Livro da Vida Perfeita - O homem novo


  1. Fala-se de um homem que é «velho» e de um outro que é «novo».
  2. Vê! O «homem velho» é Adão: a desobediência, o eu, o amor próprio, etc.
  3. O «homem novo» é Cristo: a obediência.
  4. Quando se fala de «morrer» ou de «perecer», etc., isso quer dizer que o «homem velho» deve tornar-se nada.
  5. Quando isso se produz na luz verdadeira, que é a luz divina, então nasce o «homem novo».
  6. Diz-se que o ser humano deve «morrer a si próprio»: isso quer dizer que o eu e o amor próprio humanos devem ser anulados. É o que diz São Paulo: «Dispam-se do homem velho e das suas obras, e revistam-se dum homem novo, criado e formado segundo Deus» (Ef 4, 22-24).
  7. Aquele que vive no amor próprio, segundo o homem velho, chamam-lhe, e é verdadeiramente, «filho de Adão». Ele pode viver aí tão inteiramente, tão profundamente que se torne mesmo filho e irmão do diabo.
  8. Pelo contrário, aquele que vive na obediência, segundo o homem novo, é «irmão de Cristo» e «criança de Deus».
  9. Vê: quando morre o homem velho e nasce o homem novo ocorre este «segundo nascimento» de que fala Cristo: «Se vocês não nascerem segunda vez, não verão o reino de Deus» (Jo 3, 3).
  10. São Paulo diz igualmente: «Assim como todos os seres humanos morreram em Adão, assim regressarão à vida em Cristo» (1Cor 15, 22). O que quer dizer: todos os seres humanos que seguem Adão na desobediência estão mortos, eles só regressarão à vida em Cristo - na obediência.
  11. Enquanto o ser humano é «Adão» ou «filho de Adão», ele está sem Deus, segundo a palavra de Cristo: «Quem não está comigo, está contra mim» (Mt 12, 30).
  12. Aquele que está contra Deus, está morto diante de Deus; todos os filhos de Adão estão portanto «mortos» diante de Deus.
  13. Pelo contrário, aquele que está com Cristo, na obediência, esse está «vivo» com Deus.

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Imitação de Cristo - Da meditação da morte


  1. Bem depressa vão acabar os teus dias aqui em baixo; vê portanto em que estado estás.
  2. As pessoas existem hoje, e amanhã já desapareceram, e quando desaparecem da vista, rapidamente desaparecem da lembrança.
  3. Ó estupidez e dureza do coração humano, que só pensa no presente e não providencia o futuro!
  4. Em todas as tuas ações, em todos os teus pensamentos, tu devias estar como se fosses morrer hoje.
  5. Se tu tivesses uma boa consciência, temerias pouco a morte.
  6. Vale mais evitar o pecado que fugir da morte.
  7. Se hoje tu não estás pronto, como estarás amanhã?
  8. Amanhã é um dia incerto: e como sabes tu que terás um amanhã?
  9. De que te serve viver muito tempo, se te corriges tão pouco?
  10. Ah! uma vida longa nem sempre nos corrige; muitas vezes antes aumenta os nossos pecados.
  11. Oxalá tivéssemos vivido neste mundo um único dia!
  12. Vários contam os anos da sua conversão; mas muitas vezes, como mudaram pouco, e como esses anos foram estéreis!
  13. Se é terrível morrer, talvez seja mais perigoso viver tanto tempo.
  14. Feliz aquele a quem a hora da sua morte está sempre presente, e que cada dia se prepara para morrer!
  15. Se tu alguma vez viste uma pessoa morrer, pensa que também tu vais passar por essa via.
  16. De manhã, pensa que não chegarás à noite; e à noite, não ouses prometer que verás a manhã.
  17. Portanto, está sempre preparado, e vive de tal forma que a morte nunca te surpreenda.
  18. Vários são levados por uma morte súbita e imprevista: «porque o Filho do homem virá à hora que menos se espera» (Lc 12, 40).
  19. Quando vier essa última hora, tu começarás a julgar de outra forma a tua vida passada, e gemerás amargamente por teres sido tão negligente e tão frouxo.
  20. Que feliz e sábio é aquele que se esforça por viver como gostava de ser encontrado na hora da morte.
  21. Porque nada dará uma tão grande confiança de morrer felizmente, como o perfeito desprezo do mundo, o desejo ardente de avançar na virtude, o amor da regularidade, o trabalho da penitência, a abnegação de si próprio e a constância no sofrimento de todo o tipo de adversidades por amor de Jesus Cristo.
  22. Tu podes fazer muito bem enquanto tens saúde; mas, doente, não sei o que tu poderás fazer.
  23. A poucos, a doença torna melhores, assim como são poucos os que se santificam com peregrinações frequentes.
  24. Não contes com os teus amigos nem com os teus próximos, e não adies a tua salvação para o futuro; porque as pessoas te esquecerão mais depressa do que tu pensas.
  25. Vale mais fazeres boas obras com antecedência, e enviá-las à tua frente, que esperares pelo socorro dos outros.
  26. Se agora não tens nenhuma preocupação contigo próprio, quem se preocupará contigo no futuro?
  27. O tempo presente tem muito valor. «Eis agora o tempo propício, eis o dia da salvação» (2Cr 6, 2).
  28. Mas, ó dor! que tu faças um uso tão inútil daquilo que te podia servir para mereceres viver eternamente!
  29. Virá o tempo em que tu desejarás um único dia, uma única hora, para purificares a tua alma, e não sei se a obterás.
  30. Ah! meu irmão, de que perigo, de que temor terrível tu te poderias libertar se tu estivesses no presente sempre no temor da morte!
  31. Procura agora viver de tal forma que na hora da morte tenhas mais motivo para te alegrares que para temer.
  32. Aprende agora a morrer ao mundo, para começares então a viver com Jesus Cristo.
  33. Aprende agora a desprezar tudo, para poderes então ir livremente a Jesus Cristo.
  34. Castiga agora o teu corpo pela penitência, para que possas então ter uma confiança sólida.
  35. Insensato, porque prometes a ti próprio viver muito tempo, quando não tens um único dia assegurado?
  36. Quantos foram enganados e arrancados subitamente dos seus corpos!
  37. Quantas vezes ouviste dizer: Aquele foi morto com uma estocada; este afogou-se, aquele partiu-se ao cair dum local elevado; um expirou enquanto comia, o outro enquanto jogava; um pereceu pelo fogo, um outro pelo ferro, um outro pela peste, um outro à mão de ladrões!
  38. E assim, o fim de todos é a morte, e «a vida do homem passa tão rápida como a sombra» (Sl 143, 4).
  39. Quem se recordará de ti depois da morte, e quem rezará por ti?
  40. Faz, faz agora, meu caro irmão, tudo o que puderes, porque não sabes quando vais morrer, nem sabes o que te acontecerá depois da morte.
  41. Enquanto tens tempo, acumula riquezas imortais.
  42. Pensa apenas na tua salvação, ocupa-te só das coisas de Deus.
  43. «Faz agora amigos», honrando os santos e imitando as suas obras, «para que chegado ao fim desta vida, eles te recebam nos tabernáculos eternos» (Lc 16, 9).
  44. Vive na terra como um viajante e um estrangeiro, para quem as coisas do mundo não são nada.
  45. Conserva o teu coração livre e sempre elevado para Deus, porque «vocês não têm aqui em baixo residência permanente» (Hb 13,14).
  46. Que os teus gemidos, as tuas lágrimas, as tuas orações, subam todos os dias para o céu afim que a tua alma, depois da morte, mereça subir feliz para Deus.


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Livro da Vida Perfeita - A humanidade de Cristo


  1. O ser humano foi criado - é criado - para a verdadeira obediência. Ele deve-a a Deus.
  2. A obediência está caída e morta em Adão, ela reergueu-se e regressou à vida em Cristo.
  3. A desobediência elevou-se e venceu em Adão, ela está morta em Cristo.
  4. Sim, a humanidade de Cristo era, e permaneceu, livre de si própria e de todas as coisas, como nunca o foi nenhuma criatura.
  5. Ela era apenas uma casa e uma residência para Deus.
  6. Ela não se apropriava de nada daquilo que pertence a Deus, nem de nada daquilo que ela própria era e vivia - e que era apenas uma residência de Deus.
  7. Ela não se apropriava de nada da própria Divindade, de nada daquilo que a própria Divindade queria, fazia ou deixava nela, nem de nada daquilo que se produzia nela própria ou daquilo que ela devia suportar.
  8. Ela não se apropriava de nada, não procurava nada, não desejava nada a não ser satisfazer a Divindade. E ela não se apropriava nem mesmo desse desejo.
  9. Não se pode escrever mais nada, não se pode dizer mais nada sobre esse mistério.
  10. Ele é inefável. Nunca foi expresso completamente, nem nunca o será. Ninguém o pode dizer ou escrever a não ser aquele que o é e que o conhece.

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Imitação de Cristo - Da consideração da miséria humana


  1. Em qualquer sítio onde tu estejas, para qualquer lado que tu te voltes, tu serás sempre miserável se não te voltares para Deus.
  2. Porque é que tu te perturbas porque nada acontece como desejas, e como queres?
  3. A quem é que tudo sucede segundo a sua vontade?
  4. Nem a ti, nem a mim, nem a nenhuma pessoa sobre a terra.
  5. Ninguém neste mundo, seja rei ou papa, está isento de angústias e de tribulações.
  6. De quem é então a melhor parte?
  7. Daquele, decerto, que sabe sofrer alguma coisa por Deus.
  8. Na sua fraqueza e pouca luz, vários dizem: Como esta pessoa tem uma vida feliz! como é rica, grande, poderosa, elevada!
  9. Mas considera os bens do céu, e verás que todos esses bens temporais não são nada; que sempre muito incertos, são mais um peso que fatiga, porque nunca podem ser possuídos sem desconfiança e sem temor.
  10. Ter em abundância os bens temporais, não é essa a felicidade do ser humano: a mediania chega-lhe.
  11. É verdadeiramente uma grande miséria viver sobre a terra.
  12. Quanto mais uma pessoa quer avançar nas vias espirituais, mais a vida presente se lhe torna amarga, porque sente melhor e vê mais claramente a enfermidade da natureza humana e a sua corrupção.
  13. Comer, beber, estar acordado, dormir, repousar, trabalhar, estar sujeito a todas as necessidades da natureza, é verdadeiramente uma grande miséria e uma grande aflição para a pessoa devota que gostaria de estar desembaraçada das ligações terrestres, e liberta de todo o pecado.
  14. Porque a pessoa interior está neste mundo oprimida pelas necessidades do corpo.
  15. E é por isso que o profeta pede com orações ardentes para ser liberto delas, dizendo: «Senhor, liberta-me das minhas necessidades» (Sl 24, 17).
  16. Infelizes portanto aqueles que não conhecem a sua miséria! e infelizes ainda mais aqueles que amam esta miséria e esta vida transitória!
  17. Porque há aqueles que abraçam tão avidamente a sua miséria, que tendo a custo o necessário a trabalhar ou a mendigar, não teriam nenhuma preocupação com o reino de Deus se pudessem viver para sempre aqui em baixo.
  18. Ó corações insensatos e infiéis, tão profundamente enterrados nas coisas da terra que só saboreiam o que é carnal!
  19. Infelizes! sentirão dolorosamente no fim quanto era vil, quanto não era nada aquilo que amaram.
  20. Mas os santos de Deus, todos os fieis amigos de Jesus Cristo desprezaram aquilo que lisonjeia a carne e o que brilha no tempo; toda a esperança deles, todos os desejos deles aspiravam aos bens eternos.
  21. O coração todo deles se elevava para os bens invisíveis e imorredouros, com receio que o amor das coisas visíveis os rebaixasse para a terra.
  22. Não percas, meu irmão, a esperança de avançares na vida espiritual: ainda tens tempo, está na hora.
  23. Porque é que adias sempre para amanhã a realização das tuas resoluções? Levanta-te e começa imediatamente, e diz: Chegou o tempo de agir, chegou o tempo de combater, chegou o tempo de me corrigir.
  24. Quando a vida te for pesada e amarga, então é o tempo de mereceres.
  25. «É preciso passar pelo fogo e pela água, antes de entrar no lugar do descanso» (Sl 65,12).
  26. Se não usares de violência contra ti próprio, não vencerás o vício.
  27. Enquanto trouxermos este corpo frágil, não podemos estar sem pecado, nem sem aborrecimento e sem dor.
  28. Seria bom podermos desfrutar de um repouso exempto de toda a miséria; mas ao perdermos a inocência pelo pecado, também perdemos a verdadeira felicidade.
  29. É preciso portanto preservar na paciência, e esperar pela misericórdia de Deus «até que a iniquidade passe» (Sl 52,6), «e até que o que é mortal em nós seja absorvido pela vida» (2Cor 5,4).
  30. Oh! que grande é a fragilidade que inclina sempre o ser humano para o mal.
  31. Tu confessas hoje os teus pecados, e cais neles amanhã.
  32. Tu propões-te ter cuidado, e uma hora depois atuas como se não te tivesses proposto nada.
  33. Nós temos portanto bastantes motivos para nos humilharmos e para nunca nos elevarmos a nós próprios, sendo tão frágeis e inconstantes como somos.
  34. Nós podemos perder num momento, pela nossa negligência, aquilo que com custo adquirimos pela graça com muito trabalho.
  35. Que será de nós no fim do dia, se somos tão frouxos logo desde a manhã?
  36. Infelizes de nós se nos queremos entregar ao repouso, como se já estivéssemos em paz e em segurança, enquanto que não se descobre na nossa vida nem um único traço da verdadeira santidade!
  37. Bem necessário era que fossemos instruídos outra vez, e formados em novos costumes como noviços dóceis, para que pelo menos tentarmos ver se haveria alguma esperança de mudança e de maior progresso na virtude.


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Livro da Vida Perfeita - A verdadeira obediência


  1. Tudo aquilo que caiu e morreu em Adão, se reergueu e regressou à vida em Cristo.
  2. Tudo aquilo que em Adão se ergueu e veio à vida, caiu e morreu em Cristo.
  3. «Mas "aquilo", o que era aquilo, o que é aquilo então?»
  4. A verdadeira obediência, e a desobediência.
  5. «Mas o que é a "verdadeira obediência"?»
  6. O ser humano deve estar e permanecer livre de si próprio, quer dizer do eu e do amor próprio. De forma que em todas as coisas ele se procure e se considere tão pouco, a si próprio e ao que é seu, como se ele não fosse nada.
  7. Ele deve sentir a sua existência como tão coisa pouca, que ele deve considerar, a si próprio e ao que é seu, por tão pouco como se ele não existisse. E da mesma forma com todas as criaturas.
  8. «O que é que então existe verdadeiramente e que é preciso ter em estima?»
  9. Apenas o Um - a que se chama «Deus».
  10. Vê, é essa a «verdadeira obediência» e passa-se o mesmo na bem-aventurada eternidade. Lá só se procura, lá só se considera, lá só ama o Um. Lá não se tem nada mais em estima a não ser o Um.
  11. Vê-se também por isso o que é a «desobediência»: que o ser humano se tenha a si próprio em estima; que ele imagine que é, que sabe e que pode alguma coisa; que ele se procure nas coisas, a ele próprio e ao que é seu; que ele tenha amor por si próprio, etc.

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Imitação de Cristo - Da compunção do coração


  1. Se tu queres fazer algum progresso, conserva-te no temor de Deus e não sejas demasiado livre; mas submete os teus sentidos a uma disciplina severa, e não te entregues às alegrias insensatas.
  2. Dispõe o teu coração para a compunção, e encontrarás a verdadeira piedade.
  3. A compunção produz muito bem, que perdemos rapidamente quando nos abandonamos aos vãos movimentos do nosso coração.
  4. Custa a crer que um ser humano possa nesta vida repousar plenamente na sua alegria, quando considera o seu exílio, e a quantos perigos está exposta a sua alma!
  5. Por causa da ligeireza do nosso coração, e do esquecimento dos nossos defeitos, nós não sentimos os males da nossa alma, e muitas vezes rimos em vão quando antes devíamos chorar.
  6. Não há verdadeira liberdade, nem alegria sólida, fora do temor de Deus, e da boa consciência.
  7. Feliz daquele que pode afastar tudo o que o distrai e impede, para se recolher completamente na santa compunção.
  8. Feliz aquele que rejeita tudo o que pode sujar ou pesar na sua consciência.
  9. Combate corajosamente: vencemos um hábito com outro hábito.
  10. Se souberes deixar os seres humanos, eles em breve te deixarão fazer aquilo que quiseres.
  11. Não te ocupes dos assuntos dos outros, e não te envolvas nas coisas dos grandes.
  12. Que os teus olhos se abram em primeiro lugar para ti; e antes de repreenderes os teus amigos, tem o cuidado de te repreenderes a ti próprio.
  13. Se tu não tens o favor dos outros, não fiques triste; mas que a tua pena seja a de não viveres tão bem, e com tanta vigilância, como devia um servidor de Deus e um bom religioso.
  14. É muitas vezes útil e mais seguro não termos muitas consolações nesta vida, e sobretudo consolações sensíveis.
  15. No entanto, se nós somos privados das consolações divinas, ou se só as sentimos raramente, a culpa é nossa; é porque não procuramos a compunção do coração, e porque não rejeitamos completamente as vãs consolações do exterior.
  16. Reconhece que és indigno das consolações celestes, e que antes mereces grandes tribulações.
  17. Quando o ser humano está compenetrado de uma perfeita compunção, então o mundo todo é amargo e insuportável para ele.
  18. O justo encontra sempre suficientes assuntos para se afligir e chorar.
  19. Porque ao considerar quer a si próprio, quer aos outros, ele sabe que nada aqui em baixo existe sem tribulações; e quanto mais ele se observa atentamente, mais profunda é a sua dor.
  20. O motivo duma aflição justa e duma grande tristeza interior, são os nossos pecados e os nossos vícios, nos quais nós estamos de tal forma enterrados, que raramente podemos contemplar as coisas do céu.
  21. Se tu pensasses mais vezes na tua morte que na duração da tua vida, sem dúvida que terias mais ardor para te corrigires.
  22. E se tu refletisses seriamente nas penas do inferno e no purgatório, creio que suportarias voluntariamente o trabalho e a dor, e que não recearias nenhuma austeridade.
  23. Mas porque estas verdades não penetram até ao coração, e porque nós ainda gostamos daquilo que nos lisonjeia, mantemo-nos frios e negligentes.
  24. Muitas vezes é moleza da alma, e a nossa carne miserável queixa-se tão facilmente.
  25. Reza portanto humildemente ao Senhor para que ele te dê o espírito da compunção, e diz com o profeta: «Alimenta-me, Senhor, com o pão das lágrimas; dá-me a beber do cálice das lágrimas» (Sl 79, 6).


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Livro da Vida Perfeita - Deixar Deus agir


  1. «Há seres humanos neste mundo, diz Tauler, que se querem demasiado cedo libertar das imagens, sem esperarem que a própria verdade os liberte.
  2. «Porque se quiseram libertar a si próprios, eles não esperarão pela verdade, ou apenas com grande dificuldade
  3. É por isso que é preciso estar sempre com atenção às obras de Deus, às suas ordens, aos seus desejos e aos seus pedidos: não às obras, às ordens e aos pedidos dos humanos.
  4. É preciso saber que nenhuma pessoa pode ser iluminada antes de ser purificada, reformada, liberta.
  5. Da mesma forma, nenhuma pessoa se pode unir a Deus antes de ser iluminada.
  6. Há portanto três caminhos para chegar a Deus:
    - Primeiro, a purificação.
    - Em segundo lugar, a iluminação.
    - Finalmente, a união.

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Imitação de Cristo - Do amor da solidão e do silêncio


  1. Procura um tempo apropriado para cuidares de ti, e pensa com frequência nos benefícios de Deus.
  2. Deixa aquilo que só serve para alimentar a curiosidade.
  3. Lê antes aquilo que toca o coração, do que aquilo que diverte o espírito.
  4. Corta as conversas supérfluas, e os passeios inúteis; fecha os ouvidos aos ruídos vãos do mundo, e encontrarás tempo livre suficiente para as santas meditações.
  5. Os maiores santos evitavam, tanto quanto lhes era possível, o convívio com os humanos e preferiam viver em segredo com Deus.
  6. Um antigo disse: «Sempre que estive na companhia dos homens, regressei menos homem do que era.» (Séneca Epist. 7).
  7. É o que sentimos frequentemente quando nos entregamos a longas conversas.
  8. É mais fácil calarmo-nos, do que não nos excedermos nas nossas palavras.
  9. É mais fácil ficarmos em casa, do que acautelarmo-nos suficientemente fora dela.
  10. Portanto, aquele que aspira à vida interior e espiritual deve retirar-se da multidão com Jesus.
  11. Ninguém está fora de perigo se não gosta de ficar escondido.
  12. Ninguém fala com medida se não se cala voluntariamente.
  13. Ninguém está em segurança nos primeiro lugares se não gosta dos últimos.
  14. Ninguém manda sem perigo se não aprendeu bem a obedecer.
  15. Ninguém se regozija com segurança se não possui em si o testemunho de uma boa consciência.
  16. No entanto, a confiança dos santos esteve sempre cheia do temos de Deus: qualquer que fosse o brilho das sua virtudes, quanto abundantes fossem as sua graças, eles não eram menos humildes nem menos vigilantes.
  17. A segurança dos maus nasce, pelo contrário, do orgulho e da presunção, e termina na cegueira.
  18. Não prometas segurança a ti próprio nesta vida, ainda que pareças ser um santo religioso ou um devoto solitário.
  19. Muitas vezes, os melhores na estima dos humanos correram os maiores perigos por causa da sua demasiada confiança.
  20. Portanto, para muitos é útil não serem completamente entregues às tentações, e sofrerem ataques frequentes, a fim que não suceda que, confiantes em si, não se encham de orgulho ou não se entreguem demasiado às consolações do exterior.
  21. Oh! se nunca buscasse-mos as alegrias que passam, se nunca nos ocupasse-mos com o mundo, como possuiríamos uma consciência pura!
  22. Oh! quem cortasse toda a solicitude vã, pensando apenas na salvação e em Deus, e colocando nele toda a sua esperança, de que paz e de que repouso desfrutaria!
  23. Ninguém é digno das consolações celestes se não se exercitou durante bastante tempo na santa compunção.
  24. Se desejas a verdadeira compunção do coração, entra na tua cela e afasta o ruído do mundo; conforme está escrito: «Mesmo sobre o teu leito, que o teu coração esteja cheio de compunção» (Sl 4, 5).
  25. Tu encontras dentro da tua cela aquilo que muitas vezes perdes fora dela.
  26. A cela que se abandona pouco torna-se suave; mas frequentemente abandonada, causa tédio.
  27. Se desde o primeiro momento da tua conversão, fores fiel a guardá-la, ela tornar-se-á numa amiga querida e será a tua mais doce consolação.
  28. No silêncio e no repouso, a alma devota faz grandes progressos e penetra no que está escondido na Escritura.
  29. Ali a alma encontra a fonte das lágrimas com a qual se lava e se purifica todas as noites, e une-se tanto mais familiarmente ao seu Criador quanto mais vive afastada do tumulto do mundo.
  30. Portanto, aquele que se separa dos seus conhecidos e dos seus amigos, verá Deus aproxima-se dele com os seus santos anjos.
  31. Vale mais estar escondido e tomar conta da sua alma, que fazer milagres e esquecer-se de si.
  32. É digno de louvor o religioso que sai raramente e que não gosta de ver nem de ser visto.
  33. Porque queres ver aquilo que não podes ter? «O mundo passa, assim como a sua concupiscência» (1Jo 2, 17).
  34. Os desejos dos sentidos levam aqui e acolá; mas tendo passado o momento, que trazes tu, a não ser uma consciência pesada e um coração dissipado?
  35. Porque à saída alegre, muitas vezes sucede um regresso triste; e ao serão alegre, uma manhã triste.
  36. Desta forma, toda a alegria dos sentidos se insinua com suavidade, mas no fim fere e mata.
  37. Que podes ver noutro lugar que não vejas onde estás?
  38. Eis o céu, a terra, os elementos; ora, é deles que tudo é feito.
  39. Onde quer que tu vás, o que é estável debaixo do sol?
  40. Talvez acredites que podes ficar saciado; mas nunca conseguirás tal coisa.
  41. Se visses diante de ti todas as coisas, o que seria isso senão uma vã fantasia?
  42. Levanta os olhos ao alto para Deus e reza pelos teus pecados e pelas tuas negligências.
  43. Deixa as vaidades aos vãos, e tu ocupa-te só do que Deus te manda.
  44. Fecha a tua porta atrás de ti, e chama pelo teu amado Jesus.
  45. Fica com Ele na tua cela, porque não encontrarás noutro lugar tanta paz.
  46. Se não tivesses saído e não tivesses ouvido o ruído do mundo, terias ficado nessa paz suave; mas porque gostas de ouvir novidades, depois tens que suportar as perturbações do coração.


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Livro da Vida Perfeita - A verdadeira paz


  1. Muitas pessoas queixam-se de não terem nem paz nem quietude, mas muitos infortúnios e provas, muitos abatimentos e sofrimentos.
  2. Na verdade, sim! O próprio diabo também teria paz se as coisas corressem sempre segundo a sua vontade e o seu desejo...
  3. É por isso que é necessário considerar atentamente e compreender bem o que é esta «paz» que Cristo deixou aos seus discípulos, mesmo no fim, dizendo: «Eu deixo-vos a minha paz, eu dou-vos a minha paz, não aquela que dá o mundo, porque as dádivas do mundo são enganadoras» (Jo 14, 27).
  4. De qual «paz» Cristo quer falar?
  5. Ele fala da paz interior que afronta e ultrapassa todas as provas e as contrariedades, todas as opressões, as misérias e as infâmias, etc.
  6. Da paz que permite permanecer contente e paciente entre elas, como ficaram os discípulos bem-amados, e não apenas eles mas todos os amigos escolhidos de Deus e os verdadeiros imitadores de Cristo.
  7. Olha e compreende: aquele que tivesse aqui amor, zelo e ardor poderia aceder ao conhecimento desta verdadeira paz, a paz eterna que é o próprio Deus - tanto quanto é possível à criatura lá chegar.

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Imitação de Cristo - Dos exercícios do bom religioso


  1. A vida do bom religioso deve brilhar com todas as virtudes, de modo que seja no interior igual àquilo que aparenta diante dos outros.
  2. E, na verdade, deve ser muito mais perfeito por dentro, do que aquilo que mostra por fora, porque Deus nos observa, e que nós devemos, em toda a parte onde estivermos, reverenciar profundamente e caminhar na sua presença, puros como anjos.
  3. Nós devemos renovar diariamente a nossa resolução, devemos nos excitarmos ao fervor, como se a nossa conversão começasse apenas hoje, e dizer:
  4. Ajudai-me, Senhor, na minha boa resolução e no vosso santo serviço; concedei-me começar hoje bem, porque aquilo que eu fiz até aqui não é nada.
  5. A firmeza da nossa resolução é a medida do nosso progresso, e é necessária uma grande atenção para aquele que quer avançar.
  6. Se aquele que toma resoluções enérgicas cai tantas vezes, que será daquele que só as toma raramente ou nunca?
  7. Contudo, nós abandonamos as nossas resoluções de várias maneiras, e a menor omissão nos nossos exercícios espirituais quase sempre tem consequências negativas.
  8. Os justos, nas suas resoluções, contam bem mais com a graça de Deus, do que com a sua própria sabedoria; e qualquer coisa que empreendem, é só nela que confiam.
  9. Porque, «o homem propõe e Deus dispõe» (Pr 16, 9) e «o homem não é senhor do seu caminho» (Jr 16, 9).
  10. Se por vezes omitirmos o nosso exercício habitual devido a qualquer motivo de piedade ou do bem do próximo, será fácil em seguida reparar essa omissão.
  11. Mas se nós o abandonarmos sem motivo, por aborrecimento ou negligência, é uma falta grave que nos será prejudicial.
  12. Esforcemo-nos quanto pudermos, ainda assim cairemos facilmente em muitas faltas.
  13. No entanto, devemos tomar sempre alguma resolução determinada, principalmente contra o maior obstáculo ao nosso avanço.
  14. Devemos examinar e regular igualmente o nosso interior e o nosso exterior, porque ambos servem ao nosso progresso.
  15. Se não podes estar continuamente recolhido, recolhe-te de vez em quando, pelo menos uma vez por dia, de manhã ou à noite.
  16. De manhã toma as tuas resoluções, e à noite examina as tuas ações, como te comportaste nas palavras, nas obras e nos pensamentos, porque talvez tenhas ofendido muitas vezes a Deus e ao próximo.
  17. Como um soldado cheio de coragem, arma-te contra os ataques do demónio.
  18. Refreia a gula, e mais facilmente refrearás os outros desejos da carne.
  19. Nunca estejas completamente desocupado, mas lê, ou escreve, ou reza, ou medita, ou trabalha em alguma coisa útil à comunidade.
  20. Nos exercícios corporais, porém, deve haver toda a discrição, porque não convêm igualmente a todos.
  21. O que sai das práticas comuns não deve aparecer no exterior; é mais seguro praticar em segredo os seus exercícios particulares.
  22. Tem cuidado de não negligenciares os exercícios comuns em detrimento dos exercícios da tua escolha.
  23. Mas depois de teres cumprido fielmente e plenamente os deveres prescritos, se te sobrar algum tempo livre, ocupa-te em exercícios conforme te inspirar a tua devoção.
  24. Nem todos podem seguir os mesmos exercícios; um convém mais a este, o outro àquele.
  25. Até se costuma diversificar segundo o tempo, porque alguns são mais próprios para os dias de festa, outros para os dias comuns.
  26. De uns precisamos para o tempo da tentação, e de outros para o tempo de paz e sossego.
  27. Gostamos mais de meditar numas coisas quando estamos tristes, e noutras quando estamos na alegria do Senhor.
  28. Na proximidade das festas principais, devemos renovar os nossos exercícios de piedade e implorar com mais fervor a intercessão dos santos.
  29. Proponhamo-nos viver entre uma festa e outra como se devêssemos então sair deste mundo, e entrar na festa eterna.
  30. E para isso, devemos de nos preparar com cuidado nesses tempos santos por uma vida mais pia, por uma observância das regras mais severa, como se em breve fossemos receber de Deus a retribuição do nosso trabalho.
  31. E, se esse momento ainda tarda, pensemos que ainda não estamos bem preparados, nem dignos dessa grande glória que nos será revelada a seu tempo, e redobremos os nossos esforços para nos dispormos melhor para essa passagem.
  32. «Bem-aventurado o servo», diz São Lucas, «que, quando o Senhor vier, está vigiando».
  33. «Na verdade vos digo que Ele o constituirá administrador de todos os seus bens» (Lc 12, 43-44).


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Livro da Vida Perfeita - Dois caminhos bons e seguros


  1. O «inferno» e o «céu» são para o ser humano dois caminhos bons e seguros neste mundo.
  2. Feliz daquele que não os perde! Porque o inferno passará, mas o Reino celeste não passará.
  3. O ser humano deve observar isto.
  4. Quando ele está no inferno, nada o pode consolar. Crê nunca mais poder encontrar libertação nem consolação.
  5. Quando ele está no Reino celeste, nada o pode perturbar nem afligir. E crê então nunca poder sentir perturbação nem aflição.
  6. E no entanto é possível que depois do inferno encontre a libertação e a consolação, tal como é possível que depois do céu sinta a perturbação e a aflição...
  7. O «inferno» e o «céu» vêm ter com o ser humano sem que ele possa saber de onde vêm. Ele não pode, por si próprio, fazer nada nem deixar de fazer nada para que eles venham ou se afastem. Ele não pode, por si próprio, nem dá-los a si nem tirá-los de si, nem os produzir nem os destruir.
  8. Como está escrito: «O Espírito sopra onde quer, e tu ouves a sua voz (quer dizer tu apercebes-te da sua presença) mas tu não sabes de onde ele vem nem para onde vai (Jo 3,8).
  9. Que o ser humano esteja quer num quer no outro desses dois estados, é bom para ele. Ele pode estar em segurança no inferno assim como no Reino.
  10. Enquanto está no mundo, o ser humano pode frequentemente cair de um para o outro: de noite e de dia pode passar de um para o outro bastantes vezes, sem qualquer intervenção da sua parte.
  11. Mas se o ser humano não está em nenhum desses dois estados, então é sinal que se está a ocupar das criaturas. Ele erra aqui e acolá, e não sabe onde está.
  12. Seria necessário portanto que o coração do ser humano nunca se esquecesse destes dois estados.

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Imitação de Cristo - Do exemplo dos Santos Padres


  1. Contempla os exemplos dos Santos Padres, nos quais brilhava a verdadeira perfeição da vida religiosa, e verás quão pouco ou quase nada é o que fazemos.
  2. Ah! Que é a nossa vida comparada com a deles?
  3. Os santos e os amigos de Cristo serviram ao Senhor na fome e na sede, no frio e na nudez, no trabalho e na fadiga, nas vigílias e nos jejuns, nas orações e nas santas meditações, na infinidade de perseguições e de opróbrios.
  4. Oh! Que graves tribulações sofreram os apóstolos, os mártires, os confessores, as virgens e todos quantos quiseram seguir os passos de Cristo!
  5. «Odiaram a sua alma neste mundo, para a possuírem na eternidade.» (Jo 12, 25)
  6. Oh! Que vida austera e mortificada levaram os Santos Padres no deserto! Que contínuas e duras tentações suportaram! Quantas vezes foram atormentados pelo inimigo! Quantas orações fervorosas ofereceram a Deus!
  7. Que rigorosas abstinências praticaram! Que zelo e fervor tiveram no seu avanço espiritual! Que guerra fizeram para subjugar as suas paixões! Que pura e reta intenção sempre dirigida para Deus!
  8. Trabalhavam durante o dia, e passavam a noite em oração; e mesmo durante o trabalho, não paravam de rezar em espírito.
  9. Todo o tempo que dispunham era empregue em algo útil. As horas que davam a Deus pareciam-lhes curtas, e sentiam tanta doçura na contemplação, que até se esqueciam das necessidades do corpo.
  10. Renunciavam às riquezas, às dignidades, às honras, aos seus amigos e parentes; não queriam nada do mundo; apenas tomavam o necessário para a vida; era-lhes penoso terem de servir o corpo, mesmo nas coisas mais necessárias.
  11. Assim, eram pobres nas coisas da terra, mas eram ricos em graças e virtudes.
  12. Exteriormente tudo lhes faltava, mas Deus fortificava-os por dentro com a Sua graça e as Suas consolações.
  13. Eram estrangeiros no mundo, mas íntimos e amigos particulares de Deus.
  14. Tinham-se em conta de nada, e eram desprezados pelo mundo; mas eram queridos por Deus, e preciosos aos Seus olhos.
  15. Viviam numa sincera humildade, numa obediência simples, na caridade, na paciência, e tornavam-se assim cada dia mais perfeitos e mais agradáveis a Deus.
  16. Eles foram dados como exemplo a todos os religiosos, e devem incitar-nos a avançar mais na perfeição, que a multidão dos tíbios nos arrasta à relaxação.
  17. Oh! Que fervor de todos os religiosos no começo da sua santa instituição! Que ardor na oração! Que zelo na virtude! Que disciplina severa! Que obediência tinham todos à regra do seu fundador!
  18. Os vestígios que nos deixaram ainda atestam a sua santidade e a sua perfeição que, combatendo generosamente, calcaram o mundo aos pés.
  19. Mas hoje já se considera grande coisa quando alguém não transgride a regra, e carrega com paciência o jugo que voluntariamente impôs a si próprio.
  20. Ó tibieza, ó negligência do nosso estado, que tão depressa extinguiu o nosso fervor inicial, que de tanta frouxidão e moleza, até a vida nos causa tédio!
  21. Queira Deus que depois de teres visto os exemplos de tantos santos verdadeiramente pios, tu não deixes esmorecer completamente em ti o desejo de avançares na virtude!


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Livro da Vida Perfeita - O Reino celeste


  1. Aquele que, deste mundo, desce aos infernos, subirá depois, deste mundo, ao céu. E prova já um antegozo que ultrapassa todos os prazeres, todas as alegrias que podem dar as coisas temporais.
  2. Todo o tempo que o ser humano está assim no inferno, ninguém o pode consolar, nem Deus nem as criaturas. Tal como está escrito: «Do inferno, não há libertação.»
  3. É disso que falava um homem nestes termos:

    Perecer, morrer,
    eu vivo sem consolação.

    A minha alma e o meu corpo
    condenados,

    que ninguém peça
    a minha libertação!

  4. Mas Deus, Ele, não abandona o ser humano no inferno.
  5. Deus toma-o para Si de forma que o ser humano não deseja mais nada que o Bem eterno. Reconhece que o Bem eterno é supremamente bom: que faz as suas delícias, a sua paz, a sua alegria, o seu repouso e a sua suficiência.
  6. Quando o ser humano cessa de se procurar a si próprio e não deseja mais nada que o Bem eterno, então tudo o que pertence ao Bem eterno - paz, alegria, voluptuosidade, prazer -, tudo isso pertence ao ser humano.
  7. E o ser humano está assim no Reino celeste.

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Imitação de Cristo - Da vida religiosa


  1. Tens de aprender a abnegar-te em muitas coisas, se queres manter a paz e a concórdia com os outros.
  2. Não é coisa pouca viver num mosteiro ou numa comunidade, de nunca ter uma razão de queixa e de aí perseverar fielmente até à morte.
  3. Feliz daquele que, depois de uma vida santa, aí felizmente termina o seu percurso !
  4. Se queres permanecer firme e progredir na virtude, considera-te como exilado e estrangeiro sobre a terra.
  5. Convém, pelo amor de Cristo, fazeres-te louco segundo o mundo, se queres seguir a vida religiosa.
  6. O hábito e a tonsura servem de pouco; é a mudança de costumes e a mortificação completa das paixões que fazem o verdadeiro religioso.
  7. Aquele que procura outra coisa que não seja só Deus e a salvação da sua alma, só encontrará tribulação e dor.
  8. Também não pode permanecer muito tempo em paz aquele que não procura ser o «último e o servo de todos» (Mc 9, 34).
  9. Vieste para servir e não para mandar; sabe que foste chamado para sofrer e trabalhar, e não para passar o tempo em conversações ociosas.
  10. Aqui, portanto, os seres humanos são provados, como o ouro na fornalha.
  11. Aqui, ninguém consegue viver, se não se quiser humilhar, com todo o coração, à causa de Deus.


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Livro da Vida Perfeita - A descida aos infernos


  1. A alma de Cristo desceu aos infernos antes de subir ao céu. A alma do ser humano deve fazer o mesmo.
  2. Observa bem como é que isso se produz.
  3. Quando o ser humano se examina e se perscruta a si próprio, considera-se mau e indigno de todo o bem e de toda a consolação que lhe possa vir de Deus ou das criaturas. Não espera nada mais que uma condenação e uma perca eternas, e ainda assim considera-se indigno.
  4. Sim, ainda assim considera-se indigno de todo o sofrimento que lhe possa ocorrer no tempo. Considera justo e equitativo que todas as criaturas se oponham a ele e lhe façam penas e sofrer, e ainda assim considera-se indigno.
  5. Da mesma forma, considera justo ser condenado por toda a eternidade e servir de capacho a todos os demónios do inferno. E ainda assim considera-se indigno disso.
  6. Ele não quer, não pode, desejar a consolação nem a libertação de Deus nem das criaturas e prefere permanecer assim cativo e inconsolado.
  7. Ele não deplora a sua condenação e o seu sofrimento. Porque são justos e equitativos. Não são contra Deus: bem pelo contrário, são a vontade de Deus. Ele aceita-os voluntariamente e submete-se a eles.
  8. Ele apenas deplora o seu pecado e a sua malignidade. Porque eles são, eles sim, injustos e contra Deus.
  9. Ele sente pena e desolação por causa deles.
  10. É aquilo a que se chama - e que é verdadeiramente - o arrependimento do pecado.

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Imitação de Cristo - Do suportar os defeitos dos outros


  1. Aquilo que o homem não pode corrigir em si mesmo ou nos outros, deve suportá-lo com paciência, até que Deus ordene de outro modo.
  2. Considera que talvez seja melhor assim, para provar a tua paciência, sem a qual os teus méritos têm pouco valor.
  3. Portanto, deves pedir a Deus que te ajude a vencer esses obstáculos, ou a suportá-los com resignação.
  4. Se alguém, depois de uma ou duas advertências, não se emendar, não contendas com ele; antes encomenda o caso a Deus, que sabe tirar o bem do mal, afim que seja feita a sua vontade, e que Ele seja glorificado em todos os seus servidores.
  5. Aplica-te a suportar com paciência os defeitos e as imperfeições dos outros, quaisquer que sejam, porque também tens muitas que os outros têm de suportar.
  6. Se tu não consegues ser como querias, como pretendes que os outros sejam como tu desejas?
  7. Nós gostamos que os outros sejam sem defeitos, mas nós não corrigimos os nosso.
  8. Nós queremos que os outros sejam corrigidos com rigor, mas nós não queremos ser repreendidos.
  9. Nós ficamos chocados se dão aos outros demasiada liberdade, mas nós não queremos que nos recusem nada.
  10. Nós queremos que os outros estejam sujeitos à disciplina, mas nós não suportamos que nos limitem em coisa nenhuma.
  11. Donde se vê claramente como é raro nós usarmos a mesma medida para nós e para os outros.
  12. Se todos fôssemos perfeitos, que teríamos então que sofrer dos outros, por amor de Deus?
  13. Ora, Deus ordenou que fosse assim para que nós aprendamos a «carregar o fardo uns dos outros» (Gl 6, 2), porque cada um tem o seu fardo; ninguém é sem defeitos, ninguém se basta a si próprio; ninguém é suficiente sábio para se conduzir sozinho; mas temos que nos suportar, nos consolar, nos ajudar, nos instruir, nos admoestarmos mutuamente.
  14. É na adversidade que se vê melhor a virtude de cada um.
  15. Porque as ocasiões não tornam o ser humano fraco, mas mostram o que é que ele realmente é.


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Livro da Vida Perfeita - O amor de Deus

  1. É uma pena que o Bem eterno nos chame e nos atraia para o que é mais nobre, e que nós não o queiramos.
  2. O que há de mais nobre que a verdadeira pobreza espiritual? Mas quando ela nos é proposta, nós não a queremos.
  3. Nós preferimos ser lisonjeados.
  4. Quando sentimos em nós a doçura, o prazer e o agrado, parece-nos que tudo está bem e que amamos Deus.
  5. Mas quando estamos privados deles, ficamos abatidos: esquecemos Deus, e já achamos que estamos perdidos.
  6. É uma verdadeira imperfeição e um mau sinal. Porque um ser humano que ama verdadeiramente, ama tanto Deus - ou o Bem eterno - na possessão como na privação, na doçura como na amargura, numa palavra: em todas as circunstâncias.
  7. Que cada um se examine a si próprio neste ponto!
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Imitação de Cristo - Das obras de caridade


  1. Por nenhuma coisa do mundo, nem por amor de nenhuma pessoa, se deve praticar o mal; mas para ajudar um necessitado, algumas vez pode-se omitir uma obra boa, ou substitui-la por outra melhor.
  2. Desta maneira, não se perde a obra boa, mas converte-se noutra melhor.
  3. A obra exterior, sem a caridade, não vale de nada; mas tudo o que é feito pela caridade, mesmo pequeno ou insignificante que seja, produz frutos abundantes.
  4. Porque Deus olha menos para a obra, do que para a intenção com que a fazemos.
  5. Faz muito, quem ama muito.
  6. Faz muito, quem faz bem o que faz, e faz bem quando subordina a sua vontade ao bem comum.
  7. Aquilo que se toma por caridade, muitas vezes não é mais que amor próprio; porque é raro que a inclinação natural, a vontade própria, a esperança da recompensa ou o cálculo de qualquer vantagem particular não influenciem nas nossas ações.
  8. Aquele que tem a caridade verdadeira e perfeita, não se procura a si em nada; mas o seu único desejo é que tudo se faça para a glória de Deus.
  9. Ele não tem inveja de ninguém, porque não procura nenhum favor pessoal; não procura a sua felicidade em si próprio, mas procura sobre todas as coisas a sua felicidade em Deus.
  10. Ele não atribui nenhum bem à criatura, mas unicamente a Deus, do qual todas as coisas provêem como de uma fonte, e no desfrutar do qual todos os santos se repousam para sempre como fim último.
  11. Oh! Quem tivesse apenas uma centelha da verdadeira caridade, logo todas as coisas terrenas lhe pareceriam vãs!


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