa boa a quem se perguntasse: «Porque amas Deus?» -«Não sei - por Deus!» «Porque amas a verdade?» -«Pela verdade!» «Porque amas a justiça?» -«Pela justiça!» «Porque amas a bondade?» -«Pela bondade!» «Porque vives?» -«Na verdade, não sei, mas estou contente por viver.» 1

Notas
  1. Uma série de «Porquê?» constitui o desenvolvimento presente.

    Eckhart retoma assim um tema que já tinha esboçado nos sermões 5b e 6.

    Estes «porquê» que se referem ao criado encontram uma resposta naquele que se preocupa com essas questões, mas a pessoa boa, a pessoa interior, a pessoa desprendida a quem perguntassem: «Porque amas Deus?» confessaria a sua ignorância: «Não sei, por Deus.» «Porque amas a verdade ? - Pela verdade.»

    Seria o mesmo para a justiça e a bondade. [  ]


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Mestre Eckhart – Mulher, vem a hora 6


  1. Um mestre diz: Aquele que é tocado uma vez pela verdade, pela justiça e pela bondade não poderia nunca desviar-se delas um instante, mesmo se incorresse em todas as penas do inferno.
  2. Ele diz ainda: Quando uma pessoa é tocada por essas três - pela verdade, pela justiça e pela bondade - é também impossível a essa pessoa afastar-se dessas três tal como é impossível a Deus afastar-se da sua Divindade. 1

Notas
  1. É preciso portanto viver «sem porquê».

    Esta é, por parte de Mestre Eckhart, uma exigência singular não somente moral, mas intelectual.

    Ele executa com o mesmo golpe a ciência, a filosofia, a teologia, toda a metafísica e se ele fosse até às últimas consequências deste «sem porquê», aniquilaria a sua própria investigação doutrinal. [  ]


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Mestre Eckhart – Mulher, vem a hora 7


  1. Um mestre diz que o bem tem três ramos.
  2. O primeiro ramo é o útil, o segundo ramo é o deleitável, o terceiro ramo é o honesto.
  3. É por isso que [Nosso Senhor] diz: «eles adoram o Pai».
  4. Porque é que ele diz «o Pai»?
  5. Se tu procuras o Pai, quer dizer só Deus, tu encontrarás, ao mesmo tempo que Deus, tudo aquilo que ele pode oferecer.
  6. É uma verdade certa, e uma verdade necessária, e uma verdade consignada, e se ela não estivesse escrita, seria contudo verdadeira.
  7. Se Deus tivesse ainda mais, ele não poderia esconder-to, ele deveria revelar-to e ele dá-to.
  8. Eu disse por vezes: ele dá-to, e ele dá-to segundo o modo de um nascimento. 1

Notas
  1. Os três ramos ou subdivisões do bem vieram de Aristóteles a Mestre Eckhart por intermédio de Alberto o Grande ou mais provavelmente de S. Tomás.

    Todos esses bens para os quais tende o ser humano encontram-se em Deus.

    Eis porque o evangelista João diz: «Eles adoram o Pai.»

    Àquele que só o procura a ele, Deus dá tudo o que tem e se tivesse ainda mais, revelá-lo-ia e dá-lo-ia. [  ]


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Mestre Eckhart – Mulher, vem a hora 8


  1. Os mestres dizem que a alma tem dois rostos: o rosto superior contempla Deus todo o tempo, e o rosto inferior olha ligeiramente para baixo e dirige os sentidos.
  2. O rosto superior, que é a parte superior da alma, situa-se na eternidade, não tem nada a ver com o tempo e não sabe nada do tempo nem do corpo.
  3. Eu disse por vezes que nele qualquer coisa está escondida, como uma origem de todo o bem, e como uma luz brilhante que irradia todo o tempo, e como um abrasamento ardente que queima incessantemente, e este abrasamento não é nada mais que o Espírito Santo. 1

Notas
  1. Neste parágrafo, onde parece aos comentadores que o mestre interpretou uma passagem de S. Agostinho sobre a Trindade, Eckhart fala dos dois rostos da alma.

    Pela sua parte inferior, esta tem ainda um contato com os sentidos, com o tempo.

    Pelo contrário, a vernunfticheit (ratio superior), estrangeira ao corpo, é transformada pelo Espírito Santo em luz brilhante, em abrasamento ardente. [  ]


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Mestre Eckhart – Mulher, vem a hora 9


  1. Os mestres dizem que duas potências fluem da parte superior da alma.
  2. Uma chama-se vontade, a outra intelecto, e a perfeição destas potências situa-se na potência superior que se chama intelecto.
  3. Ela não pode nunca encontrar descanso.
  4. Ela não quer Deus segundo ele é o Espírito Santo, segundo ele é o Filho, ela foge do Filho.
  5. Ela também não quer Deus segundo ele é Deus.
  6. Porquê ?
  7. Porque lá ele tem um nome.
  8. E se existissem mil deuses, ela faria incessantemente o seu irromper, ela quere-o lá onde ele não tem nome.
  9. Ela quer qualquer coisa de mais nobre, qualquer coisa de melhor que Deus segundo ele tem um nome.
  10. Que quer ela então ?
  11. Ela não sabe; ela quere-o segundo ele é Pai.
  12. É por isso que S. Filipe diz: «Senhor, mostra-nos o Pai e isso chega-nos.»
  13. Ela quere-o segundo ele é uma medula de onde brota a bondade; ela quere-o segundo ele é um núcleo de onde flui a bondade: ela quere-o segundo ele é uma raiz, uma veia na qual brota a bondade, e lá somente ele é Pai. 1

Notas
  1. Reencontramos aqui o motivo do «irromper» num texto muito bonito: a vernunfticheit «nunca pode encontrar descanso. Ela não quer Deus segundo ele é o Espírito Santo, segundo ele é o Filho, ela foge do Filho... Que quer ela então ? Ela não sabe.»

    Apesar de mestre Eckhart lhe chamar «Pai», aqui também, nós sabemos que ele entende com isso uma outra realidade, «para além» do Deus criador, «para além» do Deus trinitário.

    Este indizível só será designado, desta vez, por imagens e símbolos: medula, núcleo, veia. [  ]


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Mestre Eckhart – Mulher, vem a hora 10


  1. Ora Nosso Senhor diz: «Ninguém conhece o Pai sem ser o Filho, nem o Filho sem ser o Pai.»
  2. Na verdade, se nós devemos conhecer o Pai, é preciso que nós sejamos o Filho.
  3. Eu disse há alguns dias três pequenas frases; tomem-nas como três fortes nozes-moscadas e bebem em seguida.
  4. Primeiramente: Se nós queremos ser filhos, nós devemos ter um pai, porque ninguém pode dizer que é filho a menos que tenha um pai, e ninguém é pai se não tem um filho.
  5. Se o pai morrer, diz-se: «Ele era o meu pai.»
  6. Se o filho morrer, diz-se: «Ele era o meu filho.»
  7. Porque a vida do filho está dentro da vida do pai e a vida do pai está dentro do filho, e é por isso que ninguém pode dizer: «Sou filho» a menos que tenha um pai.
  8. Ora é verdadeiramente Filho a pessoa que realiza todas as suas obras por amor.
  9. Em segundo lugar, tudo o que tinha feito da pessoa um Filho, é a igualdade de alma.
  10. Se ele está doente, que ame tanto estar doente como estar saudável, estar saudável como estar doente.
  11. Se o seu amigo morre - em nome de Deus ! Se um olho lhe for arrancado - em nome de Deus ! 1
  12. Em terceiro lugar, o que um filho deve ter, é o nunca poder inclinar a sua cabeça a não ser sobre o seu pai. 2
  13. Ah! como é nobre, a potência cujo local está acima do tempo e que não tem local !
  14. Porque devido ao facto dela estar acima do tempo, ela encerrou nela todos os tempos e ela é a totalidade do tempo.
  15. Por muito pouco que uma pessoa possuísse daquilo que está acima do tempo, ela tornar-se-ia muito rapidamente rica, porque aquilo que está para lá do mar não está mais afastado dessa potência do que aquilo que está agora presente. 3

Notas
  1. Para conhecer «o Pai», é preciso que nós sejamos «Filho».

    O pregador tira daí as consequências práticas: nós devemos chegar à «glîcheit», igualdade de alma, equivalente à «gelâzenheit».

    Aquilo que se segue, repetindo o que ele disse no sermão precedente, explica-nos suficientemente o que entende por isso: «Se ele está doente... se o seu amigo morre... se o olho lhe é arrancado - em nome de Deus !» [  ]
  2. Uma outra consequência do «irromper», é a do Filho não poder inclinar a cabeça a não ser sobre o seu Pai - sem dúvida reminiscência mais ou menos consciente da atitude de João para com Jesus aquando da última Ceia. [  ]
  3. A «nobre potência» sobre a qual ele ainda diz algo é aquele rosto superior da alma da qual nos falou várias vezes no decurso deste sermão. [  ]


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Mestre Eckhart – Mulher, vem a hora 11


  1. É por isso que ele diz: «Eis aqueles que o Pai procura.»
  2. Vejam, é assim que Deus nos escolhe, é assim que ele nos suplica, e Deus não pode esperar que a alma se afaste e se despoje da criatura.
  3. E é uma verdade certa e uma verdade necessária que Deus tem um tal desejo de nos procurar, como se verdadeiramente toda a sua Divindade dependesse disso, assim como é realmente. 1
  4. E Deus pode tão pouco passar sem nós como nós sem ele, porque mesmo se nós pudéssemos afastar-nos de Deus, Deus nunca poderia desviar-se de nós.
  5. Eu digo que não quero pedir a Deus para que ele me dê, também não quero louvá-lo por aquilo que ele me deu, mas eu quero pedir-lhe que ele me torne digno de receber e eu quero louvá-lo porque o seu ser e a sua essência o obrigam a dar.
  6. Aquele que quisesse privar Deus disso, privá-lo-ia do seu ser próprio e da sua própria vida. 2
  7. Que a verdade, de que eu falei, nos ajude a tornarmo-nos assim verdadeiramente Filho. Amém. 3

Notas
  1. No último parágrafo: «Eis aqueles que o Pai procura», Eckhart exprime-se ainda com mais audácia que previamente: «Deus escolhe-nos… suplica-nos, não pode esperar que a alma se afaste e se despoje da criatura.»

    Assim o quer a sua natureza que é toda bondade.

    «E é uma verdade necessária que Deus tem um tal desejo de nos procurar, como se verdadeiramente toda a sua Divindade dependesse disso...»; «como se...»; o que precede poderia não ser ainda mais que uma conjetura audaz, mas eis para onde aponta o «escândalo»: «assim como é realmente».

    Pode-se no entanto tentar explicá-lo na perspectiva eckhartiana.

    Já tínhamos lido: «Compete ao seu ser gerar o seu Filho na alma...» (Omne datum optimum), lugar comum nele, poder-se-ia dizer.

    «Ele gera-me enquanto ele e ele enquanto eu, e eu enquanto seu ser e sua natureza. Na fonte mais interior eu broto no Espírito Santo; é lá uma vida, um ser, uma operação.» (Iusti vivent in aeternum).

    «A raiz da Divindade, ele exprime-a absolutamente no seu Filho» (Hoc est praeceptum meum).

    E no sermão In diebus suis: «Deus está no fundo da alma com toda a sua Divindade» «Tudo o que Deus opera é um.»

    O nascimento do Filho na alma realiza-se assim no apagamento do Filho e na apropriação da essência divina única.

    O fundo da alma e a Divindade portanto não são mais que um.

    Se Deus fosse privado do fundo da alma, que só é dele no que ela tem de mais nobre, onde ele reside, ele seria portanto privado da sua Divindade. [  ]
  2. Assim, já não é «escandaloso» ler: «Eu não quero pedir a Deus para que ele me dê (desinteresse), mas eu quero pedir-lhe que ele me torne digno de receber (humildade) e eu quero louvá-lo porque o seu ser e a sua essência o obrigam a dar (reconhecimento da sua grandeza, adoração).» «Aquele que quisesse privar Deus disso, privá-lo-ia do seu ser próprio e da sua própria vida» (nova proposição no impossível. Ver também o que é dito acima). [  ]
  3. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 1-30 - Tome I», Éditions du Seuil, Paris, 1974, p. 216-222. [  ]


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Imitação de Cristo - Que é preciso esconder humildemente as graças que Deus nos faz


  1. Cristo: Meu filho, quando a graça te inspirar movimentos de piedade, é melhor para ti e mais seguro manteres essa graça escondida, não te elevares, falares pouco dela e não exagerares a sua grandeza; mas antes desprezares-te a ti próprio e temeres um favor do qual és indigno.
  2. Não te deves apegar muito a um sentimento que em breve se pode mudar num sentimento contrário.
  3. Quando a graça te é dada, reflete quanto és pobre e miserável sem a graça.
  4. O progresso da vida espiritual não consiste apenas em desfrutar das consolação da graça, mas antes em suportar a privação com humildade, com abnegação, com paciência, por forma a que então não te relaxes no exercício da oração, que não abandones nenhuma das tuas práticas habituais.
  5. Faz, pelo contrário, tudo o que estiver em ti de melhor que puderes, segundo as tuas luzes, e não te negligencies completamente a ti próprio por causa da secura e da angústia que sentes na tua alma.
  6. Porque há muitos que, no tempo da prova, caem rapidamente na impaciência e no desânimo.
  7. No entanto a via do ser humano não está sempre em seu poder.
  8. Compete a Deus consolar e dar quando quer, quanto quer, e a quem quer, como quer, e não mais.
  9. Houve indiscretos que se perderam pela própria graça da devoção, porque quiseram fazer mais do que podiam, não medindo as suas fraquezas, mas seguindo mais a impetuosidade do coração que o julgamento da razão.
  10. E porque eles aspiraram, na sua presunção, a um estado mais elevado do que aquele onde Deus os queria, perderam rapidamente a graça.
  11. Eles tinham colocado a sua residência no céu, e subitamente ficaram pobres e desamparados na sua miséria, afim de que pela humilhação e o desnudamento aprendam a não se elevarem mais sobre as suas próprias asas, mas a refugiarem-se sob as minhas.
  12. Aqueles que ainda são novos e sem experiência nas vias de Deus podem facilmente perder-se e estatelar-se nos escolhos, se não se deixarem conduzir por pessoas prudentes.
  13. Porque se eles querem seguir o seu sentimento em vez de acreditarem na experiência dos outros, o resultado será funesto para eles, se eles se obstinarem sempre no seu próprio sentido.
  14. Raramente aqueles que são sábios aos seus próprios olhos se deixam conduzir humildemente pelos outros.
  15. Vale mais ser humilde, com um espírito e luzes limitadas, que possuir tesouros de ciência e comprazer-se consigo próprio.
  16. Vale mais para ti teres pouco, que muito de que te pudesses orgulhar.
  17. Tem falta de prudência aquele que se entrega completamente à alegria, esquecendo a sua indigência passada, e aquele casto temor do Senhor que faz recear perder a graça recebida.
  18. Também é ter falta de virtude o deixar-se cair num desânimo excessivo no tempo da adversidade e da prova, e o ter pensamentos e sentimentos indignos da confiança que me é devida.
  19. Aquele que, durante a paz, tem demasiada segurança, é frequentemente durante a guerra o mais tímido e o mais cobarde.
  20. Se nunca presumisses nada de ti próprio, saberias permanecer sempre humilde, modelar e regrar os movimentos do teu espírito, tu não cairias tão rapidamente no perigo e no pecado.
  21. É uma prática sábia pensar, durante o fervor, naquilo que acontecerá na privação da luz.
  22. E quando efetivamente tu estiveres privado dela, pensa que ela pode regressar, pensa que eu só a retirei por algum tempo com vista à minha glória e para exercitar a tua vigilância.
  23. Frequentemente uma tal prova é mais útil para ti do que se tudo te sucedesse constantemente segundo os teus desejos.
  24. Porque para julgar o mérito, não se deve olhar se alguém tem muitas visões ou consolações, ou se é hábil na Sagrada Escritura, ou se ocupa um cargo elevado, mas antes se está firmado na verdadeira humildade e cheio da caridade divina; se procura em tudo e sempre unicamente a glória de Deus; se está bem convencido do seu nada; se tem por si próprio um desprezo sincero, e se fica mais alegre com ser desprezado pelos outros e humilhado, que ser honrado por eles.


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Mestre Eckhart – Ave, cheia de graça



  1. Eu te saúdo, cheia de graça, o Senhor está contigo!
  2. É necessário aqui compreender três coisas
  3. Deus prefere nascer espiritualmente de cada alma boa
  4. Nós somos um Filho único que o Pai gerou eternamente
  5. O maior bem que Deus fez ao ser humano foi ter-se incarnado
  6. A operação de todas as criaturas é a de querer dar à luz
  7. A centelha é um "um" único, sem diferença
  8. A Escritura tem tal plenitude que ninguém consegue penetrar
  9. Eu fui eternamente filho de Deus? Sim e não
  10. Todas as coisas são idênticas dentro da Pureza primeira
  11. Como pode o ser humano chegar a constranger Deus?
  12. Deus criou a alma para que ela seja a noiva do seu Filho único
  13. O fim supremo é a treva escondida da eterna Divindade



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Mestre Eckhart – Ave, cheia de graça 1


Sermão 22 - Ave, cheia de graça
  1. Esta frase que eu disse em latim está escrita no santo Evangelho e significa: «Eu te saúdo, cheia de graça, o Senhor está contigo!» 1
  2. O Espírito Santo descerá do alto, do trono mais elevado e virá em ti desde a luz do Pai eterno. 2

Notas
  1. Os sermões 10, 11, 12, 13, 14, 15, e este sermão 22 estão próximos pelo seu teor e pela data na qual foram pronunciados.

    Os reenvios e as alusões que eles contêm parecem indicar que este sermão 22 foi pronunciado antes do 13 e 14 e depois do 12, no mosteiro cisterciense Mariengarten, em Colónia.

    No decurso deste sermão, Mestre Eckhart refere-se àquele outro que ele pregou aos beneditinos do mosteiro dos Santos Macabeus «se não foi em vão que vocês lá estiveram», quer dizer se vocês ouviram e retiveram bem aquilo que eu disse então.

    Toda esta série de sermões teria portanto sido pronunciada em Colónia, e conclui - prudentemente - Josef Quint, os «grandes clérigos» aos quais este sermão faz alusão, seriam os teólogos dominicanos do studium gerale de Colónia. [  ]
  2. O sermão Ave, gratia plena (Lc 1, 28), que pode por vezes parecer difícil, mesmo sibilino, é duma extrema densidade e expõe num resumo magistral vários temas essenciais de Eckhart. [  ]


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Mestre Eckhart – Ave, cheia de graça 2


  1. É necessário aqui compreender três coisas.
  2. Em primeiro lugar: a inferioridade da natureza do anjo.
  3. Em segundo lugar: ele reconhecia-se indigno de nomear a Mãe de Deus.
  4. Em terceiro lugar: ele dirigia-se não somente a ela, mas a uma multidão muito grande: a cada alma boa que deseja Deus. 1

Notas
  1. Das três considerações que inspira ao pregador a saudação do anjo, o essencial é este: ao mesmo tempo que a Maria, o anjo dirige-se a cada alma boa que deseja Deus. [  ]


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Mestre Eckhart – Ave, cheia de graça 3


  1. Eu digo: se Maria não tivesse primeiro concebido espiritualmente Deus, ele nunca teria nascido dela corporalmente.
  2. Uma mulher disse a Nosso Senhor: «Feliz o corpo que te deu à luz.»
  3. Nosso Senhor disse: Não apenas é feliz o corpo que me deu à luz; «muito mais felizes são os que ouvem a Palavra de Deus e lhe obedecem.»
  4. Deus prefere nascer espiritualmente de cada virgem, de cada alma boa, que nascer corporalmente de Maria. 1

Notas
  1. Referindo-se a Lc 11, 27-28 (Feliz o corpo que te deu à luz - Muito mais felizes são os que ouvem a Palavra de Deus e lhe obedecem), Eckhart deduz: foi portanto porque Maria concebeu primeiro espiritualmente Deus que ele lhe permitiu de conceber segundo a carne.

    E, como é o seu costume, Eckhart puxa ao extremo, e até ao paradoxo, a lógica do seu pensamento: Deus prefere nascer espiritualmente de cada alma boa do que nascer corporalmente de Maria. [  ]


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Mestre Eckhart – Ave, cheia de graça 4


  1. É preciso compreender nisso que nós somos um Filho único que o Pai gerou eternamente.
  2. Quando o Pai gerou todas as criaturas, ele gerou-me, eu saí dele junto com todas as criaturas mas no entanto eu fiquei interiormente dentro do Pai.
  3. Da mesma forma que a palavra que eu pronuncio agora brota de mim, em seguida eu reflito na minha ideia, em terceiro lugar eu exprimo-me e vocês todos recebem-na; contudo ela permanece verdadeiramente dentro de mim.
  4. Da mesma forma eu permaneci dentro do Pai.
  5. Dentro do Pai estão as imagens de todas as criaturas.
  6. Esta madeira tem uma imagem intelectual dentro de Deus.
  7. Ela não é apenas intelectual, ela é intelecto puro. 1

Notas
  1. Nós somos portanto um Filho único que o Pai gerou eternamente, pensamento frequente no mestre e que se exprime aqui com um vigor particular.

    O «eu» empregue dá ainda mais intensidade ao discurso: «Eu saí dele junto com todas criaturas mas no entanto eu fiquei interiormente dentro do Pai.»

    A comparação com a palavra humana que nasce dentro do pensamento, que os auditores recebem e que permanece no entanto dentro de mim, encontra-se em vários textos, tanto alemães como latinos.

    O Pai encerra dentro de si as imagens de todas as criaturas, mesmo a madeira da cadeira tem a sua imagem intelectual dentro de Deus. [  ]


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Mestre Eckhart – Ave, cheia de graça 5


  1. O maior bem que Deus alguma vez concedeu ao ser humano, foi ter-se feito homem.
  2. Eu vou-vos contar uma história que convém bem aqui.
  3. Havia um homem rico e uma mulher rica.
  4. A mulher teve um acidente, ela perdeu um olho.
  5. Ela ficou muito aflita.
  6. O homem veio ter com ela e disse: «Senhora, porque estás tão aflita? Não deves estar aflita porque perdeste o teu olho.»
  7. Ela disse: «Senhor, eu não estou aflita por ter perdido o meu olho; eu estou aflita porque me parece que tu me amas menos.»
  8. Ele disse então: «Senhora, eu amo-te.»
  9. Pouco depois ele arrancou a ele próprio um olho, veio ter com a mulher e disse: «Senhora, afim de que tu acredites que eu te amo, tornei-me semelhante a ti; eu também, já só tenho um olho.»
  10. Da mesma forma o ser humano: com dificuldade acreditava que Deus o amava tanto até que finalmente Deus «arrancou a ele próprio um olho» e assumiu a natureza humana. Quer dizer que ele se «fez carne».
  11. Nossa Senhora disse: «Como é que isso vai ser feito?»
  12. O anjo disse: «O Espírito Santo descerá desde o alto em ti», desde o trono mais elevado do Pai da luz eterna. 1

Notas
  1. O mais prodigioso bem que Deus fez ao ser humano foi ter-se incarnado.

    Segue-se a encantadora história que faz passar através dos pensamentos de uma tão alta espiritualidade um sopro muito humano de poesia cortês.

    Eckhart não imaginou todas as partes, mas quem, no seu auditório, sabe que ela é devida a Herrand de Wildonia que viveu no século precedente?

    O papel das personagens aliás está invertido: foi a mulher quem se mutilou para provar o seu amor ao seu cavaleiro.

    Em Eckhart, é o esposo que realiza o sacrifício em homenagem à sua Senhora.

    A alegoria é transparente: trata-se de Cristo e da alma.

    A história agradou tanto a Mestre Eckhart que a retomou no seu comentário sobre S. João.

    Nicolau de Cusa, por seu turno, inspirou-se nela num sermão. [  ]


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Mestre Eckhart – Ave, cheia de graça 6


  1. «In principio.» «Nasceu-nos um menino, foi-nos dado um filho», um menino segundo a pequenez da natureza humana, um Filho segundo a eterna Divindade.
  2. Os mestres dizem: a operação de todas as criaturas é a de querer dar à luz, elas querem ser semelhantes ao pai.
  3. Um outro mestre diz: todas as coisas operantes operam com vista ao seu fim, para encontrarem a sua paz e o seu repouso no seu fim.
  4. Um mestre diz: todas as criaturas operam segundo a sua pureza primeira e a sua perfeição mais elevada.
  5. O fogo enquanto fogo não inflama; ele é tão puro e tão subtil que não inflama; em breve: a natureza do fogo inflama e transfunde na madeira seca a sua natureza e a sua claridade segundo a sua perfeição mais elevada.
  6. Deus fez o mesmo. Criou a alma conforme à sua perfeição mais elevada e verteu nela toda a sua claridade na sua primeira pureza, mas ele permaneceu no entanto sem mistura. 1

Notas
  1. O pregador invoca agora a autoridade dos «mestres» (S. Tomás, e alguns outros?) para provar, graças à sua comparação favorita do fogo e da madeira, que Deus verteu na alma «toda a sua claridade na sua primeira pureza» mas no entanto permaneceu «sem mistura». [  ]


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Mestre Eckhart – Ave, cheia de graça 7


  1. Eu disse recentemente em qualquer lugar que, quando Deus criou todas as criaturas, Deus não tinha previamente dado origem a qualquer coisa incriada que tem em si as imagens de todas as criaturas?
  2. É a centelha - como eu disse anteriormente no Mariengarten - se não foi em vão que vocês lá estiveram - esta pequena centelha é tão aparentada com Deus que ela é um um único sem diferença e que ela tem em si a imagem de todas as criaturas, imagens sem imagens e imagens acima de todas as imagens. 1

Notas
  1. Encontramos aqui a «centelha da alma», um conceito bastante utilizado por Eckhart.

    No entanto é conveniente sublinhar a intensidade com a qual ele a exprime aqui: «ela é um um único, sem diferença». [  ]


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Mestre Eckhart – Ave, cheia de graça 8


  1. Ontem uma questão foi colocada na Escola entre os grandes clérigos.
  2. «Eu surpreendo-me, digo eu, que a Escritura tenha uma tal plenitude que ninguém consiga penetrar no fundo da mais pequena palavra.»
  3. E se vocês me perguntarem, sendo dado que eu sou um Filho único que o Pai celeste gerou eternamente, se eu fui eternamente Filho em Deus, eu respondo sim e não: sim, um Filho segundo que o Pai me gerou eternamente, não Filho pelo facto de que eu não fui gerado. 1

Notas
  1. O sentido deste parágrafo parece efetivamente ser este: Da mesma forma que a Escritura tem uma tal plenitude que ninguém consegue penetrar nela a fundo na mais pequena palavra, do mesmo modo, no caso de vocês me perguntarem se eu fui eternamente filho de Deus, eu não consigo perscrutar o sentido profundo senão respondendo-vos por sim e não. [  ]


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Mestre Eckhart – Ave, cheia de graça 9


  1. «In principio.» Por intermédio disso é-nos permitido compreender que nós somos um Filho único que o Pai eternamente gerou dentro da treva escondida da eterna impenetrabilidade, permanecendo interiormente dentro do princípio primeiro da pureza primeira que é uma plenitude de toda a pureza.
  2. Lá eu eternamente repousei e dormitei dentro do conhecimento escondido do Pai eterno, permanecendo interiormente sem expressão. 1
  3. Dentro desta pureza ele gerou-me eternamente como seu Filho único na mesma imagem da sua eterna paternidade, afim de que eu seja pai e gere aquele do qual eu sou gerado.
  4. Da mesma maneira que se alguém estivesse diante de uma alta montanha e gritasse: «Estás aí?» a ressonância e o eco responder-lhe-iam: «Estás aí?» Se ele dissesse: «Sai!» o eco responderia também: «Sai!»
  5. Sim, para quem, dentro desta luz, olhasse para um pedaço de madeira, esta tornar-se-ia num anjo dotado de intelecto e não somente dotado de intelecto, ela tornar-se ia um intelecto puro dentro da primeira pureza que é uma plenitude de toda a pureza.
  6. Assim faz Deus: ele gera o seu Filho único dentro da parte mais elevada da alma.
  7. Ao mesmo tempo que ele gera o seu Filho único em mim, eu gero-o por minha vez dentro do Pai.
  8. Não foi de outra forma quando Deus gerou o anjo quando ele próprio era gerado pela Virgem. 2

Notas
  1. Eis o «não», e o mestre exprime este mistério teológico em termos de uma grande poesia: «In principio... Lá eu eternamente repousei e dormitei dentro do conhecimento escondido do Pai eterno, permanecendo interiormente sem expressão.»

    Quer dizer, quando eu estava em Deus, ato puro, enquanto Ideia, dentro do «fundo» da Divindade, fazendo apenas um com ela.

    Todos os seres, o anjo e a madeira, só eram um, também eles, dentro desta inefável pureza.

    Como o pregador já disse mais acima e como nós leremos a propósito das hastes de erva, todas as coisas são idênticas dentro da Pureza primeira.

    Pela criação, como diz «um mestre», provavelmente S. Tomás em quem este pensamento já se encontra, Deus mostrou a sua generosidade graças à multiplicidade dos seres «afim de que a sua munificência seja tanto mais manifestada».

    O «não» significa portanto: eu não fui eternamente filho em Deus, eu dormitava dentro do Princípio primeiro. [  ]
  2. Depois do «não», eis o «sim».

    Apesar de ser este o próprio centro da doutrina de Mestre Eckhart que se encontra mais ou menos expressa em toda a sua obra, talvez ele nunca a tenha proposto com maior clareza e insistência como neste sermão 22: Nesta Pureza primeira, «ele gerou-me eternamente como seu Filho único na mesma imagem da sua eterna paternidade, afim de que eu seja pai e gere aquele do qual eu sou gerado».

    Deus «gera o seu Filho único na parte mais elevada da alma. Ao mesmo tempo que ele gera o seu Filho único em mim, eu gero-o por meu turno no Pai».

    O eco que responde em termos idênticos é o símbolo desta reciprocidade.

    «... enquanto intelecto "receptivo", o espírito do ser humano recebe o Filho, enquanto intelecto "agente", ele dá-o à luz por seu turno, em Deus.

    Nesta reciprocidade efetua-se a identidade do distinto.

    Tomas de Aquino já tinha copiado de Aristóteles algumas fórmulas de identidade bastante surpreendentes.

    "O pensante e o pensado", tinha dito Aristóteles, "são idênticos." Tomas de Aquino, no seu comentário sobre esta passagem, escreve: "No que concerne aos inteligíveis em ato, o pensamento e aquilo que ele pensa são idênticos..."

    No entanto, Tomas de Aquino não ousa tirar dessa lei reconhecida como universal as consequências últimas tocando o conhecimento de Deus. Será para isso necessário esperar por Mestre Eckhart» (Reiner Schürmann). [  ]


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Mestre Eckhart – Ave, cheia de graça 10


  1. Este pensamento surgiu-me há alguns anos: se me perguntassem porque é que cada haste de erva é tão diferente da outra? E acontecesse que me perguntassem porque eram tão diferentes. Eu digo: É ainda mais surpreendente que todas as hastes de erva sejam tão semelhantes.
  2. Um mestre diz: O que faz com que todas as hastes de erva sejam tão diferentes, é a superabundância da bondade divina que se espalha superabundantemente em todas as criaturas afim de que a sua munificência seja tanto mais manifestada.
  3. Então eu digo: É mais surpreendente que todas as hastes de erva sejam tão semelhantes.
  4. Da mesma forma que todos os anjos são só um anjo na pureza primeira, todas as hastes de erva são um na pureza primeira, e lá todas as coisas são um. 1

Notas
  1. Como o pregador já disse mais acima e como nós lemos agora a propósito das hastes de erva, todas as coisas são idênticas dentro da Pureza primeira.

    Pela criação, como diz «um mestre», provavelmente S. Tomás em quem este pensamento já se encontra, Deus mostrou a sua generosidade graças à multiplicidade dos seres «afim de que a sua munificência seja tanto mais manifestada». [  ]


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Mestre Eckhart – Ave, cheia de graça 11


  1. Enquanto eu vinha para aqui, por vezes pensava: como pode o ser humano, dentro da temporalidade, chegar a constranger Deus?
  2. Se eu estou aqui em cima e digo a alguém: «Sobe!», isso ser-lhe-ia difícil.
  3. Mas se eu dissesse: «Assenta-te aqui, em baixo!», isso seria fácil.
  4. Assim faz Deus. Quando o ser humano se humilha, Deus, na bondade que lhe é própria, não se pode impedir de se baixar e de se derramar no ser humano humilde, e é no mais pequeno que ele se dá mais e dá-se a ele absolutamente.
  5. O que Deus dá, é o seu ser, e o seu ser é a sua bondade, e a sua bondade é o seu amor.
  6. Todo o sofrimento e toda a alegria vêm do amor. 1
  7. No caminho, quando eu vinha para aqui, eu pensava que não queria vir: o amor umedecia os meus olhos.
  8. Quando vocês tiverem chorado por amor - nós deixamos a questão em suspenso. 2
  9. A alegria e o sofrimento vêm do amor.
  10. O ser humano não deve temer Deus, porque quem o teme foge dele. Este temor é um temor prejudicial.
  11. Mas o temor é justo quando se teme perder Deus.
  12. O ser humano não o deve temer, deve amá-lo, porque é com a mais sublime perfeição que Deus ama o ser humano.
  13. Os mestres dizem que todas as coisas agem com a intenção de gerar, elas querem assemelhar-se ao pai e dizem: a terra foge do céu; se ela foge para baixo, ela chegará em baixo para o céu; se ela foge para cima, ela chegará à parte mais baixa do céu.
  14. A terra não pode fugir suficientemente baixo para que o céu não flua nela, não imprima nela o seu poder e a torne fecunda, quer ela tenha alegria quer sofrimento.
  15. Assim faz o ser humano que tem a ilusão de escapar a Deus, mas no entanto não lhe pode escapar; ele manifesta-se em todos os lugares.
  16. Ele tem a ilusão de escapar a Deus mas corre no seu seio.
  17. Deus gera em ti o seu Filho único, quer tu tenhas alegria quer tu tenhas sofrimento, quer tu durma quer tu estejas acordado, ele realiza aquilo que lhe é próprio.
  18. Eu disse recentemente porque é que o ser humano não o sente.
  19. A causa é que a sua língua está pegajosa por uma outra sujidade, quer dizer as criaturas, da mesma forma que para um ser humano para quem todos os alimentos são amargos e que não lhes encontra sabor.
  20. O que é que faz com que uma refeição não tenha sabor para nós? A culpa está na falta de sal. O sal é o amor divino.
  21. Se nós tivéssemos o amor divino, Deus e todas as obras que Deus alguma vez realizou teriam gosto para nós e nós receberíamos de Deus todas as coisas e nós operaríamos as mesmas obras que Deus opera.
  22. Nessa semelhança nós somos todos um único Filho. 3

Notas
  1. O pensamento de constranger Deus explica-se pela humildade do ser humano.

    Quando Deus vê o ser humano assim abaixado, ele não pode, na sua bondade, impedir-se de se derramar nele: tal é o seu constrangimento, inerente à sua natureza.

    «O que Deus dá, é o seu ser, e o seu ser é a sua bondade, e a sua bondade é o seu amor.» [  ]
  2. A propósito do amor, de onde vêm todo o sofrimento e toda a alegria, nós surpreendemos por um instante, por uma escapada inesperada, o segredo, geralmente bem guardado, da sensibilidade de Mestre Eckhart: o amor pode umedecer os olhos.

    Mas que os contemplativos que o escutam vertam ou não lágrimas inspiradas pelo amor divino, ele não quer saber, e não é isso o essencial. [  ]
  3. Em seguida o pregador emprega uma imagem que nós já encontramos: a terra foge do céu, como pretende a cosmogonia contemporânea (ver o sermão 14), mas ela não pode tal como o ser humano que, tendo a ilusão de escapar a Deus, corre no seu seio.

    «Deus gera em ti o seu Filho único, quer tu sintas alegria ou sofrimento, quer tu durmas ou estejas acordado, ele realiza aquilo que lhe é próprio.»

    Se o ser humano não tem consciência disso, é porque está enredado nas criaturas, da mesma forma que o alimento não tem sabor quando tem falta de sal. «O sal é o amor divino.» [  ]


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Mestre Eckhart – Ave, cheia de graça 12


  1. Quando Deus criou a alma, ele criou-a segundo a sua mais sublime perfeição, afim de que ela seja uma noiva do Filho único.
  2. Como este o sabia bem, ele quis sair do seu quarto secreto no tesouro da eterna Paternidade na qual ele dormitou eternamente, permanecendo interiormente não expresso.
  3. «In principio.» No primeiro começo da pureza primeira, o Filho abriu a tenda da sua glória eterna e saiu da altura suprema afim de elevar a sua amiga, a quem o Pai o tinha unido desde toda a eternidade, para a reconduzir à altura suprema de onde ela veio.
  4. E está escrito noutro sítio: «Vê, o teu rei vem a ti!» Foi por isso que ele saiu, saltando como um gamo, e sofreu a sua Paixão por amor, e ele não saiu sem querer regressar ao seu quarto com a sua noiva: Este quarto é a treva silenciosa da Paternidade escondida.
  5. Quando ele saiu da altura suprema, ele quis aí regressar com a sua noiva na suprema pureza e revelar-lhe a intimidade escondida da sua Divindade escondida onde ele repousa consigo próprio e com todas as criaturas. 1

Notas
  1. Deus criou a alma para que ela seja a noiva do seu Filho único.

    Esta comparação que evoca o Cântico, não se encontra frequentemente nos sermões alemães de Eckhart.

    Pode-se pensar que, no mosteiro cisterciense onde ele prega, esta aproximação, tão desenvolvida em S. Bernardo, lhe tenha ocorrido naturalmente ao espírito.

    Talvez seja também uma alusão à história que ele contou no início do sermão: o esposo oferecendo o seu sacrifício pelo amor da sua Senhora.

    O Filho «abriu a tenda da glória eterna, afim de elevar a sua amiga para a reconduzir à altura suprema de onde ela veio».

    O quarto para onde ele quer regressar com a sua noiva «é a treva silenciosa da paternidade escondida». [  ]


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Mestre Eckhart – Ave, cheia de graça 13


  1. «In principio», quer dizer no começo de todo ser, como eu disse na Escola; eu disse ainda mais: é um termo de todo ser porque o primeiro começo está lá com vista ao termo supremo.
  2. Sim, Deus ele próprio não repousa onde está o primeiro começo, ele repousa lá onde está um termo e um repouso de todo ser, não que este ser seja aniquilado; bem pelo contrário ele é realizado lá no seu termo supremo de acordo com a sua mais elevada perfeição.
  3. O que é o termo supremo? É a treva escondida da eterna Divindade, ela é desconhecida, ela nunca foi conhecida, ela nunca será conhecida.
  4. Deus reside lá nele próprio desconhecido, e a luz do Pai eterno tem brilhado lá eternamente, mas as trevas não compreendem a luz. 1
  5. Que a verdade, de que eu falei, nos ajude a chegar a essa verdade. Amém. 2

Notas
  1. O pregador regressa ao texto que citou no início do seu sermão: «In principio...»

    O começo em Deus está lá com vista ao termo: Deus.

    Deus repousa lá onde está também o repouso de todo ser: não que este ser seja aniquilado, pelo contrário, ele é realizado lá no seu fim supremo: a treva escondida, desconhecida, a eterna Divindade. [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 1-30 - Tome I», Éditions du Seuil, Paris, 1974, p. 188-196. [  ]


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Livro da Vida Perfeita - Para além da Lei


  1. «Pode-se e deve-se ir para além de toda a virtude, diz-se também, para além de toda a instrução, de toda a regra, de todo o mandamento, de toda a lei e de toda a sabedoria. Tudo isto deve ser rejeitado, afastado e aniquilado.»
  2. Há aqui coisas verdadeira e coisas falsas. É preciso examiná-las.
  3. Cristo estava para além da vida de Cristo - para além de toda a virtude, de toda a regra, de toda a ordem, etc. O diabo, ele também, está para além, mas com uma diferença.
  4. Cristo estava - e está - para além de tudo isto porque ele não tem necessidade delas. Todas as suas palavras, as suas ações e a sua conduta - fazer e não fazer, calar-se e falar, sofrer, e tudo o que se produzia nele -, nada disso lhe era necessário nem útil.
  5. Era, e é o mesmo para a virtude, a ordem, a sabedoria, etc. Tudo o que pode - ou poderia de alguma forma - ser atingido com a ajuda delas já estava em Cristo e está sempre.
  6. Neste sentido, a afirmação citada é verdadeira, e é também neste sentido que devem ver entendidas as palavras de São Paulo: «Aqueles que são instruídos, animados e guiados pelo espírito de Deus, esses são filhos de Deus e não estão submetidos à Lei» (Ro 8, 14).
  7. O que quer dizer: «Não é necessário ensinar-lhes aquilo que devem fazer ou não fazer, porque o mestre deles, o espírito de Deus, ensiná-los-á bem.
  8. Da mesma forma, não é necessário prescrever-lhes ou ordenar-lhes para fazerem o bem ou não fazerem o mal, etc. Porque Aquele que os ensina o que é bom e o que é mau, o que é e o que não é o Melhor, prescreve-lhes e ordena-lhes também que adiram ao melhor e abandonem o resto. E é a Ele que eles obedecem.»
  9. Neste sentido, eles não têm necessidade de seguir nenhuma lei, nenhum ensinamento e nenhum mandamento.
  10. É verdade também num outro sentido que eles não têm necessidade de nenhuma lei para atingirem ou ganharem qualquer coisa ou para obterem qualquer vantagem.
  11. Tudo o que se pode atingir ou obter pela Lei, as criaturas ou os discursos, pelas palavras e as ações, sobre a via eterna ou para a vida eterna, tudo isso eles já têm.
  12. Nesse outro sentido também, é verdade que se pode ir para além da lei e de todas as virtudes, para além das obras, do saber e do poder de todas as criaturas.

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Imitação de Cristo - Da prova do verdadeiro amor


  1. Cristo: Meu filho, o teu amor ainda não é suficientemente forte e suficientemente esclarecido.
  2. Alma: Porquê, Senhor?
  3. Cristo: Porque à menor contrariedade, tu abandonas a obra começada, e porque tu procuras demasiado avidamente as consolações.
  4. Aquele que ama fortemente permanece firme na tentação, e não cede às sugestões artificiosas do inimigo.
  5. Tanto no mau como no bom sucesso, o seu coração é igualmente meu.
  6. Aquele cujo amor é esclarecido considera menos o dom daquele que ama que o amor daquele que dá.
  7. A afeição toca-o mais que o benefício e prefere o seu bem-amado em vez de tudo aquilo que recebe dele.
  8. Quem me ama com um amor generoso não se repousa nos meus dons, mas em mim acima de todos os meus dons.
  9. No entanto não penses que tudo está perdido se te acontecer sentires por mim ou pelos meus santos menos amor que aquele que tu gostavas de ter.
  10. Esse amor terno e suave que tu por vezes sentes é o efeito da presença da graça e uma espécie de antegozo da pátria celeste; não se deve procurar nele muito apoio porque ele passa assim como veio.
  11. Mas combater os movimentos desregrados da alma e desprezar as solicitações do demónio, é um grande motivo de mérito e a marca de uma virtude sólida.
  12. Não te perturbes portanto com fantasmas, quaisquer que eles sejam, que obcecam a tua imaginação.
  13. Conserva uma resolução firme e uma intenção reta diante de Deus.
  14. Não é uma ilusão se por vezes tu és subitamente arrebatado em êxtase e que logo depois voltas a cair nos pensamentos miseráveis que ocupam geralmente o teu coração.
  15. Porque então tu és mais passivo que ativo; e desde que eles te desagradem e que tu lhes resistas, é um mérito e não uma queda.
  16. Fica a saber que o antigo inimigo se esforça por abafar os teus desejos bons e por te afastar de todos os exercícios devotos, do culto dos santos, da meditação das minhas dores e da minha morte, da recordação tão útil dos teus pecados, da atenção de vigiares o teu coração, e do firme propósito de avançares na virtude.
  17. Ele sugere-te mil pensamentos maus para te causar perturbação e aborrecimento, para te afastar da oração e das leituras santas.
  18. Uma humilde confissão desagrada-lhe e, se ele pudesse, afastar-te-ia completamente da comunhão.
  19. Não tenhas medo dele e não tenhas dele qualquer apreensão, apesar dele te lançar frequentemente armadilhas para te surpreender.
  20. Rejeita somente sobre ele os pensamentos criminosos e vergonhosos que ele te inspira.
  21. Diz-lhe: Vai, espírito imundo; tem vergonha, infeliz; é preciso que tu sejas estranhamente perverso para teres essa linguagem para comigo.
  22. Retira-te de mim, sedutor detestável, tu nunca terás em mim nenhuma parte; mas Jesus estará perto de mim como um guerreiro formidável, e tu ficarás confundido.
  23. Prefiro morrer e sofrer todos os tormentos, que consentir no que tu me propões.
  24. Cala-te portanto, não me fales mais; eu não te escutarei mais, faças o que fizeres para me inquietar.
  25. «O Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem poderei temer?» (Sl 26, 1).
  26. «Ainda que se levantem exércitos contra mim, não temerá o meu coração» (Sl 26, 3).
  27. O Senhor é o meu auxílio e o meu Redentor.
  28. Combate como um soldado generoso, e se por vezes sucumbires devido à fragilidade, adquire uma coragem maior na esperança de seres sustentado por uma graça mais forte; e guarda-te sobretudo da vã complacência e do orgulho.
  29. É assim que muitos se perdem e caem numa cegueira quase incurável.
  30. Que a queda desses soberbos, que presumiam loucamente acerca deles próprios, seja para ti uma lição contínua de vigilância e de humildade.


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