Livro da Vida Perfeita - Não há impassibilidade nesta vida


  1. «O ser humano pode e deve, desde esta vida, tornar-se tão impassível como o foi Cristo depois da sua Ressurreição.» Eis o que se diz e o que se ouve.
  2. Quis-se confirmá-lo e prová-lo pelas palavras de Cristo: «Eu vos precederei na Galileia. É lá que vocês me verão.» (Mt 26, 32) e «Um espírito não tem nem carne nem osso como vocês vêem que eu tenho» (Lc 24, 39).
  3. Quis-se interpretar estas palavras como se segue: «Como vocês me viram e seguiram com um corpo e uma vida mortais, vocês ver-me-ão: eu vos precederei e vocês me seguirão na Galileia - quer dizer vocês me seguirão numa impassibilidade e numa imobilidade que vocês sentirão e saborearão, na qual vocês viverão e permanecerão antes mesmo de atravessarem e de sofrerem a morte corporal.
  4. «Como vocês me vêem com um corpo de carne e de osso e no entanto impassível, vocês tornar-se-ão também impassíveis desde antes da morte corporal, na vossa humanidade corporal e mortal.»
  5. A estas afirmações, responder-se-á isto: Cristo não quis dizer que o ser humano podia ou devia chegar à impassibilidade antes de ter atravessado e sofrido aquilo que ele próprio atravessou e sofreu.
  6. Porque ele próprio não chegou lá senão depois de ter atravessado e sofrido a morte corporal, e tudo o que se relaciona com ela. Consequentemente, nenhum ser humano pode nem deve chegar lá enquanto for mortal e passível.
  7. Se isso pudesse e devesse produzir-se, se fosse o mais nobre e o melhor, isso ter-se-ia produzido em Cristo.
  8. Porque a vida de Cristo era - e é - a melhor e a mais nobre vida, a mais digna e a mais agradável a Deus, entre todas aquelas que existiram e que existirão.
  9. Se isso não podia ou não devia produzir-se em Cristo, então isso também não se pode produzir em nenhum ser humano.
  10. Poderão acreditar, poderão dizer tanto quanto queiram, mas isso não é assim.

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Livro da Vida Perfeita - Imobilidade e movimento


  1. Quando a união se fez realmente, a pessoa interior permanece imóvel nessa união.
  2. Quanto à pessoa exterior, Deus faz ela ir aqui e acolá, e realizar isto ou aquilo, que é necessário ou indispensável. A pessoa exterior diz então - e é realmente assim na verdade: «Eu não quero ser nem não ser, viver nem morrer, saber nem ignorar, fazer nem não fazer, nem nada de semelhante. Mas eu obedeço a tudo o que deve ser, por necessidade ou por obrigação, quer seja agindo quer sujeitando-me.»
  3. A pessoa exterior não tem assim outro objetivo nem outra procura que não seja satisfazer a vontade eterna.
  4. Porque é sabido na verdade que a pessoa interior deve permanecer imóvel enquanto que a pessoa exterior deve ter movimento.
  5. Se a pessoa interior tem um "porquê" no movimento da pessoa exterior, isso só vem de uma necessidade e de uma obrigação ordenadas pela vontade divina. É assim mesmo quando Deus ele próprio é pessoa, como se vê em Cristo.
  6. Quando isto se produz na ou pela luz divina, não há nem orgulho nem liberdade intemperada nem espírito indócil, mas uma profunda humildade e um coração abatido, abismado e afligido, um espírito de ordem e de sabedoria, de igualdade e de verdade.
  7. Tudo o que pertence a estas virtude deve aí estar presente, assim como a paz e o contentamento.
  8. Mas quando isto não se produz assim, isso não é bom, como foi dito noutro sítio com razão. Da mesma forma que nada pode servir nem ajudar a esta união, também nada pode impedi-la nem afastá-la: nada exceto a vontade própria da pessoa.

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Imitação de Cristo - Dos maravilhosos efeitos do amor divino


  1. Alma: Eu bendigo-te, Pai celeste, Pai de Jesus Cristo, nosso Senhor, porque te dignaste recordar de mim, pobre criatura.
  2. «Ó Pai das misericórdias e Deus de toda a consolação» (2Co 1, 3), dou-te graças porque, indigno como sou, tu me queiras no entanto algumas vezes consolar.
  3. Eu bendigo-te para sempre, e eu glorifico-te com o teu Filho único e o Espírito consolador, nos séculos dos séculos.
  4. Ó Senhor meu Deus, santo objeto do meu amor! quando tu desceres no meu coração, todas as minhas entranhas exultarão de alegria.
  5. Tu és a glória e a alegria do meu coração.
  6. Tu és a minha esperança e o meu refúgio no dia da tribulação.
  7. Mas porque o meu amor ainda é fraco, e a minha virtude titubeante, eu tenho necessidade de ser fortificado e consolado por ti; visita-me portanto com frequência, e dirige-me com as tuas divinas instruções.
  8. Livra-me das más paixões, e retira do meu coração todas as afeições desregradas, afim de que, curado e purificado interiormente, eu me torne apto para te amar, forte para sofrer, firme para preservar.
  9. Cristo: O amor é uma grande coisa, e um bem acima de todos os bens.
  10. Só ele torna leve aquilo que é pesado, e faz com que possamos suportar com a alma serena todas as vicissitudes da vida.
  11. Ele carrega o seu fardo sem sentir o peso, e torna doce o que há de mais amargo.
  12. O amor de Jesus Cristo é generoso; faz empreender grandes coisas, e incentiva sempre para o que há de mais perfeito.
  13. O amor aspira a elevar-se, e não se deixa reter por nada de terrestre.
  14. O amor quer ser livre, e desembaraçado de todas as afeições pelo mundo, afim de que os seus olhares penetrem até Deus sem obstáculos, afim de que não seja nem retardado pelos bens, nem abatido pelos males do tempo.
  15. Nada é mais suave que o amor; nada é mais forte, mais elevado, mais extenso, mais delicioso; não há nada mais perfeito nem melhor no céu e sobre a terra, porque o amor nasce de Deus, acima de todas as criaturas.
  16. Aquele que ama, corre, voa; está alegre, está livre, e nada o retém.
  17. Ele dá tudo para possuir tudo, e ele possui tudo em todas as coisas, porque acima de todas as coisas ele repousa no único Ser soberano, do qual todo o bem procede e resulta.
  18. Ele não olha para os dons, mas eleva-se acima de todos os bens, até Àquele que dá.
  19. O amor muitas vezes não conhece a medida, mas, como a água que ferve, transborda por todos os lados.
  20. Nada lhe pesa, nada lhe custa, ele tenta mais do que aquilo que pode, nunca diz que é impossível, porque crê que tudo é possível e que tudo é permitido.
  21. E por causa disso ele pode tudo, e ele realiza muitas coisas que fatigam e que esgotam de forma vã aquele que não ama.
  22. O amor vigia sem cessar; mesmo no sono não dorme.
  23. Nenhuma fadiga o cansa, nenhuns laços lhe pesam, nenhuns temores o perturbam; mas tal como uma chama viva e penetrante, ele lança-se no céu e abre uma passagem segura através de todos os obstáculos.
  24. Se alguém ama, compreende o que diz esta voz.
  25. O próprio ardor de uma alma abrasada eleva-se até Deus como um grande grito: Meu Deus! meu amor! tu és todo meu, e eu sou todo teu.
  26. Alma: Dilata-me no amor afim de que eu aprenda a saborear no fundo do meu coração quanto é suave amar, fundir-se e perder-se no amor.
  27. Que o amor me arrebate e me eleve acima de mim próprio, pela vivacidade dos seus transportes.
  28. Que eu cante o cântico do amor, que eu te siga, ó meu bem-amado, até às alturas da tua glória, que todas as forças da minha alma se esgotem a louvar-te, e que ela desfaleça de alegria e de amor.
  29. Que eu te ame mais que a mim, que eu não me ame a mim próprio senão por ti, e que eu ame em ti todos aqueles que te amam verdadeiramente, assim como ordena a lei do amor, que eu descubro na tua luz.
  30. Cristo: O amor é pronto, sincero, devoto, suave, prudente, forte, paciente, fiel, constante, magnânimo, e nunca se procura a si próprio; porque desde que nos começamos a procurar a nós próprios, logo deixamos de amar.
  31. O amor é circunspecto, humilde e reto, sem moleza, sem ligeireza, não se ocupa de coisas vãs, ele é sóbrio, casto, firme, tranquilo, e sempre atento a vigiar sobre os sentidos.
  32. O amor é obediente e submisso aos superiores; ele é vil e desprezível a seus próprios olhos.
  33. Devotado a Deus sem reserva, e sempre cheio de reconhecimento, o amor nunca deixa de confiar nele, de esperar nele, mesmo quando parece que é negligenciado, porque não se vive sem dor no amor.
  34. Quem não está pronto a tudo sofrer e a abandonar-se inteiramente à vontade do seu bem-amado, não sabe o que é amar.
  35. É preciso que aquele que ama abrace com alegria tudo o que há de mais duro e de mais amargo, pelo seu bem-amado, e que nenhuma contrariedade o despegue dele.


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza



  1. «Uma pessoa nobre partiu para um pais distante afim de aí obter um reino, e regressou em seguida»
  2. O ser humano tem em si duas naturezas: o corpo e o espírito
  3. A pessoa interior
  4. Cada ser humano tem um espírito bom, um anjo, e um espírito mau, um demónio
  5. A pessoa exterior
  6. A semente de Deus está em nós
  7. O primeiro grau
  8. O segundo grau
  9. O terceiro grau
  10. O quarto grau
  11. O quinto grau
  12. O sexto grau
  13. A imagem de Deus está no fundo da alma como uma fonte viva
  14. O sol brilha sem interrupção, mas quando uma nuvem se interpõe, nós não vemos a sua luz
  15. A alma que se volta para baixo recebe daí um véu que a recobre
  16. A pessoa deve abandonar todas as imagens e a si própria, afastar-se e tornar-se estrangeira e dissemelhante a tudo
  17. Toda a espécie de mediação é estrangeira a Deus
  18. «Virgens puras, eu vos confiei e desposei ao Um»
  19. Numa pessoa nobre encontra-se unicamente vida pura, ser, verdade e bondade
  20. A pessoa nobre é um, e reconhece Deus e a criatura no Um
  21. A pessoa nobre contempla Deus sem véu
  22. O poder graças ao qual o olho vê é diferente do poder pelo qual ele reconhece aquilo que ele vê
  23. A pessoa nobre pega e toma todo o seu ser, a sua vida e a sua beatitude unicamente de Deus, junto de Deus e em Deus
  24. Deus dá o Espírito Santo antes dos dons do Espírito Santo
  25. O primeiro elemento da beatitude, é que a alma contemple Deus sem véu
  26. O ser humano deve unicamente contemplar Deus e «regressar»
  27. «Eu quero conduzir a alma nobre na solidão, e eu falarei ao teu coração»



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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 1


Tratado da Nobreza
  1. Nosso Senhor disse no Evangelho: «Uma pessoa nobre partiu para um pais distante afim de aí obter um reino, e regressou em seguida.» 1
  2. Nosso Senhor ensina-nos, com estas palavras, a que ponto o ser humano é criado nobre na sua natureza, a que ponto é divino aquilo que ele pode atingir pela graça, e também como é que ele lá deve chegar.
  3. Estas palavras estão também em relação com uma grande parte da Santa Escritura.

Notas
  1. O ponto de partida do tratado é o versículo de Lucas 19, 12: «Um homem nobre partiu para uma país distante afim de aí obter um reino, e regressou em seguida.» [  ]


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 2


  1. É preciso primeiro saber, e é absolutamente manifesto, que o ser humano tem em si duas naturezas: o corpo e o espírito.
  2. É por isso que um texto diz: Aquele que se conhece a si próprio conhece todas as criaturas, porque todas as criaturas são ou corpo ou espírito.
  3. É por isso que a Escritura diz do ser humano que há em nós uma pessoa exterior e uma outra: a pessoa interior. 1
  4. À pessoa exterior pertence tudo aquilo que é inerente à alma, envolto em carne e misturado com ela, fazendo obra corporal comum com e dentro de cada membro, como o olho, a orelha, a língua, a mão e outros.
  5. E a Escritura chama a isso tudo a pessoa velha, a pessoa terrestre, a pessoa exterior, a pessoa inimiga, uma pessoa escrava.

Notas
  1. Tal como fez várias vezes nas suas obras latinas e alemãs, Eckhart retoma a definição clássica da "pessoa exterior" e da "pessoa interior".

    Ele compara esta, a pessoa nobre, à semente que frutificará se o mau cultivador não a sufocar. É a semente divina, a imagem de si próprio que Deus inseriu dentro da nossa alma, que pode estar bem escondida, mas nunca aniquilada. [  ]


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 3


  1. A outra pessoa que existe em nós é a pessoa interior; a Escritura chama-lhe uma pessoa nova, uma pessoa celeste, uma pessoa jovem, um amigo e uma pessoa nobre.
  2. E é nela que pensa Nosso Senhor quando diz que «uma pessoa nobre partiu para um pais distante afim de aí obter um reino, e regressou em seguida».


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 4


  1. É preciso ainda saber que São Jerónimo e os mestres em geral, dizem que, desde o início da sua existência humana, cada ser humano tem um espírito bom, um anjo, e um espírito mau, um demónio.
  2. O anjo bom convida e incentiva constantemente para o que é bom, para o que é divino, para a virtude, e para o que é celeste e eterno.
  3. O espírito mau convida e incentiva sem cessar a pessoa para o que é temporal e efémero, para o que é contrário à virtude, mau e diabólico.
  4. Esse mesmo espírito mau relaciona-se constantemente com a pessoa exterior e, por ela, lança sem cessar e em segredo armadilhas à pessoa interior, tal como a serpente se relacionou com a Senhora Eva e por intermédio dela com o homem Adão.
  5. A pessoa interior é Adão.
  6. O elemento masculino na alma é a árvore boa que sempre e sem cessar dá bons frutos, da qual fala também Nosso Senhor.
  7. É também o campo no qual Deus semeou a sua imagem e a sua semelhança e onde ele lança a boa semente, a raiz de toda a sabedoria, de todas as artes, de todas as virtudes, de toda a bondade: a semente da natureza divina.
  8. A semente da natureza divina, é o Filho de Deus, o Verbo de Deus.


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 5


  1. A pessoa exterior é a pessoa inimiga, a má, que semeou e lançou o joio.
  2. São Paulo disse dele próprio: «Eu encontro em mim aquilo que me entrava, contrário àquilo que Deus ordena, ao que Deus aconselha, ao que Deus disse e diz ainda no mais elevado, no fundo da minha alma».
  3. Noutro local, ele diz ainda gemendo: «Ai! Infeliz que eu sou! Quem me libertará desta carne e deste corpo mortal?»
  4. Noutro local ainda, ele diz que o espírito do ser humano e a carne estão constantemente opostas uma ao outro.
  5. A carne aconselha o vício e a malícia; o espírito aconselha o amor de Deus, a alegria, a paz, e todas as virtudes.
  6. Àquele que segue o espírito, que vive segundo o espírito e o seu conselho, pertence a vida eterna.
  7. A pessoa interior é aquela de quem Nosso Senhor diz que «uma pessoa nobre partiu para um pais distante afim de aí obter um reino».
  8. É a árvore boa, da qual Nosso Senhor diz que ela dá sempre bons frutos e nunca maus, porque ela quer a Bondade, inclina para a Bondade, para a Bondade tal como ela plana nela própria, sem ser tocada por isto ou aquilo.
  9. A pessoa exterior é a árvore má que nunca pode dar bons frutos.


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 6


  1. Da nobreza da pessoa interior e da indignidade da pessoa exterior, da carne, os mestres pagãos Cícero e Séneca dizem também que nenhuma alma racional existe sem Deus; a semente de Deus está em nós.
  2. Se ela tivesse um cultivador bom e sábio, laborioso, ela tanto melhor prosperaria e elevar-se-ia para Deus do qual ela é a semente, e o fruto seria semelhante à natureza de Deus.
  3. A semente da pereira cresce para se tornar numa pereira, a semente da nogueira para se torna nogueira, a semente de Deus para se tornar Deus.
  4. Mas se a boa semente tem um cultivador insensato e mau, o joio cresce, cobre e sufoca a boa semente, de forma que ela não pode chegar à luz nem se desenvolver.
  5. Orígenes, um grande mestre, disse: Visto que Deus ele próprio semeou, enterrou, gerou esta semente, ela pode bem ser coberta e escondida, ela não é nunca aniquilada nem extinta; ela é ardente, ela brilha, ela ilumina e queima e tende sem cessar para Deus.


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 7


  1. O primeiro grau da pessoa interior, da pessoa nova, disse Santo Agostinho, é quando a pessoa vive segundo o modelo das pessoas boas e santas, mas ela apoia-se ainda nas cadeiras, fica perto das paredes e alimenta-se de leite.


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 8


  1. O segundo grau, é quando daqui em diante ela não olha mais apenas para os modelos exteriores nem para as pessoas de bem, mas corre à pressa para o ensinamento e o conselho de Deus e da sabedoria divina, volta as costas à humanidade e o seu rosto para Deus, escapa aos joelhos da sua mãe e sorri para o Pai celeste.


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 9


  1. O terceiro grau, é quando a pessoa escapa cada vez mais à sua mãe, se afasta sempre daqui em diante dos joelhos dela, foge da preocupação, rejeita o medo, apesar de que, mesmo podendo agir mal e injustamente sem escandalizar ninguém, ela não tem no entanto desejo disso; porque ela está unida a Deus pelo amor e pelo bom zelo, até que Deus a leve e a introduza na alegria, na suavidade e na felicidade onde ela não pode suportar o que é dissemelhante e estrangeiro a Deus.


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 10


  1. O quarto grau, é quando ela cresce e se enraíza cada vez mais no amor e em Deus, de tal forma que ela está pronta a aceitar tudo o que é contrariedade, tentação, adversidade, e a suportar sofrer de bom grado e de boa vontade, com desejo e alegria.


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 11


  1. O quinto grau, é quando ela vive fechada por todas as partes em si própria, repousando pacificamente na riqueza e na superabundância da suprema e inexprimível Sabedoria.


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 12


  1. O sexto grau, é quando a pessoa está desprendida das imagens e transformada acima dela própria pela eternidade de Deus, quando ela chegou ao esquecimento total e perfeito da vida efémera e temporal, transformada numa imagem divina, tornada filha de Deus.
  2. Para além deste, não existe grau mais elevado, lá estão o repouso e a felicidade eternas, porque o fim da pessoa interior e da pessoa nova é a vida eterna. 1

Notas
  1. Seguindo Santo Agostinho em De vera religione, mas com mais amplitude, no desenvolvimento das imagens, Eckhart indica os seis graus de ascensão da pessoa nobre, as seis etapas que deve percorrer na sua viagem.

    A pessoa nobre imita primeiro as pessoas devotas, como uma criança que ainda não se aguenta bem em pé, e se alimenta de leite.

    No segundo grau, ela volta as costas à humanidade e procura a face divina.

    No terceiro, ela rejeita o medo, e aplica-se às coisas de Deus, unida a ele no amor.

    Em seguida enraíza-se de tal forma nele que ela está pronta para aceitar os sofrimentos de qualquer natureza.

    No quinto, ela repousa em silêncio na superabundância da suprema sabedoria.

    Chegada ao sexto grau, transformada para além de si própria na eternidade de Deus, ela esquece totalmente a vida temporal, ela tornou-se filha de Deus.

    Agostinho tinha indicado um sétimo grau que é o repouso supremo, e que não se distingue da beatitude eterna. Eckhart não fala de um tal sétimo grau, só fala de repouso e de beatitude eternas, com termos equivalentes aos de Agostinho, «porque o fim da pessoa interior e da pessoa nova é a vida eterna».

    Podia-se pensar que ele só faz aqui uma alusão à vida do além. No entanto, encavalitando as comparações, ele regressa em seguida à semente e à imagem de Deus na alma, ele multiplica os símbolos retirados a Orígenes, à Santa Escritura, à experiência das coisas humanas que representam essa imagem por vezes visível por vezes escondida. [  ]


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 13


  1. Para esta pessoa interior, esta pessoa nobre, na qual a semente de Deus está impressa e semeada – como é que esta semente, esta imagem da natureza e da essência divinas, o Filho de Deus, aparece, como é que nós a apercebemos, e como é que também de tempos a tempos ela fica escondida – o grande mestre Orígenes apresenta uma comparação: a imagem de Deus, o Filho de Deus está no fundo da alma como uma fonte viva.
  2. Mas se deitarem terra por cima dela, quer dizer o desejo terrestre, ela é entravada e coberta, por forma que ela não é mais reconhecida e não é mais vista; no entanto ela permanece viva em si própria, e quando se retira a terra, ela reaparece e bebe-se dela.
  3. O mesmo mestre diz que é feita alusão a esta verdade no primeiro livro de Moisés, onde está escrito que Abraão tinha escavado no seu campo poços de água viva, que os malfeitores encheram de terra, mas que em seguida, quando a terra foi retirada, os poços reapareceram vivos.


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 14


  1. Pode-se fazer também outra comparação.
  2. O sol brilha sem interrupção, no entanto, quando uma nuvem ou um nevoeiro se interpõe entre nós e o sol, nós não vemos a sua luz.
  3. Da mesma forma, quando a vista é fraca, doente ou velada, não se apercebe da luz.
  4. Além disso, por vezes eu apresentei uma comparação impressionante.
  5. Quando um mestre faz uma imagem de madeira ou pedra, ele não introduz a imagem na madeira, ele retira as aparas que escondiam e recobriam a imagem; ele não acrescenta nada à madeira, pelo contrário, ele retira e escava aquilo que a recobre, ele retira as escórias; brilha então aquilo que estava escondido por baixo.
  6. Tal é o tesouro escondido no campo, como diz Nosso Senhor no Evangelho.


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 15


  1. Santo Agostinho disse: «Se a alma se eleva completamente apenas para Deus, a imagem de Deus aparece e brilha, mas se a alma se volta para o exterior, mesmo pelo exercício exterior da virtude, a imagem é completamente recoberta.»
  2. É o que ensina São Paulo quando diz que as mulheres trazem a cabeça coberta e os homens a cabeça descoberta.
  3. É porque tudo o que, na alma, se volta para baixo, recebe daí um véu que a recobre, mas o que, na alma, se eleva para Deus, é a pura imagem de Deus, o nascimento de Deus sem véu, despojado na alma despojada. 1
  4. Da pessoa nobre, imagem de Deus, filho de Deus, semente da natureza divina que nunca é aniquilada em nós, apesar de poder ser recoberta, o rei David disse no saltério: «Apesar de muitas vaidades, sofrimentos e misérias assaltarem o ser humano, no entanto ele permanece na imagem de Deus, e a imagem de Deus nele».
  5. A verdadeira luz brilha nas trevas apesar de não a podermos ver.

Notas
  1. Eckhart só fala aqui uma vez em termos próprios do nascimento de Deus na alma, mas é sobre a mesma realidade espiritual que ele se exprime com outras palavras: «porque a pessoa deve abandonar todas as imagens e a si própria, afastar-se e tornar-se dissemelhante a tudo, se ela quer e deve verdadeiramente acolher o Filho e torna-se filho no seio e no coração do Pai.» «Sê um, afim de que tu possas encontrar Deus.» [  ]


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 16


  1. «Não reparem na minha tez escura», diz o Livro do Amor 1 , «eu sou bela e bem feita, mas o sol queimou-me.»
  2. O sol é a luz deste mundo, e isto significa que o que é mais elevado e o melhor entre as coisas feitas e criadas, esconde e deteriora a imagem de Deus em nós.
  3. «Retirem as escórias da prata», disse Salomão, «então o vaso mais puro vai luzir e brilhar»: a imagem, o Filho de Deus na alma.
  4. E é o que quer dizer Nosso Senhor quando fala duma «pessoa nobre que partiu», porque a pessoa deve abandonar todas as imagens e a si própria, afastar-se e tornar-se estrangeira e dissemelhante a tudo, se ela quer e deve verdadeiramente acolher o Filho e tornar-se filho, no seio e no coração do Pai.

Notas
  1. Cântico dos cânticos. ]


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 17


  1. Toda a espécie de mediação é estrangeira a Deus.
  2. «Eu sou», disse Deus, «o primeiro e o último».
  3. Não existe distinção nem na natureza de Deus nem nas Pessoas segundo a unidade da natureza delas.
  4. A natureza divina é Um, e cada Pessoa também é Um e o mesmo Um que é a natureza delas.
  5. A distinção entre o ser e a essência é compreendida como Um e é Um.
  6. É apenas lá onde esse Um não está mais em si próprio que ele recebe, possui e produz uma distinção.
  7. É por isso que no Um se encontra Deus e aquele que quer encontrar Deus deve tornar-se um.
  8. «Uma pessoa partiu», disse Nosso Senhor.
  9. Na distinção não se encontra nem o Um nem o ser, nem Deus, nem repouso, nem beatitude, nem satisfação.
  10. Sê um, afim de que tu possas encontrar Deus.
  11. E em verdade, se tu fosses verdadeiramente um, tu permanecerias um também na diversidade e a diversidade tornar-se-ia um para ti e não te poderia entravar absolutamente em nada.
  12. O um permanece igualmente um em mil vezes mil pedras tal como em quatro pedras, e mil vezes mil é tão certamente um número simples como quatro é um número (simples).


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 18


  1. Um mestre pagão disse que o um nasceu de Deus altíssimo.
  2. A sua natureza é de ser um com o Um.
  3. Quem o procura abaixo de Deus engana-se a si próprio.
  4. E em quarto lugar, diz o mesmo mestre, esse Um não tem amizade mais real que a que tem com as jovens ou virgens, como diz São Paulo: «Virgens puras, eu vos confiei e desposei ao Um».
  5. E é assim absolutamente que a pessoa deveria ser, porque Nosso Senhor disse: «Uma pessoa partiu».


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 19


  1. "Ser humano", segundo o significado do nome em latim, designa num sentido aquele que se inclina diante de Deus e se submete a ele com tudo aquilo que ele é e tudo aquilo que ele tem, que olha para cima para Deus, não para aquilo que lhe pertence, que ele sabe estar atrás de si, por baixo de si, ao lado de si.
  2. Tal é a plena e verdadeira humildade: o ser humano tem este nome a partir da terra. 1
  3. Eu não falarei mais disto.
  4. Quando se diz "ser humano", essa palavra significa também qualquer coisa de elevada acima da natureza, acima do tempo, e acima de tudo o que está voltado para o tempo ou o gosto do mundo, e eu digo a mesma coisa também do espaço e da corporalidade.
  5. Além disso, este "ser humano" não tem de uma certa maneira nada de comum com o que quer que seja, quer dizer que ele não tem nem forma nem semelhança com isto ou aquilo, e não sabe nada do vazio, de forma que não se encontra e não se percepciona em nenhuma parte dele algo de vazio, e que o vazio lhe é tão totalmente ausente por forma que se encontra unicamente nele vida pura, ser, verdade e bondade.
  6. Quem é feito assim é «uma pessoa nobre», em verdade, nem mais nem menos.

Notas
  1. Humilitas, tem a mesma raiz que húmus, terra. [  ]


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 20


  1. Há ainda um outro modo de explicação e um ensinamento para o que Nosso Senhor chama «uma pessoa nobre».
  2. Deve-se saber com efeito que aqueles que conhecem Deus sem véu conhecem as criaturas ao mesmo tempo que ele, porque o conhecimento é uma luz da alma e, por natureza, todas as pessoas aspiram ao conhecimento, porque mesmo o conhecimento das coisas más é bom.
  3. Ora os mestres dizem: Quando se conhece a criatura em si própria, isso é um conhecimento "vespertino", porque assim vê-se as criaturas por imagens com uma multidão de distinções, mas quando se conhece as criaturas em Deus, esse conhecimento chama-se e é um conhecimento "matutino" e assim contempla-se as criaturas sem nenhuma distinção, desapropriadas de toda imagem e despojadas de toda semelhança no Um que Deus é ele próprio. 1
  4. Isto é também a «pessoa nobre» de quem Nosso Senhor disse: «Uma pessoa nobre» partiu: nobre porque ela é um, e reconhece Deus e a criatura no Um.

Notas
  1. Suso retomou este texto no seu Livro da Verdade. [  ]


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 21


  1. Eu quero agora passar a outro significado daquilo que é a «pessoa nobre».
  2. Eu digo: quando a pessoa, a alma, o espírito contempla Deus, ele sabe-se e reconhece-se também como conhecedor, quer dizer: ele reconhece que contempla e reconhece Deus.
  3. Ora, pareceu a certos e parece também muito verosímil, que a flor e o núcleo da beatitude se situam no conhecimento pelo qual o espírito conhece que ele conhece Deus, porque se eu possuísse todas as delícias sem saber nada acerca delas, que me importaria, e que delícias seriam elas para mim?
  4. Portanto eu digo com segurança que não é assim.
  5. Se é verdade que, sem isso, a alma não seria bem-aventurada, a beatitude não se situa no entanto aí, porque o primeiro elemento da beatitude é que a alma contemple Deus sem véu.
  6. É daí que ela recebe todo o seu ser e a sua vida e que ela obtém tudo o que ela é no abismo de Deus e não sabe nada do conhecimento nem do amor nem do que quer que seja.
  7. Ela repousa totalmente e exclusivamente no ser de Deus, ela não conhece lá senão o Ser e Deus.
  8. Mas quando ela sabe e reconhece que contempla, conhece e ama Deus, é uma saída desse estado e um regresso ao estado primeiro segundo a ordem natural.
  9. Porque ninguém se reconhece como branco senão aquele que é realmente branco.
  10. É por isso que aquele que se reconhece como sendo branco se funde e se apoia na brancura, e ele tira o seu conhecimento não diretamente nem sem conhecimento da cor, mas ele tira o seu conhecimento da cor, e do saber que ele tem dela, do que é o branco, e ele obtém o seu conhecimento não exclusivamente da cor em si; mas antes, ele obtém o seu conhecimento e o seu saber daquilo que é colorido ou daquilo que é branco e ele reconhece-se como sendo branco.
  11. Branco é qualquer coisa de bem menor e de bem mais exterior do que a brancura.
  12. Muito diferentes são as paredes e o fundamento sobre a qual as paredes estão construídas.


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 22


  1. Os mestres dizem que o poder graças ao qual o olho vê é diferente do poder pelo qual ele reconhece aquilo que ele vê.
  2. O facto de ver, ele tira-o exclusivamente da cor, não daquilo que é colorido.
  3. Donde importa pouco que o que é colorido seja pedra ou madeira, uma pessoa ou um anjo, o essencial reside unicamente no facto de que ele tem uma cor.


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 23


  1. Da mesma forma, eu digo que a pessoa nobre pega e toma todo o seu ser, a sua vida e a sua beatitude unicamente de Deus, junto de Deus e em Deus, não do conhecimento, da contemplação e do amor de Deus ou de outras coisas semelhantes.
  2. É por isso que Nosso Senhor diz muito certamente que a vida eterna consiste em conhecer apenas Deus como sendo o único verdadeiro Deus, não em conhecer que se conhece Deus.
  3. Como é que o ser humano se conhece como conhecendo Deus, quando ele não se conhece a si próprio?
  4. Porque certamente o ser humano não se conhece a si próprio nem às outras coisas, mas unicamente apenas Deus, em verdade, quando ele se torna e é bem-aventurado na raiz e no fundo da beatitude.
  5. Mas quando a alma reconhece que ela conhece Deus, ela adquire ao mesmo tempo o conhecimento de Deus e dela própria.


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 24


  1. Ora, existe uma potência, como eu expliquei, graças à qual o ser humano vê, e uma outra, graças à qual ele sabe e reconhece que vê.
  2. É verdade que agora, aqui em baixo, em nós, esta potência pela qual nós sabemos e reconhecemos que vemos é mais nobre e mais elevada que a potência graças à qual nós vemos, porque a natureza começa a sua operação pelo mais baixo, enquanto que Deus, nas suas obras, começa pelo mais perfeito.
  3. A natureza faz o ser humano a partir da criança e a galinha a partir do ovo, mas Deus faz o ser humano antes da criança e a galinha antes do ovo.
  4. A natureza torna primeiro a madeira quente e abrasadora, e somente depois ela produz o ser do fogo, mas Deus dá primeiro o ser a todas as criaturas e em seguida no tempo, e portanto fora do tempo, separadamente, tudo o que pertence ao ser.
  5. Da mesma forma, Deus dá o Espírito Santo antes dos dons do Espírito Santo.


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 25


  1. Eu digo portanto que não há beatitude sem que o ser humano tenha consciência e saiba bem que ele contempla e conhece Deus, mas Deus quer que não seja essa a minha beatitude.
  2. Se isso é suficiente para outro, que ele fique por aí, mas eu tenho pena dele.
  3. O calor do fogo e a natureza do fogo são completamente diferentes e estranhamente distantes um do outro na natureza, apesar deles serem muito próximos um do outro no espaço e no tempo.
  4. A vista que é a de Deus e a nossa vista são absolutamente distantes e diferentes uma da outra. 1

Notas
  1. É preciso especialmente ter atenção a uma questão que poderia parecer à primeira abordagem como uma discussão de escola e que Mestre Eckhart tratou duas vezes ele próprio no seu comentário latino sobre São João: A beatitude da alma consiste na contemplação de Deus ou no conhecimento que ela tem disso?

    «Ora, pareceu a certos, e parece também muito verosímil, que a flor e o núcleo da beatitude se situam no conhecimento pelo qual o espírito conhece que conhece Deus... A beatitude não se situa no entanto aí, porque o primeiro elemento da beatitude, é que a alma contemple Deus sem véu. É daí que ela recebe todo o seu ser e a sua vida e que ela recebe tudo o que ela é no abismo de Deus e não sabe nada do amor nem do conhecimento nem do que quer que seja... Mas quando ela sabe e reconhece que ela contempla, conhece e ama Deus, é uma saída desse estado (uzslac) e um regresso ao estado primeiro (widerslac) segundo a ordem natural.»

    Nós aprendemos aqui, sem equivoco possível, que essa ultrapassagem do sexto grau, do qual Eckhart nos falou no início do seu tratado, onde a pessoa atingiu o esquecimento perfeito da vida efémera, não é apenas a vida do além, mas já (o jam de Santo Agostinho) se situa nesta vida terrestre. De outra forma, como se poderia tratar de "saída" e de "regresso"?

    Ora é notável que Suso, tão próximo do seu mestre, se não pelo caracter pelo menos pela doutrina, retomou quase textualmente a passagem Do homem nobre sobre as graças da união a Deus no seu Livro da Verdade, precisamente para defender Eckhart, e não notar nitidamente a diferença entre a doutrina de Eckhart e a do "Selvagem", representando os Begardos.

    À questão de saber se o ser humano pode conhecer essa realidade neste mundo, Suso responde: «Isso pode bem acontecer quando o corpo ainda está sobre a terra segundo a forma de falar comum, mas então o ser humano está para além do tempo».

    Mais expansivo que o seu mestre, Suso faz, mais do que ele, alusões transparentes às graças místicas. Pode-se assim considerar a resposta precedente como uma espécie de complemento àquilo que Eckhart nos disse. [  ]


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 26


  1. É por isso que Nosso Senhor tem razão em dizer que uma pessoa partiu para uma país distante afim de aí obter um reino e regressou em seguida.
  2. Esse ser humano deve ser um em si próprio e procurar esse um em si e no Um, e recebê-lo no Um, quer dizer unicamente contemplar Deus e «regressar», quer dizer saber e reconhecer que se tem um saber e um conhecimento de Deus.


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Mestre Eckhart – Tratado da Nobreza 27


  1. O profeta Ezequiel exprimiu previamente aquilo que está exposto aqui quando ele disse que uma águia poderosa, com grandes asas, com grande envergadura, coberta de todos os tipos de penas, veio à nobre montanha, agarrou a medula da árvore mais elevada, arrancou a coroa da sua folhagem e levou-a para baixo.
  2. Aquilo que Nosso Senhor chama uma pessoa nobre, o profeta chama uma grande águia.
  3. Quem é portanto mais nobre do que aquele que nasceu, duma parte do mais elevado e do melhor da criatura, e doutra parte do fundo mais íntimo da natureza divina e da solidão?
  4. «Eu quero conduzir a alma nobre na solidão e eu falarei ao teu coração», disse o Senhor no profeta Oséias.
  5. Um com o Um, um do Um, um no Um e, no Um, um eternamente. Amém. 1

Notas
  1. A data da redação do tratado Do ser humano nobre não deve ter sido muito afastada da redação do Livro da Consolação divina, cerca de 1310.

    Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Les Traités», Éditions du Seuil, Paris, 1971, p. 141-153.

    Outra tradução deste sermão pode ser encontrada em «Mestre Eckhart - Tratados e Sermões» traduzido do original alemão por Jorge Telles de Menezes, Paulinas Editora, Lisboa, 2009, p. 163-178. [  ]


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Mestre Eckhart – Sermão da Pobreza



  1. Felizes são os pobres em espírito
  2. Há duas espécies de pobreza
  3. Pobre é quem não quer nada, não sabe nada, e não tem nada
  4. É pobre aquele que não quer nada
  5. Só é pobre quem não quer nada, e não deseja nada
  6. Quando eu estava na minha causa primeira
  7. Pedir a Deus para ser desprendido de "Deus"
  8. É pobre aquele que não sabe nada
  9. Existe na alma "qualquer coisa" de onde fluem o conhecimento e o amor
  10. É pobre aquele que não possui nada
  11. A pobreza mais elevada, a pobreza mais pura e a pobreza mais clara
  12. Nesta pobreza, o ser humano reencontra o ser eterno
  13. Tudo o que eu sou, eu sou-o pela graça de Deus
  14. Eu peço a Deus que ele me liberte de "Deus"
  15. O irromper é mais nobre que a difusão
  16. É uma verdade sem véu que veio diretamente do coração de Deus



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Mestre Eckhart - Sermão da Pobreza 1


Sermão 52 - Felizes os pobres em espírito
  1. A beatitude abriu a sua boca de sabedoria e disse: «Felizes são os pobres em espírito porque o reino dos céus é deles.» 1
  2. Todos os anjos, e todos os santos, e tudo o que alguma vez nasceu, deve ficar em silêncio quando fala a sabedoria do Pai, porque toda a sabedoria dos anjos, e de todas as criaturas, é uma pura loucura diante da sabedoria insondável de Deus.
  3. Esta disse que os pobres são felizes.

Notas
  1. Por vezes chamado "Sermão da Pobreza", o Sermão 52 é um dos sermões mais famosos de Mestre Eckhart.

    Foi traduzido em latim e usado por um número de místicos posteriores, incluindo João Ruysbroec.

    O "Sermão da Pobreza" representa Eckhart no seu ponto mais desafiador.

    A organização do sermão, com a sua tripla análise da verdadeira pobreza - querer nada, saber nada, e ter nada - tem uma clareza incomum nos sermões de Mestre Eckhart.

    Parece estar entre os últimos sermões de Eckhart, possivelmente pregado em Colónia em 1327 para a Festa de Todos os Santos.

    A natureza da pobreza era um dos assuntos religiosos mais controversos dos séculos treze e catorze.

    A resposta de Eckhart ao que constitui a verdadeira pobreza caracteristicamente passa rapidamente pela pobreza exterior para explorar a pobreza interior da aniquilação da vontade que nos leva de volta para o nosso estado anterior à criação e para além dele, irrompendo até à união idêntica com Deus, para além de Deus.

    Estudos recentes mostraram que algumas frases deste sermão ecoam o livro anónimo Espelho das Almas Simples. [  ]


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Mestre Eckhart - Sermão da Pobreza 2


  1. Há duas espécies de pobreza: uma pobreza exterior, que é boa, e é necessário louvá-la altamente no ser humano que a pratica voluntariamente, pelo amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, porque ele próprio a praticou sobre a terra.
  2. Desta pobreza eu não quero falar mais por agora; mas existe ainda uma outra pobreza, uma pobreza interior, aquela que é preciso entender pelas palavras de Nosso Senhor quando ele diz: «Felizes são os pobres em espírito.»
  3. Eu peço-vos que vocês sejam assim para poderem compreender este discurso, porque eu vos digo na eterna verdade: se vocês não estiverem conformes a esta verdade, da qual nós queremos agora falar, vocês não me podem compreender. 1

Notas
  1. Este sermão é provavelmente o mais difícil, de todos os que nos foram transmitidos, de Mestre Eckhart.

    É por isso que ele previne os auditores de que se eles não estão conformes à verdade que ele vai expor, eles não o poderão compreender. Um pouco mais adiante, ele insiste para que os que não o compreendam não fiquem preocupados, e de cada vez ele exprime-se com alguma solenidade: «... Eu vos digo na eterna verdade... eu peço-vos pelo amor de Deus... » Também, no fim do sermão: «... porque é uma verdade sem véu que veio diretamente do coração de Deus».

    No entanto, quais quer que sejam as dificuldades que este texto apresenta, ele não está isolado na obra de Eckhart. Ao proceder à sua análises e a comparações, encontraremos temas que lhe são e nos são familiares. [  ]


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Mestre Eckhart - Sermão da Pobreza 3


  1. Certas pessoas perguntaram-me o que é a pobreza em si própria, e o que é um ser humano pobre.
  2. Nós queremos responder a isso. 1
  3. O bispo Alberto disse que um ser humano pobre é aquele que não se pode satisfazer com todas as coisas criadas por Deus, e são palavras certas.
  4. Mas nós diremos ainda melhor, e consideraremos a pobreza segundo um significado mais elevado: é um ser humano pobre aquele que não quer nada, e que não sabe nada, e que não tem nada.
  5. Falaremos destes três pontos, e eu peço-vos, pelo amor de Deus, de compreenderem esta verdade se puderem, e se não a compreenderem, não se preocupem, porque eu quero falar de uma tal verdade que poucas pessoas boas a podem compreender. 2

Notas
  1. A pobreza é aqui apenas o tema ocasional que permite reunir as intuições mais profundas de Mestre Eckhart: a identidade entre o fundo de Deus e o fundo do ser humano, a natureza "não-nascida" do ser humano, a dialética da "douta ignorância", a ultrapassagem de tudo o que pode ser um objeto para a vontade, a insistência sobre a vacuidade que era a nossa antes de nascermos neste mundo, a necessidade de se libertar de Deus enquanto face a face do ser humano, a felicidade como consequência da recuperação de Deus por ele próprio no ser humano. [  ]
  2. A pobreza exterior é boa, diz Eckhart, e deve ser louvada, tendo-a Nosso Senhor praticado ele próprio, mas não é dessa que ele quer falar.

    O bispo Alberto (Alberto, o Grande, foi bispo de Ratisbona em 1260, e demissionário em 1262) disse que uma pessoa pobre é aquela que não se pode contentar com todas as coisas criadas por Deus, mas ele, Mestre Eckhart, toma a pobreza segundo um significado mais elevado: é uma pessoa pobre aquela que não quer nada, que não sabe nada, e que não tem nada. [  ]


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Mestre Eckhart - Sermão da Pobreza 4


  1. Em primeiro lugar nós dizemos que é um ser humano pobre aquele que não quer nada.
  2. Certas gentes não compreendem bem este sentido; são as gentes que se agarram à penitência e aos exercícios exteriores, os quais estas gentes consideram ser importantes, porque elas se procuram neles a si próprias.
  3. Que Deus tenha piedade delas, por terem um tão fraco conhecimento da verdade divina.
  4. Estas gentes são ditas santas com base nas aparências exteriores, mas interiormente são burras, porque elas não sabem discernir a verdade divina.
  5. Estas pessoas repetem bem que um ser humano pobre é aquele que não quer nada, mas elas interpretam isso no sentido em que o ser humano deve viver sem nunca realizar em nada a sua vontade, e que para além disso se deve esforçar por realizar a muito cara vontade de Deus.
  6. Essas pessoas têm uma posição certa, porque a opinião delas é boa, nós as louvaremos portanto.
  7. Que Deus, na sua misericórdia, lhes dê o reino dos céus.
  8. Mas eu, eu digo na verdade divina que estas pessoas não são pessoas pobres, nem semelhantes a pessoas pobres.
  9. Elas estão em grande consideração aos olhos das gentes que não sabem nada de melhor, mas eu digo que são burras, que não entendem nada da verdade divina.
  10. Devido à sua boa intenção, que elas obtenham o reino dos céus, mas desta pobreza da qual nós queremos agora falar, elas não sabem nada. 1

Notas
  1. Em primeiro lugar, aquele que não quer nada.

    Eckhart pensa primeiro naqueles que se submetem a uma regra de vida severa.

    Apesar de ele lhes desejar a misericórdia divina e o reino dos céus, a condescendência com a qual ele sempre os viu vai agora até ao desprezo declarado: ele trata-os de burros, e por duas vezes.

    Os cristãos que o escutam, até ao presente, seguiram-no: eles sabem que devem renunciar à sua vontade própria, mas é-lhes sem dúvida mais difícil admitir que devem renunciar a querer realizar a vontade de Deus. [  ]


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Mestre Eckhart - Sermão da Pobreza 5


  1. Se me perguntassem o que é um ser humano pobre, que não quer nada, eu responderia: todo o tempo que o ser humano tem como sua vontade querer realizar a muito cara vontade de Deus - este ser humano não tem a pobreza da qual nós queremos falar, porque este ser humano tem uma vontade pela qual ele quer satisfazer a vontade de Deus, e essa não é a verdadeira pobreza.
  2. Porque se o ser humano deve ser verdadeiramente pobre, ele deve estar tão desprendido da sua vontade criada, como quando ele estava quando ele (ainda) não existia.
  3. Porque eu vos digo, pela verdade eterna: todo o tempo que vocês tiverem a vontade de realizar a vontade de Deus, e que vocês tiverem o desejo da eternidade, e o desejo de Deus, vocês não são pobres, porque só é um ser humano pobre aquele que não quer nada, e que não deseja nada. 1

Notas
  1. Talvez seja necessário ler a frase «... todo o tempo que vocês têm a vontade de realizar a vontade de Deus...» em função daquilo que se segue: «... e o desejo da eternidade e de Deus, vocês não são pobres, porque só é uma pessoa pobre aquela que não quer nada e não deseja nada».

    Podia-se então pensar que o predicador liga esta vontade de realizar a vontade de Deus ao desejo da eternidade bem-aventurada e de Deus.

    Não seria então o primeiro sermão que convidaria os seus auditores ao mais total desinteresse espiritual.

    No sermão 1, Intravit Iesus in templum..., ele comparou aos mercadores do Templo aqueles que realizam a vontade de Deus para obterem qualquer coisa que seja, mesmo que seja a beatitude eterna. [  ]


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Mestre Eckhart - Sermão da Pobreza 6


  1. Quando eu estava na minha causa primeira, eu não tinha Deus, e eu era a causa de mim próprio; então eu não queria nada, eu não desejava nada, porque eu era um ser livre, eu conhecia-me a mim próprio, desfrutando da verdade. 1
  2. Eu queria-me a mim próprio, e não queria nada mais; aquilo que eu queria, eu era-o, e aquilo que eu era, eu queria-o; e lá eu estava desprendido de Deus e de todas as coisas, mas quando, pela minha livre vontade, eu saí, e recebi o meu ser criado, eu passei a ter um Deus, porque antes que existissem as criaturas, Deus não era "Deus", mas ele era aquilo que ele era.
  3. Mas quando passaram a existir as criaturas, e quando elas receberam o seu ser criado, Deus não era mais "Deus" em si próprio, ele passou a ser "Deus" nas criaturas. 2

Notas
  1. «Quando eu estava na minha causa primeira, eu não tinha Deus, e eu era a causa de mim próprio; então, eu não queria nada, eu não desejava nada, porque eu era um ser livre, eu conhecia-me a mim próprio, desfrutando da verdade.

    Eu queria-me a mim próprio, e não queria nada mais; aquilo que eu queria, eu era-o, e aquilo que eu era, eu desejava-o, e lá eu estava desprendido de Deus e de todas as coisas...»

    Para compreender este texto, e alguns dos que se seguem, é preciso regressar à distinção que Mestre Eckhart estabelece entre got (Deus trinitário e criador) e diu gotheit, a Divindade, abismo sem fundo, deserto, origem, que ele nomeia aqui causa primeira.

    «A distinção entre Deus e a Divindade respeita dois aspectos - exterior e interior - sob os quais as criaturas in via concebem a mesma realidade simples, opondo dois níveis na sequência dum erro de óptica inevitável aqui em baixo» (Vladimir Lossky).

    Eckhart trata aqui da existência eterna do ser humano, anterior à criação, quando ele ainda não era mais que uma ideia no ato puro, na Origem, o bullitio, o bulício anterior a tudo, para retomar a expressão que Mestre Eckhart emprega nas suas obras latinas.

    Mas quem a compreendeu melhor, e a explicou melhor, que um dos seus primeiros e mais fieis discípulos, Henrique Suso? Ele escreve no Livro da Verdade:
    «Verdade eterna, mas como é que as criaturas existem em Deus desde toda a eternidade?
    - Elas estavam lá como no seu exemplar eterno.
    - O que devemos entender por exemplar? - É a sua essência eterna enquanto ela permite à criatura atingi-la duma maneira participada. E nota que todas as criaturas são eternamente Deus em Deus, e não tiveram lá nenhuma diferença fundamental. Elas são a mesma vida, a mesma essência, o mesmo poder enquanto elas estão em Deus; elas são o mesmo Um, e nada de menos.» [  ]
  2. «Mas quando pela minha livre vontade, eu recebi o meu ser criado, eu tive um Deus, porque antes que existissem as criaturas, Deus não era "Deus"», bem pelo contrário: ele era o que ele era.

    Continuação do comentário de Henrique Suso:
       «Mas quando as criaturas saíram de Deus, tomando o seu ser próprio, cada uma passou a ter a sua substância particular diferente, com a sua própria forma que lhe dá a sua essência natural... E por essa difusão, todas as criaturas encontraram o seu Deus, porque quando a criatura compreende que ela é uma criatura, ela reconhece o seu criador e o seu Deus.» [  ]


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Mestre Eckhart - Sermão da Pobreza 7


  1. Ora, nós dizemos que Deus, enquanto ele é "Deus", não é o fim supremo da criatura, porque enquanto ela está em Deus, a mínima criatura tem a mesma riqueza que ele.
  2. E se fosse possível que uma mosca tivesse um intelecto, e fosse capaz de procurar intelectualmente o abismo eterno do ser divino de onde ela saiu, diríamos que Deus, com tudo aquilo que ele é enquanto "Deus", não poderia dar a esta mosca plenitude e satisfação.
  3. É por isso que nós pedimos a Deus para sermos desprendidos de "Deus", e para acolhermos a verdade, e para desfrutarmos dela eternamente, lá onde os anjos mais elevados, e a mosca, e a alma são iguais, lá onde eu estava, onde eu queria aquilo que eu era, e era aquilo que eu queria.
  4. Nós dizemos portanto: se o ser humano deve ser pobre em vontade, ele deve também querer pouco, e desejar que ele quisesse e desejasse como quando ele não existia.
  5. E eis, de que maneira, é pobre o ser humano que não quer nada. 1

Notas
  1. Ora, esse Deus criador não seria capaz de satisfazer nem mesmo a mosca se, dotada de intelecto por uma das hipóteses paradoxais de Eckhart, ela procurasse o abismo eterno do ser divino de onde ela saiu.

    Ele tinha-nos dito no sermão 2, a propósito do castelo da alma:

    «Se Deus deve alguma vez penetrá-lo com o seu olhar, isto custar-lhe-ia todos os seus nomes divinos, e a propriedade das suas Pessoas. Ele tem que as deixar todas no exterior para que o seu olhar lá penetre. É preciso que ele seja o Um na sua simplicidade, sem nenhum modo nem propriedade, lá onde ele não é neste sentido nem Pai, nem Filho, nem Espírito Santo, e onde ele é no entanto uma qualquer coisa que não é nem isto nem aquilo.»

    «Ele era aquilo que ele era... uma qualquer coisa que não é nem isto nem aquilo...»

    Estas expressões reúnem-se na sua indeterminação tanto é difícil de definir o que está acima de qualquer nome: «É por isso que nós pedimos a Deus para sermos libertos de Deus, e de acolhermos a verdade, e de rejubilarmos eternamente lá onde os anjos mais elevados, e a mosca, e a alma são iguais.» [  ]


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Mestre Eckhart - Sermão da Pobreza 8


  1. Em segundo lugar, é um ser humano pobre aquele que não sabe nada.
  2. Nós dissemos por vezes que o ser humano deveria viver como se ele não vivesse nem para ele próprio, nem para a verdade, nem para Deus.
  3. Mas agora nós dizemos de modo diferente, e iremos mais longe dizendo que o ser humano (que deve ter esta pobreza) deve viver de tal forma que ele ignore mesmo que ele não vive nem para si próprio, nem para a verdade, nem para Deus; bem melhor, ele deve estar de tal forma desprendido de todo o conhecimento que ele não sabe, nem reconhece, nem sente que Deus vive nele; mais ainda, ele deve estar desprendido de todo o conhecimento que viva nele, porque quando o ser humano estava no ser eterno de Deus, nada mais vivia nele (para além do ser eterno de Deus), e o que vivia lá, era ele próprio.
  4. Nós dizemos portanto que o ser humano deve estar tão desprendido do seu próprio saber, tal como ele estava quando ele (ainda) não existia; que o ser humano deixe Deus operar aquilo que Deus quer, e que o ser humano esteja desprendido. 1

Notas
  1. Em segundo lugar, é pobre o ser humano que não sabe nada, que não sabe que vive para ele próprio, nem para a verdade, nem para Deus.

    Ele deve ser desprendido de todo o saber, e de todo o conhecimento, mesmo de saber, de reconhecer, e de sentir que Deus vive nele, «porque quando o ser humano estava no ser eterno de Deus, ninguém vivia nele, e quem vivia lá, era ele próprio».

    É preciso sem dúvida aproximar estas palavras sobre a exigência do não-saber, dos textos onde, como em Mulier, venit hora, Eckhart insiste com tanto vigor sobre a exigência de viver «sem porquê». [  ]


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Mestre Eckhart - Sermão da Pobreza 9


  1. Tudo o que veio alguma vez de Deus tem por fim uma atividade pura, mas a atividade própria do ser humano é a de amar e de conhecer.
  2. Ora, a questão coloca-se em saber no que consiste essencialmente a beatitude.
  3. Certos mestres disseram que ela reside no conhecimento, outros dizem que ela reside no amor, outros dizem que ela reside no conhecimento e no amor, e estes dizem melhor.
  4. Mas nós dizemos que ela não reside nem no conhecimento nem no amor, mas antes que existe na alma "qualquer coisa" de onde fluem o conhecimento e o amor; "aquilo" não conhece nem ama como as outras potências da alma.
  5. Aquele que sabe "aquilo", sabe onde reside a beatitude.
  6. "Aquilo" não tem nem antes nem depois, não espera que nada lhe aconteça, porque "aquilo" não pode nem ganhar nem perder.
  7. É por isso que esse "qualquer coisa" também está privado de saber que Deus age nele, mas antes: esse "qualquer coisa" desfruta ele próprio de si próprio, segundo o modo de Deus.
  8. Nós dizemos portanto que o ser humano deve estar quite e privado de Deus, de tal forma que não saiba nem conheça a ação de Deus nele; é assim que o ser humano pode possuir a pobreza.
  9. Os mestres dizem que Deus é um ser, um ser dotado de intelecto, e que ele conhece todas as coisas.
  10. Ora nós dizemos: Deus não é nem ser, nem dotado de intelecto, e ele não conhece nem isto nem aquilo.
  11. Assim portanto, Deus está liberto de todas as coisas, e é por isso que ele é todas as coisas.
  12. Aquele portanto que deve ser pobre em espírito deve ser pobre de todo o seu saber próprio, de forma que ele não saiba nada de nenhuma coisa, nem de Deus, nem da criatura, nem si próprio.
  13. É portanto necessário que o ser humano deseje não poder saber nada, nem conhecer das obras de Deus.
  14. Desta maneira o ser humano pode ser pobre do seu próprio saber. 1

Notas
  1. «Tudo o que veio alguma vez de Deus tem por fim uma atividade pura, mas a atividade própria do ser humano é a de amar e de conhecer.»

    Encontramos aqui uma questão que Mestre Eckhart abordou várias vezes: em que é que consiste essencialmente a beatitude?

    Ele nega primeiro que ela resida no conhecimento ou no amor, depois, sem dar imediatamente uma resposta positiva, ele regressa à noção do "qualquer coisa" na alma, na qual nós reconhecemos "a centelha", sobre a qual ele dá uma nova definição.

    Como todas as outras, esta só poderia ser balbuciante: «"Aquilo" não tem nem antes nem depois, não espera que nada lhe aconteça, porque "aquilo" não pode nem ganhar nem perder. É por isso que esse "qualquer coisa" também está privado de saber que Deus age nele, mas antes: esse "qualquer coisa" desfruta ele próprio de si próprio, segundo o modo de Deus.»

    Estas palavras misteriosas designam aliás a região no ser humano «na qual reside a beatitude».

    Nós deveremos provavelmente ver aí uma espécie de espreitadela extremamente discreta - é sempre assim com Eckhart - sobre as profundezas da sua experiência mística.

    Esta consistiria então em tornar-se consciente do "qualquer coisa" dentro da alma que não cessa nunca de estar unido a Deus, portanto de estar na beatitude.

    Eckhart diz, de passagem, uma palavras sobre Deus que se relacionam com o seu propósito sobre a pobreza, onde culmina o paradoxo: os mestres dizem que Deus é um ser dotado de intelecto, e que ele conhece todas as coisas.

    Ora, nós dizemos: Deus não é nem ser, nem dotado de intelecto, e ele não conhece nem isto nem aquilo, Deus está desprendido de todas as coisas, e é por isso que ele é todas as coisas.

    Estes paradoxos, de que Mestre Eckhart nunca se cansa, são apenas a retoma dos raciocínios clássicos: se chamamos «ser» às coisas que constituem o nosso universo, então é preciso dizer que Deus não é, mas se chamamos «ser» principalmente a Deus, então são as coisas que são «um puro nada».

    Nós reencontramos portanto simplesmente nestes paradoxos aquilo a que os teólogos medievais chamavam a "via negativa" e a "via afirmativa" no conhecimento de Deus.

    Estas duas tendências ressaltam muito bem numa passagem do sermão Quasi stella matutina: «Certos mestres de espírito frustre dizem que Deus é um ser puro; ele está tão elevado acima do ser, como o mais elevado dos anjos está acima de um mosquito. Eu também falaria falsamente se dissesse que Deus é um ser, como se dissesse que o sol é pálido ou negro. Deus não é isto nem aquilo... Mas quando eu disse que Deus não era um ser, e que ele estava acima do ser, com isso eu não lhe contestei o ser, pelo contrário, eu atribui-lhe um ser mais elevado.»

    Aquele que deve ser pobre em espírito não deve saber nada, de coisa nenhuma, nem de Deus, nem da criatura, nem dele próprio. [  ]


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Mestre Eckhart - Sermão da Pobreza 10


  1. Em terceiro lugar é pobre o ser humano que não possui nada.
  2. Muitas gentes disseram que a perfeição consiste em não possuir nada de bens materiais, e é bem verdade num sentido, para aquele que o faz voluntariamente.
  3. Mas esse não é o sentido em que eu penso. 1

Notas
  1. Em terceiro lugar, a pobreza mais extrema é aquela do ser humano que não tem nada.

    Muitos pensam que essa pobreza é a da pessoa que não possui nenhum bem material, é verdade para aquele que o faz voluntariamente, mas existe uma outra pobreza. [  ]


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Mestre Eckhart - Sermão da Pobreza 11


  1. Eu disse previamente que é um ser humano pobre aquele que quer não realizar a vontade de Deus, mas que vive de tal forma que está liberto quer da sua vontade própria quer da vontade de Deus, tal como ele estava quando ele (ainda) não existia.
  2. Nós dizemos desta pobreza que é a pobreza mas elevada.
  3. Em segundo lugar, nós dissemos que é um ser humano pobre aquele que não sabe nada das obras que Deus opera nele.
  4. Aquele que está assim liberto de saber e de conhecer, tanto quanto Deus está liberto de todas as coisas - é a pobreza mais pura.
  5. Mas a terceira, da qual nós queremos falar agora, é a pobreza mais clara: a do ser humano que não tem nada.


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Mestre Eckhart - Sermão da Pobreza 12


  1. Notem isto com aplicação e seriedade!
  2. Eu disse frequentemente, e os grandes mestres disseram-no também, que o ser humano deve ser liberto de todas as coisas, e de todas as obras, interiores e exteriores, de tal forma que ele possa ser um lugar próprio de Deus, onde Deus possa operar.
  3. Agora nós dizemos de modo diferente.
  4. Se o ser humano é liberto de todas as criaturas, e de Deus, e dele próprio, mas se ele ainda está tal que Deus encontra nele um lugar onde operar, nós dizemos: todo o tempo em que isto acontecer neste ser humano, este ser humano não é pobre da mais extrema pobreza.
  5. Porque, nas suas operações, Deus não visa um lugar no ser humano, onde ele possa operar: a pobreza em espírito, é que o ser humano esteja de tal forma liberto de Deus, e de todas as suas obras, que Deus, se ele quer operar na alma, seja ele próprio o lugar onde ele quer operar, e isso, ele o faz de boa vontade.
  6. Porque, quando ele encontra o ser humano tão pobre, Deus opera a sua própria obra, e o ser humano acolhe assim Deus nele, e Deus é o lugar próprio das suas operações, pelo facto de que Deus opera em si próprio.
  7. Aqui, nesta pobreza, o ser humano reencontra o ser eterno que ele (antes) foi, que ele é agora, e que ele permanecerá para sempre. 1

Notas
  1. Eckhart disse antes, assim como outros mestres, que o ser humano devia ser livre de todas as obras exteriores e interiores, afim de deixar a Deus um lugar onde ele possa agir.

    Ele fala hoje de forma diferente: a pobreza em espírito, é que o ser humano seja de tal forma liberto de Deus, e de todas as suas obras, que Deus, quando ele quer operar dentro da alma, seja ele próprio o local onde ele pode operar.

    «Aqui, nesta pobreza, o ser humano reencontra o ser eterno que ele foi, que ele é agora, e que ele permanecerá para sempre.»

    Podemos também nos perguntar se não devemos ler estas últimas linhas na perspectiva da união mística. [  ]


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