Imitação de Cristo - Do pequeno número daqueles que amam a Cruz de Cristo


  1. Há muitos que desejam o reino celeste de Jesus, mas poucos consentem em carregar a sua Cruz.
  2. Muitos desejam as suas consolações, mas poucos amam os seus sofrimentos.
  3. Ele encontra muitos companheiros da sua mesa, mas poucos da sua abstinência.
  4. Todos querem partilhar a sua alegria, mas poucos querem sofrer alguma coisa por ele.
  5. Vários seguem Jesus até à fração do pão, mas poucos até beberem o cálice da sua paixão.
  6. Vários admiram os seus milagres; mas poucos provam a ignomínia da sua Cruz.
  7. Vários amam Jesus enquanto não lhes acontece nenhuma adversidade.
  8. Vários o louvam e bendizem, enquanto recebem as suas consolações.
  9. Mas se Jesus se esconde ou se afasta por um momento, eles caem no murmúrio ou no abatimento excessivo.
  10. Mas aqueles que amam Jesus por Jesus e não por eles próprios, tanto o bendizem em todas as tribulações e na angústia do coração, como nas consolações mais suaves.
  11. E mesmo se ele nunca mais os quisesse consolar, mesmo assim eles sempre o louvariam, eles sempre lhe renderiam ações de graças.
  12. Oh! o que não pode o amor de Jesus, quando é puro e sem mistura de amor nem de interesse próprio!
  13. Não são mercenários aqueles que procuram sempre consolações?
  14. Não provam que se amam mais a si próprios que a Jesus Cristo, aqueles que pensam sempre nos seus ganhos e nas suas vantagens?
  15. Onde se encontrará alguém que queira servir Deus por Deus apenas?
  16. Raramente se encontra uma pessoa bastante avançada nas vias espirituais que esteja despojada de tudo.
  17. Porque o verdadeiro pobre de espírito, desprendido de todas as criaturas, quem o encontrará?
  18. «O seu valor excede tudo o que vem de longe e dos últimos confins da terra» (Pr 31, 10).
  19. Se o ser humano der tudo o que possui, ainda não é nada.
  20. Se ele fizer uma grande penitência, ainda é pouco.
  21. E se ele abraçar todas as ciências, ainda está longe.
  22. E se ele tiver uma grande virtude e uma piedade fervorosa, falta-lhe ainda muito, falta-lhe uma coisa soberanamente importante.
  23. O quê? É que depois de ter abandonado tudo, ele se abandone a si próprio e se despoje inteiramente do amor de si.
  24. É, por fim, que depois de ter feito tudo o que sabe que deve fazer, ainda assim pense que não fez nada.
  25. Que ele estime como sendo pouco aquilo que se poderia considerar como uma coisa grande, e que com toda a sinceridade ele confesse que é um servidor inútil, segundo a palavra da Verdade: «Depois de terem feito o que vos foi ordenado, digam: Somos servos inúteis» (Lc 17, 10).
  26. Então ele será verdadeiramente pobre e separado de tudo em espírito, e ele poderá dizer com o profeta: «Sim, sou pobre e só no mundo» (Sl 24, 16).
  27. No entanto, ninguém é mais rico, mais poderoso, mais livre, que aquele que sabe abandonar tudo e a si próprio, e colocar-se em último lugar.


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Livro da Vida Perfeita - Viver da vida de Cristo


  1. Existe, no entanto, meios para aceder, como se disse, à vida de Cristo.
  2. Naquele momento, naquele local onde Deus e o ser humano estão de tal forma unidos e que se pode dizer com verdade - e a própria Verdade o confirma -: «Esse verdadeiro e perfeito Deus, esse verdadeiro e perfeito ser humano são só um»;
  3. Naquele momento, naquele local onde o ser humano se apaga de tal forma diante de Deus que Deus ele próprio se torna ser humano, e no entanto permanece Deus;
  4. Naquele momento, naquele local onde Deus atua sem descanso e faz - ou se abstém de fazer - sem nenhum «eu», «me» ou «meu»;
  5. É «naquele momento», «naquele local» que está verdadeiramente Cristo, e em nenhum outro sítio.
  6. É «aí» que está o verdadeiro e perfeito ser humano.
  7. Prazer e dor, bem-estar e sofrimento - tudo aquilo que pode ser sentido e experimentado no interior ou no exterior - aí são perfeitamente sentidos e experimentados.
  8. E porque então Deus ele próprio é um ser humano, Deus sente e conhece então o bem-estar, o sofrimento, etc.
  9. Um ser humano que não é Deus, sente e conhece tudo o que traz ao ser humano bem-estar ou sofrimento, e sobretudo aquilo que lhe é contrário.
  10. Da mesma forma, um ser humano que é um com Deus - um ser humano onde Deus ele próprio é o ser humano - sente e experimenta tudo o que é contrário a Deus, mas também tudo o que é contrário ao ser humano.
  11. Mas dentro de um tal ser humano, Deus é tudo, e o ser humano ele próprio está aniquilado. E passa-se o mesmo com aquilo que é contrário ao ser humano: o seu sofrimento pessoal está completamente aniquilado em face daquilo que é contrário a Deus e que é causa de sofrimento para Ele. E isto vai durar tanto quanto durar a vida corporal e sensível.
  12. Observa-se também que esse Um no qual Deus e o ser humano estão unidos é livre de si próprio, de todos os seres humanos e de todas as coisas: ele existe por causa de Deus apenas, e não por causa do ser humano e das criaturas.
  13. Aquilo que é próprio de Deus é ser sem isto nem aquilo, sem eu nem amor próprio, nem nada desse género.
  14. Pelo contrário, o que é próprio da criatura e da natureza é que ela se procure a si própria e ao seu, isto e aquilo, aqui e acolá - que ela meta a sua vontade em tudo aquilo que ela faça e não faça.
  15. Quando a criatura e o ser humano abandonam e deixam aquilo que lhes é próprio - o eu deles e o amor próprio deles -, Deus entra neles com aquilo que lhe é próprio, quer dizer a sua Felicidade.

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Imitação de Cristo - Do reconhecimento pela graça de Deus


  1. Porque procuras tu o repouso visto que nasceste para o trabalho?
  2. Dispõe-te à paciência em vez de te dispores às consolações, e a carregares a cruz em vez de saboreares a alegria.
  3. Que pessoa do mundo não receberia com satisfação as alegrias e as consolações espirituais, se as pudesse desfrutar sempre?
  4. Porque as consolações espirituais ultrapassam todas as delícias do mundo e todas as volúpias da carne.
  5. Todas as delícias do mundo são ou vergonhosas ou vãs; as delícias espirituais são apenas suaves e castas, nascidas das virtudes e dispensadas por Deus aos corações puros.
  6. Mas ninguém pode desfrutar à sua vontade das consolações divinas, porque a tentação nunca cessa durante muito tempo.
  7. Uma falsa liberdade de espírito e uma grande confiança em si formam um grande obstáculo às visitas vindas do alto.
  8. Deus concede ao ser humano um grande bem ao dar-lhe a graça da consolação; mas o ser humano faz um grande mal quando não agradece a Deus esse dom e não o atribui completamente a ele.
  9. Se a graça não escorre abundantemente sobre nós, é porque nós somos ingratos para com o seu autor, e porque nós não subimos até à sua fonte primeira.
  10. Porque a graça nunca é recusada a quem a recebe com gratidão, e Deus geralmente dá ao humilde aquilo que tira ao soberbo.
  11. Eu não quero a consolação que me tira a compunção; eu não aspiro à contemplação que conduz ao orgulho.
  12. Porque tudo o que é elevado não é santo; tudo o que é suave não é bom; todo o desejo não é puro; tudo o que é caro ao ser humano não é agradável a Deus.
  13. Eu gosto duma graça que me torna mais humilde, mais vigilante, mais pronto a me renunciar a mim próprio.
  14. O ser humano instruído pelo dom da graça e pela sua privação não ousará atribuir nenhum bem a si próprio, mas antes confessará a sua indigência e a sua nudez.
  15. «Dá a Deus o que é de Deus» (Mt 22, 21); e o que é de ti, não o atribuas senão a ti.
  16. Presta glória a Deus pelas suas graças; e reconhece que não tendo nada de teu senão o pecado, nada te é devido senão a pena do pecado.
  17. Põe-te sempre em último lugar e o primeiro te será dado; porque o que está mais elevado apoia-se sobre o que está mais abaixo.
  18. Os maiores santos aos olhos de Deus são os mais pequenos aos seus próprios olhos; e quanto mais a vocação deles é sublime, mais eles são humildes no coração.
  19. Cheios da verdade e da glória celeste, eles não são ávidos de uma glória vã.
  20. Fundados e firmados em Deus, eles não saberiam elevar-se a eles próprios.
  21. Atribuindo a Deus tudo aquilo que eles receberam de bem, eles não procuram a glória que dão os seres humanos e só querem aquela que vem apenas de Deus; seu único fim, seu único desejo, e que ele seja glorificado em si próprio e em todos os santos, acima de todas as coisas.
  22. Sê portanto agradecido pelas mais pequenas graças e merecerás receber maiores.
  23. Que o mais leve dom, o mais pequeno favor tenha para ti tanto valor quanto o dom mais excelente e o favor mais singular.
  24. Se tu considerares a grandeza daquele que dá, nada daquilo que ele dá te parecerá pequeno nem desprezível; porque pode alguma coisa dessas vir dum Deus infinito?
  25. Ele envia-te penas e castigos, recebe-os com alegria, porque é sempre para a nossa salvação que ele faz ou que ele permite tudo aquilo que nos acontece.
  26. Queres conservar a graça de Deus, sê agradecido quando ele ta der, paciente quando ele ta tirar.
  27. Pede para que ela te seja dada, e sê humilde e vigilante para não a perderes.


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Livro da Vida Perfeita - A melhor preparação


  1. No que respeita às diferentes vias da preparação espiritual, diz-se que «é preciso suportar Deus e ser-lhe obediente, abandonado e submisso».
  2. É verdade.
  3. Quem atingisse o objetivo - pelo menos naquilo que se pode atingir neste mundo -, possuiria estas qualidades na perfeição.
  4. Mas aquele que quer suportar Deus, tem também - por necessidade como por obrigação - de suportar tudo: Deus, ele próprio e todas as criaturas - sem nenhuma excepção.
  5. Aquele que quer ser obediente, abandonado e submisso a Deus, tem que ser abandonado, obediente e submisso a todas as coisas - e não de uma maneira ativa, mas passiva.
  6. Permanecendo em silêncio no fundo da sua alma, sofrendo com um sofrimento secreto e escondido, deve tudo suportar, tudo aguentar sem desejar nenhuma ajuda nem desculpa, sem exercer nenhuma contestação nem vingança, mas dizendo sempre com uma verdadeira compaixão, cheia de amor e de humildade: «Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem» (Lc 23, 24).
  7. Esse seria, sim, um bom caminho para ir para o Melhor, uma boa preparação para esse fim último que o ser humano pode atingir neste mundo: a vida de Cristo.
  8. Porque a vida de Cristo encerra plenamente e inteiramente todas as vias que é preciso seguir até à morte corporal.
  9. Não há melhor caminho nem melhor preparação para a vida de Cristo que ela própria: é preciso praticá-la tanto quanto for possível.
  10. Da vida de Cristo, já se falou precedentemente.
  11. Tudo aquilo que se disse, aqui e acolá, é um caminho e uma regra para ir em direção ao fim verdadeiro.
  12. Mas o que é esse «fim», ninguém o pode dizer. Quem o quer conhecer só tem que seguir o bom caminho, que é a própria vida de Cristo.

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Imitação de Cristo - Da privação de toda a consolação


  1. Não é difícil desprezar as consolações humanas quando se desfruta das consolações divinas.
  2. Mas é grande e muito grande consentir em ser privado ao mesmo tempo das consolações humanas e das divinas, suportar voluntariamente para a sua glória este exílio do coração, de não se procurar em nada, de não olhar para os seus próprios méritos.
  3. O que tem de surpreendente se tu estás cheio de alegria e de fervor quando a graça desce sobre ti? É para todos a hora desejada.
  4. Avança com facilidade e alegria, aquele a quem a graça eleva.
  5. Como sentiria ele o seu fardo, quando é carregado pelo Todo Poderoso e conduzido pelo guia supremo?
  6. Sempre procuramos algum alívio, e dificilmente o ser humano se despoja de si próprio.
  7. Fiel ao seu bispo, o santo mártir Lourenço venceu o mundo porque desprezou tudo o que o mundo oferece de sedutor, e porque sofreu em paz, por amor de Jesus Cristo, ser separado do soberano sacerdote de Deus, Sisto, a quem ele amava com grande ternura.
  8. Com o amor do Criador venceu o amor do homem, e às consolações humanas ele preferiu o bom prazer divino.
  9. E tu também, aprende portanto a abandonar, pelo amor de Deus, o amigo mais caro e o mais íntimo.
  10. E não murmures se acontecer que o teu amigo te abandone, sabendo que apesar de tudo chegará um dia em que nos teremos que separar todos.
  11. Não é sem combater muito e longamente em si próprio, que o ser humano aprende a vencer-se plenamente e a reportar a Deus todas as suas afeições.
  12. Quando ele se apoia em si próprio, facilmente se deixa ir às consolações humanas.
  13. Mas aquele que tem verdadeiramente o amor de Jesus Cristo e o zelo da virtude não cede à atração das consolações, e não procura as doçuras sensíveis; pelo contrário deseja provas fortes, e sofrer trabalhos duros por Jesus Cristo.
  14. Quando portanto Deus te concede alguma consolação espiritual, recebe-a com ações de graças; mas reconhece nela o dom de Deus e não o teu próprio mérito.
  15. Não te enleves, não tenhas demasiada alegria, não concebas uma vã presunção.
  16. Que essa graça, pelo contrário, te torne mais humilde, mais vigilante, mais tímido em todas as tuas ações; porque esse momento passará e será seguido pela tentação.
  17. Quando a consolação te é retirada, não te desencorajes rapidamente; mas espera com humildade e com paciência que Deus te visite de novo: porque ele é todo poderoso para te consolar ainda mais.
  18. Isto não é nem novo nem estranho para aqueles que têm a experiência das vias de Deus: os grandes santos e os antigos profetas provaram frequentemente essas vicissitudes.
  19. Um deles, sentindo a presença da graça, clamou: «Eu disse na minha abundância: não me deixarei abalar jamais» (Sl 29, 3).
  20. Mas quando a graça se retirou, acrescentou: «Afastaste de mim a tua face, e logo me senti perturbado» (Sl 29, 8).
  21. Nessa perturbação, ele não desespera; mas reza ao Senhor com mais insistência, dizendo: «A vós, Senhor, clamarei, e ao meu Deus invocarei» (Sl 29, 9).
  22. Por fim, ele recolhe o fruto da sua oração e testemunha que foi ouvido: «O Senhor ouviu-me e compadeceu-se de mim; o Senhor veio em meu auxílio» (Sl 29, 11).
  23. Mas como? «Convertestes», diz, «o meu pranto em júbilo e cercaste-me de alegria» (Sl 29, 12).
  24. Ora, visto que Deus faz assim com os maiores santos, nós não devemos perder a coragem, pobres enfermos que somos, se por vezes experimentamos fervor e por vezes arrefecimento: porque o espírito de Deus vem e retira-se como lhe agrada.
  25. O que fazia dizer ao bem-aventurado Jó: «Ao amanhecer visitas o homem, e logo depois o pões à prova» (Jó 7, 18).
  26. Portanto em quê ter esperança, e em quê colocar a minha confiança, se não unicamente na grande misericórdia do meu Deus e na espera da graça celeste?
  27. Porque, quer eu tenha ao pé de mim pessoas virtuosas, religiosos fervorosos, amigos fieis; quer eu leia livros santos e tratados eloquentes, quer eu escute o suave canto dos hinos, tudo isso me ajuda pouco e não me toca nada quando a graça se retira, e eu fico desamparado na minha própria indigência.
  28. Então, não há melhor remédio que uma paciência humilde e o abandono de si próprio à vontade de Deus.
  29. Eu nunca encontrei pessoa tão devota e tão perfeita que não tenha tido algumas vezes esta privação da graça e uma diminuição do fervor.
  30. Nenhum santo foi arrebatado tão alto nem tão cheio de luz que não tenha sido tentado antes ou depois.
  31. Porque não é digno de ser elevado até à contemplação de Deus, quem não sofreu por Deus alguma tribulação.
  32. A tentação anuncia geralmente a consolação que se segue.
  33. Porque a consolação celeste é prometida àqueles a quem a tentação provou.
  34. «Ao que vencer», diz o Senhor, «darei a comer da árvore da vida» (Ap 2, 7).
  35. A consolação divina é dada afim de que o ser humano tenha mais força para suportar a adversidade.
  36. A tentação vem depois, afim de que ele não se orgulhe do bem.
  37. Porque Satanás não dorme, e a carne ainda não está morta: é por isso que não deves deixar de te preparares para o combate, porque à direita e à esquerda estão inimigos que nunca descansam.


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Livro da Vida Perfeita - A preparação espiritual


  1. «Mas, dirão, eu não estou preparado para isso tudo! Isso não se pode realizar em mim!»
  2. É assim que se arranja uma desculpa...
  3. Mas esta é a minha resposta: se a pessoa não está pronta, se não se prepara, a culpa é sua!
  4. Se a pessoa não tivesse outra preocupação nem outra pressa para além de trabalhar na sua preparação e nos meios de a realizar em todas as coisas, Deus, Ele próprio, a prepararia voluntariamente.
  5. Porque Deus tem tanto zelo, tanto amor e tanto ardor por essa preparação como tem por fazer a Sua entrada no ser humano quando ele por fim está pronto.
  6. Mas é preciso pôr nisso algum trabalho...
  7. Diz-se com razão: «Aquele que quer aprender uma arte que não conhece, necessita de quatro coisas.»
  8. A primeira, a mais necessária, é um desejo profundo, um zelo ardente, um fervor contínuo para aprender essa arte. Se esta primeira condição falta, a aprendizagem será impossível.
  9. A segunda: um modelo a partir do qual se possa aprender.
  10. A terceira: observar o mestre, assisti-lo, obedecer-lhe, imitá-lo e ter fé nele.
  11. A quarta: meter-se à obra e praticar por si próprio.
  12. Que uma única dessas condições falte, e a aprendizagem, depois a mestria dessa arte serão impossíveis.
  13. O mesmo se passa com a preparação espiritual.
  14. O que responde à primeira condição - zelo ardente e vontade contínua para o fim -, esse procura e encontra tudo o que lhe é necessário, útil e proveitoso.
  15. Aquele que não tem o ardor, o amor e o desejo, esse não procura e, por conseguinte, não encontrará. Nunca estará pronto, e nunca chegará ao fim.

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Imitação de Cristo - Da amizade familiar com Jesus


  1. Quando Jesus está presente, tudo é suave e nada parece difícil; mas quando Jesus se retira, tudo fatiga.
  2. Quando Jesus não fala dentro, nenhuma consolação tem valor; mas se Jesus diz uma única palavra, fica-se maravilhosamente consolado.
  3. Maria Madalena não se levantou imediatamente do leito onde chorava, quando Marta lhe disse: «O mestre está aqui, e chama por ti» (Jo 11, 28) ?
  4. Que momento feliz é aquele em que Jesus chama as lágrimas à alegria do espírito!
  5. Quanto, sem Jesus, tu não és árido e insensível!
  6. E que vaidade, que loucura, se tu desejas outra coisa senão Jesus Cristo! Não seria isso uma perca maior que se tu tivesses perdido o mundo inteiro?
  7. Podem dar-te o mundo sem Jesus?
  8. Estar sem Jesus, é um inferno insuportável; estar com Jesus, é um paraíso de delícias.
  9. Se Jesus está contigo, nenhum inimigo te poderá prejudicar.
  10. Quem encontra Jesus encontra um tesouro imenso, ou antes, um bem acima de todo o bem.
  11. Quem perde Jesus perde mais e muito mais do que se perdesse o mundo inteiro.
  12. Viver sem Jesus, é o cúmulo da indigência; estar unido a Jesus, é possuir riquezas infinitas.
  13. É uma grande arte saber conversar com Jesus, e uma grande prudência saber retê-lo ao pé de si.
  14. Sê humilde e pacífico, e Jesus estará contigo.
  15. Que a tua vida seja devota e calma, e Jesus ficará ao pé de ti.
  16. Tu afastarás rapidamente Jesus e perderás a sua graça, se te quiseres dispersar no exterior.
  17. E se tu o afastares e perderes, quem será o teu refúgio e que outro amigo procurarás?
  18. Tu não serias capaz de viver feliz sem amigos; e se Jesus não é para ti um amigo acima de todos os outros, espera só por tristeza e desolação.
  19. Que insensato que tu és, se pões nalguma coisa a tua confiança e a tua alegria!
  20. Mais valia teres o mundo todo contra ti, do que estares no desprazer de Jesus.
  21. Que ele seja portanto para ti mais querido que tudo o que é querido para ti.
  22. Ama os outros todos por Jesus, e ama Jesus por ele próprio.
  23. Só ele deve ser amado exclusivamente, porque ele é o único amigo bom, fiel, entre todos os amigos.
  24. Ama nele e por causa dele os teus amigos e os teus inimigos, e reza-lhe por todos afim que todos o conheçam e o amem.
  25. Não desejes nunca obter alguma preferência na estima ou no amor das pessoas; porque isso só pertence a Deus, que não tem igual.
  26. Não desejes que alguém se ocupe de ti no seu coração, e não estejas tu próprio preocupado com o amor de alguém; mas que Jesus esteja em ti e em toda a pessoa de bem.
  27. Sê puro e livre no interior, sem nenhuma ligação à criatura.
  28. Deves estar despojado de tudo, e oferecer a Deus um coração puro, se queres ser livre e saborear como o Senhor é suave.
  29. E, certamente, tu nunca lá chegarás se a sua graça não te previne e não te atrai: de forma que tendo excluído e banido tudo o resto, tu estejas só unido a ele.
  30. Porque, quando a graça de Deus visita o ser humano, então ele pode tudo; e quando ela se retira, então ele é pobre e enfermo, e só parece destinado para os castigos.
  31. Mesmo nesse estado, ele não deve nem se deixar abater nem desesperar, mas ele deve submeter-se com calma à vontade de Deus e sofrer pelo amor de Jesus Cristo tudo o que lhe acontecer: porque o verão sucede ao inverno, depois da noite vem o dia, e depois da tempestade vem uma grande serenidade.


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Livro da Vida Perfeita - A despossessão


  1. «O diabo e o seu espírito exercem por vezes sobre o ser humano, dizem, uma tal possessão, uma tal influência que ele não sabe mais o que faz ou não faz, e não tem mais nenhum poder sobre si próprio
  2. «O espírito mau é o único então a ter poder sobre ele: ele faz o que quer nele, com ele ou por ele
  3. Esta observação é verdadeira num primeiro sentido: o mundo inteiro está na possessão e sob a influência do diabo - quer dizer da mentira, da falsidade e dos outros vícios e malignidades. E tudo isso é «o diabo».
  4. Esta observação é igualmente verdadeira num outro sentido.
  5. Um ser humano pode ser agarrado e possuído tão fortemente pelo espírito de Deus que ele não saiba mais o que faz ou não faz, e não tenha mais nenhum poder sobre si próprio.
  6. A vontade e o espírito de Deus são os único então a ter poder sobre ele: só Deus atua nele, só Deus faz aquilo que Ele quer, como Ele quer, nele, com ele e por ele.
  7. Um ser humano deste género seria um daqueles de que fala são Paulo: «Aqueles que são dirigidos e conduzidos pelo espírito de Deus são filhos de Deus e não estão sob a Lei.» (Rm 8, 14; Ga 5, 18), um daqueles a quem Cristo endereçou estas palavras: «Não são vocês que falam, mas é o espírito do vosso Pai que fala em vós
  8. Mas eu temo bastante que, por um que está possuído pelo espírito de Deus, não hajam cem mil que estão possuídos pelo diabo...
  9. Porque os seres humanos têm mais parecença com o diabo que com Deus. O eu, o amor próprio: tudo isso é apanágio do diabo. É mesmo precisamente o que faz com que ele seja o diabo!
  10. Teria sido suficiente aqui uma ou duas palavras para dizer o mesmo que todas estas longas explicações.
  11. E essas palavras são: «Sê totalmente desprendido de ti próprio!»
  12. Mas as explicações que precedem permitiram aclarar, analisar e sublinhar este ponto ainda melhor.

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Imitação de Cristo - Do amor de Jesus acima de todas as coisas


  1. Feliz daquele que compreende o que é amar Jesus, e se despreza a si próprio por causa de Jesus.
  2. É preciso que o nosso amor por Ele nos desprenda de qualquer outro amor, porque Jesus quer ser amado sozinho acima de todas as coisas.
  3. O amor da criatura é enganador e passa depressa; o amor de Jesus é estável e fiel.
  4. Aquele que se prende à criatura cairá com ela; aquele que se prende a Jesus será para sempre fortalecido.
  5. Ama e conserva como amigo Aquele que nunca te abandonará quando todos os teus te abandonarem, e que, quando chegar o teu fim, não te deixará perecer.
  6. Quer tu queiras quer não, um dia vais ter que te separar de tudo.
  7. Vivendo ou morrendo, mantém-te portanto perto de Jesus e confia-te à fidelidade do único que te pode socorrer quando tudo te faltar.
  8. Tal é o teu bem amado, porque ele não quer partilhar; ele quer possuir sozinho o teu coração e aí reinar como um rei sobre o trono que é dele.
  9. Se tu soubesses banir do teu coração todas as criaturas, Jesus deleitar-se-ia a morar em ti.
  10. Tu considerarias como perdido quase tudo o que estabeleceste sobre as pessoas e não sobre Jesus!
  11. Não te apoies sobre uma cana que se agita ao vento e não deposites nela a tua confiança, «porque toda a carne é como a erva, e a sua glória passa como a flor dos campos.» (Is 40,6).
  12. Tu enganar-te-ás frequentemente se julgares as pessoas segundo aquilo que elas aparentam por fora; em vez das vantagens e dos alívios que procuras nelas, tu terás quase sempre prejuízo.
  13. Procura Jesus em tudo, e em tudo tu encontrarás Jesus.
  14. Se te procurares a ti próprio, também te encontrarás a ti próprio, mas para a tua perca.
  15. Porque a pessoa que não procura Jesus prejudica-se mais a si própria que todos os seus inimigos e o mundo inteiro.


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Livro da Vida Perfeita - Conduta do ser humano iluminado


  1. «O ser humano que acede à verdadeira luz - tanto quanto isso é possível -, qual é a sua existência?»
  2. Não se pode dizer exatamente.
  3. «Porquê?»
  4. Aquele que lá não acedeu não o pode dizer.
  5. Aquele que lá acedeu também não o pode dizer...
  6. É por isso que: quem o quer saber, que espere por aceder ele próprio a essa luz!
  7. No entanto eu creio que a conduta e a existência exterior desse ser humano se definem como se segue.
  8. Aquilo que é por necessidade ou por obrigação nele encontra facilmente o seu lugar.
  9. Mas o que não é por necessidade nem por obrigação - o que não é um simples querer ser -, não consegue nele ter lugar.
  10. As pessoas criam para si muitas necessidades, muitas obrigações, que só são ilusórias
  11. Se o orgulho, a cupidez ou outros vícios ou outras malignidades levam a pessoa a fazer isto ou a fazer aquilo, eis que ela proclama: «É necessário! É indispensável!»
  12. Se a simpatia, a amizade ou o desejo físico a levam para aqui ou para ali, eis que ela proclama: «É necessário! É indispensável!»
  13. Tudo isso é ilusório.
  14. Se as pessoas não seguissem outras necessidades, outras obrigações para além daquelas às quais Deus e a verdade as chamam e as levam, certamente teriam muito menos que fazer hoje!

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Imitação de Cristo - Da alegria da boa consciência


  1. A glória da pessoa de bem é o testemunho da sua consciência.
  2. Tem a consciência pura, e terás sempre alegria.
  3. A boa consciência pode suportar muitas coisas, e fica cheia de alegria nas adversidades.
  4. A má consciência está sempre inquieta e perturbada.
  5. Tu desfrutarás de um repouso maravilhoso se o teu coração não te repreender de nada.
  6. Regozija-te só com fazer o bem.
  7. Os maus nunca têm verdadeira alegria, não possuem paz interior, porque não há paz para o ímpio (Is 57, 21), diz o Senhor.
  8. E se eles dizem: Nós estamos em paz, os males não nos chegarão; e quem ousaria prejudicar-nos ? Não acredites neles porque a cólera de Deus eleva-se subitamente, e as suas obras serão destruídas completamente, e os seus pensamentos desaparecerão.
  9. Glorificar-se com a tribulação não é difícil para aquele que ama: porque glorificar-se assim, é glorificar-se na cruz de Jesus Cristo (Gl 6,14).
  10. A glória que as pessoas dão e recebem é curta.
  11. A tristeza acompanha sempre a glória do mundo.
  12. A glória dos bons está na consciência deles, e não na boca das pessoas.
  13. A satisfação dos justos é de Deus e em Deus, e a alegria deles vem da verdade.
  14. Aquele que deseja a glória verdadeira e eterna, desdenha a glória do mundo.
  15. E aquele que procura a glória do mundo, e não a despreza com toda a sua alma, mostra que ama pouco a glória eterna.
  16. Desfruta de uma grande tranquilidade no coração, aquele que é indiferente ao louvor e à acusação.
  17. Está facilmente em paz e contente, aquele cuja consciência é pura.
  18. Tu não és mais santo porque há quem te louve, nem mais imperfeito porque há quem te acuse.
  19. Tu és aquilo que és, e tudo aquilo que se possa dizer não fará de ti maior do que aquilo que tu és aos olhos de Deus.
  20. Se tu considerares bem aquilo que és em ti próprio, não te embaraçarás muito com aquilo que as pessoas dizem de ti.
  21. O ser humano vê a cara, mas Deus Vê o coração (1Rs 16, 7). O ser humano olha para as ações; mas Deus pesa as intenções.
  22. Fazer sempre o bem e estimar-se pouco, é sinal de uma alma humilde.
  23. Não querer consolação de nenhuma criatura, é a marca de uma grande pureza e de uma grande confiança interior.
  24. Quando não se procura no exterior nenhum testemunho em seu favor, é manifesto que se está completamente entregue a Deus.
  25. Porque não é aprovado aquele que se louva a si mesmo, diz S. Paulo, mas aquele a quem Deus louva (2Cor 10, 18).
  26. Ter sempre Deus presente dentro de si, e não se prender a nada exterior, é o estado da pessoa interior.


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