Livro da Vida Perfeita - O que é a união


  1. «Vocês têm que abandonar e perder todas as coisas» (Mt 19, 21).
  2. Quando se diz isto - como o próprio Cristo disse -, não significa que o ser humano não deve ter nada, nem fazer nada. Enquanto vive, o ser humano deve fazer alguma coisa, e agir de uma maneira ou doutra.
  3. Não, é preciso compreender estas palavras de Cristo como se segue: «Tudo o que os seres humanos - ou as outras criaturas - podem, sabem, fazem ou não fazem, não é disso que depende a união.»
  4. «Mas o que é a união?» perguntar-se-á.
  5. Ser puramente, inteiramente, simplesmente um com a simples e eterna vontade de Deus. Nada mais.
  6. Ser completamente sem vontade: que a vontade criada se escoe, se funda e se aniquile na vontade eterna, de tal forma que a vontade eterna seja a única a querer, a fazer ou a não fazer.
  7. «O que é que pode servir e ajudar o ser humano a essa união?»
  8. Não podem ser as palavras, nem as ações, nem as regras. Nem nada daquilo que as criaturas podem, sabem, fazem ou não fazem.
  9. É preciso deixar tudo, abandonar tudo. Não se pode pensar nem imaginar que uma ação, uma palavra ou uma conduta possa aqui servir ou ajudar - nem nenhuma arte, nenhuma ciência ou nada do que é criado.
  10. É preciso deixar tudo isso ser aquilo que é, e entrar na união!
  11. É bastante preciso portanto que as coisas sejam. É preciso agir, assim como não fazer nada.
  12. Assim a pessoa deve dormir e estar acordada, ir e repousar, falar e calar-se - e bastantes outra coisas que lhe são necessárias enquanto viver.

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Imitação de Cristo - Como é preciso andar na presença de Deus em verdade e em humildade


  1. Cristo: Meu filho, anda na minha presença em verdade, e procura-me sempre na simplicidade do teu coração.
  2. Aquele que caminha na minha presença em verdade não temerá nenhum ataque, a verdade libertá-lo-á das calúnias e das seduções dos maus.
  3. Se a verdade te libertar, tu serás verdadeiramente livre, e pouco te importarão os vãos discursos das pessoas.
  4. Alma: Senhor, é verdade: que seja feito em mim, por graça, segundo a tua palavra.
  5. Que a tua verdade me instrua, que ela me defenda, que ela me conserve até ao fim na via da salvação.
  6. Que ela me liberte de todos os desejos maus, de todas as afeições desregradas, e eu caminharei na tua presença com uma grande liberdade de coração.
  7. Cristo: A verdade, sou eu; eu ensinar-te-ei o que é bom, o que me é agradável.
  8. Recorda-te dos teus pecados com grande dor e um profundo arrependimento, e nunca penses que és alguma coisa por causa do bem que fizeres.
  9. Porque, sem a verdade, tu não passas de um pecador, sujeito a muitas paixões e enredado nos seus laços.
  10. De ti próprio, tu tendes sempre para o nada; um nada te abala, um nada te abate, um nada te perturba e te desencoraja.
  11. Então que tens tu de que te possas glorificar? e quantos motivos, pelo contrário, para te desprezares a ti próprio! porque tu és muito mais fraco do que aquilo que possas compreender.
  12. Que nada daquilo que tu fazes te pareça portanto alguma coisa de grande.
  13. Mas antes que aos teus olhos nada seja grande, precioso, admirável, elevado, digno de ser estimado, louvado, procurado, a não ser aquilo que é eterno.
  14. Ama acima de todas as coisas a verdade, e nunca tenhas nada mais que desprezo pela tua extrema baixeza.
  15. Não temas nada, não critiques nada e não fujas de nada tanto quanto dos teus pecados e dos teus vícios. Eles devem afligir-te mais do que todas as percas do mundo.
  16. Alguns não caminham na minha presença com um coração sincero; mas guiados por uma certa curiosidade presunçosa, eles querem descobrir os meus segredos e penetrar nas profundezas de Deus, enquanto que negligenciam ocuparem-se deles próprios e da sua salvação.
  17. Esses caiem frequentemente, por causa do seu orgulho e da sua curiosidade, em grandes faltas, porque eu me oponho a eles.
  18. Teme os julgamentos de Deus: receia a cólera to Todo-Poderoso; não perscrutes as obras do Altíssimo; mas sonda as tuas iniquidades, o mal que tantas vezes cometeste, o bem que negligenciaste.
  19. Muitos metem toda a sua devoção nos livros, outros nas imagens, outros nos sinais e marcas exteriores.
  20. Alguns têm-me frequentemente na boca, mas pouco no coração.
  21. Há outros que, aclarados e purificados interiormente, não cessam de aspirar aos bens eternos, têm desgosto pelas conversas da terra, e só se sujeitam com lástima às necessidades da natureza. Estes ouvem o que o espírito da verdade diz neles.
  22. Porque ele ensina-os a desprezar aquilo que passa, a amar aquilo que dura eternamente, a esquecer o mundo, e a desejar o céu, tanto de dia como de noite.


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Livro da Vida Perfeita - Manifestar a Verdade


  1. Eis no entanto que chega um "Adão" - ou um "diabo"... Tentando justificar-se ou encontrar uma desculpa, ele diz assim: «Cristo era, pelo que se diz, livre de qualquer eu e de qualquer amor próprio, etc. Ora é com muita frequência que ele fala de si próprio e que ele se glorifica disto ou daquilo!»
  2. Quando a Verdade quer ou realiza qualquer coisa, a sua vontade, o seu desejo e a sua ação não têm outro fim para além de fazer conhecer e compreender a Verdade.
  3. Era assim com Cristo: as suas palavras e os seus atos não tinham outro fim. E o que era o melhor e o mais útil e o que acontecia para esse fim, ele permanecia livre disso como de tudo o mais que pudesse acontecer.
  4. «Mas, dirás tu, havia então em Cristo um "porquê"?»
  5. Se tu perguntasses ao sol: «Porque é que tu brilhas?», ele responderia: «Tenho que brilhar, não posso fazer de outra forma. É a minha natureza e fazer isto é próprio de mim. Mas dessa propriedade e desse brilho eu permaneço livre.»
  6. Passa-se o mesmo com Deus e com Cristo. Tudo o que é divino, tudo o que pertence a Deus, não quer, não realiza e não deseja nada mais para além do Bem e pelo amor do Bem, sem outro "porquê".

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Imitação de Cristo - Como é preciso escutar a palavra de Deus, e como muitos não a recebem como deviam


  1. Cristo: Meu filho, ouve as minhas palavras, que são palavras cheias de suavidade, e que ultrapassam toda a ciência dos filósofos e dos sábios do mundo.
  2. «As minhas palavras são espírito e vida» (Jo 6, 64), e não devem ser interpretadas em sentido humano.
  3. Não devem servir para tirar delas vã complacência, mas devem ser escutadas em silêncio, e recebidas com humildade profunda e amor ardente.
  4. Alma: E eu disse: «Felizes daqueles que tu instruis, Senhor, e a quem tu ensinas a tua lei, afim de lhes suavizares os dias maus» (Sl 93, 12-13) e afim de não os deixares sem consolação sobre a terra.
  5. Cristo: Fui eu que, desde o princípio, instruí os profetas, diz o Senhor, e mesmo presentemente eu não deixo de falar com todos; mas muitos estão endurecidos e surdos à minha voz.
  6. A maior parte escuta o mundo em vez de escutar Deus; gostam mais de seguir os desejos da carne do que obedecer à vontade divina.
  7. O mundo promete poucas coisas, e coisas que passam, e eles servem-no com grande ardor; eu prometo bens imensos, eternos, e o coração das pessoas fica frio.
  8. Quem me serve e me obedece em todas as coisas, com tanto cuidado como o mundo e os mestres do mundo são servidos?
  9. «Envergonha-te, Sião, diz o mar» (Is 23, 4), e se tu perguntares a causa, escuta, eis o porquê: Por um pequeno lucro, empreende-se uma longa viagem; mas pela vida eterna, com dificuldade se encontra quem queira dar um passo.
  10. Procura-se o ganho mais vil: por vezes, discute-se vergonhosamente por uma moeda; por uma vaga promessa e por uma coisa de nada, não se teme a fadiga de dia e de noite.
  11. Mas, ó vergonha! por um bem imutável, por uma recompensa infinita, por uma felicidade suprema e uma glória sem fim, não nos dispomos à mínima fadiga.
  12. Servo preguiçoso e sempre a murmurar, envergonha-te pois por haver pessoas mais ardentes na sua perca que tu na tua salvação, e para quem a vaidade tem mais atração do que para ti tem a verdade.
  13. E no entanto eles são geralmente iludidos nas suas esperanças; enquanto que a minha promessa não engana, e que eu nunca me recuso àquele que se confia a mim.
  14. Aquilo que eu prometi, eu o darei; aquilo que eu disse, eu o realizarei, desde que subsistam com fidelidade no meu amor até ao fim.
  15. Sou eu que recompenso os bons, e que provo fortemente os justos.
  16. Gravem as minhas palavras no vosso coração, e meditem nelas profundamente: porque na hora da tentação, elas ser-vos-ão necessárias.
  17. Aquilo que vocês não entenderem quando lerem, vocês compreenderão no dia da minha visita.
  18. Eu tenho costume de visitar os meus eleitos de duas maneiras: pela tentação e pela consolação.
  19. E todos os dias, eu dou-lhes duas lições: uma repreendendo-lhes os defeitos, a outra exortando-os a avançarem na virtude.
  20. «Quem ouve as minhas palavras e as despreza, terá quem o julgue no último dia» (Jo 12, 48).
Oração
para pedir a graça da devoção
  1. Alma: Senhor meu Deus, tu és todo o meu bem: e quem sou eu para ousar falar-te?
  2. Eu sou o mais pobre dos teus servos, e um vil verme da terra, muito mais pobre e mais desprezível do que aquilo que eu sei e do que aquilo que eu ouso dizer.
  3. No entanto, recorda-te Senhor, que eu não sou nada, que eu não tenho nada, e que eu não posso nada.
  4. Só tu és bom, justo e santo; tu podes tudo, tu dás tudo, tu enches tudo, menos o pecador que deixas vazio.
  5. «Lembra-te das tuas misericórdias» (Sl 24, 6), e enche o meu coração com a tua graça, tu que não queres que nenhuma das tuas obras fique vazia.
  6. Como posso eu, nesta vida miserável, carregar o peso de mim próprio, se a tua misericórdia e a tua graça não me fortificarem?
  7. Não afastes de mim o teu rosto; não adies a tua visita: não me tires a tua consolação, com receio de que, privado de ti, a minha alma se transforme numa terra sem água.
  8. Senhor, ensina-me a fazer a tua vontade: ensina-se a viver uma vida humilde e digna de ti.
  9. Porque tu és a minha sabedoria, tu conheces-me na verdade, e tu conheceste-me antes de eu ter vindo ao mundo, e antes mesmo do mundo ter existido.


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Livro da Vida Perfeita - O exemplo de Cristo


  1. Tudo o que foi dito aqui da pobreza e da humildade é realmente assim na verdade: a vida e as próprias palavras de Cristo confirmam-no e provam-no.
  2. Cristo praticou e realizou todas as obras da verdadeira humildade.
  3. Vê-se na sua vida, e ele expressa-o também nas suas palavras: «Aprendam comigo, disse ele, que eu sou suave e humilde de coração» (Mt 11, 29).
  4. Ele não negligenciou nem desprezou as leis, os mandamentos, e as pessoas submetidas à Lei.
  5. Certo, ele disse que isso não era suficiente, que era preciso ir mais longe - e é bem verdade.
  6. São Paulo escreveu-o: «Cristo submeteu-se à Lei para libertar aqueles que estavam sob a Lei» (Ga 4, 4). O que quer dizer: «para os levar a algo de melhor e de mais elevado.»
  7. Cristo disse também: «Eu não vim para que me sirvam, mas para servir» (Mt 20, 28).
  8. Numa palavra, não se encontra nada mais na vida, nos atos e nas palavras de Cristo que a verdadeira pobreza, que a pura humildade, tal como acabamos de mostrar.
  9. Deve ser assim, por necessidade e por obrigação, lá onde está Deus e lá onde Deus Ele próprio é o ser humano.
  10. Porque Cristo, e o seu verdadeiro sucessor, não podem estar onde estão a riqueza e o orgulho espirituais, onde está um coração indócil e intemperado.
  11. Cristo disse: «A minha alma está cheia de tristeza até à morte» (Mt 26, 38). O que quer dizer: «ela esteve assim desde o seu nascimento no seio de Maria até à morte corporal», conforme já dissemos.
  12. Cristo disse: «Bem-aventurados os pobres em espírito - quer dizer os verdadeiros humildes - porque o reino dos céus é deles.» (Mt 5, 3) e a Verdade diz também - mesmo que isto não esteja escrito: «Infelizes e malditos os ricos em espírito e os orgulhosos de coração, porque o reino do Diabo é deles!»
  13. Sim, eis o que se encontra verdadeiramente quando Deus Ele próprio é o ser humano.
  14. Lá onde está Cristo, e o seu verdadeiro sucessor, lá estão necessariamente a verdadeira e profunda humildade, a pobreza espiritual, assim como um coração aniquilado, habitando em si próprio e cheio de sofrimentos secretos e duma desolação escondida até à morte corporal.
  15. Aquele que se imagina outra coisa está no erro e engana os outros consigo, como foi dito acima.
  16. É por isso que a natureza e o amor próprio fogem desta vida e se agarram à vida da liberdade ilusória, tal como foi exposto.

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Mestre Eckhart – Tratado do Desprendimento



Introdução
  1. O desprendimento é a mais alta e melhor virtude
  2. O desprendimento é superior ao amor
  3. O desprendimento é superior à humildade
  4. O desprendimento é superior à misericórdia
  5. Deus dá-se ao espírito desprendido
  6. O que é o desprendimento?
  7. Deus sempre esteve e está no desprendimento imutável
  8. A "pessoa exterior" e a "pessoa interior"
  9. Qual é o objeto do desprendimento?
  10. Qual é a oração do coração desprendido?
  11. A nobreza e a utilidade do desprendimento
  12. O desprendimento é preferível a tudo
  13. O sofrimento e a humildade para chegar ao desprendimento



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Mestre Eckhart – Tratado do Desprendimento


Introdução

Este tratado está construído em quatro partes:
  1. O desprendimento é a mais elevada das virtudes. É superior ao amor, à humildade e à misericórdia, os quais têm alguma relação com as criaturas, enquanto que o desprendimento não tem nada a ver com as criaturas.
  2. O desprendimento cria a maior semelhança possível do ser humano com Deus, porque a natureza de Deus tem como fundamento o seu desprendimento imutável. Este desprendimento existiu e existirá desde toda a eternidade. Este desprendimento não foi perturbado nem pela criação, nem pela incarnação; também não é perturbado pelas orações e pelas obras dos seres humanos: com efeito, em Deus não há nada de novo. Tudo nele procede da eternidade, somos nós que somos transformados quando é projetado no tempo aquilo que foi eternamente previsto em Deus.

    Cristo e a sua Mãe ficaram, também eles, no desprendimento imutável. No próprio momento da Paixão, só sofria neles a "pessoa exterior", enquanto que a "pessoa interior" não era perturbada.
  3. O objeto do desprendimento não é "nem isto nem aquilo", mas antes o puro nada. Também não é a oração, porque o ser humano verdadeiramente desprendido não pede nada, senão a conformidade com o desprendimento imutável de Deus, e a receptividade ao influxo divino. Não é a aparência exterior de Cristo, mas a conformidade com Cristo que pegou na natureza humana e a uniu em si ao desprendimento divino.
  4. O sofrimento com Cristo é o caminho mais direto que leva o ser humano ao desprendimento, sendo a humildade o fundamento sólido do desprendimento.
Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Les Traités», Éditions du Seuil, Paris, 1971, p. 157-171.


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Início » Espiritualidade » Mestre Eckhart » Tratado do Desprendimento - Introdução

Mestre Eckhart – Tratado do Desprendimento 1


Tratado do Desprendimento
  1. Eu li muitos escritos, tanto de mestres pagãos como de profetas do Antigo e do Novo Testamento, e procurei seriamente e com todo o meu zelo qual é a mais alta e melhor virtude pela qual o ser humano pode melhor e mais intimamente unir-se a Deus, e tornar-se por graça aquilo que Deus é por natureza, e pela qual o ser humano seja o mais semelhante à sua imagem quando ele estava em Deus, na qual não existia diferença entre ele e Deus, antes de Deus ter formado as criaturas.
  2. E quando eu penetro em todos esses escritos, tanto quanto pode a minha razão e quanto ela é capaz de o reconhecer, eu não encontro nada a não ser isto: o puro desprendimento acima de todas as coisas, porque todas as virtudes têm algo a ver com a criatura, enquanto que o desprendimento está liberto de todas as criaturas.
  3. É por isso que Nosso Senhor disse a Marta: Unum est necessarium, quer dizer: Marta, quem quer estar em paz e ser puro deve possuir uma coisa: o desprendimento.


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Mestre Eckhart – Tratado do Desprendimento 2


  1. Os mestres louvam grandemente o amor, como fez S. Paulo quando disse: «Qualquer obra que eu realizo, se não tenho amor, não sou nada.»
  2. Quanto a mim, eu louvo o desprendimento mais do que qualquer amor.
  3. E primeiro por esta razão: o que o amor tem de melhor, é que ele me força a amar Deus, enquanto que o desprendimento força Deus a amar-me a mim.
  4. Ora é bem mais nobre forçar Deus a vir até mim que eu me força a ir até Deus, porque Deus pode mais intimamente inserir-se em mim, e melhor unir-se a mim, do que eu me posso unir a Deus.
  5. Que o desprendimento força Deus a vir até mim, eu provo-o assim: todas as coisas gostam de estar no lugar que lhes é natural e próprio.
  6. Ora o lugar natural e próprio de Deus é a unidade e a pureza, e é isso mesmo que o desprendimento provoca.
  7. Portanto, é necessariamente preciso que Deus se dê a um coração desprendido.
  8. Em segundo lugar, eu louvo o desprendimento mais do que o amor porque o amor força-me a sofrer todas as coisas por Deus, enquanto que o desprendimento me leva a ser acessível apenas a Deus.
  9. Ora é muito mais nobre ser acessível só a Deus do que sofrer todas as coisas por Deus porque, no sofrimento, a pessoa tem um pouco a ver com a criatura que causa o sofrimento à pessoa, enquanto que o desprendimento está completamente liberto de todas as criaturas.
  10. Ora que o desprendimento apenas seja acessível a Deus, eu provo-o assim: aquilo que deve ser acolhido, deve ser acolhido em qualquer coisa.
  11. Ora o desprendimento está tão próximo do nada que nenhuma coisa é suficientemente subtil que consiga encontrar lugar no desprendimento, senão Deus apenas.
  12. Só Deus é simples e tão subtil que consegue encontrar lugar no coração desprendido.
  13. É por isso que o desprendimento só é acessível a Deus.


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Mestre Eckhart – Tratado do Desprendimento 3


  1. Os mestres também louvam mais a humildade do que muitas outras virtudes.
  2. Mas eu louvo mais o desprendimento do que qualquer humildade, e eis porquê: a humildade pode existir sem o desprendimento, enquanto que o perfeito desprendimento não pode existir sem a perfeita humildade, porque a perfeita humildade tende ao aniquilamento de si próprio.
  3. Ora o desprendimento está tão próximo do nada que não pode haver nada entre o perfeito desprendimento e o nada.
  4. É por isso que não pode haver desprendimento sem perfeita humildade.
  5. Ora duas virtudes sempre valeram mais do que uma.
  6. A segunda razão pela qual eu louvo mais o desprendimento do que a humildade, é porque a perfeita humildade se curva abaixo de todas as criaturas e que, curvando-se assim, a pessoa sai de si própria para ir em direção às criaturas, enquanto que o desprendimento permanece em si próprio.
  7. Ora sair de si não consegue ser suficientemente nobre por forma a que permanecer em si próprio não seja muito mais nobre.
  8. É por isso que o profeta David disse: Omnia gloria eius filiae regis ab intus, quer dizer: Toda a honra da filha do rei vem do interior.
  9. O desprendimento perfeito não considera de modo nenhum que se deve curvar abaixo de qualquer criatura, nem acima de qualquer criatura; ele não quer estar nem acima, nem abaixo, ele quer estar em si próprio, sem considerar o amor ou o sofrimento de quem quer que seja, ele não quer nem a igualdade, nem a desigualdade com criatura nenhuma, ele não quer nem isto nem aquilo; ele quer ser, e mais nada.
  10. Mas querer ser isto ou aquilo, ele não o quer, porque quem quer ser isto ou aquilo quer ser alguma coisa, enquanto que o desprendimento não quer ser nada.
  11. É por isso que todas as coisas estão à frente dele sem serem importunadas.
  12. Ora qualquer um poderia dizer: No entanto, todas as virtudes eram perfeitas em Nossa Senhora, portanto devia haver nela um desprendimento perfeito.
  13. Se no entanto o desprendimento é mais perfeito que a humildade, porque é que Nossa Senhora louvou a sua humildade, e não o seu desprendimento, quando ela disse: Quia respexit dominus humilitatem ancillae suae..., que dizer: Ele considerou a humildade da sua serva - então porque é que ela não disse: Ele considerou o desprendimento da sua serva?
  14. Eu respondo dizendo que em Deus há desprendimento e humildade, na medida em que nós podemos falar das virtudes de Deus.
  15. Ora tu deves saber que a amável humildade fez com que Deus se inclinasse para a natureza humana, enquanto que o desprendimento permanecia imóvel em si quando Deus se fez homem, e da mesma forma se comportou quando Deus criou o céu e a terra, como eu te explicarei em seguida.
  16. E porque Nosso Senhor, quando ele se quis fazer homem, permaneceu imóvel no seu desprendimento, a Nossa Senhora sabia bem que ele desejava dela a mesma coisa e que, nessa circunstância, ele considerava a sua humildade e não o seu desprendimento.
  17. É por isso que ela permaneceu imóvel no seu desprendimento e se louvou da sua humildade, e não do seu desprendimento.
  18. E se ela tivesse mencionado nem que fosse com uma palavra o seu desprendimento, se ela tivesse dito: Ele considerou o meu desprendimento, o desprendimento dela teria sido perturbado e não teria sido tão total nem tão perfeito, porque assim ele teria saído de si próprio.
  19. Ora qualquer saída, por mais pequena que seja, não se pode dar sem prejuízo para o desprendimento.
  20. E assim, tu tens a razão de porque é que a Nossa Senhora louvou a sua humildade, e não o seu desprendimento.
  21. É por isso que o profeta disse: Audiam quid loquatur in me dominus deus, quer dizer: Eu me calarei e escutarei o que o meu Senhor e meu Deus me disser. É como se ele dissesse: Se Deus me quer falar, que ele venha até mim, eu não quero sair.


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Mestre Eckhart – Tratado do Desprendimento 4


  1. Eu também louvo mais o desprendimento do que qualquer misericórdia, porque a misericórdia consiste em que a pessoa saia de si própria para se dirigir para as misérias do seu próximo, e que o seu coração fique perturbado.
  2. Com o desprendimento isso não acontece, ele permanece em si próprio, e não se deixa perturbar por nada.
  3. Porque sempre que uma coisa pode perturbar uma pessoa, esta não está tal como deve estar.
  4. Em resumo, quando eu considero todas as virtudes, eu não encontro nenhuma que seja tão isenta de defeito, e que una tanto a Deus, como o desprendimento.


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Mestre Eckhart – Tratado do Desprendimento 5


  1. Um mestre, chamado Avicena, disse que a nobreza do espírito que permanece desprendido é tão grande que tudo aquilo que ele contempla é verdadeiro, que tudo aquilo que ele deseja lhe é concedido, e que tudo aquilo que ele ordena lhe é obedecido.
  2. E tu deves saber em verdade: quando o espírito livre permanece num verdadeiro desprendimento, ele constrange Deus a vir ao seu ser, e se ele pudesse permanecer sem forma e sem nenhum acidente, ele tomaria o ser próprio de Deus.
  3. Ora Deus não pode dar isto a ninguém que não seja a ele próprio; é por isso que Deus não pode fazer mais nada pelo espírito desprendido que não seja dar-se a si próprio a ele.
  4. E o ser humano que permanece assim, num total desprendimento, é de tal forma levado para a eternidade que nada de efémero o pode mover, que não se submete a nada do que é carnal, e é dito morto para o mundo porque não tem gosto para nada de terrestre.
  5. Era o que pensava S. Paulo quando disse: «Eu vivo, mas no entanto eu não vivo: é Cristo que vive em mim.»


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Mestre Eckhart – Tratado do Desprendimento 6


  1. Ora tu perguntarás o que é o desprendimento visto que ele é tão nobre em si mesmo?
  2. Tu deves saber aqui que o verdadeiro desprendimento consiste apenas em que o espírito permaneça tanto insensível a todas as vicissitudes da alegria e do sofrimento, da honra, do preconceito e do desprezo quanto uma montanha de chumbo é insensível a um vento ligeiro.
  3. Este desprendimento imutável conduz o ser humano à maior semelhança com Deus.
  4. Porque Deus é Deus devido ao seu desprendimento imutável, e é também do desprendimento que ele obtém a sua pureza, a sua simplicidade e a sua imutabilidade.
  5. E é por isso que, se o ser humano se deve tornar semelhante a Deus, na medida em que uma criatura pode ter uma semelhança com Deus, será pelo desprendimento.
  6. Este conduz o ser humano à pureza, da pureza à simplicidade, da simplicidade à imutabilidade; daí resulta uma semelhança entre Deus e o ser humano, mas é necessário que essa semelhança seja o efeito da graça, porque a graça desprende o ser humano de todas as coisas temporais, e purifica-o de todas as coisas passageiras.
  7. E sabe: estar vazio de todas as criaturas, é estar cheio de Deus, e estar cheio de todas as criaturas, é estar vazio de Deus.


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Mestre Eckhart – Tratado do Desprendimento 7


  1. Ora tu deves saber que, desde toda a eternidade, Deus esteve e está ainda nesse desprendimento imutável.
  2. E sabe: quando Deus criou o céu e a terra e todas as criaturas, isso não mexeu mais com o seu desprendimento imutável, do que se nenhuma criatura alguma vez tivesse sido criada.
  3. Digo mais: todas as orações e as boas obras, que o ser humano possa realizar no tempo, perturbam tanto o desprendimento de Deus, como se nunca orações e boas obras tivessem sido realizadas no tempo; e Deus não é menos generoso, nem bem disposto para o ser humano, do que se este nunca tivesse rezado ou realizado boas obras.
  4. Digo ainda mais: quando o Filho, na divindade, se quis tornar homem, tornou-se e sofreu o martírio, sem que o desprendimento imutável de Deus fosse mais perturbado, do que se ele nunca se tivesse feito homem.
  5. Tu poderás dizer: Eu compreendo bem que todas as orações e todas a boas obras sejam perdidas porque Deus não as acolhe de tal modo que qualquer um o possa perturbar com elas, mas diz-se no entanto que Deus quer que lhe sejam pedidas todas as coisas.
  6. Aqui, tu deves escutar-me bem e compreender corretamente, se puderes, que Deus, no seu primeiro olhar eterno - se nós podermos admitir aqui um primeiro olhar - viu todas as coisas tais quais elas se deviam produzir, e viu nesse mesmo olhar quando e como ele queria formar as criaturas, e quando o Filho se queria tornar homem e sofrer; ele viu também a mais pequena oração, e a mais pequena boa obra que o ser humano devia realizar; ele viu que oração, e que piedade ele queria e devia atender; ele viu que tu vais querer amanhã invocá-lo e rezar-lhe com seriedade, e Deus não quer atender amanhã a tua invocação e a tua oração, porque ele a atendeu na sua eternidade antes de tu seres um ser humano.
  7. Mas se a tua oração não é insistente e séria, Deus não quer agora recusar de a atender, porque ele já recusou na sua eternidade.
  8. E assim Deus viu todas as coisas no seu primeiro olhar eterno, e Deus não cria nada de novo, tendo sido todas as coisas realizadas por ele de antemão.
  9. E assim, Deus permanece sempre no seu desprendimento imutável; no entanto, a oração e as boas obras dos seres humanos não são no entanto perdidas, porque aquele que faz o bem é remunerado, e aquele que faz o mal é remunerado em consequência.
  10. Foi o que disse S. Agostinho no quinto livro Da Trindade, no primeiro capítulo: Deus autem..., quer dizer: Deus nos guarde de dizer que ele ama alguém no tempo, porque para ele nada é passado nem futuro: ele amou todos os santos antes do mundo ter sido criado, tais como ele os viu de antemão.
  11. E quando chega o tempo, em que ele torna visível no tempo aquilo que ele viu na eternidade, as gentes imaginam que Deus sentiu por eles um amor novo; e da mesma forma quando ele está colérico ou concede um bem, nós somos transformados e ele permanece imutável, da mesma forma que o sol magoa os olhos doentes e faz bem aos olhos sãos, e no entanto a luz do sol permanece imutável em si própria.
  12. S. Agostinho trata deste assunto no livro doze Da Trindade, capítulo quatro: Nam deus non ad tempus videt, nec aliquid fit novi in eius visione: Deus não vê segundo o tempo, e nele também não há uma visão nova.
  13. Isidoro fala no mesmo sentido no livro Do Bem supremo: «Muitas gentes perguntam o que fazia Deus antes de criar o céu e a terra, ou então quando é que Deus teve a vontade nova de formar as criaturas?»
  14. E ele responde assim: «Nunca houve em Deus uma vontade nova, porque apesar da criatura não existir em si própria tal como existe agora, ela estava eternamente em Deus e na razão de Deus.»
  15. Deus não criou o céu e a terra como nós dizemos no tempo: «Que assim seja!» Porque todas as criaturas estão expressas no Verbo eterno.
  16. Nós podemos ainda citar o que o Senhor disse a Moisés quando Moisés lhe perguntou: «Senhor, se o Faraó me perguntar quem tu és, o que devo responder?» O Senhor respondeu: «Diz-lhe: Aquele que é, enviou-me.» Quer dizer, aquele que é imutável em si, enviou-me.


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Mestre Eckhart – Tratado do Desprendimento 8


  1. Ora qualquer um poderia dizer: Cristo estava também num desprendimento imutável quando disse: "A minha alma está triste até à morte"?
  2. E Maria, quando estava ao pé da cruz - e portanto fala-se muito da sua lamentação - como é que tudo isto se pode concordar com o desprendimento imutável?
  3. Aqui, tu deves saber o que dizem os mestres; dentro de cada ser humano estão duas pessoas diferentes; uma chama-se pessoa exterior, é o ser sensitivo; é servido pelos cinco sentidos, e no entanto a pessoa exterior atua pela potência da alma.
  4. A outra pessoa chama-se interior, é a interioridade do ser humano.
  5. Ora tu deves saber que um ser humano espiritual que ama Deus não faz apelo às potências da alma na pessoa exterior, a não ser quando os cinco sentidos têm absolutamente necessidade, e a interioridade não se volta para os cinco sentidos exceto na medida em que é o chefe e o guia dos cinco sentidos, e vigia sobre eles para que eles não se entreguem ao seu objeto segundo a animalidade, como fazem certas gentes que vivem segundo a sua voluptuosidade carnal tal como fazem os animais sem razão, e tais gentes chamam-se mais verdadeiramente animais que seres humanos.
  6. E todas as potências que a alma possui, para além daquilo que a alma dá aos cinco sentidos, as suas potências, a alma dá-os inteiramente à pessoa interior, e quando esse ser humano se volta para qualquer coisa elevada e nobre, a alma retira para si todas as potências que emprestou aos cinco sentidos, e o ser humano é privado dos seus sentidos e arrebatado, porque o seu objeto é uma imagem intelectual ou qualquer coisa intelectual sem imagem.
  7. Mas aprende que Deus espera de todo o ser humano espiritual que ele ame com todas as potências da alma. Ele disse com efeito: "Ama o teu Deus com todo o teu coração."
  8. Ora certas pessoas consomem absolutamente todas as potências da alma na pessoa exterior.
  9. São aquelas que voltam todos os seus sentidos, e a sua razão, para os bens passageiros e que não sabem nada da pessoa interior.
  10. Ora tu deves saber que a pessoa exterior pode ter uma atividade, enquanto que a pessoa interior pode permanecer totalmente livre e insensível.
  11. Ora no Cristo também existia uma pessoa exterior e uma pessoa interior, da mesma forma na Nossa Senhora.
  12. E quando Cristo e a Nossa Senhora falavam de coisas exteriores, eles faziam-no segundo a pessoa exterior, enquanto que a pessoa interior permanecia num desprendimento imutável.
  13. Assim, quando Cristo disse: "A minha alma está triste até à morte", e quando a Nossa Senhora se lamentava e o que quer que ela pudesse dizer ou fazer, a sua interioridade permanecia num desprendimento imutável.
  14. Eis uma comparação: uma porta abre-se e fecha-se sobre um gonzo.
  15. Ora eu comparo a prancha exterior da porta à pessoa exterior, e comparo o gonzo à pessoa interior.
  16. Ora conforme a porta se abre ou fecha, a prancha exterior volta-se para aqui e para acolá; no entanto o gonzo permanece imóvel no seu lugar e não muda nunca apesar disso.
  17. Passa-se o mesmo aqui, se tu compreenderes bem.


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Mestre Eckhart – Tratado do Desprendimento 9


  1. Ora eu pergunto aqui qual é o objeto do puro desprendimento.
  2. Eu respondo assim: nem isto nem aquilo é o objeto do puro desprendimento.
  3. Ele repousa no nada absoluto, e eis porque é assim: o puro desprendimento situa-se no cume.
  4. Ora está no cume aquele em quem Deus pode agir segundo a sua absoluta vontade.
  5. Ora Deus não pode agir em todos os corações segundo a sua absoluta vontade, porque apesar de Deus ser omnipotente, ele no entanto só pode agir se encontra ou opera a disponibilidade.
  6. E eu digo "opera" por causa de S. Paulo, porque Deus não encontrou nele disponibilidade, mas preparou-o infundindo-lhe a graça.
  7. É por isso que eu digo: Deus age conforme encontra a disponibilidade.
  8. A sua operação é diferente no ser humano e na pedra.
  9. Nós encontramos uma comparação na natureza; quando se aquece um forno e quando se mete dentro uma massa de aveia, uma de cevada, uma de centeio e uma de trigo, há um mesmo calor no forno, e no entanto ele não atua da mesma forma nas massas; porque uma torna-se num bom pão, a outra é mais grosseira, a terceira ainda mais grosseira.
  10. E a culpa não é do calor, a culpa é da matéria que é diferente.
  11. Da mesma forma, Deus não opera da mesma maneira em todos os corações; ele opera segundo a disponibilidade e a receptividade que encontra.
  12. Se tal coração contém isto ou aquilo, pode haver no "isto ou aquilo" qualquer coisa que faz com que Deus não possa agir segundo o modo mais elevado.
  13. Para que o coração esteja disponível para o mais elevado, é preciso portanto que ele repouse no puro nada, e é essa também a maior possibilidade que pode ser.
  14. Como o coração desprendido se encontra no cume, é preciso que ele repouse no nada, porque é aí que se encontra a maior receptividade.
  15. Eis uma comparação na natureza. Quando eu quero escrever numa tabuinha de cera, por mais nobre que seja o que está escrito na tabuinha, ela não pode fazer com que eu não fique constrangido, por motivo de eu não poder escrever nela, e se no entanto eu quiser escrever, é preciso que eu apague e suprima o que está na tabuinha.
  16. E a tabuinha nunca está mais própria para a escrita que quando não tem nada escrito nela.
  17. Da mesma forma, se Deus deve escrever no meu coração segundo o modo mais elevado, é preciso que saia do coração tudo o que se pode nomear isto ou aquilo, e tal é o coração desprendido.
  18. Então Deus pode agir segundo o modo mais elevado, e segundo a sua vontade suprema.
  19. É por isso que o objeto do coração desprendido não é nem isto nem aquilo.


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Mestre Eckhart – Tratado do Desprendimento 10


  1. Ora eu pergunto ainda: qual é a oração do coração desprendido?
  2. Eu respondo dizendo que a pureza do desprendimento não pode rezar, porque aquele que reza deseja obter qualquer coisa ou que Deus lhe retire qualquer coisa.
  3. Ora o coração desprendido não deseja nada e também não tem nada de que queira ser liberto.
  4. É por isso que ele está desprendido de qualquer oração, e a sua oração não é nada mais que estar conforme a Deus. Eis toda a sua oração.
  5. Neste sentido nós podemos citar o que diz S. Dioniso sobre as palavras de S. Paulo: "Todos correm para obter a coroa, e no entanto ela só é atribuída a um único"; todas as potências da alma correm para obter a coroa, e no entanto ela só é atribuída ao que é essência.
  6. Dioniso diz portanto: "Esta corrida não consiste em nada mais que em se afastar de todas as criaturas para se unir ao Incriado."
  7. E quando a alma chega a isso, perde o seu nome e Deus atrai-a a ele, de tal forma que ela não é mais nada em si, da mesma forma que o sol atrai a si a aurora, de tal forma que ela não é mais nada.
  8. Nada mais leva o ser humano até lá que o puro desprendimento.
  9. Nós podemos ainda citar aqui as palavras de S. Agostinho: a alma tem uma entrada secreta na natureza divina onde todas as coisas não são mais nada para ela.
  10. Na terra, esta entrada não é nada mais que o puro desprendimento.
  11. E quando o desprendimento chega ao seu cume, o seu conhecimento torna-o desconhecedor, o amor torna-o não amante, e a luz torna-o tenebroso.
  12. Nós podemos ainda citar aqui o que diz um mestre: os pobres em espírito são aqueles que abandonaram todas as coisas a Deus, tal como ele as tinha quando nós não existíamos.
  13. Só pode agir assim um coração puro e desprendido.
  14. Que Deus se compraz mais num coração desprendido que em todos os outros corações, nós constatamos nisto, porque se tu me perguntas: O que procura Deus em todas as coisas, eu respondo-te pelo Livro da Sabedoria. Ele diz lá: "Eu procuro o repouso em todas as coisas."
  15. Ora não existe repouso completo em nenhum sítio, senão no coração desprendido.
  16. É por isso que Deus gosta mais de estar lá do que noutras virtudes ou noutras coisas.
  17. Tu deves saber também que quanto mais o ser humano se esforça por se tornar acessível ao influxo divino, mais ele é bem-aventurado, e aquele que se pode colocar na suprema disponibilidade fica também na suprema beatitude.
  18. Ora nada se pode tornar acessível ao influxo divino senão na conformidade com Deus, porque quanto mais um ser humano é um com Deus, mais ele é acessível ao influxo divino.
  19. Ora a conformidade com Deus provém de que o ser humano se submeta a Deus, e quanto mais o ser humano se submete à criatura, menos está conforme a Deus.
  20. Ora o coração puro e desprendido está liberto de todas as criaturas.
  21. É por isso que ele está totalmente submetido a Deus; assim, ele está na perfeita conformidade com Deus e totalmente acessível ao influxo divino.
  22. É o que pensava S. Paulo quando dizia: "Revistam-se de Jesus Cristo."
  23. Ele quer dizer: pela conformidade com Cristo, e revestir-se dele não se pode fazer senão pela conformidade com Cristo.
  24. E sabe: quando Cristo se fez homem, ele não revestiu apenas um homem, ele revestiu a natureza humana.
  25. É por isso que: desprende-te de todas as coisas, ficará somente aquilo que Cristo revestiu, e assim tu te terás revestido de Cristo.


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Mestre Eckhart – Tratado do Desprendimento 11


  1. Aquele que quer reconhecer a nobreza e a utilidade do desprendimento perfeito, que considere as palavras que Cristo pronunciou sobre a sua humildade quando disse aos seus discípulos: "É necessário que eu vos deixe, porque se eu não vos deixo, o Espírito Santo não virá até vós."
  2. É como se ele dissesse: Vocês tiveram demasiada alegria com a minha presença, é por isso que vocês não podem receber a alegria perfeita do Espírito Santo.
  3. Rejeitem portanto as imagens e unam-se ao Ser sem forma, porque a consolação espiritual de Deus é subtil, é por isso que ela só se oferece àquele que rejeita a consolação carnal.


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Mestre Eckhart – Tratado do Desprendimento 12


  1. Notem bem, gentes de razão. Nada é mais alegre que aquele que se encontra no maior desprendimento.
  2. Nenhuma consolação segundo a carne e o corpo pode existir sem dano espiritual, "porque a carne deseja contra o espírito e o espírito contra a carne".
  3. É por isso que aquele que semeia na carne um amor desordenado recolhe a morte eterna, e aquele que semeia no Espírito um amor verdadeiro recolhe no Espírito a vida eterna.
  4. Quanto mais depressa portanto o ser humano foge das criaturas, mais depressa o Criador acorre para ele.
  5. Notem, vocês todos, gentes de razão. Visto que já a alegria, que poderia causar a presença de Cristo segundo a carne, nos impede de sermos acessíveis ao Espírito Santo, com bem mais forte razão o desejo desordenado da consolação passageira nos impede de acedermos a Deus.
  6. É por isso que o desprendimento é preferível a tudo, porque ele purifica a alma, clarifica a consciência, inflama o coração, desperta o espírito, acelera o desejo, faz conhecer Deus, separa da criatura e une-se a Deus.


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Mestre Eckhart – Tratado do Desprendimento 13


  1. Notem bem, vocês todos, gentes de razão. O animal mais rápido que nos conduz a esta perfeição é o sofrimento, porque ninguém saboreia mais a suavidade eterna que aqueles que estão com Cristo na maior amargura.
  2. Nada é mais amargo que sofrer, mas nada é duma suavidade mais melífica do que ter sofrido.
  3. Diante das gentes, nada desfigura tanto o corpo como o sofrimento, mas diante de Deus nada orna tanto a alma como ter sofrido.
  4. O fundamento mais sólido que pode sustentar essa perfeição é a humildade, porque aquele cuja natureza se arrasta aqui em baixo no rebaixamento mais profundo, a partir desse o espírito levanta voo para as alturas supremas da divindade, porque o amor traz o sofrimento e o sofrimento traz o amor.
  5. Que aquele que deseja chegar ao perfeito desprendimento procure portanto a perfeita humildade, e ele se aproximará assim da divindade.
  6. Que o supremo desprendimento, Deus ele próprio, nos ajude todos a chegar até lá. Amém.


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Imitação de Cristo - A verdade fala dentro de nós sem ruído de palavras


  1. Alma: «Fala Senhor, que o teu servo escuta» (1Rs 3, 9).
  2. «Eu sou o teu servo; dá-me a inteligência, afim de que eu saiba quais são os teus preceitos» (Sl 118, 125).
  3. «Inclina o meu coração para as palavras da tua boca; que elas caiam sobre mim como um suave orvalho» (Sl 118, 36; Dt 32, 2).
  4. Os filhos de Israel diziam antigamente a Moisés: «Fala-nos, e nós te escutaremos; mas que o Senhor não nos fale, porque podemos morrer» (Ex 20, 19).
  5. Não é essa, Senhor, não é essa a minha oração; mas pelo contrário, eu imploro-te como fez o profeta Samuel, com um desejo humilde, dizendo: «Fala Senhor, que o teu servo escuta» (1Rs 3, 9).
  6. Que Moisés não me fale, nem nenhum dos profetas, mas fala antes tu, Senhor meu Deus, tu que és a luz de todos os profetas, e o espírito que os inspirou.
  7. Sem eles, tu podes sozinho penetrar toda a minha alma com a tua verdade; mas sem ti, eles não podem fazer nada.
  8. Eles podem dizer palavras, mas não podem torná-las eficazes.
  9. A linguagem deles é sublime; mas se tu te calares, eles não conseguem aquecer o coração.
  10. Eles expõem a letra, mas tu dás o sentido.
  11. Eles propõem os mistérios, mas tu quebras o selo que impede a sua compreensão.
  12. Eles publicam os teus mandamentos, mas tu ajudas a cumpri-los.
  13. Eles mostram a via, mas tu dás as forças para caminhar.
  14. Eles só atuam no exterior, mas tu esclareces e ensinas os corações.
  15. Eles regam exteriormente, mas tu dás a fecundidade.
  16. As palavras deles soam aos ouvidos, mas tu abres a inteligência.
  17. Portanto, que Moisés não me fale; mas tu, Senhor, meu Deus, verdade eterna, para que eu não morra sem ter dado fruto, se for só admoestado no exterior e não inflamado no interior.
  18. Para que a tua palavra não seja a minha condenação, por ter sido ouvida sem ter sido compreendida, por ter sido conhecida sem ter sido amada, por ter sido acreditada sem ter sido cumprida.
  19. «Fala-me», portanto, «Senhor, que o teu servo escuta» (1Rs 3, 9), porque «tens palavras de vida eterna» (Jo 6, 69).
  20. Fala-me para consolares um pouco a minha alma, para me ensinares a reformar a minha vida, fala-me para o louvor, a glória, e a honra eterna do teu nome.


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