Livro da Vida Perfeita - Amargura da Vida de Cristo


  1. Para aceder à verdadeira vida de Cristo, toda a natureza deve ser abandonada e deixada.
  2. O eu, o amor próprio: toda a natureza deve morrer.
  3. A vida de Cristo era para ele a mais amarga, a natureza tem horror dela. A natureza considera-a como cruel e injusta. A natureza considera-a como uma loucura.
  4. A natureza pretende uma vida agradável e confortável, e proclama - e, na sua cegueira, acredita verdadeiramente - que é a melhor de todas as vidas.
  5. E certamente, sim, não há vida mais agradável e mais confortável à natureza que essa, sem preocupações nem constrangimentos! É por isso que a natureza se prende a ela: aí ela desfruta dela própria e do seu eu, aí ela encontra as suas facilidades, e tudo o que lhe convém.
  6. É frequentemente o que acontece a pessoas de grande inteligência.
  7. A inteligência deles eleva-se tão alto na sua própria luz que ela acaba por se considerar a si própria como sendo a verdadeira luz, a luz eterna.
  8. Ela faz-se passar por tal e, no seu erro, engana igualmente aqueles que se inclinam para ela, e que não conhecem nada de melhor.

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Vida de Nuno Álvares Pereira - A armação de cavaleiro



«Em 1370, continuando a guerra, o rei de Castela, que fora cercar Cidade Rodrigo, então portuguesa, como também o eram Carmona e Zamora, teve de levantar o cerco para acudir à Galiza e Andaluzia, onde a esquadra portuguesa bloqueava Sevilha, sendo porém batida em S. Lucar de Barrameda. No ano seguinte, lavraram-se pazes, ou tréguas, por intervenção do Papa, ajustando-se o casamento do rei de Portugal com a filha de Henrique II; mas esta promessa não foi cumprida porque, D. Fernando, perdido de amores pela mulher de João Loureço da Cunha, a tirou ao marido e se casou com ela, provocando o protesto e o exílio de seu irmão D. Dinis, filho de Inês de Castro, o qual mais tarde, depois da tragédia de Maria Teles, se foi reunir em Castela ao outro irmão, D. João. E se a paixão do rei por Leonor Teles o impediu de casar com a filha de Henrique II, foi a mesma causa que o levou a conspirar contra o vizinho, prometendo ao duque de Lencastre, casado com D. Constança, filha do rei D. Pedro de Castela, a coroa deste reino. É de agora que se hão-de datar as alianças com os ingleses, porque a ideia de os utilizar contra Castela, que foi um dos meios de que o mestre de Avis veio a servir-se, com pouco êxito por sinal, nasce neste momento.

Tendo D. Fernando, abruptamente, aprisionado cinco naus biscainhas em Lisboa, Henrique II, em Dezembro de 1372, entra em Portugal pela Beira, tomando Pinhel, Celorico, Linhares e Viseu. Vinham com ele o infante D. Dinis e os mais portugueses adversos a Leonor Teles. Em Fevereiro, os inimigos descem de Coimbra sobre Torres Novas, e D. Fernando, sem resistir, fecha-se em Santarém. Tal era a situação quando Nuno Álvares entrava na Corte pela mão do prior seu pai. Os troços do exército castelhano desciam o vale do Tejo, a caminho de Lisboa; o rei, inclinado amorosamente para a esposa, sorria de amor, desdenhoso da honra, da guerra, da Coroa, e de tudo, na embriagues absorvente da paixão. Tamanho desvairamento fazia ferver o sangue aos mais fleumáticos; e o prior, aceso em ódio contra a fratricidade de Montiel, cheio de esperança no futuro certo dessa criança, para quem sentia ir-se-lhe escoando a vida, mandou Nuno Álvares fora, em companhia do seu irmão Diogo Álvares, a reconhecer as forças dos castelhanos.

Era a primeira vez que o rapaz montava a cavalo em frente do inimigo. O medo de si próprio; o receio de não corresponder ao ideal criado pela imaginação; o desdobramento nítido de duas personalidades, uma que tinha por natureza, outra inventada por deliberação; eis o que revolvia o espírito vibrante de Nuno Álvares. Teria ombros para as armas que o pensamento lhe forjara? Poderia o seu ânimo com a missão de que se achava investido?... Montou, saiu, desceu, galopando, a encosta íngreme de Santarém. Correu, observando o inimigo; e nenhum resfriamento lhe enrugava a pele, nenhuma comoção forte lhe incendiava o sangue. Tudo lhe parecia natural. Estranhava até a sua impassibilidade. Não podia crer que fosse a primeira vez. Quem sabe se, no cérebro, provocando reminiscências inconscientes, se lhe expandia nesse instante alguma célula do sangue de seus avós, costumados a ver de face os perigos?

Quando os irmãos voltaram da surtida, estavam os reis jantando placidamente; e quiseram saber o resultado da aventura. Que havia? que tinham visto? Nuno Álvares com uma serenidade encantadora na sua face de criança, onde a barba não despontava ainda, respondeu:

- Nada... Mas esta gente dos castelhanos vem mal acautelada; poucos e bons, com um bom capitão, bastariam para os desbaratar.

O pai, ouvindo-o remoçava. Notava-se a singeleza do dizer, sem afectação, nem petulância. Parecia um homem feito. A rainha achou infinita graça ao rapaz e, inclinando amorosamente a cabeça para D. Fernando, disse-lhe ao ouvido, como quando lhe segredava amores, que reclamava para si Nuno Álvares: queria-o para seu escudeiro.

- Está bem - voltou o rei. - E eu tomo Diogo Álvares por cavaleiro.

Estava então a rainha na plena eflorescência da sua beleza fascinante. Chamavam-lhe Flor de Altura pelo seu porte esbelto e onduloso, como haste de lírio coroado pela formosa cabeça ruiva, onde tantas ambições realizadas tinham germinado. Sentada no trono, já não ardia em despeito nem ódios: pelo contrário, queria congraçar toda a gente, insinuar-se, seduzir, conquistar, coleando, com a sua ductilidade de cobra, para envolver os renitentes, como envolvera e manietara o rei D. Fernando, cativo de amor a seus pés. (...)

A própria guerra de Castela estava sendo a apoteose de Leonor Teles. Ela, ela só, provocando e dirimindo contendas entre príncipes! ela, obrigando o poderoso rei de Castela a descer a Portugal! ela, vendo-o caminhar contra Lisboa abandonada, e tornar-se o instrumento da sua desforra sobre essa cidade que a abocanhara! A situação das coisas enchia-a de felicidade carinhosa. O desespero de não poder amar esquecia-o, gozando as delícias da vaidade. Por isso, na situação turvamente luminosa da sua alma, sorria como sereia para Nuno Álvares, que baixava os olhos, vergonhoso e mesurado, depois de ter olhado firme, sem uma contracção na face, para o desfilar terrível dos esquadrões castelhanos, a caminho de Lisboa.

Sedutoramente, a rainha, pondo-lhe a mão, delgada e nervosa, sobre o ombro, disse-lhe que queria armá-lo escudeiro. Nuno Álvares então estremeceu, lembrando-se de Galaaz. Foi com os lábios frios por uma visão de futuros indeterminados que beijou contritamente a mão de Leonor Teles.

Também ao bastardo de Lançarote do Lago aparecera a dama, para o armar cavaleiro. Também Galaaz fora à abadia, e a abadessa chorava de prazer no meio das suas quatro aias. Os vaticínios da sua vida predestinada iam-se cumprindo assim, pontualmente. Por isso estremecera, quando a rainha lhe disse querer armá-lo por suas próprias mãos, como a abadessa da história, obrigando Lançarote a armar Galaaz. E interrogado pelo pai, o bastardo respondera:

- Senhor, se vos prouvesse, bem o queria ser, pois não há coisa no mundo que eu tanto deseje como honra de Cavalaria...

- Filho - disse Lançarote (como ele tantas vezes ouvira dizer ao prior, seu pai) - estranhamente vos fez Deus formosa criatura!

E Nuno Álvares, erguendo a cabeça, a sorrir, também respondia:

- Se Deus me fizer formoso, dar-me-á bondade, prazendo-lhe. De outro modo, valeria pouco. Mas ele quererá que eu seja tão bom, e coisa que semelhe à minha linhagem e àqueles de onde eu venho. Pus a minha esperança em Nosso Senhor...

Logo trabalhou a rainha de achar arnês que servisse a Nuno Álvares, tão criança era ainda, e pequeno de estatura como sempre ficou. Alguém lembrou então que havia o arnês do mestre de Avis, quase da mesma idade, e pouco antes armado cavaleiro. A rainha sorria, encantada, por estes brinquedos... Entretanto os castelhanos saqueavam os subúrbios de Lisboa. Foi-se pedir o arnês ao mestre de Avis, irmão de el-rei, e veio. Vestiram-no a Nuno Álvares. Servia-lhe. Não parece fatídica esta investidura?

Como Galaaz, Nuno Álvares não pôde sofrer de chorar, quando, banhada em água benta a espada, lha cingiram ao cinto, calçando-lhe as esporas, Pôs-se então de joelhos, colocou-lhe a rainha o capacete na cabeça, e desembainhando-lhe a espada, feitas as perguntas rituais, bateu-lhe com ela os três golpes sagrados no elmo e no ombro:

- Deus vos faça bom cavaleiro!

Levantou-se armado. Era outro homem. Descera sobre ele a iniciação mística, sagrando-o. Não havia de falhar a sua sina!

Escudeiro da rainha, o prior obteve do rei que o tomasse por morador em sua casa. Ficou pois no paço com seu tio e aio, o escudeiro Martim Gonçalves de Carvalhal, irmão de D. Iria, sua mãe, que também no paço andava como cuvilheira da infanta D. Beatriz, criancinha de um ano apenas.

O rei de Castela, entretanto, chegara sobre Lisboa. A maioria dos habitantes tinha-se acolhido ao castelo, porque a cidade estava aberta, desmantelados os seus muros mouriscos. Não tinha ainda chegado a armada castelhana; por isso o castelo de Lisboa não podia cercar-se de todo, e, reforçados, os portugueses molestavam o arraial. Henrique II, acampando nos altos de S. Francisco, fronteiros pelo poente ao Castelo, mandou queimar as taracenas, ou arsenais, da praia, com os navios nela varados; e quando afinal chegava a Lisboa a esperada esquadra do almirante Boccanegra e apresava as quatro naus portuguesas fundeadas no Tejo, entrava pelo Minho outro exército invasor.

Portugal estava perdido: valeu-nos a intervenção do cardeal Guido, núncio do Papa. Ele negociou as condições das pazes com o rei Henrique II, que não provocara a guerra, nem tinha em mente a conquista. O rei de Portugal prestaria a Castela cinco galés, quando o de França, aliado do castelhano, carecesse delas; expulsaria D. Fernando de Castro e os mais restos parciais do rei D. Pedro; casaria a infanta sua irmã com o conde D. Sancho, irmão de Henrique II; casaria a filha, D. Beatriz, com o duque de Benavente, bastardo do rei castelhano; e a outra filha, D. Isabel, nascida fora do casamento, com D. Afonso, outro bastardo do rei Henrique, levando em dote Viseu, Celorico e Linhares. Era este o grande espinho, por deixar Portugal aberto, pela Beira, à invasão dos castelhanos; mas perdido estava o reino nesse momento: que remédio senão curvar a cabeça às ordens do vencedor? Viram-se os dois reis em Valada e dois dias depois celebraram-se as bodas de D. Sancho com a irmã de D. Fernando. D. Henrique retirou com o seu exército; Leonor Teles entrou vingada em Lisboa.» (1)

Notas
  1. Oliveira Martins - A Vida de Nun'Álvares, 9ª ed., p. 30-35.

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Imitação de Cristo - Da consideração de si próprio


  1. Nós não devemos contar muito conosco próprios, porque geralmente faltam-nos a graça e o julgamento.
  2. Nós temos em nós pouca luz, e essa pouca, é fácil de perder por negligência.
  3. Geralmente não nos apercebemos de quanta é a cegueira da nossa alma.
  4. Às más ações, geralmente damos ainda piores desculpas.
  5. Por vezes somos movidos pela paixão, e acreditamos que somos movidos pelo zelo.
  6. Nós expomos pequenas faltas nos outros, e permitimos a nós próprios outras faltas ainda maiores.
  7. Nós sentimos rapidamente e pesamos o que sofremos dos outros; mas acerca de tudo o que os outros têm que sofrer de nós, nem sequer pensamos nisso.
  8. Quem se julgasse equitativamente a si próprio, sentiria que não tem direito de julgar ninguém severamente.
  9. A pessoa interior prefere o cuidado consigo própria, a todos os outros cuidados: e quando estamos atentos a nós próprios, calamo-nos com facilidade sobre os outros.
  10. Tu nunca serás uma pessoa interior e verdadeiramente devota, se não guardares o silêncio sobre aquilo que não te diz respeito, e se não te ocupares principalmente de ti próprio.
  11. Se só tiveres Deus e a ti próprio em vista, serás pouco afetado por aquilo que te aperceberes no exterior.
  12. Onde estás quando não estás presente a ti próprio? E o que te fica de teres percorrido tudo, e de te teres esquecido de ti?
  13. Se queres ter a paz e estar verdadeiramente unido a Deus, deixa tudo o resto, e pensa apenas em ti.
  14. Tu farás grandes progressos se te desprenderes de todos os cuidados do mundo.
  15. Tu ficarás, pelo contrário, rapidamente cansado, se deres algum valor ao que só é deste mundo.
  16. Que não haja nada de grande aos teus olhos, de elevado, de suave, de amável, sem ser Deus, ou o que vem de Deus.
  17. Considera como uma pura vaidade toda a consolação que assenta na criatura.
  18. A alma que ama Deus despreza tudo o que está abaixo de Deus.
  19. Só Deus, eterno, imenso e ocupando tudo, é a consolação da alma e a verdadeira alegria do coração.


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Livro da Vida Perfeita - Renunciar a si próprio


  1. Que ninguém pense aceder à verdadeira luz, ao verdadeiro conhecimento ou à vida de Cristo colocando questões ou ouvindo falar, lendo ou estudando, pela elevação da arte ou da ciência, ou por intermédio da inteligência natural...
  2. Eu direi mesmo mais: enquanto o ser humano se agarra às coisas, enquanto as conserva no seu amor, no seu pensamento, o seu desejo ou a sua procura - que se trate disto ou daquilo, da própria pessoa ou de outra qualquer -, não chega a nada.
  3. O próprio Cristo disse: «Se tu queres seguir-me, renuncia a ti próprio e segue-me. Aquele que não se renuncia e não se perde, a si próprio e a todas as coisas, não é digno de mim e não pode ser meu discípulo (Mt 16, 24). O que significa: «Aquele que não abandona tudo, não renuncia a tudo, esse nunca poderá conhecer-me verdadeiramente nem aceder à minha vida.
  4. Mas mesmo que isso não tivesse sido dito com boca humana, a própria Verdade dá testemunho - porque é assim na verdade.
  5. Enquanto o ser humano ama a parte, o fragmento - e em particular se ama a si próprio -, enquanto ele se preocupa e se agarra a isso, ele é cego.
  6. E tal é a sua cegueira que não conhece mais nenhum bem senão aquilo que pessoalmente lhe é o mais útil, o mais fácil e o mais agradável, a ele e ao que é seu.
  7. E é esse bem que ele considera ser o Melhor e ama acima de tudo...

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Imitação de Cristo - Da simplicidade e da pureza


  1. O ser humano eleva-se acima da terra sobre duas asas, a simplicidade e a pureza.
  2. A simplicidade deve estar na intenção, e a pureza no afeto.
  3. A simplicidade procura Deus, e a pureza encontra-o e saboreia-o.
  4. Nenhuma obra boa será difícil para ti, se estiveres livre acima de qualquer afeto desordenado.
  5. Se tu só quiseres aquilo que Deus quer, e aquilo que é útil ao próximo, desfrutarás da liberdade interior.
  6. Se o teu coração fosse reto, então todas as criaturas seriam para ti um espelho de vida e um livro cheio de santas instruções.
  7. Não há nenhuma criatura, por mais pequena e mais insignificante que não apresente qualquer imagem da bondade de Deus.
  8. Se tu tivesses em ti suficiente inocência e pureza, verias tudo sem obstáculos.
  9. Um coração puro penetra no céu e no inferno.
  10. Cada um julga as coisas exteriores conforme aquilo que é dentro de si próprio.
  11. Se há alguma alegria no mundo, o coração puro possui-a.
  12. E se há angustias e tribulações no mundo, ninguém as conhece melhor que a má consciência.
  13. Como o ferro metido no fogo perde a ferrugem e fica todo incandescente, assim aquele que se entrega sem reservas a Deus despoja-se da sua apatia e transforma-se numa pessoa nova.
  14. Quando começamos a cair na tibieza, então receamos o mínimo trabalho e recebemos com avidez as consolações exteriores.
  15. Mas quando começamos a vencer-nos perfeitamente e a caminhar com coragem na via de Deus, então consideramos como sendo nada aquilo que antes considerávamos mais penoso.


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Livro da Vida Perfeita - Conhecer o verdadeiro bem


  1. Não há vida melhor, mais nobre e mais agradável a Deus que a vida de Cristo.
  2. Mas não há vida mais amarga à natureza - quer dizer ao eu. É preciso examinarmos este ponto para o compreendermos e ficarmos convencidos.
  3. A vida sem preocupação nem constrangimento é, certo, a mais suave e a mais agradável à natureza - ao eu e ao amor próprio. Mas ela não é nem a melhor, nem a mais nobre. Para alguns, ela pode mesmo tornar-se na pior.
  4. A vida de Cristo é, certo, a mais amarga. Mas ela é a mais amável de todas. Vamos compreender isto pelo que se segue.
  5. Existe um conhecimento pelo qual podemos conhecer o Bem na sua verdade e na sua simplicidade.
  6. O Bem não é nem isto nem aquilo. Ele é o que são Paulo dizia: «Quando vier o Perfeito e o Inteiro, a divisão e a imperfeição serão abolidas» (cf. 1Co 13, 10). Isto significa que o Perfeito e o Inteiro ultrapassam toda a divisão: todas as partes, todo o imperfeito não são nada face ao Perfeito.
  7. Quando o Inteiro é conhecido, todo o conhecimento das parte é abolido. Quando o Bem é conhecido, nós devemos desejá-lo e amá-lo de tal forma que seja imediatamente abolido o «outro amor» - aquele pelo qual o ser humano se ama a si próprio e as outras coisas.
  8. Esse conhecimento conhece o que é o melhor e o mais nobre em todas as coisas. Ele ama-o no verdadeiro Bem, e unicamente para o amor do Bem.
  9. Lá onde está esse conhecimento, sabe-se que a vida de Cristo é a melhor e a mais nobre. Ela é tida como sendo a mais agradável de todas. É amada, é aceite sem se perguntar - nem se preocupar em saber - se ela é suave ou penosa para a natureza, nem se ela é amável ou dolorosa para alguém.
  10. O ser humano em quem este verdadeiro Bem é conhecido, a vida de Cristo está nele e fica nele até à sua morte corporal. Aquele que imagina outra coisa está no erro, aquele que fala de outra forma está na mentira.
  11. Pelo contrário, o ser humano em quem não está a vida de Cristo, o verdadeiro Bem e a Verdade nunca serão conhecidos.

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Imitação de Cristo - Do pacífico e bom


  1. Em primeiro lugar conserva-te em paz: e então podes dá-la aos outros.
  2. O pacífico é mais útil que o sábio.
  3. Uma pessoa com paixões muda o bem em mal, e acredita no mal com facilidade.
  4. A pessoa pacífica e boa atribui tudo ao bem.
  5. Aquele que está firmado na paz, não pensa mal de ninguém; mas a pessoa inquieta e descontente está agitada por diversas suspeitas; nunca tem repouso, e não deixa os outros descansados.
  6. Ele diz frequentemente aquilo que não devia dizer, e não faz aquilo que devia fazer.
  7. Atento aos deveres dos outros, negligencia os seus próprios deveres.
  8. Tu, primeiro, tem zelo para contigo próprio, e podes em seguida, com justiça, estendê-lo ao próximo.
  9. Tu sabes bem colorir e desculpar as tuas faltas, e não queres receber as desculpas dos outros.
  10. Seria mais justo acusares-te a ti próprio, e desculpares o teu irmão.
  11. Se queres que os outros te suportem, suportam também os outros.
  12. Vê quanto estás longe ainda da verdadeira caridade e da humildade, a qual nunca se irrita e não se indigna a não ser contra si própria.
  13. Não é uma grande coisa viver bem com pessoas suaves e boas, porque isso agrada naturalmente a todos; cada um gosta do seu repouso, e afeiçoa-se àqueles que partilham os seus sentimentos.
  14. Mas viver em paz com pessoas duras, perversas, sem regra, ou que nos contrariam, é uma grande graça, uma virtude corajosa, digna de ser louvada.
  15. Há quem esteja em paz consigo e com os outros.
  16. E há os que não têm paz, e que ficam perturbados com a paz dos outros: são incómodos para os outros, e mais incómodos ainda para eles próprios.
  17. Finalmente, há os que se mantêm em paz, e que se esforçam por levar a paz aos outros.
  18. Em conclusão, nesta vida miserável, toda a nossa paz consiste mais num sofrimento humilde que na ausência de sofrimento.
  19. Quem sabe melhor sofrer, possuirá a maior paz.
  20. Esse, é vencedor de si próprio e senhor do mundo, amigo de Jesus Cristo, e herdeiro do céu.


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Livro da Vida Perfeita - Responsabilidade do ser humano


  1. «Certos seres humanos, diz-se, crêem-se e dizem-se tão completamente mortos e desprendidos deles próprios que eles poderiam viver assim na impassibilidade e não serem tocados por nada - como se não existisse nenhuma criatura ou como se todas as pessoas também vivessem na obediência.
  2. Assim, eles levam uma vida agradável, com o coração leve, e acomodam-se a todas as coisas, quaisquer que elas sejam.»
  3. Não, verdadeiramente: não!
  4. Não é assim, mas tal como foi escrito precedentemente.
  5. Só seria assim se todos os seres humanos estivessem na obediência: não é o caso!
  6. «Mas, também se podia dizer, o ser humano deve estar livre de todas as coisas, ele não se deve apropriar de nada: nem do bem, nem do mal...»
  7. Quanto ao bem, sim, ninguém o deve atribuir a si. Porque ele pertence a Deus, à bondade de Deus.
  8. Aquele que está disposto e preparado para se tornar na casa e na residência da Divindade - quer dizer, do Bem eterno - por forma a que ela exerça nele sem obstáculo o seu poder, a sua vontade e a sua ação, esse receberá graça, recompensa e felicidade eternas.
  9. Quanto ao mal, o ser humano pode sempre tentar desculpar-se dizendo que não o tem de atribuir a si, e que a responsabilidade pertence apenas ao diabo e à sua malignidade...
  10. Mas aquele que está disposto a que o diabo - quer dizer, a falsidade, a mentira, a dissimulação e outras malignidades - exerça nele a sua vontade e o seu poder, a sua ação e a sua palavra; aquele que está pronto a tornar-se na sua casa e na sua residência, vergonha para ele, desgraça, infelicidade e condenação para a eternidade!

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Imitação de Cristo - Da humilde submissão a Deus


  1. Inquieta-te pouco com quem é por ti, ou contra ti; mas cuida que Deus esteja contigo em tudo aquilo que faças.
  2. Tem a consciência pura, e Deus tomará a tua defesa.
  3. Toda a malícia do mundo não seria capaz de prejudicar aquele que Deus quer proteger.
  4. Se tu te souberes calar e sofrer, Deus sem dúvida te auxiliará.
  5. Deus sabe o tempo e o modo de te livrar: abandona-te portanto a Ele.
  6. É de Deus que vem todo o socorro, é ele que livra da confusão.
  7. É frequentemente muito útil, para nos reter numa maior humildade, que os outros sejam informados dos nossos defeitos, para assim nos repreenderem.
  8. Quando alguém se humilha dos seus defeitos, apazigua facilmente os outros, e reconcilia-se sem esforço com aqueles que estão irritados contra ele.
  9. Deus protege o humilde e livra-o, Ele ama o humilde e consola-o, Ele inclina-se para o humilde e prodiga-lhe as suas graças, e depois do rebaixamento, eleva-o na glória.
  10. Deus revela ao humilde os seus segredos, convida-o e atrai-o suavemente a si.
  11. Mesmo quando recebe alguma afronta, o humilde continua a viver em paz, porque se apoia em Deus e não no mundo.
  12. Não julgues que progrediste, se não te consideras inferior aos outros todos.


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Livro da Vida Perfeita - O que é contra Deus


  1. Toda a desobediência é contra Deus, e nada mais.
  2. Na verdade, nada é contra Deus: nem as criaturas, nem as suas ações, nem nada daquilo que se possa nomear ou pensar.
  3. Nada é contra Deus, nada é desagradável para Deus a não ser a desobediência - e em particular a do ser humano.
  4. Tudo o que existe é agradável e prazenteiro para Deus, menos a desobediência - e em particular a do seu humano.
  5. Esta é tão desagradável para Ele, tão contrária e tão deplorável que Ele preferia sofrer mil mortes se Ele pudesse, num único ser humano, com isso matar a desobediência e restabelecer a obediência. Enquanto que o ser humano, pelo seu lado, só percebe, só sente e só considera aquilo que se opõe a si próprio.
  6. Sem dúvida, ninguém pode estar tão plenamente e inteiramente nessa obediência como Cristo estava.
  7. Mas o ser humano pode aproximar-se dela suficientemente próximo para ser chamado - e ser verdadeiramente - «santo» e «santificado».
  8. Quanto mais ele se aproxima dela, mais a desobediência, o pecado e a justiça o afligem, o ofendem e são para ele um sofrimento amargo.
  9. «Desobediência» e «pecado» são uma mesma coisa.
  10. Só existe o pecado da desobediência, e o que produz a desobediência.

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Imitação de Cristo - Da vida interior


  1. «O reino de Deus está dentro de vós», diz o Senhor (Lc 17, 21).
  2. «Volta-te para Deus com todo o teu coração» (Joel 2, 12), deixa para trás este mundo miserável, e a tua alma encontrará repouso.
  3. Aprende a desprezar as coisas exteriores e a dares-te às interiores, e tu verás o reino de Deus vir até ti.
  4. «Porque o reino de Deus é paz e alegria no Espírito Santo» (Rm 14, 17), que não é dado aos ímpios.
  5. Jesus Cristo virá a ti e encher-te-á com as suas consolações, se tu preparares dentro de ti uma morada digna dele.
  6. Toda a sua glória e toda a sua beleza é interior; é dentro do segredo do coração que Ele se compraz.
  7. Ele visita frequentemente a pessoa interior e as suas conversas são doces, as suas consolações são arrebatadoras; a sua paz é inesgotável, e a sua familiaridade incompreensível.
  8. Alma fiel, apressa-te portanto a preparares o teu coração para o esposo, a fim que ele se digne vir, e habitar em ti.
  9. Porque está dito: «Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e eu virei a ele, e eu farei nele a minha morada.» (Jo 14, 23). Deixa portanto entrar Jesus em ti, e deixa-o entrar só a Ele.
  10. Quando possuíres Jesus, serás rico e só Ele te será suficiente. Ele vigiará por ti, Ele tomará conta fiel de ti em todas as coisas, de modo que não terás mais necessidade de esperar nada dos outros.
  11. Porque as pessoas mudam rapidamente e te abandonam de repente; «mas Jesus Cristo permanece eternamente» (Jo 12, 34) inquebrantável na sua constância, fica junto de ti até ao fim.
  12. Não devemos contar com uma pessoa frágil e mortal, apesar dela nos ser útil e que nós sejamos caros um ao outro, e também não deve haver lugar de nos entristecermos muito se algumas vezes ela nos contrariar ou se levantar contra nós.
  13. Aqueles que hoje estão ao teu lado, poderão estar amanhã contra ti, e reciprocamente: as pessoas mudam como o vento.
  14. Coloca em Deus toda a tua confiança: que Ele seja o teu temor e o teu amor; Ele responderá por ti e Ele fará o que achar que é o melhor.
  15. «Vocês não têm aqui moradia permanente»; em qualquer lugar onde estiveres, és um estrangeiro e um viajante, e nunca terás repouso a não ser que estejas unido intimamente com Jesus Cristo.
  16. O que procuras à tua volta? Não é aqui o lugar do teu repouso.
  17. A tua morada deve ser no céu, e deves considerar todas as coisas da terra como de passagem.
  18. Tudo passa, e tu passas com tudo o resto.
  19. Toma cuidado de não te agarrares ao que quer que seja, com receio de te tornes escravo e de te perderes.
  20. Que sem cessar o teu pensamento suba para o Altíssimo, e a tua oração para Jesus Cristo.
  21. Se ainda não te sabes elevar às contemplações celestes, repousa-te na paixão do Salvador, e compraz-te em habitar nas suas chagas sagradas.
  22. Porque, se tu te refugiares com amor nas chagas e nos preciosos estigmas, sentirás uma grande força no tempo da tribulação; inquietar-te-ás pouco com o desprezo das pessoas e suportarás com facilidade as palavras maldizentes.
  23. Jesus Cristo também foi desprezado pelas pessoas deste mundo, e nas mais extremas angústias, abandonado pelos seus, pelos amigos, pelos próximos, no meio de opróbrios.
  24. Jesus Cristo quis sofrer e ser desprezado; e tu ousas queixar-te de qualquer coisa!
  25. Jesus Cristo teve inimigos e detratores, e tu só querias ter amigos e benfeitores!
  26. Como é que a tua paciência mereceria ser coroada se não te acontecesse nada de penoso?
  27. Se não queres sofrer nada, como serás amigo de Jesus Cristo?
  28. Sofre com Jesus Cristo e por Jesus Cristo, se queres reinar com Jesus Cristo.
  29. Se uma única vez tu tivesses entrado bem dentro do coração de Jesus, e tivesses sentido alguns movimentos do seu amor, como terias pouca preocupação com aquilo que te possa contrariar ou agradar!
  30. Tu rejubilarias com um ultraje recebido porque o amor de Jesus ensina-nos a nos desprezarmos a nós próprios.
  31. Aquele que ama Jesus e a verdade, uma pessoa verdadeiramente interior e desprendida de todas as afeições desregradas, pode livremente aproximar-se de Deus, elevar-se em espírito acima de si próprio, e repousar n'Ele com suavidade.
  32. Aquele que estima as coisas segundo aquilo que elas são, e não segundo os discursos e as opiniões das pessoas, é verdadeiramente sábio; e é Deus que o instrui mais do que as pessoas.
  33. Aquele que vive dentro de si próprio, e que se inquieta pouco com as coisas exteriores, todos os locais e todos os tempos são bons para realizar os seus exercícios de devoção.
  34. A pessoa interior recolhe-se bem depressa porque nunca sai completamente para fora de si.
  35. Os trabalhos exteriores, e as ocupações necessárias em certos tempos, não o perturbam; mas presta-se às coisas conforme elas vão chegando.
  36. Quem criou ordem dentro de si, não se atormenta se há bem ou mal dentro dos outros.
  37. Só temos distrações e obstáculos se os criamos para nós próprios.
  38. Se tu fosses aquilo que devias ser, inteiramente livre e desprendido, tudo contribuiria para o teu bem e para o teu progresso.
  39. Mas muitas coisas te desagradam e muitas vezes te perturbam, porque ainda não estás realmente morto para ti próprio e separado das coisas da terra.
  40. Nada embaraça, nem suja tanto, o coração de um pessoa como o amor impuro das criaturas.
  41. Se rejeitares as consolações exteriores, tu poderás contemplar as coisas do céu e desfrutar frequentemente das alegrias interiores.


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Imitação de Cristo - 2. Exortações à vida interior


  1. Da vida interior
  2. Da humilde submissão a Deus
  3. Do pacifico e bom
  4. Da simplicidade e da pureza
  5. Da consideração de si próprio
  6. Da alegria da boa consciência
  7. Do amor de Jesus acima de todas as coisas
  8. Da amizade familiar com Jesus
  9. Da privação de toda a consolação
  10. Do reconhecimento pela graça de Deus
  11. Do pequeno número daqueles que amam a Cruz de Cristo
  12. Da santa via da Cruz



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Livro da Vida Perfeita - A origem do sofrimento


  1. Se todos os seres humanos estivessem na verdadeira obediência, não haveria nem mal nem sofrimento. Só haveriam simples dores corporais, portanto não haveria motivos para queixas.
  2. Se todos os seres humanos estivessem na obediência, todos estariam de acordo. Não causariam mal nem sofrimento uns aos outros. Também não viveriam nem agiriam contra Deus.
  3. Donde poderia vir então o mal e o sofrimento?
  4. Mas no presente, ai!, todos os seres humanos e o mundo inteiro estão na desobediência.
  5. E se existisse hoje um único ser humano na pura e inteira obediência - como nós cremos que esteve Cristo, sem a qual ele não teria sido Cristo -, a desobediência de todos ser-lhe-ia um amargo e lastimável sofrimento.
  6. Todos os seres humanos estariam contra ele, porque, nessa obediência, ele seria um com Deus e Deus seria Ele-próprio esse ser humano.

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Imitação de Cristo - Da séria emenda de toda a nossa vida


  1. Sê vigilante e fervoroso no serviço de Deus e faz a ti próprio esta pergunta com frequência: Porque vieste para aqui, e porque deixaste o mundo?
  2. Não foi com o fim de viver por Deus e tornares-te numa pessoa espiritual?
  3. Abrasa-te com o desejo de avançar porque receberás em breve a recompensa dos teus trabalhos, e então não haverá mais temor nem dor.
  4. Agora um pouco de trabalho, e depois um grande repouso; que digo eu? a alegria eterna!
  5. Se tu agires constantemente com ardor e fidelidade, Deus também será sem dúvida fiel e magnífico nas suas recompensas.
  6. Tu deves conservar uma esperança firme de chegar à glória; mas não te deves entregar a uma segurança demasiado profunda com receio de caíres no relaxamento ou na presunção.
  7. Uma pessoa que flutuava frequentemente, cheia de ansiedade, entre o temor e a esperança, estando um dia abatida pela tristeza, entrou numa igreja; e, prostrada diante do altar para rezar, dizia e redizia a si própria: Oh! se eu soubesse se devia perseverar!
  8. Imediatamente ouviu interiormente esta resposta divina: Se soubesses, que farias?
  9. Pois faz agora o que farias então, e desfrutarás de paz.
  10. Consolada nesse mesmo instante e fortificada, abandonou-se sem reserva à vontade de Deus e as suas agitações cessaram.
  11. Essa pessoa não quis procurar com curiosidade aquilo que lhe aconteceria no futuro; mas suplicou unicamente para conhecer a vontade de Deus e o que Lhe agrada mais, afim de começar e acabar tudo o que é bom.
  12. «Espera em Deus, diz o Profeta, «e pratica o bem; habita em paz na terra, e serás alimentado com as suas riquezas.» (Sl 36, 3).
  13. Uma coisa arrefece nalguns o ardor de avançarem e de se corrigirem: o temor das dificuldades, e o trabalho do combate.
  14. Com efeito, ultrapassam os outros na virtude aqueles que se esforçam com mais coragem por se vencerem a eles próprios naquilo que lhes é mais penoso e que contraria mais a sua inclinação.
  15. Porque a pessoa faz tanto mais progresso e merece tanta mais graça, quanto mais se ultrapassa a si própria e se mortifica com mais empenho.
  16. É verdade que todos não têm de combater o mesmo para se vencerem e morrerem a si próprios.
  17. No entanto, uma pessoa animada por um zelo ardente avançará bem mais, mesmo com numerosas paixões, que outra melhor disposta neste assunto, mas morna para a virtude.
  18. Duas coisas ajudam sobretudo a operar uma grande emenda: arrancar-se com violência àquilo que a natureza degradada cobiça, e trabalhar arduamente para adquirir a virtude de que se tem mais necessidade.
  19. Agarra-te também particularmente a evitar e a vencer os defeitos que te desagradam mais nos outros.
  20. Aproveita tudo para avançares.
  21. Se vês bons exemplos ou se os ouves serem contados, anima-te a imitá-los.
  22. Mas se tu te aperceberes de qualquer coisa repreensível, toma cuidado de não cometeres o mesmo erro; ou, se o cometeste alguma vezes, procura corrigir-te prontamente.
  23. Como os teus olhos observam os outros, assim também os outros te observam a ti.
  24. Como é consolador e agradável ver religiosos zelosos, devotos, fervorosos, fieis observadores da regra.
  25. Como é triste, pelo contrário, e penoso de ver aqueles que não vivem ordenadamente e que não respeitam os compromissos aos quais foram chamados!
  26. Como nos prejudicamos a nós próprios ao negligenciarmos os deveres da nossa vocação, e ao voltarmos o nosso coração para as coisas que não somos chamados!
  27. Recorda-te daquilo que prometeste, e que Jesus crucificado te esteja sempre presente.
  28. Tens razão de corares, ao considerares a vida de Jesus Cristo, de teres até aqui feito tão poucos esforços para conformares a tua vida com a d'Ele, apesar de teres entrado à tanto tempo na via de Deus.
  29. Um religioso que se exercita a meditar seriamente e com devoção na vida muito santa e na paixão do Salvador, encontrará aí com abundância tudo o que lhe é útil e necessário, e não tem necessidade de procurar fora de Jesus qualquer coisa de melhor.
  30. Ah! se Jesus crucificado entrasse no teu coração, como tu serias em breve suficientemente instruído!
  31. Um religioso fervoroso recebe bem aquilo que lhe mandam e submete-se sem dificuldade.
  32. Um religioso morno e relaxado sofre tribulação sobre tribulação e só encontra dificuldades por todo o lado, porque está privado das consolações interiores e porque lhe é interdito procurar fora.
  33. Um religioso que se liberta da sua regra está exposto a quedas terríveis.
  34. Aquele que procura uma vida menos contrita e menos austera andará sempre na angústia; porque sempre alguma coisa lhe desagradará.
  35. Como fazem tantos outros religiosos que observam, nos seus claustros, uma tão rigorosa disciplina?
  36. Saem raramente, vivem retirados, são pobremente alimentados e grosseiramente vestidos.
  37. Trabalham muito, falam pouco, vigiam longamente, levantam-se cedo, fazem longas orações, frequentes leituras, e observam em tudo uma disciplina rigorosa.
  38. Considera os Cartuxos, os Cistercienses, e os outros religiosos e religiosas das diferentes ordens, que se levantam todas as noites para cantar louvores a Deus.
  39. Seria portanto muito vergonhoso se a preguiça te mantivesse ainda afastado dum tão santo exercício quando já tantos religiosos começaram a celebrar o Senhor.
  40. Oh! se tu não tivesses outra coisa para fazer que não fosse louvar com o coração e com a boca, perpetuamente, o Senhor nosso Deus!
  41. Se tu nunca tivesses necessidade de comer, de beber, de dormir, e se pudesses nunca interromper nem por um momento esses louvores, nem os outros exercícios espirituais!
  42. Serias então muito mais feliz que és agora, submetido como estás ao corpo e a todas as necessidades.
  43. Quisera Deus que nós fossemos libertos dessas necessidades e que só tivéssemos que cuidar do alimento da nossa alma, a qual provamos, infelizmente, tão raramente!
  44. Quando uma pessoa chega a não procurar a sua consolação noutra criatura, é então que começa a saborear Deus perfeitamente, e que está, aconteça o que acontecer, sempre satisfeita.
  45. Então, não se regozija com nenhuma prosperidade, nem nenhum revés a contrista; mas abandona-se completamente, com plena confiança, em Deus que é para ela tudo em todas as coisas, para quem nada perece, nada morre, para quem ao contrário tudo vive, e a quem tudo obedece sem demora.
  46. Recorda-te sempre que o teu fim se aproxima e que o tempo perdido não regressa.
  47. As virtudes só se adquirem com muitos cuidados e esforços constantes.
  48. Assim que começares a cair na mornidão, cais na perturbação.
  49. Mas se perseverares no fervor, encontrarás uma grande paz e sentirás o teu trabalho mais ligeiro, por causa da graça de Deus e do amor da virtude.
  50. A pessoa fervorosa e zelosa está pronta para tudo.
  51. É mais penoso resistir aos vícios e às paixões que suportar as fadigas do corpo.
  52. «Aquele que não evitas a pequenas faltas, cai a pouco e pouco nas grandes.».
  53. Tu terás sempre satisfação à noite, quando tiveres empregue bem o teu dia.
  54. Vigia sobre ti, desperta-te, admoesta-te; e aconteça o que acontecer aos outros, não te negligencies a ti próprio.
  55. Não farás progressos se não fizeres violência contra ti próprio.


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Livro da Vida Perfeita - A desobediência


  1. «O pecado, escreveu-se, é que a criatura se afasta do seu Criador.» Isto regressa àquilo que foi dito antes.
  2. Aquele que está na desobediência está no «pecado». Enquanto o ser humano permanece na desobediência, o pecado não pode, faça ele o que fizer, ser apagado nem reparado. Só pode ser, pelo regresso à obediência.
  3. O pecado é a própria desobediência.
  4. Desde que o ser humano regressa à verdadeira obediência, tudo é apagado, reparado e perdoado, e não de outra forma.
  5. O próprio diabo, se pudesse regressar à verdadeira obediência, tornar-se-ia num anjo, todo o seu pecado, toda a sua malignidade seriam apagadas, reparadas e perdoadas.
  6. Um anjo, se pudesse cair na desobediência, tornar-se-ia imediatamente num diabo, mesmo se não fizesse mais nada.
  7. Se fosse possível que um ser humano, libertando-se verdadeiramente e totalmente de si próprio e de todas as coisas, estivesse na verdadeira obediência, como esteve a humanidade de Cristo, esse ser humano seria sem pecado. Seria, por graça, aquilo que Cristo foi por natureza.
  8. «Mas, dir-se-á, isso não é possível!»
  9. É por isso que se diz que ninguém é sem pecado!
  10. Resta que, quando mais nos aproximamos dessa obediência, menos ficamos no pecado. Quando mais nos afastamos, mais ficamos no pecado.
  11. Em resumo, que o ser humano seja bom, melhor ou excelente, que ele seja mau, pior ou execrável, que ele seja pecador ou bem-aventurado perante Deus, isso depende inteiramente dessa obediência e dessa desobediência.
  12. É por isso que está escrito: «Quando mais há de mim e de amor próprio, mais há de pecado e de malignidade. Quando menos há destes, menos há daqueles.»
  13. Está escrito igualmente: «Quanto mais o meu "eu" diminui, quer dizer o mim e o amor próprio, mais o "eu" de Deus - quer dizer Deus ele próprio - cresce em mim.»

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Imitação de Cristo - Do julgamento e das penas dos pecadores


  1. Em todas as coisas olha para o fim, e reporta-te ao dia em que lá estiveres, em pé frente ao Juiz severo a quem nada está escondido, que não se deixa comprar com presentes, que não aceita desculpas, mas que julgará segundo a justiça.
  2. Pecadores miseráveis e insensatos! o que é que vocês responderão a Deus, que conhece todos os vossos crimes, vocês que às vezes tremem com o aspeto de um homem irritado?
  3. Por que estranho esquecimento de vocês próprios, vocês caminham sem prever nada, para esse dia onde nada poderá ser desculpado nem defendido por outrem, mas onde cada um será para si um fardo bastante pesado?
  4. Agora o teu trabalho produz o seu fruto: as tuas lágrimas são aceites, os teus gemidos são escutados, a tua dor satisfaz a Deus e purifica a tua alma.
  5. Tem aqui em baixo um grande e salutar purgatório, o ser humano paciente que, face aos ultrajes, se aflige mais com a malícia dos outros que com a sua própria injuria; que pede sinceramente por aqueles que o entristecem, e lhes perdoa do fundo do coração; que, se ele incomodou os outros, está sempre pronto a pedir perdão; que se inclina mais para a compaixão que para a cólera; que faz violência contra si próprio, e se esforça por sujeitar completamente a carne ao espírito.
  6. Vale mais purificarmo-nos agora dos nossos pecados e eliminar os seus vícios, que esperar por os expiar na outra vida.
  7. Oh! quanto nós nos enganamos a nós próprios pelo amor desordenado que temos pela nossa carne!
  8. O que devorará este fogo, senão os teus pecados?
  9. Quanto mais te poupares a ti próprio no presente, e quando mais lisonjeares a tua carne, mais depois o teu castigo será terrível e mais tu ajuntarás para o fogo eterno.
  10. O ser humano será castigado mas rigorosamente nas coisas em que tiver pecado mais.
  11. Lá, os preguiçosos serão trespassados por aguilhões ardentes, e os glutões serão atormentados por uma fome e sede extremos.
  12. Lá, os luxuriosos e os impudicos serão mergulhados num pez ardente e num enxofre fétido; como cães furiosos, os invejosos uivarão de dor.
  13. Cada vício terá o seu tormento próprio.
  14. Lá, os soberbos estarão cheios de confusão, e os avaros reduzidos à mais miserável indigência.
  15. Lá, uma hora será mais terrível no suplício, que cem anos aqui na mais dura penitência.
  16. Aqui, por vezes o trabalho cessa, consolamo-nos com os nossos amigos; lá, nenhum repouso, nenhuma consolação para os danados.
  17. Fica portanto agora cheio de apreensão e de dor pelos teus pecados, afim de partilhares, no dia do julgamento, da segurança dos bem-aventurados.
  18. «Porque os justos se levantarão com grande segurança contra aqueles que os tiverem oprimido e desprezado» (Sb 1, 5).
  19. Então se levantará para julgar aquele que se submete hoje humildemente aos julgamentos dos humanos.
  20. Então, o humilde e o pobre terão grande confiança; e de todos os lados o terror rodeará o soberbo.
  21. Então, será evidente que foi sábio neste mundo, aquele que aprendeu a ser louco e desprezado por Jesus Cristo.
  22. Então, serão aplaudidas as tribulações sofridas com paciência, «e toda a iniquidade ficará muda» (Sb 106, 42).
  23. Então, todos os justos se alegrarão, e todos os ímpios ficarão consternados de dor.
  24. Então, a carne afligida rejubilará mais do que se ela tivesse sido sempre alimentada com delícias.
  25. Então, as roupas pobres resplandecerão, e os fatos sumptuosos perderão todo o brilho.
  26. Então, a mais pobre e pequena residência será julgada acima do palácio todo a brilhar de ouro.
  27. Então, uma paciência constantemente mantida será de maior socorro que todo o poder do mundo; e uma obediência simples, será elevada mais alto que toda a sagacidade do mundo.
  28. Então, haverá mais alegria na pureza duma boa consciência que na douta filosofia.
  29. Então, o desprezo das riquezas terá mais peso na balança que todos os tesouros da terra.
  30. Então, a recordação de uma oração devota terá mais consolação para ti que a lembrança de uma refeição esplêndida.
  31. Então, tu rejubilarás mais pelo silêncio guardado que pelas longas conversas.
  32. Então, as obras santas vencerão os belos discursos.
  33. Então, tu preferirás uma vida de pena e de trabalho, em vez de todos os prazeres da terra.
  34. Aprende portanto agora a suportar alguns sofrimentos ligeiros a fim de ficares então livre de sofrimentos maiores.
  35. Experimenta aqui primeiro aquilo que tu serás capaz de aguentar depois.
  36. Se agora só consegues suportar tão pouco, como vais depois aguentar os tormentos eternos?
  37. Se agora a mais pequena dor te causa tanta impaciência, como será então aquando das torturas do inferno?
  38. Há, não duvides, duas satisfações que tu não podes reunir: tu não podes saborear aqui em baixo as delícias do mundo, e reinar depois com Jesus Cristo.
  39. Se tu tivesses vivido até ao dia de hoje entre honras e luxurias, para que é que isso te serviria, se tivesses que morrer neste instante?
  40. Portanto tudo é vaidade, menos amar Deus e só o servir a Ele.
  41. Porque aquele que ama Deus com todo o coração não teme nem a morte, nem o suplício, nem o julgamento, nem o inferno, porque o amor perfeito dá-nos um acesso seguro para junto de Deus.
  42. Mas aquele que ainda ama o pecado, não é de surpreender que ele receie a morte e o julgamento.
  43. No entanto, se o amor ainda não te afastou do mal, é bom que ao menos o temor do fogo te retenha.
  44. Aquele que for pouco tocado pelo temor de Deus não será capaz de perseverar por muito tempo no bem, antes cairá rapidamente nas armadilhas do demónio.


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