Mestre Eckhart – Iluminou os degraus da sua casa



  1. A alma é criada entre «um» e «dois»
  2. Pelas suas potências superiores, a alma toca Deus
  3. Que se retire o que é prejudicial e que completemos o que nos faz falta
  4. As mais altas potências da alma são em número de três
  5. A operação própria da potência ascendente é a de tender para o alto
  6. A beatitude divina reside em três pontos



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Mestre Eckhart – Iluminou os degraus da sua casa 1


Sermão 32 - Iluminou os degraus da sua casa
  1. «Uma mulher de bem iluminou os degraus da sua casa e não comeu o seu pão na ociosidade.» (Pr 31, 27) 1
  2. Esta casa significa a totalidade da alma, e os degraus da casa designam as potências da alma.
  3. Um mestre antigo diz que a alma é criada entre «um» e «dois».
  4. O «um» é a eternidade que é em todos os tempos única e simples.
  5. O «dois», é o tempo que move e se diversifica.
  6. Ele quer dizer que a alma, pelas suas potências superiores, toca na eternidade, quer dizer em Deus, e pelas suas potências inferiores, ela toca no tempo, daí ela ser mutável e inclinada para as coisas corporais, o que a priva da sua nobreza.
  7. Se a alma pudesse, como os anjos, conhecer totalmente Deus, ela nunca teria penetrado no corpo.
  8. Se ela pudesse conhecer Deus sem o mundo, o mundo nunca teria sido criado para ela.
  9. O mundo foi criado para ela afim de que os olhos da alma se exerçam e se fortifiquem de maneira a poderem suportar a luz divina.
  10. Da mesma forma que o brilho do sol não se projeta sobre a terra a não ser que seja envolvido pelo ar e disseminado sobre outras coisas, sem o qual os olhos do ser humano não o poderiam suportar, da mesma forma a luz divina é de um poder tão sobreeminente e tão clara que os olhos da alma não a poderiam suportar se eles não fossem fortificados e levados ao alto pela matéria e as suas semelhanças e não fossem assim conduzidos e acostumados à luz divina. 2

Notas
  1. O texto deste sermão é extraído do célebre elogio da mulher forte dos Provérbios, que a Igreja escolheu como epístola para a missa duma mulher santa. [  ]
  2. Eckhart preferiu adaptar em vez de traduzir a primeira parte do versículo.

    Tendo feito da casa bíblica o símbolo da alma, ele pode identificar os «degraus» às potências ou faculdades da alma.

    Josef Quint reconheceu Alcher de Clairvaux, no seu De spiritu et anima, como sendo o autor do texto sobre a alma, situada entre o tempo e a eternidade, que Mestre Eckhart tinha atribuído a S. Agostinho no sermão 23. [  ]


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Mestre Eckhart – Iluminou os degraus da sua casa 2


  1. Pelas suas potências superiores, a alma toca Deus.
  2. Daí, ela é formada segundo Deus.
  3. Deus é formado segundo ele próprio, ele tem a sua imagem de si próprio e de nenhum outro.
  4. A sua imagem, é que ele se conhece absolutamente a si próprio e não é nada mais que luz.
  5. Quando a alma o toca com um verdadeiro conhecimento, ela é semelhante a ele nessa imagem.
  6. Se imprimirmos um selo numa cera verde ou vermelha ou num tecido, ele produz sempre uma imagem.
  7. Se o selo é totalmente impresso através da cera, por forma a que nada subsiste da cera que não tenha absolutamente penetrado no selo, a cera não faz mais do que um com o selo, sem diferença.
  8. Assim a alma é totalmente unida a Deus na imagem e na semelhança quando ela o toca com um verdadeiro conhecimento.
  9. S. Agostinho diz que a alma foi criada tão nobre e tão elevada acima de todas as criaturas que nenhuma coisa efémera que, no último dia, deve desaparecer, pode falar dentro da alma nem agir nela sem intermediário e sem mensageiro.
  10. Os olhos, os ouvidos e os cinco sentidos, tais são os degraus pelos quais a alma sai para o mundo, e por esses degraus, o mundo penetra por sua vez dentro da alma.
  11. Um mestre diz que «as potências da alma devem regressar rapidamente para a alma com uma grande colheita»; quando elas saem, elas trazem de cada vez qualquer coisa para ela.
  12. É por isso que o ser humano deve vigiar com cuidado sobre os seus olhares, afim de que eles não tragam alguma coisa que seja prejudicial à alma.
  13. Eu estou certo: o que quer que veja a pessoa boa, ela torna-se melhor.
  14. Se ela vê coisas más, ela agradece a Deus de a ter preservado e reza por aquela na qual está esse mal afim de que Deus a converta.
  15. Se ela vê coisas boas, ela deseja que Deus as realize nela. 1

Notas
  1. O mestre que diz que a alma traz sempre qualquer coisa quando sai para o mundo é Avicena, nomeado num comentário em latim de Eckhart onde o mesmo pensamento se encontra.

    A alma deve portanto vigiar sobre os cinco sentidos para não trazer nada de prejudicial. [  ]


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Mestre Eckhart – Iluminou os degraus da sua casa 3


  1. O olhar deve ser duplo: que se retire o que é prejudicial e que nós completemos o que nos faz falta.
  2. Também, eu já o disse frequentemente: aqueles que jejuam muito, prolongam as suas vigílias, realizam grandes obras sem corrigir os seus defeitos e os seus hábitos – no qual consiste o verdadeiro progresso -, enganam-se a si próprios e são a risada do diabo.
  3. Um homem tinha um ouriço graças ao qual enriqueceu. Habitava perto do mar. Quando o animal notava para onde virava o vento, eriçada a pele e virava as costas para esse lado.
  4. O homem ia então para o mar e dizia às gentes: «O que me dão se eu vos indicar a direcção do vento?»
  5. Ele vendia o vento, o que o enriqueceu.
  6. Da mesma forma o ser humano enriquece em virtudes se examinar onde é mais deficiente, afim de se corrigir e de aplicar o seu zelo a emendar-se. 1

Notas
  1. «Pelas suas potências superiores a alma toca Deus.» O pregador empregou antes uma comparação com a cera e o selo bastante brilhante, enquanto que aqui a comparação com o ouriço parece um pouco forçada. [  ]


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Mestre Eckhart – Iluminou os degraus da sua casa 4


  1. Foi o que fez assiduamente S. Isabel.
  2. Ela tinha «sabiamente iluminado os degraus da sua casa».
  3. Também, «ela não temia o inverno porque os seus servidores estavam duplamente vestidos».
  4. Ela estava alerta contra aquilo que a podia prejudicar.
  5. Se qualquer coisa lhe faltava, ela aplicava o seu zelo a aperfeiçoá-la.
  6. É por isso que «ela não comeu o seu pão na ociosidade.»
  7. Ela tinha também voltado as suas potências superiores para o nosso Deus.
  8. As mais altas potências da alma são em número de três: a primeira é o conhecimento, a segunda, a irascibilis que é uma potência ascendente, a terceira é a vontade.
  9. Quando a alma se entrega ao conhecimento da autêntica verdade, à potência simples pela qual se conhece Deus, a alma é chamada uma luz.
  10. E Deus também é uma luz e quando a luz divina se derrama na alma, a alma é unida a Deus como uma luz a uma luz, ela é então chamada luz de fé e isso é uma virtude divina.
  11. Onde a alma não consegue chegar nem pelos seus sentidos nem pelas suas potências, é a fé que a leva até lá. 1

Notas
  1. Eckhart passa em seguida a S. Isabel, a quem se reporta o seu texto inicial. Este exemplo é convincente.

    É muito excepcional que Mestre Eckhart nomeie um santo ou uma santa sem ser a propósito de uma citação, sobretudo quando o santo é, como Isabel, todo carregado de obras exteriores: ele desconfia sempre um pouco delas, temendo que elas dêem demasiado facilmente boa consciência.

    Isabel da Hungria ou da Turingia morreu em 1231. Mais de um século separam-na do nosso pregador, mas ela era muito popular na Alemanha onde aliás permaneceu. Como é menos conhecida em Portugal no século XXI, contaremos um pouco acerca dela.

    Nascida em 1207, filha do rei da Hungria, foi levada para a Turingia em 1211 afim de casar um dia com Luís IV, filho mais velho do poderoso senhor feudal da Turingia Harmann I, união desejada pelas duas partes por razões políticas. Muito devota desde a infância, ela alimenta os pobres e trata dos doentes. Luís e Isabel amam-se profundamente. O casamento tem lugar provavelmente em 1221.

    A partir de 1226, Isabel toma por director um padre severo que a interdita de comer ou de beber, mesmo nas refeições de cerimónia, antes de saber se não se trata de um bem mal adquirido, quer dizer proveniente de domínios usurpados, ou abusivamente retirado à colheita dos pobres camponeses.

    Em 1227, Luís IV morre na estrada da cruzada. Isabel com 20 anos espera então o seu terceiro filho.

    Ela deixa a Wartbourg, sua residência habitual, com os filhos, temendo que o seu cunhado não tenha a largueza de espírito do seu esposo e não aceite as suas restrições à mesa. Não que ela tenha sido expulsa como pretende a lenda, nós temos sobre esse ponto o testemunho formal de um dos seus assistentes: «Ela teria podido relacionar-se com o irmão do seu marido, mas ela não queria receber o seu alimento do roubo e da extorsão dos pobres tais como são frequentemente praticados nas cortes dos príncipes e ela escolheu ser rejeitada e ganhar o seu alimento como uma mercenária com o trabalho das suas mãos.»

    Ela teria querido ir mendigar o seu pão de porta em porta. O seu director não lhe permitiu. A sua família materna tentou em vão voltar a casá-la.

    Quando a sucessão de Luís é acertada, ela dispõe dos seus bens para os dar aos pobres e mandar construir um hospital. Toma o hábito franciscano em 1228, leva uma vida extremamente austera, continua a alimentar os indigentes, e tratar os mais deserdados e os leprosos. Morre em 1231 com 24 anos. [  ]


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Mestre Eckhart – Iluminou os degraus da sua casa 5


  1. A outra potência é a potência ascendente cuja operação própria é a de tender para o alto.
  2. Da mesma forma que a propriedade do olho é a de ver a forma e a cor, que a propriedade do ouvido é a de ouvir os sons harmoniosos e as vozes, a operação própria da alma é a de, por essa potência, ela tender sem cessar para o alto.
  3. Se ela afasta os seus olhares, ela cai no orgulho, o que é pecado.
  4. Ela não pode suportar que alguma coisa esteja acima dela.
  5. Eu penso que ela também não pode suportar que Deus esteja acima dela.
  6. Se ele não está nela e se ela não está plenamente satisfeita como ele está ele próprio, ela não pode nunca encontrar o repouso.
  7. Por esta potência, a alma agarra Deus tanto quanto é possível a uma criatura, é por isso que a nomeamos esperança, e é também uma virtude divina.
  8. Por ela, a alma tem uma tão grande confiança em Deus que parece que Deus, em todo o seu ser, não tem nada que ela não possa receber por sua vez.
  9. Monsenhor Salomão diz que «as águas roubadas são mais suaves que qualquer outra água.»
  10. S. Agostinho diz: as pêras que eu roubava pareciam-me mais doces que aquelas que a minha mãe me comprava porque elas eram-me interditas e inacessíveis.
  11. Da mesma forma a graça que a alma adquire por uma sabedoria e uma aplicação particulares é muito mais doce para a alma que aquela que é comum a todos. 1

Notas
  1. As três potências da alma são o conhecimento, a irascibilis e a vontade que o pregador subordina respetivamente à fé, à esperança e ao amor.

    Tocamos aqui com o dedo na dificuldade que Mestre Eckhart sentiu ainda ao exprimir-se na sua língua materna. Ele pensou em latim e traduziu este termo para os seus auditores por «ein ûfkriegende kraft», uma potência ascendente.

    No sermão 33, Sancti per fidem vicerunt regna, em relação com este, ele traduziu literalmente «irascibilis» por «diu zürnerin», derivado de «zorn», a cólera, ao lado de «diu ûfkriegende kraft» e no sermão 34, Gaudete in domino, iterum gaudete, ele só conservou o «kriegend» e «ûfkriegend».

    Ora os dicionários etimológicos dão como primeiro sentido deste termo o verbo «streben» cujo equivalente português exato não existe e que significa «fazer esforço», «procurar atingir».

    É também por «strebend», «aufstrebend» que Josef Quint traduz em alemão moderno as expressões de Eckhart. Como este liga esta «potência» da alma à virtude da esperança e à ideia de se elevar, eu traduzi-a por «potência ascendente» que me parece próxima do pensamento e mesmo da expressão eckhartiana, não por «irascível» o que teria sido apenas um decalque.

    Da mesma forma, não traduzi «ein göttlîchiu tugent» por «virtude teologal», mas por «virtude divina», querendo conservar tanto quanto possível a simplicidade do vocabulário alemão. Isto como exemplo típico. [  ]


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Mestre Eckhart – Iluminou os degraus da sua casa 6


  1. A terceira potência é a vontade interior que, tal como um rosto, está sempre voltada para Deus, para a vontade divina, e bebe em Deus e toma em si o amor.
  2. Então Deus é atraído pela alma e a alma é atraída por Deus, isto é o amor divino e é também uma virtude divina.
  3. A beatitude divina reside em três pontos: o conhecimento que faz com que ele se conheça a si próprio absolutamente, em seguida a liberdade que faz com que ele permaneça sem ser agarrado nem constrangido por nenhuma criatura, e por fim a satisfação perfeita de ser suficiente a ele próprio assim como a todas as criaturas.
  4. É também no que consiste a perfeição da alma: no conhecimento e na consciência de ter agarrado Deus, e na união do amor perfeito.
  5. Nós queremos saber o que é o pecado? É afastarmo-nos da beatitude e da virtude, eis de onde vem todo o pecado.
  6. Toda a alma bem-aventurada deve também considerar estes degraus.
  7. É por isso que «ela não teme o inverno, porque os seus servidores estão também vestidos com roupas duplas» segundo o que a Escritura diz dela.
  8. Ela (Isabel) estava vestida com força para resistir a toda a imperfeição e ela estava ornada com a verdade.
  9. Em face do mundo, esta mulher estava exteriormente na riqueza e nas honras, e interiormente ela adorava a verdadeira pobreza.
  10. E então ela foi privada de consolação exterior, ela dirigiu-se para Aquele para quem fluem todas as criaturas, ela desdenhou o mundo e a ela própria.
  11. Com isso, ela ultrapassou-se a si própria e desdenhou de ser desdenhada, apesar de ela não se preocupar e não renunciou no entanto à perfeição.
  12. Ela desejou, com um coração puro, poder lavar e tratar das gentes doentes e sujas. 1
  13. Que Deus no ajude a que nós possamos assim iluminar os degraus da nossa casa e a não comer o nosso pão na ociosidade. Amém. 2

Notas
  1. Se as primeiras palavras que mestre Eckhart lhe consagra são bastante banais, as do fim do sermão provam que ele conhece bem a sua vida: «Esta mulher estava exteriormente na riqueza e nas honras face ao mundo e interiormente ela adorava a pobreza (ele diz mesmo "adorava", anebetete, e é uma palavra da qual ele não abusa). E quando ela foi privada de consolação exterior... » [  ]
  2. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 31-59 - Tome II», Éditions du Seuil, Paris, 1978, p. 11-17. [  ]


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Mestre Eckhart – Prega a palavra



  1. Prega a palavra, di-la, exprime-a, produ-la e pare a palavra!
  2. Tudo o que emana de Deus, tudo o que Deus prometeu é muito estranho
  3. O ser humano desprendido realiza ao mesmo tempo que Deus toda a obra de Deus
  4. Deus fez-se homem afim de te poder criar como seu Filho único
  5. Se todas as criaturas dormirem em ti, tu podes aperceber-te daquilo que Deus opera em ti
  6. Agarra Deus em todas as coisas, porque Deus está em todas as coisas
  7. Ama Deus acima de todas as coisas e o teu próximo como a ti mesmo
  8. Aceita com uma perfeita igualdade de alma tudo aquilo que te acontecer
  9. Desprende-te do que é teu e dirige todas as tuas obras para Deus



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Mestre Eckhart – Prega a palavra 1


Sermão 30 - Prega a palavra
  1. Hoje e amanhã lê-se uma frase a respeito de monsenhor S. Domingos. 1
  2. S. Paulo escreveu-a na carta 2 e ela significa: «Prega a palavra, di-la, exprime-a, produ-la e pare a palavra!» 3

Notas
  1. Era normal que Mestre Eckhart escolhesse este texto para o dia em que se celebrava o fundador dos Irmãos pregadores, onde ele se endereça mais particularmente a pregadores.

    Este sermão foi portanto dito num 5 de Agosto, festa de S. Domingos no antigo missal dominicano.

    A carta contém estas palavras de Paulo a Timóteo: “Praedica verbum!” Prega a palavra!

    Nós veremos muitas semelhanças nos temas, e por vezes nas expressões, com os sermões 25, 27, 28.

    O plano deste sermão 30, com as suas divisões e subdivisões, é um pouco mais complicado. [  ]
  2. Praedica verbum, vigila, in omnibus labora (2Tim 4, 2). [  ]
  3. A carta de S. Paulo comporta imperativos diferentes daqueles que o pregador acrescenta: «... di-la, exprime-a, produ-la e pare a palavra.»

    Não se trata de uma simples insistência, tal como faz compreender o último termo.

    As intenções aparecer-nos-ão mais claramente no decurso do sermão. [  ]


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Mestre Eckhart – Prega a palavra 2


  1. É uma coisa estranha que uma coisa se escoe para fora e fique no entanto dentro.
  2. Que a palavra se escoe para fora e fique no entanto dentro, é muito estranho; que todas as criaturas se escoem para fora e fiquem no entanto dentro, é muito estranho; o que Deus deu e o que Deus prometeu dar, é muito estranho, é incompreensível e inacreditável.
  3. E está bem que seja assim, porque se fosse compreensível e se fosse credível, não estaria bem.
  4. Deus está em todas as coisas.
  5. Quanto mais ele está nas coisas, mais ele está fora das coisas; quando mais ele é interior, mais ele é exterior, e quanto mais ele é exterior, mais ele é interior. 1

Notas
  1. Eckhart já usou a comparação da palavra humana que nasce do interior, se escoa para fora, permanece no entanto no interior sob a forma de pensamento; ele tenta também fazer compreender como é que a Palavra, o Verbo, flui para fora e permanece no entanto no Pai, como também todas as criaturas, saídas de Deus, permanecem em Deus.

    Tudo o que emana de Deus, tudo o que Deus prometeu é com efeito «muito estranho» (gar wunderlich), o epíteto é repetido quatro vezes.

    Eckhart insiste igualmente na imanência e na transcendência de Deus: «... quanto mais ele é interior, mais ele é exterior, e quanto mais ele é exterior, mais ele é interior». [  ]


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Mestre Eckhart – Prega a palavra 3


  1. Eu já disse várias vezes que Deus cria agora este universo todo, absolutamente.
  2. Tudo o que Deus criou há seis mil anos e mais, quando Deus fez o mundo, Deus cria-o totalmente agora, mas enquanto Deus é divino, e enquanto Deus é inteligível.
  3. Deus não está em nenhuma parte tão verdadeiramente como na alma e no anjo, se tu queres, no mais interior da alma e no mais elevado da alma.
  4. E quando eu digo «o mais interior», eu quero dizer o mais elevado, e quando eu digo «o mais elevado», eu quero dizer o mais interior da alma.
  5. No mais interior e no mais elevado da alma, eu quero dizer os dois num só.
  6. Lá onde o tempo nunca penetra, onde nenhuma imagem alguma vez irradia: no mais interior e no mais elevado da alma, Deus cria este universo inteiro.
  7. Tudo o que Deus criou há seis mil anos quando ele fez o mundo, e tudo o que Deus ainda deve criar em mil anos, se o mundo durar tanto tempo, Deus cria-o no mais interior e no mais elevado da alma.
  8. Tudo o que é passado, e tudo o que é presente, e tudo o que é futuro, Deus cria-o no mais interior da alma.
  9. Tudo o que Deus opera em todos os santos, Deus opera-o no mais interior da alma.
  10. O Pai cria o seu Filho no mais interior da alma e ele cria-te ao mesmo tempo que o seu Filho único, não menor.
  11. Se eu devo ser Filho, é preciso que eu seja Filho no mesmo ser no qual ele é Filho, e em nenhum outro.
  12. Se eu devo ser um ser humano, eu não posso ser um ser humano no ser de um animal, é preciso que eu seja um ser humano no ser de um humano, mas se eu devo ser este ser humano aqui, é preciso que eu seja este ser humano neste ser aqui.
  13. Ora S. João diz: «Vocês são filhos de Deus.» 1

Notas
  1. O pregador regressa em seguida à presença de Deus no mais elevado e no mais interior da alma.

    Não apenas ele aí cria o seu Filho único, mas ele aí cria todo o passado, todo o presente, todo o futuro.

    O ser humano desprendido estando situado fora do tempo, na eternidade, realiza ao mesmo tempo que Deus toda a obra de Deus. [  ]


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Mestre Eckhart – Prega a palavra 4


  1. «Prega a palavra, di-la, exprime-a, produ-la, pare a palavra!»
  2. «Di-la!» O que, dito no exterior, penetra em ti, é uma coisa fruste, esta é dita no interior.
  3. «Di-la!» quer dizer: descobre o que está em ti.
  4. O profeta diz: «Deus disse uma palavra e eu ouvi duas».
  5. É verdade: Deus nunca disse mais que uma.
  6. O seu dizer é apenas um.
  7. Nesse dizer único, ele diz o seu Filho e ao mesmo tempo o Espírito Santo e todas as criaturas mas só há aí no entanto um dizer em Deus.
  8. Mas o profeta diz: «Eu ouvi duas.»
  9. Quer dizer: eu ouvi Deus e as criaturas.
  10. Lá onde Deus a diz, ela é Deus, mas aqui ela é criatura.
  11. As gentes imaginam que Deus se fez homem acolá unicamente.
  12. Não é assim, porque Deus fez-se homem tanto aqui como acolá, e ele fez-se homem afim de te poder criar como seu Filho único e não menor. 1

Notas
  1. «Prega a palavra, di-la...» quer dizer descobre o que está em ti.

    Apesar de Deus nunca dizer mais do que uma palavra, o profeta ouviu duas: Deus e as criaturas.

    Lá onde Deus a diz, ela é Deus. Aqui em baixo ela é criatura.

    «As gentes imaginam que Deus se fez homem acolá unicamente. Não é assim, porque Deus fez-se homem tanto aqui como acolá.»

    O tempo, sendo um presente perpétuo, a Incarnação ocorre tanto agora quanto no seu momento histórico... «e ele fez-se homem afim de te poder criar como seu Filho único e não menor», esta criação é uma consequência da Incarnação de Deus.

    Esta primeira parte do sermão termina com este texto: «... como seu Filho único e não menor». [  ]


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Mestre Eckhart – Prega a palavra 5


  1. Eu estava ontem sentado num lugar e disse uma frase que se encontra no Pai Nosso.
  2. Ela diz: «Que a tua vontade seja feita!» mas seria melhor: «Que a vontade seja tua!», que a minha vontade se torne na sua vontade afim de que eu me torne nele: tal é o significado do Pai Nosso.
  3. Esta frase tem dois sentidos.
  4. Um é: «Dorme para todas as coisas!» quer dizer: não saibas nada do tempo, nem das criaturas, nem das imagens.
  5. Os mestres dizem: uma pessoa que dormisse profundamente, se dormisse cem anos, não saberia nada de nenhuma criatura, não saberia nada do tempo nem das imagens, e então tu podes aperceber-te do que Deus opera em ti.
  6. É por isso que a alma diz no Livro do Amor: «Eu durmo mas o meu coração vigia.»
  7. É por isso que se todas as criaturas dormirem em ti, tu podes aperceber-te daquilo que Deus opera em ti. 1

Notas
  1. Na segunda parte do sermão, o pregador explica a frase do Pai Nosso: «Fiat voluntas tua!»

    Ele atribui-lhe dois sentidos: «Dorme para todas as coisas!» Ele aproxima do segundo termo da frase de S. Paulo, «vigila», o versículo do Cântico (5, 2): «Eu durmo, mas o meu coração vigia.»

    Se todas as criaturas «dormirem» na pessoa desprendida, então o seu «coração» pode aperceber-se daquilo que Deus opera nela. [  ]


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Mestre Eckhart – Prega a palavra 6


  1. A frase: «Faz esforço em todas as coisas!» tem três significados.
  2. Ela quer dizer: «Suscita a tua vantagem em todas as coisas!»
  3. Quer dizer: «Agarra Deus em todas as coisas!», porque Deus está em todas as coisas.
  4. S. Agostinho diz: «Deus criou todas as coisas, não que ele as tenha feito ser, e depois tenha continuado o seu caminho, mas que ele ficou com elas.»
  5. As gentes imaginam, quando elas têm as coisas ao mesmo tempo que Deus, que elas têm mais do que se elas tivessem Deus sem as coisas, mas é falso, porque todas as coisas ao mesmo tempo que Deus, não é mais que Deus só, e se alguém que tem o Filho, e o Pai ao mesmo tempo que ele, imaginasse que tinha mais do que se tivesse o Filho sem o Pai, seria falso.
  6. Porque o Pai com o Filho não é mais do que o Filho só, assim como o Filho com o Pai não é mais do que o Pai só.
  7. É por isso que, agarra Deus em todas as coisas, e é um sinal de que ele te criou como seu Filho único, e não menor. 1

Notas
  1. «Faz esforço em todas as coisas!» quer dizer: «Suscita a tua vantagem em todas as coisas!» e, assim, tem três significados.

    O primeiro: «Agarra Deus em todas as coisas!» Deus está em todas as coisas e é ele que se deve procurar em todas as coisas.

    Deus e as coisas não são mais do que Deus só.

    Também, o Pai com o Filho não são mais que uma única Pessoa, o Mestre Eckhart considera-as aqui na sua essência, que é uma. [  ]


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Mestre Eckhart – Prega a palavra 7


  1. Eis o outro significado: «Suscita a tua vantagem em todas as coisas!»
  2. Quer dizer: «Ama Deus acima de todas as coisas e o teu próximo como a ti mesmo.»
  3. E é um mandamento de Deus.
  4. Ora eu digo que não é apenas um mandamento, é também um dom que Deus fez e que prometeu fazer.
  5. E se tu preferes que cem marcos sejam teus em vez de serem doutro, é um erro.
  6. Se tu preferes uma pessoa a outra, é um erro, e se tu preferes o teu pai e a tua mãe e a ti próprio mais do que outro humano, é um erro, e se tu preferes a beatitude em ti mais do que num outro, é um erro. 1
  7. «Deus nos abençoe! Que estás a dizer? Não devo preferir a beatitude em mim mais do que num outro?»
  8. Muitas gentes doutas não o compreendem e acham que é muito difícil, mas não é difícil, é muito fácil.
  9. Eu quero mostrar-te que não é difícil.
  10. Vê, a natureza tem duas intenções com respeito a cada membro que opera no ser humano.
  11. A primeira intenção que ela tem em vista nas suas operações, é de servir o corpo todo inteiro, e em seguida cada membro em particular, como ele próprio, e não menos que ele próprio, e nas suas operações, a sua intenção não vai mais para ele próprio que para um outro membro.
  12. Deve ser bem mais assim quanto à graça.
  13. Deus deve ser uma regra e um fundamento do teu amor.
  14. A primeira intenção do teu amor deve ser dirigida unicamente para Deus e em seguida para o teu próximo como para ti próprio, e não menos do que para ti próprio.
  15. E se tu preferes a beatitude em ti do que num outro, é um erro, porque se tu preferes a beatitude em ti mais do que num outro, tu preferes-te a ti próprio, e se tu te preferes, Deus não é puramente a tua preferência e é um erro.
  16. Ora se tu gostas da beatitude em S. Pedro e em S. Paulo como em ti próprio, tu possuis a mesma beatitude que eles.
  17. E se tu gostas da beatitude nos anjos como em ti, e se tu gostas da beatitude na Nossa Senhora como em ti, tu desfrutas da mesma beatitude, tão verdadeiramente como ela própria, ela pertence-te propriamente como a ela.
  18. É por isso que está dito no Livro da Sabedoria: «Ele tornou-o semelhante aos seus santos.» 2

Notas
  1. O segundo significado: «Ama Deus acima de todas as coisas e o teu próximo como a ti mesmo.»

    Está com efeito na linha eckhartiana considerar como um dom todos os mandamentos.

    O pregador puxa-o como de costume ao extremo: não preferir o dinheiro para si mais do que para um outro, não preferir o seu pai e a sua mãe mais do que um outro ser humano, não preferir a beatitude em si mais do que num outro. [  ]
  2. Prevendo as objeções íntimas dos seus auditores, Eckhart responde-lhes assegurando-lhes que uma tal atitude é fácil.

    O exemplo é aqui retirado da natureza: nas suas operações, das quais o ser humano é o objeto, ela atua primeiro para o corpo inteiro, depois para cada membro em particular.

    Com mais forte razão deve ser assim no domínio da graça: o amor do ser humano deve tender primeiro para Deus, em seguida deve amar o seu próximo «como a si próprio».

    Como grande compensação, esta pessoa desprendida de tudo – e primeiro de si própria – possuirá a beatitude de todos os anjos e de todos os santos. [  ]


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Mestre Eckhart – Prega a palavra 8


  1. Eis o terceiro significado: «Suscita a tua vantagem em todas as coisas!»
  2. Ama Deus igualmente em todas as coisas, quer dizer: ama Deus tão voluntariamente na pobreza como na riqueza, ama-o tanto na doença como na saúde, ama-o tanto na tentação como sem tentação, ama-o tanto no sofrimento como sem sofrimento.
  3. E mesmo quanto maior for o sofrimento, mais o sofrimento é leve; como dois baldes: quanto mais um é pesado, mais o outro é leve; e quanto mais a pessoa abandona, mais lhe é fácil abandonar.
  4. Para uma pessoa que ama Deus, seria tão fácil abandonar este universo inteiro quanto um ovo.
  5. Quanto mais ele abandona, mais fácil lhe é abandonar; assim como para os apóstolos: quanto mais os seus sofrimentos eram penosos, mais eles os suportavam facilmente. 1

Notas
  1. Eis o terceiro significado de «Suscita a tua vantagem em todas as coisas!»

    Quer dizer: «Ama Deus igualmente em todas as coisas!»

    Aceita com uma perfeita igualdade de alma aquilo que te acontecer: doença ou saúde, tentação ou sofrimento.

    Aliás, o sofrimento e a renuncia aceites por Deus não são penosos a uma pessoa que o ama verdadeiramente, como era o caso dos apóstolos. [  ]


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Mestre Eckhart – Prega a palavra 9


  1. «Faz esforço em todas as coisas!»
  2. Quer dizer: onde quer que te encontres estabelecido em coisas múltiplas, que não seja no Ser na sua nudez, puro e simples, faz esforço, quer dizer: «Faz esforço em todas as coisas, realiza o teu serviço.»
  3. Isto quer dizer: «Levanta a cabeça!» e tem dois significados.
  4. O primeiro é: Desprende-te de tudo o que é teu e remete-te a Deus, assim Deus torna-se no teu bem próprio como ele é o seu bem próprio e ele é Deus para ti como ele é Deus para ele próprio, e não menos.
  5. O que é meu, eu não o tenho de ninguém, mas se eu o tenho de um outro, não é meu, é dele de quem eu o tenho. 1
  6. O segundo sentido de «Levanta a cabeça!», hei-lo: dirige todas as tuas obras para Deus.
  7. Muitas gentes não compreendem isto.
  8. Eu não fico surpreendido, porque a pessoa que o pode compreender tem de ser muito desprendida e elevada acima de todas as coisas. 2
  9. Que Deus nos ajude para que nós cheguemos a essa perfeição. Amém. 3

Notas
  1. Par terminar o desenvolvimento do seu sermão, Eckhart retira outro texto de S. Paulo na mesma carta (2Tim 4, 5): «Realiza o teu serviço!» isto quer dizer: «Levanta a cabeça!» e tem, por seu turno, dois significados.

    Por um lado: Desprende-te do que é teu: pertence só a Deus e Deus tornar-se-á no teu bem próprio como ele é o seu bem próprio.

    A pequena frase que segue é nalgumas palavras como que o resumo da doutrina eckartiana sobre as relações entre Deus e o ser humano: o ser humano não se pertence, ele pertence a Deus.

    «O que é meu, eu não o tenho de ninguém, mas se eu o tenho de um outro, não é meu, é dele de quem eu o tenho.» [  ]
  2. O segundo sentido de «Levanta a cabeça!», é que é preciso dirigir todas as suas obras para Deus.

    Só há uma condição para o conseguir, sempre a mesma: o desprendimento. [  ]
  3. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 1-30 - Tome I», Éditions du Seuil, Paris, 1974, p. 241-247. [  ]


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Livro da Vida Perfeita - A natureza e a graça


  1. «É preciso, diz-se igualmente, rejeitar e afastar ao mesmo tempo a vida de Cristo e todos os mandamentos, as leis, as instruções e as regras, etc.»
  2. Isso é falso e mentiroso.
  3. «Mas, poder-se-á dizer, visto que nem Cristo nem os outros não podem atingir nem obter nada de útil ao seguirem a vida de Cristo quer pelas instruções, regras, etc., visto que já possuem tudo o que há para atingir nelas, o que os pode impedir de se livrarem delas? Devem eles apesar disso continuar a preocupar-se com elas e a observá-las?»
  4. É preciso estar aqui bem atento. Existem dois tipos de luz: uma luz que é verdadeira e uma outra que é falsa.
  5. A verdadeira luz é a luz eterna - Deus - ou então uma luz criada e portanto divina - a que se chama a «graça». Tudo isto é a luz verdadeira.
  6. Quanto à falsa luz, é a luz natural - a natureza.
  7. «Porque é que uma é verdadeira e a outra falsa?»
  8. Sente-se mais do que se pode escrever ou dizer...
  9. Deus, enquanto Divindade, não tem nada de próprio: nem vontade, nem saber, nem manifestação, nem nada que se possa nomear, dizer ou pensar.
  10. Mas Deus, enquanto Deus, deve conhecer-se, amar-se e manifestar-se a Si próprio em Si próprio - tudo isto em Deus, enquanto essência e não enquanto ação: antes mesmo que exista qualquer criatura. É nesta revelação e nesta manifestação que aparece a distinção das pessoas divinas.
  11. Quando Deus enquanto Deus se torna homem-Deus, quando Ele vive num homem santificado, «qualquer coisa» lhe é própria então que lhe pertence a Ele apenas e não à criatura.
  12. Qualquer coisa que tem nela própria, antes de qualquer criatura, a sua origem e a sua essência, mas não a sua forma e a sua realidade.
  13. E Deus quer que «essa coisa» seja cumprida, porque ela está lá para se realizar e se cumprir.
  14. O que faria ela de outra forma? Se ela ficasse ociosa, para que serviria ela? O que não serve para nada, é vão: nem Deus nem a criatura o querem.
  15. Deus quer portanto que ela se realize e se cumpra.
  16. E isso não se pode produzir sem a criatura. Se não existisse nem isto nem aquilo, se não houvesse nenhuma ação, nenhuma atualidade, nenhuma realidade, etc., que faria Deus? O que seria ele? De quê seria ele Deus?
  17. É preciso parar aqui, e fazer marcha atrás.
  18. Porque, se quiséssemos continuar assim, em breve não saberíamos mais onde estávamos, nem como sair de lá...

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Mestre Eckhart – Mulher, vem a hora



  1. Mulher, vem a hora, e já chegou
  2. Existe na alma uma parte superior acima do tempo
  3. Os verdadeiros adoradores adoram o Pai em espírito e verdade
  4. Quantos adoram um sapato ou uma vaca ou outra criatura
  5. Quem procura Deus para sua própria vantagem, não procura Deus
  6. Quem for tocado pela verdade, justiça e bondade não pode desviar-se delas
  7. O bem tem três ramos: o útil, o deleitável e o honesto
  8. A alma tem dois rostos: o superior contempla Deus, o inferior olha para baixo
  9. Duas potências fluem da parte superior da alma: a vontade e o intelecto
  10. Para conhecer o Pai, é preciso ser o Filho
  11. Deus pode tão pouco passar sem nós, como nós sem ele



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Mestre Eckhart – Mulher, vem a hora 1


Sermão 26 - Mulher, vem a hora
  1. «Mulher, vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade» (Jo 4, 23).
  2. Está escrito no evangelho de S. João.
  3. A esse longo discurso eu retiro uma pequena frase.
  4. Nosso Senhor disse: «Mulher, vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja.» 1

Notas
  1. O texto é o da sexta-feira depois do terceiro domingo da quaresma.

    Pelo seu conteúdo, este sermão 26 está em relação estreita com os sermões 25 e 27.

    É provável também que todos os três sejam próximos uns dos outros no tempo. [  ]


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Mestre Eckhart – Mulher, vem a hora 2


  1. Ora observem a primeira pequena frase que ele pronuncia: «Vem a hora, e já chegou».
  2. Quem quer adorar o Pai deve transportar-se para a eternidade com o seu desejo e a sua confiança.
  3. Existe na alma uma parte superior elevada acima do tempo, que não sabe nada do tempo nem do corpo.
  4. Tudo o que se passou há mil anos, o dia que existiu há mil anos não está mais afastado na eternidade do que esta hora onde eu estou agora; o dia que virá daqui a mil anos, ou tão distante quanto tu consigas contar, não está mais afastado na eternidade do que esta hora onde eu estou agora. 1

Notas
  1. Da longa narrativa do encontro de Jesus com a Samaritana, Eckhart só retira um frase: «Vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja.»

    Imediatamente depois de ter destacado estas palavras, Eckhart dá a sua interpretação: «Quem quer adorar o Pai deve transportar-se para a eternidade com o seu desejo e a sua confiança.»

    Por outras palavras, o ser humano deve viver no instante presente que concentra o passado e o futuro, portanto não fica mais submetido à duração do tempo tal como não está (submetida à duração do tempo) a eternidade.

    É a parte superior da alma que se pode elevar assim acima do tempo. [  ]


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Mestre Eckhart – Mulher, vem a hora 3


  1. Ora ele diz que «os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade»
  2. O que é a verdade?
  3. A verdade é tão nobre que se Deus pudesse afastar-se da verdade, eu apegar-me-ia à verdade e deixaria Deus, porque Deus é a verdade e tudo o que existe no tempo, ou tudo o que Deus alguma vez criou, não é a verdade. 1

Notas
  1. Por uma das suas suposições no impossível, o pregador declara: «A verdade é tão nobre que se Deus pudesse afastar-se da verdade, eu apegar-me-ia à verdade e deixaria Deus, porque Deus é a verdade.»

    Este último membro da frase não parece estar unido logicamente àquele que o precede.

    É preciso portanto reconstruir a frase mentalmente desta forma: porque se Deus, que é a verdade, se afastasse dela, não seria mais Deus. [  ]


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Mestre Eckhart – Mulher, vem a hora 4


  1. Ora ele diz: «eles adoram o Pai».
  2. Ah! quantos são aqueles que adoram um sapato ou uma vaca ou outra criatura e têm grande preocupação com ela; são gentes verdadeiramente insensatas.
  3. Desde que tu adoras Deus tendo em vista a criatura, tu pedes para o teu próprio prejuízo, porque a criatura sendo criatura, ela traz em si amargura e prejuízo, mal e desagrado.
  4. E aí está porque é bem feito para essas gentes quando elas sentem desagrado e amargura.
  5. Porquê? Porque elas pediram por isso. 1

Notas
  1. Tudo o que Deus criou não é a verdade.

    Tema já muitas vezes encontrado: aquele que, pedindo, só tem em vista a criatura, só obtém amargura, porque é tudo o que ela pode dar.

    Pelo contrário, se tu só procuras Deus, encontrarás tudo ao mesmo tempo que encontrares Deus. [  ]


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Mestre Eckhart – Mulher, vem a hora 5


  1. Eu disse às vezes: quem procura Deus e procura qualquer outra coisa ao mesmo tempo que Deus não encontra Deus, mas quem só procura Deus, na verdade, encontra Deus e nunca encontra Deus sozinho, porque tudo o que Deus pode oferecer, ele encontra-o ao mesmo tempo que encontra Deus.
  2. Se tu procuras Deus, e procuras Deus com vista à tua própria vantagem ou à tua própria beatitude, na verdade, tu não procuras Deus.
  3. É por isso que ele diz que os verdadeiros adoradores adoram o Pai e ele di-lo muito acertadamente.
  4. Poder-se-ia dizer a uma pessoa boa: «Porque procuras Deus?» -«Porque é Deus!» «Porque procuras a verdade?» -«Porque é a verdade!» «Porque procuras a justiça?» -«Porque é a justiça!»
  5. Tais pessoas são tais como devem de ser.
  6. Todas as coisas que estão no tempo têm um "porquê".
  7. Se perguntassem a alguém: «Porque comes?» -«Para ter força!» «Porque dormes?» -«Pela mesma razão!»
  8. É assim com todas as coisas que estão no tempo.
  9. Mas uma pessoa boa a quem se perguntasse: «Porque amas Deus?» -«Não sei - por Deus!» «Porque amas a verdade?» -«Pela verdade!» «Porque amas a justiça?» -«Pela justiça!» «Porque amas a bondade?» -«Pela bondade!» «Porque vives?» -«Na verdade, não sei, mas estou contente por viver.» 1

Notas
  1. Uma série de «Porquê?» constitui o desenvolvimento presente.

    Eckhart retoma assim um tema que já tinha esboçado nos sermões 5b e 6.

    Estes «porquê» que se referem ao criado encontram uma resposta naquele que se preocupa com essas questões, mas a pessoa boa, a pessoa interior, a pessoa desprendida a quem perguntassem: «Porque amas Deus?» confessaria a sua ignorância: «Não sei, por Deus.» «Porque amas a verdade ? - Pela verdade.»

    Seria o mesmo para a justiça e a bondade. [  ]


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Mestre Eckhart – Mulher, vem a hora 6


  1. Um mestre diz: Aquele que é tocado uma vez pela verdade, pela justiça e pela bondade não poderia nunca desviar-se delas um instante, mesmo se incorresse em todas as penas do inferno.
  2. Ele diz ainda: Quando uma pessoa é tocada por essas três - pela verdade, pela justiça e pela bondade - é também impossível a essa pessoa afastar-se dessas três tal como é impossível a Deus afastar-se da sua Divindade. 1

Notas
  1. É preciso portanto viver «sem porquê».

    Esta é, por parte de Mestre Eckhart, uma exigência singular não somente moral, mas intelectual.

    Ele executa com o mesmo golpe a ciência, a filosofia, a teologia, toda a metafísica e se ele fosse até às últimas consequências deste «sem porquê», aniquilaria a sua própria investigação doutrinal. [  ]


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Mestre Eckhart – Mulher, vem a hora 7


  1. Um mestre diz que o bem tem três ramos.
  2. O primeiro ramo é o útil, o segundo ramo é o deleitável, o terceiro ramo é o honesto.
  3. É por isso que [Nosso Senhor] diz: «eles adoram o Pai».
  4. Porque é que ele diz «o Pai»?
  5. Se tu procuras o Pai, quer dizer só Deus, tu encontrarás, ao mesmo tempo que Deus, tudo aquilo que ele pode oferecer.
  6. É uma verdade certa, e uma verdade necessária, e uma verdade consignada, e se ela não estivesse escrita, seria contudo verdadeira.
  7. Se Deus tivesse ainda mais, ele não poderia esconder-to, ele deveria revelar-to e ele dá-to.
  8. Eu disse por vezes: ele dá-to, e ele dá-to segundo o modo de um nascimento. 1

Notas
  1. Os três ramos ou subdivisões do bem vieram de Aristóteles a Mestre Eckhart por intermédio de Alberto o Grande ou mais provavelmente de S. Tomás.

    Todos esses bens para os quais tende o ser humano encontram-se em Deus.

    Eis porque o evangelista João diz: «Eles adoram o Pai.»

    Àquele que só o procura a ele, Deus dá tudo o que tem e se tivesse ainda mais, revelá-lo-ia e dá-lo-ia. [  ]


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Mestre Eckhart – Mulher, vem a hora 8


  1. Os mestres dizem que a alma tem dois rostos: o rosto superior contempla Deus todo o tempo, e o rosto inferior olha ligeiramente para baixo e dirige os sentidos.
  2. O rosto superior, que é a parte superior da alma, situa-se na eternidade, não tem nada a ver com o tempo e não sabe nada do tempo nem do corpo.
  3. Eu disse por vezes que nele qualquer coisa está escondida, como uma origem de todo o bem, e como uma luz brilhante que irradia todo o tempo, e como um abrasamento ardente que queima incessantemente, e este abrasamento não é nada mais que o Espírito Santo. 1

Notas
  1. Neste parágrafo, onde parece aos comentadores que o mestre interpretou uma passagem de S. Agostinho sobre a Trindade, Eckhart fala dos dois rostos da alma.

    Pela sua parte inferior, esta tem ainda um contato com os sentidos, com o tempo.

    Pelo contrário, a vernunfticheit (ratio superior), estrangeira ao corpo, é transformada pelo Espírito Santo em luz brilhante, em abrasamento ardente. [  ]


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Mestre Eckhart – Mulher, vem a hora 9


  1. Os mestres dizem que duas potências fluem da parte superior da alma.
  2. Uma chama-se vontade, a outra intelecto, e a perfeição destas potências situa-se na potência superior que se chama intelecto.
  3. Ela não pode nunca encontrar descanso.
  4. Ela não quer Deus segundo ele é o Espírito Santo, segundo ele é o Filho, ela foge do Filho.
  5. Ela também não quer Deus segundo ele é Deus.
  6. Porquê ?
  7. Porque lá ele tem um nome.
  8. E se existissem mil deuses, ela faria incessantemente o seu irromper, ela quere-o lá onde ele não tem nome.
  9. Ela quer qualquer coisa de mais nobre, qualquer coisa de melhor que Deus segundo ele tem um nome.
  10. Que quer ela então ?
  11. Ela não sabe; ela quere-o segundo ele é Pai.
  12. É por isso que S. Filipe diz: «Senhor, mostra-nos o Pai e isso chega-nos.»
  13. Ela quere-o segundo ele é uma medula de onde brota a bondade; ela quere-o segundo ele é um núcleo de onde flui a bondade: ela quere-o segundo ele é uma raiz, uma veia na qual brota a bondade, e lá somente ele é Pai. 1

Notas
  1. Reencontramos aqui o motivo do «irromper» num texto muito bonito: a vernunfticheit «nunca pode encontrar descanso. Ela não quer Deus segundo ele é o Espírito Santo, segundo ele é o Filho, ela foge do Filho... Que quer ela então ? Ela não sabe.»

    Apesar de mestre Eckhart lhe chamar «Pai», aqui também, nós sabemos que ele entende com isso uma outra realidade, «para além» do Deus criador, «para além» do Deus trinitário.

    Este indizível só será designado, desta vez, por imagens e símbolos: medula, núcleo, veia. [  ]


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Mestre Eckhart – Mulher, vem a hora 10


  1. Ora Nosso Senhor diz: «Ninguém conhece o Pai sem ser o Filho, nem o Filho sem ser o Pai.»
  2. Na verdade, se nós devemos conhecer o Pai, é preciso que nós sejamos o Filho.
  3. Eu disse há alguns dias três pequenas frases; tomem-nas como três fortes nozes-moscadas e bebem em seguida.
  4. Primeiramente: Se nós queremos ser filhos, nós devemos ter um pai, porque ninguém pode dizer que é filho a menos que tenha um pai, e ninguém é pai se não tem um filho.
  5. Se o pai morrer, diz-se: «Ele era o meu pai.»
  6. Se o filho morrer, diz-se: «Ele era o meu filho.»
  7. Porque a vida do filho está dentro da vida do pai e a vida do pai está dentro do filho, e é por isso que ninguém pode dizer: «Sou filho» a menos que tenha um pai.
  8. Ora é verdadeiramente Filho a pessoa que realiza todas as suas obras por amor.
  9. Em segundo lugar, tudo o que tinha feito da pessoa um Filho, é a igualdade de alma.
  10. Se ele está doente, que ame tanto estar doente como estar saudável, estar saudável como estar doente.
  11. Se o seu amigo morre - em nome de Deus ! Se um olho lhe for arrancado - em nome de Deus ! 1
  12. Em terceiro lugar, o que um filho deve ter, é o nunca poder inclinar a sua cabeça a não ser sobre o seu pai. 2
  13. Ah! como é nobre, a potência cujo local está acima do tempo e que não tem local !
  14. Porque devido ao facto dela estar acima do tempo, ela encerrou nela todos os tempos e ela é a totalidade do tempo.
  15. Por muito pouco que uma pessoa possuísse daquilo que está acima do tempo, ela tornar-se-ia muito rapidamente rica, porque aquilo que está para lá do mar não está mais afastado dessa potência do que aquilo que está agora presente. 3

Notas
  1. Para conhecer «o Pai», é preciso que nós sejamos «Filho».

    O pregador tira daí as consequências práticas: nós devemos chegar à «glîcheit», igualdade de alma, equivalente à «gelâzenheit».

    Aquilo que se segue, repetindo o que ele disse no sermão precedente, explica-nos suficientemente o que entende por isso: «Se ele está doente... se o seu amigo morre... se o olho lhe é arrancado - em nome de Deus !» [  ]
  2. Uma outra consequência do «irromper», é a do Filho não poder inclinar a cabeça a não ser sobre o seu Pai - sem dúvida reminiscência mais ou menos consciente da atitude de João para com Jesus aquando da última Ceia. [  ]
  3. A «nobre potência» sobre a qual ele ainda diz algo é aquele rosto superior da alma da qual nos falou várias vezes no decurso deste sermão. [  ]


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Mestre Eckhart – Mulher, vem a hora 11


  1. É por isso que ele diz: «Eis aqueles que o Pai procura.»
  2. Vejam, é assim que Deus nos escolhe, é assim que ele nos suplica, e Deus não pode esperar que a alma se afaste e se despoje da criatura.
  3. E é uma verdade certa e uma verdade necessária que Deus tem um tal desejo de nos procurar, como se verdadeiramente toda a sua Divindade dependesse disso, assim como é realmente. 1
  4. E Deus pode tão pouco passar sem nós como nós sem ele, porque mesmo se nós pudéssemos afastar-nos de Deus, Deus nunca poderia desviar-se de nós.
  5. Eu digo que não quero pedir a Deus para que ele me dê, também não quero louvá-lo por aquilo que ele me deu, mas eu quero pedir-lhe que ele me torne digno de receber e eu quero louvá-lo porque o seu ser e a sua essência o obrigam a dar.
  6. Aquele que quisesse privar Deus disso, privá-lo-ia do seu ser próprio e da sua própria vida. 2
  7. Que a verdade, de que eu falei, nos ajude a tornarmo-nos assim verdadeiramente Filho. Amém. 3

Notas
  1. No último parágrafo: «Eis aqueles que o Pai procura», Eckhart exprime-se ainda com mais audácia que previamente: «Deus escolhe-nos… suplica-nos, não pode esperar que a alma se afaste e se despoje da criatura.»

    Assim o quer a sua natureza que é toda bondade.

    «E é uma verdade necessária que Deus tem um tal desejo de nos procurar, como se verdadeiramente toda a sua Divindade dependesse disso...»; «como se...»; o que precede poderia não ser ainda mais que uma conjetura audaz, mas eis para onde aponta o «escândalo»: «assim como é realmente».

    Pode-se no entanto tentar explicá-lo na perspectiva eckhartiana.

    Já tínhamos lido: «Compete ao seu ser gerar o seu Filho na alma...» (Omne datum optimum), lugar comum nele, poder-se-ia dizer.

    «Ele gera-me enquanto ele e ele enquanto eu, e eu enquanto seu ser e sua natureza. Na fonte mais interior eu broto no Espírito Santo; é lá uma vida, um ser, uma operação.» (Iusti vivent in aeternum).

    «A raiz da Divindade, ele exprime-a absolutamente no seu Filho» (Hoc est praeceptum meum).

    E no sermão In diebus suis: «Deus está no fundo da alma com toda a sua Divindade» «Tudo o que Deus opera é um.»

    O nascimento do Filho na alma realiza-se assim no apagamento do Filho e na apropriação da essência divina única.

    O fundo da alma e a Divindade portanto não são mais que um.

    Se Deus fosse privado do fundo da alma, que só é dele no que ela tem de mais nobre, onde ele reside, ele seria portanto privado da sua Divindade. [  ]
  2. Assim, já não é «escandaloso» ler: «Eu não quero pedir a Deus para que ele me dê (desinteresse), mas eu quero pedir-lhe que ele me torne digno de receber (humildade) e eu quero louvá-lo porque o seu ser e a sua essência o obrigam a dar (reconhecimento da sua grandeza, adoração).» «Aquele que quisesse privar Deus disso, privá-lo-ia do seu ser próprio e da sua própria vida» (nova proposição no impossível. Ver também o que é dito acima). [  ]
  3. Esta tradução foi realizada a partir da tradução francesa de Jeanne Ancelet-Hustache, «Maitre Eckhart - Sermons 1-30 - Tome I», Éditions du Seuil, Paris, 1974, p. 216-222. [  ]


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Imitação de Cristo - Que é preciso esconder humildemente as graças que Deus nos faz


  1. Cristo: Meu filho, quando a graça te inspirar movimentos de piedade, é melhor para ti e mais seguro manteres essa graça escondida, não te elevares, falares pouco dela e não exagerares a sua grandeza; mas antes desprezares-te a ti próprio e temeres um favor do qual és indigno.
  2. Não te deves apegar muito a um sentimento que em breve se pode mudar num sentimento contrário.
  3. Quando a graça te é dada, reflete quanto és pobre e miserável sem a graça.
  4. O progresso da vida espiritual não consiste apenas em desfrutar das consolação da graça, mas antes em suportar a privação com humildade, com abnegação, com paciência, por forma a que então não te relaxes no exercício da oração, que não abandones nenhuma das tuas práticas habituais.
  5. Faz, pelo contrário, tudo o que estiver em ti de melhor que puderes, segundo as tuas luzes, e não te negligencies completamente a ti próprio por causa da secura e da angústia que sentes na tua alma.
  6. Porque há muitos que, no tempo da prova, caem rapidamente na impaciência e no desânimo.
  7. No entanto a via do ser humano não está sempre em seu poder.
  8. Compete a Deus consolar e dar quando quer, quanto quer, e a quem quer, como quer, e não mais.
  9. Houve indiscretos que se perderam pela própria graça da devoção, porque quiseram fazer mais do que podiam, não medindo as suas fraquezas, mas seguindo mais a impetuosidade do coração que o julgamento da razão.
  10. E porque eles aspiraram, na sua presunção, a um estado mais elevado do que aquele onde Deus os queria, perderam rapidamente a graça.
  11. Eles tinham colocado a sua residência no céu, e subitamente ficaram pobres e desamparados na sua miséria, afim de que pela humilhação e o desnudamento aprendam a não se elevarem mais sobre as suas próprias asas, mas a refugiarem-se sob as minhas.
  12. Aqueles que ainda são novos e sem experiência nas vias de Deus podem facilmente perder-se e estatelar-se nos escolhos, se não se deixarem conduzir por pessoas prudentes.
  13. Porque se eles querem seguir o seu sentimento em vez de acreditarem na experiência dos outros, o resultado será funesto para eles, se eles se obstinarem sempre no seu próprio sentido.
  14. Raramente aqueles que são sábios aos seus próprios olhos se deixam conduzir humildemente pelos outros.
  15. Vale mais ser humilde, com um espírito e luzes limitadas, que possuir tesouros de ciência e comprazer-se consigo próprio.
  16. Vale mais para ti teres pouco, que muito de que te pudesses orgulhar.
  17. Tem falta de prudência aquele que se entrega completamente à alegria, esquecendo a sua indigência passada, e aquele casto temor do Senhor que faz recear perder a graça recebida.
  18. Também é ter falta de virtude o deixar-se cair num desânimo excessivo no tempo da adversidade e da prova, e o ter pensamentos e sentimentos indignos da confiança que me é devida.
  19. Aquele que, durante a paz, tem demasiada segurança, é frequentemente durante a guerra o mais tímido e o mais cobarde.
  20. Se nunca presumisses nada de ti próprio, saberias permanecer sempre humilde, modelar e regrar os movimentos do teu espírito, tu não cairias tão rapidamente no perigo e no pecado.
  21. É uma prática sábia pensar, durante o fervor, naquilo que acontecerá na privação da luz.
  22. E quando efetivamente tu estiveres privado dela, pensa que ela pode regressar, pensa que eu só a retirei por algum tempo com vista à minha glória e para exercitar a tua vigilância.
  23. Frequentemente uma tal prova é mais útil para ti do que se tudo te sucedesse constantemente segundo os teus desejos.
  24. Porque para julgar o mérito, não se deve olhar se alguém tem muitas visões ou consolações, ou se é hábil na Sagrada Escritura, ou se ocupa um cargo elevado, mas antes se está firmado na verdadeira humildade e cheio da caridade divina; se procura em tudo e sempre unicamente a glória de Deus; se está bem convencido do seu nada; se tem por si próprio um desprezo sincero, e se fica mais alegre com ser desprezado pelos outros e humilhado, que ser honrado por eles.


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Mestre Eckhart – Ave, cheia de graça



  1. Eu te saúdo, cheia de graça, o Senhor está contigo!
  2. É necessário aqui compreender três coisas
  3. Deus prefere nascer espiritualmente de cada alma boa
  4. Nós somos um Filho único que o Pai gerou eternamente
  5. O maior bem que Deus fez ao ser humano foi ter-se incarnado
  6. A operação de todas as criaturas é a de querer dar à luz
  7. A centelha é um "um" único, sem diferença
  8. A Escritura tem tal plenitude que ninguém consegue penetrar
  9. Eu fui eternamente filho de Deus? Sim e não
  10. Todas as coisas são idênticas dentro da Pureza primeira
  11. Como pode o ser humano chegar a constranger Deus?
  12. Deus criou a alma para que ela seja a noiva do seu Filho único
  13. O fim supremo é a treva escondida da eterna Divindade



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Mestre Eckhart – Ave, cheia de graça 1


Sermão 22 - Ave, cheia de graça
  1. Esta frase que eu disse em latim está escrita no santo Evangelho e significa: «Eu te saúdo, cheia de graça, o Senhor está contigo!» 1
  2. O Espírito Santo descerá do alto, do trono mais elevado e virá em ti desde a luz do Pai eterno. 2

Notas
  1. Os sermões 10, 11, 12, 13, 14, 15, e este sermão 22 estão próximos pelo seu teor e pela data na qual foram pronunciados.

    Os reenvios e as alusões que eles contêm parecem indicar que este sermão 22 foi pronunciado antes do 13 e 14 e depois do 12, no mosteiro cisterciense Mariengarten, em Colónia.

    No decurso deste sermão, Mestre Eckhart refere-se àquele outro que ele pregou aos beneditinos do mosteiro dos Santos Macabeus «se não foi em vão que vocês lá estiveram», quer dizer se vocês ouviram e retiveram bem aquilo que eu disse então.

    Toda esta série de sermões teria portanto sido pronunciada em Colónia, e conclui - prudentemente - Josef Quint, os «grandes clérigos» aos quais este sermão faz alusão, seriam os teólogos dominicanos do studium gerale de Colónia. [  ]
  2. O sermão Ave, gratia plena (Lc 1, 28), que pode por vezes parecer difícil, mesmo sibilino, é duma extrema densidade e expõe num resumo magistral vários temas essenciais de Eckhart. [  ]


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Mestre Eckhart – Ave, cheia de graça 2


  1. É necessário aqui compreender três coisas.
  2. Em primeiro lugar: a inferioridade da natureza do anjo.
  3. Em segundo lugar: ele reconhecia-se indigno de nomear a Mãe de Deus.
  4. Em terceiro lugar: ele dirigia-se não somente a ela, mas a uma multidão muito grande: a cada alma boa que deseja Deus. 1

Notas
  1. Das três considerações que inspira ao pregador a saudação do anjo, o essencial é este: ao mesmo tempo que a Maria, o anjo dirige-se a cada alma boa que deseja Deus. [  ]


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Mestre Eckhart – Ave, cheia de graça 3


  1. Eu digo: se Maria não tivesse primeiro concebido espiritualmente Deus, ele nunca teria nascido dela corporalmente.
  2. Uma mulher disse a Nosso Senhor: «Feliz o corpo que te deu à luz.»
  3. Nosso Senhor disse: Não apenas é feliz o corpo que me deu à luz; «muito mais felizes são os que ouvem a Palavra de Deus e lhe obedecem.»
  4. Deus prefere nascer espiritualmente de cada virgem, de cada alma boa, que nascer corporalmente de Maria. 1

Notas
  1. Referindo-se a Lc 11, 27-28 (Feliz o corpo que te deu à luz - Muito mais felizes são os que ouvem a Palavra de Deus e lhe obedecem), Eckhart deduz: foi portanto porque Maria concebeu primeiro espiritualmente Deus que ele lhe permitiu de conceber segundo a carne.

    E, como é o seu costume, Eckhart puxa ao extremo, e até ao paradoxo, a lógica do seu pensamento: Deus prefere nascer espiritualmente de cada alma boa do que nascer corporalmente de Maria. [  ]


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Mestre Eckhart – Ave, cheia de graça 4


  1. É preciso compreender nisso que nós somos um Filho único que o Pai gerou eternamente.
  2. Quando o Pai gerou todas as criaturas, ele gerou-me, eu saí dele junto com todas as criaturas mas no entanto eu fiquei interiormente dentro do Pai.
  3. Da mesma forma que a palavra que eu pronuncio agora brota de mim, em seguida eu reflito na minha ideia, em terceiro lugar eu exprimo-me e vocês todos recebem-na; contudo ela permanece verdadeiramente dentro de mim.
  4. Da mesma forma eu permaneci dentro do Pai.
  5. Dentro do Pai estão as imagens de todas as criaturas.
  6. Esta madeira tem uma imagem intelectual dentro de Deus.
  7. Ela não é apenas intelectual, ela é intelecto puro. 1

Notas
  1. Nós somos portanto um Filho único que o Pai gerou eternamente, pensamento frequente no mestre e que se exprime aqui com um vigor particular.

    O «eu» empregue dá ainda mais intensidade ao discurso: «Eu saí dele junto com todas criaturas mas no entanto eu fiquei interiormente dentro do Pai.»

    A comparação com a palavra humana que nasce dentro do pensamento, que os auditores recebem e que permanece no entanto dentro de mim, encontra-se em vários textos, tanto alemães como latinos.

    O Pai encerra dentro de si as imagens de todas as criaturas, mesmo a madeira da cadeira tem a sua imagem intelectual dentro de Deus. [  ]


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Mestre Eckhart – Ave, cheia de graça 5


  1. O maior bem que Deus alguma vez concedeu ao ser humano, foi ter-se feito homem.
  2. Eu vou-vos contar uma história que convém bem aqui.
  3. Havia um homem rico e uma mulher rica.
  4. A mulher teve um acidente, ela perdeu um olho.
  5. Ela ficou muito aflita.
  6. O homem veio ter com ela e disse: «Senhora, porque estás tão aflita? Não deves estar aflita porque perdeste o teu olho.»
  7. Ela disse: «Senhor, eu não estou aflita por ter perdido o meu olho; eu estou aflita porque me parece que tu me amas menos.»
  8. Ele disse então: «Senhora, eu amo-te.»
  9. Pouco depois ele arrancou a ele próprio um olho, veio ter com a mulher e disse: «Senhora, afim de que tu acredites que eu te amo, tornei-me semelhante a ti; eu também, já só tenho um olho.»
  10. Da mesma forma o ser humano: com dificuldade acreditava que Deus o amava tanto até que finalmente Deus «arrancou a ele próprio um olho» e assumiu a natureza humana. Quer dizer que ele se «fez carne».
  11. Nossa Senhora disse: «Como é que isso vai ser feito?»
  12. O anjo disse: «O Espírito Santo descerá desde o alto em ti», desde o trono mais elevado do Pai da luz eterna. 1

Notas
  1. O mais prodigioso bem que Deus fez ao ser humano foi ter-se incarnado.

    Segue-se a encantadora história que faz passar através dos pensamentos de uma tão alta espiritualidade um sopro muito humano de poesia cortês.

    Eckhart não imaginou todas as partes, mas quem, no seu auditório, sabe que ela é devida a Herrand de Wildonia que viveu no século precedente?

    O papel das personagens aliás está invertido: foi a mulher quem se mutilou para provar o seu amor ao seu cavaleiro.

    Em Eckhart, é o esposo que realiza o sacrifício em homenagem à sua Senhora.

    A alegoria é transparente: trata-se de Cristo e da alma.

    A história agradou tanto a Mestre Eckhart que a retomou no seu comentário sobre S. João.

    Nicolau de Cusa, por seu turno, inspirou-se nela num sermão. [  ]


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Mestre Eckhart – Ave, cheia de graça 6


  1. «In principio.» «Nasceu-nos um menino, foi-nos dado um filho», um menino segundo a pequenez da natureza humana, um Filho segundo a eterna Divindade.
  2. Os mestres dizem: a operação de todas as criaturas é a de querer dar à luz, elas querem ser semelhantes ao pai.
  3. Um outro mestre diz: todas as coisas operantes operam com vista ao seu fim, para encontrarem a sua paz e o seu repouso no seu fim.
  4. Um mestre diz: todas as criaturas operam segundo a sua pureza primeira e a sua perfeição mais elevada.
  5. O fogo enquanto fogo não inflama; ele é tão puro e tão subtil que não inflama; em breve: a natureza do fogo inflama e transfunde na madeira seca a sua natureza e a sua claridade segundo a sua perfeição mais elevada.
  6. Deus fez o mesmo. Criou a alma conforme à sua perfeição mais elevada e verteu nela toda a sua claridade na sua primeira pureza, mas ele permaneceu no entanto sem mistura. 1

Notas
  1. O pregador invoca agora a autoridade dos «mestres» (S. Tomás, e alguns outros?) para provar, graças à sua comparação favorita do fogo e da madeira, que Deus verteu na alma «toda a sua claridade na sua primeira pureza» mas no entanto permaneceu «sem mistura». [  ]


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Mestre Eckhart – Ave, cheia de graça 7


  1. Eu disse recentemente em qualquer lugar que, quando Deus criou todas as criaturas, Deus não tinha previamente dado origem a qualquer coisa incriada que tem em si as imagens de todas as criaturas?
  2. É a centelha - como eu disse anteriormente no Mariengarten - se não foi em vão que vocês lá estiveram - esta pequena centelha é tão aparentada com Deus que ela é um um único sem diferença e que ela tem em si a imagem de todas as criaturas, imagens sem imagens e imagens acima de todas as imagens. 1

Notas
  1. Encontramos aqui a «centelha da alma», um conceito bastante utilizado por Eckhart.

    No entanto é conveniente sublinhar a intensidade com a qual ele a exprime aqui: «ela é um um único, sem diferença». [  ]


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