Livro da Vida Perfeita - O desejo


  1. Quando os seres humanos são iluminados pela verdadeira luz, sabem que tudo aquilo que podem desejar ou escolher não é nada comparado com o que foi desejado, escolhido e conhecido pelas criaturas enquanto que tais.
  2. É por isso que esses seres humanos iluminados abandonam todos os desejos e todas as escolhas para se reconduzirem e confiarem, eles e todas as coisas, ao Bem eterno.
  3. No entanto, permanece neles um desejo: o desejo de avançarem e de se aproximarem do Bem eterno. O desejo dum conhecimento mais próximo, dum amor mais ardente, dum desfrutar mais puro, duma submissão e duma obediência mais completas.
  4. Também, eles podiam dizer estas palavras: «Aquilo que é a mão para o ser humano, eu gostaria de o ser para o Bem eterno.» Eles temem sempre não estarem suficientemente nessa disposição e desejam que o conjunto dos seres humanos seja feliz.
  5. Mas desse desejo que está neles, os seres humanos iluminados permanecem livres: eles não se apropriam dele.
  6. Eles sabem que ele não pertence ao ser humano, mas à Bondade eterna.
  7. Porque tudo o que é bem pertence unicamente ao Bem eterno, e ninguém se deve apropriar dele.
  8. Esses seres humanos desfrutam de uma tal liberdade que perderam todo o temor do sofrimento ou do inferno, toda a esperança de uma recompensa ou do Reino celeste.
  9. Eles vivem numa pura submissão e obediência à Bondade eterna, por um amor completamente gratuito.
  10. Isto encontrou-se na perfeição em Cristo, e em graus diversos nos seus sucessores.

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Imitação de Cristo - Evitar os julgamentos temerários


  1. Volta os olhos para ti, e não julgues as ações dos outros.
  2. Ao julgarmos os outros, esforçamo-nos em vão; enganamo-nos frequentemente, e cometemos muitas faltas; mas examinando e julgando-nos a nós próprios, esforçamo-nos sempre com proveito.
  3. Geralmente, nós julgamos as coisas segundo as inclinações do nosso coração, porque o amor próprio altera facilmente a retidão do nosso julgamento.
  4. Se tivéssemos sempre em vista Deus apenas, não nos perturbaríamos tanto, quando somos contrariados.
  5. Mas muitas vezes há qualquer coisa fora de nós, ou oculta em nós, que nos arrasta.
  6. Muitos procuram-se a si próprios secretamente naquilo que fazem, sem se aperceberem.
  7. Parece-lhes que têm muita paz, quando tudo lhes corre à medida dos seus desejos; mas se forem contrariados, logo se inquietam e entristecem.
  8. A diversidade das opiniões provoca frequentemente discussões entre amigos e vizinhos, e mesmo entre religiosos e pessoas devotas.
  9. Dificilmente se perde um hábito antigo, e ninguém renuncia voluntariamente ao seu modo de ver.
  10. Se confias mais na tua razão e esperteza, do que na obediência de que Jesus Cristo nos deu exemplo, serás muito pouco e muito tarde aclarado na via espiritual: porque Deus quer que nós Lhe sejamos completamente submissos, e que nos elevemos acima de toda a razão humana, inflamados no Seu amor.


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Livro da Vida Perfeita - O Um


  1. A Felicidade eterna, é preciso saber, depende apenas d'Ele, e de mais nada.
  2. Para que a alma humana seja feliz, o Um quer - e deve estar - sozinho dentro da alma.
  3. «Mas bem, perguntar-me-ão, o que é que então é o Um?
  4. É o Bem - ou antes o que nos aparece como o Bem.
  5. No entanto, Ele não é este bem aqui nem aquele bem ali que se pode nomear, conhecer ou mostrar: Ele é Tudo, e para lá de tudo.
  6. Ele nem sequer tem necessidade de vir entrar dentro da alma: Ele já lá está, mas está lá desconhecido.
  7. Quando se diz que é preciso ir ter com Ele, ou que Ele deve vir para dentro da alma, isso significa que se deve procurá-l'O, senti-l'O e saboreá-l'O.
  8. E porque Ele é Um, a unidade e a simplicidade é melhor que a multiplicidade. Porque a Felicidade não depende do múltiplo e da multiplicidade, mas do Um e da unidade. Da mesma forma, para ser breve, ela não depende nem da criatura nem das suas ações, mas apenas de Deus e das suas obras.
  9. É por isso que eu só devia ter atenção a Deus e às suas obras, e abandonar todas as criaturas e as suas ações - e em primeiro lugar a mim próprio.
  10. Todas as obras, todos os milagres que Deus realizou, e poderá ainda realizar, nas e pelas criaturas - e Deus mesmo apesar de toda a sua bondade - não me darão a Felicidade enquanto eles permanecerem exteriores a mim.
  11. Eu só serei feliz quando eles agirem em mim, quando eles aí forem conhecidos e saboreados.

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Imitação de Cristo - Do resistir às tentações


  1. Enquanto vivemos no mundo, não podemos estar isentos de trabalhos e de provas.
  2. Por isso está escrito no livro de Jó: «A tentação é a vida do homem sobre a terra» (Jó 7, 1).
  3. Portanto, cada um deveria estar sempre de guarda contra as tentações que o acediam, e vigiar e orar para não dar azo às surpresas do demónio, que nunca dorme e que «procura por todos os lados a quem devorar» (1Pd 5, 8).
  4. Ninguém é tão perfeito e santo que não tenha, por vezes, tentações, e não podemos estar completamente livre delas.
  5. Mas, apesar de serem importunas e penosas, as tentações frequentemente são muito úteis porque nelas somos humilhados, purificados e instruídos.
  6. Todos os santos passaram por muitas tentações e sofrimentos, e foi por essa via que eles avançaram; mas aqueles que não suportaram as suas provas, Deus reprovou-os, e desfaleceram na via da salvação.
  7. Não há ordem tão santa, nem lugar tão secreto, onde não se encontrem tentações e adversidades.
  8. Enquanto vivermos, não podemos estar completamente livres de tentações, porque trazemos o germe delas dentro de nós, por causa da concupiscência em que nascemos.
  9. Passada uma tentação ou tribulação, vem logo outra, e sempre teremos algo para sofrer, porque perdemos o bem e a felicidade inicial.
  10. Muitos procuram fugir às tentações para não serem tentados, e caem nelas mais gravemente.
  11. Não é suficiente fugir delas para as vencer; só a paciência e a verdadeira humildade nos torna mais fortes que todos os nossos inimigos.
  12. Quem, sem arrancar a raiz do mal, evita apenas as ocasiões exteriores, avançará pouco; pelo contrário, as tentações regressarão mais depressa e mais violentas.
  13. Vencê-las-á melhor, com o auxílio de Deus, a pouco e pouco com paciência e resignação, que com obstinação rude e inquieta.
  14. Toma frequentemente conselho na tentação, e não trates com dureza aquele que é tentado, antes socorre-o como gostarias que te socorressem a ti.
  15. O começo de todas as tentações é a inconstância do espírito e a pouca confiança em Deus.
  16. Porque, assim como o navio sem leme é levado de um lado para o outro pelas ondas, também as tentações agitam quem é fraco e inconstante nos seus propósitos.
  17. «O fogo põe à prova o ferro» (Ecl 31, 31), e a tentação põe à prova o justo.
  18. Frequentemente não sabemos o que podemos, mas a tentação mostra-nos o que somos.
  19. Devemos, pois, vigiar, sobretudo no começo da tentação, porque é mais fácil vencer o inimigo, quando não o deixamos entrar na alma e o expulsamos logo que ele se prepara para entrar.
  20. Foi o que fez dizer a um poeta: «Resiste ao mal desde o princípio; porque o remédio vem demasiado tarde quando o mal cresceu devido à demora» (Ovídio, Remédios 91).
  21. Porque primeiro ocorre ao espírito um simples pensamento, transforma-se logo numa viva imaginação, segue-se o deleite e o movimento desregrado e, por fim, o consentimento.
  22. E assim, a pouco e pouco, o inimigo invade a alma toda, quando não lhe resistimos desde o princípio.
  23. Quanto mais tardamos e quanto mais fracos formos a expulsá-lo, tanto mais nos enfraquecemos em cada dia, e tanto mais o inimigo fica forte contra nós.
  24. Uns são afligidos por tentações maiores no começo da sua conversão, outros, no fim; há outros que as sofrem quase toda a vida.
  25. Alguns são pouco tentados, segundo a ordem da sabedoria e da justiça de Deus, que conhece o estado de cada um, pesa os seus méritos, e dispõe tudo para a salvação dos seus eleitos.
  26. É por isso que, quando somos tentados, não devemos perder a esperança, mas rezar a Deus com mais fervor, afim que ele se digne socorrer-nos em todas as nossas tribulações; porque Ele, segundo diz S. Paulo (1Cor 10,13), nos dará o auxílio suficiente na tentação para que lhe possamos resistir.
  27. «Humilhemos, pois, as nossas almas debaixo da mão de Deus» (1Pd) em todas as tentações e adversidades, porque Ele «salvará e exaltará os humildes de coração» (Sl 33, 5).
  28. Nas tentações e adversidades se vê quanto cada um tem progredido; são elas que dão maior merecimento e que realçam melhor a virtude.
  29. Não é difícil ser devoto e piedoso quanto nada nos corre mal; mas quem se mantém paciente no tempo das dificuldades pode esperar grande progresso.
  30. Alguns vencem as grandes tentações e sucumbem todos os dias nas pequenas, para que humilhados por serem tão fracos nas menores ocasiões, nunca presumam de si mesmos nas grandes.


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Ligações


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Livro da Vida Perfeita - Conhecer a sua própria vida


  1. Nenhuma virtude, nenhum bem, nem mesmo o Bem soberano que é Deus: nada disso pode alguma vez tornar o homem virtuoso, nem bom, nem feliz, enquanto isso lhe permanecer exterior. O mesmo se passa com o pecado e o mal.
  2. É preciso considerar este ponto e compreendê-lo de verdade.
  3. Certo, é bom perguntar, aprender e saber o que é que os homens bons e santos realizaram e suportaram, como é que eles viveram e o que é que Deus quis e operou por eles e neles.
  4. Mas vale mil vezes mais que o homem compreenda e conheça a sua própria vida: o que ela é e como; o que Deus é, quer e opera em si; e naquilo que Deus quer - ou não quer - servi-lo.
  5. Também, esta expressão é muito verdadeira: «Sair não é sempre tão bom que não valha mais ficar.»

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Vida de Nuno Álvares Pereira - O partido da aliança portuguesa em Castela


«Dez anos depois de ter acompanhado, em 1340, D. Afonso IV à batalha do Salado, o prior D. fr. Álvaro fora para Castela, a pedido do rei D. Pedro, que era neto do português e subira ao trono em 1350. Por Castela andara como aliado e amigo de D. João Afonso, senhor de Albuquerque e Medelin, e ambos governavam o Reino. Toda a política terrível, mas forte, dos primeiros anos do reinado do filho da infanta Maria de Portugal, tragicamente finada em Évora, fora mais ou menos obra dos dois, que representavam em Castela o partido da aliança portuguesa. Quase português era, com efeito, D. João Afonso, neto de el-rei D. Dinis, por ser filho do bastardo Afonso Sanches e portanto sobrinho natural do rei Afonso IV e primo de sua filha, a rainha mãe de Castela. Ambas as famílias reinantes andavam, tão enlaçadas, e tão penetrados os interesses e as relações das famílias patrícias, que, se o sentimento senhorial do principado acentuava a separação das duas coroas, pode dizer-se que não existia, nas altas classes, a ideia definida de diferenciação nacional. Eram um mesmo povo com diversos príncipes.

Os dois próceres portugueses governavam a Castela de Pedro-o-Cru, que subira ao trono com quinze anos, contra o partido do conde de Trastâmara. A rainha viúva reconquistara o poder com a morte do marido, Afonso XI, que a deixara pela amante, Leonor de Gusmão, cujo primeiro acto, ao ver-se só, foi casar seu filho, o conde de Trastâmara, que tinha a Ordem de Santiago, com a filha do poderoso D. João Manuel. Presa, D. Leonor foi executada logo em 1351; e nas Astúrias, o filho, declarando guerra, provocou um tal ímpeto da parte do rei, que o pavor das execuções de Burgos levou o rebelde a refugiar-se em Portugal, homiziado. Depois das cortes de Valladolid, em 1352, e da expedição da Biscaia, a rainha Maria e os seus conselheiros pensaram em casar D. Pedro, negociando a aliança com a cunhada do rei de França, Branca de Bourbon. Vieram logo as vistas, em Cidade Rodrigo, de Afonso IV com sua filha e seu neto, o tratado de aliança com Portugal, e a reconciliarão imposta ao Trastâmara que, restabelecido nos seus títulos, partiu para as Astúrias, decidido todavia a desforrar-se.

Acto contínuo, o rebelde levantou-se em Gijon, a que o rei D. Pedro pôs cerco e tomou. Trastâmara submeteu-se-lhe; e o mesmo sucedeu com Maria Padilla, aia da mulher de D. João Afonso de Albuquerque, que o rei tomara por amante, de Sahagun. Entretanto, fugia sublevado para o Aragão D. Telo, outro filho de Leonor de Gusmão. Pouco a pouco se encastelavam as nuvens da tempestade em que naufragou o poder português em Castela. Nascia ao rei o primeiro filho dos amores com Maria Padilla, quando chegava de França a rainha D. Branca, escolhida pelos portugueses. Recusava-se o rei a recebê-la, enlaçado no braço da amante que os irmãos instigavam; e três meses esteve esperando, a rainha, até que afinal D. Pedro se casou um dia, para, no outro, abandonar descaroavelmente a esposa. E o Trastâmara D. Henrique e seu irmão D. Telmo, com a vingança da mãe presente, vieram a Valladolid entender-se com os Padillas. Estava tramada a conspiração, e a Castela dividida em dois bandos, um pela esposa abandonada, outro pela amante estremecida; um reunindo, aos filhos de Leonor de Gusmão, os infantes do Aragão e os Lacerdas; outro, aliando ao Albuquerque o mestre de Calatrava e os portugueses que andavam por Castela, como era o prior D. Álvaro.

Entre ambos, o rei optou pela amante em cujos braços se precipitou em Olmedo. Os Padillas, omnipotentes, reinavam. A gente do Albuquerque, perseguida, homiziava-se. O mestre de Calatrava, D. Álvaro, era assassinado à traição. Depois de arrasar Medelin, D. Pedro, desvairado, partia para Albuquerque onde D. João Afonso se encerrara e onde resistiu, obrigando o rei a retirar, porque a praça fronteiriça dependia, por vassalagem, de Portugal, apesar de estar em Castela. De Cáceres, mandou D. Pedro embaixadores ao avô para que lhe entregassem Albuquerque. Celebrava-se então em Évora (1353) o casamento da neta do rei, D. Maria filha de D. Pedro e de Constança Manoel, com o infante do Aragão, marquês de Tortoso; e às bodas assistiram a rainha Leonor do Aragão, tia do rei castelhano; sua mãe, a rainha viúva D. Maria, cuja influência acabara no ânimo do filho; e o próprio D. João Afonso de Albuquerque, exilado. Jantavam em S. Francisco, quando os enviados de Castela chegaram, reclamando D. João Afonso que fosse defender-se perante o seu rei. Ele retorquiu-lhes com um discurso, e a embaixada partiu sem nada ter conseguido.

Em Castela, entretanto (1354), os filhos de Leonor de Gusmão viam-se reduzidos à condição de instrumentos da cabala dos Padillas, e conspiravam. Avistaram-se sobre o Caia com o conde Álvaro Pires de Castro, irmão da amante do infante de Portugal, Inês de Castro, que a esta intriga deveu a morte (1355). Aos amantes ofereciam a coroa castelhana e, levantados em armas os rebeldes, agora aliados ao Albuquerque, faziam do senhorio de D. João Afonso, castelhano por estar em Castela, português pela vassalagem ao rei de Portugal, o campo neutro da rebelião. A rainha D. Maria passava a fronteira, enquanto seu filho obtinha de dois bispos que o casassem com Joana de Castro, a Formosa, declarando nula a sua aliança com a rainha Branca de Bourbon. Partindo outra vez, no próprio dia do casamento, D. Pedro soube como os conjurados se preparavam em Badajoz para entrar em Castela; mas encontrando em Castro Xeriz a Padilla, de novo se lhe prendeu nos braços, esquecendo para sempre Joana-a-Formosa.

A guerra civil estalava, entretanto, em Castela. De Cidade Rodrigo, os conjurados intimavam ao rei a união com D. Branca, agora presa em Toledo para onde tinha vindo de Arevalo. E Toledo pronunciava-se pela prisioneira, e o movimento propagava-se. Foi então que D. Pedro, sentindo o perigo, mandou envenenar o senhor de Albuquerque, antigo companheiro do prior D. Álvaro; mas não lhe valeu isso, porque teve de curvar a cabeça, e ir a Toro, pedir perdão às duas rainhas, a mãe e a tia, D. Maria e D. Leonor, colocar-se-lhes sob a dependência, jurar tudo quanto dele reclamavam: o abandono da Padilla, a volta a D. Branca.

Sucedera antes o caso do enterro trágico de D. João Afonso, que por isso ficou sendo chamado o do ataúde. Quando morrera de peçonha, que o rei lhe mandou dar pelo médico, os seus vassalos prometeram não enterrar o cadáver até que a guerra fosse acabada, conforme ele ordenara em seu testamento. E quando reuniam conselho em campanha, levantavam num estrado o ataúde, e falava pelo defunto Rui Dias Cabeza-de-Vaca, seu mordomo-mor. Em torno de eça, colgada ricamente de panos de ouro, reuniam-se os rebeldes, que eram cinco mil de cavalo e muita gente de pé. Submetido o rei em Toro e acabada a demanda, os vassalos de D. João Afonso foram enterrar-lhe o cadáver.

Mas, dentro em poucos meses o rei D. Pedro fugiu de Toro para Segóvia, ganhou a si os aragoneses, captou parte dos conjurados, chamou de novo a Padilla, e foi a Burgos, onde, reunindo cortes, deu largas à sua crueldade. De Burgos, por Toro, que não conseguiu entrar, passou a Toledo como um temporal, cevando-se em sangue, deixando por toda a parte após si um rastro de lágrimas. Tomada Toledo (1355) volta contra Toro, que por fim entra (1356). Aí acabou Martim Afonso Telo, o amante da rainha mãe, quando a levava pelo braço, saindo da cidade. Exilada em Portugal, morreu a rainha em Évora, de veneno.

Estavam esmagados os inimigos; fugitivos todos, a mãe e os irmãos. O Trastâmara escapara para França, a servir sob os Armagnacs nas guerras inglesas; sua mulher ficava presa; D. Fradique morria apunhalado (1358) em Sevilha; D. Telo emigrava para Baiona. A rainha do Aragão, primeiro presa, era logo assassinada.

Abolida a influência portuguesa em Castela, o prior D. Álvaro regressara de novo a Portugal, quando Afonso IV agonizava; mas decerto viera aqui, antes de 1357, por que foi ele quem defendeu o Porto por ocasião do levantamento do infante D. Pedro, a quem o pai mandara matar a amante Inês de Castro. O Porto estava a esse tempo aberto, com as velhas muralhas desmanteladas; mas o prior arvorou em seus muros os pendões das naus fundeadas no rio, erguendo-os em volta da cidade, e percebendo a sua hoste para a defesa desses símbolos sagrados de uma sociedade guerreira. O infante esteve durante duas semanas contra o Porto, sem o poder entrar com a gente de Portugal e Galiza que tomara a sua voz. Entretanto chegou o rei. A cidade estava salva; e daí vieram as pazes entre o pai e o filho, congraçados por intermédio do prior, que assim ganhou a amizade de el-rei D. Pedro...

A caminho de Santarém, D. Álvaro ia contando ao filho os casos posteriores à sua volta de Castela e ao falecimento de el-rei D. Afonso IV: como fora o escambo dos autores da morte de D. Inês, e a guerra do Aragão, em que Portugal entrara. As galés portuguesas do Pessanha tinham ido em 1359 bloquear o Ebro e atacar Barcelona; em 360 os irmãos de D. Fradique, assassinado em Sevilha, tinham entrado com os aragoneses em Castela; em 361, prosseguindo a guerra, partira de Portugal o mestre de Avis com seiscentas lanças; e depois houvera paz, sendo expulsos do Aragão os rebeldes D. Henrique, D. Telo e D. Sancho, com os castelhanos seus parciais. Morrera nesse ano a Padilla de morte natural, e a rainha D. Branca envenenada pelo marido. Eram reis terríveis ambos os Pedros, tanto o de Castela, como o de Portugal!

Logo em 1363, no ano seguinte à contenda de Granada e ao assassinato de Abu-Said, declarara-se a guerra entre a Navarra e a Inglaterra, que ao tempo tinha Bordéus e Baiona, contra o Aragão aliado à França, que da Provença mandara os três filhos de Leonor de Gusmão com reforços de companhias francas. Duguesclin viera com eles, trazendo a sua grande companhia, a Branca. Virando-se a Navarra para o inimigo, outra vez, em 1364, o rei de Castela entrou em guerra com o Aragão, e outra armada de galés portuguesas foi em seu auxílio. Três anos durara a luta até ao de 1366, quando Henrique de Trastâmara, aclamado rei em Burgos, entrou em Toledo, marchando sobre a Andaluzia em perseguição do rei D. Pedro, perdido. Mandou este sua filha D. Beatriz a Portugal com um grande dote para a casar com o futuro rei D. Fernando, implorando ao pai socorros, implorando-os ao granadino. Sevilha repeliu-o, e veio correndo atrás da filha, encontrá-la em Serpa. O rei de Portugal estava então em Valada; dai mandou recado a Coruche, aos fugitivos, para que não avançassem mais: nem o rei o podia receber, nem o infante queria casar com a filha. Eram assim os homens! O triste rei fugitivo foi bater às portas de Albuquerque, e não se lhe abriram; depois voltou a Portugal implorando salvo-conduto para passar à Galiza que lhe era fiel. Acompanharam-no os condes Álvaro Pires de Castro e João Afonso Telo, de Portalegre à Guarda, a Lamego e a Chaves, por onde entrou na Galiza, só com as filhas, abandonado, perdido, sem reino, sem fidalgos. Embarcando na Corunha, foi por mar a Baiona, pedir auxílio ao príncipe de Gales.

Socorrido, de regresso, passou o Ebro, descendo os Pirenéus, através da Navarra, cujo rei mais uma vez se bandeara. Encontraram-se os inimigos em Najera (1367) e D. Henrique, derrotado, teve de fugir para o Aragão, e de lá para França. Mais uma vez D. Pedro se via restaurado no poder, mais uma vez a sua sede de vingança fazia correr sangue; e agora a tantos jorros, que parecia demência, e muitos pensavam na necessidade de o tutelar. Não o esperava a prisão; esperava-o o punhal vingador do assassinato, de D. Fradique. Porque o vencido, aliciando tropas em França, voltava com Duguesclin à Espanha, que em Burgos e em Córdova, nos dois extremos a um tempo, se pronunciasse por ele (1368). Cercando Toledo, em cujo auxílio o rei D. Pedro vinha correndo de Sevilha, o irmão acode a embargar-lhe o passo em Montiel. Combatem. A matança é horrível: vinte e quatro mil cadáveres alastram o campo, sobre o qual fica vitorioso o rei Henrique II. O pobre rei D. Pedro, desbaratado, foge para Montiel, e dentro do Castelo morre às mãos de seu irmão (1369).

Tal era a verdade do mundo, e a história de perfídias, de violências, de traições e de baixesas, de luxúria adubada com sangue, que a larga experiência do prior D. fr. Ávaro narrara ao filho, no instante em que ele, com a imaginação cheia pelos sonhos de Cavalaria, ia entrar na cena em que esperava talhar para si um papel verdadeiramente heróico e santo, como o tipo criado pela fantasia do romancista. E com a firmeza dos videntes e a indiferença dos eleitos, Nuno Álvares ouvia os casos do tempo, que mais o convenciam da necessidade impreterível de travar a roda da maldade, estabelecendo o reinado da candidez e da força heróica.

E sentia em si ombros para tamanha empresa. Não tinha o agouro profetizado que nunca seria vencido?» (1)

Notas
  1. Oliveira Martins - A Vida de Nun'Álvares, 9ª ed., p. 24-29.

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Imitação de Cristo - 1. Conselhos úteis para a vida espiritual


  1. Da imitação de Cristo e desprezo de todas as vaidades do mundo
  2. Do humilde conceito que devemos ter de nós próprios
  3. Da doutrina da verdade
  4. Da prudência nas ações
  5. Da leitura dos livros santos
  6. Dos afectos desordenados
  7. Do fugir da presunção e da vã esperança
  8. Do evitar demasiada familiaridade
  9. Da obediência e sujeição
  10. Da necessidade de evitar as conversas inúteis
  11. Dos meios para adquirir a paz interior e do desejo de avançar na virtude
  12. Da utilidade das adversidades
  13. Do resistir às tentações
  14. Evitar os julgamentos temerários
  15. Das obras de caridade
  16. Do suportar os defeitos dos outros
  17. Da vida religiosa
  18. Do exemplo dos Santos Padres
  19. Dos exercícios do bom religioso
  20. Do amor da solidão e do silêncio
  21. Da compunção do coração
  22. Da consideração da miséria humana
  23. Da meditação da morte
  24. Do julgamento e das penas dos pecadores
  25. Da seria emenda de toda a nossa vida



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Livro da Vida Perfeita - A contemplação do mistério


  1. «É possível, perguntarão, que a alma, enquanto está no corpo, consiga deitar uma olhada para a eternidade e receber assim um antegozo da vida e da felicidade eternas?».
  2. A isso, a resposta comum é: Não!
  3. Esta resposta é exacta num sentido: enquanto a alma tem em vista o corpo e as coisas do corpo, o mundo e as criaturas, enquanto ela se deforma e se dispersa assim, isso não é possível.
  4. Para chegar a esta visão, a alma deve estar vazia de todas as imagens e despojada de todas as criaturas: em primeiro lugar, de si própria. E isso, pensarão, nunca aconteceu neste mundo.
  5. Mas São Dioniso, ele, afirma que isso é possível. Podemos constatar por estas palavras que ele escreve a Timóteo: «Para contemplar os mistérios divinos, tu deves abandonar os sentidos, as sensações e o sensível. Tu deves abandonar o intelecto, as operações intelectuais e o inteligível: criado e incriado. Levanta-te! Sai de ti próprio, entra na ignorância de tudo aquilo que foi dito e une-te ao que está acima de todo o ser e de todo o conhecimento.»
  6. Se ele não tivesse pensado que isso era possível neste mundo, porque é que o teria ensinado a um homem que aí vivia?
  7. É preciso também saber o que um Mestre diz destas palavras de São Dioniso: «Isso é possível, diz ele, e isso pode mesmo acontecer a um homem tão frequentemente que ele se acabe por habituar a vê-lo e a contemplá-lo tantas vezes quantas o deseje. E cada um dos seus olhares é mais nobre, mais digno, mais caro a Deus do que tudo aquilo que as criaturas podem realizar enquanto que tais.»

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Imitação de Cristo - Da utilidade das adversidades


  1. É bom que algumas vez tenhamos aflições e contrariedades, porque frequentemente fazem-nos regressar a nós próprios, fazendo-nos sentir que vivemos no exílio, e que não devemos pôr a nossa esperança em coisa alguma do mundo.
  2. É bom sermos submetidos a contrariedades, e que pensem mal ou pouco favoravelmente de nós, ainda que as nossas ações e intenções sejam boas.
  3. Estas coisas servem para termos humildade, e preservam-nos contra a vanglória.
  4. Porque nós temos mais pressa de procurar Deus, que vê o fundo do coração, quando somos vilipendiados e desacreditados pelos outros.
  5. Por isso, devíamos firmar-nos de tal modo em Deus, que não tivéssemos necessidade de tantas consolações humanas.
  6. Quando o homem de boa vontade é atribulado, tentado ou afligido com maus pensamentos, então reconhece melhor a necessidade que tem de Deus, e compreende que sem Ele nada de bom pode fazer.
  7. Então entristece-se, geme e reza por causa das misérias que padece.
  8. Então cansa-se de viver, e deseja que chegue a hora da morte, a fim de ser «desatado do corpo e unido com Cristo» (Fl 1. 3).
  9. Então também compreende que a segurança perfeita, a paz completa, não são deste mundo.


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Livro da Vida Perfeita - Os olhos da alma


O que é o pecado

  1. A Apropriação
    1. A queda
    2. A usurpação
    3. A mestria
    4. A ilusão
    5. O apego
    6. Os olhos de Cristo
    7. Os olhos da alma
    8. A contemplação do mistério

  2. A Libertação
    1. Conhecer a sua própria vida
    2. O Um
    3. O desejo
    4. O amor de Deus
    5. A descida ao inferno
    6. O Reino celeste
    7. Dois caminhos bons e seguros
    8. A verdadeira paz



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Imitação de Cristo - Dos meios para adquirir a paz interior e do desejo de avançar na virtude


  1. Nós poderíamos ter muita paz, se não nos quiséssemos ocupar com o que dizem e fazem os outros, que não são da nossa conta.
  2. Como pode alguém ficar por muito tempo em paz, que se intromete na vida alheia, que busca ocasiões para se distrair exteriormente, que raras vezes e mal se recolhe interiormente?
  3. Felizes os simples, porque terão muita paz!
  4. Como é que alguns santos subiram a um grau tão elevado de virtude e de contemplação?
  5. Porque se desfizeram de todos os desejos terrenos, e assim puderam unir-se a Deus no fundo mais íntimo do seu coração, e ocuparem-se livremente de si próprios.
  6. Nós, porém, ocupamo-nos demasiado com as nossa paixões, e andamos demasiado inquietos com as coisas que passam.
  7. Raramente conseguimos vencer perfeitamente um único vício, não temos ardor para fazer alguns progressos em cada dia, por isso permanecemos tíbios e frios.
  8. Se estivéssemos completamente mortificados e menos preocupados interiormente, podíamos saborear as coisas divinas e adquirir alguma experiência da contemplação celeste.
  9. O maior, o único obstáculo, é estarmos submetidos às nossas paixões e convulsões, e não nos esforçamos por seguir a via perfeita dos santos.
  10. E, se acontece sofrermos a mais pequena contrariedade, caímos no desânimo e procuramos as consolações humanas.
  11. Se como soldados valentes, permanecêssemos firmes no combate, certamente veríamos descer sobre nós o socorro de Deus.
  12. Porque Ele está sempre pronto a ajudar aqueles que resistem e que esperam na sua graça, e é Ele que nos proporciona ocasiões para combatermos, afim de nos fazer vitoriosos.
  13. Se fizermos consistir o nosso progresso espiritual unicamente nas observâncias exteriores, a nossa devoção será de curta duração.
  14. Lancemos, pois, o machado à raiz da árvore, para que, livre das paixões, a nossa alma goze da paz interior.
  15. Se em cada ano desenraizássemos um único vício, em breve seríamos perfeitos.
  16. Mas pelo contrário, nós sentimos muitas vezes que antes éramos melhores, e que a nossa vida era mais pura no começo da nossa conversão, do que depois de vários anos de profissão.
  17. Nós devíamos crescer cada dia em fervor e virtude, mas agora já nos parece muito se conseguimos conservar um pouco do fervor inicial.
  18. Se no princípio fizéssemos algum esforço, depois podíamos fazer tudo com facilidade e gosto.
  19. É duro renunciar aos hábitos, mas mais duro ainda à curvar a própria vontade.
  20. No entanto, se não és capaz de te venceres agora nas coisas pequenas e leves, como conseguirás depois vencer nas maiores e mais difíceis?
  21. Resiste desde o principio às tuas inclinações, acaba sem demora com os teus maus hábitos, para que te não levem, pouco a pouco, a maiores dificuldades.
  22. Oh! Se tu considerasses quanta paz terias, quanta satisfação darias aos outros, se vivesses como devias, creio que terias bem maior ardor no teu avanço espiritual.


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Livro da Vida Perfeita - Os olhos de Cristo


  1. «A alma de Cristo tem dois olhos: um olho direito e um olho esquerdo.»
  2. Sejamos atentos a essas palavras, que se dizem e que se lêem.
  3. No princípio, quando ela foi criada, a alma de Cristo voltou o «olho direito» para a Eternidade e a Divindade: ela ficou imóvel na contemplação e na possessão da essência e da perfeição divinas.
  4. Ela ficou imperturbável e livre de todos os acidentes e os tormentos, de todas as emoções, os sofrimentos, as aflições e as dores do homem exterior.
  5. Com o «olho esquerdo», a alma de Cristo olhou para as criaturas e aí reconheceu todas as coisas. Ela considerou as suas diferenças: melhor e pior, nobre e ignóbil, etc. É segundo essas regras que se dirigia o homem exterior de Cristo.
  6. O seu homem interior estava assim, pelo «olho direito» da alma, na perfeita possessão da natureza divina, nas delícias e uma alegria perfeitas.
  7. O seu homem exterior estava, pelo «olho esquerdo» da alma, no extremo do sofrimento, da miséria e das penas, enquanto que o seu olho interior, o «olho direito», não era perturbado, nem entravado, nem tocado pelas penas, os sofrimentos e as aflições do homem exterior.

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Imitação de Cristo - Da necessidade de evitar as conversas inúteis


  1. Evita, quanto puderes, o bulício do mundo, porque há perigo em te ocupares das coisas mundanas, mesmo que tenhas intenção pura.
  2. Depressa, a vaidade suja e cativa a alma.
  3. Eu gostava de ter-me calado mais vezes, e de não ter estado entre os humanos.
  4. Por que razão gostamos tanto de falar e de conversar quando tão raramente acontece que regressemos ao silêncio sem termos dano na consciência?
  5. É porque nesses encontros procuramos consolação mútua e alívio para o coração cansado de pensamentos contraditórios.
  6. Gostamos de falar e de ocupar o espírito com aquilo que nos dá prazer, com aquilo que desejamos, e com aquilo que contraria os nossos desejos.
  7. Mas ai! Muitas vezes é em vão, porque essa consolação exterior é muito prejudicial à consolação que Deus dá interiormente.
  8. Portanto, é preciso vigiar e orar, afim que o tempo não passe ociosamente.
  9. Se te é lícito e conveniente falar, fala de coisas edificantes.
  10. O mau hábito, e o descuido com o nosso progresso, impedem-nos de refletir no que dizemos.
  11. No entanto, as conversas devotas sobre assuntos espirituais, entre pessoas reunidas em Deus, e animadas com o mesmo espírito, contribuem muito para o progresso no caminho da perfeição.


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Livro da Vida Perfeita - O apego


  1. «Porque nós não amamos o que é o melhor, diz um mestre chamado Boécio, é essa realmente a nossa imperfeição!»
  2. Sim, ele diz a verdade. O Melhor devia ser o mais amado e, dentro desse amor, não se devia considerar o útil ou o inútil, o ganho ou a perca, a honra ou a vergonha, o elogio ou a crítica, nem nada desse género.
  3. O que é verdadeiramente o mais nobre e o melhor devia ser o mais amado - e apenas porque é o melhor e o mais nobre.
  4. É a partir daí que o ser humano pode dirigir a sua vida, tanto exterior como interior.
  5. Em primeiro lugar a sua vida exterior.
  6. Entre as criaturas, uma é melhor que a outra: isto depende do Bem eterno, que brilha e atua mais ou menos dentro de uma que dentro de outra.
  7. Aquela onde o Bem eterno brilha, ilumina e atua mais, aquela onde Ele é mais conhecido e amado, essa é a melhor.
  8. Aquela onde Ele se manifesta menos é também a menos boa.
  9. O ser humano que vive com as criaturas e se ocupa delas, se conhece esta distinção, deve preferir aquelas que são as melhores. Deve ligar-se e unir-se a elas, e em primeiro lugar àquelas que são consideradas como sendo próprias a Deus, porque elas lhe pertencem ou vêm d'Ele - como o bem e a verdade, a paz, o amor, a justiça, etc.
  10. É segundo estas regras que o ser humano exterior se devia dirigir. E aquilo que se opõe a isto, ele devia desprezar e fugir.
  11. Quanto ao homem interior, se com um único impulso se lançasse para o Perfeito, constataria que este é incomensuravelmente, infinitamente, incalculavelmente mais nobre e melhor que todo o parcial e imperfeito.
  12. Ele reconheceria que o Eterno ultrapassa o que é temporal, e que a fonte e origem é bem superior a tudo aquilo que flui ou emana dela. Assim, as coisas imperfeitas e parciais perderiam o seu sabor e seriam abolidas.
  13. Sabe: é isto que deve acontecer se o mais nobre e o melhor é efetivamente mais amado.

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Imitação de Cristo - Da obediência e sujeição


  1. Grande coisa é viver na obediência, sujeito a um superior, e não ter vontade própria.
  2. É muito mais seguro obedecer do que mandar.
  3. Alguns obedecem mais por necessidade que por amor: por isso facilmente sofrem e murmuram.
  4. Esses nunca alcançarão a liberdade de espírito, a menos que se submetam com todo o coração à causa de Deus.
  5. Anda por onde quiseres, não encontrarás descanso senão na humilde sujeição às ordens do superior.
  6. Vários imaginando que estariam melhor noutros lugares, foram enganados por esta ideia de mudança.
  7. É verdade que cada um gosta de seguir o seu próprio parecer, e tem mais inclinação para aqueles que pensam como ele.
  8. Mas se Deus está entre nós, por vezes é necessário renunciar ao nosso parecer, para bem da paz.
  9. Quem é tão esclarecido que saiba tudo perfeitamente?
  10. Portanto, não confies demasiado no teu parecer, mas escuta também de boa vontade o dos outros.
  11. Se o teu parecer for bom, e por causa de Deus, renunciares a ele para seguir outro, terás nisso maior merecimento.
  12. Eu tenho ouvido dizer muitas vezes que é mais seguro escutar e receber um conselho do que dá-lo.
  13. Porque pode acontecer que o parecer de alguém seja bom; mas não querer ceder aos outros, quando a razão ou a ocasião o exigem, é sinal de soberba e obstinação.


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Livro da Vida Perfeita - A ilusão


  1. Quando eu atribuo a mim próprio um bem, é porque eu imagino que ele é meu ou que eu próprio sou esse bem.
  2. Se eu conhecesse a verdade, ser-me-ia claro que esse bem não sou eu, nem meu, nem «de mim», etc.: a apropriação cessaria por si própria.
  3. Mesmo se o homem imagina que é ele que louva e ama Deus, é melhor que Deus - naquilo que Lhe pertence - seja assim conhecido, amado, louvado e honrado, em vez de não o ser de todo.
  4. Porque, desde que a ilusão e a ignorância se transformam em saber e conhecimento da verdade, a apropriação cessa:
  5. Ah, pobre louco! diz o homem então. Eu imaginava que era eu, enquanto que era - enquanto que é - verdadeiramente Deus!»

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Livro da Vida Perfeita - Conclusão


  1. O que deveria ser o ser humano
  2. Ser a mão de Deus
  3. Estar de guarda sempre



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Livro da Vida Perfeita - 4. A vontade eterna


Nada é contra Deus

  1. O Paraíso
    1. Não se procurar a si próprio
    2. O nascimento de Cristo em nós
    3. Deixar-se encher por Deus
    4. Amar todas as coisas no Um
    5. Tudo o que existe é bom
    6. O que quer dizer «acreditar»
    7. O que quer dizer «o inferno»
    8. O Paraíso
    9. A inteligência e a vontade
    10. Toda vontade criada é de Deus
    11. A dentada

  2. A nobre liberdade
    1. Não se apropriar da única vontade
    2. A nobre liberdade não existe sem sofrimento
    3. Não ter nada de próprio
    4. Tomar a cruz
    5. Estar atento a si próprio
    6. O bom caminho
    7. O Pai
    8. A atração do Pai
    9. O caminho para a verdadeira vida interior
    10. Outro caminho para a vida interior
    11. A passagem para o inefável



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Livro da Vida Perfeita - 3. As duas luzes


Quatro tipos de seres humanos
Leis do ser humano interior e do ser humano exterior

  1. A falsa luz
    1. O que é a falsa luz
    2. Os erros da falsa luz
    3. As manhas da falsa luz
    4. As ilusões da falsa luz
    5. O Anticristo
    6. Erros sobre o que é o melhor
    7. A semente do Diabo

  2. A verdadeira luz
    1. Primazia do amor
    2. O verdadeiro amor
    3. Falso saber e falso amor
    4. O amor do Um pelo Um
    5. Estado do ser humano santificado
    6. O amor da vida nobre
    7. Vida santa e vida natural
    8. Estar de guarda



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Livro da Vida Perfeita - 2. Os três caminhos


Deixar Deus agir

  1. A Purificação
    1. A verdadeira obediência
    2. A humanidade de Cristo
    3. O homem novo
    4. A desobediência
    5. A origem do sofrimento
    6. O que é contra Deus
    7. Responsabilidade do ser humano
    8. Conhecer o verdadeiro bem
    9. Renunciar a si próprio
    10. Amargura da vida de Cristo

  2. A Iluminação
    1. Conduta do ser humano iluminado
    2. A despossessão
    3. A preparação espiritual
    4. A melhor preparação
    5. Viver a vida de Cristo
    6. Riqueza e orgulho espirituais
    7. Pobreza e humildade espirituais
    8. Necessidade das regras e instruções
    9. O exemplo de Cristo
    10. Manifestar a Verdade

  3. A União
    1. O que é a união
    2. Imobilidade e movimento
    3. Não há impassibilidade nesta vida
    4. Para além da Lei
    5. A natureza e a graça
    6. Nem isto nem aquilo
    7. O Bem único
    8. O ser humano santificado
    9. Contra a vontade própria
    10. Nada das criaturas
    11. Todas as coisas têm o seu ser em Deus
    12. O sofrimento do pecado
    13. A vida nobre e verdadeira
    14. Não esperar recompensas



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Livro da Vida Perfeita - 1. Amar o melhor


O que é o pecado

  1. A Apropriação
    1. A queda
    2. A usurpação
    3. A mestria
    4. A ilusão
    5. O apego
    6. Os olhos de Cristo
    7. Os olhos da alma
    8. A contemplação do mistério

  2. A Libertação
    1. Conhecer a sua própria vida
    2. O Um
    3. O desejo
    4. O amor de Deus
    5. A descida aos infernos
    6. O Reino celeste
    7. Dois caminhos bons e seguros
    8. A verdadeira paz



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Livro da Vida Perfeita - Introdução


  1. O Perfeito
  2. A criatura
  3. O ser



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Imitação de Cristo - Do evitar demasiada familiaridade


  1. «Não abras o teu coração a qualquer um (Eclo 8, 22); mas aconselha-te com o sábio e temente a Deus.
  2. Conversa pouco com os jovens e os estranhos.
  3. Não lisonjeies os ricos, nem procures a companhia dos grandes.
  4. Procura a companhia dos humildes, dos simples, dos devotos, e dos que têm bons costumes, e trata com eles apenas de assuntos edificantes.
  5. Não tenhas familiaridade com nenhuma mulher, mas recomenda a Deus todas as que são virtuosas.
  6. Procura ter familiaridade apenas com Deus e os anjos, e foge de ser conhecido dos homens.
  7. Devemos ter caridade para com todos, mas não convém ter familiaridade.
  8. Sucede, frequentemente, uma pessoa desconhecida ser estimada pela boa fama que tem, mas quando está presente desagrada aos olhos que a vêm.
  9. Às vezes, julgamos agradar aos outros com a nossa assiduidade, e é então que lhes começamos a desagradar com os defeitos que descobrem em nós.


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Livro da Vida Perfeita - A mestria


  1. «É preciso, dizem alguns, abandonar todo o saber, todo o querer, todo o amor, todo o desejo e todo o conhecimento.»
  2. Isto não significa de modo nenhum que o ser humano não deva ter nenhum conhecimento ou que Deus não deva ser por ele conhecido, amado, querido, desejado, louvado e honrado. Seria um grande mal, e o homem seria então como os animais selvagens ou o gado.
  3. Bem pelo contrário, o conhecimento do ser humano deve ser tão puro e tão perfeito que nele apareça claramente que esse conhecimento não pertence nem ao homem nem à criatura, mas que é o conhecimento do Eterno, que é o Verbo eterno.
  4. O ser humano e a criatura desaparecem e não o atribuem a si.
  5. Quanto menos a criatura se apropria do conhecimento, mais ele se torna perfeito.
  6. O mesmo se passa com a vontade, com o amor, com o desejo, etc.: quanto menos nos apropriamos deles, mais eles se tornam nobres, puros e divinos; pelo contrário, quanto mais nos apropriamos deles, mais eles se tornam grosseiros, impuros e imperfeitos.
  7. Vê! É assim que é preciso libertar-se: libertando-se da apropriação.
  8. É então o mais nobre e o mais puro conhecimento que possa haver dentro do homem, o mais nobre desejo e o mais puro amor. Porque tudo isso é de Deus apenas, e vale mais que seja de Deus do que seja da criatura.

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Imitação de Cristo - Do fugir da presunção e da vã esperança


  1. Insensato é quem põe a esperança nos homens ou nas criaturas.
  2. Não te envergonhes de servir os outros, e ser tido por pobre neste mundo pelo amor de Jesus Cristo.
  3. Não confies em ti próprio, mas põe a tua esperança em Deus.
  4. Faz aquilo que puderes, e Deus ajudará a tua boa vontade.
  5. Não confies na tua ciência, nem na habilidade de nenhuma criatura, mas antes confia na graça do Senhor, que ajuda os humildes e abate os presunçosos.
  6. Não te glories das riquezas que possas ter, nem do poder dos teus amigos, mas gloria-te em Deus, que dá tudo, e que, sobretudo, deseja dar-se a si próprio.
  7. Não te enleves com a força ou a beleza do teu corpo, porque uma ligeira enfermidade o pode corromper e desfigurar.
  8. Não tenhas complacência para com a tua habilidade ou talento, para que não desagrades a Deus, de quem é todo o bem natural que tiveres.
  9. Não te estimes melhor que os outros, para que não suceda que sejas considerado pior aos olhos de Deus, que sabe o que está dentro dos humanos.
  10. Não te orgulhes das tuas boas obras, porque os juízos de Deus são muito diferentes dos juízos humanos, e aquilo que agrada aos humanos, frequentemente desagrada a Deus.
  11. Se vês algum bem em ti, pensa que os outros ainda têm maiores, para assim te conservares humilde.
  12. Não perdes nada em te considerares inferior a todos, mas fazes mal se considerares alguém inferior a ti.
  13. O humilde goza de paz contínua; a cólera e a inveja perturbam o coração do soberbo.


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Livro da Vida Perfeita - A usurpação


  1. «Eu não darei, disse Deus, a minha honra a ninguém» (Is 42, 8; 48, 11). Isto significa que a honra e a glória só pertencem a Deus.
  2. Se eu atribuo a mim próprio um «bem» - qualquer coisa que eu seja, possa, saiba ou faça, qualquer coisa que seja minha ou de mim, qualquer coisa que me pertença ou provenha de mim, etc. - eu aproprio-me também da glória e da honra.
  3. O meu ato é duplamente mau. É, primeiro, como se disse, uma queda e um afastamento. Mas também, eu atribuo a mim a honra de Deus, e aproprio-me daquilo que é só d'Ele.
  4. Porque, tudo aquilo a que se deve chamar «bem», não pertence a ninguém, a não ser ao único eterno e verdadeiro Bem. Aquele que dele se apropria, faz mal a Deus e age contra Ele.

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Imitação de Cristo - Dos afectos desordenados


  1. Sempre que o ser humano começa a desejar alguma coisa desordenadamente, fica logo inquieto.
  2. O soberbo e o avaro nunca têm descanso, mas o pobre e o humilde de espírito vivem em muita paz.
  3. O homem, que ainda não está perfeitamente mortificado, é facilmente tentado e vencido em coisas pequenas e insignificantes.
  4. Quem tem o espírito pouco firme, pesado pela carne e inclinado para as coisas sensíveis, tem grande dificuldade em se desapegar totalmente dos desejos terrenos.
  5. Por isso, muitas vezes fica triste por não fazer a sua vontade, e facilmente se impacienta quando alguém o contraria.
  6. Porém, se alcança o que deseja, sente logo o remorso da consciência, porque obedeceu ao seu apetite, que não vale nada para alcançar a paz que procurava.
  7. É resistindo às paixões, e não seguindo-as, que se encontra a verdadeira paz do coração.
  8. Portanto, não há paz no coração do homem carnal, nem do que se entrega às coisas exteriores, mas somente no do que é fervoroso e espiritual.


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Livro da Vida Perfeita - A queda


  1. «Eu caí mil vezes mais baixo, eu afastei-me mil vezes mais que Adão. A queda, o afastamento de Adão, toda a humanidade não a pôde reparar nem apagar. Como é que a minha própria queda pode ser reparada?»
  2. Como a de Adão, pela mesma pessoa e do mesmo modo!
  3. «Por quem foi ela reparada? De que modo?»
  4. O homem não o conseguiria fazer sem Deus. Deus não o teria querido fazer sem o homem. Foi por isso que Deus se revestiu da natureza humana.
  5. Ele fez-se homem, e o homem foi santificado. Assim ocorreu a reparação!
  6. É do mesmo modo que deve ser reparada a minha queda. Eu não a posso sem Deus, e Deus não a deve nem a quer sem mim.
  7. Para que ela ocorra, é preciso que Deus se faça homem em mim também. É preciso que Ele tome para si tudo o que existe em mim - tanto o interior como o exterior - afim que nada em mim lhe resista e impeça a sua obra.
  8. Mesmo que Deus tomasse a Si todos os seres humanos, mesmo que Ele se fizesse homem neles e eles fossem Deus n'Ele: se isso não ocorresse em mim, então a minha queda e o meu afastamento nunca teria fim. É preciso que isso ocorra em mim também.
  9. Nessa reparação e nesse retorno, eu não posso nem quero nem devo fazer nada para além de permanecer completamente passivo: deixar só Deus agir e operar, e simplesmente sujeitar-me à sua obra e à sua vontade.
  10. Que eu não queira deixá-l'O fazer - mas queira apenas o «meu», «eu», «mim» e «me» - é isso que impede Deus de agir sozinho e sem obstáculos.
  11. É por isso que a minha queda e o meu afastamento permanecem, e não são reparados. Vê: a minha apropriação é a causa disso tudo.

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Imitação de Cristo - Da leitura dos livros santos


  1. Nas Sagradas Escrituras devemos buscar a verdade e não a eloquência.
  2. Os livros santos devem ser lidos com o mesmo espírito que os ditou.
  3. Devemos procurar neles o proveito e não a subtileza das palavras.
  4. Por isso, devemos ler com tão boa vontade os livros simples e piedosos como os profundos e sublimes.
  5. Não te mova a autoridade do escritor, se tem ou não grandes conhecimentos; pelo contrário, lê apenas pelo puro amor da verdade.
  6. Considera aquilo que te disseram, sem olhares a quem o disse.
  7. Os homens passam, mas «a verdade do Senhor permanece eternamente» (Sl 116, 2).
  8. Deus fala-nos de várias maneiras, e por todo o tipo de pessoas.
  9. Na leitura das Escrituras, a nossa curiosidade prejudica-nos, muitas vezes, porque queremos examinar e esquadrinhar quando devíamos ler com simplicidade.
  10. Se queres tirar proveito, lê com humildade, com simplicidade, com fé, e não queiras nunca passar por letrado.
  11. Gosta de perguntar; escuta em silêncio as palavras dos santos; e não desprezes as sentenças dos anciãos, porque eles não falam sem razão.


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Livro da Vida Perfeita - O que é o pecado


  1. «O pecado não é nada mais que o ato pelo qual a criatura, afastando-se do Bem imutável, se volta para o que está submetido à mudança.»
  2. Isto é: o ato pelo qual a criatura, afastando-se do Perfeito, se volta para o parcial - o imperfeito -, e em primeiro lugar se volta para si própria.»
  3. É isso que nos dizem a Escritura, a fé e a verdade.
  4. Tem muita atenção: quando a criatura se apropria de um bem - ser, vida, conhecimento, em resumo: tudo aquilo a que se pode chamar um bem - como se ela fosse ela própria esse bem ou se ele lhe pertencesse, a criatura afasta-se do Perfeito.
  5. Que mais fez o Diabo? Que outro ato, senão este, pelo qual ele se afastou e caiu?
  6. Ele pretendeu que era - que queria ser - qualquer coisa. Ele pretendeu que possuía e tinha como sua propriedade qualquer coisa. Esta apropriação - o «eu», o «me», o «mim», o «meu» - foi o seu distanciamento e a sua queda. Ainda hoje o é.
  7. E Adão, o que fez senão isto?
  8. Mas, foi porque comeu a maçã que ele se perdeu e caiu?
  9. Não! Foi por causa da apropriação: por causa do «eu», do «meu», do «mim», do «me», etc.
  10. Ele podia ter comido sete maçãs: se não tivesse havido essa apropriação, ele não teria caído.
  11. Mas desde o momento em que a apropriação ocorreu, ele caiu. E ele teria caído, mesmo se não tivesse mordido uma única maçã...

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Imitação de Cristo - Da prudência nas ações


  1. Não devemos dar crédito a tudo o que se diz, nem ir atrás das primeiras impressões, mas pelo contrário devemos examinar todas as coisas segundo Deus, com prudência e devagar.
  2. Mas ai! Nós acreditamos e dizemos mais facilmente mal acerca dos outros que bem, tal é a nossa fraqueza.
  3. Mas os perfeitos não crêem sem mais nem menos em tudo o que ouvem, porque conhecem a fraqueza humana inclinada para o mal, e inconstante nas palavras.
  4. Grande sabedoria é não ser precipitado nas ações, nem demasiado agarrado à sua própria opinião.
  5. Também é sabedoria não acreditar indistintamente em tudo o que os outros dizem, nem contar logo aos outros o que ouvimos ou suspeitamos.
  6. Toma conselho com alguém sábio e consciencioso, e deixa-te guiar por alguém mais experiente, em vez de seguires o teu parecer.
  7. A vida virtuosa torna o homem sábio diante de Deus, e dá-lhe uma grande experiência.
  8. Quanto mais formos humildes e submissos a Deus, tanta mais sabedoria e paz alcançaremos em todas as coisas.


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Livro da Vida Perfeita - O ser


  1. «Tu afirmas, perguntarão ainda, que não há nada fora do Perfeito, nada sem Ele.
  2. «Tu dizes também que d'Ele qualquer coisa flui».
  3. «Aquilo que flui não está portanto fora d'Ele?»
  4. Foi precisamente por isso que se disse: «Não há ser verdadeiro fora do Perfeito, não há ser verdadeiro sem Ele».
  5. Aquilo que flui não é um ser verdadeiro. Aquilo não tem ser, só o Perfeito tem ser.
  6. É apenas um acidente, uma claridade, um clarão: não é um ser, aquilo só tem ser dentro do fogo de onde brota a claridade - quer se trate do sol ou de uma outra fonte luminosa.

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Vida de Nuno Álvares Pereira - Partida para a corte aos treze anos


«Em 1373, na época a que nos estamos referindo, contava Nuno Álvares treze anos, com a virilidade precoce. Os homens formavam-se muito mais breve nesses tempos agrestes, de uma barbárie aliada, porém, aos requintes e contradições inerentes ao período de civilização confusa a que se chama Idade Média. Chocavam-se os elementos de criação espontânea, de violenta pristina e bárbara, próprios de povos que emergiam do cativeiro muçulmano ao som da guerra, por entre os escombros da civilização antiga, derruída por completo na Espanha, à mão dos árabes: chocavam-se com as tradições, com as ruínas, com os restos dispersos e pervertidos dessa Antiguidade, que parecia às imaginações ter acabado afogada no sangue de Cristo. A Igreja era o veículo da tradição clássica, e também, por isso mesmo, a autoridade suprema, como representante, na terra, do poder dum Deus temido. Os ministros da religião dominavam as almas por um processo de auto-intimidação, semelhante ao dos feiticeiros primitivos; e se a barbarização do pensamento e do saber frequentemente rebaixava os dogmas teológicos e os cânones rituais até ao limite da feitiçaria simples: a violência dos costumes levava os sacerdotes a envergar também a armadura e a empunhar a espada, aparecendo soldados numa sociedade essencialmente guerreira. Disto veio a instituição dos monges militares; e neste sentido, o prior do Hospital era um homem tipo do seu tempo. Era-o também, como astrólogo; porque a Astrologia, exprimindo as ambições do espirito secular, surge como a alvorada do pensamento científico desabrochado na Renascença. Era-o, finalmente, na carnalidade dissoluta dos seus costumes, geral a uma época libertina, particularmente na Espanha, onde o exemplo da poligamia muçulmana mais concorria para obscurecer o instinto casto do povo ariano.

Da Idade Média, germinando nestes elementos sociais e morais, brotou a flor extravagante da Cavalaria, ideia incoerente e superiormente bela, em que as contradições do pensamento contemporâneo e a noção católica da vida e do mundo aparecem sublimadas, aspirando para um ideal indefinido, subindo para as nuvens, como as agulhas dos templos, braços erguidos, de mãos postas para o céu. O valor e o milagre, o herói e a protecção de um Deus sempre activo, o destino sacrossanto da vida votada ao resgate do túmulo do Redentor, a definição paradoxal do heroísmo pela abnegação e sacrifício, a castidade e a pobreza no império desbravado da luxúria e da cobiça: uma como que volta dos sentimentos morais e constitucionais do tempo, contra a realidade, exagerando a vida activa para a negar absolutamente, extraindo do naturalismo espontâneo dos costumes um idealismo fantástico: eis aí o que foi a Cavalaria, que aparece, ao terminar da Idade Média, como flor da poesia, sempre niilista.

Foi assim também que do herdeiro de Rodrigo Gonçalves, o herói bravio da tragédia de Lanhoso, do turbulento bispo D. Gonçalo, e do prior, pai de trinta e dois filhos, nasceu Nuno Álvares. Trazia hereditariamente consigo todos os elementos que geraram a Cavalaria, e por isco a flor incoerente da Idade Média apareceu humanizada no bastardo de D. fr. Álvaro. Os homens superiores são sempre símbolos: nem a superioridade está noutra coisa. O homem é maior, ou menor, conforme a porção de humanidade que lhe corre na alma. E para que a este caracter típico de Nuno Álvares não faltasse um único traço, veio também ao mundo por bastardia. Por que será que o instinto agudo se compras na antítese, sublimando quase sempre a negação da ordem? Será a adivinhação de que essa ordem é apenas abstracta, e um ente de razão, visceralmente oposto à anarquia real das coisas?

Tudo, pois, fadava Nuno Álvares para herói da Cavalaria nacional; e a iniciação que o pai e o seu astrólogo pedagogo, mestre Tomás, lhe deram nos livros da época, definiu, logo desde a infância, o caracter predestinado do futuro condestável de D. João I. «Havia grão sabor e usava muito de ouvir e ler livros de histórias, especialmente usava mais ler a história de Galaaz, em que se contém a soma da Távola Redonda». Pela primeira vez surgiu em Portugal um homem formado pela educação literária; mas este género, que posteriormente foi até à cópia servil, iniciava-se de um modo ainda espontâneo. Com o crescer dos anos, Nuno Álvares ia criando em si uma natureza nova, assimilando, sem o sentir, a alma fantástica de Galaaz; numa confusão de realidade e fábula, num misto de pureza e extravagância, como tudo quanto o rodeava e lhe constituía o ambiente fantasmagórico da vida. Essas primeiras impressões cunharam-se-lhe de um modo indelével no espírito infantilmente plástico; e nem de longe sonhava que o facto de se confundir a si com Galaaz, irmãos na bastardia; o facto de ambicionar glória igual, e ir fantasiando uma existência semelhante de sacrifícios e aventuras: o facto de se estar formando, assim, por educação literária, em vez de obedecer espontaneamente à lei da natureza, era o sinal certo de que os velhos tempos acabavam com ele.

Surgia, com efeito, uma era nova para o mundo, para Portugal. Nuno Álvares, sem dúvida alguma, foi o nosso Messias. Remiu-nos a um tempo do pecado antigo da inconsciência, definindo claramente o destino piedoso e heróico da vida sobre o passado de inconsciência bravia. Remiu Portugal do cativeiro castelhano iminente, abstraindo a Nação dos limbos obscuros da política pessoal dos reis, para a assentar sobre os alicerces firmes da vontade popular; aclamando-a num voto de acção heróica, e deixando-a, de pé e armada, pronta para conquista do seu lugar épico na história da civilização moderna. Mal pensava em criança Nuno Álvares, ao ouvir a história de Galaaz, cujo «corpo bem talhado e contenente manso» era também como o dele próprio, que tal seria a demanda do Santo Sepulcro e do Graal de José de Arimateia! As fantasmagorias que lhe enchiam de assombro educativo a imaginação infantil haviam de tornar-se, porém em realidade gloriosa. Seria o Galaaz português; não um tipo de fantasia, mas sim um homem, com a ideia, porém, doidamente arrebatada pelo misticismo cavaleiroso. Seria o precursor das gerações alumiadas pelo claro pensamento que na sua infância e nesse signo fatídico traçado à sua vida pela fantasia de um poema, desabrochada com todo o viço e toda a frescura espontânea de uma alma virgem, temperada no aço do heroísmo, coroada com açucenas de piedade mística. A poesia foi, será sempre, iniciadora e medianeira. Por mão dela saía, primeiramente, o pensamento, das névoas da inconsciência espontânea e natural, para o reino claro da razão reflexiva.

O lugar de Tristão achava-se vago na Mesa redonda dos cavaleiros! Foi esse lugar que Nuno Álvares, ou Galaaz, preencheu. Era um sólio perigoso, uma cadeira de morte, que acabava com todos os que nela se sentavam. Quando o herói apareceu na sala, cerraram-se todas as portas e janelas por encanto; mas um raio de sol, entrando milagrosamente, iluminou em cheio a figura do herói que aparecia armado de loriga e bravoneiras, com dois sinais vermelhos sobre o braço. Por onde entrara? Ninguém o vira. Com ele vinha um ermitão, que assim disse para o rei Artur:

- Eu te trago o cavaleiro desejado que vem de el-rei David e de José de Arimateia, por quem as maravilhas desta terra e das outras haverão acima.

E Galaaz sentou-se na cadeira terrível, dizendo todos compassadamente:

- D. Galaaz, sede o bem-vindo!

Era aquele o bastardo de Lançarote do Lago sobrinho do rei Marte da Cornualha: o cavaleiro de quem Merlim e os profetas haviam falado como o que descobriria o Santo Graal, terminando assim as aventuras do reino de Logres. Era ele que havia de descobrir o sacrário da pátria, dando a comungar aos seus filhos a hóstia santa do sacrifício; era ele quem terminaria, também as aventuras do Reino de Portugal, com façanhas que gradualmente iam avultando na sua imaginação à medida que os anos cresciam e, com o crescer, o sol da vida subindo, ia desmanchando a névoa da flor da terra.

Em torno da Mesa sentavam-se, confundidos em admiração, os cento e cinquenta cavaleiros presididos pelo rei Artur. Eram Booz de Gaunes, o velho pai do presidente e do imperador Alaino de Constantinopla, nascido de uma filha do rei da Grã-Borgonha, que o seduzira por encantamento, obrigando-o a mentir aos votos de castidade; era Percival, de Galles, e Eric, o filho de el-rei Lot; eram Ganet e Garriet, Leonel e Brandinor. Ocursus-o-Negro, Orinides-o-Branco, e Sagramor, e Gardamontanha, mais Arnal-o-Formoso, com Martel-do-grande-escudo, e os outros em cujo grémio entrava Gallaz - como Nuno Álvares, quando o pai o levou à Corte de el-rei D. Fernando, em 1373.

A ideia da partida para Santarém, à corte, aparecia-lhe como a do seu herói para a sala dos cavaleiros: ia sentar-se aí na cadeira vazia e terrível, para vencer o Fado numa sucessão de aventuras e façanhas inauditas. Também levava uma armadura forjada com o lume da virtude; e mais de uma vez simulara com os ermitões do Bonjardim a cena do cemitério, quando Galaaz quis ver a campa do cavaleiro desleal sobre que os demónios dançavam em permanência. O defundo gemia agonias no seu túmulo, ensombrado por uma velha árvore, e, soluçando, pedia a Galaaz, que se afastasse; mas o cavaleiro impávido levantou a campa, donde saiu um fumo negro como pez, depois chamas, depois o próprio demónio em pé:

- Ai, Galaaz, santa coisa vejo em ti... Vejo-te cercado de anjos, que não posso durar contra ti. E porém te deixo o meu lugar, em que longo tempo folguei...

E foi-se o diabo. No fundo do túmulo estava o defunto armado. E a história termina dizendo que a campa do moimento demonstra a dureza dos corações que Nosso Senhor achou no mundo, quando aqui veio, porque «na terra nom achou el se nom duros corações»; e bem parecia, porque o filho não amava o pai, nem o pai o filho, e por isso iam todos ao inferno.

Já as histórias tinham um simbolismo moral; e esse momento novo de educação entrava no espírito do nosso herói, apresentando-lhe a vida como um exercício de virtude, ensinando-lhe que o mérito das acções não está no que são, mas sim no que significam; dizendo-lhe que o supremo destino da existência é converter os homens ao bem, levantando, de sobre eles a campa dos pecados da carne, em corações endurecidos pela vida bravia dos tempos.

Por isso o ermitão acompanhara sempre Galaaz, para lhe mostrar a dignificação e o alcance dos lances da sua vida aventurosa, como os coros da tragédia antiga, comentando as acções dos heróis. E Nuno Álvares relia a fala do ermitão, onde se faz a apoteose da bastardia, considerando-se necessário o pecado de origem para a consumação das façanhas:

- Filho! coisa santa e honrada, flor e louvor de todos os mancebos, outorga-me, se te praz, que te faça companhia em toda a minha vida, enquanto te puder seguir... E não sei no mundo que hoje me pudesse confortar mais, como ver tão santo cavaleiro, como tu hás-de ser. E como tu verás maravilhas que excederás; porque Deus, que te fez nascer em tal pecado, como tu sabes, por mostrar seu grande poder, essa grande virtude te outorgou por sua piedade e pela boa vida que tu começaste de tua meninice até aqui, que te dará poder, e força, e bondade de armas e de ardimento sobre todos os cavaleiros que nunca trouxeram armas no reino de Logres (ou de Portugal?) assim que tu darás acima a todas as outras maravilhas e aventuras, onde todos faleceram e falecerem. E quero todos teus feitos saber que acabarás, pois foste feito em tal pecado, onde os mouros não puderam vir, que foram feitos em leal casamento...

Assim educado, partia Nuno Uivares para a Corte aos treze anos. A própria bastardia que, embora corrente e comum no tempo, podia levantar-lhe pensamentos deprimentes no animo, encontrava sanção e apoteose nos livros da sua paixão. Os bastardos eram eleitos. Deus escolhia os manchados por esse pecado de origem. A virtude do pecado é preferente. Ia disposto a exceder todas as façanhas e prodígios, de valor e de abnegação. Floria-lhe o lírio da virtude cândida na alma ingénua; pulava-lhe nas veias o sangue com os impulsos da força exuberante.» (1)

Notas
  1. Oliveira Martins - A Vida de Nun'Álvares, 9ª ed., p. 18-24.

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